terça-feira, 13 de outubro de 2026

É corrupto, mas é o meu corrupto, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Pleito mostra que o eleitorado não é muito consistente na aplicação de critérios éticos

Bolsonaristas cobram higidez de Lula, mas ignoram suspeitas fortes contra Flávio

Faz todo o sentido que o eleitorado rejeite a corrupção. Até algumas décadas atrás, ainda havia uma corrente de economistas que descrevia o fenômeno em termos mais benignos, como uma "graxa" que lubrificaria engrenagens travadas por instituições disfuncionais ou por excesso de regulação. Mas essas ideias, que já caíram em descrédito na academia, nunca fizeram muito sentido quando consideradas do ponto de vista do cidadão, que é a parte prejudicada pelos desvios, seja pela subtração direta de recursos públicos, seja pela perda de eficiência em sua alocação.

Não sou eu, portanto, quem vai condenar a revolta de segmentos da população com os escândalos do mensalão e do petrolão ocorridos sob a égide do PT. Algo parecido vale para Lula. Ainda que suas condenações criminais pelo caso do tríplex e pelo sítio tenham sido anuladas, o problema ético subsiste. Lula colocou-se num relacionamento com empresários que não passa nem no mais grosseiro teste de integridade republicana. No mínimo, ele recebeu tratamento especial e benesses que jamais poderia ter aceitado.

O que se esperaria de um eleitor racional e justo é que aplicasse a todos os partidos e políticos aquilo que exige do PT e de Lula. Não parece ser isso, porém, o que estamos presenciando. É verdade que Ciro Nogueira e ACM Neto, flagrados em relações incestuosas com o irmão Vorcaro, foram gongados pelo eleitor. Esse não deve ter sido o único fator, mas quero crer que foi um deles. Mas vários outros políticos metidos no escândalo ganharam novos mandatos. É o caso de Mario Frias, Hugo Motta e Antônio Rueda. Pela esquerda, Jaques Wagner cai nessa categoria.

A situação mais escandalosa, contudo, é a de Flávio Bolsonaro. Ele pediu ao ex-banqueiro R$ 134 milhões e recebeu mais ou menos a metade disso. Traz ainda em seu currículo suspeitas nunca explicadas envolvendo rachadinhas, lavagem de dinheiro e patrimônio maior que a renda.

Inconsistências desse calibre só se explicam por uma perversa combinação de hipocrisia com autoengano.

 

 

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