terça-feira, 10 de agosto de 2010

Sem verba, Gabeira usará estúdio caseiro

DEU EM O GLOBO

Candidato ao governo do Rio diz que PSDB não honrou promessa de socorrer financeiramente sua campanha

Flávio Freire e Henrique Gomes Batista

SÃO PAULO e RIO. Procurando driblar a escassez de recursos na campanha, o candidato do PV ao governo do Rio, Fernando Gabeira, procura soluções caseiras para levar adiante a candidatura, principalmente para o horário eleitoral gratuito na TV. Sem dinheiro para alugar estúdios, o comando de campanha recorreu aos amigos para que cedam suas casas.

Até o escritório do deputado, na Rua Alice, em Laranjeiras, servirá de locação.

Não vou usar minha casa porque é pequena, mas o escritório é bem cinematográfico. Estamos acertando com amigos para usar suas casas disse ele, antes de embarcar para São Paulo, onde encontraria, à noite, a coordenação da campanha.

Na semana passada, o verde admitiu que o PSDB havia prometido socorrer financeiramente sua campanha. Até ontem, segundo ele, os tucanos não tinham honrado o compromisso.

Gabeira seguiu para São Paulo ao lado do deputado tucano Márcio Fortes, um dos coordenadores da campanha do presidenciável José Serra.

Já avisei (aos marqueteiros) que não temos dinheiro, que vai ter de ser algo simples.

Mas vamos fazer campanha acrescentou Gabeira.

Perguntado se iria a São Paulo pedir recursos ao PV para sua campanha, ele disse: Não, prefiro que a Marina (Silva, presidenciável) use o dinheiro na campanha dela O verde afirmou ontem que a solução para a violência no Complexo do Alemão é mais difícil que em outras favelas já ocupadas com Unidades de Polícia Pacificadora (as UPPs). Segundo ele, é preciso um trabalho de inteligência para minimizar os danos à população num enfrentamento com criminosos: Temos que ter inteligência para minimizar os danos do confronto.

No domingo, o programa Fantástico, da Rede Globo, mostrou que o traficante Eliseu Felício, condenado pela morte do jornalista Tim Lopes, circulava por ruas da favela, além de vender drogas ao lado de um canteiro de obras do Programa de Aceleração do Crescimento.

Ele falou ainda que o vídeo postado no YouTube onde Sérgio Cabral chama um jovem de otário é autoexplicativo: O vídeo é bastante constrangedor até mesmo para os adversários políticos de Cabral.

Gabeira viajou de metrô, ontem de manhã, da Pavuna à Estação Carioca. Viu trens superlotados e ouviu muita reclamação de passageiros, que viajam até mais de um hora em pé: Precisamos de mais carros e diminuir o tempo entre os trens.

Ele afirmou que a situação do transporte piorou desde 2008, quando fez o mesmo percurso na campanha à prefeitura.

'Graças a Deus os bancos estão ganhando dinheiro', afirma Lula

DEU EM O GLOBO

Presidente afirma que lucros evitam prejuízos aos cofres públicos

Tatiana Farah

SÃO PAULO. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva defendeu ontem a alta lucratividade dos bancos no Brasil. Ao lado do presidente de El Salvador, Mauricio Funes, casado com a petista brasileira Vanda Pignato, Lula disse agradecer a Deus pelos lucros bancários, atestada pelos balanços recentes das instituições tanto públicas quanto privadas.

É uma alegria imensa ver que está todo mundo se acertando, todo mundo ganhando um pouco. Graças a Deus os bancos estão ganhando dinheiro, porque, quando eles não ganham dinheiro, eles dão mais prejuízo disse Lula, citando o grupo americano Lehman Brothers, que faliu na crise financeira mundial de 2008: Se não tivesse quebrado e tivesse tido um lucrozinho, não tinha levado quase US$ 700 bilhões do Estado.

Todo mundo se lembra da quebradeira dos bancos Depois de participar de encontro com empresários, Lula aproveitou para criticar os governos anteriores: Todo mundo se lembra da quebradeira dos bancos brasileiros e o prejuízo que eles deram aos cofres públicos. Então, quero que eles tenham lucro e não prejuízo. Por isso eu fico feliz.

Depois de participar de encontro com empresários salvadorenhos e brasileiros, na sede da Fiesp, o presidente disse estar feliz com a divulgação da pesquisa Focus pelo Banco Central, ontem de manhã, que projetou juros e inflação menores até o fim do ano.

Eu fico feliz com a última pesquisa Focus porque é o que eu quero: menos inflação, menos juros, mais emprego, mais salário, mais renda para todo mundo. Eu e todo mundo desejamos isso.

Lula também comentou o acordo firmado ontem entre o Banco do Brasil e o Bradesco com o BES (Banco Espírito Santo), de Portugal, para negócios na África.

Fiquei feliz com o acordo que o Banco do Brasil fez com o Bradesco e com o Banco Espírito Santo. Todo mundo sabe que é um desejo meu e que eu venho trabalhando para que os bancos brasileiros, não apenas os bancos públicos, mas os bancos privados, adentrem para a América do Sul, América Latina e África. Temos pretensões de ir para outros lugares, para que a gente tenha uma presença maior. O Brasil tem uma balança comercial razoável e a ida de um banco para lá vai facilitar a vida dos brasileiros que moram lá (na África), dos nossos exportadores, dos nossos importadores.

Lula também elogiou o acordo da Caixa com a Elo para gerir cartões de crédito.

Fico feliz com a Caixa também porque 15 ou 20 anos atrás esses bancos (públicos) só apareciam nos jornais como bancos deficitários, e hoje eles estão tendo lucro.

Lula defende cooperação na América Latina No encontro com os salvadorenhos, Lula defendeu a cooperação comercial entre os países da América Latina, incluindo o México. Para ele, é importante que o México seja parceiro, em vez de sermos inimigos.

O Brasil não ficará mais rico, se os vizinhos ficarem mais pobres. O Brasil ficará mais rico, se os vizinhos ficarem mais ricos.

Ele também defendeu que o Brasil construa uma linha de transmissão de energia elétrica no Paraguai, país visitado pelo presidente há cerca de dez dias.

Como é que você vai convencer o povo paraguaio de que o acordo é justo? perguntou ele, referindo-se ao acordo bilateral entre Brasil e Paraguai na hidrelétrica de Itaipu e falando que em Assunção há muito apagões.

Embora tenha pregado cooperação, Lula aproveitou o discurso para provocar os Estados Unidos na questão do etanol. Os americanos fabricam o produto a partir do milho, enquanto o Brasil usa a cana-de-açúcar.

Quem gosta de milho é frango brincou, provocando risos dos empresários.

O que pensa a mídia

Editoriais dos principais jornais do Brasil
Clique o link abaixo

Villa Lobos - Bachiana nº 5 - Amel Brahim

MAU DESPERTAR:: Ferreira Gullar

Saio do sono como
de uma batalha
travada em
lugar algum

Não sei na madrugada
se estou ferido
se o corpo
tenho
riscado
de hematomas

Zonzo lavo
na pia
os olhos donde
ainda escorre
uns restos de treva.


(agosto 1977)

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Ventos do sudoeste:: Luiz Werneck Vianna

DEU NO VALOR ECONÔMICO

Não se perde por esperar porque, lá longe, já sopra um vento sudoeste, e isso, como sempre se soube, é sinal de chuva grossa. A bonança dessa sucessão é de mau agouro, pois mantém a atenção descuidada do que vem por aí, uma vez que ela não corresponde a um estado de coisas realmente existente, e sim à crença que ultimamente se alastrou entre nós, de que atingimos, nestes 16 anos de PSDB e de PT, o ponto ótimo, e final, da história do Brasil.

Confiante nela, a sociedade se entrega ao curso dos acontecimentos, embalada pelo canto de sereia dos êxitos econômicos, pela pujança do seu agronegócio, pela presença afirmativa no cenário internacional e pela estabilidade política e financeira, certa de que, agora, navega no rumo certo. Nesse diapasão, a palavra de ordem não poderia ser outra senão a de continuar, e, uma vez que a política é sempre o terreno da controvérsia e da exploração de outros mundos possíveis, não haveria lugar para ela em meio a tantas certezas, devendo ceder lugar à administração, arte da qual se espera aperfeiçoar o que aí está.

Contudo, é do próprio processo dessa sucessão presidencial que vem os avisos de desvios de rota, mesmo que se possa desconfiar de que eles sejam meramente parte de uma estratégia eleitoral de setores, que no interior do governo, patrocinam a candidatura situacionista. Pois é deles que têm partido a sinalização para uma forma de capitalismo de Estado orientada para objetivos grão-burgueses de grandeza nacional, associando o empresariado, por meio do financiamento estatal, aos seus propósitos. Trata-se da situação clássica de "exasperar, por meio de recursos políticos, a conquista de fins econômicos", tendente, também classicamente, a realizar uma fusão entre essas duas dimensões.

No caso desse empreendimento vingar, decerto que se introduzem importantes elementos de mutação na experiência de social-democracia no país, em uma deriva potencialmente autoritária, na medida em que a sociedade passará a ser objeto passivo de uma tecnocracia de estilo messiânico que traz para si a representação do projeto de nação. Tal processo pode ser ainda mais insidioso se persistem as tendências atuais de estatalização dos sindicatos - do que a recente legislação sobre as centrais sindicais é um sintoma -, dos movimentos sociais e da política assistencialista, cuja inspiração, não custa nada lembrar, é de cepa neoliberal.

Contudo, esse eixo, melhor identificado em grandes personagens da cena atual, como Samuel Pinheiro Guimarães, Nelson Jobim e Mangabeira Unger, não reina solitário. Em outra ponta, o eixo Antonio Palocci-Henrique Meirelles representa tendência oposta, contínua, em seus fundamentos, ao ciclo de dezesseis anos de governos do PSDB e do PT, mais pragmática e refratária a uma estreita vinculação entre política e economia.

A competição entre esses eixos ainda não é aberta, ambos empenhados na candidatura situacionista, que, na eventualidade de uma vitória, deverá fazer sua opção. Um deles sairá perdedor, restando sempre a possibilidade de um compromisso entre eles, tal como vem ocorrendo nesses últimos anos do governo Lula. Esse compromisso se apresenta, desde já, como difícil, não só porque o pêndulo, nos últimos tempos, se deslocou em sentido favorável a uma forma qualquer de capitalismo de Estado, pela biografia da candidata Dilma - em toda sua carreira, uma personagem da administração pública - e, sobretudo, pela falta de Lula, que fez da composição de contrários a sua marca como homem de Estado e, nessa arte, ao que parece, não formou discípulos à altura.

A disputa entre eles, em um eventual governo Dilma, não deve ficar retida nos quadros palacianos, cada qual procurando escoras em organizações e movimentos da sociedade civil, abrindo um debate público em torno de questões programáticas, que, pela sua própria natureza, estimulam a mobilização social.

Ainda na hipótese de uma vitória de Dilma, outro componente novo será a da posição do PMDB, que contará com a vice-presidência, governadores de Estados, ministérios e uma expressiva bancada congressual, que, diante de uma divisão por motivos programáticos no interior do PT e do governo, pode vir a se comportar com orientação própria, ora vetando políticas, ora impondo outras, e já visando a sucessão de 2014, no interior da coalizão governamental. O dissenso em cima deve afrouxar a capacidade de hoje do Estado de controlar os movimentos sociais, que assim poderão interromper o quietismo em que estão imersos.

Em outra perspectiva, se vencer o candidato Serra, é de se aguardar uma forte oposição por parte de movimentos sociais, especialmente daqueles que foram trazidos pelo atual governo para o interior e proximidades do aparato estatal, e que devem perder essas posições. A sombra de Lula, no ostracismo de São Bernardo, pode vir a assombrar o seu governo, como a de Getúlio, em São Borja, assombrou o de Dutra. O capitalismo de Estado no seu governo não será certamente uma alternativa de política, mas sua linhagem de formação intelectual de estilo keynesiano, mas promete, porém, uma forte presença estatal na condução da economia, até preservando quadros da atual administração.

Assim, por fas ou por nefas, é a política que deve voltar, encerrando esse longo período melancólico em que só se falou da administração das coisas. Mais uma vez, constata-se o papel das sucessões presidenciais na liberação de energias novas, o que ocorreu mesmo no regime militar, que, aliás, acabou em uma delas.


Luiz Werneck Vianna é professor-pesquisador do Iuperj e ex-presidente da Anpocs. Escreve às segundas-feiras

Flucht nach vorne:: Ricardo Noblat

DEU EM O GLOBO

"Quando ela veio para a Casa Civil, percebi que estava diante de um animal político não trabalhado." (Lula sobre Dilma)

A expressão alemã acima significa fuga para frente. Cercado, você ataca e seja o que Deus quiser. Pisa fundo no acelerador do carro como fez diante do abismo a dupla do filme Thelma e Louise. Ou então enfia o pé na jaca como parece preferir o vice-presidente José Alencar no caso da suposta filha de 55 anos que teve fora do casamento.

Alencar responde desde 2001 a processo de investigação de paternidade na Vara Civil de Caratinga, Minas Gerais. Ali quando era rapaz conheceu Francisca Nicolino de Morais, de apelido Tita, uma enfermeira de 26 anos, e com ela manteve um relacionamento amoroso entre 1953 e 1955.

Segundo testemunhas ouvidas pelo juiz José Antônio Cordeiro, os dois se viram pela primeira vez nas dependências do Clube Municipal da cidade. Passaram então a se encontrar em média três vezes por semana. E às quartas-feiras dormiam juntos na casa de Tita. O namoro era público.

Aos sábados, o casal podia ser encontrado no clube ou no Bar do Geraldo Pereira. Aos domingos, no Bar da Zica. Alencar chegou a pagar o aluguel da casa de Tita e ajudou-a com outras despesas. Até que Tita engravidou e deu à luz a Rosemary em 1955. O relacionamento acabou. Ao completar 42 anos, Rosemary soube quem seria seu pai.

Ela aproveitou uma visita de Alencar a Caratinga em 1998 para dizer-lhe que era sua filha. Na ocasião, Alencar teria comentado que resolveria tudo. Não o fez. Rosemary foi à Justiça e pediu para ser reconhecida como filha dele. Uma vez aberto o processo, os advogados de Alencar tentaram extingui-lo por meio de sucessivos recursos.

Ouvido em juízo, Alencar negou ter tido qualquer relacionamento com Tita e acusou-a de freqüentar a zona do meretrício de Caratinga. Como profissional, oferecia-se a quem a pagasse por seus préstimos, disse. Ao comentar o caso em Programa do Jô da semana passada, insistiu Alencar: Todo mundo que foi à zona pode ser pai.

Por duas vezes, o juiz Antônio Cordeiro determinou que Alencar se submetesse a exame de DNA. Em vão. A Jô, Alencar insinuou também que está sendo vítima de chantagem econômica e garantiu que o exame de DNA não é 100% seguro. De fato, não é. A margem de acerto do exame é de apenas 99%.

Diz o artigo 2 da Lei 8.560/90: Na ação de investigação de paternidade, todos os meios legais, bem como os moralmente legítimos, serão hábeis para provar a verdade dos fatos. A recusa do réu em se submeter ao exame de código genético DNA gerará a presunção da paternidade, a ser apreciada em conjunto com o contexto probatório.

Com base na recusa de Alencar em fazer o exame de DNA, no conjunto de provas recolhidas e em jurisprudência consolidada do Tribunal de Justiça de Minas Gerais, o juiz decidiu em 21 de julho passado que a investigante passe a se chamar Rosemary de Morais Gomes da Silva, filha de José Alencar Gomes da Silva.

O delicado estado de saúde de Alencar, que luta há 13 anos contra um câncer, não lhe confere imunidade para agredir grosseiramente o bom senso. Se permanece apto a assumir a Presidência da República na ausência do seu titular era de se imaginar que conservasse intacta sua capacidade de avaliar bem os fatos.

Fernando Collor, Orestes Quércia e Michel Temer, por exemplo, são políticos que reconheceram filhos de relações extraconjugais. Paulo Maluf fez questão de se submeter a um exame de DNA para provar que não era pai de uma menina de nove anos. E provou. Fernando Henrique Cardoso é um caso à parte.

Teve um filho com a jornalista Miriam Dutra pouco antes de se eleger presidente. Os dois sempre negaram que Tomas fosse filho de quem é. Mas Fernando Henrique ajudou a sustentar o filho, recebeu-o várias vezes no Palácio do Planalto, visitou-o na Europa e assumiu-o como tal depois da morte de dona Ruth, sua mulher.

Alencar não é bronco. Mas esse episódio fez emergir uma face dele até aqui desconhecida rude e mesquinha.

O debate e o nocaute :: José Roberto de Toledo

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

É possível medir com precisão o desempenho dos candidatos em um debate eleitoral? Enquetes, a régua tradicional, são contaminadas pela preferência dos eleitores por um presidenciável ou outro. Uma alternativa é contar quanto cada debatedor falou, o que disse, como disse e a quem se dirigiu.

Dilma Rousseff (PT) e José Serra (PSDB) falaram quase o dobro do que Marina Silva (PV) e Plínio de Arruda Sampaio (PSOL) durante o debate da Band. Porque fizeram um embate particular: o tucano interpelou a petista três vezes, e foi indagado em duas oportunidades por ela. Marina e Plínio só responderam, cada um, a uma pergunta de seus rivais.Dilma e Serra criaram mais chances para aparecer. Mas não de convencer. Como o sucesso do Twitter e seu limite de 140 caracteres mostram, moderar o discurso é melhor do que falar pelos cotovelos. Plínio foi o que menos falou, mas acabou como o mais falado. Exposição demais para quem se expressa mal é castigo.

Mais do que qualquer outro presidenciável, Dilma respondeu a seis perguntas de adversários e a duas de jornalistas durante o debate, fora suas réplicas, tréplicas e considerações finais. Inexperiente, ela gaguejou, perdeu o fôlego, olhou para a câmera errada, estourou o tempo das respostas.

Dos quatro, foi quem mais empregou palavras longas ("oligopolizados", "acessibilidade", "prioritariamente"), usou termos técnicos ("bioma", "política estruturante") e abusou das siglas: UPPs, UPAs, SUS, Samu. Teve uma recaída da mania por cifras: falou "milhões" 12 vezes, e 4 vezes "mil", mais do que seus três adversários somados.

Até as considerações finais, Dilma pronunciou 2.100 palavras, mas conseguiu a proeza de citar Lula apenas três vezes. E só a partir do terceiro bloco. Esquecimento ou tentativa de parecer independente? A primeira hipótese é mais lisonjeira para a petista.

Aplicada, Dilma abordou temas que as pesquisas mostram que os eleitores querem ouvir. Foi quem mais mencionou educação/ensino/escola. Também tentou falar de trabalho e emprego, um dos pontos altos do governo Lula, mas acabou arrastada por Serra para uma discussão interminável sobre mutirões, cirurgias e Apaes.

Saúde foi o assunto do tucano. Falou tanto que acabou tachado de hipocondríaco por Plínio.

Serra começou nervoso, a língua ressecada estalando no céu da boca. Acalmou-se vendo Dilma tropeçar. Confrontou a adversária ("você falou", "você disse", "você teve responsabilidade") e ajudou-a a perder a concentração. Andava pra lá e pra cá no estúdio da Band enquanto as câmeras miravam a petista.

Serra teria sido o menos pior da noite, não houvesse um Plínio no meio do caminho. Ele fez o tucano se embananar, levando o debate para uma área desconfortável para Serra: a rural. O candidato do PSDB acabou qualificando propriedades de 80 hectares (o que corresponde a 80 quarteirões) de "chácara de fim de semana".

Aos 80 anos, o presidenciável do PSOL debateu como quem não tem nada a perder, e ganhou. Atazanou os três rivais e conversou com o telespectador, a quem se dirigiu com frequência e tratou por "você".

Plínio usou frases e palavras mais curtas que os adversários, e concentrou todo o seu discurso em uma ideia: combate à desigualdade. É certo que pela expropriação, socialização e tudo o que mandam os manuais marxistas.

Foi o oposto de Marina. A verde fez uma pergunta para cada adversário. Sorriu. Não levantou a voz. Declamou poema. Foi quem mais falou de meio ambiente. Fez as frases mais longas e desfiou o vocabulário mais amplo. Se a eleição fosse de candidato mais bem comportado, seria favorita disparada. Mas é para presidente.

O desempenho dos presidenciáveis na Band deu uma medida do que serão os próximos debates: UOL, RedeTV!, Record, Estado/Gazeta e Globo. Desgastes e eventuais fugas devem influir nas intenções de voto, num processo de acumulação.

Debate não é luta de boxe. A ideia de que um candidato só ganha quando leva o oponente à lona projeta o desejo mórbido de ver um deles deitado em uma poça de sangue. Ninguém vira eleição com um golpe só, nem aprende a debater do dia para a noite. A vitória de um candidato é sempre por votos, nunca por nocaute.

Vira uma avacalhação :: Paulo Brossard

DEU NA ZERO HORA (RS)

Depois de ser recebido com simpatia por chefes de Estado e de governo, o presidente Luiz Inácio, ou por iniciativa própria, ou por sugestão de seus altos assessores, passando de pato a ganso, lançou-se ao cimo dos patamares diplomáticos; logo chamou a atenção, em vez de exercer sua influência como presidente do Brasil, no sentido de compor conflitos entre nações vizinhas, ignorando-os, jogou-se a pretender modelar questões em terras da Ásia e África, começando a oferecer préstimos a palestinos e israelenses, o que, em matéria de jactância, era o nec plus ultra, e terminando sua escalada em associar-se ao Irã; ora, além de componentes históricos de notória complexidade, o país vive sob o império dos aiatolás; como se não bastasse a temeridade, tomando o rumo da Guiné Setentrional, colocou o Brasil no plano daquele país, dominado por ditador trintenário, possuidor de fortuna miliardária em contraste com a população miserável. Voltando ao Irã, o país pegou com as duas mãos a tolice brasileira, pois nada tinha a perder e tudo a ganhar, principalmente em suas aventuras nucleares e junto à ONU. Valia a pena relembrar esses fatos uma vez que...

... aconteceu nas bandas do companheiro Ahmadinejad outro fato revelador da tontaria cometida pelo governo brasileiro em seus experimentos diplomáticos. Uma mulher de 43 anos, com dois filhos, é acusada de adultério. Resultou a acusação em 99 chibatadas. Depois, subitamente, foi acusada de haver morto seu marido; inocentada dessa imputação, teve revisto processo por adultério e aplicada nova condenação, desta vez aprimorada com a pena capital. Seu advogado, contra o qual fora emitido mandado de prisão, evadiu-se do país. A morte por apedrejamento pode ser cumprida a qualquer momento, ainda que 11 pessoas aguardem a execução, sete das quais mulheres. Os homens são enterrados até a cintura, enquanto as mulheres até o peito, de modo a ficarem com os braços imobilizados. As pedras a serem jogadas sobre as vítimas não devem ser grandes para que o sofrimento seja maior, antes da morte. Como se vê, um delicado refinamento. Segundo divulgado, o apedrejamento foi introduzido no Irã em 1979, depois da revolução islâmica, sob o governo do companheiro Ahmadinejad. Agora, por obra de entidades internacionais, essa modalidade de execução penal, em face da repercussão mundial, parece que pode ser substituída pelo... enforcamento. Como se vê, uma equitativa concessão!

O movimento chegou ao Brasil e houve quem pretendesse que o presidente Luiz Inácio, na qualidade de amigo e companheiro de Ahmadinejad, intercedesse em favor da condenada, que, antes, pelo mesmo fato, já fora condenada a 99 chibatadas, regularmente cumpridas, 99. Mas o presidente, como procedera em relação aos presos políticos cubanos, no dia em que Orlando Zapata morrera, em razão de greve que se prolongara por 85 dias, se recusou em palavras inapagáveis, se começarem a desobedecer às leis deles para atender ao pedido de presidentes, daqui a pouco vira uma avacalhação.

Mas parece que alguém observou que se tratava de uma mulher e a candidata oficial da casa é mulher e isto lhe poderia ser funesto. Seja por fás ou por nefas, em comício no Paraná, o presidente teria sugerido ao seu companheiro islâmico que exilasse a suposta adúltera com seus filhos para o Brasil...

O alvitre brasileiro desagradou ao islâmico, que, pelo porta-voz do Ministério do Exterior, aplicou ao colega brasileiro boa e pública palmatoada por manifestar-se sem conhecimento de causa e sob influência de mídia estrangeira.

Muita coisa haveria a dizer diante dessa macabra operação, mas limitar-me-ei apenas a uma observação. Foi para associar-se a esse país que o festejado presidente brasileiro se lançou ao mar alto da diplomacia levando consigo o bom nome do Brasil.

Haja avacalhação nisso tudo, para repetir a elegante expressão presidencial.

*Jurista, ministro aposentado do STF

Luisa Maita - Alento

Vídeo deixa Lula e Cabral em situação embaraçosa

DEU NO JORNAL DO COMMERCIO (PE)

SÃO PAULO Um vídeo postado na última sexta-feira no YouTube mostra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral (PMDB), em uma situação embaraçosa com um garoto de, supostamente, 17 anos, que se apresenta como Leandro. Em três dias, o vídeo já teve mais de 104 mil visualizações.

O rapaz aparece reclamando para Lula que não pode jogar tênis no complexo esportivo que recebia a visita do presidente, no Rio, ao que Lula responde: tênis é esporte da burguesia.

Em seguida, Leandro aparece dizendo a Lula que não pode nadar porque a piscina do local fica fechada durante os finais de semana. Nesse momento, se vê Lula reclamando da equipe que estava ao seu lado, recomendando a Cabral e seus assessores que coloquem duas pessoas para trabalhar lá aos finais de semana. O dia que a imprensa vier aí e vir isso fechado, o prejuízo político é infinitamente maior do que colocar dois guardas aí, diz Lula.

Os momentos de constrangimento não se encerraram por aí. Abraçado ao presidente, o rapaz conta que acorda com o caveirão (veículo blindado da Polícia Militar do Rio de Janeiro) na porta de casa. Nesse momento Sérgio Cabral interrompe e pergunta: Lá não tem tráfico não? E, ao ouvir a resposta negativa do jovem, o governador diz: deixa de ser otário, está fazendo discurso de otário.

CRÍTICAS

A frase de Lula, de que o tênis é esporte da burguesia, causou indignação no meio do esporte. No Twitter, o ex-tenista Fernando Meligeni disse se tratar de uma declaração infeliz do presidente, afirmando ainda que Lula pisou na bola. Outra ex-tenista, Vanessa Menga que ajuda a crianças carentes a partir do tênis questionou, também no Twitter: Será que ele quer eu enterre meu instituto e pare com os projetos sociais?.

Gabeira anuncia secretaria para portadores de deficiências

DEU EM O GLOBO

Dandara Tinoco

Candidato ao governo do Rio pelo PV, o deputado Fernando Gabeira afirmou ontem que, caso seja eleito, pretende criar uma secretaria especial voltada aos portadores de deficiências mentais e físicas. Em visita ao Zoológico do Rio e à Quinta da Boa Vista, Gabeira foi abordado por pais de crianças portadoras de necessidades especiais.

- Eles reclamaram muito da dificuldade para o tratamento dessas crianças na rede pública - disse, acrescentando que fará um encontro na Lagoa, ainda sem data marcada, para discutir políticas públicas para deficientes.

No passeio, Gabeira criticou ainda o fato de o governador Sérgio Cabral, candidato à reeleição pelo PMDB, não ter criado uma secretaria de defesa da mulher:

- O Cabral prometeu e não cumpriu a criação da secretaria. O governo não tem sensibilidade para a violência contra a mulher.

Sobre as mudanças no Código Florestal, que, se aprovadas, levarão ao desmatamento de 88% da Área de Preservação de Mata Atlântica no Rio, disse que a Câmara dos Deputados está preparada para enfrentar a questão.

No Zoo, o deputado cumprimentou visitantes e vendedores, parando para observar alguns animais. Perguntado sobre por que não foi à gaiola dos tucanos, Gabeira - que divide o apoio aos candidatos do PV, Marina da Silva; e do PSDB, José Serra - respondeu com humor:

- Não visitei tucanos, porque não sabia exatamente onde estão. Visitei os leões, os macacos. Alguns bichos estavam mais... acessíveis.

"JN" inicia entrevistas com presidenciáveis

DEU EM O GLOBO

Rodada será aberta hoje com Dilma Rousseff; amanhã será a vez de Marina Silva (PV) e, na quarta, de José Serra (PSDB)

BRASÍLIA, SÃO PAULO E RIO. Os candidatos à Presidência da República Dilma Rousseff (PT), Marina Silva (PV) e José Serra (PSDB) serão sabatinados, ao vivo, a partir de hoje, no "Jornal Nacional", da Rede Globo, pelos apresentadores William Bonner e Fátima Bernardes. A entrevistada de hoje é Dilma Rousseff. Amanhã será a vez de Marina Silva e, na quarta-feira, de José Serra. As entrevistas terão 12 minutos, com 30 segundos de tolerância.

As perguntas vão abordar os pontos polêmicos de cada candidatura, além da avaliação sobre o que os candidatos ou seus governos já fizeram. As entrevistas de candidatos à presidência são feitas desde 2002 no "Jornal Nacional". O JN foi o primeiro a entrevistar os candidatos ao vivo na bancada, formato que foi adotado por outras emissoras.

O candidato do PSOL, Plínio de Arruda Sampaio, que não pontua nas pesquisas, será entrevistado na quinta-feira. Ele gravará a entrevista, de 3 minutos, na sede da Academia Brasileira de Letras (ABL), onde participará de um fórum promovido pelo BNDES. Além do "Jornal Nacional", o "Bom dia Brasil" e o "Jornal da Globo" farão entrevistas com os candidatos.

Dilma faz preparação com jornalistas e marqueteiros

Dilma tentará aproveitar a entrevista de hoje para neutralizar críticas do PSDB de que é a sombra do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Nesses dias, ela tem se preparado intensamente, com jornalistas e marqueteiros.

A candidata deve voltar a se referir ao governo Lula como o "nosso governo". Dilma pretende ainda explorar ao máximo comparações entre as gestões de Lula e Fernando Henrique Cardoso. Também estão sendo preparadas "vacinas" para perguntas como a aproximação do governo Lula com governos como os de Irã e Cuba, que não respeitam os direitos humanos.

Há um cuidado especial para que Dilma seja menos prolixa e mais direta em suas repostas. Esta foi identificada como a principal falha da candidata no debate da TV Bandeirantes. Em alguns momentos, ela ultrapassou o tempo e teve a palavra cortada.

A assessoria de José Serra informou que não haverá nenhum tipo de preparação do candidato para a entrevista ao "Jornal Nacional", na quarta-feira.

A assessoria de Marina Silva (PV) também afirmou que a candidata não fará preparativos e tentará expor sua bandeira de campanha: a necessidade de uma revolução na educação.

- O espaço diário no "Jornal Nacional" tem sido o mais significativo de comunicação com os brasileiros na campanha por enquanto, devido ao alto índice de audiência. E tem sido um espaço equilibrado, nós prezamos muito a decisão da emissora - disse Alfredo Sirkis, um dos coordenadores do PV.

Devido aos preparativos para a entrevista de hoje, Dilma não deve comparecer ao "Encontro com presidenciáveis", em São Paulo, promovido pela Confederação das Associações Comerciais e Empresariais do Brasil (Caceb). A entidade informou que Dilma cancelou sua participação, mas, segundo a assessoria da candidata, ela nunca confirmou presença. De acordo com a entidade, estariam confirmadas as presenças de Dilma, às 14h, de José Serra, às 15h, e de Marina Silva, às 16h.

Fundos de Petrobras e CEF acusados de fazer dossiês

DEU EM O GLOBO

Ex-gerente do fundo de pensão do Banco do Brasil, o advogado Gerardo Santiago disse que uma força-tarefa foi montada para municiar governistas durante o escândalo do mensalão e colher dados contra adversários. Segundo ele, técnicos do BB, da Petrobras e da Caixa e dos respectivos fundos de pensão, participavam do grupo.

Fundos ajudaram governo no mensalão

Chico Otavio

O advogado Gerardo Xavier Santiago, ex-gerente executivo da Previ (fundo de pensão dos funcionários do Banco do Brasil), disse ontem que, na crise do mensalão, integrou uma força-tarefa montada a pedido do governo federal, com representantes de estatais e fundações de previdência, para elaborar um relatório alternativo à CPMI dos Correios e colher dados contra adversários.

Faziam parte da força-tarefa, segundo Santiago, técnicos do Banco do Brasil, Petrobras e Caixa Econômica Federal, bem como de seus respectivos fundos de pensão, Previ, Petros e Funcef. O grupo se reuniu no dia 2 de abril de 2006, véspera da semana de votação do relatório final da CPMI dos Correios, de autoria do deputado peemedebista Osmar Serraglio (PR), para produzir um texto alternativo. Segundo Santiago, os dados não chegaram a ser utilizados.

- Eu era um deles. Tenho como provar que estive no dia 2 de abril, um domingo, no Senado, com outros técnicos, para ajudar no relatório alternativo. É só consultar o registro de acessos da Casa - disse.

Em entrevista concedida há dois anos à revista "Veja", que a divulgou na última edição, o ex-gerente da Previ, que aposentou-se recentemente, aos 50 anos, contou que o fundo funciona como "fábrica de dossiês" contra a oposição do governo Lula. Na lista dos oposicionistas que teriam sido investigados, ele citou o senador Antônio Carlos Magalhães (DEM-BA), já morto, o então governador José Serra (PSDB) e Jorge Bornhausen, na época presidente do DEM.

Ex-gerente está disposto a contar o que sabe ao MP

Santiago disse ao GLOBO que está disposto a oficializar a denúncia, caso seja chamado pelo Ministério Público, mas não quer depor a pedido de parlamentares, pois teme a exploração política do episódio:

O advogado, que trabalhou na Previ de 2000 a 2007, disse que recebeu ordens, em 2006, para levantar dados que comprometessem o então senador ACM com investimentos da Previ na Costa do Sauípe, complexo hoteleiro a 76 quilômetros de Salvador. Santiago deixou o PT em 2006 e diz que resolveu falar porque está arrependido e decepcionado com o partido.

ACM Neto anunciou que irá interpelar judicialmente o bancário Sérgio Rosa, ex-presidente da Previ.

PT e Previ silenciam sobre dossiês; Dilma reage

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Candidata compara caso a grampos da privatização no governo FHC, mas outros petistas não comentam denúncia de ex-dirigente do fundo de pensão de Ceilândia

Leandro Cólon BRASÍLIA

Dia de feira. Candidatas do PT visitou ontem feira popular da cidade-satélite de Ceilândia

Nem o comando do Partido dos Trabalhadores nem Sérgio Rosa reagiram ontem às denúncias feitas por Gerardo Xavier Santiago, ex-diretor e ex-assessor da presidência do fundo de pensão Previ. Em entrevista à revista Veja, Santiago disse que a Previ é uma "fábrica de dossiês" e funciona como "um bunker" e um "braço partidário" a serviço de um grupo do PT. A única reação à entrevista partiu da candidata do PT, Dilma Rousseff.

Santiago contou que, "cumprindo ordens superiores", elaborou dossiês contra deputados e senadores da oposição. Ele disse que no comando dos pedidos estava o presidente do fundo, Sérgio Rosa, que deixou a Previ dois meses e meio atrás, depois de sete anos na direção máxima da entidade que tem capital de R$ 140 bilhões.

O ex-diretor revelou que um dos momentos em que a Previ mais trabalhou na coleta de informações para dossiês foi durante a CPI dos Correios, em 2005, quando a ordem foi para vasculhar documentos sigilosos, cruzar planilhas e dados com investimentos sobre negócios do fundo que envolviam parlamentares da oposição, como o deputado ACM Neto (DEM-BA), os senadores Jorge Bornhausen (DEM-SC) e Heráclito Fortes (DEM-PI) e José Serra (PSDB-SP).

"A Previ está a serviço de um determinado grupo muito poderoso, comandado por Ricardo Berzoini (ex-presidente do PT), Sérgio Rosa, Luiz Gushiken (ex-ministro) e João Vaccari Neto (dirigentes histórico da cúpula sindical bancária, junto com Berzoini)". A Previ está por trás, acrescentou, das informações espalhadas contra uma suposta relação entre Heráclito Fortes e Daniel Dantas, que permitiria que o parlamentar usasse jatinhos cedidos pelo banqueiro.

O próprio Santiago diz que ninguém conseguiu comprovar esse uso dos jatinhos, mas que a notícia foi plantada e posta a circular a partir da investigação deflagrada na Previ. Disse, ainda, que a senadora Ideli Salvatti (PT-SC) usou informações da "central de dossiês" do fundo na CPI dos Correios. Ontem, o DEM anunciou que vai entrar com uma representação contra Ideli no Conselho de Ética do Senado.

Dilma reage. Para defender-se das recentes polêmicas sobre criação de dossiês por petistas contra adversários, a candidata do PT à Presidência, Dilma Rousseff, comparou o caso da Previ ao escândalo dos grampos das privatizações do governo de Fernando Henrique Cardoso (PSDB) e pediu que irregularidades de gestões anteriores também sejam apuradas.

"Se for fazer vinculação de denúncias de pessoas que integram governos, levantemos de todos e não só os meus. Me parece bastante eleitoreira essa tentativa de vinculação", disse. "É possível que a imprensa levante tudo o que aconteceu em governos anteriores. Por exemplo, todos os grampos que ocorreram durante as privatizações no BNDES. Atingirão, por acaso, o candidato da oposição, o meu adversário, José Serra? Então acho que como aquilo não atinge, isso (dossiês) também não tem nada a ver com minha campanha", afirmou, em visita a uma feira em Ceilândia, no Distrito Federal.

Ela referiu-se aos processos de privatização de estatais no governo do tucano Fernando Henrique na segunda metade da década de 90, um negócio de R$ 22 bilhões. Conversas telefônicas revelaram indícios de que houve irregularidades e esquemas para favorecer empresas.

Em junho passado, uma crise atingiu a campanha de Dilma depois da revelação de uma tentativa de elaboração de um dossiê, supostamente por pessoas ligadas à campanha dela, contra o candidato do PSDB, José Serra. Ontem, a petista repudiou as ligações feitas entre sua campanha e esses episódios, como o da Previ. "Eu não acredito que tenha algo a ver isso com a minha campanha. Porque até essa questão de alguém acusar alguém tem que ser provada. Mas de qualquer jeito eu não tenho nenhuma vinculação, minha campanha não tem nenhuma vinculação com a Previ"", afirmou.

Biografia é insuficiente para vencer

DEU NO VALOR ECONÔMICO

De São Paulo - A comparação de biografias no horário eleitoral gratuito tende a não funcionar como estratégia para captar mais votos na disputa presidencial deste ano, analisa o cientista político e professor universitário Alberto Carlos Almeida. Nesta eleição, o voto tende a ser menos "personalista" e mais "institucional", afirma Almeida, diretor do Instituto Análise e autor dos livros "A cabeça do brasileiro" e "Como são feitas as pesquisas eleitorais e de opinião".

"O eleitor não vai votar só no mais bem preparado, mas sim em quem tem mais condições de melhorar a vida dele", disse Almeida. "Nesta eleição as pessoas vão às urnas para comemorar o aumento do poder de compra", afirmou. "E a tendência dos candidatos é reforçar a imagem de defensor dos pobres", comentou.

O fato de ter mais experiência administrativa ou de ser o "mais preparado" não é suficiente para o candidato ganhar o voto do eleitor, considerou o diretor do Instituto Análise. Em 2006, lembrou o Almeida, o então candidato do PSDB, Geraldo Alckmin terminou a eleição com a imagem de "mais bem preparado" do que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, mas o eleitor preferiu a continuidade de um governo que melhorou a vida dele. O voto "institucional" prioriza o projeto de governo que leva o eleitor a "ganhar mais".

O principal meio de comunicação para defender esse projeto é a televisão. A análise do impacto do programa eleitoral gratuito sobre as intenções de voto nas duas últimas eleições, no entanto, mostra cenários divergentes. Em 2002, Lula cresceu de 37% para 45% com o início da propaganda na televisão e no rádio. Seu principal adversário, o tucano José Serra, manteve-se na faixa de 19%. Na disputa presidencial seguinte, em 2006, Lula manteve-se estável, com 49%, e o candidato do PSDB, Geraldo Alckmin, ampliou a margem de intenção de votos de 25 % para 38%, segundo pesquisa do instituto Datafolha.

Ter a maior fatia do horário eleitoral gratuito na televisão e no rádio, no entanto, não garante vitória a ninguém, segundo analistas políticos e de marketing. Apesar da alta exposição, há dezenas de casos recentes de derrota. O exemplo clássico citado por especialistas em marketing eleitoral é o de Ulysses Guimarães (PMDB), que na disputa pela Presidência, em 1989, terminou a eleição em sétimo lugar, apesar de ter 37% a mais de tempo na televisão do que o segundo colocado na escala de tempo na propaganda oficial.

O importante, destacam marqueteiros, é que o tempo na propaganda eleitoral seja usado para passar uma "mensagem positiva" e para o debate de propostas. São citados os casos da eleição de Fernando Henrique Cardoso (PSDB), que ganhou a disputa pela Presidência após o Plano Real, em 1994 e a reeleição, em 1998. (CA)

Lançamento em São Paulo da nova edição da Política Democrática

DEU NO SITE DA FAP

Na próxima quarta-feira, dia 11, às 19h30minh, a representação estadual da Fundação Astrojildo Pereira promoverá, em auditório do Hotel e Flat Pergamon (Rua Frei Caneca, 80 – Consolação), palestra de Célio Bermann a respeito do projeto de construção da usina hidroelétrica de Belo Monte, no Pará. Na oportunidade, será lançada a edição Nº 27 da Política Democrática.


Trata-se do primeiro número sob a editoria do jornalista Marco Antonio Tavares Coelho. Nesta edição destacam-se artigos de Caetano Pereira de Araujo e de Roberto Freire (Agenda para um novo Brasil), do ex-ministro José Goldemberg (O Brasil e armas nuclares), do jornalista Danúbio Rodrigues (A República posta em questão), do cientista político Augusto de Franco (Idéias para outro tipo de desenvolvimento), Francisco Del Moral Hernandez e Célio Bermann (A usina de Belo Monte: energia e democracia em questão), do jornalista e cineasta Sionei Leão (Os fundamentos...), do cientista social Raimundo Santos (Agronegócio, agricultura familiar e política), do ex-ministro italiano Massimo D’Alema (O paradoxo da Europa: fraqueza e força no século XXI), da doutora em Lingüística Lucília Garcez (Um eterno nacionalista: Monteiro Lobato) do comunicólogo Luiz Carlos Prestes Filho (Por debaixo da máscara de Montevidéu), do cineasta João Batista de Andrade (Apontamentos para um programa de cultura) e outros de igual qualidade.

Leia entrevista com o historiador britânico Tony Judt

DEU EM O GLOBO / PROSA & VERSO

Leia abaixo a entrevista com o historiador britânico Tony Judt, morto aos 62 anos na último sexta-feira, publicado no Prosa & Verso de 22 de maio. Na conversa com Guilherme Freitas, o pensador - que foi diagnosticado em 2008 com esclerose lateral amiotrófica, a doença neurológica degenerativa que o matou - disse ter encontrado na atividade intelectual incessante a melhor reação ao fato de estar confinado ao que definiu, num ensaio, como "minha prisão corpórea":

— A doença não mudou minhas opiniões, mas agora tenho um senso de urgência mais forte em minha atividade intelectual. Tudo está mais difícil para mim, então sou obrigado a selecionar melhor aquilo em que me engajo — declarou.

O senhor escreve que, embora o século XX tenha sido "o século dos intelectuais", eles praticamente sumiram da esfera pública nas últimas décadas. Como explicar o declínio da figura do intelectual público?

TONY JUDT: Boa parte da resposta está nas transformações dos meios de comunicação. Acho também que a grande era da alfabetização em massa — quando muitas pessoas puderam ler pela primeira vez e ganharam acesso a textos e autores pelos quais tinham grande respeito social — ficou para trás. Hoje somos todos letrados, mas não ligamos muito para literatura. A autoridade das antigas gerações de intelectuais vinha precisamente do fato de serem romancistas, filósofos, ou mesmo jornalistas. Hoje, o intelectual tende a ser um acadêmico ou um especialista, o que, ironicamente, reduz seu alcance. E, claro, a cultura das "sound bites" (declarações curtas e impactantes de especialistas e autoridades ouvidos pela imprensa) faz com que o tipo de autoridade associada ao intelectual, ancorada em argumentos e num amplo reconhecimento cultural, esteja em baixa. Não acho que haverá grandes mudanças nesse cenário. A maioria dos "intelectuais" de hoje não se compara a seus predecessores. Ironicamente, a reflexão política inteligente está se retirando para as margens.

Em "Reflexões sobre um século esquecido", o senhor argumenta que um grupo de intelectuais "sem raízes", como Edward Said, Hannah Arendt e Albert Camus, formou a "República das Letras" do século XX. O que distingue este grupo de intelectuais? Como podem servir de exemplo para nós?

JUDT: Todos eles estavam enraizados na alta cultura de um país, comunidade ou idioma, mas se consideravam parte de um diálogo necessariamente transnacional, cujos pontos de referência eram os mesmos quer você vivesse no Brasil ou na Estônia. Hoje, o típico "intelectual global" não tem raízes e, portanto, o que ele diz sobre questões globais carece de fundamentação. Também acho que a autoconfiança intelectual das pessoas que você cita — o fato de elas assumirem que ser inteligente e escrever bem constituía a base para sua influência e a justificativa de seu trabalho — não está presente em seus sucessores. Se tivéssemos que tirar um exemplo de todas essas pessoas, seria esse: intelectuais têm que ir contra a corrente em suas próprias comunidades (seja nacional, religiosa, ideológica etc). Intelectuais que apenas fornecem argumentos em favor de um determinado grupo desempenham outro tipo de papel.

Em entrevista recente, o senhor disse que é preciso "redescobrir a linguagem da divergência"? Como defini-la?

JUDT: Não tenho um modelo. Mas seria algo como o que disse antes: exercitar o pensamento independente mesmo sob o risco de desaprovação dentro de sua própria comunidade. E, em política, insistir na validade do embate, da discordância e da divisão, onde existirem. A democracia não pode sobreviver numa dieta de consenso.

O senhor dedica seu livro mais recente ("Ill fares the land") "aos jovens" que parecem estar "confusos" sobre como agir contra o que acreditam estar errado no mundo. Que tipo de engajamento político é possível para os jovens hoje?

JUDT: Não quis escrever um livro de receitas para os cozinheiros de amanhã. No entanto, acredito que precisamos reaprender o que significa agir politicamente. Movimentos de base que agem pontualmente em nome de uma só causa quase sempre dão em nada — ou desaparecem após o sucesso da causa ou são apropriados por outros interesses e se perdem. Precisamos de um sistema através do qual possamos expressar visões universais sobre como somos governados e como gastamos nossas reservas: para isso precisamos examinar, de uma perspectiva crítica e ética, a forma como fazemos isso. O primeiro desafio é aprender mais uma vez a discordar com confiança daquilo que nos desagrada, em vez de dar as costas à política por desgosto ou desespero. E precisamos falar sobre "nós", não apenas sobre "eu".

Voltando a "Reflexões...", o senhor diz que tendemos a ver a História apenas como triunfos que devem ser recordados ou erros que não podem ser repetidos. Há alternativas a isso? Como lidar com a História, em especial com os eventos mais turbulentos do século XX?

JUDT: Não há uma resposta simples. A melhor forma de lidar com a História é entendê-la — o que significa contar verdades desconfortáveis sobre o passado, mesmo que elas sejam socialmente perturbadoras. Para os democráticos vencedores do século XX, não é fácil reconhecer seus próprios crimes políticos — assim como para eles é difícil reconhecer que o inimigo derrotado era mais popular e até mais bem-sucedido do que gostamos de admitir. Acho que a outra metade da resposta é que temos que lutar duro para distinguir comemorações socialmente úteis e alertas politicamente importantes ("Munique") da verdadeira História. Os primeiros estarão sempre conosco; é a última, em toda sua complexidade, que estará sempre ameaçada. O trabalho do historiador é erguer-se cada vez que alguém diz "Munique" ou "Auschwitz" ou "Vencemos a Guerra Fria" e responder: "Sinto muito, mas é mais complicado que isso e você precisa entender por quê". Numa época de esquecimento instantâneo e falsa memória, o historiador se torna uma commodity rara e valiosa.

Por que o período entre a queda do Muro de Berlim e a invasão do Iraque foi "um tempo perdido", como o senhor diz?

JUDT: Em primeiro lugar, nos primeiros anos esquecemos tudo que já tínhamos feito de correto. Um Plano Marshall para o Leste da Europa e o Cáucaso teria poupado milhões de dólares, vidas e problemas. Além disso, ao tratarmos a Guerra Fria como um simples conflito entre "nós" e "eles" vencido por nós, ficamos cegos para os conflitos que estiveram presentes antes e durante a Guerra Fria e que são a fonte de muitos de nossos problemas atuais. Em terceiro lugar, os anos 1990 teriam sido o momento ideal para repensar os arranjos econômicos internacionais de 1944. Em vez disso, assumimos que o mercado liberal tinha "vencido" e o Estado forte, "perdido": o resultado foi a crise de 2008 e outras por vir.

O senhor argumenta que, embora a noção de Estado do Bem-Estar Social tenha perdido espaço, temos que aprender a reconhecer suas deficiências e, ao mesmo tempo, defender suas funções. Quais devem ser os limites e funções do Estado do Bem-Estar Social hoje?

JUDT: Desconfio que a resposta é óbvia em boa parte da Europa e da América Latina: alguma forma de Estado do Bem-Estar Social é condição necessária para a estabilidade do capitalismo, incluindo serviços básicos suficientes e igualdade para absorver aqueles que sofrem com as inevitáveis injustiças do mercado. Em outras palavras, o Estado do Bem-Estar Social tem o mesmo papel hoje que em seus primeiros tempos: prevenir os erros que o capitalismo comete instintivamente quando é deixado sem regulação. Assim, a única questão é o alcance do Estado e o equilíbrio entre seus gastos em serviços e em bens públicos. Aqui, é preciso ser pragmático. Em países como a Alemanha, até a centro-direita reconhece a necessidade de redes de Bem-Estar Social, fornecimento público, serviços básicos e um alto nível de provisão social a partir de taxação direta. Em outros países, como os EUA, nem a centro-esquerda consegue ver isso. O verdadeiro perigo do gasto estatal excessivo — corrupção, ineficiência etc — tem que ser medido contra os riscos igualmente reais de colapso social na ausência de uma noção clara do coletivo e de sua responsabilidade. A política tem que ser a arena onde debatemos esses temas, em vez de ficarmos gritando "Estado!" ou "Mercado!" um na cara do outro.

A recente crise econômica pode forçar uma revisão do modelo liberal de Estado?

JUDT:
Temo que não. Mas em combinação com futuras crises parecidas (estamos no meio de uma na Grécia) e decepções com os excessos da globalização, é possível que o pêndulo volte a uma visão do Estado como algo não necessariamente ruim em princípio. Lembre-se que há apenas 30 anos essa era opinião corrente entre a maioria dos políticos e economistas, e não só em social-democracias.

O marxismo enfrenta certo descrédito desde a queda do Muro de Berlim, mas o senhor sugere que temos muito a aprender com "o admirável poder das ideias marxistas". Qual é esse poder e como o marxismo pode ser relevante hoje?

JUDT: Eu faria uma distinção entre o poder do pensamento marxista — parte de uma influência mais ampla de ideias e ideologias do período 1870-1970 — e o estrago causado por partidos e Estados marxistas. Foi este último que fez com que o primeiro ficasse muito desacreditado. Não desejo um retorno dos velhos debates ideológicos e dogmáticos, nem das crenças irrefletidas sobre classe e capitalismo. Mas seria bem-vinda uma disposição para reabrir questões sobre conflito social, interesse de classe, divisão econômica e deficiências inerentes ao capitalismo desregulado. Não acho que para fazer isso precisemos ser marxistas, mas os melhores marxistas eram muito bons nisso e seria ótimo para estimular o debate.

O senhor se disse decepcionado com Obama, alegando que ele estaria mais interessado em buscar consensos do que reformas. Como vê os acontecimentos recentes do governo Obama, especialmente a aprovação da reforma da saúde?

JUDT: A reforma da saúde quase fracassou. No fim, foi a vitória de um acordo que muitos de seus defensores não aprovaram, mas que aceitaram por falta de alternativa melhor. Temo que Obama tire a lição errada disso e continue buscando consensos e acordos. Mas em certos temas cruciais — Oriente Médio, guerras, gastos públicos em infraestrutura de longo prazo, reforma bancária — não há acordos e o consenso é difícil. (O primeiro-ministro israelense Benjamin) Netanyahu não quer um acordo, nem a direita republicana. Às vezes você tem que lutar pelo que acredita. Se Obama não entender isso, vai continuar a nos desapontar.

Como o "estilo de vida europeu", cujos benefícios sociais o senhor aponta muitas vezes, foi afetado pela crise? Acredita que a União Europeia tem lidado bem com a questão da Grécia?

JUDT:
A UE tem tratado quase toda crise com total incompetência. Mas tem sorte: assim como os EUA, a UE é muito rica, mas, ao contrário dos EUA, teve o bom senso de aprender com as catástrofes da História. Então, mesmo sendo uma bagunça política e institucional, suas instituições sociais, salvaguardas econômicas e autoridades transnacionais conseguiram criar e preservar um padrão de vida, um nível de segurança e um senso de interesses comuns que o resto do mundo só pode invejar. Mas acho que eles podem arruinar tudo isso — precisamente porque os líderes europeus de hoje têm pouca noção da importância histórica da construção de uma casa institucional comum naquele que já foi o continente mais violento do mundo. Quanto à Grécia, o problema é, em parte, que uma moeda sem Estado tem poucas perspectivas a longo prazo. E os ganhos políticos de permitir que Grécia ou Portugal (ou o Leste da Europa) aderissem à UE e ao euro ofuscaram o planejamento sobre o que fazer numa eventual crise como esta.

Quando jovem, o senhor tomou parte no que mais tarde chamou de "fantasia idealista" da construção do Estado de Israel, mas hoje defende um Estado binacional como a solução para o conflito Israel-Palestina. Em que ponto se deu conta da natureza dessa "fantasia"? Estamos mais próximos hoje de um Estado binacional?

JUDT: Acho que enxerguei as falhas morais e práticas do sionismo bem cedo. Mas o salto para o reconhecimento de que um Estado unicamente judeu era o problema e não a solução foi mais difícil por causa da minha formação. Suponho que passei a encarar a questão melhor no fim dos anos 1990. Acho que, graças a Netanyahu e seus partidários, a criação de um Estado binacional não é uma hipótese realista, e a criação de dois Estados é cada vez mais uma ilusão. Temo que continuaremos vivendo com esse dilema irresolvido por uma década ou mais. Só os EUA poderiam forçar um avanço por sua influência econômica ou militar — e por razões tanto domésticas quanto externas, isso não vai acontecer.

Como o senhor vê o governo Lula? O que pensa do papel mais proeminente que o Brasil tem buscado no cenário internacional nos últimos anos?

JUDT: Noto que o governo Lula colocou na agenda uma questão — qual deve ser o tamanho do Estado e com que fins? — que a maioria das culturas políticas hoje ignora. No plano internacional, penso que o Brasil foi muito perspicaz ao se aproveitar de uma mudança na hegemonia das potências do pós-Guerra, sem fazer muito barulho sobre seus direitos e reivindicações. Nota-se que, sempre que esses temas são debatidos, a autocracia chinesa, o autoritarismo pós-soviético e a pobreza indiana são evocados como razões para desacreditar o futuro dos "Brics", mas o Brasil sempre escapa ileso! Talvez porque, nessa companhia, o Brasil pareça um futuro bastante respeitável para a comunidade internacional! Não devemos nunca menosprezar o papel da sorte e do senso de oportunidade nas relações internacionais. Ainda assim, o Brasil precisa desses aliados pouco atraentes: mesmo hoje, o país nunca seria suficientemente respeitado por si só — tente acompanhar políticos brasileiros, sem falar em seus colegas sul-americanos, na imprensa europeia e americana...

A última homenagem a Freyre na Flip 2010

DEU EM O GLOBO

Na última mesa dedicada a Gilberto Freyre, o homenageado desta edição da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), José de Souza Martins, Peter Burke e Hermano Vianna se reuniram para tratar da atualidade na obra do sociólogo pernambucanor. A mesa, chamada "Gilberto Freyre e o século XXI", aconteceu na manhã deste domingo, sob mediação de Benjamin Moser.

Os três foram muito aplaudidos ao trazer pontos da obra de Freyre para o debate.

- Precisamos pensar o Freyre para além e adaptar seu pensamento para situações do século XXI - disse Burke.

- Um livro que chega a 52 edições, como o "Casa-grande & senzala" tem seu lugar assegurado na sociologia do século XXI - acrescentou Martins.

- Obviamente o Brasil não é uma democracia racial. Mas acho que temos que entender essa afirmação do Freyre menos como uma tentativa de acobertar o racismo, mais como um meio de combatê-lo - afirmou Vianna.

DEU NO JORNAL DO BRASIL
Verdade tropical


Bolívar Torres - PARATY, RJ

Grande homenageado da Flip, Gilberto Freyre ainda não é reconhecido como merece fora do Brasil.

Pelo menos, esta é a conclusão do historiador inglês Peter Burke, coautor de Repensando os trópicos: um retrato intelectual de Gilberto Freyre (es crito com sua mulher, a brasileira e também historiadora Maria Lúcia Garcia Pallares-Burke), livro que contextualiza as ideias do antropólogo pernambucano, servindo quase de cartão de visita de sua obra para o público estrangeiro. Especialista em Idade Moderna europeia, o conceituado historiador será um dos debatedores na mesa Gilber to Freyre e o século 21, hoje, às 11h45, marcando o último dia da Festa Literária Internacional de Paraty.

Em entrevista ao Ca derno B, Burke frisa que nunca existiu um intelectual como Freyre na Europa e defende a atualidade de seu pensamento.

Como o mundo acadêmico europeu analisa hoje a obra de Gilberto Freyre? – Sinto dizer isso, mas os acadêmicos europeus simplesmente não conhecem sua obra. Na Inglaterra, quando falava do projeto do meu livro, as pessoas diziam: “Ah, Freyre, claro, o educador...”. Na verdade, estavam confundindo com Paulo Freire, que é muito mais conhecido. Tanto na França quanto na Itália também não sabem nada sobre Gilberto. A grande maioria dos seus livros está sem edições novas. Sinto vergonha por isso, mas acredito que, nos últimos anos, não foram vendidas nem 2 mil cópias de seus livros. Quando Casa-grande & senzala saiu, Freyre teve um certo auge, com artigos publicados na França. Mas desde então entrou num lento declínio.

Foi por isso que escreveu o livro tentando apresentar Freyre para os ingleses? – Sim, é uma das principais razões. Gilberto precisa ser mais bem entendido.

Suas ideias continuam relevantes.

Freyre antecipou muitas questões. Quais delas têm mais pertinência hoje? – O hibridismo cultural, que só começou a ser analisado por gerações mais recentes. Mas eu diria que a questão mais extraordinária foi a sua consciência ecológica.

Era incrível a maneira como ele se preocupou com as questões do meio ambiente nos anos 30.

A mistura de culturas e raças é um dos assuntos mais pertinentes na Europa hoje, confrontados principalmente por países como Inglaterra e França. Até que ponto o conceito de democracia racial, defendido por Freyre, pode ser uma referência para estes centros? – É interessante imaginaro que Gilberto pensaria do multiculturalismo atual.

Precisamos antes ver em que contexto surgiram as suas ideias, sua interpretação de culturas. O contexto, claro, era o Brasil colonial.

Mas nos anos 30, quando ele escreveu Casagrande, a questão já era muito mais complexa, com a vinda de japoneses, alemães, italianos... Fiquei decepcionado com Ordem e progresso, que falava quase nada sobre a contribuição dessas culturas à identidade brasileira. A impressão que se tinha é que ele via o Brasil como um clube de três raças, negra, índia e branca. Por outro lado, países europeus também exaltaram a mistura de culturas.A Inglaterra é uma grande mistura de tribos celtas. É irônico pensar que até a clássica ideia de mistura cultural brasileira possa ter inspiração estrangeira.

A ideia de miscigenação de Freyre seria, portanto, relativa? – Sim, sem dúvida.

Mas não é indiscutível que o português teve muito mais tendência à mistura no Brasil do que os britânicos em suas colônias? – Acredito que, neste sentido, Gilberto tenha exagerado as diferenças entre o império britânico e o português.

Sua ideia de colonialismo britânico se limitava à época de Kipling.

Talvez porque adorasse Kipling.

Mas o fato é que, antes disso, os ingleses tiveram um hábito de interpenetrar em países como a Índia, sexual e culturalmente.

A mistura com indígenas era comum.

O senhor esteve com Freyre em duas oportunidades.

Qual foi sua impressão? – A primeira foi em uma palestra em Assex, em 1965, quando ele foi receber um grau honorário.

Em um inglês muito bom ele louvou a miscigenação.

Fiquei surpreso. Para mim era estranho, já que ele era branco, muito pálido: parecia um português, não um brasileiro mestiço. Depois, em 1986, fui convidado a ir à sua casa. Mas na época ele estava adoentado e alternava períodos de lucidez com outros em que não estava muito lúcido. E naquele dia, infelizmente, ele não estava lúcido.

Freyre foi um pensador muito peculiar. Recusava ser visto como acadêmico, e dizia que a literatura não podia ser dissociada de seu trabalho de antropólogo.

Estudar a sociedade era muito mais “uma aventura de sensibilidade do que um esforço de pesquisa”. Existiu na Europa ou nos Estados Unidos algum intelectual parecido com ele? – Realmente, Gilberto nunca quis ser visto como um acadêmico. Financeiramente, era muito menos rentável para ele afastarse das universidades.

Ele era, de fato, polêmico, um enfant terrible que adorava provocar. E é realmente difícil encontrar alguém tão interdisciplinar quanto ele na Europa.

Talvez Fernand Braudel, na França, ou Johan Huizinga, na Holanda.

Mas na Inglaterra não conheço.

Como foi escrever o livro com sua mulher? – Foi minha primeira experiência de escrever um livro a quatro mãos. Nesse caso, a colaboração teve outro fator especial, já que minha mulher pertence à cultura brasileira e eu, não. Seria impossível escrever o livro sem ter vindo ao Brasil. Fiquei encantado com nossa passagem por aqui, de ter acesso aos arquivos da Fundação Gilberto Freyre.

Suas cartas foram importantíssimas para o nosso trabalho. E foi fantástico ver algumas de suas anotações. Tínhamos acesso aos livros que ele lia, com as anotações que ele fazia nas margens.

Era como ver o pensamento dele voando.

Por outro lado, confesso que foi complicado conhecer sua família e as pessoas que conviveram com ele, porque isso provoca uma certa autocensura quando você precisa criticar um ou outro aspecto de sua vida e de sua obra. Como sempre escrevi sobre pessoas do século 16 e 17, não costumava ter esse tipo de problema antes (risos).


(Domingo, 8 de Agosto de 2010)

O que pensa a mídia

Editoriais dos principais jornais do Brasil
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Grupo Corpo - Bach (1) - Belo Horizonte

PRIMEIROS ANOS :: Ferreira Gullar


Para uma vida de merda
nasci em 1930
na rua dos prazeres

Nas tábuas velhas do assoalho
por onde me arrastei
conheci baratas, formigas carregando espadas
caranguejeiras
que nada me ensinaram
exceto o terror

Em frente ao muro negro no quintal
as galinhas ciscavam, o girassol
Gritava asfixiado
longe longe do mar
(longe do amor)

E no entanto o mar jazia perto
detrás de mirantes e palmeiras
embrulhado em seu barulho azul

E as tardes sonoras
rolavam
sobre nossos telhados
sobre nossas vidas .
Do meu quarto
ouvia o século XX
farfalhando nas árvores lá fora.

Depois me suspenderam pela gola
me esfregaram na lama
me chutaram os colhões
e me soltaram zonzo
em plena capital do país
sem ter sequer uma arma na mão.


(Buenos Aires, 1975)

domingo, 8 de agosto de 2010

O nascimento da ética do político:: Renato Janine Ribeiro

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO / SABÁTICO

Há cerca de 5 séculos, O Príncipe marca o imaginário social

Em milênios de filosofia, só dois filósofos quebraram as fronteiras da academia para que seus nomes gerassem adjetivos conhecidos de todos, até de quem não sabe quem eles foram: Platão e Maquiavel. Todos ouvimos falar em amor platônico ou em pessoas maquiavélicas. Não interessa que os especialistas se irritem porque Maquiavel não foi maquiavélico; o fato é que ele, como Platão, deixou uma marca no imaginário social.

O Príncipe, que em breve completará 500 anos, tem características notáveis. Primeira: é livro facílimo de ler. Segunda: apesar disso, não há acordo sobre o que quer dizer. Lemos com facilidade e não temos certeza do que ele pretende. Talvez porque, terceira característica, parece contradizer o resto da vida e obra do autor. Maquiavel foi um dos chefes da República de Florença, passou anos escrevendo uma grande obra republicana - os Discursos - mas somente se tornou um dos maiores pensadores da história devido a um livro curto que redigiu em poucas semanas, banido da cidade, com o fim de agradar aos novos senhores de uma Florença monárquica. Por isso nos perguntamos o que é O Príncipe: é um livro de apologia à monarquia ou uma sátira cáustica? Sustenta que os fins justificam os meios ou mostra a essência da política? Contradiz o político e pensador republicano ou nutre, com ele, uma secreta harmonia?

Vamos às questões principais do Príncipe. Concentro-me em duas. A primeira é a convicção de Maquiavel, segundo a qual metade - por assim dizer - do que nos sucede depende da fortuna. "Fortuna" inclui aqui o infortúnio - a sorte, o acaso, em suma, o que não está em nossas mãos. O máximo que conseguiremos, com muito empenho, será controlar a outra metade. Para isso, teremos de mostrar valor, que ele chama virtù. Usamos a palavra italiana, que significa "virtude", justamente porque é o contrário do que costumamos chamar de virtude. Sua virtù nada tem de moral. Aqui começa o problema. Enquanto estávamos só na estatística, no fifty-fifty fortuna vs. ação planejada e deliberada, tudo bem. Mas quando Maquiavel diz que, para reduzir o quinhão da fortuna, o homem tem de ser um autêntico "vir" (a palavra latina para varão, macho), ele conclui que não poderá seguir a moral cristã.

Passemos à segunda questão. Muitos, diz o autor, trataram de Estados ideais e reis justos, mas tais entes não existem ou não subsistem. Para tratar de "coisas que prestem", falará dos Estados reais e de como funcionam. Seu capítulo 15 é citado como a certidão de nascimento da ciência política: em vez de discutir como as coisas deveriam ser, pensar como realmente são. Não é fortuito que seja Fernando Henrique Cardoso - cientista político, que por coincidência já foi chamado de príncipe da nossa sociologia - quem redija o prefácio, ao qual se segue uma introdução de Antony Grafton, que tem por única falha, a meu ver, ignorar a ótima bibliografia que não foi escrita em inglês: Max Weber, Merleau-Ponty, Claude Lefort e, dos brasileiros, Newton Bignotto. De toda forma, essa tradução fluente há de concorrer com a edição, muito bem cuidada, que temos do Príncipe pela editora Martins Fontes.

Para o leitor, não haveria problema em Maquiavel afirmar que muito de nossa vida escapa a nosso controle, nem que pretenda fazer ciência e não moral. O começo de cada uma de suas duas teses é tranquilo. O que choca são as consequências. Primeira: como controlar o máximo possível de nossa vida política? Será que "os fins justificam os meios"? Consultei o Google: só em português, essa expressão aparece 16.500 vezes junto a seu nome. O curioso é que Maquiavel nunca disse isso.

Daí a segunda consequência: ele teria aconselhado os príncipes a mentir, fazer o mal, faltar à palavra, sistematicamente. Contudo, diz ele, o príncipe deve fazer o bem sempre que possível, e usar do mal só quando necessário. O que dá a Maquiavel a fama de amoral é essa dupla ressalva: não fazer o bem sempre, mas quando possível. Sua análise do poder, que é uma festa para a ciência, é uma preocupação para a moral - a tal ponto que em inglês um dos nomes do diabo, Old Nick, derivaria de seu prenome Nicolau.

Como controlar nosso destino, como reduzir o quinhão da fortuna? Não há questão mais atual. No penúltimo e vital capítulo do livro, o autor explica. Há dois tipos de homem, o cauteloso e o impetuoso. Certas épocas requerem cautela (rispetto), outras, impetuosidade. O ideal seria o homem adaptar-se à conjuntura. Este seria o homem prudente: na época se dizia que "o homem sábio (vir sapiens) dominará os astros", isto é, a fortuna. Isso se lê na medalha de Afonso V de Aragão. O "vir sapiens" é o homem prudente com virtù. Maquiavel exorta o príncipe: deve ser plástico, mutável, bom quando possível, mau se necessário, mas, sobretudo, cauteloso ou açodado conforme a ocasião. Se Cesar Borgia perdeu, foi porque não soube mudar quando os tempos assim o exigiram. O problema é que essa plasticidade do príncipe é quase impossível. Daí, um horizonte trágico: por mais que tentemos governar as circunstâncias, podemos perder.

Maquiavel está na origem da "ética do político", diferente da ética do cidadão privado, que FHC citava tanto na presidência da República e que foi teorizada por Weber. Mas o notável no pensador florentino é que, sabe ele, essa ética não é a dos resultados, a do sucesso. Pode resultar em fracasso - como no caso de Cesar Borgia. Nem por isso a política é menos nobre. Ser político não é só vencer. É saber fazê-lo com virtù - capacidade, ação deliberada e, também, uma certa honra. Talvez O Príncipe seja o mais belo elogio da política.



Renato Janine Ribeiro é professor titular de Ética e Filosofia Política da USP


Definindo a largada:: Merval Pereira

DEU EM O GLOBO

Esta será uma semana decisiva para os candidatos à Presidência da República, de definição de posições para a largada da fase final de propaganda eleitoral pelo rádio e televisão, que é a que decide realmente a corrida. O candidato tucano José Serra terá a última chance para começar a campanha pela televisão empatado ou à frente da candidata oficial Dilma Rousseff, como planejado inicialmente.

Com a repercussão do primeiro debate, e as entrevistas dos três principais contendores na bancada do Jornal Nacional a começar de amanhã, a pesquisa do Ibope da próxima sexta-feira definirá a posição de largada dos contendores.

O fato de que os dois ficaram nos mesmos patamares da semana anterior nesta segunda pesquisa semanal divulgada sexta-feira indica uma estabilidade que é boa para Serra, embora ele continue atrás cinco pontos.

A sinalização de que a tendência no momento é a candidata petista ser considerada a favorita da disputa é o fato de que se esperava que ampliasse a diferença.

Ou até mesmo que se confirmassem os números de pesquisas do Vox Populi, dando Dilma oito pontos à frente, ou do Sensus, que mostrou a candidata petista com dez pontos de vantagem.

Eram expectativas de quem esperava que o crescimento de Dilma fosse irreversível.

Não ter acontecido isso já pode ser contabilizado como um ponto positivo para Serra, que tem a seu favor a percepção generalizada de que foi melhor no debate da Bandeirantes, embora não tão melhor que neutralizasse o favoritismo de Dilma.

Ganhou por pontos, já escrevi aqui. Mas, numa disputa acirrada como a que está se desenhando, com outros quatro debates anunciados RedeTV, SBT, Record e TV Globo e as entrevistas nos telejornais da Globo, especialmente o Nacional, Serra espera difundir a imagem de mais preparado para o cargo e reduzir a diferença até superá-la, acumulando pontos nos embates diretos sem par tir para um confronto agressivo que pode assustar.

O mesmo raciocínio pode ser feito para a estreia de Dilma Rousseff na arena de debates.

Não se confirmando a hipótese de um desastre completo que exibisse em cadeia nacional, mesmo de baixa audiência, sua incapacidade de dirigir o país, apregoada pelos adversários, ela pode se considerar vitoriosa.

E com todo o treinamento que vem recebendo, deve continuar evoluindo, acostumando-se com o estresse do debate político.

Esse estresse, aliás, deve ter sido grande para ela, que foi a primeira a deixar o auditório da Bandeirantes logo depois do debate, alegando cansaço.

Os demais candidatos permaneceram no palco, dando entrevistas, sendo gostosamente assediados por todo tipo de pessoas, desde os cômicos do CQC até jornalistas de verdade mesmo.

A alegria exibida por Dilma no dia seguinte ao debate dá a dimensão do peso que ela tirou dos ombros.

O problema é que Dilma é daquelas que vão sendo treinadas on job, e no decorrer da campanha ela tem que se arriscar cada vez mais, se expor ao eleitorado, sujeita a escorregões que podem ser fatais.

Numa empresa, geralmente os que recebem esse tipo de treinamento não trabalham nos setores sensíveis, onde um erro pode ser fatal.

Dilma está tentando aprender as artes da política em plena campanha para o cargo mais importante do país, e tem uma dose maior de risco nessa tarefa.

Não tem se saído tão mal quanto torcia a oposição, mas certamente demonstra a cada dia que ainda não estava madura para disputar o cargo.

Falta-lhe o jogo de cintura que uma vida parlamentar, ou mesmo o exercício da política sindical, dá aos que nelas atuam.

Mas sobra-lhe o apoio do presidente Lula, com sua popularida de intocada pesquisa após pesquisa, e uma conjuntura econômica favorável.

O PSDB vive hoje o drama do PT em 1994 com o Plano Real, e Lula parece ser o Plano Real do PT.

Nesse sentido, se se confirmar que a capacidade de transferência de votos de Lula ainda não se esgotou, a escolha de Dilma como candidata não terá influência na decisão do eleitorado.

Assim como se dizia no tempo do Plano Real que o candidato poderia ser qualquer ministro do governo Itamar, e não necessariamente o ministro da Fazenda Fernando Henrique Cardoso, também agora o que importaria é a figura de Lula, e não o personagem que disputa a eleição em seu nome.

Na época do Plano Real, o presidente Itamar Franco chegou a escolher o então ministro da Previdência Social Antonio Britto, do PMDB, para ser o candidato oficial, mas Britto acabou não querendo disputar.

A questão é tão delicada que Serra tenta se equilibrar entre ser contra o governo, mas não contra Lula, ser contra Dilma, mas não contra seu criador.

Se, no entanto, a campanha tucana conseguir descolar Dilma de seu ambiente artificial sustentado exclusivamente pela energia lulista, e deixá-la exposta ao eleitorado com seus erros e seus acertos, sem se colocar como o antiLula, Serra poderá ser beneficiado.

Ao contrário do que escrevi na sexta-feira, pesquisas de opinião mostram que os senadores José Agripino Maia, do DEM, e Garibaldi Alves, do PMDB, são os favoritos para ocupar as duas vagas em disputa para o Senado, ficando a ex-governadora Wilma Faria, do PT, como a terceira opção.

No macio azul do mar:: Dora Kramer

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Campanha de Dilma não quer fortes emoções, prefere um clima ‘morninho’ até o fim

O alto comando da campanha de Dilma Rous­seff, aquele residente um andar abaixo do ocupado pelo presidente Luiz Inácio da Silva, gostou do debate realizado pela TV Ban­dei­rantes não só porque a candidata sobreviveu sem ferimentos graves.

O que agradou mesmo foi o clima “morninho”, como definiu menos de 24 horas depois um mandachuva da equipe.

“Para nós está bom assim, o rio correndo para o mar. Se continuar no mesmo ritmo a eleição está ganha.”

Quer dizer, sem sobressaltos, sem lances espetaculares, sem arroubos emocionantes, sem movimentos bruscos. Um arroz com feijão bem feito parece ser a receita predileta da campanha petista, cujo coordenador em tela acha que já esgotou sua cota de tiros no pé.

“Demos todos os que tínhamos direito.” Por exemplo, o registro na Justiça Eleitoral do documento “A grande transformação” aprovado em congresso do PT, como programa de governo, com restrições à liberdade de imprensa e violações ao direito de propriedade entre outros pontos eivados daquele modo todo especial que o PT tem de espantar eleitor em seus momentos xiitas.

Justo com Dilma, que não pode, segundo avaliação interna, dar margem a interpretações de que se eleita fará um governo marcadamente de esquerda. “Se Lula não pôde, ela muito menos. Não terá espaço para concessões à esquerda.”

Pelo mesmo raciocínio do quanto mais frio melhor, boa parte do estoque de tiros no pé foi gasta nos primeiros 15 dias depois que Dilma deixou o ministério.

Ela vestiu o figurino de combate, “acreditou” no papel e saiu de pau e pedra para cima do então pré-candidato do PSDB, José Serra. Respondia a tudo, polemizava, fazia frases (“lobo em pele de cordeiro”), brigava sozinha, perdia o em­­bate para si e o tucano só fazendo pose de bom moço.

Não falava mal de Lula e chegou a espalhar pânico nas hostes inimigas. “Ele estava assustadoramente perfeito.”

O que foi assim tão perfeito? A atitude amena, que deixava os petistas na difícil situação de precisar criticar um adversário que elogiava o presidente. Foi na época em que Dilma repetia que Serra era ambíguo sobre ser ou não oposição. “Era um rebate fraco, nada convincente.”

De acordo com a análise do comando petista, as coisas melhoraram depois que a candidata parou de responder a José Serra e ao mesmo tempo o tucano endureceu o discurso.

Na campanha governista o que se diz é que quanto mais oposicionista Serra se mostrar, melhor para Dilma.

Isso tanto pode ser a mais pura verdade como pode ser também um truque para levar o oponente para o lado que mais interessa.

Como distinguir? Im­­pos­sí­­vel, melhor mudar de assunto.

Falar, por exemplo, sobre a expectativa em relação ao programa do horário eleitoral que estreia daqui a dez dias.

O centro dessa questão obviamente é o presidente Lu­­la. A campanha quer dosar sua participação. Nem tanto que faça a candidata desaparecer nem tão pouco que não seja suficiente para dar uma deslanchada nas pesquisas.

Mas Lula em qualquer dose não é bom?

Depende.

O QG petista cita o exemplo recente da campanha para a prefeitura de Belo Horizonte. Tanto o então governador Aécio Neves e o então prefeito Fernando Pimentel apareceram na propaganda que o candidato Márcio Lacerda sumiu. Por pouco não perdeu a eleição.

Portanto, overdose de Lula nem pensar. São 45 dias de programas. Será feito um teste: dependendo do resultado nas primeiras duas semanas, a participação do presidente aumenta ou diminui.

Retomando aquela ideia do início de que a “eleição está ganha” se tudo transcorrer em ambiente morno – o que contraria o argumento de que a agressividade da oposição favorece Dilma –, vamos conferir as contas em relação à possibilidade de vitória no primeiro turno.

Há dois tipos de avaliação. A da maioria, mais otimista, aposta em 50% de chance. A do nosso interlocutor, porta-voz dos prudentes, cai para 5%.

Cálculo de gato escaldado, lembrando que em 2002 e 2006 as pesquisas indicavam vitória de Lula no primeiro turno e nas duas vezes a eleição foi decidida no segundo.

Temente a água fria, não se ilude facilmente: “Eleição en­­gana muito a gente.”

Eleitores e eleitos em tempo de eleições:: Wilson Figueiredo

DEU NO JORNAL DO BRASIL

Entre impostos invisíveis, que lhe são cobrados de todos os lados, mas sem saber onde são aplicados, e eleições que não correspondem às expectativas, o brasileiro continua à espera de compromissos assumidos pelos candidatos e logo esquecidos pelos que se elegem. Do ponto de vista do cidadão, os eleitos e, em particular, os governantes premiados com o voto direto, depois dos 25 anos da volta à democracia básica, só se lembram do eleitorado ao se aproximar a hora de renovação do mandato. Os três partidos com maior peso representativo captaram a confiança tão indispensável quanto o exercício da crítica pelos eleitores e ficaram bem situados nas primeiras eleições, mas não foram capazes de definir o perfil democrático para o Brasil no século 21. Não basta ser a caricatura do que era o quadro político antes do ciclo militar. PMDB, PT e PSDB redesenharam o homem público tradicional mas esqueceram-se de excluir do mandato o enriquecimento pessoal e seus conexos . E recusar, por coleguismo recíproco, que o teor de democracia seja avaliado pelo número de partidos políticos.

Perduram na vida republicana o descrédito acumulado pela representação política e a indiferença parlamentar pelo juízo de baixo valor que a opinião pública lhe dispensa. As três assembleias nacionais constituintes no século 20 foram atropeladas pela distância virtual entre ideias novas e práticas políticas que passam pela ética e fingem não vê-la. A Nova República logo se desfez do adjetivo e autorizou o cidadão a não confiar no que ouve quando se aproxima a hora de ir às urnas. A representação voltou as costas à cidadania, ficou petulante e depreciou a ética. Despojou-se do adjetivo e se empavonou com o substantivo carregado de história desde Roma.

Por ironia da História, nos 18 anos sob a Constituição de 1946, o exercício do direito de greve só veio a ser regulamentado (com restrições autoritárias inevitáveis) em lei do Congresso, por iniciativa do governo Castello Branco, quando já não havia democracia suficiente para tanto.

A Nova República envelheceu rapidamente pela reincidência crescente de traços genéticos e, já sem o adjetivo, se habilita a utilizar o efeito contrário com que Oscar Wilde transferiu para o retrato do personagem do seu romance os efeitos exteriores do envelhecimento, e, em compensação, assegurou a Dorian Gray a juventude que se prolongou no tempo. É, aliás, o que em latim (mutatis mutandis) fica melhor em português (mudando o que se puder mudar) e tem sucedido a todas as constituições brasileiras nascidas de assembleias nacionais constituintes. Havia direito de greve, antes de ser regulamentada, mas as greves continuaram proibidas ou, no mínimo, dificultadas. Ainda hoje não são fáceis.

Bolsa Milionários:: Míriam Leitão

DEU EM O GLOBO

O manifesto das doze entidades empresariais em defesa dos empréstimos subsidiados do BNDES omitiu uma importante informação: quanto eles devem ao banco. Se dissessem, se saberia que defendem seu próprio bolso. Mas é revelador de como a elite adora o governo Lula e sua incrível volta à terra das políticas mortas do governo militar.

Lula, em cada palanque que sobe, critica as elites como sendo um grupo que tentou tirá-lo do poder. Ninguém tentou tirá-lo do poder, e a elite empresarial o adora como se vê nesse manifesto.

Quando tenta criar um inimigo incorpóreo, o presidente está conscientemente fazendo mais uma tentativa de manipular a opinião pública em época eleitoral. Nenhuma novidade.

Ele é assim mesmo. O que espanta é a maneira transparente com que as entidades empresariais disseram desta vez que querem continuar recebendo dinheiro público. Sem dúvida, reconhecemos que o desembolso feito pelo Tesouro é um custo para a sociedade, disseram os empresários em um raro momento de sinceridade.

Qual é o custo? Esse é um dos problemas. A sociedade que paga precisa saber quanto é o subsídio, a quem se destina o dinheiro, com que critérios os beneficiários são escolhidos. E são essas as perguntas feitas. Perguntas legítimas em uma sociedade democrática, em que o contribuinte exige respeito e informação sobre o que é feito com o dinheiro dele.

É ridícula a acusação de que há um ataque ao BNDES. O banco existe há 56 anos, sempre concedeu empréstimos com juros facilitados, cometeu muitos erros no passado, concentrou renda e comprou participações em empresas que faliram.

Ao longo dos anos foi tornando sua atuação mais transparente, mais auditável, corrigindo excessos e se firmou como um importante instrumento de todos os governos.

Só uma visão de Luiz XIV, do tipo o banco sou eu, faz com que o atual presidente Luciano Coutinho reaja às críticas à sua condução como sendo um atentado ao banco em si.

Um dos argumentos apresentados pela atual direção do banco, pelo governo e pelos empresários é que a instituição expandiu seus empréstimos com dinheiro do Tesouro apenas para enfrentar a crise econômica.

Mas a crise passou e aparentemente o que valia em 2009 não vale mais em 2010, lamenta o documento dos empresários.

De fato. Medidas emergenciais são para emergências.

Depois, os excessos têm que ser corrigidos.

Uma lição importante é que a bondade dos bancos públicos com dinheiro do contribuinte vira rombos que aumentam a dívida pública, que excessos e absurdos dessa transferência de renda para os ricos são inflacionários.

Mesmo na ação contra a crise, as decisões que o banco tomou são controversas.

O que há de anticrise nos empréstimos concedidos ao frigorífico JBS Friboi para comprar outro frigorífico no exterior? Ou a montanha de dinheiro transferida para a Telemar comprar a Brasil Telecom? Só para citar algumas das maiores operações que não criaram emprego, não ampliaram investimentos. Nestas duas operações os ganhos foram apenas dos seus acionistas.

Ao contrário do que vem sendo dito, o BNDES não subsidia a compra de empresas, nem escolhe vencedores, diz o manifesto dos super-ricos. Engraçada essa parte. Ela contraria os atos e palavras do banco. O próprio Luciano Coutinho justifica a neoescolha de campeões. Disse que sentia vergonha de que o Brasil não tivesse grandes empresas em algumas áreas.

Os jornalistas Mauro Zanatta e Alda do Amaral Rocha, do Valor Econômico, mostraram em reportagem na semana passada que o banco negou empréstimo a vários frigoríficos médios e deu empréstimos gigantes ao JBS Friboi e Marfrig numa escolha deliberada de alguns grupos para receber o dinheiro barato. O JBS comprou vários outros com esse dinheiro, aqui e no exterior.

Alguns frigoríficos estão falindo; outros nadando em dinheiro do banco. E que não se fale que a escolha do BNDES é por empresas mais sólidas. Como se sabe, o banco torrou R$ 400 milhões em empréstimo e compras de ação do frigorífico Independência, que quebrou em seguida.

O Brasil lutou muito pela estabilização da moeda. Foram anos dedicados ao esforço de corrigir distorções em inúmeras áreas. Uma das frentes da luta foi no saneamento dos bancos públicos.

A bagunça nas suas contas, a falta de transparência, a bondade excessiva aos grandes grupos empresariais, os perdões de dívida estavam na raiz do processo inflacionário. Aquelas políticas de apropriação do dinheiro público pelos muito ricos deixaram uma herança maldita e foram sendo eliminadas uma a uma. Não foi fácil. Só quem viu o dia a dia pode contar.

Grandes grupos empresariais conspiraram contra o processo de modernização.

São os mesmos que agora escrevem manifestos. Defendem essa estranha volta dos mortos-vivos; lutam com sucesso no cemitério das políticas extintas.

O Brasil tem muito a discutir para garantir o futuro depois da estabilização e do aumento da inclusão de brasileiros que a estabilização permitiu. É espantoso e triste que esteja às voltas com a discussão sobre se as políticas de concentração de renda e de benesses com o dinheiro público adotadas nos anos 70 eram boas ou não. Foram péssimas. Elas fizeram um enorme mal ao país. Isso está medido e contabilizado.

A quem interessa repetir os erros de um passado condenável e perigoso? Agora é mais fácil saber.

Os grandes empresários defendem a velha ordem. Eles são a elite amiga de Lula.

Eles não querem o fim do Bolsa Milionários.