segunda-feira, 5 de outubro de 2026

Tsunami da direita nos estados tem método, por Vanessa Elias de Oliveira

Vanessa Elias de OliveiraFolha de S. Paulo

Discurso antissistema de outrora se contrapõe aos vencedores, com larga experiência administrativa

Questão da segurança pública se mostrou decisiva nas escolhas do eleitorado, além da atuação política do Judiciário

Pesquisa Datafolha mostrou que 73% dos entrevistados consideram a democracia melhor do que outras formas de governo. Esse dado deve ser observado ao analisarmos o resultado das eleições estaduais, sobretudo sob dois aspectos.

O primeiro é um paradoxo. O discurso antissistema, ainda presente no debate público, se contrapõe ao que saiu das urnas: o eleitor recompensou justamente os políticos mais experientes, "do sistema". Do Executivo, 11 governadores em exercício e 5 ex-prefeitos foram eleitos. Entre os políticos com experiência legislativa, foram 3 senadores, 1 deputado federal e 1 deputado estadual. Juntos, somam os 21 governadores eleitos em primeiro turno.

O mesmo vale para o Senado: entre os 54 eleitos, há 14 senadores, 19 deputados federais, 1 deputado estadual, 6 ex-governadores e 3 ex-prefeitos. A experiência na política, portanto, foi valorizada pelo eleitor brasileiro.

Em segundo lugar, a eleição nos estados mostrou que a direita é a grande vitoriosa. E parte disso se explica pela ressonância da narrativa de que o Brasil vive "uma quase ditadura", expressa tanto na atuação política do Judiciário quanto na política pública de segurança. No caso do Judiciário, pesquisas da AtlasIntel mostravam que 45% do eleitorado dizia viver sob uma "ditadura do Judiciário" em 2025. Em setembro de 2026, a desconfiança no STF chegou a 60%. A atuação da corte, percebida como política por parte do eleitorado, e os escândalos envolvendo seus ministros nas últimas semanas, contribuíram para reforçar esse discurso.

A questão da segurança, por sua vez, desponta como um dos temas de políticas públicas que mais aparecem nas pesquisas sobre os principais problemas do país, apontada por 19% dos entrevistados pelo Datafolha em março de 2026, próxima da campeã saúde (21%). Em maio deste ano, 16% dos entrevistados apontavam esta como a pior área do governo Lula; não por acaso essa foi uma das pautas da campanha de Flávio Bolsonaro, sob o argumento de que a presença das facções criminosas cerceia a liberdade dos cidadãos.

Nesse contexto, a vitória da direita nos estados foi acachapante. No cômputo final, teremos a partir de 2027 12 governadores de direita e centro-direita versus 3 de esquerda e centro-esquerda, além de 6 de centro (AP, GO, MA, PE, SE e PA). No caso do Senado, o mesmo padrão se repete: dos 54 eleitos, são 32 de direita e centro-direita e apenas 11 de esquerda e centro-esquerda, além de 11 de centro.

Em São Paulo, a vitória expressiva e pouco comum do governador Tarcísio de Freitas já no primeiro turno, somada às duas vagas da direita para o Senado, deixa claro o desafio que a esquerda terá de enfrentar na próxima eleição. Seguindo a onda de governos de direita na América Latina, o mesmo padrão se repetiu no nível subnacional no Brasil. Como a pesquisa Datafolha já demonstrou, em julho de 2026, 44% dos eleitores se identificavam como sendo de direita ou centro-direita e 39% como de esquerda ou centro-esquerda. É a primeira vez, desde 2014, que a direita aparece à frente da esquerda nessa série histórica.

E, face aos resultados das eleições estaduais, seja para governadores ou para senadores, o desafio para a esquerda alterar este quadro no futuro é grande —independentemente do resultado do segundo turno para a Presidência da República.

*Doutora em ciência política (USP), é professora associada de Ciência Política da UFABC e é uma das vice-presidentes da International Political Science Association (IPSA); ex-presidente da Associação Brasileira de Ciência Política (2022-24)

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