domingo, 5 de agosto de 2018

Luiz Carlos Azedo: Os tempos sombrios

- Correio Braziliense

O Brasil está passando por um momento de radicalização política, em meio a um choque de narrativas nas quais a primeira vítima das “certezas” e “verdades” é a fraternidade

Um dos ensaios do livro Homens em tempos sombrios (Companhia de Bolso), da filósofa judia-alemã Hanna Arendt, é dedicado ao poeta, dramaturgo, filósofo e crítico de arte alemão Gotthold Ephraim Lessing (1729-1781) e discute a relação entre a verdade e a humanidade. Considerado um dos maiores representantes do Iluminismo alemão, Lessing é autor da peça Nathan, o sábio, de 1779, que se destaca pela defesa do livre pensamento e da tolerância religiosa, além da crítica ao antissemitismo.

À época, a peça foi proibida pela Igreja; mais tarde, o mesmo aconteceu sob o nazismo e, depois, no comunismo. A obra descreve o modo como o comerciante judeu Nathan, o sultão Saladin e um cavaleiro templário superaram as diferenças entre o Judaísmo, o Islamismo e o Cristianismo. Simultaneamente, aborda os temas da amizade, da tolerância, do relativismo divino e da necessidade de comunicação.

Filho de um pastor luterano, Lessing estudou latim e matemática em Kamens, sua cidade natal, e, depois, medicina, teologia, literatura e filosofia na Universidade de Leipzig, mas trocou tudo pelo teatro. Acabou mudando-se para Berlim, onde se tornou dramaturgo e crítico de arte. Entretanto, por causa de suas ideias avançadas, nunca foi aceito nos círculos da corte de Frederico II, o Grande, da Prússia, principalmente por causa de Voltaire, que então lá vivia e cuja dramaturgia criticou duramente.

Isolado, Lessing mudou-se para Breslau e, depois, Hamburgo, onde se tornou bibliotecário do duque Brunswick at Wolfenbüttel, o que lhe garantiu uma renda fixa, com a qual pode manter a família e quitar as suas dívidas. No seu tempo, a verdade única era a grande questão filosófica e religiosa, com a qual Lessing polemizava. Divertia-se com o fato de que, tão logo enunciada, a “verdade” imediatamente se transforma numa opinião entre muitas outras, que era contestada, reformulada e reduzida a um tema de discurso entre outros.

Com perdão pelo pleonasmo, nada mais verdadeiro em tempos de sociedade líquida e de choques de narrativas. Uma única verdade absoluta, se pudesse existir, seria a morte de todas as discussões. No seu ensaio sobre Lessing, Arendt estabelece a diferença entre as noções de possuir a verdade e estar certo, mas destaca que os dois pontos de vista têm algo em comum: os que assumem um ou outro geralmente não estão preparados, em caso de conflito, para sacrificar seu ponto de vista à humanidade ou à amizade.”

Míriam Leitão: Esboço dos programas

- O Globo

Muito próximo da eleição, candidatos ainda não detalham suas principais propostas para a economia

As propostas econômicas dos candidatos ainda estão muito embrionárias, mas tanto Marina Silva quanto Geraldo Alckmin e Ciro Gomes defendem a taxação de dividendos, com redução dos tributos sobre as empresas. Na semana de entrevistas com cinco dos candidatos na Globonews, foi possível ver convergências e muita imprecisão ainda sobre o que está sendo proposto na economia. O candidato Jair Bolsonaro falou em privatizara Petrobras, mas por um motivo conjuntural: o preço do diesel.

A privatização da empresa ícone do Estado brasileiro não pode ser decidida assim por esse motivo. Segundo o candidato, já que o preço dos combustíveis está alto, é melhor privatizara companhia. Disse e repetiu. Bom, ela ser vendida como está só transformará um monopólio estatal em privado. E quebrar o monopólio no refino, com venda de algumas das refinarias, pode ser o caminho mais seguro para quem quer competição nos preços. Isso foi defendido por Geraldo Alckmin.

O mais importante que fica da série de entrevistas em que, pela ordem, Álvaro Dias, do Podemos, Marina Silva, da Rede, Ciro Gomes, do PDT, Geraldo Alckmin, do PSDB, e Jair Bolsonaro, do PSL, falaram à Globonews é que ficou claro que alguns têm propostas econômicas mais definidas, mas há quem tenha apenas ideias desconexas.

O candidato Jair Bolsonaro teve que parar de se esconder atrás do economista Paulo Guedes e não soube muito bem explicar por onde vai nesse tema. Ninguém tem que ser economista, mas pessoas que se dispõem a governar o Brasil têm que saber o que estão oferecendo aos eleitores como projeto para tirar o país da bomba fiscal em que está. Eles é que tomarão as decisões.

Celso Ming: Suas apostas, senhores

- O Estado de S.Paulo

O cenário eleitoral parece mais definido e permite que sejam feitos investimentos de maior ou menor risco de acordo com os perfis de candidatos que apontam aí

No princípio era o caos. Depois, os gases cósmicos começaram a se concentrar e a matéria passou a se organizar em meia dúzia de pontos do universo. E é mais ou menos o que se percebe hoje a partir dos efeitos da força gravitacional sobre os novos polos eleitorais e econômicos em formação no Brasil.

Não é que as incertezas, de que tanto se falou nos últimos meses, tenham ido embora para sempre. Muitas continuam aí e outras podem voltar. Mas já dá para vislumbrar a formação de novos centros de força. Essa percepção concorre para repassar a ideia de que já é possível fazer algumas apostas.

O comportamento do mercado financeiro do País reflete esse novo momento. No período de 30 dias terminado nesta sexta-feira dia 3, a Bolsa disparou nada menos que 10,5%, ou mais de três vezes o que se pode esperar do rendimento de fundos de renda fixa em um ano. Esse resultado apenas em parte reflete a divulgação de bons balanços de empresas importantes, como os dos bancos, da Vale e da Petrobrás. O fator que mais vem empurrando a Bolsa é a noção de que novo conjunto de forças em direção às reformas e à rearrumação da economia começa a atuar.

O câmbio reflete a mesma dinâmica. As cotações do dólar no câmbio interno, que há algumas semanas se revolviam nervosamente e chegaram a tocar os R$ 3,91, voltaram a recuar, reduziram a volatilidade e até mesmo dispensaram as intervenções do Banco Central, algumas delas, pesadas. Nesse mesmo período de 30 dias, a moeda americana caiu 4,86% em relação ao real e trouxe prejuízo a quem se atirou açodadamente às compras.

Essa perspectiva (ou seria apenas possibilidade?) de bonança eleitoral vem acompanhada de uma situação especialmente favorável no ambiente externo – apesar do impacto da guerra comercial a que se vai dedicando o presidente Donald Trump. A economia dos Estados Unidos cresce a mais de 4% (dado anualizado); a da União Europeia, a 2,2% ao ano; e a da China, a 6,7%, também ao ano. Graças em boa parte aos ganhos de produtividade proporcionados globalmente pelo crescente emprego de tecnologia da informação, a inflação mundial também está controlada em níveis inferiores a 2% ao ano, o que também contém a alta dos juros ensaiada pelos grandes bancos centrais. Essa paisagem evita boa parte dos castigos que os mercados infligem às economias emergentes, entre as quais está o Brasil.

Brasil começa a ficar velho antes de se desenvolver: Editorial | O Globo

A janela demográfica do crescimento inicia fechamento, o que pressiona governos e sociedade
O termo “bônus demográfico”, de significado obscuro para leigos, está no centro de décadas de discussões sobre o desenvolvimento do país e também seus sistemas de aposentadoria. Pois a demografia — idade da população, a velocidade de seu envelhecimento, a taxa de fecundidade e natalidade etc. — é essencial para ajudar a plasmar a evolução econômica, social e até política de um país.

Na semana passada, o noticiário sobre novas projeções populacionais feitas pelo IBGE veio com a revelação de que o bônus demográfico brasileiro já começou a encolher, antecipando estimativa anterior que fixava este marco em 2023. Não se trata de simples curiosidade, pois este fato tem amplas implicações.

O “bônus” existe enquanto a população ativa (15 a 64 anos) cresce acima da média da população total. Significa que a força de trabalho se expande, condição necessária para que a economia se desenvolva. Todo país rico passou por esta fase.

O alerta de que o bônus começou a encolher, e antes do previsto, é sério, porque a população ativa entra em tendência de queda antes que o Brasil, por exemplo, tenha conseguido criar um sistema educacional capaz de preparar os jovens para entrarem no mercado de trabalho com o nível de capacitação adequado. Não é o que acontece. Basta consultar os resultados de testes e exames que medem a qualificação da juventude. O Pisa, avaliação internacional feita pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) junto a jovens de vários países que cursam o ensino médio, situa o Brasil entre os últimos colocados.

O que incentivar: Editorial | Folha de S. Paulo

Protecionismo comercial e tributário deve dar lugar a abertura com melhor ambiente de negócios

Um dos indicadores mais eloquentes do insucesso do Brasil em enriquecer e lidar com suas mazelas sociais é a estagnação da produtividade —a capacidade de produção e geração de renda por trabalhador— nos últimos quase 40 anos.

Resultado de educação deficiente, protecionismo comercial, entraves burocráticos, infraestrutura depauperada e incentivos inadequados, essa letargia se traduz em crescimento econômico baixo e interrompido amiúde por crises.

Se em décadas como as de 1950 e 1970 o país conseguiu mais que duplicar seu Produto Interno Bruto (PIB), a taxa de expansão dos últimos dez anos deverá atingir ridículos 12% ao fim deste 2018. A renda per capita nacional, que chegava a 38% da norte-americana em 1980, decresceu para 26%.

Deve-se reconhecer que houve esforços importantes, embora insuficientes, para reverter esse quadro. Entre eles, a abertura econômica no início dos anos 1990, o Plano Real, a quebra de monopólios estatais, os aperfeiçoamentos regulatórios do início da administração petista e, mais recentemente, o redesenho das leis trabalhistas.

Entretanto no mesmo período acentuaram-se distorções que esmagaram as chances de maior dinamismo. A escalada das despesas sociais —nem sempre bem formuladas e eficazes— trouxe consigo a alta da carga de impostos, distribuída de modo socialmente injusto e hostil ao setor produtivo.

Os excessos do Supremo: Editorial |O Estado de S. Paulo

Sob a condução da ministra Rosa Weber, começaram na sexta-feira passada as audiências públicas no Supremo Tribunal Federal (STF) que ouvirão o Ministério da Saúde e representantes de entidades médicas, religiosas e de organizações não governamentais a respeito da descriminalização do aborto até a 12.ª semana de gestação. Em breve, o plenário da Corte Suprema irá julgar a Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) 442, interposta pelo PSOL em março de 2017, que trata da questão.

Em que pesem os respeitáveis posicionamentos que aqueles entes - ou qualquer cidadão - possam ter acerca da interrupção voluntária da gestação, em geral visceralmente contrapostos, um fato paira sobre o debate: o STF não é o locus institucional adequado para liderar uma discussão dessa ordem. Uma vez mais, o STF, em clara afronta ao texto sagrado do qual deve ser o guardião, avança sobre a seara do Congresso Nacional.

Nossa Lei Maior não garante a inviolabilidade do direito à vida “extrauterina”. O artigo 5.º da Constituição, com clareza meridiana, diz que “todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à segurança e à propriedade”. Donde se conclui que o termo “vida” contido no mais excelso dos dispositivos constitucionais abraça, pois, os que ainda não nasceram. A inviolabilidade do direito à vida, é bom frisar, é tratada como uma cláusula pétrea da Carta Magna, vale dizer, não pode ser alterada nem mesmo por uma Proposta de Emenda à Constituição.

Mariene de Castro: Desesperar, jamais

Mário Quintana: O velho do espelho

Por acaso, surpreendo-me no espelho: quem é esse
Que me olha e é tão mais velho do que eu?
Porém, seu rosto...é cada vez menos estranho...
Meu Deus, Meu Deus...Parece
Meu velho pai - que já morreu!
Como pude ficarmos assim?
Nosso olhar - duro - interroga:
"O que fizeste de mim?!"
Eu, Pai?! Tu é que me invadiste,
Lentamente, ruga a ruga...Que importa? Eu sou, ainda,
Aquele mesmo menino teimoso de sempre
E os teus planos enfim lá se foram por terra.
Mas sei que vi, um dia - a longa, a inútil guerra!-
Vi sorrir, nesses cansados olhos, um orgulho triste...

sábado, 4 de agosto de 2018

*Luiz Werneck Vianna: Terra à vista

- O Estado de S.Paulo

A hora presente indica que se deve começar a solucionar a atual crise pela dimensão ideal

Estamos chegando depois de tormentosa viagem em mares bravios. Saídos de um continente velho de ideias cediças que nos fazia prisioneiros de um passado exausto que não mais nos permitia as ambições de conviver numa sociedade justa e igual, somos pioneiros em terra nova. Trazemos conosco os ideais anunciados no manifesto “Por uma sociedade democrática e reformista” e a vontade de propagá-lo por toda parte. Não vai ser nada fácil, como atesta a história de todos aqueles que assumiram este papel de desbravar terreno inóspito, a começar pelas próximas eleições. A seu favor, contudo, conspiram os novos ventos que têm varrido nossa sociedade e que assinalam o fim de um longo ciclo de modernização autoritária, que se inicia com Vargas, passa por JK, pelo regime militar e por Lula, e deságua no desastre que foi o governo de Dilma, que pôs a nu o anacronismo deste velho modelo que não é mais capaz de reiterar suas realizações no passado.

O melhor indicador desta mutação foi o massivo movimento da juventude nas jornadas de junho de 2013 – embora inconsciente dos efeitos de sua obra –, que se manifestou contra tudo o que está aí, o nosso Estado inclusive, em nome dos ideais de auto-organização e da participação social. Aquelas jornadas ficaram sem herdeiros que lhes dessem continuidade, mas deixaram no ar em disponibilidade seu significado de fundo para quem souber interpretá-las, tarefa que cabe, nesta hora difícil, às forças democráticas e progressistas.

Merval Pereira: Sem soluções fáceis

- O Globo

Estamos diante de um novo quadro de desânimo, e novamente o eleitorado parece buscar o salvador da pátria

As pesquisas eleitorais mostram há mais de ano Lula e Bolsonaro nos primeiros lugares. Toda vez que o brasileiro votou em busca de um salvador da pátria, o resultado não foi bom.
Desde a redemocratização tivemos outros dois episódios assim: em 1989, quando venceu Collor, e em 2002, quando Lula foi eleito.

Assim como desta vez, o eleitorado naquelas ocasiões estava desanimado com as experiências anteriores, buscando soluções que pareciam fáceis, mas eram simplesmente ilusórias.

Em 1989, primeira eleição direta depois da redemocratização, o país vinha da frustração da morte de Tancredo, outro que parecia o salvador da pátria, mas não te vetem pode ser testado como tal, e buscou os extremos para encontrara saída.

Foram para o segundo turno Collor, um populista de direita, contra Lula, um populista de esquerda, depois de uma campanha de muitas agressões mútuas e baixarias incríveis.

Ficou em terceiro o trabalhista Leonel Brizola, outro político de esquerda que morreu convencido de que foi roubado para que Lula fosse ao segundo turno, pois, conforme sua análise, era um candidato mais fácil de ser derrotado por Collor. Lula superou Brizola por 0,1% dos votos.

Lula já fez sua autocrítica, reconhecendo que seria uma tragédia se tivesse sido eleito naquela ocasião. Disse ele em 2010, num comício: “Hoje eu agradeço a Deus por não ter ganhado em 1989, porque eu era muito novo, muito mais radical do que eu era em 2002 e, portanto, eu poderia ter feito bobagem. Não bobagem porque eu quisesse fazer, mas pela impetuosidade, pela pressa de fazer as coisas”.

Collor não fez sua autocrítica, apenas lamentou que não soubesse interagir com o Congresso naquela ocasião como sabe agora, o que pode significar que teria antecipado já naquela época a metodologia que levou ao mensalão e ao petrolão.

Em 2002, depois de ter elegido Fernando Henrique Cardoso duas vezes no primeiro turno graças ao Plano Real, o eleitorado buscou Lula, o seu contrário.

A disputa entre PT e PSDB que há 30 anos domina apolítica brasileira começou em 1994, o fim da era dos tucanos deu início à dos petistas.

João Domingos: O tiro no pé do PT

- O Estado de S.Paulo

Os petistas de Pernambuco colocaram o Diretório Nacional contra a parede

O acordo entre PT e PSB que isolou Ciro Gomes na campanha eleitoral pode ter liquidado o candidato do PDT. Mas não dá para dizer que foi aquele sucesso que os petistas calculavam que seria. Para acabar com Ciro eleitoralmente juntaram-se o “golpista” Michel Temer, que fez pressão sobre os partidos do Centrão, ameaçando tirar-lhes os cargos que têm no governo caso se bandeassem para os lados do candidato do PDT, e Lula, que da cadeia ordenou à direção nacional do PT que garantisse a neutralidade do PSB. Esse fato inusitado será explorado na campanha por guardar alguma semelhança com peças publicitárias de 2014 veiculadas por Dilma Rousseff. Insinuava-se nelas que, se eleita, Marina Silva se aliaria aos banqueiros e roubaria a comida dos pobres.

Do lado de Temer falou o fígado, pois Ciro costuma dizer que o Palácio do Planalto foi “dominado por uma quadrilha” e que o presidente é o chefe dela. Do lado de Lula, falou a necessidade de exterminar aquele que vinha se tornando uma ameaça à hegemonia do PT no campo da centro-esquerda. Isso o PT não perdoa. Até porque, se perder essa condição, Lula deixa de ter a importância que tem. Outro vai ocupar o lugar dele.

Desde o impeachment de Dilma Rousseff e o processo e a prisão de Lula, o PT nunca esteve tão unido. Isso depois de um desastre na eleição municipal de 2016, em que muita gente chegou a prever não o fim do PT, mas o seu encolhimento à metade, talvez menos que isso. Pois essa unidade petista, que se escondia atrás do afastamento de Dilma e da prisão de Lula em Curitiba, corre riscos por causa do acordo PT/PSB. Há rebeliões no partido numa hora complicada, às vésperas do pedido de registro da candidatura de Lula no TSE.

Demétrio Magnoli: Cancellier, eu e você

Cancellier não fará o que fez Caldas, temos que fazer por ele, para nós

“Convivo com a pior de todas as sentenças: a mácula da minha honra por crimes que não cometi ou que sequer existiram”. Eduardo Jorge Caldas, secretário-geral da Presidência no governo FHC (1995-98), enfrentou uma incessante campanha de acusações, sem prova ou nem sequer denúncia formal, conduzida por Luiz Francisco de Souza, um procurador-militante. Reagiu, lutando nos tribunais por uma década, até provar sua inocência.

Já o reitor Luiz Carlos Cancellier, preso sem um fio de prova e proibido de colocar os pés na universidade, não resistiu à “pior de todas as sentenças”, suicidando-se diante do público num shopping de Florianópolis. Cancellier não fará o que fez Caldas. Temos que fazer por ele, para nós.

O Conselho Nacional do Ministério Público reconheceu finalmente, em 2009, que Luiz Francisco perseguia Caldas por razões político-partidárias. Prudentemente, desde o fim do governo FHC, o procurador sumiu do palco iluminado, desistindo da missão sagrada da denúncia da corrupção para refugiar-se num sinistro blog “socialista cristão”, de onde dispara petardos difamatórios.

Já a delegada Erika Marena, que mandou prender o reitor, foge à obrigação mínima de reconhecer o erro monstruoso, preferindo inventar um processo vazio contra um colega da vítima. Quanto pesa a injustiça? Será necessária uma nova década até que se repare o irreparável?

De Caldas a Cancellier, mudaram os tempos. Sob o signo da Lava Jato, há cheiro de sangue no ar. Da barriga da operação anticorrupção que desvendou tantos crimes escorrem líquidos contrastantes. Num lado, vastas, justificadas esperanças cívicas; no outro, a substância tóxica da arrogância missionária.

Hélio Schwartsman: Identidade e ideologia

- Folha de S. Paulo

Esquerda tem abandonado seus discursos de caráter mais universalista

Desnecessária e inoportuna a decisão da Knesset de aprovar um projeto de lei que define Israel como “Estado-nação do povo judeu” e ainda tira do árabe o estatuto de língua oficial do país. Como bem observou o grande Clóvis Rossi, a medida não apenas é inútil, já que ninguém nunca achou que Israel não fosse um Estado judaico, como ainda abre o flanco para fundadas acusações de etnocentrismo.
Não chega, porém, a ser uma surpresa que o governo capitaneado por Binyamin Netanyahu, o mais conservador da história de Israel, tenha promovido um projeto com esse teor. A adoção de bandeiras nacionalistas e étnicas nunca foi estranha à direita.

O que é relativamente novo —e, a meu ver, representa um retrocesso— é que a esquerda também tenha abandonado seus discursos de caráter mais universalista para abraçar com força as chamadas políticas identitárias. Deixou de enfatizar uma igualdade de direitos que derivam da própria condição de ser humano, sem estar associados a nenhuma característica de grupo, e passou a falar em direitos de negros, mulheres, homossexuais etc.

Nas versões mais radicais, quem não pertence ao grupo discriminado não pode nem falar sobre o assunto, proibição que se estende a cantar canções ou utilizar peças de vestuário que simbolizam o movimento —a chamada apropriação cultural.

Não se contesta que negros, mulheres e homossexuais sofram mais discriminação, o que justificaria priorizar suas demandas. A questão é que o tipo de discurso que se adota faz diferença. Enquanto a esquerda tradicional inscrevia o fim da discriminação no contexto de um movimento de emancipação que beneficiaria a todos, a política identitária ressalta as diferenças entre as pessoas sem apontar nada de universal.

Há autores que afirmam que essa mudança de atitude da esquerda contribuiu mais para a polarização nas sociedades do que a internet e as redes sociais. Seria interessante tentar medir isso.

Ricardo Noblat: Lula em estado de desespero

- Blog do Noblat

Caiu a ficha dele

Há mais de 100 dias, quando se entregou à Polícia Federal, Lula foi para o cárcere de Curitiba com duas certezas: não ficaria preso por muito tempo, e ainda teria chances de disputar a sucessão do presidente Michel Temer. Havia advogados que diziam para ele que isso seria possível, embora outros mais realistas pensassem o contrário, mas preferissem se calar.

A liberdade tão esperada por Lula não veio, e tão cedo virá ao que tudo indica. Todos os recursos impetrados pela defesa de Lula para soltá-lo foram derrotados nos tribunais superiores. Salvo o inesperado, a Justiça Eleitoral negará em prazo relativamente curto o pedido de registro da candidatura dele a ser apresentado até o próximo dia 15.

A ficha de Lula finalmente caiu. Foi por isso que nas últimas horas ele tomou decisões que dão uma ideia do seu estado de desespero. Mandou rifar em Pernambuco a candidatura de Marília Arraes (PT) ao governo do Estado. Para em seguida oferecer ao Partido Socialista Brasileiro (PSB) o que ele pedia e o que nem imaginava pedir para deixar de apoiar a candidatura de Ciro Gomes (PDT).

Os advogados de Lula, ontem, o aconselharam a escolher seu vice para que a chapa chegasse pronta à convenção do PT marcada para logo mais. É o que manda recente resolução do Tribunal Superior Eleitoral. Lula recusou o conselho. O vice, seja qual for, só será escolhido a poucas horas do fim do prazo para o pedido de registro da sua candidatura.

Manuela d’Ávilla, candidata a presidente pelo Partido Comunista do Brasil (PC do B), Fernando Hadadd ou Jaques Wagner, ambos do PT, e quem mais possa vir a ser vice de Lula terão que se conformar com a espera. Lula sabe que tão logo se anuncie quem será seu vice, ele começará a sair de cena. Todos os holofotes se voltarão para o vice no pressuposto de que ele será de fato o candidato do PT.

É tudo o que Lula não quer – perder o protagonismo dentro do PT e da esquerda, perder espaço na mídia, sentir-se, enfim, cada vez mais só. Ele tudo fará para que isso não aconteça, não importa o preço que possa custar ao PT e aos seus antigos aliados.

Armando Castelar Pinheiro: Da funcionalidade das democracias

- Valor Econômico

A falta de legitimidade tira a funcionalidade da democracia e isso anima movimentos totalitários à direita e à esquerda

As novas projeções demográficas do IBGE, divulgadas na semana passada, trouxeram boas notícias, como a contínua alta da esperança de vida ao nascer. Por outro lado, confirmaram o quadro desafiante para áreas como a saúde, onde as despesas continuarão subindo rápido, já que são bem maiores para os idosos, e a assistência à terceira idade, pela queda do número de familiares jovens por idoso.

A notícia mais marcante, porém, foi a antecipação em cinco anos do fim do bônus demográfico - a diferença entre as taxas de crescimento das populações em idade ativa e total. Para a previdência, será um complicador adicional, já que mostra uma queda ainda mais acelerada na razão entre o número dos que contribuem para o sistema e o daqueles que dele recebem benefícios. Também significa que, tudo o mais constante, o PIB per capita vai crescer menos no futuro. Primeiro, porque o número de pessoas em idade laboral por habitante vai cair, em vez de subir, como nas últimas décadas. Segundo, pois a taxa de poupança deve diminuir, já que idosos e crianças poupam menos do que aqueles em idades intermediárias, cuja proporção na população vai cair.

A mudança é significativa. No período pós-1980, o aumento da população ocupada por habitante respondeu por 0,5 ponto percentual (pp) da alta média de 0,7% ao ano na renda per capita, com o outro 0,2 pp vindo do aumento da produtividade do trabalho. Com o primeiro componente desaparecendo e o segundo diminuindo, daqui para a frente, na média, o PIB per capita deve ficar quase estagnado.

Obviamente, o grande "se" é se tudo mais de fato ficará constante. Afinal de contas, o que o Brasil precisa fazer para resolver o problema da previdência e crescer mais rápido é bem conhecido. E, do ponto de vista técnico, não são reformas difíceis de implementar. A questão é que o diagnóstico e o receituário de reformas também já são conhecidos há muito tempo. E nem por isso avançamos.

Há diferentes explicações possíveis para essa inércia. Uma delas é que os não-economistas não entendem bem o porquê desses problemas e das reformas. A solução seria, portanto, insistir em divulgar diagnósticos e propostas de reformas. Eu simpatizo com essa visão, mas não creio que esteja na raiz do problema: afinal, em nenhum país do mundo o eleitor mediano entende dessas coisas e dificilmente isso ocorrerá no Brasil.

Lula, Dirceu e PT ficavam com 2/3 das propinas, diz Duque

Ex-diretor da Petrobrás colabora diretamente com a Justiça após ter acordos de delação rejeitados pelo MPF
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Ricardo Brandt, Julia Affonso e Luiz Vassallo | O Estado de S. Paulo

O ex-diretor de Serviços da Petrobrás Renato Duque afirmou ontem ao juiz Sérgio Moro, da 13.ª Vara Federal em Curitiba, que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o ex-ministro José Dirceu e o PT dividiam dois terços da propina arrecadada com os contratos de plataformas para exploração do petróleo do pré-sal da Sete Brasil. A informação, segundo Duque, foi passada pelo ex-tesoureiro do PT João Vaccari Neto.

Segundo o ex-diretor, um terço da propina iria para a “casa”, nome usado para a propina destinada aos executivos da Petrobrás e da Sete Brasil, e os outros dois para o PT. “Esses dois terços para o partido seriam divididos entre Lula, José Dirceu e o partido”, afirmou.

Condenado a mais de 40 anos na Operação Lava Jato, Renato Duque teve acordos de colaboração premiada rejeitados pelo Ministério Público Federal (MPF) e passou a colaborar diretamente com a Justiça.

Ao juiz Sérgio Moro, ele relatou que o pagamento de propina “era institucionalizado”. “Todos os estaleiros pagaram”, afirmou. Duque disse que ouviu de Vaccari que ele era o homem do partido responsável pela arrecadação de propina da parte política nos contratos da Sete Brasil, empresa criada em 2010 para intermediar os contratos de plataformas, que está em recuperação judicial.

Vaccari disse, segundo Duque, que o ex-ministro Antonio Palocci era o responsável pelo acerto e dava as coordenadas de como seria distribuído. Os contratos de plataformas feitos a partir de 2011 envolveriam, segundo ele, propina de 1%. Ao todo, eram mais de US$ 20 bilhões em contratos.

Duque confessou a Moro que recebeu cerca de US$ 3,8 milhões de propinas em negócio da Jurong com a Sete Brasil. Ele relatou que o dinheiro foi pago em uma conta aberta em Milão, no banco Cramer. Segundo o ex-diretor, os pagamentos da Jurong e dos estaleiro internacionais foram destinados aos executivos da Petrobrás e da Sete Brasil, chamado por eles de “casa”. O valor dos 2/3, que segundo Duque eram destinados ao PT seria bancado por estaleiros criados por empreiteira como Odebrecht, OAS e UTC.

Além de apontar que a propina a Lula foi paga pelo estaleiro liderado pela Odebrecht, Duque relatou que a parte destinada a Dirceu saiu do estaleiro da Engevix e o montante para o PT saiu do estaleiro da Queiroz Galvão e Camargo Corrêa. Depoimentos. Ontem, Moro ouviu depoimentos de quatro réus do terceiro processo a ser julgado na Lava Jato envolvendo negócios dos 21 navios-sonda da Sete Brasil contratados pela Petrobrás a partir de 2011. O caso é o da Jurong, que tem R$ 2,1 bilhão em contratos com a estatal e envolveria propina de US$ 18,8 milhões.

A defesa de Vaccari disse que ele também foi interrogado por Moro nesta sexta-feira, mas foi orientado a permanecer calado. “O ex-tesoureiro nega no processo qualquer envolvimento com arrecadação de propinas e ilícito.” A assessoria de Lula afirmou que “o ex-presidente teve todas as suas contas vasculhadas e jamais recebeu valores ilegais ou teve em Palocci seu representante para receber qualquer valor. Não vamos comentar declarações sem nenhuma prova de presos que buscam fechar acordos para obter benefícios judiciais”.

A defesa de Dirceu emitiu nota afirmando que “diante da situação em que se encontra Renato Duque é absolutamente compreensível, que depois de anos de prisão, diga o que seus acusadores gostariam de ouvir.” O PT foi procurado mas não deu retorno.

Alckmin se torna competitivo, mas carrega o peso do centrão

Mal nas pesquisas, tucano ganhou fôlego ao obter a maior coligação da eleição

Daniel Carvalho, Thais Bilenky | Folha de S. Paulo

BRASÍLIA - Depois de meses de crise partidária e desempenho decepcionante em pesquisas, Geraldo Alckmin (PSDB) chega neste sábado (4) à convenção que o confirmará na disputa pela Presidência com estatura de candidato competitivo.

Se até semanas atrás tinha de lidar com a pressão de correligionários para substituí-lo, o deboche de adversários à esquerda e à direita e o desânimo de sua própria equipe, o tucano hoje precisa responder sobre sua aliança com o centrão (DEM, PP, PR, PRB e SD).

Ele formou o maior arco de alianças, o que trouxe 40% do tempo de televisão e capilaridade partidária, revertendo o clima de abatimento que assombrava seu entorno.

No ato deste sábado, em um centro de convenções em Brasília, Alckmin subirá ao palco com o peso da aliança com partidos conhecidos pelo fisiologismo e lideranças envolvidas em diversos esquemas de corrupção.

O tema também atinge o candidato e a sua legenda, o que esvazia o discurso que sustenta contra o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, preso em Curitiba, e o PT, adversário histórico do PSDB.

Sobre Alckmin pesam suspeitas de caixa dois em campanhas, o que ele nega. Além dele, o senador Aécio Neves (PSDB-MG), que não confirmou presença no ato, é réu acusado de corrupção passiva e obstrução de Justiça na Operação Patmos, da Polícia Federal. Aécio foi gravado pelo empresário Joesley Batista, da JBS, pedindo a quantia de R$ 2 milhões. O senador nega qualquer irregularidade.

O presidenciável ainda terá de se esforçar para dissociar sua imagem da do governo Michel Temer. O emedebista chegou ao poder com apoio dos tucanos, fiadores do impeachment de Dilma Rousseff (PT), e o PSDB ocupou ministérios importantes.

Temer também contribuiu indiretamente para a campanha de Geraldo Alckmin ao ameaçar tomar cargos de integrantes do governo que apoiassem a candidatura de Ciro Gomes (PDT), o que pesou na decisão do centrão de se aliar ao tucano.

Em seu discurso, Alckmin vai defender alianças e capacidade de diálogo para gerar consenso e boa governança.

Também vai encampar oficialmente o desafio de retomar a geração de empregos e promover diversas reformas de uma só vez: a previdenciária, a tributária, a política e a de Estado.

Alckmin: ‘Se você não faz aliança, não decola, está abandonado’

Centrão vai mudar porque terei rigor ético

Cristiane Jungblut, Maiá Menezes e Silvia Amorim | O Globo


RIO — Visivelmente mais confortável depois de ter conseguido fechar a mais ampla aliança da eleição e de ter driblado as resistências do centrão para a escolha da senadora Ana Amélia (PP-RS) como vice, o pré-candidato à Presidência Geraldo Alckmin (PSDB) não esconde o pragmatismo das suas ações nas costuras políticas. Em entrevista ao GLOBO, ele afirma que o político que não faz alianças acaba “abandonado” e aposta que o centrão não será fisiológico em seu governo.

Perguntado como enfrentaria Jair Bolsonaro (PSL) mantendo seu estilo discreto, Alckmin faz uma parada para a quinta xícara de café durante uma hora de conversa e dispara: “Quem tem que que ter carisma é o povo. E não é chuchu. É picolé de chuchu, que é mais saboroso”, diz o tucano, rindo da própria afirmação inusitada.

• O senhor diz que representa o “novo” nesta eleição. Como isso é possível se está há 40 anos na política e tem ao seu lado o centrão?

Primeiro, o novo não é não ter nenhuma experiência de administração pública ou nunca ter sido candidato. O novo é defender o interesse coletivo e mudar a política. É isso que queremos.

• Mas são partidos pautados pelo fisiologismo há muitos governos...

Acho que as pessoas entendem o objetivo. Vocês fulanizam muito. O Valdemar Costa Neto (líder do PR) não é nem candidato. O PR tem o Josué Gomes, um dos melhores quadros desta nova geração. O fato é o seguinte: se você não faz aliança, você é criticado, está abandonado, não decola, vai ser cristianizado. Quando faz a aliança, dizem: “Puxa, a aliança é grande demais”. Na política, a gente tem que ter um foco: como é que vamos tirar o Brasil da crise. Esse é o foco e é isso que interessa.

• Por que eles (o centrão) mudariam agora?

Eles vão ter que mudar porque farei um governo com rigor ético absoluto. O que eles querem é ser partícipes.

• Os políticos querem mais do que isso...

Não há a menor hipótese de isso acontecer.

• O senhor é alvo de uma investigação por suspeita de caixa 2 em 2010 e 2014. Seu cunhado, Adhemar Ribeiro, é apontado como arrecadador desses recursos. O senhor disse há algumas semanas que não é crime “apresentar pessoas”. Adhemar apenas apresentou doadores para as suas campanhas?

Ele nunca arrecadou, nunca foi da tesouraria do partido. Agora, uma pessoa que tem mulher banqueira e é dono de financeira tem relacionamentos. Qual é o problema nisso? Não levou pessoas, mas é claro que ele é uma pessoa bem relacionada. As minhas campanhas sempre foram rigorosamente dentro da lei.

• Como pretende tratar o tucano Aécio Neves, réu na Lava-Jato?

Ele foi afastado da direção partidária e ainda não foi julgado. Se for condenado, não vamos passar a mão na cabeça de ninguém.

• Outro ator central na Lava-Jato é o Supremo Tribunal Federal. O senhor é a favor do mandato vitalício dos ministros?

Vi um candidato (Jair Bolsonaro) dizendo que vai dobrar o número de ministros. O sujeito quer fazer da Suprema Corte um puxadinho do Executivo, como na Venezuela. Negativo. Acho que deve ser debatida a alternativa de modelo de mandato para os ministros.

• O senhor promete quatro reformas (tributária, previdenciária, política e de Estado). Terá cacife político para isso?

Essas reformas mais de fundo precisam ser feitas no começo da legislatura, quando o presidente tem mais legitimidade, voto e força.

Em 3ª tentativa de ser presidente, Marina Silva recorre a partido com o qual rompeu

Ex-senadora oficializa candidatura neste sábado, em Brasília

Joelmir Tavares, Angela Boldrini | Folha de S. Paulo

BRASÍLIA - A pré-candidata da Rede, Marina Silva, passou as últimas semanas repetindo que tinha prata da casa (ou “ouro da casa”, como frequentemente chamava) para o caso de não fechar com um candidato a vice de outro partido.

Em sua terceira tentativa de chegar à Presidência, com 15% de intenção de voto, ela é a segunda colocada nas pesquisas em cenários sem o ex-presidente Lula, de acordo com o Datafolha. Mas a ex-senadora encontrava dificuldades para fechar alianças.

A dois dias da convenção que oficializaria sua terceira candidatura à Presidência, na quinta-feira, 2, porém, veio um alívio: Marina conseguiu fechar aliança com o PV, numa movimentação que esticou levemente seu tempo no horário eleitoral.

A chapa com o ex-deputado e médico Eduardo Jorge será lançada oficialmente na convenção nacional da Rede neste sábado (4), em Brasília.

A campanha avalia que a composição com os verdes deu fôlego à candidatura, embora dificuldades persistam. Com o PV, a candidata salta de 8 para 24 segundos de TV. Apesar disso, continua com tempo escasso se comparado aos adversários: terá apenas uma inserção diária, contra 12 de Geraldo Alckmin (PSDB).

Nos últimos meses, o grupo da ex-senadora tentou negociar alianças com partidos como PMN, PPL, PHS e Pros, mas nenhuma avançou. Lideranças da campanha já se conformavam com a possibilidade de que a ex-senadora fosse para o pleito sozinha.

Vice provoca novo impasse dentro do PT

Sigla homologa hoje nome de Lula, que está preso, mas escolha para chapa opõe dirigentes e advogados; Manuela e Haddad são cotados

Ricardo Galhardo, Daniel Weterman, Katna Baran | O Estado de S. Paulo.

CURITIBA - O PT chega à convenção que vai homologar o nome de Luiz Inácio Lula da Silva, condenado e preso na Lava Jato, como candidato à Presidência sem saber se a escolha do vice será definida agora. A presidente do PT, Gleisi Hoffmann, esteve ontem com Lula, mas a discussão sobre a vice não foi conclusiva.

O PT chega à convenção que vai homologar o nome do expresidente Luiz Inácio Lula da Silva, condenado e preso na Lava Jato, como candidato do partido à Presidência sem saber se a escolha do vice será definida agora.

A presidente do partido, senadora Gleisi Hoffmann (PR), afirmou ontem que a legenda pode deixar para a Executiva Nacional decidir até o dia 14 o anúncio do nome para vice. Dirigentes petistas, porém, consideram um risco o adiamento da decisão e defendem que a indicação para a composição da chapa seja definida ainda hoje, data da convenção da sigla.

Lula esteve ontem com Gleisi, mas a discussão sobre a vice não foi conclusiva. “Não houve mudança jurisprudencial na Justiça Eleitoral”, justificou a senadora sobre uma possível modificação de entendimento de Tribunal Superior Eleitoral (TSE), determinando que o vice seja homologado 24 horas após as convenções partidárias.

O ex-ministro da Justiça Eugênio Aragão, advogado do PT no TSE, disse que o adiamento é arriscado. “Acho que é uma atitude de risco. A gente nunca sabe como o tribunal vai decidir. Mas existem razões políticas (para a decisão do PT) que têm de ser levadas em conta”, declarou. O ex-presidente, condenado em 2.ª instância a 12 anos e 1 mês de prisão, pode ser enquadrado na Lei da Ficha Limpa.

PSB destitui diretório de Minas Gerais

Ex-prefeito de BH tenta resistir à decisão do partido de rifar sua candidatura ao governo

Jonathas Cotrim, Rafael Moraes Moura, Amanda Pupo | O Estado de S. Paulo.

BELO HORIZONTE, BRASÍLIA - A Executiva Nacional do PSB destituiu ontem o diretório estadual em MG. A decisão foi anunciada após o ex-prefeito de Belo Horizonte Marcio Lacerda ter afirmado que manterá a candidatura ao governo mineiro.

A Executiva Nacional do PSB destituiu ontem o diretório do partido em Minas Gerais. A decisão foi anunciada após o ex-prefeito de Belo Horizonte Marcio Lacerda ter afirmado que desafiará a direção nacional e manterá sua pré-candidatura ao governo do Estado pelo partido.

Um acordo em nível nacional entre PT e PSB fez com que os pessebistas retirassem a candidatura de Lacerda para apoiar a tentativa de reeleição do governador Fernando Pimentel (PT), enquanto em Pernambuco, Marília Arraes (PT) foi rifada para apoiar a candidatura de Paulo Câmara (PSB).

A decisão do partido de destituir o diretório mineiro foi tomada anteontem à noite. Ontem, Lacerda entrou com uma ação no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e no Tribunal Regional Eleitoral de Minas Gerais (TRE-MG) para derrubar decisão da Executiva.

Ainda na noite de ontem, o juiz Nicolau Lupianhes, do TRE, acatou pedido do ex-prefeito e suspendeu “todo e qualquer efeito do ato de destituição da Comissão Provisória do PSB no Estado de Minas Gerais”. Cerca de uma hora depois, no entanto, o TSE, em decisão do ministro Napoleão Nunes, garantiu a realização da convenção estadual do partido, marcada para hoje. “Juiz incompetente para julgar a causa, vamos recorrer”, afirmou o presidente do PSB, Carlos Siqueira, antes da decisão do TSE.

‘Ilegalidade’. Para a defesa de Lacerda, a destituição da comissão provisória mineira sem a “prévia observância dos postulados constitucionais da ampla defesa e do contraditório” foi um ato de “clara ilegalidade”. Na avaliação do ex-prefeito, a destituição da comissão provisória do diretório estadual do PSB mineiro foi um “completo e inadmissível desrespeito das garantias constitucionais da ampla defesa e contraditório”.

Crise e Estado adoecem a população: Editorial | O Globo

A volta de doenças que estavam erradicadas ou sob controle se soma ao crescimento da mortalidade infantil

O debate econômico, que tende a crescer na campanha eleitoral, segue uma agenda conhecida —déficit público, Previdência, pobreza, inflação, saída da crise, e assim por diante. Nas entrevistas, sabatinas, confrontos, desfilam números, muitos dos quais apenas especialistas dominam.

Mas, por trás de tudo, existe uma população, em que mais de 13 milhões estão desempregados, com a vida em dificuldades. Outra marca da crise é deixada na saúde das pessoas. O Estado tem deficiências históricas na prestação de serviços, e a situação se agrava neste momento. O quadro sanitário se deteriora.

Há pouco, surgiu a assombrosa notícia de que, em 2016 — um dos anos da recessão engendrada pelo lulopetismo —, a mortalidade infantil voltou a crescer, depois de 15 anos. Segundo a Fundação Abrinq, com base em dados do Ministério da Saúde, a mortalidade entre crianças de 0 a 5 anos subiu de 14,3 para 14,9 por mil nascidos vivos, um aumento de 4,19%. Em 2000, o índice era de 30. Houve grande avanço, até este retrocesso. Que não defina uma tendência, oque depende do poder público.

A degradação da saúde tem sido confirmada pela volta de surtos de doenças desconhecidas das gerações mais novas: sarampo, poliomielite e outras. Ainda bem que, enfim, haverá, a partir de segunda-feira, uma campanha nacional de vacinação contra as duas. Mas demorou.

O eleitor desencantado: Editorial | O Estado de S. Paulo

Nada menos que 59% dos eleitores entrevistados na mais recente pesquisa do Ibope para a Confederação Nacional da Indústria (CNI) não têm candidato a presidente. No cenário mais provável, sem o petista Lula da Silva, preso e inelegível, são 31% os que pretendem votar em branco ou anular o voto e 28% os que não souberam ou não quiseram responder à pergunta. Esses dados são da pesquisa espontânea, quando não são apresentados nomes de candidatos ao entrevistado. No mesmo momento da campanha presidencial de 2014, havia, na pesquisa espontânea, 37% de indecisos e 16% de eleitores que pretendiam anular o voto. Ou seja, hoje há menos indecisão e mais vontade de anular o voto. O cenário revelado pela pesquisa mostra, portanto, um grau considerável de desencanto a pouco mais de dois meses do primeiro turno da eleição.

Não se trata de simples indefinição de voto, situação em que o eleitorado está esperando o início formal da campanha para escolher seu candidato. O contingente de indecisos é grande, mas salta aos olhos a hostilidade de parte substancial dos eleitores em relação a qualquer candidato e, pode-se dizer, à própria política.

A mesma pesquisa mostra que 29% dos eleitores que pretendem anular o voto ou votar em branco vão fazê-lo porque consideram que “todos os candidatos são corruptos”. Além disso, 11% mencionaram que “não acreditam em políticos e nos candidatos”, e 11% disseram que “nenhum dos candidatos resolverá os problemas do País”. Ademais, 56% disseram que não iriam votar se o voto não fosse obrigatório.

Sem alarmismo: Editorial | Folha de S. Paulo

Falta de chuvas reacende sinal de alerta, mas, no pior cenário, nova crise só viria após 2019

Trouxe certa inquietude à população da região metropolitana de São Paulo a notícia de que o sistema Cantareira, seu principal reservatório de água, adentrou agosto em estado de alerta. Alerta, contudo, não traz ensejo para alarme.

A definição é técnica: quando o nível das represas cai abaixo de 40%, o sistema se enquadra na faixa 3 (dita de alerta).

Em condição normal, a faixa 1 (60% ou mais da capacidade de reservação), admitem-se 33 mil l/s. Na faixa 2 (40% a 60%), a produção máxima deve ficar em 31 mil l/s.

Entretanto a retirada do Cantareira está há mais de um ano abaixo do permitido, não ultrapassando 26 mil l/s. Em outras palavras, vem sendo administrado com boa margem de segurança.

Não deixa de suscitar preocupação, decerto, a forte estiagem que marcou o mês de julho, por trazer à memória dos moradores as agruras traumáticas da crise hídrica de 2014-15. Todavia, mesmo que se repita a seca incomum dos anos 2013 e 2014, o Cantareira ainda teria água suficiente para abastecer São Paulo por mais de um ano.

Beth Carvalho - Onde está a honestidade (Noel Rosa)

Ezra Pound: Saudação

Oh geração dos afetados consumados
e consumadamente deslocados,
Tenho visto pescadores em piqueniques ao sol,
Tenho-os visto, com suas famílias mal-amanhadas,
Tenho visto seus sorrisos transbordantes de dentes
e escutado seus risos desengraçados.
E eu sou mais feliz que vós,
E eles eram mais felizes do que eu;
E os peixes nadam no lago
e não possuem nem o que vestir.

(tradução de Mário Faustino)

sexta-feira, 3 de agosto de 2018

Marco Aurélio Nogueira: A nau dos insensatos

- O Estado de S. Paulo

Apoiadores de Bolsonaro querem ver o circo pegar fogo e dar um tranco num sistema que não os beneficia

Jair Bolsonaro consegue a proeza de unir os democratas (esquerda, liberais e conservadores) contra ele. Apesar disso, mantém posição de destaque na corrida eleitoral, catalisando descontentamentos, frustrações, ódios, preconceitos e ressentimentos de todo tipo.

Sua retórica assusta, pela falta de responsabilidade cívica, pelo que vocifera contra a democracia, pelo irracionalismo.

O capitão da reserva ameaça passar para o segundo turno, impulsionado por um conjunto de fatores: a fragmentação das esquerdas e do centro democrático, a imagem negativa que sobrou dos governos Dilma, o horror à corrupção e à insegurança, a degradação da política e a exuberante fragilidade do governo Temer. Somados ao desalento que se abateu sobre a população e à confusão ideológica, tais fatores fizeram com que Bolsonaro se estabilizasse.

Na política brasileira atual, sua função é dupla: fazer o elogio da ignorância e do despreparo, que são por ele “ressignificados” para se converterem em trunfo, e dar corpo a uma direita reacionária e retrógrada que há tempo não conseguia encontrar expressão.

Ele, porém, é um fenômeno mais amplo, de caráter simbólico e cultural. Mostra à perfeição o estado a que chegamos, de deterioração política, despreparo ético e miséria educacional. Dá voz à angústia coletiva de diversos segmentos sociais, que não são necessariamente de direita e estão integrados por pessoas que perderam a confiança na democracia e na política.

Seus apoiadores são pessoas que querem ver o circo pegar fogo, dar um tranco num sistema que fere suas convicções ou não os beneficia. Optam por uma “radicalização” que desorganize a vida para então reorganizá-la. O caráter misógino, racista e autoritário do candidato não lhes diz respeito, nem incomoda. Também não há qualquer preocupação com eventuais prejuízos derivados de uma vitória de Bolsonaro. Gostam de seu estilo bateu-levou, debochado e arrogante.

A antipolítica é a estrela-guia deles.

Merval Pereira: O ‘salve’ de Lula

- O Globo

Da cadeia, Lula costurou o isolamento de Ciro e a estratégia para forçar o PSB a ficar neutro na campanha presidencial

Desde que a senadora Gleisi Hoffmann, presidente do PT e um dos nomes cogitados para substituir Lula na disputa presidencial, teve a brilhante ideia de comparar o ex-presidente ao traficante Fernandinho Beira-Mar, pedindo isonomia para que Lula o imitasse dando entrevistas de dentro da cadeia, essa relação entrou no debate político.

Na quarta-feira, na “Central das Eleições” da GloboNews, o pré-candidato do PDT à Presidência da República, Ciro Gomes, deixou implícito um paralelo quando acusou Lula de ter operado “freneticamente” de dentro da prisão para isolá-lo politicamente, impedindo que o PSB o apoiasse.

Disse também que Lula trabalhou junto a Valdemar Costa Neto, condenado pela participação no mensalão e investigado na Operação Lava-Jato, levando a que o líder do PR evitasse que o centrão o apoiasse.

O ex-presidente Lula está teoricamente incomunicável na sede da Polícia Federal em Curitiba, mas têm sido liberadas as visitas de políticos e advogados, alguns dublês de políticos e advogados, que levam para fora da cadeia recados de Lula.

Ele está proibido pela juíza Carolina Moura Lebbos, titular da 12ª Vara Federal de Curitiba, de gravar vídeos, conceder entrevistas e fazer, por meio de videoconferência, atos de pré-campanha, além de participar “presencialmente” da convenção do PT.

Filmagens na sede da Polícia Federal (PF) em Curitiba também estão vedadas. Para a juíza, “a situação fica bastante clara ao se notar, por exemplo, a evidente inviabilidade, por questões de segurança pública e de administração penitenciária, de universalização aos demais detentos da possibilidade de comunicação com o mundo exterior mediante acesso de veículos de comunicação para reiteradas sabatinas ou entrevistas”.

O PT insiste em levar para a propaganda eleitoral a imagem e as palavras de Lula, e a Justiça Eleitoral já avisou que isso não será possível, pois Lula, como diz o ministro do STF e atual presidente do TSE, Luiz Fux, tem uma “inelegibilidade chapada”.

Cristian Klein: Campanha curta, porém mais intensa

- Valor Econômico

Ataque a Bolsonaro poderá ser oito vezes maior que a Marina

E de repente Ciro, o Grande, que receberia as hostes do Blocão, do PSB e do PCdoB virou o Ciro pequeno, diminuto. Cioso de sua hegemonia na esquerda, o PT tratou de dar os contornos do cordão de isolamento do candidato do PDT, ao garantir a neutralidade que pôs fim à recalcitrância do PSB. Com 33 segundos (4,5%) num programa eleitoral de 12 minutos e meio, Ciro será praticamente um leão sem dentes na campanha em rádio e TV. Pouca vazão para muita voracidade. Os petistas terão o triplo do tempo de propaganda; e os tucanos, nove vezes mais que Ciro para baterem bumbo por Alckmin, pelo ungido de Lula - ou para destroçarem adversários preferenciais de acordo com a estratégia do momento.

Ciro perdeu os exércitos que esperava ter em razão da racionalidade do sistema político e, como sempre, de seus próprios erros: desequilíbrio, destempero, insolência, a verborragia que não lhe trai o pensamento. Mas também há algo de estrutural. Fosse a eleição presidencial solteira, o PT teria pouca ou nenhuma moeda de troca a oferecer ao PSB. É tudo muito entrelaçado, disputa nacional com as estaduais. A legislação brasileira é uma máquina de reproduzir o passado - e nesse passado recente petistas ainda acumulam poderosos recursos. Para ficar em apenas um deles, o mais valorizado na negociação das alianças eleitorais: o maior tempo de propaganda entre os 35 partidos. É, para usar um conceito caro à ciência política, muita dependência de trajetória.

Sem contar o trivial. Forças centrípetas puxam a corrida presidencial para desfechos dentro da lógica majoritária: a turma do Blocão - PP, DEM, PRB, PR e Solidariedade - abriu mão de pretensos pré-candidatos e juntou-se a Alckmin; o PSC casou Paulo Rabello de Castro como vice de Alvaro Dias (Podemos); o PV acaba de aderir à Marina Silva (Rede).

A direita mostrou uma razoável capacidade de coordenação eleitoral. Os dirigentes da esquerda falharam na articulação de uma candidatura comum. Vai ter Ciro, Manuela D'Ávila (PCdoB), Guilherme Boulos (Psol), e o PT, seja com Jaques Wagner ou Fernando Haddad. O apelo à unidade não vingou, e dificilmente vingaria sem Lula no páreo. Deixaram o trabalho para o eleitorado. Se a coordenação feita pelos profissionais da política não funcionou a contento, é de se perguntar se funcionará pelo voto útil dos amadores no primeiro turno, caso a disputa fique entre dois concorrentes à direita.

Bruno Boghossian: Nichos conservadores

- Folha de S. Paulo

Ana Amélia busca acentuar tom antipetista do tucano e recuperar espaço no campo

Geraldo Alckmin deu um passo largo à direita ao escolher Ana Amélia(PP) como vice em sua chapa presidencial. A senadora gaúcha se incorpora ao esforço dos tucanos para retomar um eleitorado conservador que votava no PSDB, mas migrou para Jair Bolsonaro(PSL).

Ana Amélia tentará devolver fôlego a Alckmin em cinco nichos:

1) no antipetismo; 2) no setor rural; 3) nos movimentos conservadores; 4) no debate anticorrupção; 5) no Sul.

A nova vice tende a acentuar as notas de polarização com o PT na campanha de Alckmin. Ana Amélia se notabilizou por um discurso agressivo contra Lula nos últimos meses.

Quando a caravana do ex-presidente foi recebida com ovos e chicotes em municípios do Rio Grande do Sul, em março, ela parabenizou quem “botou a correr aquele povo que foi lá levando um condenado”.

Bolsonaro ameaça dominar o ambiente antipetista. Alckmin desvia de confrontos violentos com o PT, mas pode escalar a vice como porta-voz para evitar que o rival reine sozinho.

Eliane Cantanhêde: O diabo está solto!

- O Estado de S.Paulo

O PT rifa seus nomes por hegemonia e alianças, mas nem todos vão engolir calados

Em 2004, com Lula a todo vapor na Presidência da República, a cúpula nacional do PT ignorou, desprezou e, de certa forma, humilhou a jovem petista Luizianne Lins para favorecer Inácio Arruda, do PCdoB, na eleição para a prefeitura de Fortaleza. Galega arretada e atrevida, ela empinou o nariz, enfrentou tudo e todos e venceu a eleição. No segundo turno, até ganhou uns adesivos do PT – mas teve de pagar o frete.

Quatorze anos depois, com Lula imobilizado numa cela em Curitiba, a cúpula do PT repete a primeira parte da história, atingindo em cheio Marília Arraes, neta do mito Miguel Arraes e candidata favorita ao governo de Pernambuco contra a reeleição do governador Paulo Câmara, do PSB.

Não por uma causa, mas por um projeto de poder, Lula e o PT decidiram rifar Marília em troca da neutralidade do PSB na disputa presidencial. Em outras palavras, cortaram a cabeça da petista para matar a candidatura de Ciro Gomes, do PDT. Sem PT, sem DEM, sem PSB e muito provavelmente sem a Rede, Ciro perde fôlego, míngua.

A tal Marília, porém, não parece muito diferente daquela Luizianne atrevida. Primeiro, ela desmentiu tudo num vídeo, atribuindo a versão a um “ataque especulativo”. Confirmado que tal ataque era real e partira da própria Comissão Executiva do PT, também empinou o nariz e avisou que não vai engolir em seco, nem chorar num canto. Como Luizianne, vai à luta, vai bater chapa na convenção do PT.

Fernando Abrucio: Liderança política terá papel decisivo

- Eu & Fim de Semana | Valor Econômico

A análise política não é um exercício de adivinhação. Para isso já existem os tarólogos, cartomantes e afins. Cravar quem será o vencedor da eleição de 2018 não é o objetivo desta coluna. Em vez disso, propõe-se um modelo de análise do processo eleitoral vindouro, baseado em três fatores: o estrutural, o conjuntural e o da ação política. Os dois primeiros têm dominado o debate, por vezes até organizando o embate de visões. Mas o papel das lideranças tem sido negligenciado. E numa disputa presidencial tão difícil - a mais competitiva desde 1989 -, a capacidade dos partidos e, sobretudo, dos candidatos de manejar as circunstâncias será um fator decisivo.

As origens do modelo proposto aqui estão em Maquiavel, em seu célebre "O Príncipe". Foi ele que inaugurou a tradição de se analisar a política combinando dois elementos: a fortuna, que são as circunstâncias que envolvem os atores, e a virtù, que representa a capacidade dos líderes de se adaptarem e até alterarem, na medida do possível, as condições objetivas que os rodeiam. O pai fundador da ciência política mostrava que a ação política tem limites e é preciso conhecer os elementos que influenciam as decisões dos atores.

Mas também realçava que existe um espaço de liberdade para que as lideranças moldem o futuro, de modo que é necessário entender como os políticos agiram ao longo da história, especialmente em momentos adversos ou de forte pressão.

Seguindo as pegadas de Maquiavel, pode-se dizer que há três fatores essenciais no processo político. O primeiro diz respeito aos elementos mais estruturais, que se conformam num prazo temporal maior. Nesse campo, entram, em primeiro lugar, as características sociais mais amplas, como a estratificação socioeconômica ou valores culturais, inclusive os relativos à forma como a sociedade identifica o papel do Estado. Obviamente que essas feições não são adotadas homogeneamente pelos cidadãos. Num país complexo e desigual como o Brasil, existem fortes divisões entre os indivíduos, que se manifestam no plano territorial mais amplo - as regiões - ou mais restrito - a oposição entre bairros ricos e periféricos (ou entre asfalto e morro).

José de Souza Martins: A identidade perdida

- Eu &Fim de Semana | Valor Econômico

Vamos nos aproximando das eleições que nos dirão se há luz no fim do túnel ou se somos prisioneiros do túnel sem saída. Temos a responsabilidade de decidir e nem mesmo sabemos quem somos. Desde o regime militar, que nos dividiu como povo, já não temos uma referência identitária que nos una. Os fatores de desagregação da sociedade brasileira se agravaram. Novas identidades surgiram da fragmentação.

Progredimos, na medida em que são identidades de algum modo libertadoras, que permitem aos novos sujeitos ser mais pessoas e menos máscaras, ainda que muita gente se sinta infeliz e mesmo raivosa com essas mudanças.

Da política ao gênero e à religião, de fato o país já é outro. Esse outro vai votar e poderá gerar a descontinuidade, intensificar a polarização e a intolerância autodefensiva e transformar o Brasil num país explicitamente conservador no lugar do país hipocritamente progressista que conhecemos. Seremos outro sendo o mesmo.

No plano político, há mais novidades do que se pensa. A mudança está tendo um efeito redutivo nas identidades políticas. O caso mais significativo é o do PT. O partido esmerou-se em radicalizar a política sem ir à raiz do processo político. Vive na fantasia de que o petismo é um país, e não um partido bloqueado por sua fragmentação.

Esse é apenas um dos aspectos do desaparecimento lento e progressivo da identidade de brasileiro. Outros grupos partidários e personagens caminham na mesma direção. Como Lula, Bolsonaro é um partido. Não se apoia na tese de um reencontro dos brasileiros com o seu destino. Pensa o Brasil como um país de opostos.

No plano estritamente social, a desagregação também está posta nos diferentes movimentos e ações de busca de identidade por diferentes grupos e categorias sociais. Como se já não tivéssemos uma. Nessa busca, há um desconforto com a condição histórica de brasileiro. O que exige reflexão e a análise. Na dilaceração da condição de brasileiro, de vários modos não queremos ser o que historicamente temos sido e somos.

Hélio Schwartsman: Democracia confusa

- Folha de S. Paulo

Legendas deveriam propor visões, em tese exequíveis, de como uma sociedade deve funcionar

Em dias de convenções, é oportuno falar sobre partidos políticos. Eles são o elo mais fraco de nossa democracia, que, apesar de vários e graves déficits, vem resistindo bem ao teste de estresse a que foi submetida nos últimos quatro anos.

A ideia central da democracia representativa é equilibrar os desejos do eleitor com as responsabilidades inerentes à governança. Se coubesse à população definir, sem filtros, todas as políticas públicas por meio de plebiscitos e referendos, chegaríamos facilmente a situações inadministráveis, como salários mínimos crescendo sempre acima da produtividade e sistemas de seguridade social mais generosos do que a capacidade do país de pagar por eles.

O problema de fundo são os efeitos da agregação. Nos contextos em que o erro é distribuído aleatoriamente, como encontrar a resposta certa a uma pergunta factual, as multidões são sábias; mas, quando o erro é sistemático, isto é, baseado em vieses cognitivos, como ocorre num bom número de decisões políticas e econômicas, seguir as massas só potencializa os equívocos.

Caberia aos partidos fazer a ponte entre as aspirações do povo e os constrangimentos ditados pela realidade. São múltiplas as vias de atuação. Para início de conversa, legendas deveriam propor visões, em tese exequíveis, de como uma sociedade deve funcionar. Isso não só permitiria ao eleitor escolher a tribo com a qual se identifica como ainda lhe daria pautas concretas pelas quais pelejar, tanto fora quanto dentro da sigla, enquadrando os caciques que colocassem seus interesses pessoais acima de tudo.

Ricardo Noblat: Lula e Fernandinho Beira-Mar

- Blog do Noblat

O que os aproxima e distingue

Do cárcere, em Mossoró, Luiz Fernando da Costa, 51 anos, vulgo Fernandinho Beira-Mar, preso e condenado por tráfico de drogas e assassinatos, lidera a facção criminosa Comando Vermelho que se espalha por todo o país, sendo mais forte no Rio de Janeiro e vizinhanças

Do cárcere, em Curitiba, Luiz Inácio da Silva, 72 anos, vulgo Lula, preso e condenado por corrupção passiva e lavagem de dinheiro, lidera o Partido dos Trabalhadores que também se espalha por todo o país, sendo mais forte no Norte e Nordeste, e em bolsões de pobreza de outras regiões.

O que mandam Fernandinho e Lula é rigorosamente obedecido por seus seguidores. Arrisca-se a morrer de verdade quem desobedece as ordens de Beira-Mar. A morte política é o destino certo de quem desobedece as ordens de Lula. Os dois não admitem rivais. Onde pisam não costuma crescer grama.

O grau de periculosidade dos dois é igual, cada um no seu pedaço e cada um ao seu modo. Mas há, entre outras, uma grande diferença entre eles: Beira-Mar preocupa-se com o fortalecimento de sua organização. Lula, com sua própria sorte, às favas a organização. Os dois se declaram inocentes e vítimas de injustiça.

Dora Kramer: Pela hora da morte

- Revista Veja

Operário-patrão do PT, Lula afunda a sigla para sobreviver como mito

Tudo na abordagem eleitoral do PT de insistir numa candidatura presidencial legalmente impossível mostra que a sigla voltou a apostar no quanto pior, melhor — partindo do princípio de que, perdido por um, perdido logo de uma vez por mil.

E nada pior para o país que a eleição de um brucutu enlouquecido, cuja ascensão ao poder equivaleria à assinatura de um contrato com o aprofundamento de todas as crises, a quebra da ordem social, a desorganização da economia e a desestabilização institucional.

O traço desse cenário caótico não é fruto de exagero, de delírio, muito menos de posicionamento ideológico. Resulta apenas da soma dos atributos mentais, orais e gestuais do deputado Jair Bolsonaro, cuja exibição não deixa a menor dúvida. Faz sucesso? Ora, a figura do rinoceronte Cacareco (Google, juventude!) em tempos idos também fez, e de lá para cá houve vários campeões de audiência no quesito voto inútil nas eleições. Uns eleitos, outros apenas fermento no índice de nulos.

Isso dito, não é Bolsonaro o foco aqui. Ou melhor, é e não é, mas vamos adiante. O tema mesmo é a rota escolhida pelo PT nesta eleição, um caminho rumo ao abismo. O partido, ou a parte que segue Lula (a outra existe, mas só sussurra ou simplesmente cala), optou pelo suicídio.

Não elegerá o presidente, embora faça de conta que isso não acontecerá por obra das “forças do atraso”. Não pode, por causa da candidatura fantasma, organizar-se nos estados. Não articula alianças política e eleitoralmente eficazes e, portanto, tende a eleger poucos parlamentares no âmbito nacional e estadual.