domingo, 7 de outubro de 2012

A grande chance da oposição


Com o PT enfraquecido, a disputa de hoje nas urnas representa a possibilidade de reconstrução para o DEM, o PPS e o PSDB. Líderes dos partidos apostam numa "fadiga eleitoral" dos petistas

Karla Correia, Paulo de Tarso Lyra

Depois de 10 anos de PT no comando do governo federal, a corrida municipal deste ano é a grande chance dos partidos de oposição reconstruírem seus alicerces e voltarem a se projetar como competidores de peso para as eleições gerais de 2014. Puxados pelos tucanos, as legendas oposicionistas planejam um desempenho melhor do que nas disputas anteriores. O PSDB cresceu no Nordeste, o DEM tenta ressurgir e até o PPS quer tornar-se mais competitivo. “O eleitorado está cansado do jeito PT de governar o país. Há uma fadiga de material”, disse o presidente nacional do PSDB, deputado Sérgio Guerra (PE). O partido tem 11 candidatos competitivos em capitais e quer crescer também nas cidades com mais de 150 mil habitantes.

A maior aposta tucana é em São Paulo, onde se concentra o maior embate com o PT. Na pesquisa do instituto Datafolha, divulgada na tarde de ontem, José Serra (PSDB) retoma o primeiro lugar com 28% dos votos válidos. A partir do levantamento, registrado no TSE, Celso Russomanno (PRB) tem 27% e Fernando Haddad, com 24%, em quadro de triplo empate técnico.

No cenário nacional, Sérgio Guerra não teme o esforço que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez para ajudar a eleger os seus aliados. O tucano lembra que Lula nunca conseguiu transferir os votos nas eleições municipais com o mesmo êxito que demonstrou no plano federal. Além disso, o PT está, segundo ele, perdendo a interlocução com setores da sociedade menos dependentes do governo central. “Quanto mais eles percebem isso, mais tentam colar na magia do Lula. Mas essa mágica está minguando”, completou. 

Ainda sob os efeitos da sangria provocada pela dissidência que levou à criação do PSD, o DEM decidiu apostar naqueles candidatos que apresentaram bom desempenho já na largada da campanha. No cenário atual, a legenda é favorita em Aracaju: João Alves (DEM) aparece com 51% das intenções de voto na capital sergipana, com chances de encerrar a disputa já no primeiro turno, se os institutos de pesquisa estiverem corretos. O partido ainda deve ir para o segundo turno em Salvador, Macapá e Fortaleza, avalia o presidente do DEM, senador José Agripino Maia (RN).

Embate
“Nós não tínhamos nenhuma prefeitura de capital. Temos grandes chances de já ter uma no primeiro turno e somos competitivos em outras três. Aconteça o que acontecer, isso já é uma vitória, um crescimento do partido”, acredita Agripino. Seguindo a lógica de investir nos candidatos com bom desempenho desde o início da disputa, cidades como Vila Velha (ES), Feira de Santana (BA), Itabuna (BA) e Mossoró (RN) entraram no radar da legenda.

Tradicional reduto do DEM, Mossoró é palco de embate entre Agripino e Lula. Derrotar o desafeto e tirar do partido importante entreposto político no Nordeste entrou no elenco de prioridades do ex-presidente.

O PPS preferiu se dedicar a fortalecer vereadores e concentrar esforços em cidades de médio porte no interior. Hoje, o partido está à frente em 116 cidades.

Os planos

Confira a distribuição atual de prefeitos e meta de cada um dos partidos da base governista na eleição de hoje

PMDB
Prefeitos hoje
1.138 
Meta
1,3 mil a 1,5 mil

PSDB
Prefeitos 
735
Meta 
800

PT
Prefeitos 
563
Meta 
Não divulga 

PP
Prefeitos hoje
514
Meta
570

DEM
Prefeitos 
393
Meta 
Não divulga

PR
Prefeitos hoje
388 
Meta
Manter, ao menos, o mesmo número

PTB
Prefeitos hoje
370 
Meta
550 a 650

PDT
Prefeitos hoje
340 
Meta
450 a 500

PSB
Prefeitos hoje
306 
Meta 
500 a 600

PPS
Prefeitos 
116
Meta 
Não divulga 

PCdoB
Prefeitos hoje
48 
Meta
100


Fonte: Correio Braziliense 

Balão de ensaio para os confrontos de 2014


Apostas eleitorais de Lula, Dilma, Aécio e Eduardo Campos terão reflexo direto na distribuição de forças na disputa pelo Planalto

Amanda Almeida

Mais que definir o comando de 5,5 mil municípios, as eleições deste domingo servem de ensaio para os principais players políticos do país. De um lado, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e sua sucessora, Dilma Rousseff, apostam todas as fichas em avançar sobre os grandes redutos da oposição, São Paulo e Minas, minando o prestígio dos adversários na próxima disputa presidencial. Também de olho em 2014, o senador Aécio Neves (PSDB-MG) faz força para garantir palanque em seu ninho político e arregimentar apoios Brasil afora. Já o governador Eduardo Campos (PSB-PE) busca independência do PT e musculatura para bancar projetos futuros. À margem de tudo isso, o eleitor e suas reivindicações imediatas.

Com a expectativa de manter o PT no Palácio do Planalto, Lula quer garantir palanque nos grandes colégios eleitorais em 2014. A aposta do ex-mandatário é vencer em São Paulo, que não é governada por petistas há oito anos e se tornou um reduto dos tucanos. Lula bancou a candidatura do ex-ministro Fernando Haddad, justificando-o como nome desconhecido e não assimilado ao PT, o que o credenciaria para superar a rejeição do eleitorado paulistano ao partido. “O risco dessa estratégia é o eleitor não ter tido tempo para conhecer Haddad e apostar no candidato”, avalia Rafael Cortez, doutor em ciência política pela Universidade de São Paulo (USP) e analista da Tendências Consultoria Integrada.

Se Lula adotou São Paulo, Dilma fez de Belo Horizonte sua prioridade. Mais que retomar a prefeitura comandada pelo PT por 16 anos, a vitória na capital mineira seria uma conquista política sobre um dos potenciais rivais em 2014. Vencer em BH afastaria Aécio de seu principal palanque, além de fazer o tucano amargar a derrota de uma eleição que tinha tudo para ser ganha. Dilma se mobilizou: ajudou na escolha do nome do ex-ministro Patrus Ananias (PT), garantiu o PMDB na chapa, gravou para a TV e fez na cidade um de seus dois únicos comícios neste pleito. O risco é de, afastado há anos da prefeitura e vendo o PT ser ligado ao mensalão, Patrus sair derrotado no primeiro turno pelo prefeito e candidato à reeleição Marcio Lacerda.

Na avaliação de Cortez, a disputa em São Paulo, abraçada por Lula, é também uma prioridade para Dilma e os dois, independentemente dos projetos pessoais, estão alinhados no projeto de estender a permanência do PT no poder. “O Lula tem um perfil partidário. É um homem político. A presidente tem um perfil diferente, além de um cargo que a limita na campanha. Mas eles estão caminhando juntos.”

Adversários 
De forma planejada ou não, a disputa em BH, além de aposta pessoal, acabou se tornando palanque para Aécio se posicionar para o eleitor como opositor ao governo federal. Nos últimos dias, o senador tem aproveitado eventos de campanha para disparar críticas à presidente. Reclamou de falta de recursos para obras federais no estado e chamou Dilma de “estrangeira”, em referência ao fato de ela ter construído carreira política no Rio Grande do Sul.

Com o rompimento entre os petistas e o PSB, Aécio viu a oportunidade de flertar com o partido do prefeito Marcio Lacerda e tentar atraí-lo como apoiador em 2014. Outra estratégia do tucano neste pleito é se tornar mais conhecido em outros estados. “Com o PT na disputa em BH, ele não fez tantas viagens como gostaria, mas rodou bem. Aécio ainda precisa se apresentar em outras regiões do Brasil”, diz um correligionário.

Incógnita 
As pretensões do governador de Pernambuco e presidente nacional do PSB, Eduardo Campos, ainda são dúvidas entre os próprios colegas de partido. “Ao mesmo tempo em que o racha com o PT em várias cidades se devem a conjunturas locais, ele não interferiu para evitar os rompimentos. Ele não tem bem definido se pleiteia uma candidatura à Presidência em 2014, mas já tenta se fortalecer para pleitos futuros”, avalia um parlamentar do PSB.

Independentemente de um eventual voo solo daqui a dois anos, a legenda tenta, nestas eleições, ganhar autonomia em relação ao PT, legenda da qual sempre foi satélite. A posição ambígua de Campos, que, apesar de compor a base da presidente, flerta com a oposição, é usada como instrumento de barganha do partido nas alianças e na disputa por espaço no poder.

Para Cortez, um elemento no jogo eleitoral pode atrapalhar as estratégias políticas desses caciques partidários: o eleitor. “As eleições municipais são laboratório de estratégia nacional. É natural que os partidos se organizem para 2014. Mas o eleitor só está olhando 2012. Então, a resposta, talvez, não corresponda às expectativas”, diz o analista política.

De olho em 2014…
Quais são as expectativas dos caciques partidários no pleito deste ano

Lula
» Ganhar em São Paulo, reduto tucano, como chance também 
de o PT chegar ao Palácio dos Bandeirantes em 2014
» Enfraquecer a oposição nas capitais
» Manter seu prestígio político
» Manter o arco de aliados do PT

Dilma Rousseff
» Conquistar São Paulo, reduto tucano
» Garantir vitória petista e de aliados nas capitais
» Evitar desgastes desnecessários em partidos da base, como 
em Porto Alegre, onde PDT, PT e PCdoB se enfrentam
» Enfraquecer potenciais adversários do PT em 2014, 
como Aécio Neves (PSDB)

Eduardo Campos
» Autonomia do PSB em relação PT
» Barganhar com oposição e base
» Avançar no projeto de fazer do PSB um partido grande, no 
comando de vários executivos
» Ganhar musculatura para uma eventual candidatura à Presidência, 
não necessariamente em 2014

Aécio Neves
» Fortalecer palanque em Minas, segundo colégio eleitoral do Brasil
» Ver Dilma derrotada em BH, estado e aposta pessoal dela
» Atrair o PSB para possível aliança em 2014
» Apresentar-se para eleitores Brasil afora como opositor ao PT


Fonte: Correio Braziliense 

Aviso: ficou mais perigoso roubar


As decisões tomadas pelo Supremo no mensalão revelam que os julgamentos de corruptos devem ser mais duros daqui para a frente

Leandro Loyola

“Isso significa que o Brasil mudou.” À medida que o julgamento do mensalão avança, torna-se mais crível a frase dita pela ministra Cármen Lúcia no início de setembro, por ocasião do julgamento do deputado João Paulo Cunha - o primeiro político brasileiro condenado por corrupção no Supremo Tribunal Federal (STF). Na semana passada, a mais alta corte do país continuou a fazer história. Em mais uma demonstração de independência, o plenário apresentou, na segunda-feira, sua conclusão sobre uma das questões centrais do julgamento. Contrariando a versão apregoada pela propaganda do Partido dos Trabalhadores e pelos advogados de defesa, a corte afirmou que o mensalão foi, sim, um esquema por meio do qual o governo do então presidente Luiz Inácio Lula da Silva comprou apoio de parlamentares no Congresso - e não “apenas caixa dois” que também é crime. A sessão foi marcada pelo voto eloquente do ministro Celso de Mello, o decano do Tribunal. “O ato de corrupção constitui um gesto de perversão da ética do poder e da ordem jurídica, cuja observância se impõe a todos os cidadãos desta República”, disse Mello. “Quem transgride tais mandamentos, não importando sua posição estamental, se patrícios ou plebeus, governantes ou governados, expõe-se à severidade das leis penais, e, por tais atos, o corruptor e o corrupto devem ser punidos, exemplarmente, na forma da lei.” Ouvi-lo falar é mais um indício de que o Brasil talvez tenha mesmo mudado.

O alcance dessa mudança, no entanto, é uma questão que continua no ar. A atuação do STF no mensalão instaurará mesmo um novo padrão nos julgamentos dos casos de corrupção do país, como afirma a ministra Cármen Lúcia? Ou se trata de um “julgamento de exceção”, como diz o presidente da Fundação Casa de Rui Barbosa, o cientista político Wanderley Guilherme dos Santos - um caso solitário de lei aplicada com rigor, mas que não mudaria a cultura jurídica do país? Para tirar essa dúvida, é útil examinar, primeiro, o que mudou no entendimento do Supremo: por que, historicamente, era tão difícil punir corruptos no Brasil, e por que agora nesse caso específico eles são condenados aos baldes? E, em segundo lugar, é necessário verificar em que medida, e em que velocidade, as decisões do STF influenciam as demais cortes do país.

De acordo com juristas e investigadores, foram três as principais inovações do STF no julgamento do mensalão: as condenações por corrompido, não quem corrompe a punição aos que se valem de laranjas e o fim da necessidade da prova da contrapartida da corrupção, conhecida como “ato de ofício”. Sobre esse último item, ficou famosa a fala do ministro Luiz Fux, quando disse que um guarda de trânsito que recebe propina é criminoso, mesmo que não fique provado que aliviou a multa. Trata-se realmente de uma mudança cultural. O presidente Fernando Collor de Mello foi absolvido pelo Supremo em 1994 justamente pela ausência, segundo os juizes, do “ato de ofício”. Somadas, essas inovações aproximam os julgamentos dos casos de corrupção com o que acontece em países como Estados Unidos e Inglaterra, onde as punições são bem mais severas. E nos afastam dos processos “à brasileira”, onde ninguém era condenado.

Logo nos julgamentos dos primeiros réus do mensalão, os ministros concluíram que, em organizações criminosas sofisticadas, os chefes dificilmente sujam as mãos e deixam impressões digitais por aí. Em diversos países, como os Estados Unidos, indícios fortes de participação - em geral depoimentos - são suficientes para condenações por corrupção. “O Supremo despertou para um fato evidente: numa sofisticada dinâmica criminal, exigir o elemento livresco do ato de ofício é uma tolice”, afirma o procurador Alexandre Camanho, presidente da Associação dos Procuradores da República. Camanho ocupa um dos amplos gabinetes do “Brindeirão”, o prédio de formas arredondadas projetado por Oscar Niemeyer. Sentado numa confortável cadeira de madeira de espaldar alto, de calça jeans, camisa verde e sapatos pretos, Camanho exulta a nova postura do STF. “O Supremo está se reconciliando com a República. Suprimiu uma jurisprudência nefasta para o país. Era preciso que o bandido usasse a máscara dos Irmãos Metralha para ser visto como tal.”

O Supremo também deu um sinal ao condenar alguns réus por corrupção ativa. Em geral, os agentes corrompidos são processados, mas seus corruptores ficam fora (leia o quadro acima). “Ao enfatizar essa punição, o Supremo muda um paradigma”, diz o jurista Luiz Flávio Gomes. “A polícia e o Ministério Público podem ter mais apoio para denunciar os corruptores” O Supremo avançou também ao julgar alguns réus por lavagem de dinheiro. Esse crime passou a ser considerado independente da corrupção passiva - antes, os dois se fundiam. Além disso, os que se valem de laranjas passaram a ser condenados também, como ocorreu com os réus que enviaram terceiros para sacar dinheiro no Banco Rural e não escaparam da condenação. Até uma reforma recente na legislação, o Brasil era acusado de ser leniente com a lavagem de dinheiro, um crime repudiado internacionalmente por fortalecer o terrorismo. O jurista Joaquim Falcão, professor na Faculdade de Direito da Fundação Getulio Vargas, no Rio de Janeiro, esteve recentemente com executivos de bancos e fundos de investimento estrangeiros. Colheu deles impressões positivas sobre o julgamento. “O grande efeito da decisão do STF é que os estrangeiros percebem que as instituições aqui funcionam” diz Falcão. “Isso indica um ambiente estável para os negócios, exatamente o que eles querem.”

Por se tratar da mais alta instância da Justiça, as mudanças expressas nos votos dos ministros poderão, sim, ter consequências para futuras decisões em casos de corrupção. O entendimento dos ministros será aplicado a outros casos no Supremo. Mas não só. Poderá influenciar desembargadores e juizes, responsáveis pelas instâncias inferiores. Mudará também o trabalho de promotores, procuradores e policiais responsáveis por investigações que envolvem corrupção.

Eis um exemplo de como isso funciona na prática. Sebastião Lessa é um delegado aposentado da Polícia Federal. Ele foi contratado pela Associação Nacional dos Delegados da Polícia Federal para acompanhar todas as sessões do julgamento e descrever os votos dos ministros sob a ótica dos interesses da Polícia Federal. O resultado será usado para um seminário, após o julgamento, em que os policiais discutirão a repercussão das decisões para seu trabalho. “O Supremo adotou posições de vanguarda”, afirma o delegado Marcos Leôncio Ribeiro, presidente da associação. A principal delas, segundo Ribeiro, foi ter reduzido as formalidades para aceitar provas no caso do mensalão. Isso diminui as brechas para chicanas jurídicas, como anulação de provas, capazes de atrasar julgamentos.

É preciso, no entanto, ter cuidado com visões ingênuas sobre mudanças rápidas. “Não podemos nos iludir que uma sentença vai mudar unia cultura”, afirma Luiz Flávio Gomes. Tudo o que o Supremo decidir sobre o mensalão levará tempo para fazer efeito. Mesmo dentro do STF, ainda há quem interprete as leis pelo estilo antigo, caso do ministro Ricardo Lewandowski. Em seu voto da semana passada, ele absolveu o ex-ministro José Dirceu por julgar que não havia provas suficientes. Mas, após anos de impunidade, gerada em parte pelos julgamentos de corrupção “à brasileira” é possível que em pouco tempo o espírito das palavras do ministro Celso de Mello predomine no Brasil: “Esses vergonhosos atos de corrupção parlamentar, profundamente lesivos à dignidade do ofício legislativo e à respeitabilidade do Congresso Nacional, alimentados por transações obscuras idealizadas e implementadas em altas esferas governamentais, com o objetivo de fortalecer a base de apoio político e de sustentação legislativa no Parlamento brasileiro, devem ser condenados e punidos com o peso e o rigor das leis desta República”.

Fonte: Revista Época 

O triunfo da Justiça


Os ministros do Supremo Tribunal Federal condenam os mensaleiros, denunciam a corrupção e caem nas graças dos brasileiros, carentes de referências éticas

Hugo Marques e Laura Diniz

O menino Joaquim Barbosa nunca se acomodou àquilo que o destino parecia lhe reservar. Filho de um pedreiro, cresceu ouvindo dos adultos que nas festas de aniversário de famílias mais abastadas deveria ficar sempre no fundo do salão. Só comia doces se alguém lhe oferecesse. Na última quarta-feira, o ministro Joaquim Barbosa, 58 anos, apresentou seu voto sobre um dos mais marcantes capítulos do julgamento do mensalão - o "last act (bribery)", "último ato (suborno)", como ele anotou em inglês no envelope pardo que guardava o texto de sua decisão. Além do português, Barbosa domina quatro idiomas - inglês, alemão, italiano e francês. Pouco antes da sessão, o ministro fez uma última revisão no texto. Cortou algumas citações, acrescentou outras e destacou trechos. Não alterou em nada a essência da sua convicção, cristalizada depois de sete anos como relator do processo. Durante mais de três horas, Barbosa demoliu a defesa e as esperanças dos petistas José Dirceu, José Genoino e Delúbio Soares, mostrando como eles usaram dinheiro desviado dos cofres públicos para subornar parlamentares e comprar o apoio de partidos políticos ao governo Lula. Exaurido pela dor nas costas que o martiriza há anos, o ministro anunciou seu "last act" no mesmo tom monocórdio com que discorreu sobre as provas: condenou por crime de corrupção ativa Dirceu, Genoino e Delúbio, que formavam a cúpula do Partido dos Trabalhadores (PT). Dois ministros acompanharam o relator e um aceitou em parte as teses da defesa. A votação continua nesta semana, quando os seis ministros restantes vão revelar suas decisões, mas o Supremo Tribunal Federal, o STF, já consolidou perante os brasileiros o conceito - sem o qual uma nação não se sustenta - de que a Justiça funciona também para os ricos e poderosos.

Ao apontarem o caminho da prisão para corruptos e corruptores, os ministros do STF deram ao Brasil o alento de que a Justiça está aí para punir quem não cumpre a lei, independentemente da cor da camisa ou do colarinho. Essa percepção otimista tem levado muita gente a exprimir uma inusitada admiração pelo Supremo Tribunal - uma corte até então distante, aparentemente inacessível à grande maioria, mas imprescindível para a democracia. Desde que foram anunciadas as primeiras condenações dos mensaleiros, os ministros, com raras exceções, passaram a ser assediados nas ruas e a receber centenas de mensagens de apoio e solidariedade. Joaquim Barbosa, que quando criança preferia não ir às festas a ter de se submeter à humilhação de ficar separado dos colegas, é o personagem mais visível desse embate que está impondo à corrupção uma estrondosa derrota.

O ministro Joaquim é relator do processo do mensalão. Por ter coordenado toda a fase de instrução do processo, é, em tese, quem conhece os mínimos detalhes das mais de 50000 páginas de depoimentos, laudos, memoriais e perícias. Seu voto, por isso, é diferenciado. Serve como bússola para os demais ministros. Dos 38 réus acusados de integrar a quadrilha, 26 já foram julgados e, destes, 22 acabaram condenados. Joaquim foi seguido pela maioria dos ministros em 53 de um total de 58 votações. Oito políticos, três banqueiros e vários empresários vão cumprir pena de prisão. Em Paracatu, no interior de Minas Gerais, "Fritz" já era uma celebridade. Desde criança, Joaquim trabalhou com o pai, ora ajudando a fazer tijolo, ora entregando lenha num caminhão velho que a família adquiriu em um período de maior prosperidade. O apelido germânico era uma troça dos colegas. O menino tinha alguns hábitos considerados estranhos: lia tudo o que encontrava, escrevia no ar, cantava em outros idiomas e gostava de andar com o peito estufado, imitando gente importante. "Todos viam que o Joaquim seria alguém quando crescesse", diz o tio José Barbosa, de 78 anos. "Choro muito de emoção quando ouço a voz dele no rádio, no julgamento desse povo aí", ressalta. Que povo? O tio não sabe direito. "São esses políticos aí...".

Dos tempos em que morou em Paracatu, o ministro guarda apenas memórias. Imagem? Nenhuma. A família não podia gastar dinheiro com tal luxo. O único registro que existe do menino Joaquim é uma foto 3x4 anexada a sua ficha de matrícula no Colégio Estadual Antônio Carlos. Irascível, o ministro Joaquim Barbosa também ganhou notoriedade por ter protagonizado debates para lá de acalorados durante o julgamento. A postura muitas vezes agressiva do ministro, vista com certa reserva até pelos próprios colegas da corte, ajudou a fixar a imagem do cavaleiro disposto a enfrentar as resistências em busca de justiça - um ato de bravura. Diz o professor Jorge Forbes, do Instituto da Psicanálise Lacaniana: "As pessoas que vêm das camadas de exclusão social podem dar menos atenção a satisfazer os pares, pois não têm muita esperança do reconhecimento desses pares. Essas pessoas podem parecer imperiais, mas muitas vezes não o são". Já existem milhares de citações na internet ressaltando as virtudes heróicas do ministro Joaquim. Há duas semanas, o ministro atendeu, no intervalo do julgamento, uma senhora que dizia ter viajado do Rio de Janeiro a Brasília apenas para conhecê-lo. Chorando, ela elogiou o trabalho do relator. "O ministro incorpora uma espécie de herói do século XXI. Precisávamos de uma pessoa com o perfil dele para romper com os rapapés aristocráticos, pois chegamos ao limite da tolerância com a calhordice no poder", diz o antropólogo Roberto DaMatta.

O hoje empresário Joaquim Rath, amigo de infância do ministro, lembra que na casa de adobe onde Joaquim Barbosa morava com os pais e mais sete irmãos não havia sofá, geladeira nem televisão. Só uma mesa com cadeiras. "Mas com o Joaquim não tinha essa história de negro humilde e pobre, e ele não se subordinava aos ricos e brancos", conta. Em 2003, Joaquim Barbosa estava em Los Angeles, nos Estados Unidos, quando recebeu uma ligação de Márcio Thomaz Bastos - então ministro da Justiça e hoje advogado de um dos réus do mensalão - informando-o de que seu nome estava sendo cotado para uma vaga no Supremo Tribunal. O presidente Lula queria indicar um juiz negro para o cargo - celebrado como o primeiro na história da corte. Joaquim era o nome certo. Não tinha inimigos no PT e tinha currículo. Quando o velho caminhão do pai quebrou, em 1971, a família resolveu tentar a vida em Brasília, que fica a 250 quilômetros de Paracatu. Na capital, Joaquim se formou em direito, foi aprovado no concurso para oficial de chancelaria e depois em outro para procurador da República. Fez doutorado na Sorbonne, em Paris, foi professor visitante na Universidade Colúmbia, em Nova York, e na Universidade da Califórnia. Dois meses depois da primeira sondagem, saiu a indicação de Joaquim Barbosa para o STF. O ato foi assinado pelo então ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu.

O ministro Joaquim intercala um estilo de vida simples com hábitos sofisticados. Seu carro é um Honda Civic fabricado em 2004. É amante de música clássica, adora Zeca Pagodinho e prefere os ternos importados. Ele mora em um apartamento funcional e, controlado, consegue economizar metade do que ganha (26700 reais). Atribui muito do seu perfil à influência da mãe, Benedita, uma evangélica que há 45 anos frequenta os cultos da Assembleia de Deus. O pai morreu há dois anos. O ex-jogador Dario Alegria, primo distante de Joaquim, lembra que os garotos negros da cidade eram vítimas de um verdadeiro apartheid. "Mas o Joaquim quebrou toda essa lógica, ele era diferente, nunca levava desaforo para casa e não aceitava humilhação", diz. Das vinte conferências e seminários de que participou nas últimas duas décadas, no Brasil e no exterior, em quase todas abordou a questão racial e o direito das minorias. Logo que Joaquim tomou posse, um amigo perguntou sua opinião sobre a polêmica política de cotas. Respondeu o ministro: "Sem as ações afirmativas os Estados Unidos não teriam um Barack Obama".

Joaquim Barbosa, pela posição que ocupa, é quem mais se destaca no julgamento, mas coube ao decano do STF, ministro Celso de Mello, deixar clara a disposição do tribunal de punir os mensaleiros e mandar um recado de intransigência com as aves de rapina que dão rasantes sobre os cofres públicos. "A corrupção compromete a integralidade dos valores que dão significado à própria ideia de República, frustra a consolidação das instituições, compromete a execução de políticas públicas em áreas sensíveis, como as da saúde e da educação, além de afetar o próprio princípio democrático". Celso de Mello foi duro e bem didático nas palavras. Ele disse que os réus do mensalão formaram uma "quadrilha de verdadeiros assaltantes dos cofres públicos" e comprometeram a República ao agir com "espírito de facção" para obter privilégios. Um voto histórico num julgamento histórico: "Este processo criminal revela a face sombria daqueles que, no controle do aparelho de estado, transformaram a cultura da transgressão em prática ordinária e desonesta de poder, como se o exercício das instituições da República pudesse ser degradado a uma função de mera satisfação instrumental de interesses governamentais e de desígnios pessoais", disse o decano. Essa manifestação contundente, feita ao vivo na TV, diante de milhares de telespectadores, serve de alerta aos poderosos acostumados com um quadro secular de impunidade.

Na última década, o Ministério Público e a polícia até avançaram em investigações de crimes de colarinho-branco, mas os resultados produzidos ainda são risíveis. Em 2008, havia 409 corruptos e corruptores presos no Brasil, num universo de quase 500000 detentos. No ano passado, o número subiu para módicos 632. Milhares de servidores, prefeitos e deputados são réus em ações criminais por corrupção e em processos civis por improbidade administrativa. Mas são casos paroquiais, com pouca divulgação e pequena repercussão. O bom exemplo, como se sabe, deve vir de cima - no caso, do STF com seus réus de foro privilegiado. "Ao condenar os mensaleiros, o Judiciário não está rompendo um padrão de impunidade absoluta, mas está rompendo o padrão da impunidade de quem tem sangue azul", diz o sociólogo Demétrio Magnoli. O julgamento estendeu a notoriedade aos demais ministros do STF. Antes, o assédio a eles era tímido, protagonizado basicamente por estudantes de direito e advogados. Agora, os ministros são reconhecidos em restaurantes, aviões e até na praia. O decano Celso de Mello até já posou para fotos com uma criança no colo a pedido dos pais. "As pessoas comentam que o Supremo está projetando uma imagem que dá muito orgulho aos cidadãos, na medida em que demonstra intolerância ao fenômeno criminoso da corrupção. Este é um processo impregnado de alto valor pedagógico", disse o decano.

O ministro Marco Aurélio tem recebido uma média de trinta e-mails sobre o mensalão por dia no gabinete. É o dobro do que recebia antes do início do julgamento. "Percebo que há um acompanhamento da matéria, o que revela um avanço cultural da sociedade". Luiz Fux, Cármen Lúcia e o presidente do STF, Carlos Ayres Britto, até mudaram alguns hábitos e estão mais reclusos, para evitar acusações de que se tornaram vedetes. Fux não tem ido à praia e só anda em carros com película nos vidros. Cármen viaja menos de avião, e Britto sai menos para jantar fora. O ministro Lewandowski também está mais recluso, mas por outra razão. Devido a seus frequentes votos pela absolvição de réus, Lewandowski foi vaiado em um aeroporto e pediu reforço de segurança, por se sentir ameaçado. "Parece que somos pop stars e heróis, mas somos apenas servidores. Não estamos fazendo um justiçamento, mas julgando a partir da prova e com respeito a todas as garantias constitucionais", diz Marco Aurélio.

Joaquim Barbosa vai assumir a presidência do STF em novembro. Quem acompanha o julgamento pela televisão percebe que existe algo que incomoda o ministro tanto quanto tentar cooptá-lo. A todo instante, ele troca de posição, troca de cadeira, sai do plenário, transpira. Parece irritado. São as fortíssimas e constantes dores causadas pela sacroileíte, uma inflamação na base da coluna. Na quarta-feira, enquanto proclamava a condenação da cúpula do PT, o ministro experimentou uma almofada elétrica importada que aquece e relaxa os músculos. Não adiantou. O problema de saúde fez Joaquim abrir mão de uma de suas maiores paixões: jogar futebol. Antes disso, ele passou a ser muito requisitado para atuar em jogos disputados em campos desconhecidos, e isso o deixava constrangido. Foi convidado diversas vezes pelo então presidente Lula para participar de uma pelada com os convivas do Palácio da Alvorada, alguns deles agora sob julgamento. Joaquim Barbosa nunca aceitou.

Fonte: Revista Veja 

Meu Pai Oxalá - Ana Costa

Reivindicação da arte - Bertold Brecht

A boa, que ao seu amor nada nega
E se lhe entrega com antecipação
Saiba: que não é boa vontade não
Mas talento, o que ele deseja na esfrega.

Mesmo se à velocidade do som
Do sou-tua dela à cópula chega
Não é pressa que o botão dele carrega
Quando às bolas seminais dá vazão.

Se é o amor que primeiro atiça o fogo
Precisa ela depois, para Inverno amparado
De ser dona ainda de um traseiro dotado.
De facto, mais que o fervor no olhar
(Também faz falta) um truque há que usar:
Coxas soberbas, em soberbo jogo.

sábado, 6 de outubro de 2012

OPINIÃO DO DIA – Celso de Melo: ‘o mensalão maculou a República’ (LVIII)


"A rotina de desfaçatez e indignidade parece não ter limites, levando os já conformados cidadãos brasileiros a uma apatia cada vez mais surpreendente, como se tudo fosse muito natural e devesse ser assim mesmo; como se todos os homens públicos, em diferentes épocas, fossem e tivessem sido igualmente desonestos, numa mistura indistinta de escárnio e afronta, e o erro do passado justificasse os erros do presente."

Celso de Mello, ministro do STF. No voto do processo do mensalão, na sessão de 1/10/2012. 

Manchetes de alguns dos principais jornais do Brasil

O GLOBO 
Ficha Limpa ainda pode barrar 3 mil candidatos
Lula: 'Nunca foi tão difícil'
Furnas investiu só 37% do previsto
A hora do mensalão: A dor que cala

FOLHA DE S. PAULO 
Eleição nunca teve tantos partidos com chance nas capitais
Futuro senador usa verba pública para obter votos
É a eleição mais complicada que já fiz em SP, diz Lula
Aécio ironiza Dilma e pergunta onde a 'mineira vai votar'
Editais só para negros causam polêmica no meio cultural
Inflação aumenta e tem o pior setembro dos últimos 9 anos

O ESTADO DE S. PAULO 
Candidatos elevam tom em eleição indefinida
Dilma decide mudar direção de Furnas
Novos prefeitos terão de enfrentar falta de recursos
Alagoas tem 25 nomes sub judice
"Dor me impede de falar", diz ministro sobre o mensalão

CORREIO BRAZILIENSE
UnB suspende inscrição no vestibular e no PAS
Ficha limpa deve barrar até 3,1 mil candidatos
Energia: Relatório sobre apagão no DF só em 15 dias

ESTADO DE MINAS 
Promessas em terras devastadas
Lacerda lidera com vantagem de 12,6 pontos
Aécio rebate presidente: "Onde a mineira Dilma vai votar?"
Cota racial na cultura divide classe artística 

ZERO HORA (RS)
À espera
Paz nas urnas: 800 policiais para evitar violência em 111 cidades
7 candidatos respondem a 5 perguntas sobre a Capital

JORNAL DO COMMERCIO (PE) 
Suspense até a última hora
Resultado das eleições sai até as 22h de amanhã
Lula vê disputa paulistana como muito difícil
Governo prevê R$ 4,9 bilhões para 2013
Conta de luz deve cair até 26% em 2013

O que pensa a mídia - editoriais dos principai jornais do Brasil

http://www2.pps.org.br/2005/index.asp?opcao=editoriais

Ex-presidente da Petrobras critica ministros do STF

Aguirre Talento
 
O ex-presidente da Petrobras José Sérgio Gabrielli (PT) afirmou ontem que o Supremo Tribunal Federal está "condenando sem provas" no julgamento do mensalão e citou o caso de José Dirceu.

Gabrielli, um dos fundadores do PT baiano e hoje secretário de Planejamento do governo da Bahia, disse que os ministros do Supremo estão usando "conceitos muito perigosos para a democracia".

"Elementos fundamentais do Estado de Direito podem estar sendo ameaçados", disse à Folha.

Ele exemplificou criticando a "teoria do domínio do fato", usada para acusar o ex-ministro da Casa Civil José Dirceu de comandar o mensalão.

Segundo Gabrielli, essa é uma condenação "assumidamente sem provas". "O conceito de domínio do fato é uma forma de interpretar um fenômeno do qual você não tem prova. Usa só elementos circunstanciais para condenar a pessoa. Isso é muito perigoso para a sociedade". Gabrielli andou ontem com Nelson Pelegrino, candidato a prefeito de Salvador.

 Fonte: Folha de S. Paulo

"Dor me impede de falar", diz ministro sobre o mensalão


O ministro Gilberto Carvalho (Secretaria-Geral da Presidência) deu o tom, ontem, do clima entre os petistas históricos em relação ao julgamento do ex-ministro da Casa Civil José Dirceu pelo Supremo Tribunal Federal (STF). "A dor me impede de falar, neste momento, dessa questão", disse Carvalho, que atuou no seleto grupo, coordenado por Dirceu, que trabalhou para levar Lula ao poder em 2002

"A dor me impede de falar", diz ministro sobre Dirceu

Gilberto Carvalho, da Secretaria-Geral da Presidência, evita comentar votos no Supremo pela condenação do ex-chefe da Casa Civil no governo Lula

Foi numa tentativa de se esqui­var de jornalistas que o minis­tro Gilberto Carvalho, da Secretaria-Geral da Presidência, deu o tom do clima entre os pe-tistas históricos em relação ao julgamento do ex-ministro da Casa Civil José Dirceu pelo Su­premo Tribunal Federal (STF). "A dor me impede de fa­lar, neste momento, dessa questão", disse Carvalho, que atuou no seleto grupo coorde­nado por Dirceu que traba­lhou para levar Lula ao poder.

A rápida conversa de Carvalho com jornalistas ocorreu na aber­tura de uma exposição, no segun­do andar do Planalto, de seis qua­dros do italiano Michelangelo Caravaggio (1571-1610), mestre das expressões fortes, que explo­rava o escuro em suas obras.

Nas últimas semanas, os petistas influentes do governo evita­ram dar declarações sobre o jul­gamento do mensalão. As razões são várias, observam interlocuto­res do Planalto. A razão política é que o drama do partido não po­de atravessar a Praça dos Três Poderes - de um lado fica o STF e do outro, o Planalto. A razão par­tidária é que o mensalão não de­ve pautar as campanhas munici­pais do partido, como a oposição tenta emplacar. Há ainda a "ra­zão" dos advogados dos réus, preocupados com frases de efei­to que podem soar com tom de intromissão de poderes.

Durante os oito anos de gover­no Lula, o ex-seminarista Gilber­to Carvalho, o "padre""do grupo de petistas históricos, sempre foi visto como a segunda voz do presidente, que sempre transmi­tiu com fidelidade pensamentos e frases do amigo. Mas, o jeito afável e cordial sempre represen­tou mais um contraponto num partido acostumado a líderes ex­plosivos e temperamentais.

Agora, no julgamento do "ex- homem forte" do PT e do gover­no Lula, o "padre" é quem me­lhor pode expressar o que a maio­ria sente, diz outra pessoa próxi­ma de Lula. As eternas e sempre lembradas divergências de grupos, a obsessão demonstrada no passado por Dirceu em suceder Lula no governo e as contradi­ções de um líder que ao deixar o palácio após duas crises políti­cas (caso Waldomiro Diniz e mensalão) virou um homem de boas relações e bons negócios perderam sentido, observa um assessor influente do governo.

Para esse assessor, o fato con­creto é a condição de réu de um quadro forte de um partido hoje sem brilho, seja no Congresso, seja na direção da legenda e na organização da militância.

O que perturba os petistas his­tóricos não é a situação do "ex- poderoso" chefe da Casa Civil, do "capitão da equipe de Lula", do homem que, em 1° de janeiro de 2003, fez questão de subir a rampa do Planalto logo atrás do presidente eleito e do vice eleito, José Alencar.

Assessores observam que José Dirceu está para ser condenado por ministros da Corte compos­ta, em sua maioria, por pessoas escolhidas por Lula e Dilma.

Nas conversas informais, pe­tistas históricos gostam de res­saltar que é o PT que está no ban­co dos réus. E não demonstram ódio nas críticas que fazem ao STF. O drama de José Dirceu ma­chuca os históricos, mas é tam­bém motivo de conversas, como afirma um deles, para esquecer um drama que ninguém disfarça que parece doer ainda mais - a condenação do companheiro José Genoino, ex-deputado e ex- presidente da legenda.

Fonte: O Estado de S. Paulo

Lula elogia voto de Lewandowski que livrou Dirceu e se surpreende com Rosa Weber e Fux


Ex-presidente pretende se manifestar ao fim da atual fase do julgamento no STF

Gustavo Uribe

SÃO PAULO Em conversas com amigos, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva elogiou o voto do ministro Ricardo Lewandowski que absolveu o ex-ministro José Dirceu. Para Lula, o revisor foi claro e abordou "questões centrais" durante a sua exposição no STF.

O ex-presidente, que acompanhou pela televisão o julgamento de Dirceu anteontem, tem defendido que, nos autos do processo, não há provas contra o ex-ministro. Ele pretende se manifestar publicamente sobre o julgamento do escândalo político apenas após o fim da atual fase do processo. Lula, segundo dirigentes petistas, ficou surpreso com os votos dos ministros Rosa Weber e Luiz Fux, que acompanharam o relator Joaquim Barbosa e condenaram Dirceu.

Ontem, em evento do candidato Fernando Haddad (PT) na capital paulista, Lula não quis responder ao ser perguntado sobre o voto de Barbosa. Paulo Vannuchi, ex-ministro da Secretaria de Direitos Humanos, que assistiu a parte do julgamento anteontem com Lula, avaliou como impecável o voto de Lewandowski e afirmou que, caso os réus sejam condenados, deve-se "utilizar todos os recursos judiciais que restarem, em um processo inesgotável".

- A nossa avaliação, com todo o respeito à Suprema Corte e em relação aos seus integrantes individualmente, é de inconformismo e cabal discordância (com a condenação). E sustentação da tese de que, até agora, houve condenação sem provas - afirmou Vannuchi.

O ex-ministro disse achar que houve ministros do STF que votaram "baseados em indícios", e não em provas, o que cria "precedente perigosíssimo". Vannuchi criticou ainda o procurador-geral da República, Roberto Gurgel:

- O procurador-geral afirmou que quer que o julgamento intervenha no processo eleitoral. É a confissão do problema. Um Judiciário que não passa pelas urnas começa a decidir para influir nas urnas, justificando incompetência. São sete anos; ele poderia ter julgado um ano atrás ou deixado para novembro.

Fonte: O Globo

A defesa do STF - Merval Pereira


Entre os desserviços que o ministro Ricardo Lewandowski está prestando no julgamento do mensalão, talvez o mais nocivo seja a tentativa de desacreditar o STF nos seus comentários paralelos. Certa vez classificou o julgamento como "nada ortodoxo", sugerindo que estavam sendo esquecidas jurisprudências e relegadas medidas de proteção aos réus definidas na lei.

Ao anunciar, na abertura de seu voto que absolveria o ex-ministro da Casa Civil José Dirceu, que se punha ao lado de "princípios fundamentais" do processo penal moderno, que se constituiu em "marco civilizatório importantíssimo, instrumento de defesa do cidadão contra o arbítrio do Estado", Lewandowski atirava sobre seus pares a suspeita de que não seguiam as mesmas regras ao condenar "inocentes" como o ex-presidente do PT José Genoino e Dirceu. Chegou a dizer "repudiar a perspectiva que considera o réu como inimigo". Esquecendo-se de que os réus, esses sim, representavam o "arbítrio do Estado", pois faziam parte fundamental do governo petista sob o qual a trama criminosa foi armada e executada, segundo a denúncia, a partir de gabinetes do Planalto.

A maioria do plenário, no entanto, demonstra estar bastante convicta de suas posições, sendo exemplo disso os resultados acachapantes das condenações. E, sempre que podem, os ministros rebatem as insinuações de que estariam flexibilizando a legislação, com inovações no julgamento que reduzem a garantia constitucional dos acusados.

O revisor disse, em seu voto de anteontem, que a maioria teria decidido pela desnecessidade da indicação do ato de ofício para provar-se a culpa de um réu, no que foi prontamente rebatido por Gilmar Mendes, que afirmou que o STF havia identificado, sim, atos de ofício dos políticos acusados de corrupção passiva: os votos e a participação em reuniões. E Celso de Mello lembrou que o Ministério Público "indicou que todo esse comportamento se realizou no contexto, pelo menos, de duas grandes reformas: a previdenciária e a tributária".

Da mesma maneira, a condenação do ex-presidente da Câmara João Paulo Cunha por corrupção passiva teve por base o dinheiro recebido de Marcos Valério, tendo o petista praticado o "ato de ofício" de convocar a licitação que resultou na vitória da agência do publicitário corruptor.

Rosa Weber, citada pelo revisor como adepta da tese da desnecessidade de identificação do ato de ofício, afirmou considerar que houve, sim, compra de votos. Ela citou autores para defender a tese de que um réu pode ser condenado mesmo à ausência de provas testemunhais ou de documentos. Chegou a dizer que os indícios "gritam nos autos". Também esclareceu sua posição sobre uma maior elasticidade na admissão da prova em caso de crimes dessa natureza, os "crimes de poder", "que em absoluto implica em qualquer flexibilização de garantias constitucionais aos acusados". Para ela, "o ordinário se presume. Só o extraordinário se prova. (...) se ocorrem fatos ou circunstâncias tão intimamente ligadas que chegam a formar um convencimento de que o acusado tenha cometido o crime, esses indícios também serão provas tão claras como a luz".

Luiz Fux lembrou acórdão da Suprema Corte de Portugal no sentido de que a prova nem sempre é direta. "Nós juízes nos valemos de regras de experiência. Será que nestas condições seria possível não saber?", ressaltou, lembrando que anteriormente Ayres Britto havia utilizado o mesmo raciocínio.

A sombra de Lula

Poucos notaram, mas na quinta-feira houve diálogo em que a figura do ex-presidente Lula esteve presente de maneira velada:

Lewandowski : Eu não via a prova. Eu gostaria de ver a prova. Estou dizendo que há uma prova frontalmente contrária

Marco Aurélio: Vossa Excelência imagina que um tesoureiro de um partido político teria essa autonomia?

Lewandowski: Ao contrário do que já foi dito, eu não acredito em Papai Noel, mas disse que é possível que eles tenham cooperado a mando de alguém, mas esse alguém precisa ser identificado.

Marco Aurélio: Esse alguém não estaria denunciado no processo?

Lewandowski : Não, não é isso...

Fonte: O Globo

A lógica política do 'mensalão' - Sergio Fausto


É cristalina a lógica política detrás dos crimes descritos na Ação Penal 470, que agora entra em fase decisiva de julgamento no Supremo Tribunal Federal. Só não a vê quem não quer ou não pode, por ingenuidade política ou cegueira ideológica.

A compra de apoio político de pequenos partidos foi a forma encontrada pela cúpula do governo Lula, ao início de seu primeiro mandato, para atingir três objetivos simultâneos: 1) Formar uma maioria parlamentar que a aliança eleitoral vitoriosa não assegurava; 2) formá-la sem uma efetiva partilha do poder político com o PMDB, o maior partido no Congresso; e 3) preservar para o PT o maior espaço possível na ocupação do aparelho do Estado.

Quem acompanha a vida política brasileira há de se lembrar de que José Dirceu havia costurado um acordo preferencial com o PMDB, recusado por Lula, sob o argumento de que ele se tornaria refém do maior partido no Congresso. Há de se lembrar também de que os partidos beneficiados pelo dinheiro do "valerioduto" praticamente dobraram o tamanho de suas bancadas na Câmara. Há de se lembrar ainda que o primeiro Ministério do governo Lula se caracterizava tanto pela sobrerrepresentação do PT quanto pela sub-representação do PMDB, quando comparados os postos ministeriais e cargos de direção em estatais e agências reguladoras ocupados por representantes desses partidos com o tamanho de suas respectivas bancadas no Congresso.

É falso dizer que o "mensalão" faz parte da lógica política do presidencialismo de coalizão no Brasil. O funcionamento "normal" deste supõe que o presidente construa e mantenha a sua maioria parlamentar valendo-se da nomeação de representantes dos partidos aliados para cargos no governo, bem como da liberação preferencial das emendas parlamentares dos membros da base aliada. Coisa bem diferente é a compra de apoio político-parlamentar mediante paga em dinheiro.

A mais importante das diferenças está em que os mecanismos "normais" de formação e manutenção da maioria parlamentar são públicos e, portanto, passíveis de controle e crítica pela sociedade. Basta ler o Diário Oficial e acompanhar as votações no Congresso com atenção. Fazem esse papel as oposições e a imprensa, entre outros. Os atos e contratos que decorrem das nomeações para o Executivo e liberações de emendas parlamentares estão sob o domínio da lei e o crivo dos órgãos de controle interno e externo do Executivo.

Já a compra literal de apoio é, por definição, uma operação subterrânea, que se sabe criminosa e por isso busca evadir-se de qualquer controle público. Ela incha a face oculta do governo e engorda vários negócios ilícitos, uma vez que esquemas de mobilização e distribuição ilegal de recursos acabam por servir, naturalmente, a múltiplos propósitos.

O padrão "normal" de funcionamento do presidencialismo de coalizão no Brasil está longe do "ideal". É possível aperfeiçoar o sistema e necessário insistir em que as coalizões tenham maior consistência programática. As críticas ao padrão "normal" não devem, porém, obscurecer a singular degradação a que a compra de apoio mediante paga representa para o presidencialismo de coalizão, em geral, e para a representação parlamentar, em particular. Com a operação de compra e venda o Executivo sequestra o mandato recebido pelo parlamentar e viola o princípio de que este representa os interesses de seus eleitores. Se no padrão "normal" o apoio vem em troca da construção de uma ponte, por exemplo, na relação de compra e venda os únicos interesses representados são os dos partícipes do intercâmbio político-comercial.

Ao degradar a representação parlamentar, o "mensalão" reflete uma certa concepção sobre o sistema representativo. Segundo essa concepção, a "vontade popular" só encontra expressão verdadeira e genuína no presidente da República. Tal ideia tem larga tradição doutrinária, dentro e fora do Brasil, à esquerda e à direita. Ela encontra eco na célebre afirmação feita por Lula em 1993 de que o Congresso seria composto por uma maioria de "300 picaretas". Dizer que o "mensalão" tem raiz doutrinária seria ridículo. É certo, entretanto, que ele revela o desapreço de seus autores pela instituição da representação parlamentar, como se esta fosse uma parte menor do regime democrático.

Além de crime, o "mensalão" foi um erro. A ideia de que seria possível operar tal esquema sem deixar traços e sem se expor a enorme risco demonstra um misto de amadorismo e arrogância de quem o concebeu e operou. Indica também a resistência a um efetivo compartilhamento do poder por parte de um partido que se havia aberto às alianças eleitorais, mas relutava a ceder espaços na ocupação do aparelho do Estado, uma vez conquistado o governo. Lula aprendeu com o erro, embora continue a reiterar a tese de que não houve crime. E aprendeu rápido.

No calor da hora, ao mesmo tempo que ventilava a tese do "caixa 2" para fazer frente ao escândalo, o então presidente tratou de incorporar o PMDB plenamente ao seu governo e à aliança eleitoral que o levaria à reeleição em 2006. Governou em seu segundo mandato com a mais ampla base de partidos da história do presidencialismo de coalizão no Brasil até aquele momento. Depois do susto, deu-se a exacerbação do "padrão normal".

Não se trata aqui de demonizar o personagem, muito menos de indigitar culpados. Faço apenas um raciocínio político com base nos fatos conhecidos. Nesse passo, chega-se à conclusão de que a compra de apoio derivou de uma escolha política tomada no alto comando do governo para assegurar a "governabilidade" sem impor maior restrição às pretensões hegemônicas do PT.

Ao que tudo indica, com o "mensalão" o chefe da Casa Civil tratou de dar consequência prática às preferências do presidente da República. Resta saber se Lula tinha conhecimento e/ou interveniência de algum tipo no esquema montado para a compra sistemática de apoio político ao seu governo.

Diretor Executivo do iFHC; membro do GACINT-USP

Fonte: O Estado de S. Paulo

Uma questão de ceticismo - Hélio Schwartsman


É possível construir um bom caso filosófico em favor do solipsismo, a doutrina metafísica segundo a qual eu devo acreditar apenas na existência de minha própria mente. O mundo exterior, se de fato existe, é-nos incognoscível.

No polo oposto, encontramos aquelas pessoas, em geral muito sociáveis, que creem em tudo, de Papai do Céu a UFOs, passando por chakras e teorias conspiratórias. Um elemento importante de nossa personalidade é o nível médio de ceticismo que aplicamos à realidade externa.

É nesse contexto que eu estranho o voto do ministro Ricardo Lewandowski pela absolvição dos Josés Dirceu e Genoino. Seria logicamente aceitável exibir desde o início do julgamento, ou, melhor ainda, da carreira de magistrado, uma posição garantista intransigente, exigindo do Ministério Público que demonstrasse de forma matemática a culpa do réu antes de condená-lo.

Provas assim fortes, porém, são, se não impossíveis, ao menos uma raridade, de modo que encontramos poucos juízes adeptos dessa escola hipercética. De modo geral, eles se contentam com a fórmula "culpado além da dúvida razoável". A subjetividade encerrada no termo "razoável" complica as coisas, mas não chega, segundo a maior parte dos doutrinadores, a inviabilizar o Direito. O magistrado condena o réu quando se sente convencido pelo conjunto probatório e, do contrário, o absolve. Processos costumam trazer provas para os dois lados, de modo que não é difícil montar uma argumentação racional para justificar qualquer posição que se queira seguir.

O problema com Lewandowski é que ele aplica diferentes níveis de ceticismo ao longo do mesmo julgamento. Se é verdade que não chegou a ser um crédulo "new age" quando os réus eram figuras menores, ele parece adotar uma exigência quase solipsista quando se discute a situação dos protagonistas. É justamente esse ruído que chama a atenção.

Fonte: Folha de S. Paulo

Em BH, Lacerda lidera com vantagem de 12,6 pontos


Segunda rodada da pesquisa do Instituto MDA em parceria com o Estado de Minas mostra que o prefeito Marcio Lacerda subiu de 44,3% para 46,6% das intenções de voto e chega à véspera da eleição com boa dianteira sobre o petista Patrus Ananias, que avançou de 30,8% para 34%. A sondagem foi feita nos dias 3 e 4 com 1.053 entrevistados. Vanessa Portugal (PSTU) aparece com 2,4%, mesmo percentual de Maria da Consolação (PSOL). Os demais candidatos juntos têm 0,5%. Brancos e nulos passaram de 9,6% para 9%, enquanto os indecisos caíram de 13% para 5,1%. O levantamento indica que Lacerda teria 54,3% dos votos válidos, suficientes para ser reeleito no primeiro turno, contra 39,6% de Patrus

Lacerda mantém vantagem

Pesquisa MDA/Estado de Minas mostra que prefeito candidato à reeleição tem uma frente de 12,6 pontos sobre Patrus Ananias

Juliana Ciprianie Isabella Souto

O prefeito Marcio Lacerda (PSB) chega à véspera da eleição com uma dianteira de 12,6 pontos percentuais sobre o principal adversário, o ex-ministro do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, Patrus Ananias (PT). A vantagem pode garantir a reeleição de Lacerda já no primeiro turno. Na segunda rodada de pesquisa do Instituto MDA em parceria com o Estado de Minas,realizada nos dias 3 e 4 com 1.053 entrevistados, o socialista teve 46,6% das intenções de voto contra 34% do petista. Os números sugerem que o comício da presidente Dilma Rousseff em BH no dia 3 não teve o efeito esperado pelo PT. O levantamento foi registrado sob o número MG 01160/2012 e tem margem de erro de três pontos percentuais para mais ou para menos. Os dois primeiros colocados cresceram em relação à pesquisa feita em 11 e 12 de setembro. Lacerda oscilou positivamente de 44,3% para 46,6%, aumentando dois pontos, e Patrus foi de 30,8% para 34%, uma diferença de 3,2 pontos percentuais.

A professora Vanessa Portugal (PSTU), que tinha 1,5% da preferência,passou a 2,4%, e os demais candidatos, que haviam somado menos de um ponto percentual juntos na primeira rodada, conseguiram um melhor desempenho. A também professora Maria da Consolação (PSOL) conquistou 2,4% das intenções de voto, Alfredo Flister (PHS) 0,4% e Pepê (PCO) 0,1%. Tadeu Martins (PPL) ficou com 0%. Eleitores que pretendem votar em branco ou nulo passaram de 9,6% em setembro para 9% em outubro e os indecisos foram reduzidos de 13% a 5,1%. Excluindo os votos brancos e nulos, Lacerda teria hoje 54,3% e Patrus 39,6% dos chamados votos válidos, que são aqueles proclamados como resultado pela Justiça Eleitoral. Em seguida aparecem Vanessa Portugal e Maria da Consolação com 2,8% cada, Alfredo Flister com 0,4% e Pepê com 0,1%. Os eleitores de Marcio Lacerda são mais fiéis: 83,9% afirmaram que a escolha é definitiva e 16,1% admitem a possibilidade de mudar o voto. No caso de Patrus, 78,8% disseram que não pretendem mudar o voto amanhã, enquanto 21,2% ainda não dão certeza de digitar o número do petista. Para o diretor do MDA Pesquisa, o quadro de evolução em relação ao último levantamento é estável. “A tendência é pela reeleição do Marcio Lacerda, mas Belo Horizonte é a capital do pânico dos institutos de pesquisa, pois tem um histórico de mudança de última hora no comportamento do eleitorado”, disse. Para o pesquisador, com o crescimento, ainda que pequeno dos nanicos (eles já chegam a 6%), há uma pequena chance de a disputa chegar ao segundo turno em 28 de outubro.

Além de liderar a pesquisa, Marcio Lacerda conta com a rejeição a seu principal adversário,Patrus, que atingiu 30,5%, a maior entre os sete candidatos. Lacerda teve 28,4 % de rejeição e ainda tem a seu favor uma avaliação positiva de seu governo: 54,3% dos entrevistados consideram sua gestão como ótima ou boa. Aqueles que a classificaram como ruim ou péssima somaram 14%. Para outros 30,6% a administração do socialista é regular e 1,1% não soube avaliá-la. Na análise do perfil do eleitorado dos candidatos, Lacerda lidera a disputa em todas as cinco faixas etárias, quatro níveis de renda e três de escolaridade. Na divisão de Belo Horizonte por setores residenciais, o prefeito perde a disputa apenas na Região Oeste, onde o petista assume a frente com 46,3% das intenções de voto e Lacerda foi apontado por 35,8%. A maior distância entre os dois principais candidatos foi registrada em Venda Nova: 56% escolheram Lacerda e23,3% votam em Patrus.

Fonte: Estado de Minas

Aécio rebate presidente: "Onde a mineira Dilma vai votar?"


Reforço e farpas na reta final

Lacerda destaca peso das propostas para definir as eleições,durante caminhada com Anastasia e Aécio. Senador ironizou discurso de Dilma

Marcelo da Fonseca

Ao lado dos principais cabos eleitorais – governador Antonio Anastasia (PSDB) e senador Aécio Neves (PSDB) –na campanha para a reeleição à Prefeitura de Belo Horizonte, o prefeito Marcio Lacerda (PSB) escolheu o Centro da capital mineira para fazer o penúltimo evento da disputa. Em caminhada na tarde de ontem pela Avenida Afonso Pena, entre a Praça da Rodoviária e a Praça Sete, o socialista cumprimentou moradores e comerciantes e ressaltou a característica propositiva de sua campanha. Apesar de o prefeito ter minimizado os efeitos dos embates entre Aécio Neves e a presidente Dilma Rousseff (PT), afirmando que serão as questões municipais que definirão o resultado das urnas, a disputa que poderá se repetir em 2014 na eleição para a Presidência da República voltou à cena, com o tucano criticando a petista. “Fiquei muito honrado com a presidente ter deixado Brasília e vindo aqui responder minhas indagações. Só lamento que ela tenha precisado de uma cola para lembrar quais são as reivindicações de Minas”, provocou Aécio. O senador rebateu as críticas feitas pela presidente na quarta-feira, durante comício do candidato Patrus Ananias (PT). No evento petista, Dilma criticou Aécio por classificá-la de “estrangeira” e afirmou que deixou BH por causa da luta contra a ditadura. “Essa história de que Minas tem dono, de que BH tem dono, é um desrespeito ao eleitor de BH. Ela se esqueceu que a cidade tem um prefeito que é muito bem avaliado pela população. Eu tenho uma curiosidade muito grande de saber onde é que a mineira Dilma Rousseff vai votar no próximo domingo”, ironizou o tucano.

O domicílio eleitoral da presidente é Porto Alegre. Lacerda, no entanto, preferiu minimizar o embate entre Dilma e Aécio e manteve sua estratégia de campanha, apresentando as obras que foram entregues nos últimos anos e outras que estão em andamento, confiante de que a eleição será decidida no domingo. “Não acho que isso (a nacionalização da campanha) vai interferir no voto do cidadão. A questão municipal, as questões do dia a dia das pessoas é que regem o voto. Nós estamos falando é de 2012. Para 2014 ainda falta muito tempo”, disse Lacerda.

O evento de ontem, que segundo estimativa dos organizadores levou mais de 2 mil pessoas para a caminhada no Centro da capital, gerou uma grande confusão no trânsito durante o início da tarde, uma vez que a Avenida Afonso Pena ficou completamente interditada por quase uma hora, até que uma das pistas foi reaberta. “Não é a primeira vez que uma mobilização assim acontece. É uma tradição na reta final de campanha, que a população compreende”, disse o prefeito. Lacerda fez ainda uma avaliação de sua campanha. “Nesta caminhada em direção ao coração da cidade temos a consciência tranquila de que mostramos aos belo-horizontinos as melhores propostas para BH. Mostramos resultados indiscutíveis e que são percebidos pela população, com avanços em todas as áreas”, afirmou.

Mensalão

Perguntado sobre eventuais efeitos eleitorais do julgamento do processo do mensalão pelo Supremo Tribunal Federal (STF), o senador Aécio Neves afirmou que não vê o processo como decisivo para o pleito municipal, mas aproveitou a oportunidade para alfinetar o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que também participa da campanha de Patrus Ananias. “Eleição municipal é decidida pelas questões locais, pela qualidade dos candidatos. Obviamente que isso não faz bem para o PT. Lamentavelmente a presidente Dilma ficou de alguma forma parecida com o ex-presidente Lula nesta reta final de campanha. Na desqualificação e agressividade do adversário”, afirmou Aécio. Hoje, pela manhã, Lacerda fará caminhada em dois dos maiores colégios eleitorais de BH: Venda Nova e Barreiro.

Fonte: Estado de Minas

No Rio de Janeiro, tráfico cobra até R$ 50 mil para candidato fazer campanha


Em Itaboraí, negociação incluiu construção de quadra; milicianos também criaram "pedágio"

Vera Araújo, Marcelo Remígio

Milicianos e traficantes estão cobrando de R$ 30 mil a R$ 50 mil, ou mesmo obras, para que candidatos a prefeito e vereador façam campanha em seus redutos. Pelo menos em sete favelas, dois complexos - Maré e Manguinhos - e quatro conjuntos habitacionais das zonas Oeste e Norte do Rio, além de Itaboraí, Niterói, Belford Roxo, Nova Iguaçu e Duque de Caxias, já há casos, de acordo com levantamento feito junto aos partidos. Ontem, na favela da Reta Velha, onde, de acordo com o juíz da 151ª Zona Eleitoral de Itaboraí, há 19 mil eleitores, foi feita uma megaoperação com fiscais do Tribunal Regional Eleitoral (TRE-RJ) e policiais civis para retirar material irregular de campanha e prender seis traficantes suspeitos de extorquir dinheiro de candidatos.

Desde que o juiz eleitoral Marcelo Villas esteve na Reta Velha pela primeira vez, há um mês, ele identificou que apenas um candidato a prefeito e cinco a vereador tinham propaganda na localidade. O fato levou a um inquérito na Delegacia de Homicídios de Niterói e São Gonçalo (DH), que corre em segredo de Justiça, para apurar a venda de espaço a candidatos para propaganda. As investigações constataram que os traficantes negociaram, em troca de votos e do livre acesso à favela, a construção de uma quadra poliesportiva na comunidade com emissários que seriam ligados à prefeitura de Itaboraí.

Entre os mais de 20 depoimentos prestados por testemunhas à delegacia sobre o caso, o do proprietário da empresa GCI Estruturas Metálicas - cujo nome está em sigilo -, responsável pela obra, já embargada pelo juiz, é o mais contundente. Segundo o depoimento, ele foi procurado por uma funcionária do município, que lhe propôs a construção da quadra. Em troca, a emissária prometeu beneficiar a empresa dele em licitações, caso o candidato que ela representava fosse eleito. Ele aceitou a "parceria", comprovada por uma nota fiscal no valor de R$ 27 mil, para a compra de material. À polícia, ele afirmou que foi instruído a dizer que a obra era doação.

Outra evidência no inquérito é a troca de e-mails, rastreados com autorização judicial, entre a empreiteira e o esquema, em que se combina a cotação da obra de forma cifrada. A quadra foi o passaporte para a entrada na área dominada pelo tráfico. Quem não pagou o "pedágio" foi proibido de colocar material de campanha. Até os moradores foram impedidos de manter placas de seus candidatos, e cabos eleitorais proibidos de entrar na favela.

Juiz interdita quadra

Uma testemunha, moradora da Reta Velha, contou, em detalhes, que os traficantes só autorizam a entrada de políticos que aceitem as regras: "os políticos pagam em torno de R$ 30 mil ao chefe do tráfico, e parte do dinheiro é aplicada na própria favela, como a quadra poliesportiva que está sendo construída". No inquérito, há referências a líderes comunitários. Um deles já foi preso por tráfico.

A ação de ontem foi chefiada por Villas, que percebeu que desta vez os traficantes estavam recortando placas e retirando fotos dos candidatos que não negociaram o espaço.

- Nas quatro incursões, só encontramos placas de um candidato a prefeito e de cinco vereadores. Em outras favelas do município, chegamos a ver propaganda de mais de 50 candidatos. É claro que ninguém doa uma quadra, por isso interditei a obra. Também mandei fechar a associação de moradores - explicou o juiz, que ontem apreendeu uma agenda do tráfico com nomes de políticos: - Foi a última operação, e vencemos a resistência do tráfico.

Segundo o titular da DH, Wellington Vieira, os envolvidos podem responder por abuso de poder político e econômico e captação de votos:

- A polícia vai concluir a investigação e apresentar o relatório final na semana que vem.

A cobrança por parte de traficantes ou milicianos para o livre acesso também ocorre na capital, Baixada e Região Metropolitana. O valor é definido segundo a densidade eleitoral. Em favelas de Manguinhos, a tabela imposta por traficantes vai de R$ 25 mil a R$ 30 mil. Já em áreas da Maré, o acesso e a instalação de placas podem chegar a R$ 50 mil.

Fonte: O Globo