segunda-feira, 1 de agosto de 2022

Opinião do dia – Hannah Arendt* (liberdade e pobreza)

“O enorme impacto dos conceitos e formulações de Marx sobre o curso da revolução é inegável, e embora seja tentador, em vista do absurdo escolasticismo do marxismo do século XX, atribuir essa influência aos elementos ideológicos na obra deste pensador, talvez seja mais exato inverter o argumento e atribuir a perniciosa influência do marxismo as várias descobertas autenticas e originais feitas por Marx. Seja como for, não resta dúvida de que o jovem Marx se convenceu de que a Revolução Francesa havia falhado em instaurar a liberdade porque havia falhado em resolver a questão social. Disso ele concluiu que liberdade e pobreza eram incompatíveis. Sua contribuição mais explosiva e, de fato mais original a causa da revolução foi interpretar as necessidades imperiosas da pobreza das massas em termos políticos, como uma revolta não por pão ou por bens, mas também pela liberdade.”

*Hannah Arendt (1906-1975),“Sobre a Revolução” (1963), p. 95. – Companhia de Letras, São Paulo, 2006.

Fernando Gabeira - Eleições, roteiro de um não candidato

O Globo

Tomamos um banho de atraso, preconceito e truculência. Hora de sacudir a poeira e dar a volta por cima

Com as convenções partidárias, começou, oficialmente, o processo eleitoral. Dizem que teremos eleições históricas. De certa maneira, todas as eleições são históricas, se considerarmos que muitas resultam em programas transformadores, outras resultam em impeachment. Nunca passam em branco.

Na verdade, é necessário admitir que as eleições têm inúmeros traços singulares e pedem também uma certa preparação do eleitor para os meses de campanha.

O primeiro ponto a destacar é a violência. Já houve um assassinato em Foz do Iguaçu, as redes estão inundadas por insultos e, em Minas, um homem foi preso por ameaçar pendurar os ministros do Supremo de cabeça para baixo.

Não sei se a melhor tática é prender quem faz ameaças. Em alguns países, as pessoas passam a ser apenas monitoradas. O que não deixa de ser uma escolha arriscada; se cometem um crime, a responsabilidade acaba se transferindo para quem hesitou em prendê-las.

Miguel de Almeida - 11 de agosto terá gosto de 7 de setembro

O Globo

Ter de ler texto de 636 palavras azedou Bolsonaro

O que azedou Bolsonaro não foi o teor da “Carta às Brasileiras e aos Brasileiros em defesa do Estado Democrático de Direito”. Fosse um tuíte, tudo bem. Mas ele se viu forçado a ler um texto de 636 palavras, com ponto, vírgula e parágrafos. Além de referências conceituais, históricas e sociológicas. Foi como atravessar “Guerra e paz”, de Tolstói.

Com base em sua performance pública de usuário de teleprompter, é possível dizer que a leitura dos 15 parágrafos tenha lhe consumido o tempo equivalente a três motociatas sem capacete. Para esnobar, chamou o documento de “cartinha”. Longe de ser juízo de valor, o diminutivo denota o incômodo com a quantidade de sinapses de que se viu forçado a lançar mão num cérebro moldado a frases diretas, jamais subjuntivas e nunca conjuntivas.

Marcus André Melo* - Invasão do Capitólio?

Folha de S. Paulo

Nosso sistema eleitoral não é descentralizado, hiperpolitizado, nem visto como vulnerável pela opinião pública

O debate sobre as eleições presidenciais tem girado em torno da tentativa de um "golpe" (com hora marcada!) e a referência ubíqua é a invasão do Capitólio americano. O paralelo tem alguma plausibilidade; são dois líderes populistas que compartilham similaridades. Mas há pelo menos três importantes diferenças institucionais que explicam por que a dinâmica de um eventual tumulto seria radicalmente distinta.

A primeira é que inexiste uma autoridade federal de facto encarregada de eleições nos EUA. A ratificação dos resultados eleitorais é descentralizada a nível estadual e mesmo local; o que é consistente com a existência de diferentes regras eleitorais nos estados (o que não é excepcionalidade americana, é assim também na Argentina, Alemanha etc.). No Brasil, o sistema é centralizado no TSE.

Celso Rocha de Barros - Que chance tem Bolsonaro?

Folha de S. Paulo

Presidente depende de efeitos eleitorais da PEC 'Medo do Lula' e de golpismo passar despercebido

Nenhuma virada em eleições presidenciais brasileiras começou de agosto em diante. A pesquisa Datafolha da semana passada veio igual à do mês anterior. Isso quer dizer que Bolsonaro tem que cobrir a mesma distância que já o separava de Lula em um período 30% menor.

Por mais que os bolsonaristas mintam sobre o Datafolha, a pesquisa do instituto era a melhor esperança de uma boa notícia para o Planalto no fim de julho. O Datafolha faz pesquisas presenciais, que são melhores para medir os votos dos pobres.

Pesquisas presenciais têm sido piores para Bolsonaro —os pobres votam em Lula— mas é justamente para o voto dos pobres que Bolsonaro está olhando com mais atenção: se a PEC "Medo do Lula" produzir efeitos eleitorais significativos, será entre os pobres.

Mathias Alencastro* - Recados contra o golpe

Folha de S. Paulo

Compromisso de Washington com democracia brasileira é real, mas condicionado pela política doméstica

Quinze dias depois da escandalosa apresentação de Jair Bolsonaro (PL) a embaixadores, os Estados Unidos enviaram um triplo recado militar, jurídico e econômico.

Em visita ao Brasil, o secretário de Defesa Lloyd Austin falou em "devoção à democracia", deixando implícito que a cooperação militar seria interrompida se as Forças Armadas brasileiras aderissem ao golpismo. Por sua vez, a comissão de inquérito do Congresso americano sinalizou a possibilidade de incluir o bolsonarismo nas investigações contra Donald Trump.

Enfim, nesse período também ficou claro que a Faria Lima teria de escolher entre o Posto Ipiranga e o sistema Swift, pois a ruptura institucional seria sinônimo de alienação do sistema financeiro. Isso explica a quantidade de empresários recém-convertidos que correram para assinar a carta pró-democracia.

Denis Lerrer Rosenfield* - Democracia

O Estado de S. Paulo

Para se materializar, um golpe precisaria do apoio da sociedade, do suporte internacional e da participação dos militares. Sem isso, só se tem uma ópera-bufa.

A política bolsonarista tem como característica principal estar baseada na distinção entre amigos e inimigos, os primeiros sempre sendo variáveis ao sabor das circunstâncias, enquanto os segundos têm demonstrado invariância, centrando-se nas urnas eletrônicas, no Supremo Tribunal Federal (STF) e no Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Os amigos mostram a volatilidade de suas alianças, sem nenhum princípio fundado em ideias ou valores morais, onde se encontra ausente qualquer noção de lealdade. Veja-se o que fez com aliados civis de primeira hora, depois abandonados, e com generais importantes que foram simplesmente descartados, segundo o seu arbítrio.

Os inimigos foram se afunilando, chegando à campanha eleitoral em posição de destaque as instituições democráticas. Seu discurso e suas ações decorrentes, em coerência, diga-se de passagem, concentraram-se nas urnas eletrônicas e na Justiça Eleitoral, sem deixar, porém, de atacar o Supremo. Se conseguiu cooptar – melhor dito comprar – o Legislativo, sobretudo a Câmara dos Deputados via orçamento secreto e outros tipos de emenda, num sequestro flagrante dos recursos públicos e das funções legislativas, o mesmo não aconteceu com o Judiciário. Ministros não se curvaram e souberam fazer frente aos seus arroubos.

Felipe Moura Brasil - Muitos pró-‘democracia’, poucos antissistema

O Estado de S. Paulo

A corrupção não consta na carta pela democracia, porque no Brasil ela é democrática

Defino “sistema” como o conjunto de lideranças apodrecidas das instituições e das elites econômicas que fazem escambos entre si para manter ou aumentar seus poderes, privilégios e blindagens, em detrimento da moralidade e do interesse públicos.

A Carta às Brasileiras e aos Brasileiros em Defesa do Estado Democrático de Direito!, divulgada em 26 de julho de 2022, busca proteger o regime em que “temos os Poderes da República, o Executivo, o Legislativo e o Judiciário, todos independentes, autônomos e com o compromisso de respeitar e zelar pela observância do pacto maior, a Constituição Federal” de 1988, onde estão previstas “eleições livres e periódicas”, “cabendo a decisão final à soberania popular”.

Assim entendida, a “democracia” é perfeitamente compatível com o sistema, uma vez que o respeito e o zelo pelas regras constitucionais são matérias de interpretação da cúpula circunstancial dos Poderes, que não deveria, mas pode, conforme a conveniência, afetar retoricamente o referido compromisso sem cumpri-lo na prática.

Bruno Carazza* - Receita nº 5 para ser eleito: ser famoso

Valor Econômico

Pastores, celebridades e militares têm acesso facilitado ao poder

O sistema eleitoral brasileiro impõe imensas barreiras à entrada na política. Candidatos a deputado estadual e federal têm que brigar pelos votos de todos os eleitores de seus Estados e fazem isso diante de milhares de adversários provenientes de dezenas de partidos.

Diferenciar-se em meio a tantas opções e levar suas propostas a milhões de eleitores, às vezes em territórios longínquos, custa caro. Nas últimas quatro semanas demonstrei como concorrentes com acesso aos bilhões do fundo eleitoral, a uma confortável fortuna familiar ou a doadores generosos levam grande vantagem.

Hoje termino a série analisando aqueles que conseguem se sagrar vencedores sem os trunfos que o dinheiro, público ou privado, oferece.

Lucinda Pinto - Ventos contrários à política monetária

Valor Econômico

Ação do BC perdeu um pouco de efetividade potencial

À espera por mais uma alta da taxa de juros na próxima quarta-feira - e como é típico nos momento em que os ciclos monetários se estendem -, surgem vozes questionando se o Banco Central não estaria indo longe demais no ciclo de aumento da Selic. A taxa já subiu 11,25 pontos percentuais ao longo de 16 meses. Deve ganhar mais 0,5 ponto na reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) da próxima quarta-feira, com chances de ir além, o que reforça a expectativa em relação a qual será a mensagem do comitê a respeito dos próximos passos.

Ninguém imaginava que o BC iria tão longe. Quando o ciclo começou, em março de 2021, os mercados trabalhavam com a ideia de que seria apenas um processo de normalização do juro como resposta à a alta dos preços derivada da reabertura global da economia. Assim como no resto do mundo, todos achavam que tratava-se de uma inflação temporária, com grande chance de ser controlada, especialmente porque o BC brasileiro saíra à frente dos demais no combate a esse cenário de preços mais altos. Assim, a ideia de uma taxa de dois dígitos foi por muito tempo negada. Até que as projeções para a inflação foram sistematicamente frustradas, comprovando que o ineditismo do cenário havia abalado modelos e parâmetros adotados até então. A bússola estava quebrada e fazer previsões tornou-se quase impossível.

Irapuã Santana - Fracasso é um aprendizado

O Globo

Tenho uma chance de mostrar que todo dia é dia de tentar e de renovar as esperanças de quem pode ler este texto

Em 2016, o professor da Universidade Princeton Johannes Haushofer publicou em rede social um currículo em que relata apenas os fracassos de sua carreira.

Inspirado nessa iniciativa, gostaria de compartilhar algumas experiências que passei na caminhada até aqui. Assim tenho uma chance de mostrar que todo dia é dia de tentar e de renovar as esperanças de quem pode ler este texto.

O primeiro fracasso de que tenho lembrança foi com 13 anos, numa prova do Colégio Naval em que, de 20 questões de matemática, acertei apenas 5. Muito embora eu estudasse várias horas por dia, não tive preparo psicológico para aguentar a pressão por bons resultados e sofri um apagão. Nessa mesma época, deixei de fazer uma prova para a Escola Preparatória de Cadetes do Ar (Epcar) por não ter atentado para a necessidade de ter uma carteira de identidade oficial e, dessa forma, perdi mais um ano inteiro de estudos. Mas não parei por aí. No ano seguinte, finalmente fui aprovado no concurso para a Epcar, mas descobri que era míope e acabei eliminado do processo seletivo.

O que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões

Editoriais / Opiniões

A rejeição feminina a Bolsonaro

O Estado de S. Paulo

É provável que ela seja fruto menos de suas ofensas e mais de seu desgoverno, que prejudicou a vida de mulheres responsáveis pelo bem-estar familiar num ambiente de privação

Todas as pesquisas eleitorais apontam que o índice de rejeição a Jair Bolsonaro é expressivamente maior entre mulheres do que entre homens. À primeira vista, o dado pode suscitar uma conclusão óbvia e, por isso mesmo, incompleta. Seria uma resposta a um presidente que não perde a chance de proferir piadas machistas ou reproduzir discursos misóginos. Essa atitude de Bolsonaro, no entanto, precede a vitória que o presidente obteve no pleito de 2018 – e, se essa visão fosse majoritária, ele jamais teria se sagrado vencedor da disputa em um país em que as mulheres são maioria.

Poucos são os que exploram com profundidade as razões por trás dessa avaliação tão negativa. Um deles foi o cientista político Felipe Nunes, diretor do instituto de pesquisas Quaest. Em entrevista à jornalista Thaís Oyama, do UOL, ele sugeriu que a resposta pode estar no papel central que as mulheres têm no gerenciamento doméstico e na relevância que o eleitorado feminino dá a políticas públicas.

Pagar contas, fazer compras e administrar um lar não é uma atribuição exclusiva das mulheres, mas é inegável que a divisão de tarefas entre a maioria dos casais não é equilibrada, algo que transcende a questão da renda. Portanto, é sobre as mulheres, sobretudo as mães, que recai a responsabilidade de lidar com um orçamento doméstico apertado ante a alta dos preços, de administrar a escassez quando o desemprego afeta a família e de recorrer a serviços públicos de qualidade duvidosa para cuidar da saúde e da educação dos filhos.

Poesia | Manuel Bandeira - Belo Belo

 

Música | Martinho da Vila - Você passa, eu acho graça

 

domingo, 31 de julho de 2022

Luiz Werneck Vianna* - Completar a obra da democratização

Para observadores desatentos o apego irracional ao poder por parte de Bolsonaro quando todos e tudo lhe escapam do controle e comunicam em alto e bom som que chegou a hora do seu fim, aparenta sinais de loucura, de falhas cognitivas que escapam a uma percepção normal das circunstâncias a que está exposto, tanto no processo eleitoral que emite sinais irreversíveis de derrota nas urnas, como na rejeição manifesta pela opinião pública entre gregos e troianos, inclusive de largas fatias da elite, ao seu estilo de mando e de governo.

Mas há método nessa loucura, e que não recua do uso de qualquer expediente que evite a sua derrota final, em última instância até o de favorecer enfrentamentos que levem o país à beira de numa guerra civil. Bolsonaro e seu entorno imediato nunca esconderam seus propósitos do que entendiam como uma purificação política do país pela eliminação dos seus adversários, no limite, física (os trinta mil mortos tantas vezes mencionados publicamente), explícita na glorificação de militares torturadores na ditadura militar e na sua obsessão de defesa do regime do AI-5. Nesse sentido, converteu em uma política de Estado a difusão do culto às armas e a massificação da sua posse, e favoreceu a criação de milícias entre seus simpatizantes e sequazes.

Alberto Aggio* - Emerge a frente democrática

Precisamente no momento em que a mídia anuncia que as pré-candidaturas à presidência da República se oficializam nas suas respectivas Convenções, começa uma certa movimentação de alguns candidatos aparentemente em deriva rumo à candidatura Lula. A mídia registrou incomuns elogios de Ciro Gomes a Lula bem como giro ainda mais ostensivo de André Janones em direção ao líder petista e assim os vem interpretando.

Tais movimentações parecem indicar que o panorama eleitoral ainda não está de todo definido, mesmo que se veja nele um cenário pouco afeito a mudanças, com o embate se concentrando em Lula e Bolsonaro. Se alguma coisa se move na atual disputa, tudo indica que não será capaz de alterar os termos em que ela acabou se desenhando.

Mas algo de novo ocorreu nos últimos dias. Há pouca discordância de que o fato novo a se registrar foi a carta Estado de Direito Sempre, redigida por professores de Direito da USP, que causou um enorme impacto. A carta foi imediatamente traduzida como Carta em Defesa da Democracia, movimentou o cenário político e repercutiu na arena eleitoral. A Carta representa efetivamente um divisor de águas porque alterou o centro de gravidade da conjuntura política.

Míriam Leitão - Carta do Direito e a nova aliança

O Globo

Quando formam-se alianças, a democracia se fortalece, e esse é o sentido da Carta contra as ameaças autoritárias que rondam as eleições

Há um momento em que notas de grupos viram manifestos de alianças. Muda a natureza do movimento. Foi o que aconteceu nos últimos dias. A Carta às Brasileiras e aos Brasileiros remete a um símbolo forte do passado e une pessoas diferentes entre si sob uma bandeira comum. As mesmas arcadas do Direito da USP que ouviram Goffredo da Silva Telles Jr. ouvirão Celso de Mello na defesa da democracia. Empresários, banqueiros, intelectuais, profissionais de diversas áreas se uniram num manifesto que na sexta-feira já ultrapassava 400 mil assinaturas. Outros documentos estão sendo preparados. A sociedade civil fez muito pelo fim da ditadura militar com atos como esses.

Só subestima o que está acontecendo quem não conhece a História ou não valoriza a força da democracia. Jair Bolsonaro diz que não entendeu as cartas pró-democracia e emendou: “Estão com medo do quê?” É difícil para o presidente entender o que seja um movimento de defesa da democracia. Ele não entende disso. E não é exatamente medo o que move os subscritores, é a certeza de que Bolsonaro representa um risco para as instituições do país.

Elio Gaspari - Em 1977, o SNI não entendeu a Carta

O Globo

O negócio daquela Carta, como a de hoje, era a democracia

Jair Bolsonaro e o doutor Ciro Nogueira, chefe da Casa Civil da Presidência, disseram que o manifesto da Carta em Defesa da Democracia era coisa de banqueiros ressentidos pela popularização do Pix.

Seria ingenuidade supor que eles não entendem de banqueiros ou de política. Bolsonaro e Nogueira estão num palácio onde algum efeito sobrenatural tem a capacidade de distorcer a percepção da realidade.

No palácio, nada é o que é. Se cai um meteorito no Pará, isso pode ter sido jogada de alguma ONG.

A Carta de 2022 procura replicar o que teria sido o efeito da Carta ao Brasileiros que o professor Goffredo da Silva Telles leu numa noite de agosto de 1977, há 45 anos.

Valeria a pena que Nogueira e seus colegas palacianos relessem o que escreveu o falecido Serviço Nacional de Informações, analisando a cena do largo de São Francisco:

“A Carta aos Brasileiros

A leitura da “Carta aos Brasileiros” feita pelo Professor Goffredo da Silva Telles, dia 8 de agosto de 1977, no pátio interno da Faculdade de Direito da USP, como parte dos festejos comemorativos do sesqüicentenário da implantação dos cursos jurídicos no BRASIL deu a impressão, à primeira vista, de que se tratava de um ato oficial organizado pela Direção da Faculdade, em comemoração a mais um aniversário de sua fundação.

Na verdade, o documento em apreço, de mera conotação política, não teve apoio maciço da Congregação da referida Academia de Direito, senão de minoria inexpressiva, conquanto ativa.

É da entrevista do Diretor da Faculdade a afirmação: ‘A leitura (da Carta) era um ato político e pessoal do Professor Goffredo e, por isso, a permissão para uso do salão só poderia ser dada pela Congregação, mas o pedido não foi feito’.

A ‘Carta aos Brasileiros’ está recebendo a adesão de professores de outras escolas de Direito e de muitos advogados de São Paulo e de outros estados. No entanto, ela não está merecendo a adesão irrestrita nem sensibilizou a opinião pública, como esperavam seus autores. Alguns políticos de conhecida formação liberal se recusaram a assiná-la, sob os mais variados argumentos. (...) O presidente seccional da OAB em São Paulo deixou de assinar a ‘Carta’ por considerá-la um documento elaborado por iniciativa isolada.”

O SNI não havia entendido nada. O negócio daquela Carta, como a de hoje, era a democracia.

Como ensinou Mark Twain, a história não se repete, mas rima.

Bernardo Mello Franco - Discurso vencido

O Globo

Na contramão dos fatos, Bolsonaro insiste em dizer que acabou com a corrupção. Para 73%, esse discurso já estourou o prazo de validade

No último dia da campanha de 2018, Jair Bolsonaro não saiu de casa. Limitou-se a fazer uma aparição nas redes sociais. Com a vitória garantida, o capitão repetiu seu número preferido: prometeu combater a corrupção e acabar com o loteamento de ministérios e estatais.

“O que está em jogo não é a democracia, não. O que está em jogo é a perpetuação dessa máquina podre que nós temos aí, que vive da corrupção”, pontificou. “O que está em jogo é a corrupção, são os grupos que não querem sair de lá porque vivem mamando nas tetas do Estado”.

O discurso de Bolsonaro estava amparado em pesquisas. Depois de quatro anos de Lava-Jato, a corrupção aparecia no topo das preocupações dos brasileiros. No sétimo mandato de deputado, o capitão conseguiu fazer mágica e se vender como um outsider. A aliança com o juiz Sergio Moro, que aceitou abandonar a magistratura para virar ministro, deu o toque final no personagem.

Alessandra Ribeiro e Rafael Cortez* - É a política e a economia, estúpido!

O Globo

A melhor situação econômica não basta para evitar riscos democráticos

‘É a economia, estúpido’. O uso da frase do estrategista de campanha do Partido Democrata, James Carville, no início de 1992 tornou-se comum nas análises eleitorais mundo afora.

A racionalidade por trás da afirmação é razoavelmente simples: cenário econômico tem peso relevante no comportamento dos eleitores, tornando a disputa presidencial uma avaliação do desempenho do governo na condução da economia. Uma economia que cresce significaria vitória do candidato à reeleição, independentemente das variáveis políticas, tais como natureza do sistema de partidos, perfil dos candidatos ou estrutura de campanha. Seria tão poderosa que, no limite, ela também produziria estabilidade política.

Os últimos anos, porém, foram marcados pela “redescoberta da política”, invertendo a relação entre economia e política. A análise das regras do jogo e das escolhas dos tomadores de decisão passou a ter impacto decisivo no comportamento das economias. A crise política nos países avançados, decorrente da crise sistêmica de legitimidade das organizações partidárias tradicionais, mostrou que o risco político não era apenas problema de países periféricos. A melhor situação econômica não basta para evitar riscos democráticos e episódios de violência política.

Dorrit Harazim – Penitências

O Globo

Pedidos oficiais de desculpas são registros civilizatórios essenciais para o conhecimento de quem somos

A História está coalhada de memoráveis pedidos de desculpas públicas, moldadas por graus variáveis de sinceridade e intento de reparação. Pena que só vez por outra essas penitências oficiais por atos cometidos por (a)gentes do passado conseguem ser confrontadas com situações presentes. No âmbito de nossas relações pessoais, é fácil: a sinceridade de uma jura de não repetição do erro é perfeitamente auditável por quem sofre o abuso. Basta aguardar os dias seguintes. Mais difíceis e complexos de avaliar são os pedidos oficiais de desculpas por crimes deliberadamente enterrados na História por uma instituição, governo ou nação. Ainda assim, são registros civilizatórios essenciais para o conhecimento de quem somos.

Janio de Freitas – O medo que ameaça

Folha de S. Paulo

Presidente apela ao golpismo diante da derrota que se anuncia

Bolsonaro já está convencido de que não se reelege, e tem medo. Há dois meses até a eleição, tempo que não levaria um candidato esperançoso a providências de desespero.

Paulo Guedes e outros estão acionados em duas linhas avançadas. Uns têm feito sondagens nos tribunais superiores sobre possível contenção dos processos criminais de Bolsonaro.

Outros são portadores de propostas em que atitudes positivas de Bolsonaro e o encerramento dos processos se compensariam.

Mesmo que parte do Supremo Tribunal Federal argumente com a conveniência de instituições pacificadas e eleições tranquilas, não há sinal de maioria aberta a acordo.

Muniz Sodré* - Ditaduras moleculares

Folha de S. Paulo

A realidade de 2 milhões de pessoas no Rio de Janeiro é dependência das milícias

Como a imagem num holograma, que tem a informação do todo em cada uma de suas partes, pequenos relatos individuais não raramente expõem problemas de grande magnitude social. Assim é que um jovem universitário, morador de uma das grandes favelas cariocas, embora exultante pela oportunidade que lhe oferece o sistema público, me faz saber de seus percalços para cumprir tarefas. Há primeiro a distância e a precariedade do transporte.

Há, sim, as vantagens híbridas do online. E aí se revela outra ordem de dificuldades, pois a rede não funciona bem onde ele mora, e não há reclamação ou alternativa possíveis: o serviço é controlado por traficantes.

Hélio Schwartsman - Na Covid, Deus dá lição de biologia

Folha de S. Paulo

O vírus nos mostra o poder da seleção natural mediante variação

Não acho que Deus exista, mas admitamos, para fins de argumentação, que ele seja real e interfira no mundo. Existem vários modos de fazê-lo. Há desde o superativismo divino, no qual nem uma pedra rola sem autorização do criador, até o deísmo, pelo qual o demiurgo criou o universo com suas leis naturais e foi descansar num longo "shabbat", que já dura 14 bilhões de anos.

A pandemia de Covid-19 traz dificuldades para os partidários da primeira concepção, já que nos obrigaria a ver Deus como um cara malvado. Se tudo depende de decisão do criador, então ele é o culpado pelos 6 milhões de óbitos até aqui registrados. Não daria nem para condenar Bolsonaro por suas omissões, já que elas seriam parte do plano divino.

Vinicius Torres Freire – Salário a preço de liquidação

Folha de S. Paulo

Inflação e desemprego caem até outubro, mas emprego precário é problema para governismo

O índice de infelicidade é uma medida muito simplesinha de mal-estar econômico, mas diz alguma coisinha sobre o prestígio dos governantes. É a soma da taxa de inflação com a taxa de desemprego, uma ideia do economista americano Arthur Okun (1928-1980).

Em geral, também a popularidade de presidentes brasileiros varia com esse índice de infelicidade ou sofrimento ("misery index").

O índice de sofrimento econômico começou a cair por volta de março e deve baixar ainda mais. Parece plausível que a popularidade de Jair Bolsonaro (PL) tenha saído do fundo do poço, a partir do início do ano, por causa do aumento do número de pessoas com algum trabalho.

Como qualquer outra explicação simplesinha, o recurso apenas ao índice de sofrimento dá em besteira grande. Mas não convém desprezar as manhas e os efeitos da inflação e do emprego na conversa política.

Eliane Cantanhêde - Cobertor curto

O Estado de S. Paulo

Lula foca no voto útil, Bolsonaro sobe daqui, cai dali e fica no elas por elas, ou no eles por elas

O presidente Jair Bolsonaro sofre da síndrome do cobertor curto na eleição: quando melhora daqui, piora dali e essa soma zero é a favor do ex-presidente Lula, que atravessa toda a campanha numa dianteira confortável e está com 14 pontos de vantagem, segundo o Agregador de Pesquisas do Estadão, com a possibilidade, difícil, não impossível, de vitória em primeiro turno.

Bolsonaro foi de 19% para 24% entre os nordestinos, pelo Datafolha, mas está 35 pontos atrás de Lula no Nordeste e 15 pontos no Sudeste e as duas regiões reúnem 70% do eleitorado brasileiro. Ele também ganhou seis pontos entre as mulheres, mas perdeu quatro entre os homens. Ficou elas por elas, ou eles por elas.

Se o presidente melhorou um tantinho entre os de menor renda, Lula compensou entre os mais ricos. E, se Bolsonaro é o preferido dos evangélicos (43% a 33%), Lula é o dos católicos, com margem bem maior (52% a 25%), e tem 51% dos espíritas.

Luiz Carlos Azedo - Lula explora favoritismo para ampliar alianças

Correio Braziliense / Estado de Minas

Não há relação direta do descolamento do establishment empresarial e jurídico em relação a Bolsonaro com o apoio desses segmentos a Lula, mas manifestos abrem espaços para o petista

Os manifestos em defesa da democracia, das urnas eletrônicas, da Justiça Eleitoral e do Supremo Tribunal Federal (STF) — um deles articulado por ministros aposentados da Corte, professores e alunos da tradicional Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, da Universidade de São Paulo (USP); o outro, pela poderosa Federação das Indústrias de São Paulo (Fiesp), com apoio da Federação do Comércio de São Paulo (Fecomércio-SP) e da Federação Brasileira dos Bancos (Febraban) — sinalizam um grande movimento de placas tectônicas na política brasileira.

Representam a reação da sociedade civil à narrativa golpista de Jair Bolsonaro (PL), principalmente depois da reunião com diplomatas de cerca de 70 países, na qual levantou suspeitas sobre o sistema eleitoral e atacou os ministros do Supremo Luís Roberto Barroso, Édson Fachin e Alexandre de Moraes. O fato de o presidente ter anunciado a intenção de convocar uma manifestação para o 7 de setembro, dia do Bicentenário da Independência, com o propósito de confrontar o Supremo, no domingo passado, na convenção eleitoral do PL, deu mais repercussão aos manifestos, que podem chegar a um milhão de assinaturas de personalidades dos mundos jurídico, empresarial, acadêmico, científico e artístico.

A 63 dias do primeiro turno das eleições, os dois manifestos sinalizam um realinhamento de forças políticas e sociais de muita envergadura, cujas consequências eleitorais não estão ainda definidas, mas revelam o profundo isolamento político de Bolsonaro, dos generais que o cercam e dos políticos do Centrão que controlam o Orçamento do governo. O inegável prestígio popular, que mantém uma base eleitoral bastante resiliente, e o peso da utilização da máquina governamental para desequilibrar a eleição a seu favor, por meio da aprovação da PEC da Eleição, não vêm sendo suficientes para reduzir os índices de rejeição de Bolsonaro, o que mantém a polarização e a radicalização políticas, mas não a sua expectativa de poder.

Cristovam Buarque* - Um Ministro da Educação de Base

Blog do Noblat / Metrópoles

O governo federal como o responsável pela educação de base das crianças brasileiras

A ideia de o governo federal adotar responsabilidade sobre a educação de base das crianças brasileiras, está explicitada no programa de governo do Ciro Gomes. Em sua entrevista à Globo News, a Senadora Simone Tebet também levantou a possibilidade de a educação de base ser uma função de todo o Brasil. 

Desde a eleição de 2006, os candidatos à presidência não explicitavam estratégias neste sentido, e aparentemente apenas estes candidatos demonstram esta concepção; os demais parecem aceitar a ideia de que o atual sistema municipal é capaz de permitir o salto na educação de base; ou consideram que este salto é desnecessário e basta facilitar o ingresso no ensino superior, mesmo com a educação de base sem qualidade. 

O que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões

Editoriais / Opiniões

Democracia sempre

Folha de S. Paulo

Sociedade reage e expressa adesão incondicional aos valores democráticos e repúdio ao golpismo

Os manifestos em articulação na cidadania e entre associações da iniciativa privada contra as ameaças golpistas do presidente da República reforçam e renovam, na sua origem, os compromissos fundadores do pacto democrático nacional.

A carta organizada por ex-alunos da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, endossada a esta altura por centenas de milhares de subscritores, aciona o vínculo primordial do regime das liberdades, inscrito na Carta de 1988.

"Todo poder emana do povo, que o exerce por meio de seus representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição." As eleições periódicas, porque cruciais para essa transferência condicionada de poder, não podem ser objeto de alteração na lei fundamental.

O texto menciona a trajetória de respeito aos resultados eleitorais e de transições ordeiras que já avança pela quarta década. Enfatiza o ganho de confiabilidade representado pela votação eletrônica, sobre a qual jamais foi comprovada fraude em mais de 25 anos de emprego.

Ao reduzir drasticamente os votos inválidos, a urna digital cumpriu na prática a promessa da Nova República de incluir no exercício rotineiro da soberania popular os brasileiros menos instruídos.

A confiança no sistema de votação, segundo pesquisa do Datafolha concluída nesta quinta (28), abrange 79% dos eleitores, sendo francamente majoritária (69%) entre os eleitores do presidente Jair Bolsonaro (PL), que vilipendia as urnas e a Justiça diariamente.

Convite | Lançamento do livro - O mundo é uma escola ( Cristovam Buarque)

 


Poesia | Ascenso Ferreira - Trem de Alagoas / Noturno / Cabra Cabriola

Música | Teresa Cristina & Zezé Gonzaga - Barracão (Luiz Antônio e Oldemar Teixeira Magalhães)

 

sábado, 30 de julho de 2022

Bolívar Lamounier* - Bolsonaro é blefe ou ameaça séria?

O Estado de S. Paulo

Podemos ser arrastados para um desastre, mas não por desatenção ou por grave erro de avaliação, como aconteceu na Alemanha

É voz corrente que Jair Bolsonaro tenta aliciar uma parte dos militares e das polícias estaduais para um golpe de Estado, mas desatinar é uma coisa, levar o desatino à prática é outra.

Tal desvario é levado a sério por muitas pessoas lúcidas, e antes isso, pois, como sabemos, “o preço da liberdade é a eterna vigilância”. Comparar o Brasil de hoje com a Alemanha da primeira metade do século passado não faz muito sentido, mas vale a pena registrar que a revista Foreign Affairs, numa recente edição retrospectiva, mostrou que vários jornalistas de primeira grandeza ainda se recusavam a crer que Hitler fosse mesmo levar suas alucinações à prática quando seu regime totalitário já estava praticamente implantado. 

No final de 1944, cerca de 100 mil opositores do nacional-socialismo, entre os quais comunistas, social-democratas e liberais, além de judeus e homossexuais, começavam a ser amontoados em campos de concentração. A pseudociência da “eugenia” começava a ser posta em prática mediante assassinatos e castração de indivíduos pertencentes a “raças inferiores”, como os ciganos. Contudo, em que pese aquele monstruoso precedente, não creio que Bolsonaro ponha em prática suas elucubrações golpistas, ou que permaneça sequer um mês no poder, caso o faça.

Oscar Vilhena Vieira* - A reconstrução do tecido democrático

Folha de S. Paulo

Desafios a serem enfrentados é o que não falta

Ao difamar o processo eleitoral brasileiro para uma audiência composta de embaixadores estrangeiros, num claro ato de deslealdade institucional, Bolsonaro desencadeou a formação de um inesperado e amplo arco de forças na defesa do Estado democrático de Direito.

Desta vez não foram apenas os setores tradicionalmente sensíveis e vigilantes aos sucessivos ataques aos direitos fundamentais e à democracia, como a imprensa, as organizações da sociedade civil, juristas, artistas e intelectuais que se levantaram.

A gravidade das investidas contra as urnas eletrônicas, o Supremo Tribunal Federal e o Tribunal Superior Eleitoral despertou também entidades como a Fiesp, a Febraban, a Fecomercio, e mesmo entidades do Agro, como a Abiove, para a necessidade de assumirem uma postura mais clara sobre a defesa da democracia.

João Gabriel de Lima* - Em defesa de nossa maior conquista

O Estado de S. Paulo

Os disparates que nos envergonharam serviram de estopim para que a sociedade civil se levantasse

A redemocratização brasileira, grande conquista de uma geração, era considerada um caso exemplar na ciência política. Os estudiosos se impressionavam com as instituições que se fortaleciam, as eleições regulares e as transições civilizadas. Usadas pela primeira vez em 1996, as urnas eletrônicas – seguras, rápidas, confiáveis – sempre foram vistas mundo afora como símbolo do sucesso.

Esse símbolo vem sendo atacado sistematicamente pelo presidente Jair Bolsonaro – que há duas semanas reuniu embaixadores para espalhar “fake news” sobre as urnas eletrônicas. A sociedade civil reagiu ao disparate que nos envergonhou no plano internacional. “O processo de apuração no Brasil tem servido de exemplo ao mundo com respeito aos resultados e transição republicana de governo”, diz a “Carta às Brasileiras e aos Brasileiros em Defesa do Estado Democrático de Direito”. O manifesto, elaborado na tradicional Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, explodiu em adesões ao longo da semana.

Ascânio Seleme - É fácil criticar Lula

O Globo

Para recuperar a simpatia que um dia teve de camadas maiores da população brasileira, o partido precisa fazer um mea-culpa correto e amplo

Foram cometidos inúmeros erros, equívocos e alguns crimes nos oito anos de mandato de Luiz Inácio Lula da Silva. É muito fácil criticar o ex-presidente. Pelo mensalão, por exemplo, crime pelo qual quase foi cassado e que começou a ser gestado ainda antes da sua posse. Quando o escândalo eclodiu, Lula alegou nada saber e demitiu o então ministro José Dirceu, articulador da troca de votos no Congresso por mesadas a parlamentares e partidos políticos. Pode-se criticá-lo também por ter sido em seu governo que o petrolão germinou, com a lotação de diretorias da Petrobras entre os partidos aliados.

No plano pessoal, Lula também pode ser desaprovado pelo tríplex do Guarujá e o sítio de Atibaia. Da mesma forma é condenável ter permitido que seu filho Fábio Luís assinasse um contrato com a Telemar, empresa na qual o governo tinha participação acionária. Pode-se também censurar Lula por algumas das escolhas políticas que fez. A pior delas talvez seja a aliança com o Centrão. Um líder de partido de esquerda, que assumira o governo prometendo mudar a forma de fazer política, cometeu o mesmo erro de seus antecessores e dos que viriam depois dele. A escolha solitária de Dilma para sucedê-lo também provou-se um equívoco.