sábado, 17 de outubro de 2026

Dois homens unidos pela luta e pelo dia 20 de novembro, por Ivan Alves Filho*

Nascido no distrito de Rio dos Índios, pertencente a Rio Bonito, no atual Estado do Rio de Janeiro, ele deixou a escola aos 15 anos de idade e foi trabalhar como operário gráfico. 

Sua família tinha uma condição financeira razoável, mas ele queria abrir seu próprio caminho. Um dos seus objetivos era aprender por conta própria. E este autodidata, aos 17 anos de idade, já devorava as obras de Machado de Assis, a quem fez uma visita poucas horas antes de morrer, deslocando-se de Niterói até a casa do grande escritor, no Cosme Velho, aprazível bairro do Rio de Janeiro. Euclides da Cunha, comovido pela atitude do jovem, publicou dias depois um artigo, intitulado A última visita, onde apontava que o coração daquele menino batera por “toda uma nacionalidade”. 

Depois, o garoto correu mundo: esteve por seis meses na Europa aos 20 anos de idade e, sem recursos, acabou sendo deportado para o Brasil. Isso se deu por volta de 1910. Vivendo as lutas sociais do seu século, tornou-se anarquista e secretário-geral da Confederação Operária Brasileira. Não tinha completado ainda 23 anos de idade quando isso ocorreu.

 Embalado pela Revolução Russa de 1917, o jovem simpatiza com as propostas do movimento comunista nascente, fundando o primeiro agrupamento marxista do Brasil, o Grupo Comunista Zumbi, em 1920. Era uma homenagem ao grande líder do Quilombo dos Palmares, por ele considerado o “nosso Spartacus negro”. Dois anos depois, tornou-se um dos Nove de 22, ou seja, um dos fundadores da Seção Brasileira da Internacional Comunista no Brasil, o PCB. 

Liderou inúmeras greves e esteve preso várias vezes. Morou por anos em Moscou, então a meca do marxismo, onde desembarcou a tempo de seguir os funerais de Vladimir Lenin.  Aliás, cabe uma observação: ele não teria como saber naquele momento, mas, no dia em que embarcou em um navio na Praça Mauá, no centro do Rio de Janeiro, a caminho da Europa, exatamente nesse dia, a 21 de janeiro de 1924, Lenin faleceu em Moscou. 

Seja como for, o viajante brasileiro passou a integrar, na capital soviética, a cúpula da Internacional Comunista, o seu mítico Secretariado, então composto por apenas 53 revolucionários de várias regiões do mundo. E lá conheceu Joseph Stalin, manteve correspondência com Palmiro Togliatti e ainda dividiu um pequeno alojamento com Ho Chi Minh, poeta e futuro líder da Revolução vietnamita, que chegou a morar no Brasil e falava português. 

Em Puerto Suárez, na Bolívia, em 1927, foi ao encontro de Luiz Carlos Prestes, atraindo o Cavaleiro da Esperança para o Partido Comunista. Muitos anos depois, com meu saudoso amigo Fausto Matogrosso, eu fiz uma viagem à Bolívia, para rever os seus passos. Emocionante. O que posso dizer ainda é que ele fundou jornais e revistas, e poderia citar a importantíssima Estudos Sociais, com a decisiva participação de Armênio Guedes. E também escreveu obras que ficaram para sempre, como Fundação do PCB, Crítica impura e Machado de Assis: ensaios e apontamentos. 

No imediato pós-guerra, ele reconheceu o valor dos liberais na luta contra a ditadura Vargas, em particular daqueles envolvidos com a fundação da União Democrática Nacional (UDN). Não se deixou seduzir jamais pelo populismo. 

E continuou na luta, sendo o relator do IV Congresso do PCB, realizado na clandestinidade, em 1954. Encarcerado pela ditadura de 64, sofreu um infarto na prisão, ficando ainda com os dois pulmões contaminados, devido aos maus-tratos. 

Eu o conheci logo após a sua saída da prisão, quando foi descansar em nossa casa por algum tempo. Eu tinha apenas 13 anos de idade e fiquei impressionado com o seu estado de saúde. 

Ele nasceu em 1890 e morreu em 1965, precisamente no dia 20 de novembro, data do assassinato de Zumbi dos Palmares. O historiador Martin Cézar Feijó escreveu um belo livro sobre ele, intitulado O revolucionário cordial. O respeitado homem público e escritor Afonso Arinos de Melo Franco referiu-se a ele como “a maior aventura intelectual” do seu tempo. 

Astrojildo Pereira foi um herói da nossa pátria.

*Ivan Alves Filho, historiador

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