Folha de S. Paulo
Surpresa e tom de caricatura prejudicam
reportagens sobre mulheres conservadoras eleitas para o Legislativo
Atenção que faltou para deputadas parece ter
sobrado para Flávio Bolsonaro, que leitores veem tratado como já eleito
Os resultados que geraram uma semana de
críticas e autocríticas à campanha petista também respingaram na imprensa, acusada
de ter afetado negativamente o desempenho de Lula (PT).
Já na reta final da campanha e diante dos
primeiros resultados, a conversa havia virado praga para que os jornalistas
voltassem ao "cercadinho"
onde profissionais da mídia eram confinados e humilhados por Jair
Bolsonaro (PL), que titereia o filho na corrida eleitoral enquanto cumpre
pena.
Na era da IA, depois de duas décadas de redes sociais e de uma dinâmica de informação que esnoba Redações com muita facilidade, soa até otimista a atribuição aos jornais de todo esse peso nos resultados. Não à toa, rapidamente a conversa deixou a imprensa de lado para se concentrar em vídeos e viralização online.
Mas isso não diminui a responsabilidade nem a
necessidade de reconhecer problemas concretos na maneira como o jornal olha não
só para a esquerda mas também para a chamada direita ideológica. O descompasso
entre os resultados
do domingo e a cobertura evidencia a necessidade de "descer do salto"
—algo cobrado, agora, dos dois presidenciáveis, mas essencial sobretudo ao
jornalismo.
Eduarda
Campopiano (PL) foi eleita com a maior
votação deste ano para a Assembleia Legislativa de SP. Na história, ficou
atrás apenas de Janaína Paschoal em 2018. Foi a terceira mais votada do país,
depois de Nikolas Ferreira e Lucas Pavanato, ambos do PL.
Campopiano nunca havia recebido muita atenção
da Folha. Seu
nome aparecera cinco vezes de raspão no jornal: 4 neste ano (em texto
sobre estratégia do PL com "mulheres conservadoras e candidata
trans", no ranking
de políticos mais influentes do Instagram, como coadjuvante de Pavanato em confusão
na USP e como piada
por ter sido interrompida, na Câmara de Praia Grande, por som de flatulência) e
1 em 2022, como "escada"
para comentário de Eduardo Bolsonaro.
A falha não estava apenas na incapacidade de
se antecipar ao fenômeno. Para apresentá-la com seus quase 2 milhões de votos,
o jornal escolheu a caricatura da "antifeminista". Embora a própria
neoeleita não saia muito do personagem, caberia ao jornalismo buscar um perfil
mais complexo dela e do eleitorado que representa.
No nível nacional a coisa não foi muito
melhor. Depois do resultado
avassalador do PL e das mulheres do partido no Legislativo, a Folha concluiu
que "a onda conservadora que ampliou sua presença no Congresso não
produziu, na mesma proporção, uma onda de mulheres à direita", sem
considerar a evolução temporal dessa presença.
O jornal ouviu duas pessoas com ideias
semelhantes e avisou ao leitor/eleitor que aquilo que se desenrolava à frente
de todo mundo não estava acontecendo. Apresentou, sem contraposição, a ideia de
que a "identidade política dessas parlamentares pode dificultar
acordos", o que sugeria empecilhos ideológicos exclusivos de um lado.
"A reportagem tem dado tratamento
desrespeitoso e equivocado a deputados da direita", afirmou o leitor Tito
Bernardi. "As pautas da deputada
[eleita Campopiano] são tratadas como assuntos pitorescos, por não se
encaixarem na limitada visão de mundo dos redatores da Folha."
Bernardi diz que o jornal "e seus
jornalistas não perceberam a onda da direita" e "parecem seguir uma
cartilha pré-concebida" sobre os políticos desse campo, "tratando-os
como estranhos, esquisitos e fora da realidade, apresentando aos leitores uma
visão distorcida e parcial". "A Folha pode e deve discordar das opiniões e
propostas dos políticos. Mas para isso possui os espaços reservados para
editoriais e opinião."
Também em relação aos colunistas houve
queixas. O médico Raphael Câmara, conselheiro federal de medicina pelo RJ que
foi secretário de Saúde na gestão Jair Bolsonaro, escreveu carta sobre
proselitismo político no corpo opinativo do jornal. "E foi provado ontem
[domingo da eleição] que não reflete a opinião do Brasil. A maioria votou em
Flávio. Não porque sejamos nazistas e loucos. Mas porque defendemos
valores." É possível discordar da visão política dos leitores, mas é
difícil desafiar a percepção de distorção na cobertura.
Mas a atenção que faltou à direita
legislativa parece ter sobrado para Flávio Bolsonaro. Alguns leitores viram uma
cobertura que já o tratava como eleito. Para uma agora ex-assinante, a gota
d’água foi a manchete
sobre "‘redemocratização’ do país, acompanhada da linha-fina ‘diz que
também ‘vai arregaçar com vagabundo’’, sem qualquer consideração".
Em texto posterior sobre a explicação do
candidato do PL para "mudar
a Constituição", o jornal afirmava que esse Bolsonaro, avatar do pai,
"tem dito defender a democracia e o equilíbrio entre os Poderes". Em
outra reportagem, o candidato afirmava
que "o país não vive uma democracia plena", sem que houvesse ressalva
à afirmação, feita diante de vários jornalistas.
Editorial
da Folha reconheceu
"fake news" na afirmação de Flávio de que o Brasil não vive uma
democracia, mas a reportagem não mostrou a mesma convicção —diferentemente da
certeza no caso de Nossa
Senhora Aparecida. Fica a impressão de excesso de boa vontade, com contexto
e questionamento insuficientes.

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