sábado, 17 de outubro de 2026

Pare, Flávio. Olhe. E pense, por Eduardo Affonso

Por O Globo

Sua anunciada subserviência aos Estados Unidos é tão nefasta quanto a birra petista; não faltam aloprados no seu entorno

Pode haver conselho de mãe nos para-choques de caminhão (“Mantenha distância”), autoajuda nas tampas dos bueiros (“Força e Luz”) e pílulas de sabedoria nas placas de cruzamento com a linha do trem (“Pare. Olhe. Escute.”). Os sinais estão por toda parte, Flávio, é só prestar atenção.

Você disse que é um “Bolsonaro que tomou vacina”. Convenhamos que não tenha feito mais do que qualquer pessoa sensata faria. As vacinas nos salvaram da varíola, da poliomielite, da rubéola; nos salvam de sarampo, tétano, coqueluche, raiva, meningite, tuberculose; hão de nos salvar da mpox, do Ebola e do que vier por aí.

Vacina é uma das maiores descobertas da Humanidade. Simula-se uma ameaça, o corpo se prepara e, quando o perigo real vem, as defesas estão a postos. Parece um disparate comparar seu pai a um mal menor, mas talvez aqueles quatro anos em que ele esteve no governo tenham nos vacinado contra o obscurantismo, a beligerância, a falta de empatia. Por isso seu maior adversário é esse sobrenome, que evoca irresponsabilidade, desprezo pela cultura, pela vida.

Repare que as críticas que lhe fazem não estão ligadas à falta de experiência administrativa — não, a fantástica loja de chocolate não conta, nem o gerenciamento subjetivo de salários dos funcionários do seu gabinete. Elas falam do fascismo (delirante) que lhe ficou de herança. É o peso de ser um Zero Um, sem existência própria. Se você ganhar esta eleição, terá conseguido tirar a esquerda do poder. Se perder, terá evitado que uma direita decente chegue lá. Isso é se contentar com pouco, não?

Seu programa de governo cita um bem-vindo “tesouraço”, mas é sério que você criará um Ministério da Prosperidade? Deve estar confundindo a Esplanada com um desses templos onde vendilhões enriquecem à custa da vulnerabilidade dos fiéis. Aliás, só acreditando em milagre para propor a redução do desmatamento enquanto flexibiliza o licenciamento ambiental.

Você quer resolver o problema de superlotação nos presídios superlotando os que construirá, no modelo importado de El Salvador? Leia os sinais à sua volta: “Em caso de incêndio, não use o elevador. Use as escadas”. Vamos mesmo voltar ao “Ivo viu a uva” como método de alfabetização — e ainda por cima numa escola cívico-militar? Está nas placas: “Jogue o lixo na lixeira”.

Sua anunciada subserviência aos Estados Unidos é tão nefasta quanto a birra petista; não faltam aloprados no seu entorno; o clima de “nós x eles” uma hora cansa. Dá para dispensar a nostalgia da ditadura — ou, se isso estiver acima das suas forças, pelo menos troque Médici por Geisel. Ele foi pragmático na política externa, peitou a linha dura, entendeu a necessidade da distensão. Certamente leu a placa “Cuidado com o cão”.

Você foi sensato ao tomar as duas doses contra a Covid-19. Se quiser desempatar este segundo turno, está na hora da dose de reforço, a que protege contra arroubos autoritários, casuísmos e maluquices (como indicar o irmão chapeiro para qualquer posto que exija equilíbrio e discernimento).

Você está num momento em que tanto pode atravessar os trilhos e desmentir o barão de Itararé — ele disse que, de onde menos se espera, daí é que não sai nada — ou ser atropelado pelo trem (cujo maquinista não tem economizado lenha nesta sua última viagem). Há um sinal bem à sua frente: “Pare. Olhe, Escute.” E outro: “Cuidado: piso escorregadio”. É bem onde você está pisando.

 

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