Sua família tinha uma condição financeira
razoável, mas ele queria abrir seu próprio caminho. Um dos seus objetivos era
aprender por conta própria. E este autodidata, aos 17 anos de idade, já
devorava as obras de Machado de Assis, a quem fez uma visita poucas horas antes
de morrer, deslocando-se de Niterói até a casa do grande escritor, no Cosme
Velho, aprazível bairro do Rio de Janeiro. Euclides da Cunha, comovido pela
atitude do jovem, publicou dias depois um artigo, intitulado A última visita,
onde apontava que o coração daquele menino batera por “toda uma
nacionalidade”.
Depois, o garoto correu mundo: esteve por seis meses na Europa aos 20 anos de idade e, sem recursos, acabou sendo deportado para o Brasil. Isso se deu por volta de 1910. Vivendo as lutas sociais do seu século, tornou-se anarquista e secretário-geral da Confederação Operária Brasileira. Não tinha completado ainda 23 anos de idade quando isso ocorreu.
Embalado pela Revolução Russa de 1917, o jovem simpatiza com as propostas do movimento comunista nascente, fundando o primeiro agrupamento marxista do Brasil, o Grupo Comunista Zumbi, em 1920. Era uma homenagem ao grande líder do Quilombo dos Palmares, por ele considerado o “nosso Spartacus negro”. Dois anos depois, tornou-se um dos Nove de 22, ou seja, um dos fundadores da Seção Brasileira da Internacional Comunista no Brasil, o PCB.Liderou inúmeras greves e esteve preso várias
vezes. Morou por anos em Moscou, então a meca do marxismo, onde desembarcou a
tempo de seguir os funerais de Vladimir Lenin. Aliás, cabe uma
observação: ele não teria como saber naquele momento, mas, no dia em que
embarcou em um navio na Praça Mauá, no centro do Rio de Janeiro, a caminho da
Europa, exatamente nesse dia, a 21 de janeiro de 1924, Lenin faleceu em
Moscou.
Seja como for, o viajante brasileiro
passou a integrar, na capital soviética, a cúpula da Internacional Comunista, o
seu mítico Secretariado, então composto por apenas 53 revolucionários de várias
regiões do mundo. E lá conheceu Joseph Stalin, manteve correspondência com
Palmiro Togliatti e ainda dividiu um pequeno alojamento com Ho Chi Minh, poeta
e futuro líder da Revolução vietnamita, que chegou a morar no Brasil e falava
português.
Em Puerto Suárez, na Bolívia, em 1927, foi ao
encontro de Luiz Carlos Prestes, atraindo o Cavaleiro da Esperança para o
Partido Comunista. Muitos anos depois, com meu saudoso amigo Fausto Matogrosso,
eu fiz uma viagem à Bolívia, para rever os seus passos. Emocionante. O que
posso dizer ainda é que ele fundou jornais e revistas, e poderia citar a
importantíssima Estudos Sociais, com a decisiva participação de Armênio Guedes.
E também escreveu obras que ficaram para sempre, como Fundação do PCB, Crítica
impura e Machado de Assis: ensaios e apontamentos.
No imediato pós-guerra, ele reconheceu o
valor dos liberais na luta contra a ditadura Vargas, em particular daqueles
envolvidos com a fundação da União Democrática Nacional (UDN). Não se deixou
seduzir jamais pelo populismo.
E continuou na luta, sendo o relator do IV
Congresso do PCB, realizado na clandestinidade, em 1954. Encarcerado pela
ditadura de 64, sofreu um infarto na prisão, ficando ainda com os dois pulmões
contaminados, devido aos maus-tratos.
Eu o conheci logo após a sua saída da prisão,
quando foi descansar em nossa casa por algum tempo. Eu tinha apenas 13 anos de
idade e fiquei impressionado com o seu estado de saúde.
Ele nasceu em 1890 e morreu em 1965,
precisamente no dia 20 de novembro, data do assassinato de Zumbi dos Palmares.
O historiador Martin Cézar Feijó escreveu um belo livro sobre ele,
intitulado O revolucionário cordial. O respeitado homem público e escritor
Afonso Arinos de Melo Franco referiu-se a ele como “a maior aventura
intelectual” do seu tempo.
Astrojildo Pereira foi um herói da
nossa pátria.
*Ivan Alves Filho, historiador

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