quarta-feira, 24 de junho de 2015

Lula e o partido da boquinha – Editorial / O Estado de S. Paulo

Lula cruzou o Rubicão. Depois de ter, na semana passada, criticado pesadamente Dilma Rousseff e seu governo, na segunda-feira ele dirigiu sua devastadora artilharia contra o PT, que “precisa, neste momento, construir uma nova utopia”. Ao incorporar a seu discurso os argumentos básicos dos opositores do lulopetismo – inclusive a mídia independente –, o ex-presidente da República lançou a sorte para si mesmo: não poderá, senão a um custo político altíssimo, voltar atrás na condenação de seu próprio legado e terá de sobreviver politicamente, de agora em diante, por conta exclusiva de sua condição de “metamorfose ambulante”. Mas, o que quer que pense fazer doravante, continuará sendo exatamente o mesmo. Só mudará o figurino talhado no desespero da sobrevivência.

Em seu pronunciamento improvisado – assistia, em seu instituto, a uma palestra do ex-primeiro-ministro espanhol Felipe González que, ao final, o convidou para a mesa e ele resolveu então falar –, Lula fez uma crítica radical ao PT, declarando que “é chegada a hora de se fazer uma revolução interna”. “Temos que decidir se queremos salvar nossa pele e nossos cargos ou salvar nosso projeto.” Os petistas, afirmou, “perderam a utopia”: “A gente acreditava em sonhos. Hoje a gente só pensa em cargo, em emprego, em ser eleito. Ninguém hoje trabalha mais de graça”.

Essa “autocrítica” – se é que se pode chamar assim uma crítica quase que exclusivamente dirigida a terceiros – só não foi completa porque o chefão do PT evitou cuidadosamente qualquer referência explícita ao mar de lama em que o lulopetismo transformou a administração pública. Em nenhum momento Lula mencionou o mensalão ou o escândalo da Petrobrás, nem mesmo para se defender ou ao PT. Mas a denúncia dos desvios de conduta dos correligionários que “perderam a utopia” e agora só pensam em eleger-se e em manter seus cargos inclui, implicitamente, a condenação da corrupção. Pois, se o idealismo já não mais existe, qual a razão pela qual os petistas lutam para manter seus cargos ou se eleger? Lula dá razão ao ex-governador fluminense Anthony Garotinho quando, com inegável conhecimento de causa, definiu o PT como o “partido da boquinha”.

O que Lula ainda não admitiu é que o abandono da utopia começou em seu primeiro ano de governo, em 2003, quando o Fome Zero – um programa complexo de inclusão social, que além de prover auxílio financeiro aos mais necessitados preparava para eles a chamada “porta de saída” de sua condição de miséria – foi trocado pelo Bolsa Família, pragmaticamente destinado, sem maiores complicações e a custo bem menor, a botar o cabresto em “40 milhões de votos”, como proclamava com orgulho o então ministro José Dirceu.

Desde que se deu conta, nos últimos meses, de que Dilma Rousseff, com sua desastrada gestão econômica e as mentiras que disse para se reeleger, acabou por precipitar o País numa grave crise política, econômica e social, levando de arrastão sua própria credibilidade e o prestígio do PT em todos os estratos sociais – diante, enfim, desse panorama devastador para o futuro do lulopetismo –, Lula deu início a uma escalada de críticas à sucessora que ele mesmo escolheu. Críticas públicas e, principalmente, privadas, no âmbito de seu relacionamento mais íntimo e em reuniões com a própria Dilma. Há poucos dias deixou passar a oportunidade de fazer essas críticas no local mais apropriado, o 5.º Congresso do partido reunido em Salvador. A corrente partidária majoritária que lidera houve por bem “dar um tempo” e salvar as aparências num documento oficial anódino e conciliador.

Mas agora, talvez movido por sua proverbial intuição, Lula dá uma guinada significativa em sua trajetória política, abrindo caminho para descolar sua imagem do governo Dilma e reunir em torno de si uma militância partidária pelo menos temporariamente disposta a trocar o manso desfrute das delícias do poder pelo antigo aguerrimento em desafios eleitorais. E já no ano que vem haverá eleições municipais, que poderão ser um esclarecedor teste para 2018.

Como não poderia deixar de ser, em sua “autocrítica” Lula voltou a atacar a imprensa. Sem liberdade de opinião, Lula não teria chegado onde chegou – e ele sabe disso. Ato falho?

Lula vira crítico feroz da própria obra – Editorial / O Globo

• O ex-presidente, ao criticar Dilma e o PT, precisa esclarecer que está fazendo uma autocrítica, dada a sua vinculação à presidente e, mais ainda, ao partido

Lula já parafraseou o roqueiro Raul Seixas e se declarou uma “metamorfose ambulante”. Nos últimos dias, em duas ocasiões, deu provas disso, ao disparar ácidas críticas contra o governo Dilma e o próprio PT. A primeira foi na quinta-feira, num encontro com padres e dirigentes religiosos, em que reconheceu, numa referência ao nível baixo do sistema da Cantareira: “Dilma está no volume morto, o PT está abaixo do volume morto, e eu estou no volume morto”, revelou O GLOBO.

No domingo, na “Folha de S.Paulo”, o Datafolha confirmaria que a rejeição a Dilma chegara a 65%, índice equivalente ao de Collor antes do impeachment; e que, numa eleição presidencial hoje, Lula, com 25% dos votos, perderia para Aécio, com 35%. Ou seja, Lula dera mais uma demonstração de sensibilidade política.

Na segunda-feira, o Lula metamorfoseado atacou o PT. Em debate que promoveu em seu instituto com o ex-presidente do governo espanhol Felipe Gonzales, Lula investiu contra a legenda cuja fundação liderou há 35 anos: “O PT está velho.” E foi ainda mais cáustico, ao dizer que o partido, burocratizado, “só pensa em cargos”.

Há informações de que o Palácio não recebeu bem as estocadas. E teria sido comentado, com pertinência, que, se ele tem plano de tentar retornar ao Planalto em 2018, é um erro bombardear Dilma, devido à extrema dificuldade de o criador se desvincular da sua criatura.

Ao tentar se afastar do até agora fracassado governo, Lula procura se converter numa espécie de analista distanciado de uma realidade da qual é parte indissociável. Missão impossível.

Ora, a busca por cargos e o consequente aparelhamento da máquina pública floresceram em seus dois mandatos. Quando assumiu em 2003, havia 18 mil cargos de confiança na máquina federal. Ao passar a faixa para Dilma, em 2011, já eram pouco mais de 20 mil. Isso sem considerar o inchaço das estatais. Lula é, ainda, o patrono do toma lá da cá do fisiologismo, para barganhar cargos em ministérios em troca de apoio parlamentar. O método foi estendido para o governo Dilma.

No primeiro mandato dela, Lula colocou Antonio Palocci na Casa Civil e manteve Gilberto Carvalho em Palácio, bem como os esquemas fisiológicos. Dilma ensaiou uma "limpeza ética", mas depois teve de recuar, devolvendo, por exemplo, o Ministério dos Transportes ao PR, e assim por diante. Tudo isso sem falar no escandaloso esquema lulopetista montado na Petrobras, razão de nomes ilustres serem encarcerados.

A própria política ruinosa do "novo marco econômico" começou a ser engendrada pela ministra Dilma Rousseff na Casa Civil, no final do seu primeiro mandato, quando ela rechaçou a contenção dos gastos públicos proposta por Palocci e Paulo Bernardo, por considerá-la "rudimentar".

Lula já deu incontáveis demonstrações de sagacidade e esperteza. Mas, ao criticar a gestão Dilma e o PT, melhor esclarecer de que se trata mesmo de uma autocrítica.

Almir Pazzianotto Pinto - Greves Selvagens

- O Estado de S. Paulo

A greve foi uma das últimas entre as mais importantes conquistas das classes trabalhadoras.
Três livros são fundamentais para conhecer a lenta evolução dessa poderosa ferramenta, sem a qual os sindicatos e a negociação coletiva perdem eficácia. Refiro-me a História del Primero de Mayo, de Maurice Dommanget; Evolución de la Clase Obrera, de Jürgen Kuczynski; Greves de Ontem e de Hoje, de Georges Lefranc. Entre os brasileiros, destaca-se a obra de Everardo Dias, História das Lutas Sociais no Brasil. Igual relevância tem o capítulo referente aos conflitos entre capital e trabalho do Tratado de Sociologia de Trabalho, de Georges Friedman e Pierre Naville.
No Direito brasileiro, o exercício da greve só adquiriu maioridade com a Constituição de 1988. Até então submetido a rigorosas exigências legais, ele sofria incessante combate do governo. Prova disso eram as habituais sentenças de ilegalidade, seguidas por intervenções, cassações e prisões de dirigentes.

Empenhada em garantir conquistas até então inéditas, a nova Constituição dedicou ao direito de greve dois dispositivos: o artigo 9.º, aplicável às relações de trabalho no âmbito da iniciativa privada, de imediato regulamentado pela Lei n.º 7.903/89; e o inciso II do artigo 37, que, para completar a garantia de livre sindicalização, o estendeu aos servidores públicos, porém “nos termos e nos limites definidos em lei específica”.

Embora admitidos na esfera da iniciativa privada e na administração pública, são direitos visivelmente distintos. Na órbita das relações coletivas, a greve goza de ampla liberdade, exceto em serviços e atividades essenciais, correspondentes às “necessidades inadiáveis da comunidade”, conforme artigo 11 daquela lei. Como tal se entendem as que, desatendidas, ponham “em perigo eminente a sobrevivência, a saúde ou a segurança da população”.

Assistência médica e hospitalar, transporte público, controle de tráfego aéreo e compensação bancária são algumas atividades cuja paralisação causa graves transtornos aos usuários. Segundo a Constituição, greve em serviço essencial atrai pronta intervenção do Ministério Público, cabendo ao Judiciário trabalhista encerrar o conflito sem exame das reivindicações, o que nem sempre acontece.

Na administração pública a greve é direito retido. Falta-lhe, para regular exercício, a lei específica cobrada pelo referido inciso VII do artigo 37. Trata-se, no jargão jurídico, de prerrogativa em estado latente, inerte, apesar de transcorridos quase 27 anos desde que foi concebida no ventre da Assembleia Nacional Constituinte.

Para a empresa a parede faz parte do mundo real, do dia a dia, com a qual se defronta habitualmente. O desligar das máquinas afeta de imediato a produção. A mercadoria deixa de sair, o dinheiro para de entrar e as perdas não se resumem aos lucros, mas atingem a própria essência do negócio.

Servidores remunerados com dinheiro do contribuinte não deveriam ter direito à paralisação. O orçamento público não pode ser mera peça de ficção, sujeito a oscilações de acordo com a pressão das massas. Reparar o equívoco da Assembleia Constituinte parece-me impossível. Poderá ele, todavia, ser atenuado por lei que lhe imponha limites rígidos – e exclua serviços que jamais, e por nenhum motivo, poderão ser interrompidos.

Na iniciativa privada a greve afeta o dono; no serviço público, alcança a população. Interrompe atividades essenciais às camadas populares: educação, hospitais – municipais, estaduais e federais –, atendimento judiciário, segurança pública, Previdência Social, transportes coletivos.

O direito de greve deve ser interpretado por ângulos distintos: o de quem o exerce e o de quem o sofre. Na órbita privada, afetado é o empregador que se recusou a negociar, negociou mal ou se revelou disposto a correr os riscos do prejuízo. No setor público, atingido é o povo, nas camadas mais necessitadas.

A inexistência da lei específica é produto do descaso de sucessivos presidentes da República e da apatia dos partidos políticos. Ao chefe do Poder Executivo, e apenas a ele, compete a iniciativa do projeto, conforme prescreve o artigo 61, § 1.º, II, c, da Lei Maior. Desde 1988 nenhum presidente tratou do assunto com a seriedade inerente à matéria.

Com sua história marcada por apego ao tumulto, paralisações justas e injustas, legítimas e ilegítimas, tranquilas e selvagens, é impossível imaginar que o Partido dos Trabalhadores (PT) pudesse ser sensível ao caos provocado pela interrupção de atividades essenciais. Para o partido, greve é direito irrestrito, sem barreiras e sem pudor, como revelou na paralisação da Petrobrás em maio de 1995.

Entendo o PT. Não consigo, porém, aceitar o procedimento do PSDB, que, quando exerceu a Presidência da República, durante oito longos anos, foi incapaz de imprimir a necessária disciplina à norma constitucional. Conseguiu ver aprovadas pelo Congresso Nacional emendas constitucionais sobre a reeleição e a reforma do Poder Judiciário, além de leis complexas e polêmicas, como a Lei de Responsabilidade Fiscal, mas ignorou a greve no serviço público.

Para dirigentes sindicais de servidores públicos, a greve é um recurso legal, eis que se encontra inscrito na Lei Fundamental. Fazem-se esquecidos, no entanto, no que toca à obrigatoriedade de regulamentação. A milhões de prejudicados resta o tortuoso caminho do Poder Judiciário, no qual se atropelam decisões conflitantes relativas ao desconto dos dias de paralisação e à responsabilização civil de sindicatos e de seus dirigentes.

Refém indefesa de constantes greves em serviços públicos vitais, decretadas por minorias organizadas, a população brasileira permanece à espera da lei específica que ponha termo ao seu sofrimento.

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*Almir Pazzianotto Pinto é advogado, foi ministro do trabalho e presidente do tribunal superior do trabalho (TST)

Vinicius Torres Freire - O rapa nas empresas e o PIB

- Folha de S. Paulo

• País se move, mas economia vai piorar um tanto mais com novas prisões e inquéritos

A cúpula das duas maiores empreiteiras do Brasil está presa. O crédito da Odebrecht foi rebaixado, tal como acontecera com o da Petrobras e o de outras empreiteiras da Lava Jato, embora a empresa esteja muito longe da ruína de suas irmãs menores. Executivos de montadoras, bancos e de grandes associações empresariais foram convocados para depor pela CPI que investiga suborno no "tribunal dos impostos", a CPI do Carf.

Ninguém sensato arriscaria estimar o efeito total desse rapa imenso no grande empresariado, ainda menos se considerada também a barafunda política e econômica mais geral. No entanto, é uma especulação razoável dizer o seguinte.

Primeiro, o crédito das empresas brasileiras, das empresas de construção em particular, vai ficar mais prejudicado, aqui e lá fora: mais caro, mais escasso. Vimos esse filme no ano passado, quando a Petrobras levava tiros na testa e o governo não se movia, aparentemente por não entender o que é descrédito e seu significado prático em finança. Não vai ser, claro, tão ruim como no vexame e na exposição das ruínas da petroleira. Mas vai ser ruim.

Segundo, vai haver ainda mais dúvidas sobre o pacote de concessões de obras de infraestrutura que o governo lançou faz duas semanas. O plano é cru, tem contradições (não integra as obras, várias delas sobrepostas), tem maluquices feito o trem do Peru e está à espera de projetos e garantias legais e regulatórias antes de ter jeito de ser implementado. Havia dúvidas sobre quais empreiteiras poderiam participar do negócio. Agora, complicou um tanto mais: quem estará apto, limpo, organizado ou capitalizado para atrair sócios (empresas menores ou do exterior)? Qual o dano geral de imagem do país?

Terceiro, a barafunda política pode aumentar ou ter ramificação nova; há o risco de "pegarem o Lula", tal como saliva a oposição, o que daria em tumulto. É especulativo, decerto, mas por que tanta gente e empresa graúda não reagiria, de alguma forma, à razia dos inquéritos?

Difícil que seja uma reação agressiva, que não pegaria bem, pois o brasileiro médio quer que algumas cabeças rolem. Pode aparecer uma tentativa de acordão, como o que vinha sendo costurado para permitir às empreiteiras participar das próximas concorrências do governo. Pode ser uma reação de retirada, de temor sobre o próprio destino e da imprevisibilidade das ações policiais e judiciais. O que mais está por vir?

O Eletrolão, rolos denunciados na Eletrobras, nem começou. O suborno no Carf estava com jeito de que iria minguar, mas há reações contra o juiz que tomava conta do caso e, embora as CPIs estejam cada vez mais avacalhadas, os inquéritos costumam desencapar fios elétricos. A Lava Jato já tem outras bombas, com delações armadas para explodir.

Quarto, as empresas da Lava Jato, decapitadas de suas lideranças e dedicadas a resolver rolos, tendem a ficar mais desorientadas, a perder negócios, a fechar menos contratos. A economia ruiu também devido ao dominó destrutivo que começou na paralisia da Petrobras, passou para suas obras, para estaleiros, para fornecedores das empresas associadas à petroleira e daí por diante.

Sim, o rapa no empresariado vai fazer a economia piorar um tanto mais.

Miriam Leitão - Impasse grego

- O Globo

As tragédias gregas eram como lições cívicas. Os valores defendidos em Tebas eram tão universais que atravessaram os séculos com sua poesia e força. A nova Grécia parece querer colocar a humanidade diante de dúvidas trágicas. Tudo se encaminha para um acordo na zona do euro, mas o PIB do país cai há 18 trimestres consecutivos e ainda não encontrou o chão.

Poderia a Grécia não fazer ajuste algum? Impossível. Ela viveu além das suas posses durante muitos anos. Favorecida pela moeda comum e pela facilidade de financiamento, a Grécia se endividou com juros alemães, até que houve a crise de 2008, e os mercados passaram a cobrar taxas diferentes dependendo do país.

A Grécia de antes da crise tinha uma burocracia inchada, com números extravagantes de funcionários públicos, a população se aposentava aos 54 anos, pagava-se pouco imposto, e o governo se endividou demais. Foi uma farra ateniense, até que o país acordou em Esparta, tendo que lutar contra os infortúnios.

No fim de semana, o ministro Yanis Varoufakis apresentou alguns números. Taxa de desemprego de 27%. Um em cada dois jovens está desempregado, e a juventude está deixando o país. Uma em cada três mulheres não encontra trabalho. A dívida bruta subiu 20 pontos entre 2012 e 2014 e chegou a 177% do PIB.

Segundo Varoufakis, os salários caíram 37% nos últimos anos, os gastos com pensões e aposentadorias foram reduzidos em 48%, o emprego público diminuiu 31%. A retração do consumo foi de 33%. O ajuste fiscal, segundo ele, foi inédito na história de qualquer país: 20 pontos do PIB. Saiu de um enorme déficit e chegou ao superávit primário.

O sistema financeiro, na semana passada, parecia à beira do colapso, com a intensificação da corrida bancária. Mais de € 4 bilhões foram sacados dos bancos, porque os gregos sabem que a recriação do dracma, em caso de saída do país da zona do euro, acontecerá com uma forte desvalorização da moeda. Segundo a economista Monica de Bolle, que trabalhou no FMI e hoje é pesquisadora no Peterson Institute for International Economic, sem as linhas de financiamento do Banco Central Europeu, os gregos fatalmente teriam que deixar o bloco:

— Ao contrário do que aconteceu com Espanha, Irlanda e Portugal, as medidas de austeridade na Grécia não foram reformas que aumentaram a produtividade. Ela caiu. O problema é que isso não vai ser revertido agora, na situação dramática em que a Grécia está.

Nicola Tingas, economista-chefe da Acrefi, e que tem parentes na Grécia, explica que um em cada quatro trabalhadores gregos ainda está no serviço público, apesar do enxugamento da máquina. A evasão fiscal é alta, e ele lembra que houve maquiagem nas contas do governo, para entrar na zona do euro. Apesar de todo o drama grego, os europeus ainda acham que o governo precisa fazer mais.

— Os gregos não aproveitaram o período de bonança para se modernizar e hoje não têm o que oferecer ao mundo para voltar a crescer. Também existe um impasse político. Se a Europa perdoar a dívida, outros países vão querer também, como Espanha, Portugal e Irlanda. Partidos que pregam o fim da austeridade se fortaleceriam — disse Tingas.

Como a crise tem sido longa, os bancos privados se livraram de grande parte dos títulos gregos. Cerca de 80% da dívida está com órgãos institucionais, como FMI e BCE. Por isso, o contágio nos mercados tem sido pequeno. Mesmo assim, é difícil prever os efeitos de uma saída do país do euro. Segundo a consultoria inglesa Capital Economics, países emergentes, como o Brasil, sofreriam impacto.

“As moedas desses países emergentes — como Brasil, Indonésia, África do Sul e Turquia — que dependem de fluxo de capitais de curto prazo são as mais vulneráveis”, disse em relatório.

Felizmente, o cenário mais provável, agora, é de um acordo, com a dívida sendo rolada, e os gregos recebendo mais uma parcela do empréstimo para estimular a economia. Em contrapartida, terão que subir o imposto sobre consumo e fechar brechas na legislação que elevou a idade de aposentadoria.

Toda tragédia grega deixa uma lição. A da Grécia dos tempos atuais é a de que o gasto descontrolado cobra uma conta pesada. Até o governo que foi eleito se opondo ao ajuste está tendo que rever a posição.

Alceu Valença e Orquestra Ouro Preto - Tropicana

Graziela Melo - Olhares

Olhares,
tristes,
sombrios,
lacrimosos

meditativos
receosos!

Dão sinais
de alegria

reflexos
da fantasia

e podem ser
duvidosos...

Olhares,
infinitamente
bondosos

repletos
de compaixão

denotam
as dores
da alma

segredos
do coração...

Vislumbram
o sentir
alheio

discretos
e sensatos
entre
a dúvida
e o receio...

Olhares
que vão
distante,

muito além
do além-mar

do limite
das estrelas...

olhares
me fazem
chorar!!!

terça-feira, 23 de junho de 2015

Opinião do dia – Ricardo Noblat

“A crise deriva de erros cometidos por Lula e Dilma. O pai da crise é ele. A mãe, ela. De nada adianta Lula sugerir a Dilma que vá para a rua falar com o povo. Ela não tem o que dizer. O PT, tampouco. Envelheceram o discurso e os métodos do Sr. "Brahma", como Lula foi chamado por alguns empreiteiros. É um ciclo político que se esgotou. Apenas isso, e nada mais.”

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Ricardo Noblat é jornalista. No artigo ‘Fini!’. O Globo, 22 de junho de 2015.

Pela 1º vez, maioria é contra norma que permite reeleição

• 67% são contra instituto que possibilita recondução ao cargo, diz Datafolha

• Oposição ao voto obrigatório bate recorde histórico, mas modelo foi mantido na reforma política da Câmara

Ricardo Mendonça Editor-adjunto de "Poder" – Folha de S. Paulo

Pesquisa Datafolha mostra alterações contundentes de opinião da população a respeito de dois temas da reforma política, pacote hoje em discussão no Congresso.

Primeira: o apoio majoritário ao instituto da reeleição desapareceu. Segunda: a rejeição à obrigatoriedade do voto bateu o recorde da série de pesquisas a respeito.

O apoio maciço ao fim da reeleição é inédito. Na primeira pesquisa sobre o tema, em 2005, 65% foram a favor do direito do presidente concorrer a um novo mandato. Era véspera do ano eleitoral que teria o então presidente Lula concorrendo mais uma vez.

Dois anos depois, com Lula já reeleito, o apoio à reeleição recuou sete pontos, mas continuava sendo uma opinião compartilhada por mais da metade do eleitorado.

Agora, com a presidente Dilma Rousseff recém-reeleita batendo recorde de rejeição (65% a desaprovam), só 30% são favoráveis à reeleição.

Já os contrários pularam de 39% para 67% desde o último estudo. Opiniões sobre reeleição para governadores e prefeitos são quase idênticas.

"A rejeição a Dilma pesa, mas não só. Há um contexto muito forte de rejeição geral à política, que vem desde junho de 2013", diz o diretor-geral do Datafolha, Mauro Paulino,

Na Câmara, a extinção da reeleição foi aprovada em maio pelo elástico placar de 452 votos a 19. Para vigorar, a regra precisa passar por nova votação na Casa e, depois, ser aprovada pelo Senado.

Outro resultado que coaduna com o sentimento de rejeição à política é o recorde de oposição ao voto obrigatório, que passou de 54% para 66% desde outubro de 2014.

O comportamento da Câmara, nesse caso, foi na contramão da opinião popular. A ideia do voto facultativo foi derrotada por 311 votos a 134.

O Datafolha também perguntou aos eleitores se eles iriam votar se não fosse obrigatório. De cada dez, seis responderam que não votariam.

É importante notar, nesse caso, que não se trata de uma opinião homogênea na sociedade. Se o voto fosse facultativo, são os mais pobres e os os menos escolarizados os que mais deixariam de votar.

Na fatia dos que têm renda familiar mensal acima de dez salários mínimos, 62% votariam mesmo se fosse opcional. Entre os que estão abaixo de dois salários, só 35% votariam. Diferenciação parecida ocorre na segmentação por escolaridade. Entre os que têm ensino superior, 56% votariam. No grupo dos que têm até o fundamental, 34%.

Nos Estados Unidos, onde o voto não é obrigatório, o fenômeno é conhecido. Os mais pobres têm, proporcionalmente, participação menor.

O Datafolha também perguntou sobre a alteração do tempo de mandato dos políticos. A maioria (53%) disse ser favorável a cinco anos para todos os cargos eletivos, como aprovado pela Câmara.

A pergunta feita pelo instituto, porém, pode ter contaminado parte das respostas, admite Paulino. Isso porque, antes de colocar a questão, os entrevistadores informavam aos entrevistados que "políticos eleitos têm um mandato de quatro anos, com exceção de senadores, que têm mandato de oito anos".

Assim, fica impossível separar os que responderam mais motivados pelo desejo de reduzir os mandatos de senadores daqueles que podem ter respondido motivados pelo desejo de aumentar os mandatos dos demais políticos com cargo eletivo.

O Datafolha ouviu 2.840 pessoas nos dias 17 e 18 de junho. A margem de erro é de dois pontos para mais ou para menos.

Câmara deu aval a 14 mudanças em reforma política

- Folha de S. Paulo

BRASÍLIA - Prometida como resposta aos protestos de rua iniciados em junho de 2013, a atual reforma política na Câmara já aprovou parcialmente 14 alterações.

Uma das principais é o fim da reeleição para cargos do Executivo a partir das eleições de 2016. Os deputados também aprovaram a unificação dos mandatos eletivos em cinco anos, com prazo de transição até 2027.

Essas duas medidas, porém, correm risco de serem derrubadas no Senado, já que estabelecem, ao final, a redução do mandato dos senadores de 8 para 5 anos.

Outra mudança aprovada pelos deputados é a inclusão de doações eleitorais de empresas na Constituição. Essa alteração deve ser mantida pelos senadores.

Os deputados aprovaram também a obrigatoriedade de impressão do voto e regras de alcance restrito como a permissão para que policiais militares e bombeiros possam voltar à ativa caso não sejam reeleitos.

Por serem propostas de emenda à Constituição, essas alterações precisam ser votadas de novo pelo plenário da Câmara, o que deve ocorrer no próximo mês.

Registros apontam encontros de 21 políticos investigados na Lava Jato com direção da Petrobrás

Beatriz Bulla e Talita Fernandes - O Estado de S. Paulo

• Ao todo foram 121 visitas, a maioria do deputado Aníbal Gomes a Paulo Roberto Costa, um dos delatores da operação

BRASÍLIA - Registros de entrada e saída do edifício-sede da Petrobrás no Rio de Janeiro, solicitados por investigadores da Operação Lava Jato, apontam encontros de parlamentares investigados por suposta participação no esquema com o ex-diretor da petroleira Paulo Roberto Costa e outras autoridades, inclusive com a ex-presidente da estatal, Graça Foster.

A Polícia Federal solicitou os registros da portaria do prédio a partir de 2007. Não foram verificados dados do escritório da estatal em Brasília. Os investigadores analisaram o registro de entrada dos 39 investigados no inquérito que corre perante o Supremo Tribunal Federal (STF) para investigar suposta formação de quadrilha. No total, dos investigados, 21 políticos estiveram na sede da estatal em 124 visitas.

A investigação aponta mais de 45 registros de entrada do deputado federal Aníbal Gomes (PMDB-CE). O parlamentar é apontado pelo ex-diretor de Abastecimento da Petrobras Paulo Roberto Costa, um dos delatores da Operação Lava Jato, como um "interlocutor" do presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), no contato com a diretoria da estatal. A maioria dos encontros de Gomes foi com o próprio Paulo Roberto Costa.

Gomes se reuniu também com o ex-diretor Néstor Cerveró, com o ex-gerente executivo de Comunicação Institucional da estatal Wilson Santarosa e com o ex-diretor José Alcides Santoro. Não foram encontrados registros de entrada de Renan Calheiros no período analisado.

Depois de Aníbal Gomes, o político investigado no inquérito relativo a formação de quadrilha que esteve mais vezes na Petrobras foi o deputado Eduardo da Fonte (PP-PE), que tem 12 registros de entrada no prédio da estatal, onde esteve reunido com Paulo Roberto Costa. O parlamentar do PP também se encontrou com o ex-gerente da estatal Pedro Barusco, que já confessou ter recebido propinas em contratos da Petrobras com empreiteiras, além de ter se reunido segundo os registros com o ex-presidente da empresa José Sérgio Gabrielli e com o ex-gerente Djalma Rodrigues.

Foram contabilizados ainda no prédio da empresa dez registros de entrada do senador Ciro Nogueira (PP-PI) com visitas a Paulo Roberto, Djalma Rodrigues, Barusco e também à ex-presidente da estatal Graça Foster. Também foram registradas dez entradas do deputado José Otávio Germano (PP).

O lobista Fernando Baiano esteve cinco vezes no prédio da estatal, sendo que os investigadores destacam um encontro com Paulo Roberto Costa no qual ele estaria representando a empresa Iberbras. "É possível que se trate da empresa Iberbras Integración de Negócios Y Tecnologia S.A., citada na denuncia do MPF como uma das destinatárias dos pagamentos oriundos da offshore Piemon Investment Corp, no Banco Winterbothan, no Uruguai, de propriedade de Julio Camargo", escrevem um agente e um escrivão da PF que analisaram o material.

O senador Edison Lobão (PMDB-MA) esteve no prédio como ministro de Minas e Energia duas vezes, uma com Gabrielli e outra com Graça. Mais dois senadores peemedebistas estiveram no prédio da Petrobras: Romero Jucá (RR), cinco vezes, e Valdir Raupp (RO), três vezes.

PP. Vários parlamentares e ex-parlamentares do PP investigados frequentaram a Petrobras. O deputado do PP e ex-ministro Aguinaldo Ribeiro (PB) teve duas entradas para falar com Paulo Roberto Costa. Também foram duas vezes ao prédio da Petrobras no Rio o senador do PP Benedito de Lira (AL), o deputado do partido Jerônimo Goergen (RS) e o ex-deputado da sigla, Luiz Argôlo . O ex-deputado do PP João Pizzolatti entrou três vezes na Petrobras.

Entraram uma vez no prédio os deputados do PP Arthur de Lira (AL); Waldir Maranhão (MA); Luiz Fernando Faria (MG), Nelson Meurer (PR), Roberto Egídio Balestra (GO), Simão Sessim (RJ) e os ex-deputados do partido Pedro Corrêa e Pedro Henry.

Também do PP, a ex-deputada Aline Corrêa tem registro de entrada na refinaria de Abreu e Lima, em Pernambuco. Já os deputados Sandes Júnior (GO) e Luiz Carlos Heinze (RS) têm cadastro na sede da estatal, mas não possuem registro de entrada. Não foram encontrados registros de entrada dos demais investigados, caso, por exemplo, de Calheiros e do ex-tesoureiro do PT João Vaccari.

Outro lado. O advogado do deputado federal Aníbal Gomes não atendeu a ligação da reportagem. Já o responsável pela defesa de Eduardo da Fonte (PP), Hamilton Carvalhido, afirmou que o cliente esteve em vários dias na Petrobras para tratar de assuntos do interesse dos eleitores dele e foram "visitas institucionais".

Marcelo Bessa, advogado de José Otávio Germano e de Luiz Fernando Faria, ambos do PP, afirmou que os clientes já prestaram os devidos esclarecimentos sobre o assunto. O advogado Nélio Machado, que defende Fernando Soares, conhecido como Fernando Baiano, afirmou que o fato de o cliente nunca negou conhecer pessoas da Petrobras e o fato de ter entrado na estatal não é comprovação de irregularidade.

O advogado Antônio Carlos de Almeida Castro, o Kakay, disse que seus clientes visitaram a Petrobrás para tratar de assuntos de interesse dos Estados que eles representam e que as visitas foram confirmadas pelos parlamentares nos depoimentos prestados à Polícia Federal. "A Petrobrás ainda não era um ser que passava câncer para quem a visitava. Ela não era leprosa.
Naquela época nós estávamos falando da maior empresa do Brasil", disse. Kakay atua na defesa dos senadores Ciro Nogueira (PP-PI), Romero Jucá (PMDB-RR) e Edison Lobão (PMDB-MA).

O advogado do deputado Aguinaldo Ribeiro (PP-PB), o criminalista Roberto Podval, disse à reportagem que a quantidade de vezes que o deputado foi à Petrobrás "só demonstram a sua inocência". "Durante todo esse período ele só foi duas vezes", disse. Segundo o advogado, uma das visitas foi feita para manter os serviços de um porto na Paraíba e outra para apresentar um projeto para que a mão de obra de seu Estado fosse aproveitada em uma unidade da Petrobrás, projeto que não foi para frente. Os demais advogados não foram localizados em razão do horário.

Em acareação, delatores confirmam pedido de R$ 1 milhão de ex-ministro

• Paulo Roberto Costa ficou frente a frente com o doleiro Alberto Youssef por 10 horas, na Polícia Federal, em Curitiba, para tratar de pontos conflitantes de delações

Ricardo Brandt, enviado especial a Curitiba, Fausto Macedo e Julia Affonso – O Estado de S. Paulo

O ex-diretor de Abastecimento da Petrobrás Paulo Roberto Costa sustentou em acareação com Alberto Youssef nesta segunda-feira, 22, em Curitiba, que o ex-ministro de Comunicação Paulo Bernardo solicitou R$ 1 milhão para o esquema de cartel e corrupção na Petrobrás. Peças centrais nas investigações da Operação Lava Jato, os dois ficaram frente a frente por cerca de 10 horas para confrontar versões conflitantes de suas delações premiadas, em relação ao envolvimento de políticos.

Nesta terça-feira, 23, os dois vão detalhar o suposto pagamento de R$ 2 milhões a pedido do ex-ministro Antônio Palocci em 2010. A Lava Jato apura se a beneficiária foi a campanha da presidente Dilma Rousseff (PT), em 2010.

Os dois farão acareação ainda na quarta-feira e na quinta-feira, tratando de outros pontos que não são convergentes entre as duas delações, como o envolvimento do ex-ministro Edison Lobão, do PMDB.

Os três ex-ministros são alvos de inquéritos abertos a partir de março dentro do conteúdo das delaçõres premiadas fechadas por Costa e Youssef no Supremo Tribunal Federal (STF). Na ocasião, os pedidos do procurador-geral da República, Rodrigo Janot, foram para abertura de inquérito contra Lobão e a senadora Gleisi Hoffmann (PT-PR) – suposta beneficiária do pedido feito por Bernardo. No caso de Palocci, o STF remeteu o caso a Curitiba, onde foi aberto inquérito.

A acareação é conduzida por um delegado da PF de Brasília, onde são conduzidos os inquéritos sob a guarda da força-tarefa criada pelo procurador-geral da República, Rodrigo Janot. Os termos são colhidos no âmbito dos inquéritos que sobrem no Supremo Tribunal Federal (STF), envolvendo políticos, e que estão em fase inicial.

O ex-diretor e o doleiro são condenados da Lava Jato acusados de serem braços do PP no esquema de corrupção, desvio e lavagem de dinheiro na Petrobrás, entre 2004 e 2012 – com pagamentos acontecendo até 2014.

Costa cumpre prisão em regime domiciliar no Rio. Ele chegou por volta das 9h30 na Superintendência da Polícia Federal, em Curitiba – sede das investigações da Lava Jato. Deve permanecer em um hotel de Curitiba, durante a semana.

Confirmação. Em relação a Paulo Bernardo, os delatores apontam o pagamento de R$ 1 milhão para a campanha de 2010 da ex-ministra da Casa Civil Gleisi Hoffmann (PT-PR), que foi eleita senadora naquele ano. Bernardo, que é marido da senadora, fez a solicitação
Um dos pontos de divergência explicado foi o de quem efetivamente teria entregue os valores pedidos por Paulo Bernardo. O doleiro não ter sido ele pessoalmente o efetivador das entregas.
Os depoimentos dos dois delatores foi convergente na maioria dos pontos abordados. “São informações que não chegam a ser contraditórios”, afirmou um dos advogado de Youssef, Tracy Reinaldet.

Com a palavra, a defesa
Paulo Bernardo não foi encontrado para comentar o assunto nesta segunda-feira. Em outras ocasiões, ele afirmou que “não pediu nem recebeu qualquer importância” do doleiro Alberto Youssef.

A senadora Gleisi Hoffmann tem sustentando que desconhece Youssef e que “todas as doações constam na prestação de contas aprovada pela Justiça Eleitoral.”

Empreiteiras fizeram repasses suspeitos a operador que contratou Dirceu

• Consórcio formado por Odebrecht e UTC repassou R$ 1,5 milhão para empresa de alvo da Lava-Jato

Cleide Carvalho – O Globo

SÃO PAULO - A Jamp Engenheiros Associados, empresa de Milton Pascowitch que pagou cerca de R$ 1,4 milhão à consultoria do ex-ministro José Dirceu, também recebeu dinheiro de consórcio formado pelas empreiteiras Odebrecht e UTC. Segundo o juiz Sérgio Moro, há “fundada suspeita” de que o repasse tenha sido direcionado a dirigentes da Petrobras.

O consórcio PRA 1-Módulos repassou, em 2004, R$ 1.533.375 para a Jamp. O mesmo valor teria sido transferido pelo consórcio à Rio Marine, de Mário Goes, também apontado pelo Ministério Público Federal como operador de propinas pagas com dinheiro de obras da Petrobras. Goes teria atuado também para a Andrade Gutierrez, outro alvo da 14ª fase da Lava-Jato.

“Em ambos os casos, há fundada suspeita de que esses repasses, efetuados por pagamentos de consultoria, visavam apenas dar aparência lícita do pagamento de propinas a operadores, depois direcionados aos dirigentes da Petrobras”, escreveu Moro no despacho que levou à prisão dos presidentes da Odebrecht, Marcelo Odebrecht, e da Andrade Gutierrez, Otávio Azevedo, na última sexta-feira.

Goes e Pascowitch, diz o MPF, “eram responsáveis por intermediar pagamentos de propinas e lavar o dinheiro oriundo dos crimes de fraude à licitação e cartel. A partir dos recebimentos de valores das empreiteiras em suas contas, fundamentados em contratos falsos de consultoria que buscavam conferir aparência lícita aos pagamentos, eles repassavam os valores” a servidores e políticos.

Pascowitch é um dos investigados da Lava-Jato e está preso no Complexo Médico Penal do Paraná. Semana passada, o advogado de Dirceu, Roberto Podval, disse que Pascowitch pagou R$ 400 mil como entrada para compra do escritório da consultoria do ex-ministro, a JD. Podval disse que Dirceu prestou serviços à Engevix, onde Pascowitch trabalhou, e que posteriormente o cliente resolveu transferir o contrato de consultoria da JD para a Jamp. Segundo ele, nos dois casos Dirceu prestou serviços de prospecção de negócios no exterior, sobretudo na América Latina.

O MPF identificou pagamentos de R$ 78.753.337,58 feitos pela Engevix à Jamp entre 2004 e 2014. A PF já havia identificado também pagamento de R$ 2,6 milhões feito pela UTC à Jamp.

A empresa de Pascowitch também recebeu R$ 281.465 da GDK, a mesma que doou um Land Rover a Sílvio Pereira, ex-secretário geral do PT, fato apurado no mensalão. A Jamp também transferiu dinheiro à D3TM, de Renato Duque, e à Costa Global, controlada por Paulo Roberto Costa.

A Odebrecht disse que “nunca manteve contrato com a Jamp nem com a Rio Marine”. A UTC afirmou não comentar “investigações em andamento”. O advogado de Pascowitch não foi encontrado.

Doleiro Youssef identificou a investigadores pagamentos da Odebrecht

• Montante seria de US$ 4 milhões, repassado a uma empresa de fachada

Eduardo Bresciani – O Globo

BRASÍLIA - O doleiro Alberto Youssef identificou para os investigadores da Operação Lava-Jato depósitos de US$ 4 milhões que teriam sido feitos pela Odebrecht para uma empresa de fachada usada no esquema. Segundo o doleiro, o montante fazia parte de acordo para o pagamento de R$ 7,5 milhões em propinas no exterior. A Odebrecht nega ter feito pagamentos a ex-diretores da Petrobras ou a “supostos intermediários”. Os documentos referentes aos depósitos fazem parte do processo que levou à prisão de dirigentes da empreiteira semana passada.

Os depósitos identificados por Youssef são em uma conta da RFY Import & Export, empresa de fachada controlada por Leonardo Meirelles, dono do laboratório Labogen. Meirelles admitiu ter feito operações superiores a US$ 100 milhões para Youssef no exterior, mas disse que precisava ir ao exterior para tentar identificar nos extratos a origem dos pagamentos. Youssef apontou aos investigadores oito repasses entre setembro de 2011 e maio de 2012 que teriam a Odebrecht como fonte originária.

Os extratos são de uma conta no Standard Chartered, de Hong Kong. Não há nomes de quem fez o depósito, apenas números. Os extratos foram anexados ao inquérito que levou à prisão dos executivos. Foram destacados com caneta marca-texto os depósitos que seriam da Odebrecht. Os extratos foram apreendidos pela PF em março de 2015, no escritório de uma das empresas de Youssef, a GFD Investimentos.

Youssef afirma que Cesar Rocha, diretor financeiro da holding da Odebrecht, era o responsável pelos pagamentos. Diz que o acerto era referente a propinas devidas pela empresa pelos contratos firmados para obras na refinaria Abreu e Lima (PE) e no Complexo Petroquímico do Rio (Comperj).

Em nota, a Odebrecht contestou Youssef e negou ter feito os pagamentos: “A CNO reafirma que não fez nenhum tipo de pagamento ou depósito para ex-diretores da Petrobras e seus supostos intermediários. As acusações de réu confesso em dezenas de processos que tramitam na Justiça Federal do Paraná são mentirosas. Todos os contratos obtidos, há décadas, pela CNO junto à Petrobras seguiram estritamente o que estabelece a legislação vigente”.

Nova acareação entre Youssef e Costa será centrada em doação para campanha de Dilma

• Após ficar frente à frente por oito horas, doleiro e ex-diretor da Petrobras divergiram em diversos pontos

Germano Oliveira, Enviado Especial, e Thais Skodowisk* - O Globo

CURITIBA. A acareação entre o doleiro Alberto Youssef e o ex-diretor de Abastecimento da Petrobras Paulo Roberto Costa durou oito horas, sem que as principais divergências entre eles tenham sido resolvidas. Cada um manteve basicamente o que havia dito antes. O principal ponto de conflito entre os dois nem chegou a ser apreciado pelos delegados da Polícia Federal e Procuradoria da República que vieram de Brasília só para acompanhar a acareação. Eles resolveram marcar nova rodada de acareação só para resolver a polêmica entre os dois sobre a doação de R$ 2 milhões para a campanha da Dilma Rousseff em 2010.

O ex-ministro Antônio Palocci teria pedido o dinheiro para Paulo Roberto Costa, que confirma ter recebido o pedido. Mas Costa disse que mandou o doleitro Youssef dar o dinheiro a Palocci. É aí que vem a primeira grande contradição entre os dois. Youssef nega ter dado o dinheiro a Palocci e diz que nem conhece o ex-ministro. Na acareação desta segunda-feira seria uma oportunidade para dirimir essa dúvida, mas ela vai permanecer até a próxima rodada de acareação entre os dois. Segundo o advogado de Youssef, Tracy Reinaldet, todos já estavam cansados com a longa audiência e preferiram deixar para nova data, que ainda não foi marcada.

- Além do mais, o inquérito contra Palocci ainda está bem no início e os delegados da PF acharam melhor deixar isso para outra etapa. Tem também o aspecto de que a presidente Dilma não pode ser investigada por doações de campanha de 2010 - disse Tracy.

Uma das divergências que também não foram equacionadas é o pagamento de R$ 2 milhões para a campanha de Roseana Sarney (PMDB-MA) em 2010. Segundo a versão de Paulo Roberto Costa, o senador Edison Lobão (PMDB-MA) lhe pediu o dinheiro para ser usado na campanha de Roseana. Costa disse que mandou Youssef entregar o dinheiro a Roseana, mas Youssef diz que quem entregou o dinheiro não foi ele, mas o próprio Paulo Roberto Costa. Ficou um jogo de empurra.

- Chegou a haver um clima de tensão entre os dois, mas pusemos panos quentes, para evitar que os ânimos se exaltassem - revelou o advogado de Youssef, Tracy Reinaldet.

Uma divergência, no entanto, pode ser esclarecida, segundo o advogado.

- Na questão da compra de nafta pela Brasken, do grupo Odebrecht, os dois deixaram claro que houve pagamento de propina para o PP, de 1 a 3% dos contratos. Ambos chegaram à mesma versão, que antes era diferente. Agora os dois concordaram que houve o pagamento de propinas nessas contratos de nafta. E os dois citaram o nome de 17 deputados do PP que receberam as propinas nesse contrato. Não surgiu nenhum nome novo do PP. São os mesmos, como o Pedro Correa, o Nelson Meurer, etc, os que já estão denunciados pelo STF - explicou o advogado.

Assim, a acareação entre o doleiro Alberto Youssef e o ex-diretor de Abastecimento da Petrobras Paulo Roberto Costa, na sede da Polícia Federal, em Curitiba, não mudou a essência do que cada um dos dois disso em suas delações premiadas feitas tanto na Justiça do Paraná, quanto no Supremo Tribunal Federal (STF) ao longo do ano passado. A acareação foi determinada pelo STF para esclarecer pontos divergentes do que cada um dos dois disse em suas delações premiadas e que envolve políticos com foro privilegiado.

A audiência, que não teve pausa nem para o almoço, começou às 10h e terminou às 18h, foi acompanhada por delegados da Polícia Federal de Brasilia e da Procuradoria Geral da República, também de Brasilia, coordenados pelo procurador Andrey Borges de Mendonça.

Segundo outro advogado de Youssef, Antonio Figueiredo Basto, os dois mantiveram suas versões iniciais e isso não significa que correm riscos de perderem as vantagens da delação premiada.

- Não houve nenhum modificação do perfil. Eles mantiveram integralmente suas versões, mas com o detalhe de que ambos estão imbuídos de falar a verdade. Mostra que não houve acerto entre eles para prejudicar ou ajudar quem quer que seja - disse Basto.

Ele revelou ao GLOBO que na acareação, Youssef confirmou que deu R$ 1 milhão para a campanha da senadora Gleisi Hofmmann (PT-PR), em 2010, a pedido do então ministro Paulo Bernardo.

- Foi o próprio Youssef quem fez o pagamento. No processo tem data e local de onde o dinheiro foi entregue- disse Basto.

Ele não acredita que os dois possam perder as garantias da redução de pena por causa das divergências que ainda não foram resolvidas.

- As delações são muito sólidas. E eles não ficaram só na palavra. Mostraram documentos e outros meios de prova. Os depoimentos isoladas teriam pouco valor jurídico, mas eles apresentaram provas inequívocas. Há também interceptações telefônicas e provas documentais. Não vejo como sustentar essa versão de que podem perder as garantias da colaboração premiada - afirmou Basto.

O advogado de Paulo Roberto Costa, João Mestieri, disse que hoje cedo o ex-diretor da Petrobras retorna à PF de Curitiba para nova rodada de esclarecimentos aos policiais federais e ao MPF de Brasilia, enquanto Youssef será inquirido na parte da tarde. Os dois falarão separadamente aos policiais para o esclarecimento dos pontos ainda divergentes entre os dois. Cada um dará sua versão dos fatos. Nesse caso, é possível que a questão do dinheiro para Palocci venha a ser colocado novamente.

Mestieri disse, ainda, que “como as divergências não eram grandes, também não foram grandes as surpresas”.

Paulo Roberto Costa, que está em prisão domiciliar no Rio, chegou a Curitiba na noite de domingo escoltado pela PF. Youssef já estava detido na carceragem da Polícia Federal de Curitiba. Hoje, Paulo Roberto Costa depõe ao juiz Sérgio Moro, na Justiça Federal do Paraná, na parte da tarde. Ele passou a noite de ontem hospedado num hotel no centro de Curitiba, com escolta da PF do Rio.

A Braskem reafirma que "todos os contratos com a Petrobras seguiram os preceitos legais e foram aprovados de forma transparente de acordo com as regras de governança da Companhia. É importante lembrar que os preços praticados pela Petrobras na venda de nafta sempre estiveram atrelados às mais altas referências internacionais de todo o setor, prejudicando a competitividade da indústria petroquímica brasileira".

*Especial para O Globo

Lula diz que PT está 'velho' e 'só pensa em cargo'

Ricardo Galhardo e José Roberto Castro - O Estado de S. Paulo

• Para ex-presidente, PT está velho, viciado em poder, apegado a empregos e vitórias eleitorais e perdeu capacidade de gerar sonhos

SÃO PAULO - Menos de dez dias depois de o PT realizar seu 5.º Congresso Nacional, em Salvador, onde decidiu manter o status quo partidário frustrando os setores que esperavam por mudanças radicais, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez uma das mais duras críticas públicas à legenda que ajudou a fundar há 35 anos e o levou ao poder nacional.

Em palestra ao lado do ex-primeiro-ministro da Espanha Felipe Gonzalez, Lula disse que o PT está velho, viciado em poder, apegado a cargos, empregos e vitórias eleitorais, perdeu sua capacidade de gerar sonhos e utopias, não mobiliza mais as multidões, a não ser em troca de dinheiro, se afastou perigosamente da juventude e hoje está diante de uma encruzilhada. “Temos que definir se queremos salvar a nossa pele e os nossos cargos ou se queremos salvar o nosso projeto”, disse Lula.

O ex-presidente comparou as origens do PT ao Podemos, movimento nascido nas manifestações de rua que elegeu neste ano as prefeitas de Madri e Barcelona, desbancando o centenário PSOE na preferência do eleitorado de esquerda espanhol. “É mais ou menos que nem o PT quando ganhou Diadema em 1982”, comparou Lula, antes de defender uma “revolução interna” que permita ao PT abrir espaços para a participação da juventude que foi às ruas em 2013.

No Congresso do PT encerrado dia 13, na Bahia, diversos setores encaminharam propostas de mudanças expressivas nas práticas partidárias, entre elas o rompimento da coligação com o PMDB em troca de uma aliança popular com movimentos de rua e a sociedade organizada. No final a corrente integrada por Lula atropelou os descontentes e aprovou um documento final considerado tímido pelos petistas que cobravam mudanças capazes de tirar o PT do “volume morto”, na expressão do próprio ex-presidente.

Nesta segunda-feira, 22, Lula cobrou publicamente uma mudança efetiva criticando a estrutura do partido. “Não sei se o defeito é nosso, se o defeito é do governo. Mas eu acho que o PT perdeu um pouco a utopia. Hoje a gente só pensa em cargo, em emprego em ser eleito. Ninguém hoje trabalha mais de graça”, afirmou.

De acordo com Lula, o PT perdeu a capacidade de mobilização e hoje depende da estrutura dos mandatos parlamentares para levar gente às ruas. “Hoje se os candidatos não liberarem as pessoas dos gabinetes deles ninguém vai porque as pessoas só querem ir ganhando. Isso é um vício de um partido que cresceu e chegou ao poder”, disse.

Segundo o ex-presidente, aos 35 anos o PT já demonstra fadiga e precisa urgentemente de sangue novo.

“O PT está velho. Eu que tenho 69 já estou cansado, já estou falando as mesmas coisas que falava em 1980, fico pensando se não está hora de a gente fazer uma revolução neste partido, uma revolução interna, colocar gente nova, gente que pensa diferente”.

A fala de Lula foi recebida com palmas pela plateia formada por dirigentes petistas, os ministros Juca Ferreira (Cultura) e Renato Janine Ribeiro (Educação) e integrantes de movimentos sociais tradicionais (Movimento dos Sem Terra) e recentes (Levante Popular da Juventude e Fora do Eixo).

Venezuela. Parte da plateia cobrou Gonzalez por sua aproximação com setores da oposição ao governo Nicolás Maduro, na Venezuela. O espanhol causou surpresa ao enfrentar as críticas e separar o governo chavista dos demais regimes de esquerda do continente. “A Venezuela é um modelo diferente. Fico assustado quando dizem que é a mesma coisa. Se não estivermos convictos disso, estamos no caminho errado”, disse ele.

Depois das discordâncias, o espanhol demonstrou solidariedade apontando os riscos de um “comando formado por jornalistas, juízes e procuradores dispostos a tudo que pode acabar com qualquer governo”.

Saddam e Kadafi. Já Lula preferiu destacar as encruzilhadas da democracia mundial seguindo por um caminho tortuoso, no qual chegou a citar o ditador líbio Muamar Kadafi, assassinado em 2011. “A morte do Kadafi é uma daquelas coisas que não têm explicação para a democracia. Porque a Líbia estava quieta, não incomodava ninguém. O Iraque tinha o Saddam Hussein. Por acaso o Saddam alguma vez causou algum problema? Para mim nunca criou problema. Ele estava lá acreditando nas mentiras dele quando os americanos inventaram que era preciso invadir o Iraque”, disse.

Segundo o ex-presidente, o Foro de São Paulo foi criado em 1990 para “educar a esquerda latino-americana a praticar a democracia”

Para dissidentes, ex-presidente tem culpa na atual crise da sigla

• Luiza Erundina e Ivan Valente, que deixaram o partido, apontam erros de Lula na condução do PT; tucanos fazem críticas

Pedro Venceslau – O Estado de S. Paulo

Para fundadores do PT que deixaram a legenda e petistas insatisfeitos com os rumos do governo da presidente Dilma Rousseff, o ex-presidente Luiz Iná- cio Lula da Silva tentou se eximir da crise vivida pela sigla em sua intervenção, feita ontem em tom de desabafo durante uma palestra em seu instituto.

“Não dá para ele se isentar e jogar toda a culpa no PT. Lula ainda é a principal liderança e foi o principal condutor desse processo, desde a origem até hoje”, afirma a deputada federal Luiza Erundina (PSB-SP).

Uma das primeiras prefeitas de capitais eleitas pelo partido em 1988, quando venceu a disputa em São Paulo, Erundina deixou o partido em 1997 depois de um longo processo de desgaste interno por ter aceitado um cargo no primeiro escalão do governo Itamar Franco.

Para a deputada, ao afirmar que e o PT “perdeu um pouco a utopia” e que os petistas “só pensam em cargo”, Lula está refletindo um quadro grave vivido pelo País. “A fala dele foi um sintoma da falência do PT. E esse sintoma chega para mim com muito mais contundência”, concluiu a ex-prefeita.

Também integrante da primeira geração de dirigentes políticos do Partido dos Trabalhadores, o deputado Ivan Valente, hoje no PSOL, faz a mesma leitura.“Esse é um discurso para consumo interno no partido, mas o Lula não pode se eximir da responsabilidade pelo PT estar vivendo essa crise monumental.

O partido rebaixou o seu programa por orientação dele”, diz. O parlamentar também comentou a reclamação do ex-presidente sobre a redução drástica da militância espontânea petista que marcou a sigla antes da chegada ao poder.

“O maior responsável por tirar do PT o caráter da contribuição militante foi o próprio Lula. Foi ele quem implantou a lógica de ganhar eleição a qualquer custo”, conclui Valente.

Correlação de forças. Integrante da segunda maior corrente interna do PT, a Mensagem ao Partido,e membro do diretório nacional da sigla, o deputado Paulo Teixeira (SP) faz outra leitura das recentes autocríticas de Lula.“Há um sentimento de mudança no partido. A correlação de forças internas já mudou. A fala do ex-presidente converge para isso.

Teixeira se refere à redução da influência do chamado grupo majoritário que comanda o PT desde sua fundação e o consequente fortalecimento de correntes mais à esquerda no espectro partidário.

Já o senador Paulo Paim (RS) avalia que o discurso do ex-presidente corroborou um fenômeno que vem ocorrendo no partido desde a chegada ao poder central em 2003. “É lamentável que alguns setores do PT tenham se encantado com o poder. Tem gente com mais de 100cargosindicados”,diz o parlamentar. Paim deve mudar de sigla até o fim deste ano. Ainda segundo o senador, Lula “assumiu a responsabilidade” pela crise petista com seu discurso.

Tucanos. Os discursos recentes de Lula serviram de munição para os tucanos reforçarem a artilharia contra o PT. Para o senador Cássio Cunha Lima, líder tucano no Senado, o ex-presidente fez um “reconhecimento” tardio das mazelas petistas. Vice-presidente nacional do PSDB, o ex-governador de São Paulo Alberto Goldman vai além. “O Lula é realista e pragmático. Ele vê um quadro desastroso para o partido. ”Presidente do DEM, o senador José Agripino diz que as falas do ex-presidente são “o reconhecimento da falência do PT.

Lula diz que PT só pensa em cargos: petistas não reagem

• ‘A gente acreditava em sonhos, hoje a gente só pensa em emprego’

'A gente só pensa em cargo'

Julianna Granjeia, Tatiana Farah e Fernanda Krakovics – O Globo

• Depois de criticar Dilma, ex-presidente Lula diz que o partido que fundou envelheceu
Integrantes do partido, que evitaram rebater publicamente as declarações, apostam que o ex- presidente tenta se descolar da presidente Dilma, que ficou irritada com as críticas, segundo relato de um ministro

Após criticar a presidente Dilma e o PT num encontro fechado com religiosos, o ex- presidente Lula atacou publicamente o partido em seminário organizado por seu instituto, em São Paulo, com a presença do ex- primeiro ministro espanhol Felipe González. “A gente acreditava em sonhos. Hoje a gente só pensa em cargo, em emprego”, disse. Lula afirmou que o partido “perdeu a utopia”: “O PT está velho. Já estou com 69. Já estou cansado, já estou falando as mesmas coisas que falava em 1980.” Segundo um ministro, a declaração de que ele e Dilma já estão “no volume morto” e que o PT está abaixo do “volume morto” chateou a presidente. Alguns petistas, que só comentaram sob anonimato, acham que Lula tenta se descolar de Dilma. 

SÃO PAULO e BRASÍLIA- Quatro dias depois de criticar abertamente a presidente Dilma Rousseff e o governo numa reunião com religiosos católicos, o ex- presidente Luiz Inácio Lula da Silva voltou as baterias ontem para o PT, em uma nova autocrítica bastante contundente. Para Lula, o partido que fundou há 35 anos “está velho”, sem projeto e paralisado pela burocracia porque “só pensa em cargos”. A avaliação foi feita durante debate promovido pelo Instituto Lula, em São Paulo, com o ex- presidente de governo espanhol Felipe González. Para o petista, o PT “perdeu um pouco a utopia”.

O partido não reagiu diante das declarações. O presidente da legenda, Rui Falcão, que estava no mesmo debate, não quis falar com a imprensa na saída. Dirigentes petistas ouvidos ontem pelo GLOBO dizem que o ex- presidente tem mostrado insatisfação nos últimos meses tanto com a acomodação da legenda quanto com o desempenho de Dilma no segundo mandato. O tom, no entanto, tem subido a cada desabafo.

— Eu lembro como é que a gente acreditava nos sonhos, como a gente chorava quando a gente mesmo falava, tal era a crença. Hoje, precisamos construir isso, porque hoje a gente só pensa em cargo, a gente só pensa em emprego, a gente só pensa em ser eleito, e ninguém hoje mais trabalha de graça — disse Lula ontem.

O ex- presidente disse estar “cansado” e falou que o partido precisa se renovar com pessoas mais jovens e “mais ousadas, com mais coragem”.

— O PT está velho. Eu, que sou a figura proeminente do PT, já estou com 69 ( anos), já estou cansado, já estou falando as mesmas coisas que eu falava em 1980. Fico pensando se não está na hora de fazer uma revolução neste partido, uma revolução interna — disse o expresidente, e completou: — Temos que decidir se nós queremos salvar a nossa pele e os nossos cargos, ou se queremos salvar nosso projeto.

Desabafos preocupam o partido
Na quinta- feira, conforme O GLOBO revelou, Lula disse a religiosos católicos, em um encontro no seu instituto, que é um “sacrifício” convencer Dilma a viajar pelo país e defender o projeto petista. 

Ele afirmou que, em relação à popularidade, ele e ela estão no “volume morto”, enquanto o PT está “abaixo do volume morto”. Ontem, ele concentrou no partido a sua insatisfação.

A escalada de desabafos de Lula tem preocupado o partido. Dirigentes ouvidos pelo GLOBO, que preferiram não se manifestar publicamente, disseram que o diagnóstico de Lula é certeiro, mas o vazamento das críticas, sobretupartido. do contra Dilma, no momento em que a presidente amarga a sua pior avaliação, serve para dar munição à oposição e aumentar o fosso entre a presidente e o partido. A interlocutores, Lula diz que nenhuma dessas críticas é novidade para Dilma, já que ele não esconde sua posição quando os dois se reúnem, de forma privada, em São Paulo.

As reclamações sobre Dilma, principalmente em relação às medidas que afetam direitos trabalhistas, são endossadas por dirigentes da sigla. No entanto, o congresso do PT, há menos de duas semanas em Salvador, eliminou do documento final até mesmo a expressão “ajuste fiscal”.

Para alguns petistas, essa narrativa pode ser um ensaio de Lula para iniciar um descolamento de Dilma. Já um dirigente diz que eles são inseparáveis como “a corda e a caçamba”. Em outra frente, as críticas de Lula encontraram ressonância em alas do PT que fazem esse debate interno desde as manifestações de junho de 2013. O problema é que, na instância do partido em que essas questões deveriam ser discutidas, Lula não foi por esse caminho.

— Eu acho que ele está certo. Isso já vem sendo discutido principalmente no âmbito das redes sociais, área que eu coordeno. A militância vem criticando o excesso de burocratização e de institucionalização do Ele está vocalizando a militância. Há crítica muito grande à acomodação dos petistas. O partido precisa voltar- se mais para a juventude — disse um dos vicepresidentes do PT, Alberto Cantalice.

Para o deputado Paulo Teixeira ( PTSP), um dos líderes do grupo Mensagem ao Partido, o teor da fala de Lula é o mesmo de uma carta divulgada recentemente por 35 parlamentares, mais da metade da bancada, que pedia a renovação da legenda, inclusive com novas eleições internas. A carta foi rejeitada pela maioria do último congresso do PT, cuja corrente interna mais numerosa, a Construindo um Novo Brasil ( CNB), é a de Lula.

— A gente esperava que o congresso decidisse por aí, mas decidiu por nada — reclamou o deputado.

Novas críticas à imprensa
Ao lado de González, Lula também voltou a reclamar da imprensa e acusou veículos de “fazer oposição pelo editorial”.

— Aqui no Brasil nós reclamamos muito da mídia. A oposição é a imprensa. Em alguns jornais, eles fazem oposição pelo editorial. Ao invés de brigar com isso, temos de saber usar melhor a internet, as redes sociais — disse Lula, que defendeu mais uma vez a regulação da mídia.

Gestão petista está próxima ao fundo do poço, diz Cunha

Elizabeth Lopes - O Estado de S. Paulo

• Presidente da Câmara quer descolar PMDB do desgaste do governo

SÃO PAULO – O presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), afirmou que o governo da presidente Dilma Rousseff (PT) está vivendo um processo de desgaste que talvez já tenha colocado a gestão petista próxima ao fundo do poço. “O governo (Dilma) está chegando a um nível de patamar próximo ao fundo do poço, portanto, não tem muito onde cair mais”, disse Cunha, ao chegar para um evento com investidores em São Paulo, na noite desta segunda-feira,

Ao comentar o baixo índice de aprovação do governo petista, segundo pesquisa Datafolha deste final de semana, o presidente da Câmara disse que o fato de seu partido, o PMDB, ser o principal aliado da gestão Dilma Rouseff não significa que eles terão um projeto eleitoral conjunto no futuro. “Não quer dizer que todo desgaste do governo seja nosso também. A responsabilidade de governar é do PT e não nossa.”

Apesar da avaliação de que o desgaste é do governo petista e não do PMDB, Cunha admitiu que quando se está caminhando junto, pode ocorrer algum desgaste.

Na avaliação de Cunha, pesa contra o governo também o fato de a economia estar deteriorada e estar implementando medidas que não foram debatidas na campanha eleitoral. “Houve um desgaste amplificado pela deterioração da situação econômica”, disse, citando como exemplo a elevada inflação e o baixo desempenho da economia, além do ajuste fiscal.

Além de eximir o seu partido, Cunha procurou também defender o parlamento, dizendo que o Congresso está fazendo a sua parte no esforço de recolocar o País na rota do crescimento, com a votação do pacote fiscal. “Não estamos deixando de votar nenhuma medida do governo, estamos fazendo a nossa parte.”

Para o presidente da Câmara, cabe agora ao governo fazer a sua parte, implantando uma agenda positiva e dizendo ao País o que irá fazer após o ajuste fiscal, na mesma linha das críticas que vem sendo feitas pelo ex-presidente petista Luiz Inácio Lula da Silva.

Aécio diz que Lula tem responsabilidade e não pode descolar de ‘sua criatura’ Dilma

• Para ele, TCU deve rejeitar contas da presidente, abrindo caminho para uma ação do Ministério Público

Cristiane Jungnlut – O Globo

BRASÍLIA — O presidente nacional do PSDB, senador Aécio Neves (MG), disse nesta segunda-feira que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva não pode se "descolar" da presidente Dilma Rousseff. O tucano argumentou que Lula não pode fugir à sua responsabilidade pela situação atual ao usar como estratégia os ataques à sua sucessora. Aécio disse que Dilma é "criatura" de Lula e que é um "acinte" o governo continuar adotando as chamadas pedaladas fiscais depois do parecer prévio do Tribunal de Conats da União (TCU). Para ele, o governo Dilma está "sitiado".

No sábado, O GLOBO informou que o ex-presidente, em tom de desabafo, criticou duramente a presidente Dilma Rousseff em reunião no instituto que leva o seu nome. Para Lula, “Dilma está no volume morto, o PT está abaixo do volume morto” e ele próprio está no volume morto. Nesta segunda-feira, o ex-presidente voltou a criticar o partido, e disse que os petistas só pensam em cargo e eleições.

O TCU deu prazo de 30 dias para Dilma dar explicações sobre as contas públicas de 2014. Para Aécio, o TCU deve rejeitar as contas de Dilma, afirmando que caberá ao Ministério Público da União decidir se abre uma ação contra a presidente. Ele lembrou que o PSDB já ingressou com uma ação a esse respeito, mas evitou falar em impeachment.

— Acho que o presidente Lula, mais do que ataques à atual presidente, sua criatura, tem que reassumir sua parcela de responsabilidade pelo que vem acontecendo no Brasil. E não há como descolar uma coisa da outra: o governo é o PT, o governo é Dilma, o governo é Lula. Foi assim nos momentos positivos e será assim nesse momento de grandes dificuldades. Lamentavelmente, essa obra é uma obra conjunta do ex-presidente Lula, da presidente Dilma, e, obviamente, do PT — disse Aécio.

Aécio disse que já tinha denunciado, durante a campanha eleitoral, as manobras fiscais do governo Dilma.

— Continuar a fazer isso é um acinte, um desrespeito absoluto àquilo que foi de mais valioso que nós conseguimos construir do ponto de vista da administração no Brasil que foi a Lei de Responsabilidade Fiscal. É um governo que age como se estivesse acima da lei e não está. E o governo federal de forma continuada fez isso com o único objetivo de vencer as eleições e hoje é um governo sitiado: não pode andar nas ruas e está nas barras dos Tribunais. Se o Tribunal de Contas, como todos nós esperamos, vier a agir de forma técnica como vem agindo, não há como aprovar as contas da Presidente da República — disse Aécio, acrescentando:

— Essa reiterada prática delituosa pode levar até o Ministério Público, a Procuradoria Geral da República, onde existe ação do PSDB, a se manifestar e quem sabe abrir uma investigação contra a presidente da República.

Candidato derrotado nas eleições presidenciais de 2014, Aécio lembrou que denunciou o fato das pedaladas fiscais.

— Durante a campanha eleitoral, denunciei essas pedaladas, dizendo que a Caixa Econômica Federal pagava o Bolsa Família, ou parcela dele, e o governo não repunha por parte do Tesouro esses recursos. A presidente ignorou esse assunto. Agora, tentam transferir para um membro da equipe econômica (o ex-secretário do Tesouro Arno Augustin) essa responsabilidade. A responsabilidade é da presidente da República — disse Aécio.

Segundo ele, um dos pilares da Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF) era justamente evitar que bancos públicos financiassem seus controladores.

— Essa não é uma questão que está sendo discutida agora. O que há é uma definição da votação do relatório do ministro Nardes que é pela reprovação das contas da Presidente da República. Isso deve ocorrer em menos de 30 dias.

Aécio comparou a crise econômica vivida pelo país à jabuticaba, alegando que apenas o Brasil vive momentos de dificuldade e não o mundo.

— Essa crise é como a jabuticaba, é uma fabricação aqui do Brasil feita pelo governo do PT — afirmou o tucano.

Queda na pesquisa
Aécio disse ainda que o resultado da pesquisa Datafolha é um reflexo de o Brasil estar vivendo uma das maiores crises econômicas da sua história. A pesquisa Datafolha indicou que Dilma tem 65% de reprovação, entre ruim e péssimo. Para ele, o país vive três crises: a econômica, a moral e a de credibilidade.

— Grande parte da desaprovação da presidente da República recorde no nosso período democrático se dá em razão dessa crise moral sem precedentes — disse Aécio.

O tucano disse ainda que sua candidatura à Presidência não é "agenda do momento", ao comentar a pesquisa Datafolha que lhe coloca em primeiro lugar, com 35% dos intenções, à frente do ex-presidente Lula.

— Essa não é a agenda do momento, O PSDB tem outras responsabilidades que antecedem a disputa eleitoral de 2018, que é fiscalizar as ações do governo, denunciar as irregularidades cometidas e apresentar alternativas. É obvio que eu recebo como reconhecimento a responsabilidade, a seriedade do nosso trabalho essa minha posição nas pesquisas — disse ele.

Aécio disse que PSDB estará "unido" na sua decisão. Ele e o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, disputam nos bastidores o posto de candidato.

— Ao contrário do que acreditam alguns ou torcem outros, no momento da definição de quem será o candidato do PSDB, vamos estar absolutamente unidos, porque o PSDB sabe que a sua unidade é que vai inspirar outros aliados a estarem conosco. Eu, pessoalmente, no que depender de mim, não vou antecipar esse debate eleitoral — disse o senador.

Preferência pelo PSDB cresce, e sigla empata com PT, mostra Datafolha

Ricardo Mendonça – Folha de S. Paulo

SÃO PAULO - Pesquisa Datafolha feita na semana passada mostra que, em meio à crise do PT, a preferência pelo PSDB bateu seu recorde. Conforme o instituto, 9% dos eleitores manifestaram simpatia pela sigla.

Em fevereiro, 5% citavam o PSDB como o partido preferido. Em abril, 7%.

Os simpatizantes do PT, segundo a mesma pesquisa, são 11%. Configura-se, portanto, um empate técnico entre as duas siglas que polarizam as disputas pela presidência desde 1994 --a margem de erro do levantamento é de dois pontos percentuais.

A preferência partidária do eleitorado é investigada pelo Datafolha desde 1989. O PT liderou as 137 pesquisas do gênero em 26 anos. Seu melhor desempenho ocorreu em março de 2013, quando foi citado como partido preferido por 29%. O piso foi atingido em março deste ano, quando marcou 9%.

Depois de PT e PSDB, o único partido com algum ativo relevante é o PMDB, com 6% das preferências nacionais.

Desde 1989, o maior grupo sempre foi o dos que não têm preferência partidária. Nesta última sondagem, 67% responderam assim. O Datafolha ouviu 2.840 pessoas em 174 cidades entre 17 e 18 de junho.

Críticas do ex-presidente incomodam Dilma, que busca dar boas notícias

Geralda Doca, Fernanda Krakovics e Cristiane Jungblut (Colaboraram Catarina Alencastro e Washington Luiz) – O Globo

• Para Planalto, Lula prejudica o governo e seu próprio projeto para 2018

BRASÍLIA- A ex- presidente Dilma Rousseff ficou bastante incomodada com as críticas abertas do ex- presidente Lula à sua gestão no encontro que ele teve com religiosos na semana passada. As declarações de que Dilma está no “volume morto”, por causa da baixa popularidade, e, principalmente, de que ela mentiu na campanha à reeleição ao dizer que não mexeria em direitos trabalhistas e não faria ajuste fiscal foi o que causou mais mal- estar no governo.

A presidente confidenciou a ministros próximos não ter gostado do que Lula disse, mas que entende o discurso. Na avaliação do Planalto, Lula falou para agradar à plateia, sem se dar conta de que a Igreja Católica tem mantido uma visão crítica do governo. Ele também teria tentado agradar aos lulistas, as correntes do PT que têm se posicionado contra o ajuste fiscal. Mas, para os mais próximos a Dilma, ao bater no governo, Lula acaba atingindo também a construção de sua candidatura para 2018 — o que só agradaria à oposição. Ainda assim, ministros petistas defenderam Lula. Para um deles, Lula foi traído pelo vazamento da conversa:

— Teremos uma semana de ruídos.

A principal preocupação é com o trecho em que o ex- presidente afirma que Dilma errou ao dizer, durante a campanha, que não mexeria em direitos trabalhistas “nem que a vaca tussa”. E mexeu, disse Lula, contrariando a versão do governo de que houve apenas ajustes em benefícios como seguro- desemprego, abono salarial e pensões. Na conversa revelada pelo GLOBO, Lula também lembrou que Dilma afirmou na campanha que não faria ajuste, que era “coisa de tucano”. Lula disse que Dilma não só fez, como mereceu ser alvo de propaganda do PSDB na TV que a acusou de mentir. Sobraram queixas até para o ministro da Casa Civil, Aloizio Mercadante.

Diante das críticas abertas de Lula, o presidente nacional do PSDB, senador Aécio Neves ( MG), fez questão de “colar” o ex- presidente ao governo de Dilma. O tucano argumentou que Lula não pode fugir à responsabilidade pela situação atual ao usar como estratégia os ataques à sua sucessora. Para ele, o governo está “sitiado”.

— Acho que o presidente Lula, mais do que ataques à atual presidente, sua criatura, tem que reassumir sua parcela de responsabilidade pelo que vem acontecendo no Brasil. E não há como descolar uma coisa da outra: o governo é o PT, o governo é Dilma, o governo é Lula. Foi assim nos momentos positivos e será assim neste momento de grandes dificuldades. Lamentavelmente, essa obra é uma obra conjunta do ex- presidente Lula, da presidente Dilma e, obviamente, do PT — disse Aécio, derrotado por Dilma na eleição presidencial de 2014.

Aécio atribuiu à “crise moral sem precedentes” a aprovação de apenas 10% de Dilma na última pesquisa Datafolha. Na sondagem, o tucano aparece na liderança das intenções de voto para a Presidência em 2018 com 35%, contra 25% de Lula.

— Essa não é a agenda do momento. O PSDB tem outras responsabilidades que antecedem a disputa de 2018, que é fiscalizar as ações do governo, denunciar as irregularidades e apresentar alternativas — desconversou.

No Planalto, a expectativa é que Dilma só recupere sua popularidade quando a economia começar a reagir, o que é projetado para o ano que vem, talvez com uma pequena retomada no final deste ano.

Enquanto isso, o governo pretende apostar na agenda positiva, como o lançamento da terceira fase do Minha Casa Minha Vida, o programa Banda Larga para Todos, investimentos no setor energético e o já lançado plano de concessões em infraestrutura.

Ontem, Dilma lançou o Plano Safra para a agricultura familiar. Cobrada por Lula por não oferecer “boas notícias”, Dilma fez um esforço ontem ao anunciar aumento de 20% nos recursos em relação a 2014, mesmo percentual aplicado ao Plano Safra para médios e grandes produtores. No total, serão liberados R$ 28,9 bilhões para os pequenos. Ao lado de Dilma, o ministro do Desenvolvimento Agrário, Patrus Ananias, anunciou a ampliação do Minha Casa Minha Vida em áreas rurais e um novo plano de reforma agrária, um aceno para movimentos sociais. Dilma é criticada por ter assentado, em média, menos da metade de famílias do que Lula e Fernando Henrique.