Valor Econômico
Avaliação é que Flávio Bolsonaro captou sentimento de mudança dos eleitores e que Lula terá dificuldade para ampliar arco de aliados
A campanha do presidente e candidato à
reeleição Luiz Inácio Lula da Silva (PT) chega ao segundo turno pressionada a
se reinventar nos próximos dias, para tentar garantir um novo mandato petista,
depois de terminar o primeiro turno atrás do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ).
Em sua primeira fala após o resultado, Lula admitiu surpresa e desapontamento,
mas desafiou o parlamentar e disse ser “bom no mata-mata”. Segundo ele, o pilar
da próxima etapa da campanha será investir na “biografia tenebrosa e de ligação
com milicianos” da família Bolsonaro.
“A partir de amanhã, a gente começa uma nova
campanha. Campanha que vai poder mostrar a diferença entre as propostas que
existem para o Brasil”, afirmou Lula em um hotel em São Paulo, de onde
acompanhou a apuração.
“O jogo vai começar, estamos na prorrogação. Vamos convencer o povo brasileiro da importância de continuarmos nosso projeto”, disse.
O resultado deste domingo (4) impôs uma
derrota histórica a Lula no primeiro turno, que desde sua primeira vitória, em
2002, nunca terminou atrás de seus adversários. A equipe do presidente
projetava uma disputa acirrada, mas não calculava um resultado tão
desfavorável. Com 99,38% das urnas apuradas, Lula obteve 45,16% de votos,
contra o senador Flávio, com 47,03%.
Além de bater Lula no primeiro turno, Flávio
viu seu partido, o PL, eleger 19 senadores pelo país, enquanto o PT, apenas 6.
A poucas horas do fim da votação, o clima de
indefinição tomou o entorno do presidente, que passou a olhar com pessimismo a
disputa e cogitou uma derrota já no primeiro turno. Agora, porém, parte da
equipe política da campanha vê um teto na reinvenção que pode ser feita a Lula
nas próximas três semanas, e auxiliares já falam sobre uma eventual derrota no
segundo turno, no dia 25.
Integrantes da campanha dizem que a equipe
precisa se “reinventar” e começar “do zero” na disputa do segundo turno. “Temos
que ir para o pau”, disse um interlocutor. A campanha deve começar nesta
segunda-feira (5) a rever toda sua estratégia e mudar os rumos do debate, com
mais ataques à biografia de Flávio e ao governo do ex-presidente Jair Bolsonaro
(PL).
Lula deve se reunir nesta segunda com
ministros, candidatos e equipe para reorganizar a casa. Além disso, devem expor
o petista mais à mídia, colocando-o para ir a debates e se aproximar do povo.
O presidente acompanhou a apuração ao lado do
vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB), do ministro da Secretaria de Comunicação
Social (Secom), Sidônio Palmeira, da ex-presidente Dilma Rousseff, ministros e
do comando de sua candidatura, como o presidente nacional do PT e coordenador
da campanha Edinho Silva. Edinho e Sidônio acompanharam lado a lado e colados a
uma televisão a contagem de votos. Fernando Haddad (PT), que disputou o governo
de São Paulo, mas perdeu para Tarcísio de Freitas (Republicanos), compareceu ao
final da apuração.
Na declaração no final da noite, Lula elogiou
Haddad e disse que o momento do ex-ministro da Fazenda “chegará”. “Um dia você
vai mostrar que se um dia você conseguir governar este Estado ou o país, vamos
dar um salto de qualidade”, disse. Haddad é o favorito para suceder Lula.
O bom desempenho de Flávio nas urnas é visto
pela campanha de Lula mais como uma resposta a um “sentimento anti-PT” e
“antissistema” do que o apoio dos eleitores às propostas do senador do PL. Na
avaliação de Edinho, o principal desafio para Lula nestas eleições é enfrentar
o sentimento de mudança, que foi catalisado pela candidatura de Flávio.
Analistas têm dito que a candidatura de Lula
teve um forte desgaste por conta da revelação das mensagens suspeitas do
ex-banqueiro Daniel Vorcaro ao ministro do STF Alexandre de Moraes - visto como
um dos ministros identificados com Lula. O senador petista Jaques Wagner também
teve reveladas ligações com o grupo de Voracaro durante o primeiro turno. Outro
ponto de desgaste foram as suspeitas de ligação de seu filho mais velho com o
escândalo do INSS.
Aliados dizem que não será fácil Lula se
colocar como mudança ao disputar seu quarto mandato
A equipe de Lula teme que haja uma espécie de
teto para o avanço do presidente no segundo turno. Aliados afirmam que não será
fácil para ele se apresentar como “mudança” ao disputar seu quarto mandato - e
o sexto mandato do PT na Presidência.
O cenário do segundo turno será ainda mais
desafiador para Lula. A campanha terá obstáculos para ampliar os aliados e
palanques. Os candidatos “nanicos” como Augusto Cury (Avante), Renan Santos
(Missão), Romeu Zema (Novo) e Ronaldo Caiado (PSD) tendem a apoiar Flávio ou
declarar neutralidade. Na avaliação interna do PT, por conta disso, a busca por
novos apoios e votos será limitada. Em 2022, Lula recebeu no segundo turno o
apoio da então presidenciável do MDB, Simone Tebet e do PDT, do então
presidenciável Ciro Gomes.
Neste ano, contudo, Lula não terá em seu
palanque outros ex-presidenciáveis. Zema já informou que vai declarar apoio a
Flávio. Partidos do Centrão, como Republicanos, União Brasil, Progressistas,
que resistiram em apoiar Flávio por conta de alianças regionais, ainda não
fecharam questão, mas parte deles defende que se aglutinem em torno do
candidato do PL. A campanha petista começou uma empreitada há algumas semanas
em busca da neutralidade dessas legendas.
A campanha de Lula tem dito que buscará parte
do MDB e do PSD, mas dificilmente conseguirá ampliar para além dos setores
desses partidos que já recebeu apoio no primeiro turno. A avaliação é que o
petista já conseguiu unir o campo progressista e parte da centro-direita na
primeira etapa, e pode ter atingido seu limite.
Outra questão será a desmobilização da
militância em grandes colégios eleitorais, como São Paulo, Ceará, Pernambuco,
Minas Gerais e Bahia, onde a eleição estadual foi resolvida no primeiro turno.
Sem um candidato forte para servir de palanque em parte dos Estados e sem a
campanha feita nas ruas por um exército de candidatos a deputado e senador, a
equipe petista terá dificuldades para ampliar os aliados nos entes da federação
e para pedir a apoiadores para defenderem sua gestão. O PT não projetava perder
com uma grande quantidade de votos em São Paulo e Minas Gerais, essenciais para
uma vitória no segundo turno.
No comando da máquina pública, Lula também
terá pouco espaço para novos anúncios, sem comprometer ainda mais o Orçamento.
Até antes do primeiro turno, o governo federal intensificou o lançamento de
ações populares, como o reajuste em 15% do Bolsa Família; versões do programa
Desenrola, para renegociar a dívida da população; o fornecimento de canetas
emagrecedoras no SUS; medidas para conter o preço de combustíveis, e ações como
o Vale Gás.
Mesmo com o pacote de bondades, que já
mobilizou quase R$ 200 bilhões, a desaprovação do governo continua maior do que
a aprovação, assim como a avaliação negativa da gestão é maior do que a
positiva, segundo as pesquisas mais recentes do Datafolha e Quaest. No
levantamento do Datafolha do sábado, a desaprovação é de 49% e a aprovação, de
48%. Em geral, candidatos que conseguem se reeleger têm uma aprovação maior do
que a desaprovação.
Medidas que eram apostas do governo para
ampliar a popularidade, como a isenção do imposto de renda para quem ganha até
R$ 5 mil mensais e o Desenrola, pouco mudaram a percepção do eleitor sobre a
gestão, sobretudo na área econômica - o que gerou forte incômodo no presidente.
O cenário de segundo turno registrado pelas
pesquisas divulgadas na véspera do primeiro turno também é outro ponto de
preocupação da campanha petista. Lula e Flávio estão empatados no segundo turno
nos levantamentos. No Datafolha, o presidente aparece com 47% contra o senador,
com 46%. Já na Quaest, o filho de Jair Bolsonaro aparece numericamente à
frente, com 44% a 42% do petista, apesar do empate técnico, dentro da margem de
erro, de dois pontos percentuais para mais ou para menos.
A pressão por mudança nos rumos da campanha
de Lula já aumentou, mesmo antes do fim do primeiro turno. Dirigentes petistas
têm se queixado que o presidente precisa apresentar propostas para o quarto
mandato e “mobilizar sonhos e esperança” dos eleitores, e parar de falar do
passado e das ações de seus outros dois governos (2003-2010).
Em sua última disputa presidencial, prestes a
completar 81 anos, Lula quis reforçar as marcas de seus governos, destacar sua
trajetória e também contar sobre suas ações aos mais jovens. No entanto, ao
olhar para o retrovisor, deixou de apontar para o futuro, segundo integrantes
da campanha do presidente. Mesmo sendo aconselhado por seus auxiliares, a
campanha admite que Lula está cada vez mais resistente a ouvir conselhos e,
dessa forma, reajustar o rumo da campanha.
Uma das críticas é que, enquanto Lula investe
tempo e energia pregando sobre “terras raras”, “minerais críticos” e
“soberania”, que estão distantes do entendimento da maioria da população,
Flávio está gravando propagandas dentro do supermercado para falar do aumento
do preço dos alimentos e do custo de vida do país, em uma linguagem mais
acessível e próxima da população.
Ao avaliar o resultado, o cientista político
Carlos Melo, professor do Insper, em São Paulo, afirmou: “Essa eleição expressa
todo o desastre político-institucional de 2026. Todos os escândalos, todos os
desacertos de importantes instituições como o Supremo e o Congresso. E também
me parece ser uma resposta a uma certa soberba do governo em acreditar que no
final das contas tudo se resolveria de maneira positiva para eles. E o que se
viu é que não é bem assim”.
Se em 2022 Lula prometeu a “picanha e
cerveja” para os trabalhadores, como forma de projetar um aumento no poder de
compra, agora o presidente não só não conseguiu garantir uma renda maior aos
trabalhadores como não apresenta, em um horizonte curto, perspectivas de
melhora na economia, com salários mais altos.
A renda média do trabalhador com Lula é maior
do que a registrada no governo de Bolsonaro. No entanto, ainda não retomou o
nível pré-pandemia, nem o que foi registrado pelo presidente em suas outras duas
gestões.
Na reta final do primeiro turno, Lula
anunciou o fim das “bets” e o avanço da proposta de fim da jornada 6x1 no
Senado. As medidas, apesar de serem para um eventual quarto mandato, não foram
suficientes para atrair uma parcela expressiva de eleitores.
Nas últimas semanas, fontes do PT passaram a dizer que o partido “acordou” para uma forma de comunicação mais eficiente, e passou a atacar Flávio. No segundo turno, a campanha petista deve intensificar os ataques contra Flávio.

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