*Hannah Arendt (1906-1975),“Sobre a
Revolução” (1963), p. 95. – Companhia de Letras, São Paulo, 2006.
Política e cultura, segundo uma opção democrática, constitucionalista, reformista, plural.
segunda-feira, 1 de agosto de 2022
Opinião do dia – Hannah Arendt* (liberdade e pobreza)
Fernando Gabeira - Eleições, roteiro de um não candidato
O Globo
Tomamos um banho de atraso, preconceito e
truculência. Hora de sacudir a poeira e dar a volta por cima
Com as convenções partidárias, começou,
oficialmente, o processo eleitoral. Dizem que teremos eleições históricas. De
certa maneira, todas as eleições são históricas, se considerarmos que muitas
resultam em programas transformadores, outras resultam em impeachment. Nunca
passam em branco.
Na verdade, é necessário admitir que as
eleições têm inúmeros traços singulares e pedem também uma certa preparação do
eleitor para os meses de campanha.
O primeiro ponto a destacar é a violência.
Já houve um assassinato em Foz do Iguaçu, as redes estão inundadas por insultos
e, em Minas, um homem foi preso por ameaçar pendurar os ministros do Supremo de
cabeça para baixo.
Não sei se a melhor tática é prender quem faz ameaças. Em alguns países, as pessoas passam a ser apenas monitoradas. O que não deixa de ser uma escolha arriscada; se cometem um crime, a responsabilidade acaba se transferindo para quem hesitou em prendê-las.
Miguel de Almeida - 11 de agosto terá gosto de 7 de setembro
O Globo
Ter de ler texto de 636 palavras azedou
Bolsonaro
O que azedou Bolsonaro não foi o teor da
“Carta às Brasileiras e aos Brasileiros em defesa do Estado Democrático de
Direito”. Fosse um tuíte, tudo bem. Mas ele se viu forçado a ler um texto de
636 palavras, com ponto, vírgula e parágrafos. Além de referências conceituais,
históricas e sociológicas. Foi como atravessar “Guerra e paz”, de Tolstói.
Com base em sua performance pública de usuário de teleprompter, é possível dizer que a leitura dos 15 parágrafos tenha lhe consumido o tempo equivalente a três motociatas sem capacete. Para esnobar, chamou o documento de “cartinha”. Longe de ser juízo de valor, o diminutivo denota o incômodo com a quantidade de sinapses de que se viu forçado a lançar mão num cérebro moldado a frases diretas, jamais subjuntivas e nunca conjuntivas.
Marcus André Melo* - Invasão do Capitólio?
Folha de S. Paulo
Nosso sistema eleitoral não é
descentralizado, hiperpolitizado, nem visto como vulnerável pela opinião
pública
O debate sobre as eleições presidenciais
tem girado em torno da tentativa de um "golpe" (com hora marcada!) e
a referência ubíqua é a invasão do Capitólio americano. O paralelo tem alguma
plausibilidade; são dois líderes populistas que compartilham
similaridades. Mas há pelo menos três importantes diferenças institucionais
que explicam por que a dinâmica de um eventual tumulto seria radicalmente
distinta.
A primeira é que inexiste uma autoridade federal de facto encarregada de eleições nos EUA. A ratificação dos resultados eleitorais é descentralizada a nível estadual e mesmo local; o que é consistente com a existência de diferentes regras eleitorais nos estados (o que não é excepcionalidade americana, é assim também na Argentina, Alemanha etc.). No Brasil, o sistema é centralizado no TSE.
Celso Rocha de Barros - Que chance tem Bolsonaro?
Folha de S. Paulo
Presidente depende de efeitos eleitorais da
PEC 'Medo do Lula' e de golpismo passar despercebido
Nenhuma virada em eleições presidenciais
brasileiras começou de agosto em diante. A
pesquisa Datafolha da semana passada veio igual à
do mês anterior. Isso quer dizer que Bolsonaro tem que cobrir a mesma
distância que já o separava de Lula em um período 30% menor.
Por mais que os bolsonaristas mintam
sobre o Datafolha, a pesquisa do instituto era a melhor esperança de uma
boa notícia para o Planalto no fim de julho. O Datafolha faz pesquisas
presenciais, que são melhores para
medir os votos dos pobres.
Pesquisas presenciais têm sido piores para Bolsonaro —os pobres votam em Lula— mas é justamente para o voto dos pobres que Bolsonaro está olhando com mais atenção: se a PEC "Medo do Lula" produzir efeitos eleitorais significativos, será entre os pobres.
Mathias Alencastro* - Recados contra o golpe
Folha de S. Paulo
Compromisso de Washington com democracia
brasileira é real, mas condicionado pela política doméstica
Quinze dias depois da escandalosa
apresentação de Jair Bolsonaro (PL) a embaixadores, os Estados Unidos
enviaram um triplo recado militar, jurídico e econômico.
Em visita ao Brasil, o secretário de
Defesa Lloyd
Austin falou em "devoção à democracia", deixando implícito que a
cooperação militar seria interrompida se as Forças Armadas brasileiras
aderissem ao golpismo. Por sua vez, a comissão de inquérito do Congresso
americano sinalizou
a possibilidade de incluir o bolsonarismo nas investigações contra Donald Trump.
Enfim, nesse período também ficou claro que a Faria Lima teria de escolher entre o Posto Ipiranga e o sistema Swift, pois a ruptura institucional seria sinônimo de alienação do sistema financeiro. Isso explica a quantidade de empresários recém-convertidos que correram para assinar a carta pró-democracia.
Denis Lerrer Rosenfield* - Democracia
O Estado de S. Paulo
Para se materializar, um golpe precisaria
do apoio da sociedade, do suporte internacional e da participação dos
militares. Sem isso, só se tem uma ópera-bufa.
A política bolsonarista tem como
característica principal estar baseada na distinção entre amigos e inimigos, os
primeiros sempre sendo variáveis ao sabor das circunstâncias, enquanto os
segundos têm demonstrado invariância, centrando-se nas urnas eletrônicas, no
Supremo Tribunal Federal (STF) e no Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
Os amigos mostram a volatilidade de suas
alianças, sem nenhum princípio fundado em ideias ou valores morais, onde se
encontra ausente qualquer noção de lealdade. Veja-se o que fez com aliados
civis de primeira hora, depois abandonados, e com generais importantes que
foram simplesmente descartados, segundo o seu arbítrio.
Os inimigos foram se afunilando, chegando à campanha eleitoral em posição de destaque as instituições democráticas. Seu discurso e suas ações decorrentes, em coerência, diga-se de passagem, concentraram-se nas urnas eletrônicas e na Justiça Eleitoral, sem deixar, porém, de atacar o Supremo. Se conseguiu cooptar – melhor dito comprar – o Legislativo, sobretudo a Câmara dos Deputados via orçamento secreto e outros tipos de emenda, num sequestro flagrante dos recursos públicos e das funções legislativas, o mesmo não aconteceu com o Judiciário. Ministros não se curvaram e souberam fazer frente aos seus arroubos.
Felipe Moura Brasil - Muitos pró-‘democracia’, poucos antissistema
O Estado de S. Paulo
A corrupção não consta na carta pela democracia, porque no Brasil ela é democrática
Defino “sistema” como o conjunto de
lideranças apodrecidas das instituições e das elites econômicas que fazem
escambos entre si para manter ou aumentar seus poderes, privilégios e
blindagens, em detrimento da moralidade e do interesse públicos.
A Carta às Brasileiras e aos Brasileiros em
Defesa do Estado Democrático de Direito!, divulgada em 26 de julho de 2022,
busca proteger o regime em que “temos os Poderes da República, o Executivo, o
Legislativo e o Judiciário, todos independentes, autônomos e com o compromisso
de respeitar e zelar pela observância do pacto maior, a Constituição Federal”
de 1988, onde estão previstas “eleições livres e periódicas”, “cabendo a
decisão final à soberania popular”.
Assim entendida, a “democracia” é perfeitamente compatível com o sistema, uma vez que o respeito e o zelo pelas regras constitucionais são matérias de interpretação da cúpula circunstancial dos Poderes, que não deveria, mas pode, conforme a conveniência, afetar retoricamente o referido compromisso sem cumpri-lo na prática.
Bruno Carazza* - Receita nº 5 para ser eleito: ser famoso
Valor Econômico
Pastores, celebridades e militares têm
acesso facilitado ao poder
O sistema eleitoral brasileiro impõe
imensas barreiras à entrada na política. Candidatos a deputado estadual e
federal têm que brigar pelos votos de todos os eleitores de seus Estados e
fazem isso diante de milhares de adversários provenientes de dezenas de
partidos.
Diferenciar-se em meio a tantas opções e
levar suas propostas a milhões de eleitores, às vezes em territórios
longínquos, custa caro. Nas últimas quatro semanas demonstrei como concorrentes
com acesso aos bilhões do fundo eleitoral, a uma confortável fortuna familiar
ou a doadores generosos levam grande vantagem.
Hoje termino a série analisando aqueles que conseguem se sagrar vencedores sem os trunfos que o dinheiro, público ou privado, oferece.
Lucinda Pinto - Ventos contrários à política monetária
Valor Econômico
Ação do BC perdeu um pouco de efetividade
potencial
À espera por mais uma alta da taxa de juros
na próxima quarta-feira - e como é típico nos momento em que os ciclos
monetários se estendem -, surgem vozes questionando se o Banco Central não
estaria indo longe demais no ciclo de aumento da Selic. A taxa já subiu 11,25
pontos percentuais ao longo de 16 meses. Deve ganhar mais 0,5 ponto na reunião
do Comitê de Política Monetária (Copom) da próxima quarta-feira, com chances de
ir além, o que reforça a expectativa em relação a qual será a mensagem do
comitê a respeito dos próximos passos.
Ninguém imaginava que o BC iria tão longe. Quando o ciclo começou, em março de 2021, os mercados trabalhavam com a ideia de que seria apenas um processo de normalização do juro como resposta à a alta dos preços derivada da reabertura global da economia. Assim como no resto do mundo, todos achavam que tratava-se de uma inflação temporária, com grande chance de ser controlada, especialmente porque o BC brasileiro saíra à frente dos demais no combate a esse cenário de preços mais altos. Assim, a ideia de uma taxa de dois dígitos foi por muito tempo negada. Até que as projeções para a inflação foram sistematicamente frustradas, comprovando que o ineditismo do cenário havia abalado modelos e parâmetros adotados até então. A bússola estava quebrada e fazer previsões tornou-se quase impossível.
Irapuã Santana - Fracasso é um aprendizado
O Globo
Tenho uma chance de mostrar que todo dia é
dia de tentar e de renovar as esperanças de quem pode ler este texto
Em 2016, o professor da Universidade
Princeton Johannes Haushofer publicou em rede social um currículo em que relata
apenas os fracassos de sua carreira.
Inspirado nessa iniciativa, gostaria de
compartilhar algumas experiências que passei na caminhada até aqui. Assim tenho
uma chance de mostrar que todo dia é dia de tentar e de renovar as esperanças
de quem pode ler este texto.
O primeiro fracasso de que tenho lembrança foi com 13 anos, numa prova do Colégio Naval em que, de 20 questões de matemática, acertei apenas 5. Muito embora eu estudasse várias horas por dia, não tive preparo psicológico para aguentar a pressão por bons resultados e sofri um apagão. Nessa mesma época, deixei de fazer uma prova para a Escola Preparatória de Cadetes do Ar (Epcar) por não ter atentado para a necessidade de ter uma carteira de identidade oficial e, dessa forma, perdi mais um ano inteiro de estudos. Mas não parei por aí. No ano seguinte, finalmente fui aprovado no concurso para a Epcar, mas descobri que era míope e acabei eliminado do processo seletivo.
O que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões
Editoriais / Opiniões
A rejeição feminina a Bolsonaro
O Estado de S. Paulo
É provável que ela seja fruto menos de suas ofensas e mais de seu desgoverno, que prejudicou a vida de mulheres responsáveis pelo bem-estar familiar num ambiente de privação
Todas as pesquisas eleitorais apontam que o
índice de rejeição a Jair Bolsonaro é expressivamente maior entre mulheres do
que entre homens. À primeira vista, o dado pode suscitar uma conclusão óbvia e,
por isso mesmo, incompleta. Seria uma resposta a um presidente que não perde a
chance de proferir piadas machistas ou reproduzir discursos misóginos. Essa
atitude de Bolsonaro, no entanto, precede a vitória que o presidente obteve no
pleito de 2018 – e, se essa visão fosse majoritária, ele jamais teria se
sagrado vencedor da disputa em um país em que as mulheres são maioria.
Poucos são os que exploram com profundidade
as razões por trás dessa avaliação tão negativa. Um deles foi o cientista
político Felipe Nunes, diretor do instituto de pesquisas Quaest. Em entrevista
à jornalista Thaís Oyama, do UOL, ele sugeriu que a resposta pode estar no
papel central que as mulheres têm no gerenciamento doméstico e na relevância
que o eleitorado feminino dá a políticas públicas.
Pagar contas, fazer compras e administrar um lar não é uma atribuição exclusiva das mulheres, mas é inegável que a divisão de tarefas entre a maioria dos casais não é equilibrada, algo que transcende a questão da renda. Portanto, é sobre as mulheres, sobretudo as mães, que recai a responsabilidade de lidar com um orçamento doméstico apertado ante a alta dos preços, de administrar a escassez quando o desemprego afeta a família e de recorrer a serviços públicos de qualidade duvidosa para cuidar da saúde e da educação dos filhos.
domingo, 31 de julho de 2022
Luiz Werneck Vianna* - Completar a obra da democratização
Mas há método nessa loucura, e que não recua do uso de qualquer expediente que evite a sua derrota final, em última instância até o de favorecer enfrentamentos que levem o país à beira de numa guerra civil. Bolsonaro e seu entorno imediato nunca esconderam seus propósitos do que entendiam como uma purificação política do país pela eliminação dos seus adversários, no limite, física (os trinta mil mortos tantas vezes mencionados publicamente), explícita na glorificação de militares torturadores na ditadura militar e na sua obsessão de defesa do regime do AI-5. Nesse sentido, converteu em uma política de Estado a difusão do culto às armas e a massificação da sua posse, e favoreceu a criação de milícias entre seus simpatizantes e sequazes.
Alberto Aggio* - Emerge a frente democrática
Tais movimentações parecem indicar que o
panorama eleitoral ainda não está de todo definido, mesmo que se veja nele um
cenário pouco afeito a mudanças, com o embate se concentrando em Lula e
Bolsonaro. Se alguma coisa se move na atual disputa, tudo indica que não será
capaz de alterar os termos em que ela acabou se desenhando.
Mas algo de novo ocorreu nos últimos dias. Há pouca discordância de que o fato novo a se registrar foi a carta Estado de Direito Sempre, redigida por professores de Direito da USP, que causou um enorme impacto. A carta foi imediatamente traduzida como Carta em Defesa da Democracia, movimentou o cenário político e repercutiu na arena eleitoral. A Carta representa efetivamente um divisor de águas porque alterou o centro de gravidade da conjuntura política.
Míriam Leitão - Carta do Direito e a nova aliança
O Globo
Quando formam-se alianças, a democracia se fortalece, e esse é o sentido da Carta contra as ameaças autoritárias que rondam as eleições
Há um momento em que notas de grupos viram
manifestos de alianças. Muda a natureza do movimento. Foi o que aconteceu nos
últimos dias. A Carta às Brasileiras e aos Brasileiros remete a um símbolo
forte do passado e une pessoas diferentes entre si sob uma bandeira comum. As
mesmas arcadas do Direito da USP que ouviram Goffredo da Silva Telles Jr.
ouvirão Celso de Mello na defesa da democracia. Empresários, banqueiros,
intelectuais, profissionais de diversas áreas se uniram num manifesto que na
sexta-feira já ultrapassava 400 mil assinaturas. Outros documentos estão sendo
preparados. A sociedade civil fez muito pelo fim da ditadura militar com atos
como esses.
Só subestima o que está acontecendo quem não conhece a História ou não valoriza a força da democracia. Jair Bolsonaro diz que não entendeu as cartas pró-democracia e emendou: “Estão com medo do quê?” É difícil para o presidente entender o que seja um movimento de defesa da democracia. Ele não entende disso. E não é exatamente medo o que move os subscritores, é a certeza de que Bolsonaro representa um risco para as instituições do país.
Elio Gaspari - Em 1977, o SNI não entendeu a Carta
O Globo
O negócio daquela
Carta, como a de hoje, era a democracia
Jair Bolsonaro e o doutor Ciro
Nogueira, chefe da Casa Civil da Presidência, disseram que o manifesto da Carta
em Defesa da Democracia era coisa de banqueiros ressentidos pela popularização
do Pix.
Seria ingenuidade supor que eles não
entendem de banqueiros ou de política. Bolsonaro e Nogueira estão num palácio onde
algum efeito sobrenatural tem a capacidade de distorcer a percepção da
realidade.
No palácio, nada é o que é. Se cai um
meteorito no Pará, isso pode ter sido jogada de alguma ONG.
A Carta de 2022 procura replicar o que
teria sido o efeito da Carta ao Brasileiros que o professor Goffredo da Silva
Telles leu numa noite de agosto de 1977, há 45 anos.
Valeria a pena que Nogueira e seus
colegas palacianos relessem o que escreveu o falecido Serviço Nacional de
Informações, analisando a cena do largo de São Francisco:
“A Carta aos Brasileiros
A leitura da “Carta aos Brasileiros”
feita pelo Professor Goffredo da Silva Telles, dia 8 de agosto de 1977, no
pátio interno da Faculdade de Direito da USP, como parte dos festejos
comemorativos do sesqüicentenário da implantação dos cursos jurídicos no BRASIL
deu a impressão, à primeira vista, de que se tratava de um ato oficial
organizado pela Direção da Faculdade, em comemoração a mais um aniversário de
sua fundação.
Na verdade, o documento em apreço, de
mera conotação política, não teve apoio maciço da Congregação da referida
Academia de Direito, senão de minoria inexpressiva, conquanto ativa.
É da entrevista do Diretor da Faculdade
a afirmação: ‘A leitura (da Carta) era um ato político e pessoal do Professor
Goffredo e, por isso, a permissão para uso do salão só poderia ser dada pela
Congregação, mas o pedido não foi feito’.
A ‘Carta aos Brasileiros’ está
recebendo a adesão de professores de outras escolas de Direito e de muitos
advogados de São Paulo e de outros estados. No entanto, ela não está merecendo
a adesão irrestrita nem sensibilizou a opinião pública, como esperavam seus
autores. Alguns políticos de conhecida formação liberal se recusaram a
assiná-la, sob os mais variados argumentos. (...) O presidente seccional da OAB
em São Paulo deixou de assinar a ‘Carta’ por considerá-la um documento
elaborado por iniciativa isolada.”
O SNI não havia entendido nada. O
negócio daquela Carta, como a de hoje, era a democracia.
Como ensinou Mark Twain, a história não se repete, mas rima.
Bernardo Mello Franco - Discurso vencido
O Globo
Na contramão dos fatos, Bolsonaro insiste em
dizer que acabou com a corrupção. Para 73%, esse discurso já estourou o prazo
de validade
No último dia da campanha de 2018, Jair
Bolsonaro não saiu de casa. Limitou-se a fazer uma aparição nas redes sociais.
Com a vitória garantida, o capitão repetiu seu número preferido: prometeu
combater a corrupção e acabar com o loteamento de ministérios e estatais.
“O que está em jogo não é a democracia,
não. O que está em jogo é a perpetuação dessa máquina podre que nós temos aí,
que vive da corrupção”, pontificou. “O que está em jogo é a corrupção, são os
grupos que não querem sair de lá porque vivem mamando nas tetas do Estado”.
O discurso de Bolsonaro estava amparado em pesquisas. Depois de quatro anos de Lava-Jato, a corrupção aparecia no topo das preocupações dos brasileiros. No sétimo mandato de deputado, o capitão conseguiu fazer mágica e se vender como um outsider. A aliança com o juiz Sergio Moro, que aceitou abandonar a magistratura para virar ministro, deu o toque final no personagem.
Alessandra Ribeiro e Rafael Cortez* - É a política e a economia, estúpido!
O Globo
A melhor situação econômica não basta para
evitar riscos democráticos
‘É a economia, estúpido’. O uso da frase do
estrategista de campanha do Partido Democrata, James Carville, no início de
1992 tornou-se comum nas análises eleitorais mundo afora.
A racionalidade por trás da afirmação é
razoavelmente simples: cenário econômico tem peso relevante no comportamento
dos eleitores, tornando a disputa presidencial uma avaliação do desempenho do
governo na condução da economia. Uma economia que cresce significaria vitória
do candidato à reeleição, independentemente das variáveis políticas, tais como
natureza do sistema de partidos, perfil dos candidatos ou estrutura de
campanha. Seria tão poderosa que, no limite, ela também produziria estabilidade
política.
Os últimos anos, porém, foram marcados pela “redescoberta da política”, invertendo a relação entre economia e política. A análise das regras do jogo e das escolhas dos tomadores de decisão passou a ter impacto decisivo no comportamento das economias. A crise política nos países avançados, decorrente da crise sistêmica de legitimidade das organizações partidárias tradicionais, mostrou que o risco político não era apenas problema de países periféricos. A melhor situação econômica não basta para evitar riscos democráticos e episódios de violência política.
Dorrit Harazim – Penitências
O Globo
Pedidos oficiais de desculpas são registros
civilizatórios essenciais para o conhecimento de quem somos
A História está coalhada de memoráveis pedidos de desculpas públicas, moldadas por graus variáveis de sinceridade e intento de reparação. Pena que só vez por outra essas penitências oficiais por atos cometidos por (a)gentes do passado conseguem ser confrontadas com situações presentes. No âmbito de nossas relações pessoais, é fácil: a sinceridade de uma jura de não repetição do erro é perfeitamente auditável por quem sofre o abuso. Basta aguardar os dias seguintes. Mais difíceis e complexos de avaliar são os pedidos oficiais de desculpas por crimes deliberadamente enterrados na História por uma instituição, governo ou nação. Ainda assim, são registros civilizatórios essenciais para o conhecimento de quem somos.
Janio de Freitas – O medo que ameaça
Folha de S. Paulo
Presidente apela ao golpismo diante da
derrota que se anuncia
Bolsonaro já está
convencido de que não se reelege, e tem medo. Há dois meses até a eleição,
tempo que não levaria um candidato esperançoso a providências de desespero.
Paulo
Guedes e outros estão acionados em duas linhas avançadas. Uns têm
feito sondagens nos tribunais superiores sobre possível
contenção dos processos criminais de Bolsonaro.
Outros são portadores de propostas em que
atitudes positivas de Bolsonaro e o encerramento dos processos se compensariam.
Mesmo que parte do Supremo Tribunal Federal argumente com a conveniência de instituições pacificadas e eleições tranquilas, não há sinal de maioria aberta a acordo.
Muniz Sodré* - Ditaduras moleculares
Folha de S. Paulo
A realidade de 2 milhões de pessoas no Rio
de Janeiro é dependência das milícias
Como a imagem num holograma, que tem a
informação do todo em cada uma de suas partes, pequenos relatos individuais não
raramente expõem problemas de grande magnitude social. Assim é que um jovem
universitário, morador de uma das grandes favelas cariocas, embora exultante
pela oportunidade que lhe oferece o sistema público, me faz saber de seus
percalços para cumprir tarefas. Há primeiro a distância e a precariedade do
transporte.
Há, sim, as vantagens híbridas do online. E aí se revela outra ordem de dificuldades, pois a rede não funciona bem onde ele mora, e não há reclamação ou alternativa possíveis: o serviço é controlado por traficantes.
Hélio Schwartsman - Na Covid, Deus dá lição de biologia
Folha de S. Paulo
O vírus nos mostra o poder da seleção
natural mediante variação
Não acho que Deus exista, mas admitamos,
para fins de argumentação, que ele seja real e interfira no mundo. Existem
vários modos de fazê-lo. Há desde o superativismo divino, no qual nem uma pedra
rola sem autorização do criador, até o deísmo, pelo qual o demiurgo criou o
universo com suas leis naturais e foi descansar num longo "shabbat",
que já dura 14 bilhões de anos.
A pandemia de Covid-19 traz dificuldades para os partidários da primeira concepção, já que nos obrigaria a ver Deus como um cara malvado. Se tudo depende de decisão do criador, então ele é o culpado pelos 6 milhões de óbitos até aqui registrados. Não daria nem para condenar Bolsonaro por suas omissões, já que elas seriam parte do plano divino.
Vinicius Torres Freire – Salário a preço de liquidação
Folha de S. Paulo
Inflação e desemprego caem até outubro, mas
emprego precário é problema para governismo
O índice
de infelicidade é uma medida muito simplesinha de mal-estar econômico,
mas diz alguma coisinha sobre o prestígio dos governantes. É a soma da taxa
de inflação com a taxa
de desemprego, uma ideia do economista americano Arthur Okun (1928-1980).
Em geral, também a popularidade
de presidentes brasileiros varia com esse índice de infelicidade ou
sofrimento ("misery index").
O índice de sofrimento econômico começou a
cair por volta de março e deve baixar ainda mais. Parece plausível que a
popularidade de Jair Bolsonaro (PL) tenha saído do fundo do poço, a partir do
início do ano, por causa do aumento do número de pessoas com algum trabalho.
Como qualquer outra explicação simplesinha, o recurso apenas ao índice de sofrimento dá em besteira grande. Mas não convém desprezar as manhas e os efeitos da inflação e do emprego na conversa política.
Eliane Cantanhêde - Cobertor curto
O Estado de S. Paulo
Lula foca no voto útil, Bolsonaro sobe daqui, cai dali e fica no elas por elas, ou no eles por elas
O presidente Jair Bolsonaro sofre da
síndrome do cobertor curto na eleição: quando melhora daqui, piora dali e essa
soma zero é a favor do ex-presidente Lula, que atravessa toda a campanha numa
dianteira confortável e está com 14 pontos de vantagem, segundo o Agregador de
Pesquisas do Estadão, com a possibilidade, difícil, não impossível, de vitória
em primeiro turno.
Bolsonaro foi de 19% para 24% entre os nordestinos,
pelo Datafolha, mas está 35 pontos atrás de Lula no Nordeste e 15 pontos no
Sudeste e as duas regiões reúnem 70% do eleitorado brasileiro. Ele também
ganhou seis pontos entre as mulheres, mas perdeu quatro entre os homens. Ficou
elas por elas, ou eles por elas.
Se o presidente melhorou um tantinho entre os de menor renda, Lula compensou entre os mais ricos. E, se Bolsonaro é o preferido dos evangélicos (43% a 33%), Lula é o dos católicos, com margem bem maior (52% a 25%), e tem 51% dos espíritas.
Luiz Carlos Azedo - Lula explora favoritismo para ampliar alianças
Correio Braziliense / Estado de Minas
Não há relação direta do
descolamento do establishment empresarial e jurídico em relação a Bolsonaro com
o apoio desses segmentos a Lula, mas manifestos abrem espaços para o petista
Os manifestos em defesa da democracia, das
urnas eletrônicas, da Justiça Eleitoral e do Supremo Tribunal Federal (STF) —
um deles articulado por ministros aposentados da Corte, professores e alunos da
tradicional Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, da Universidade de
São Paulo (USP); o outro, pela poderosa Federação das Indústrias de São Paulo
(Fiesp), com apoio da Federação do Comércio de São Paulo (Fecomércio-SP) e da
Federação Brasileira dos Bancos (Febraban) — sinalizam um grande movimento de
placas tectônicas na política brasileira.
Representam a reação da sociedade civil à
narrativa golpista de Jair Bolsonaro (PL), principalmente depois da reunião com
diplomatas de cerca de 70 países, na qual levantou suspeitas sobre o sistema
eleitoral e atacou os ministros do Supremo Luís Roberto Barroso, Édson Fachin e
Alexandre de Moraes. O fato de o presidente ter anunciado a intenção de
convocar uma manifestação para o 7 de setembro, dia do Bicentenário da
Independência, com o propósito de confrontar o Supremo, no domingo passado, na
convenção eleitoral do PL, deu mais repercussão aos manifestos, que podem
chegar a um milhão de assinaturas de personalidades dos mundos jurídico,
empresarial, acadêmico, científico e artístico.
A 63 dias do primeiro turno das eleições, os dois manifestos sinalizam um realinhamento de forças políticas e sociais de muita envergadura, cujas consequências eleitorais não estão ainda definidas, mas revelam o profundo isolamento político de Bolsonaro, dos generais que o cercam e dos políticos do Centrão que controlam o Orçamento do governo. O inegável prestígio popular, que mantém uma base eleitoral bastante resiliente, e o peso da utilização da máquina governamental para desequilibrar a eleição a seu favor, por meio da aprovação da PEC da Eleição, não vêm sendo suficientes para reduzir os índices de rejeição de Bolsonaro, o que mantém a polarização e a radicalização políticas, mas não a sua expectativa de poder.
Cristovam Buarque* - Um Ministro da Educação de Base
Blog do Noblat / Metrópoles
O governo federal como o responsável pela
educação de base das crianças brasileiras
A ideia de o governo federal adotar responsabilidade sobre a educação de base das crianças brasileiras, está explicitada no programa de governo do Ciro Gomes. Em sua entrevista à Globo News, a Senadora Simone Tebet também levantou a possibilidade de a educação de base ser uma função de todo o Brasil.
Desde a eleição de 2006, os candidatos à presidência não explicitavam estratégias neste sentido, e aparentemente apenas estes candidatos demonstram esta concepção; os demais parecem aceitar a ideia de que o atual sistema municipal é capaz de permitir o salto na educação de base; ou consideram que este salto é desnecessário e basta facilitar o ingresso no ensino superior, mesmo com a educação de base sem qualidade.
O que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões
Editoriais / Opiniões
Democracia sempre
Folha de S. Paulo
Sociedade reage e expressa adesão
incondicional aos valores democráticos e repúdio ao golpismo
Os manifestos em articulação na cidadania e
entre associações da iniciativa privada contra as ameaças
golpistas do presidente da República reforçam e renovam, na sua
origem, os compromissos fundadores do pacto democrático nacional.
A carta organizada por ex-alunos da
Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, endossada a esta altura
por centenas de
milhares de subscritores, aciona o vínculo primordial do regime das
liberdades, inscrito na Carta de 1988.
"Todo poder emana do povo, que o
exerce por meio de seus representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta
Constituição." As eleições periódicas, porque cruciais para essa
transferência condicionada de poder, não podem ser objeto de alteração na lei
fundamental.
O texto menciona a trajetória de respeito
aos resultados eleitorais e de transições ordeiras que já avança pela quarta
década. Enfatiza o ganho de
confiabilidade representado pela votação eletrônica, sobre a
qual jamais foi comprovada fraude em mais de 25 anos de emprego.
Ao reduzir drasticamente os votos
inválidos, a urna digital cumpriu na prática a promessa da Nova República de
incluir no exercício rotineiro da soberania popular os brasileiros
menos instruídos.
A confiança no sistema de votação, segundo pesquisa do Datafolha concluída nesta quinta (28), abrange 79% dos eleitores, sendo francamente majoritária (69%) entre os eleitores do presidente Jair Bolsonaro (PL), que vilipendia as urnas e a Justiça diariamente.
sábado, 30 de julho de 2022
Bolívar Lamounier* - Bolsonaro é blefe ou ameaça séria?
O Estado de S. Paulo
Podemos ser arrastados para um desastre, mas não por desatenção ou por grave erro de avaliação, como aconteceu na Alemanha
É voz corrente que Jair Bolsonaro tenta
aliciar uma parte dos militares e das polícias estaduais para um golpe de
Estado, mas desatinar é uma coisa, levar o desatino à prática é outra.
Tal desvario é levado a sério por muitas pessoas lúcidas, e antes isso, pois, como sabemos, “o preço da liberdade é a eterna vigilância”. Comparar o Brasil de hoje com a Alemanha da primeira metade do século passado não faz muito sentido, mas vale a pena registrar que a revista Foreign Affairs, numa recente edição retrospectiva, mostrou que vários jornalistas de primeira grandeza ainda se recusavam a crer que Hitler fosse mesmo levar suas alucinações à prática quando seu regime totalitário já estava praticamente implantado.
No final de 1944, cerca de 100 mil opositores do nacional-socialismo, entre os quais comunistas, social-democratas e liberais, além de judeus e homossexuais, começavam a ser amontoados em campos de concentração. A pseudociência da “eugenia” começava a ser posta em prática mediante assassinatos e castração de indivíduos pertencentes a “raças inferiores”, como os ciganos. Contudo, em que pese aquele monstruoso precedente, não creio que Bolsonaro ponha em prática suas elucubrações golpistas, ou que permaneça sequer um mês no poder, caso o faça.
Oscar Vilhena Vieira* - A reconstrução do tecido democrático
Folha de S. Paulo
Desafios a serem enfrentados é o que não falta
Ao difamar
o processo eleitoral brasileiro para uma audiência composta de embaixadores
estrangeiros, num claro ato de deslealdade institucional, Bolsonaro desencadeou
a formação de um inesperado e amplo arco de forças na defesa do Estado
democrático de Direito.
Desta vez não foram apenas os setores
tradicionalmente sensíveis e vigilantes aos sucessivos ataques aos direitos
fundamentais e à democracia,
como a imprensa, as organizações da sociedade civil, juristas, artistas e
intelectuais que se levantaram.
A gravidade das investidas contra as urnas eletrônicas, o Supremo Tribunal Federal e o Tribunal Superior Eleitoral despertou também entidades como a Fiesp, a Febraban, a Fecomercio, e mesmo entidades do Agro, como a Abiove, para a necessidade de assumirem uma postura mais clara sobre a defesa da democracia.
João Gabriel de Lima* - Em defesa de nossa maior conquista
O Estado de S. Paulo
Os disparates que nos envergonharam serviram de estopim para que a sociedade civil se levantasse
A redemocratização brasileira, grande
conquista de uma geração, era considerada um caso exemplar na ciência política.
Os estudiosos se impressionavam com as instituições que se fortaleciam, as
eleições regulares e as transições civilizadas. Usadas pela primeira vez em
1996, as urnas eletrônicas – seguras, rápidas, confiáveis – sempre foram vistas
mundo afora como símbolo do sucesso.
Esse símbolo vem sendo atacado sistematicamente pelo presidente Jair Bolsonaro – que há duas semanas reuniu embaixadores para espalhar “fake news” sobre as urnas eletrônicas. A sociedade civil reagiu ao disparate que nos envergonhou no plano internacional. “O processo de apuração no Brasil tem servido de exemplo ao mundo com respeito aos resultados e transição republicana de governo”, diz a “Carta às Brasileiras e aos Brasileiros em Defesa do Estado Democrático de Direito”. O manifesto, elaborado na tradicional Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, explodiu em adesões ao longo da semana.
Ascânio Seleme - É fácil criticar Lula
O Globo
Para recuperar a simpatia que um dia teve de camadas maiores da população brasileira, o partido precisa fazer um mea-culpa correto e amplo
Foram cometidos inúmeros erros, equívocos e
alguns crimes nos oito anos de mandato de Luiz Inácio Lula da Silva. É muito
fácil criticar o ex-presidente. Pelo mensalão, por exemplo, crime pelo qual
quase foi cassado e que começou a ser gestado ainda antes da sua posse. Quando
o escândalo eclodiu, Lula alegou nada saber e demitiu o então ministro José
Dirceu, articulador da troca de votos no Congresso por mesadas a parlamentares
e partidos políticos. Pode-se criticá-lo também por ter sido em seu governo que
o petrolão germinou, com a lotação de diretorias da Petrobras entre os partidos
aliados.
No plano pessoal, Lula também pode ser desaprovado pelo tríplex do Guarujá e o sítio de Atibaia. Da mesma forma é condenável ter permitido que seu filho Fábio Luís assinasse um contrato com a Telemar, empresa na qual o governo tinha participação acionária. Pode-se também censurar Lula por algumas das escolhas políticas que fez. A pior delas talvez seja a aliança com o Centrão. Um líder de partido de esquerda, que assumira o governo prometendo mudar a forma de fazer política, cometeu o mesmo erro de seus antecessores e dos que viriam depois dele. A escolha solitária de Dilma para sucedê-lo também provou-se um equívoco.













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