Folha de S. Paulo
Se não houver um debate efetivo de propostas,
senador deve ser eleito em razão do antipetismo enraizado
Caso Lulinha trouxe novamente o tema da
corrupção para o governo e o PT e foi importante elemento de desgaste
As eleições de
2026 ganharam características próprias quando comparadas aos dois pleitos
anteriores entre o petismo e o bolsonarismo.
Em 2018, com Lula preso, a retórica bolsonarista trazia um tom missionário ao exaltar pautas como o combate à corrupção e a defesa de valores morais e religiosos como prioridades, deixando o petismo, recém-saído da Lava Jato, na defensiva. Em 2022, após sucessivos conflitos do governo Jair Bolsonaro com o STF, que desencadearam o receio de uma ruptura institucional, os petistas investiram na construção de uma frente ampla em defesa da democracia, o que parecia enfraquecer o bolsonarismo enquanto grupo político —sobretudo após o episódio de 8 de janeiro.
A agenda eleitoral de 2026 foi sequestrada
por fatores alheios aos comandos das campanhas, como o caso Master, as
investigações sobre Lulinha e os escândalos
do STF, além de questões pontuais relacionadas à Nossa Senhora e à relação
do Brasil com os EUA, entre outras. Nesta disputa, Flávio e Lula não puderam
contar com o tema da corrupção para alimentar a guerra entre eles. Ao
contrário: passaram mais tempo criando narrativas para se defenderem dos
supostos malfeitos que os envolviam diretamente ou que traziam seus familiares
para o centro do debate.
Não houve espaço para propostas sobre o
futuro do país em relação às políticas públicas e, menos ainda, para discutir
as prioridades de governo. Com isso, a decisão do voto neste primeiro turno
parece ter se baseado mais em evitar a eleição de um deles do que em escolher
pelo mérito de cada um. Entretanto, teremos um segundo turno em 20 dias,
período muito curto para levar o eleitor a mudar de posição. Assim, tanto os
estrategistas de Flávio
Bolsonaro quanto os de Lula terão pouco tempo para buscar novos aliados que
possibilitem, no caso do senador, ampliar a votação em 2% a 3% e, no caso do
presidente, alcançar ao menos mais 6%. Um caminho é identificar com quem se
pode contar, sobretudo nos estados mais populosos.
Nesse caso, Flávio sai em grande vantagem. Não haverá segundo turno para governador em dois dos estados mais populosos: São Paulo e Minas Gerais. Em ambos, aliados do bolsonarismo saíram vitoriosos com votações expressivas e certamente terão disponibilidade para uma forte campanha antipetista.
Todavia, Lula poderá contar com Eduardo Paes no Rio de Janeiro. Antes favorito,
Paes chega ao segundo turno em condição de desvantagem e com pouca força para
arregimentar votos para o petista. Nos estados do Sul, o pleito também foi
resolvido no primeiro turno, com o PT sendo derrotado
de forma avassaladora nas disputas para os governos estaduais e o Senado.
Resta a Lula tentar ampliar seu desempenho na
Bahia, em Pernambuco, no Piauí e no Ceará, onde, além de ter eleito
governadores petistas —exceto em Pernambuco—, também teve senadores aliados
eleitos. Entretanto, sem diminuir a diferença no Sul/Sudeste e no
Centro-Oeste/Norte, o esforço pode ser em vão.
O que explicaria o baixo
desempenho de Lula e a súbita arrancada de Flávio Bolsonaro? Um conjunto de
fatos. Primeiro, o caso Lulinha trouxe novamente o tema da corrupção para o
governo e o PT e foi um importante elemento de desgaste, explorado de forma
intensa pelo principal adversário. Assim, afugentou eleitores que haviam
deixado de votar no PT e tinham retomado o voto no partido em 2022.
A recusa em participar do último debate, que
parecia ter pouco impacto eleitoral, acabou também sendo intensamente explorada
por Flávio no exato momento em que a candidatura de Lula começava a se descolar
da de seu adversário no primeiro turno, três dias antes do pleito. Flávio, mesmo
tendo seu nome envolvido diretamente no caso Master e vendo circular
denúncias sobre sua vida íntima, acabou evitando comentar tais casos e viu seu
prestígio eleitoral crescer mais pelo descrédito de seu principal competidor do
que por propostas e méritos de sua atividade pública.
Agora resta saber se Flávio participará de
debates ou se repetirá o que seu competidor fez quando liderava as pesquisas.
Por fim, a sociedade brasileira merece candidatos que tragam propostas para o
país, que digam como querem superar os desafios cotidianos da vida pública e
que falem de futuro. Até o momento, não houve debate nem apresentação de
propostas de maneira que um pudesse se diferenciar do outro.
Ser honesto ou parecer honesto deveria ser
uma obrigação e não uma excepcionalidade. Caso não haja debate efetivo de
propostas, a tendência é que Flávio seja eleito mais pelo antipetismo já
enraizado em diversos grupos sociais do que por seus méritos.
*Cientista político, professor e coordenador do Programa de Mestrado e Doutorado Profissional em Políticas Públicas da FGV/Eaesp

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