Folha de S. Paulo
Presidente deve tentar limitar cassino
virtual, com pouco efeito prático imediato
Governo parecia alheio a dívidas e nível de
preços; gestão econômica piorou problemas
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva deve
editar medida provisória a fim de limitar apostas nas "bets". De
prático, talvez renda uns votos para Lula 4. Talvez. Parte do eleitorado
indeciso ou "nem-nem" pode reclamar do gesto tardio ou
considerá-lo oportunista.
Questão interessante, a esta altura talvez acadêmica, é entender a reação tardia do governo e da campanha ao mal-estar do eleitorado em tantos assuntos. Além disso, a mera prudência, pois reflexão profunda não houve, consideraria o risco econômico, político e eleitoral de certas atitudes que Lula 3 adotou desde o início.
No que diz respeito ao impacto popular mais
imediato, o governo não se deu conta de problemas como nível
de preços alto ("está tudo caro", em especial comida), nível
de dívida alto (dada a instabilidade brasileira), risco de taxa de juros ainda mais
alta (por economia aquecida além da conta e dívida pública crescendo sem
limite). Despertou tarde, inclusive para o desastre das "bets",
embora Lula, ele mesmo, sempre tenha sido contrário à jogatina.
Ainda
que agora proíba de vez "bets", a providência não teria efeito
prático tão cedo, que seria limitado, de resto. As estimativas são incertas,
mas 30% a 40% das apostas são ilegais e haveria migração extra do vício para a
banca criminosa. O governo tem tentado caçar a jogatina ilegal, mas a tarefa é
difícil e demorada.
De qualquer modo, a medida provisória
limitaria apenas o cassino virtual —apostas "esportivas"
continuariam. É provável que a limitação seja implementada depois de uns meses
de carência. Isso se a bancada dos tigrões do tigrinho no Congresso não
derrubar a limitação ou se não houver judicialização da coisa. Se a proibição
parcial fosse enfim implementada, seria preciso haver instrumentos melhores de
regulação e controle. A desgraça vai longe.
Em janeiro de 2023, primeiro mês de Lula 3, o
valor dos empréstimos (total de crédito bancário) em relação ao total da renda
"das famílias" era de 49,1%. Baixou a 48% em janeiro de 2024.
Em junho deste 2026, dado mais recente, voltara a 49,8%. O
"endividamento" já era igualmente grande no início do governo, pois.
O serviço da dívida (amortização e juros) baixara a 25,7% em janeiro de 2024;
em junho passado, era de 28,9%, aumento na maior parte devido à alta de juros.
Deixe-se de lado, hoje, o que quer dizer
"endividamento". Era claro em 2023 que havia risco sério, dados esse
nível de dívida recentemente elevado, a instabilidade de juros, de emprego
etc., a pobreza. O governo achou que não haveria alta de juros. Imagina que
pode ter a taxa de juros que quiser, não importa a inflação (e
vice-versa), ou que pode tomar a quantidade de dinheiro emprestada que quiser,
ao custo que quiser. Que não existem choques. Etc.
O governo não percebeu como orçamentos, em
especial o de pobres, estavam apertados pela herança da inflação da epidemia e
pela recuperação insuficiente dos salários, apesar dos ganhos fortes sob Lula
3. Um repique de preços agravaria a situação.
Apenas na semana passada o governo se deu
conta de que o
Bolsa Família tinha sido comido pela inflação. Demorou até a perceber o
sucesso de público da ideia de fim da 6x1.
A consciência dos problemas, "ainda que
à tardinha", e canetadas pré-eleitorais talvez rendam uns votos essenciais
na eleição apertada. Mas governo e governismo estavam alheados da realidade,
mesmo em assuntos socioeconômicos muito elementares.
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