quinta-feira, 1 de abril de 2021

Opinião do dia / Luiz Werneck Vianna*

IHU On-Line – Que alianças políticas podem nos conduzir nesta direção?

Luiz Werneck Vianna – Todas as forças que de algum modo se opõem a esse estado de coisas desgraçado em que nos encontramos. Esse trabalho ainda está em construção. Ainda não se encontrou, por exemplo, nomes que possam vir a representar esse processo. Ulysses [Guimarães], Tancredo [Neves], nomes como esses ainda não apareceram e, se apareceram, ainda não estão conseguindo se projetar de maneira consensual. Tem que dar tempo ao tempo.

IHU On-Line – Como vê as disputas no campo da centro-esquerda, com o retorno do ex-presidente Lula à cena política?

Luiz Werneck Vianna – Vai depender de arte. Tem a volta do Lula – uma liderança relevante –, agora, é preciso ouvir outras vozes. Lula, a meu ver, faria um papel muito mais relevante como uma peça de articulação, abdicando das suas posições pessoais. Lula como artífice da frente seria muito mais importante do que Lula como candidato à presidência da República.

IHU On-Line - A crise gerada pela pandemia representa e sinaliza uma transição ou o aprofundamento do nosso passado e do nosso presente?

Luiz Werneck Vianna – Deveremos entrar numa transição que, desta vez, não deixe intocado o nosso passado. Desta vez, vai se ter um avanço quanto a isso, então, a transição vai ser também dirigida para trás, vai ser para frente e para trás.

IHU On-Line - A pandemia deixará mais traumas na sociedade brasileira?

Luiz Werneck Vianna – Mais traumatizada do que a sociedade está... São Paulo, o estado mais rico da federação, Rio Grande do Sul, Nordeste, a crise atinge a todos.

É claro que sem reflexão, sem pensamento, nada vai andar. Não basta apenas um remédio; é preciso que se tenha um sentido, um propósito, uma direção. Ainda mais agora, com o tema do meio ambiente, dos direitos humanos, de uma sociedade mais igualitária. O tema da igualdade está se impondo na agenda internacional. Novos tempos, novas agendas. Não podemos mais ficar nos limites de um nacional-popular. Temos que pensar em uma sociedade cosmopolita, quando a pandemia nos afunda a pensar. Nenhuma sociedade sai da pandemia sozinha, é preciso um esforço mundial. A pandemia varreu as fronteiras em toda parte.

Papa Francisco tem essa compreensão ajustada da natureza do presente, quando se refere à paz, ao meio ambiente, à igualdade. Ele é uma força moral relevante; há outras.

*Luiz Werneck Vianna, sociólogo, PUC-Rio. Entrevista. IHU On-Line, 31/3/2021.

Maria Hermínia Tavares* - Os generais e o capitão

- Folha de S. Paulo

Ocupante do Planalto não tem proposta para enfrentar pandemia nem projeto para a nação

Com a água chegando ao pescoço, o presidente reformou nesta terça (30) o seu ministério —e mais uma vez fabricou uma crise, sua especialidade. Nesse dia, com UTIs superlotadas, equipamentos e profissionais escasseando, o país batia novo recorde de mortos pela pandemia em 24 horas: 3.668. Imenso também era o número de desempregados para os quais o auxílio emergencial ainda não chegou, assim como o de alunos aos quais não se ofereceu alternativa de estudo enquanto as escolas estiverem fechadas.

Poderia ter sido mudança rotineira: a troca de um chanceler que, movido por ideias delirantes sobre o mundo, vinha sendo competente apenas em destruir a reputação internacional do país. Só que não foi.

Pressionado pelos aliados no Congresso, com a popularidade em queda e perdendo apoios importantes entre as elites econômicas —para não falar da tensão com os governadores e parceiros internacionais que cobram do Brasil compromisso ambiental—, o ex-capitão tratou de se defender.

Ricardo Noblat - Bolsonaro despertou no brasileiro o que ele tem de pior

- Blog do Noblat / Veja

Março, com tantas mortes, deixará saudades em face do que está por vir

A verdade é que a popularidade do presidente Jair Bolsonaro já deveria ter desmoronado há muito tempo, mas ainda resiste como atestam as pesquisas. O que explica isso? Arrisco um palpite: ele despertou o que existe de pior em cada um de nós. E milhões de brasileiros deixaram transbordar o que antes escondiam.

O desprezo pela vida alheia, por exemplo. Desde que eu sobreviva à pandemia, pouco me importa quantos morram. Como disse Bolsonaro: morrerão os que tiverem de morrer, principalmente os mais fracos, doentes, incapazes de resistir a uma mera gripezinha que em dezembro, como ele previu, estava no finalzinho.

A ambição dos que tentam extrair vantagens de tudo é outro exemplo. Arthur Lira (PP-AL), presidente da Câmara, patrocina a aprovação de um projeto para que empresários possam comprar vacinas, se imunizarem e imunizarem seus empregados, despesas que seriam abatidas do Imposto de Renda.

Bruno Boghossian – O caos de Bolsonaro

- Folha de S. Paulo

Sirenes soam apenas quando presidente quer fazer propaganda do risco de desordem

Em um ano, Jair Bolsonaro falou uma dezena de vezes na ameaça de caos social na pandemia. Para torpedear medidas de distanciamento, o presidente repetiu que o país pode ter uma onda de violência e saques a supermercados. Nesse período, ele escolheu o lado do "caos" e deixou o "social" em segundo plano.

As sirenes de Bolsonaro soam apenas quando ele quer fazer uso político do risco de desordem. No início da pandemia, o presidente fez corpo mole na compra de vacinas que poderiam garantir uma volta segura ao trabalho. Agora, na pior fase da crise, o governo levou três meses para pagar uma nova rodada do auxílio emergencial e proteger quem foi afetado pelo isolamento.

Katyna Argueta* - IDH desaba com a pandemia

- O Globo

Começamos 2021 em meio às incertezas do porvir. A última edição do Relatório de Desenvolvimento Humano — “A próxima fronteira: desenvolvimento humano e o antropoceno” — alerta sobre a queda no Índice de Desenvolvimento Humano — IDH global — pela primeira vez em 30 anos.

A pandemia de Covid-19 desencadeou uma crise que atinge duramente todas as dimensões do desenvolvimento humano: renda — maior retração da atividade econômica registrada desde a Grande Depressão; saúde — em escala global, foram registradas 2.808.439 mortes; e educação — estudantes fora da escola e sem acesso à internet para continuar a educação, e muitos que, provavelmente, já não voltarão a estudar, ampliando as desigualdades existentes.

Em algumas dimensões do desenvolvimento humano, as condições de hoje são equivalentes aos níveis de privação vistos na década de 1980.

Vinicius Torres Freire - Entenda o atraso da vacinação

- Folha de S. Paulo

Vacinas sem aprovação e decisão chinesa tiram 20 milhões de doses de abril

No calendário do governo federal, o Brasil teria 48,287 milhões de doses de vacina contra a Covid-19 em abril. Pelo menos 20 milhões dessas doses não vão chegar. O ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, disse nesta quarta-feira na Câmara que a coisa vai ser ainda pior: cerca de 22,8 milhões de doses vão desaparecer do cronograma do mês que vem. Seria o bastante para vacinar pelo menos 10,8 milhões de pessoas, quase dois de cada três idosos de 60 a 69 anos, o grupo de idade em que morrem 23% das vítimas da Covid-19 no Brasil.

Parte dessas vacinas agendadas para abril era fantasia do general Pesadello, o ex-nunca-ministro da Saúde. Eram as 8 milhões de doses da Covaxin da Índia e as 400 mil da Sputnik russa, que ainda não foram aprovadas pela Anvisa.

Tem mais problema.

William Waack - Capitão Brancaleone

- O Estado de S. Paulo

Se Bolsonaro imaginou um golpe, conseguiu apenas mostrar-se incapaz

A história do Brasil já teve ex-militar que demonstrou extraordinária incompetência para executar um golpe: Luís Carlos Prestes, em 1935. Jair Messias Bolsonaro está um patamar acima do lendário líder comunista, que também chegou a capitão. Mostrou-se extraordinariamente incompetente até para imaginar um golpe.

Um golpe é sempre uma ação que, no final das contas, depende de correlação de forças políticas (em sentido amplo) e militares (em sentido estrito) – e ambas de um momento apropriado, que é fluido por definição, embora possa ser “criado”. Bolsonaro ignorou tudo, leu errado os fatos da realidade e está sendo visto como palhaço que subiu ao trapézio no circo.

Ao contrário de outros candidatos a caudilho, Bolsonaro não criou qualquer movimento político consistente, organizado e capilarizado que pudesse minimamente seguir um comando. Para comparação, no seu auge o PT dispunha de sindicatos, organizações comunitárias, setores da Igreja Católica e substancial parte da intelectualidade prontos a atender ao que fossem as diretrizes do comando partidário.

Bolívar Lamounier* - Anarquia jurídica

- O Estado de S. Paulo

É a situação que o Brasil vive hoje. Quem ‘declara’ o que é a Constituição? O STF...

 “Quem está preso pode ser solto,

quem está solto pode ser preso” (Ditado mineiro)

Desde o dia, milênios atrás, em que os seres humanos conseguiram concatenar duas ideias, eles entenderam que a vida em sociedade é impossível sem um conjunto de normas às quais a maioria esteja disposta a obedecer.

Séculos mais tarde perceberam que normas convencionais, surgidas com a lenta evolução dos costumes, não seriam suficientes. A vida social exigia normas propriamente jurídicas, criadas sempre que necessário a fim de prover respostas para os desafios de cada época. De fato, o Direito distingue-se da convenção, desde logo, por implicar sanções – vale dizer, o recurso à força – contra eventuais infratores. E o recurso à força implicava a formação de um grupo de profissionais especializado e dotado de legitimidade para aplicar as leis.

Dá-se, entretanto, que o conteúdo do Direito não é evidente por si mesmo. Os profissionais responsáveis por sua aplicação podem e de certa forma são forçados a “interpretá-lo”, diria mesmo a “declará-lo”. Isso ocorre em inúmeras ocasiões, seja pela complexidade intrínseca das normas ou do meio social circundante, seja, e não menos importante, pela influência das ideologias ou interesses do referido grupo de profissionais.

Everardo Maciel* - Muito mais que o vírus

- O Estado de S. Paulo

A pandemia de covid-19 prossegue em sua macabra trajetória, sem que se vislumbre seu fim e suas consequências na vida das pessoas e dos países.

A pandemia revelou, dramaticamente, a desatenção da humanidade com questões que interessam à segurança planetária, a exemplo do desenvolvimento sustentável. Na esteira do individualismo possessivo, construiu-se uma desproporcional prevalência da eficiência sobre a equidade e da competição sobre a colaboração.

Bill Gates, no recém-editado Como Evitar um Desastre Climático, expõe de forma didática e persuasiva os enormes riscos das mudanças climáticas e seus efeitos catastróficos sobre os seres humanos, em muito superiores à tragédia da covid-19. Propõe, também, um plano, com base em soluções disponíveis e inovações necessárias, para zerar a emissão de gases de efeito estufa e prevenir o desastre climático, envolvendo grandes mudanças nos campos da energia, transportes, indústria, agricultura, etc.

À primeira vista, parece tratar-se de uma proposta muito ambiciosa, porém está à altura do problema que pretende enfrentar. Merece uma atenção especial.

O presidente Joe Biden, dos EUA, em seu animador início de governo, vai apresentar, dando continuidade ao já aprovado programa de auxílio aos vulneráveis, projeto envolvendo reforma da infraestrutura física e incentivos a ações no campo da educação e da sustentabilidade.

Ribamar Oliveira - O abacaxi voltou para o colo do ministro Guedes

- Valor Econômico

Questão é saber se contas fecham só com o contingenciamento

Para entender a grande confusão da semana passada, que terminou produzindo um Orçamento fictício para este ano, o leitor precisa recordar a grande polêmica que surgiu em torno da proposta de emenda constitucional 186, a chamada PEC Emergencial. Durante a votação, a nova base política do governo, mais conhecida como “centrão”, queria retirar do teto de gastos da União a despesa com o Bolsa Família. O objetivo era abrir espaço no teto para mais investimentos, que seriam garantidos por emendas parlamentares ao Orçamento.

A proposta criou um tremendo reboliço, com o dólar e o juros disparando e a bolsa caindo. Parecia que o fim do mundo se avizinhava. Mesmo porque havia indícios de que até mesmo o presidente Jair Bolsonaro era favorável à medida. Depois que a temperatura do mercado subiu, o ministro da Economia, Paulo Guedes, chegou a um acordo com os líderes do “centrão”. A questão das emendas seria resolvida quando o Orçamento deste ano fosse votado.

Roberto Macedo* - Sob comando do Centrão, Congresso corrompeu Orçamento de 2021

- O Estado de S. Paulo

Emendas parlamentares podem ter a sua constitucionalidade questionada

Até parece que Bolsonaro fez sua reforma ministerial para ofuscar em parte o noticiário altamente negativo sobre a aprovação, pelo Congresso Nacional, da Lei Orçamentária Anual (LOA) de 2021. Ela veio só no dia 25 deste mês, num atraso que por si já demonstrou a falta de seriedade com que o Parlamento tratou de assunto tão importante.

Para detalhes dessa LOA recomendo a Nota Técnica 46, publicada na segunda-feira pela Instituição Fiscal Independente (IFI), do Senado Federal, entidade de reconhecida competência na análise de questões fiscais. Essa nota técnica está em https://www12.senado.leg.br/ifi/notas-tecnicas-ifi.

Aliás, o diretor executivo da IFI, Felipe Salto, escreveu neste espaço logo no dia seguinte à publicação da mesma nota, e enfatizou que “o Orçamento de 2021 requer novo alerta: a redução de despesas obrigatórias a níveis pouco razoáveis, tecnicamente, traz riscos à transparência nas contas públicas e à gestão da política fiscal. A boa prática orçamentária recomenda prudência. Se há probabilidade alta de uma despesa vir a ser feita, ela deve ser fixada na LOA”.

Maria Cristina Fernandes - Bolsonaro entrincheirado

- Valor Econômico

Trocas reforçam proteção da família, mas a das Forças Armadas ricocheteou

A maior crise militar já vista desde a redemocratização decorreu de um presidente da República que se entrincheira para proteger os filhos. O buraco começou a ser cavado em 16 de março, quando o Superior Tribunal de Justiça validou a troca de informações entre o Coaf e o Ministério Público no inquérito das “rachadinhas” que investiga Flávio Bolsonaro. Três semanas antes, a defesa do senador tinha conseguido anular sua quebra de sigilo fiscal e bancário. Partiu para enterrar o inquérito, mas perdeu por 3 votos a 2. No governo, atribui-se o placar à ação sobre o STJ de ministros do Supremo que, mantendo o inquérito aberto, preservam também cartas na manga contra o presidente.

Começou ali a ser traçada uma reforma destinada a levantar barricadas em defesa do presidente e de sua família. A ideia era levar o Supremo a refazer suas pontes com o Planalto, colocar o Centrão para a antessala de Bolsonaro, reforçar o Estado policial e mostrar às Forças Armadas quem é o comandante-em-chefe. Todas as trocas ministeriais tiveram este vetor, o de fortalecer o núcleo duro da trincheira bolsonarista. Só a das Forças Armadas, como demonstrou a escolha dos novos comandantes, richocheteou contra o presidente.

A imitar Fernando Collor, que montou um ministério de notáveis para se segurar, optou por um governo de amigos, à la Jânio Quadros, com a diferença de que predominam nulidades no seu círculo de amizades. As mudanças, porém, não haviam sido planejadas para a semana seguinte à escolha de Marcelo Queiroga, outro apadrinhado da família, para a Saúde.

Luiz Carlos Azedo - Como no quartel de Abrantes

- Correio Braziliense

A crise militar foi pura perda de tempo, tirou o foco do principal problema do país: a pandemia da covid-19, que ontem registrou novo recorde, 3.869 óbitos em 24 horas

A frase “tudo como dantes no quartel de Abrantes” é uma herança lusitana. Chegou ao Brasil em 1808, a bordo dos navios que trouxeram a família real e sua corte para o Rio de Janeiro. Surgiu durante a invasão de Napoleão Bonaparte à Península Ibérica. Portugal havia se oposto ao Bloqueio Continental, que obrigava o fechamento dos seus portos a qualquer navio inglês. Em 1807, o general Jean Androche Junot, braço-direito de Napoleão, atravessou a fronteira com a Espanha e ocupou Abrantes, a 152 quilômetros de Lisboa, na margem do rio Tejo. Lá, instalou seu quartel-general e, meses depois, se fez nomear duque d’Abrantes.

Com a fuga do príncipe-regente Dom João VI para o Brasil, o general francês praticamente não enfrentou oposição. Isso despertou a ironia popular, registrada por Orlando Neves no Dicionário de Expressões Correntes (Editorial Notícias, Lisboa): “‘Tudo como dantes, quartel-general em Abrantes”. Esse é o saldo da crise militar provocada pela demissão do ex-ministro da Defesa Fernando Azevedo e dos comandantes militares do Exército, Edson Leal Pujol; da Marinha, Ilques Batista; e da Aeronáutica, tenente- brigadeiro Antônio Carlos Bermudez.

Malu Gaspar - Bolsonaro: Mau militar, bom miliciano

- O Globo

O capitão Jair Bolsonaro deixou o Exército depois de ser absolvido em um tribunal militar, mas nem por isso evitou a porta dos fundos. É um episódio revelador. Nos anos 80, foi acusado de planejar a explosão de bombas em quartéis, na Academia Militar das Agulhas Negras e na adutora do Guandu, responsável pelo abastecimento de água no Rio de Janeiro. Mesmo com depoimentos e laudos demonstrando sua participação no caso, foi liberado pelo Superior Tribunal Militar. Assim, pôde construir uma carreira política como porta-voz dos interesses das baixas patentes.

Em sua lida no Congresso, o deputado-capitão se fez acompanhar por figuras como o ex-policial militar e faz-tudo Fabrício Queiroz. Durante anos, rendeu homenagens a — e empregou nos gabinetes da família Bolsonaro — parentes de PMs acusados de envolvimento com as milícias do Rio de Janeiro, entre os quais o agora famoso matador de aluguel Adriano da Nóbrega. Milícias, nunca é demais lembrar, são grupos de policiais que se desviam de sua função para cometer crimes e impor suas próprias leis à margem do Estado.

Nada disso era segredo para o generalato. Já nos anos 90, Ernesto Geisel classificou Bolsonaro como um mau militar, alguém “completamente fora do normal” para a carreira. O ex-presidente e general dizia acreditar que, à medida que o país se desenvolvesse, a interferência do Exército na política diminuiria.

Míriam Leitão - Bolsonaro entre seus fantasmas

- O Globo

O país passou o dia 31 de março cercado de fantasmas do passado, que o presidente convocou e aos quais vive agarrado. Assombrou a democracia com uma crise militar plantada num dia emblemático, quando todos viviam um momento dilacerante da pandemia. O Brasil não sabe mais onde enterrar seus mortos, o ministro da Saúde pede para se “racionar” o oxigênio, hospitais fecham emergências por incapacidade de atendimento e Jair Bolsonaro nos atormenta.

Foi patética a apresentação dos novos comandantes. Toda a cena — na verdade, todo o episódio — lembrava os piores momentos da ditadura. O país não foi informado sobre o que levou o presidente a demitir o ministro da Defesa e os três comandantes das Forças. A democracia exige transparência dos atos do setor público. O general Braga Netto fez um discurso em cadência castrense, curto e ambíguo. Os três se perfilaram como na frente de um pelotão e saíram sem dar palavras. Toda a cerimônia durou 2 minutos e 30 segundos. Isso depois de uma Ordem do Dia cheia de mentiras sobre os fatos históricos.

O que Bolsonaro quis com tudo isso? Ele criou esse estridente ruído no 31 de março, data que venera, deliberadamente. Os militares da ativa garantem aos seus interlocutores que as Forças Armadas continuarão evitando a politização nos quartéis. Mas, para Bolsonaro, não importa o que é, e sim o que parece ser. Ele quis dar a impressão de que pode fazer o que quiser com o “seu” Exército, “suas” Forças Armadas. Ele quer que acreditem que elas estão alinhadas a ele.

Merval Pereira - Bolsonaro cava sua cova

- O Globo

Quando foi anunciado o general Hamilton Mourão como vice-presidente na chapa de Jair Bolsonaro para concorrer à Presidência da República, um dos filhos do candidato fez o seguinte raciocínio, em voz alta: é bom ter um nome “cascudo”, para deixarem de pensar em impeachment. Fazia referência a que o companheiro de chapa era um general de Exército que já dera demonstrações de que seguia a linha de seu pai, ao elogiar o torturador Ustra, ou ao se referir à possibilidade de um “autogolpe”. O feitiço, porém, virou contra o feiticeiro.

Hoje, o fato de ter Mourão como vice traz tranquilidade diante do futuro, caso Bolsonaro seja impedido pelo Congresso. Não que seja um estadista, muito menos traidor, como o presidente desconfia, mas é o agregador natural, pelo cargo que ocupa e pelas atitudes que vem tomando, das insatisfações disseminadas. Mourão tem tido comportamento correto diante das grandes crises, demonstra bom senso na maior parte das vezes, coloca-se como alternativa natural ao gênio explosivo de Bolsonaro, sem precisar fazer declarações críticas, apenas usar o bom senso.

Quando os militares começaram a assumir cargos importantes no ministério de Bolsonaro e em seu entorno, parecia a todos que serviriam como força moderadora do instinto selvagem de Bolsonaro. O fato de não terem reagido às muitas provocações do presidente, quando insuflava manifestações em frente ao Palácio do Planalto ou do Quartel-General do Exército, contra o Supremo Tribunal Federal (STF) ou o Congresso, fez supor que os militares o respaldavam nesses assaltos ao estado de direito. Chamando de “meu Exército” o Exército brasileiro, dava a impressão de que tudo estava dominado por seu radicalismo.

Vera Magalhães - Presidenciáveis assinam manifesto conjunto em defesa da democracia

- O Globo

Seis possíveis candidatos à Presidência da República em 2022 vão divulgar nesta quarta-feira, aniversário de 57 anos do golpe militar que instituiu a ditadura em 1964, um manifesto em defesa da democracia.

A carta é assinada por Ciro Gomes, Eduardo Leite, João Amoêdo, João Doria Jr., Luiz Henrique Mandetta e Luciano Huck.

Sua execução e divulgação coincide com a radicalização por parte do presidente Jair Bolsonaro e as suspeitas de que ele pode tentar levar as Forças Armadas para endossarem alguma medida de exceção.

O fato de a iniciativa unir políticos de cepas tão diferentes quanto Ciro Gomes e Amoêdo, e tucanos que podem até disputar internamente a candidatura, caso de Doria e Leite, é inédito e pode originar outras iniciativas e conversas, inclusive para a composição entre eles com vista às eleições do ano que vem.

Apurei que o ex-juiz Sérgio Moro foi convidado a fazer parte do manifesto, mas não quis assiná-lo, o que foi lido pelo grupo como um sinal de que ele pode não se apresentar para a disputa.

Música | Marisa Monte - Dança da Solidão (Paulinho da Viola)

 

Poesia | Mário de Sá Carneiro -Esperança

Esperança:
isto de sonhar bom para diante
eu fi-lo perfeitamente,
Para diante de tudo foi bom
bom de verdade
bem feito de sonho
podia segui-lo como realidade

Esperança:
isto de sonhar bom para diante
eu sei-o de cor.
Até reparo que tenho só esperança
nada mais do que esperança
pura esperança
esperança verdadeira
que engana
e promete
e só promete.
Esperança:
pobre mãe louca
que quer pôr o filho morto de pé?

Esperança
único que eu tenho
não me deixes sem nada
promete
engana
engano que seja
engana
não me deixes sozinho
esperança.

quarta-feira, 31 de março de 2021

Opinião do dia / Fernando Henrique Cardoso*

Não bastasse a pandemia e o difícil momento econômico, há inquietação entre chefes militares. Espero que as FFAA se mantenham fiéis à Constituição. Mandamento que vale para todos os cidadãos. Mais ainda para os que temos a ver com a política. Equilíbrio e lei; ordem e progresso.”

*Fernando Henrique Cardoso, sociólogo, ex-presidente da República, na rede social.

Entrevista / Luiz Werneck Vianna - A crise se aprofunda. Um autogolpe pode agravá-la. Uma nova 'imaginação' é necessária.

"A Constituição foi ratificada e segue vitoriosa até o momento", diz o sociólogo

A demissão dos três comandantes das Forças ArmadasEdson Leal Pujol (Exército), Ilques Barbosa (Marinha) e Antônio Carlos Bermudez (Aeronáutica) na tarde de ontem, 30-03-2021, e a substituição do ministro da Defesa nesta semana, compõem mais um capítulo da crise política do governo Bolsonaro, cujo desdobramento ainda é aguardado.

Para o sociólogo Luiz Werneck Vianna, a troca simultânea nos três comandos das Forças Armadas, algo inédito no país, demonstra que "a crise do governo se aprofunda, que no desespero procura remédios, serve uma cloroquina como uma solução heróica, ou qualquer outra poção mágica, como um autogolpe, que em vez de aliviar seus males bem pode agravá-los". Até o momento, diz, "o que se tentou foi a volta do regime do AI-5, mas isso não teve êxito. A Constituição foi reafirmada, ratificada, e sai, até então, vitoriosa desse processo do qual ela foi alvo de disputa desde que o governo Bolsonaro começou".

Para recuperarmos a “sanidade política e sanitária” no país e projetarmos o futuro, o sociólogo sugere que façamos um duplo movimento: olhar para trás e para frente. “Para trás, para mexermos com as nossas raízes, que têm ensejado comportamentos antissociais e esse individualismo extremado. E para frente, para procurar uma saída (...) para ver se a sociedade consegue, como o Canal de Suez, abrir caminho para o navio passar. (...)”, exemplifica.

Nesta entrevista, concedida por telefone ao Instituto Humanitas Unisinos - IHUWerneck Vianna diz que “o Brasil está precisando de uma nova ‘imaginação’” diante do estado em que nos encontramos. Ele cita o recente caso de aplicação clandestina de vacinas por empresários de Minas Gerais, que “é um atestado veemente da natureza dos setores das elites no Brasil, da sua forma predatória e patrimonialista”, mas também o comportamento de parte da sociedade durante a pandemia de Covid-19: “jovens se recusam a se proteger a si e aos outros, fazem baladas e festas clandestinas”.

recuperação da sanidade, insiste, depende da “união de todos que procuram caminhos contra um governo que é genocida. Agora, materializar isso depende muito de empenho, de cabeça aberta”. Uma das urgências, destaca, é “interromper as estruturas arcaicas: as elites modernas e industriais precisariam romper com as elites agrárias tradicionais”. Para isso, menciona, “a reflexão ocupa um papel importante, assim como a política e as ciências, especialmente as Ciências Sociais têm um papel grande em demonstrar a natureza retrógrada que não se compromete”. E acrescenta: “É preciso ouvir outras vozes”.

 Confira a entrevista.

 IHU On-Line - O que a demissão dos comandantes das Forças Armadas significa?

Luiz Werneck Vianna - A crise do governo se aprofunda, que no desespero procura remédios, serve uma cloroquina como uma solução heroica, ou qualquer outra poção mágica, como um autogolpe, que em vez de aliviar seus males bem pode agravá-los. A conferir.

IHU On-Line - Como avalia a posição do presidente na gestão das crises que o país vive neste momento?

Luiz Werneck Vianna – Vamos devagar, porque a situação é difícil. Eu compartilho da opinião das pessoas de bem deste país: é um desastre, uma catástrofe. É uma experiência que precisa ser interrompida.

IHU On-Line - O governo tem saída ou não?

Luiz Werneck Vianna – Há sempre uma saída, inclusive, a porta dos fundos é uma saída. Agora, o governo vem perdendo as bases de sustentação. O Congresso, o agronegócio, as finanças, estão tomando uma cara política de desentendimento, de basta. Talvez a hora ainda não tenha chegado, mas está chegando e chegará.

Quanto aos empresários, uma palavra deve ser dita, porque isso que aconteceu em Minas [aplicação clandestina de vacinas feita na garagem da empresa de transportes Viação Saritur, em Belo Horizonte] é um atestado veemente da natureza dos setores das elites no Brasil, da sua forma predatória e patrimonialista.

Vera Magalhães - 31 de março, Bolsonaro e o escorpião

- O Globo

Chegamos ao nefasto 31 de março em que o golpe militar que ceifou a democracia e nos jogou numa longa noite de 21 anos completa 57. Assistimos à data arriados diante do número de 3.780 brasileiros mortos em 24 horas e diante de uma crise sem precedentes desde o próprio golpe envolvendo as Forças Armadas. O Brasil não tem nada, absolutamente nada, a celebrar nesta quarta-feira.

Ainda assim, não é descartado que Jair Bolsonaro, algum filho, algum ministro, algum deputado ou algum terraplanista que habita o submundo da sua rede de apoiadores da internet decida cuspir na cara de um país enlutado e traumatizado alguma fanfarronice bravateira sobre o golpe de 1964.

Por que seria impossível? Afinal, Bolsonaro ordenou aos quartéis já em 2019 que celebrassem a data. No ano passado, o agora demitido general Fernando Azevedo e Silva assinou uma nota em que dizia que o regime que matou e torturou milhares de pessoas, cassou mandatos, empastelou jornais e sustou eleições teria sido responsável por assegurar a democracia no país!

O “clima festivo” conta ainda com uma mãozinha da Justiça: quase um ano depois do 31 de março de 2020, em que essa nota do ex-ministro foi lida, o TRF da 5ª Região achou por bem acolher um recurso da Advocacia-Geral da União e dizer que tudo bem celebrar.

Bernardo Mello Franco - Bolsonaro fraquejou

- O Globo

Jair Bolsonaro está acuado. Na semana passada, o presidente viu o Centrão jogar na mesa a carta do impeachment. Em tom de ultimato, Arthur Lira criticou a “espiral de erros” do governo e avisou que “tudo tem limite”. “Os remédios políticos no Parlamento são conhecidos e são todos amargos. Alguns, fatais”, afirmou.

Cinco dias depois, o capitão entregou a Secretaria de Governo a uma afilhada de Lira. Deputada de primeiro mandato, Flávia Arruda recebeu a chave do cofre de cargos e emendas. Ameaçado pelo Centrão, Bolsonaro fraquejou. Não foi sua única capitulação ao Centrão.

Na mesma segunda-feira, o presidente despachou Ernesto Araújo do Ministério das Relações Exteriores. O pior chanceler da história não foi demitido por seu desempenho calamitoso. Caiu porque o Congresso exigiu sua cabeça. Despediu-se com uma carta rastejante, em que se refere ao capitão como “querido chefe”.

Malu Gaspar - Nomeação do novo chefe do Exército tem impasse entre Planalto e Alto Comando

- O Globo

A definição dos nomes dos novos chefes das Forças Armadas ainda depende da solução de um impasse na decisão final sobre quem será o novo comandante do Exército. Isso porque o preferido de Bolsonaro, o general Marco Antônio Freire Gomes, atual Comandante Militar do Nordeste, não foi incluído na lista de nomes enviadas pelo Alto Comando da força ao Planalto para a escolha do presidente. 

Por tradição, cada comando envia ao presidente da República uma lista com possíveis candidatos, em geral os mais antigos da carreira militar. As listas enviadas pela Marinha e Aeronáutica traziam, entre outros, os nomes que Bolsonaro queria: o Almirante Almir Garnier, Secretário-Geral do ministério da Defesa e o Brigadeiro Carlos Almeida Batista Júnior, Comandante-Geral de Apoio da FAB.

Não é vedado a Bolsonaro nomear alguém que não está na lista, mas pode ser mais um fator de estresse entre o Alto Comando do Exército e o presidente da República. 

A lista do Exército contém os nomes de cinco generais, por ordem de antiguidade no Exército: Décio Luís Schons (chefe do Departamento de Ciência e Tecnologia do Exército), general José Carlos de Nardi (General de Exército), José Luiz Freitas (Comandante de Operações Terrestres), Marcos Antônio Amaro (chefe do Estado-Maior do Exército), general Paulo Sérgio Nogueira de Oliveira (Departamento-Geral de Pessoal).

Luiz Carlos Azedo - O gambito de Bolsonaro

- Correio Braziliense

O presidente criou mais uma crise nas Forças Armadas, pela forma truculenta e deselegante como afastou o ministro da Defesa e os comandantes militares

Uma das características do presidente Jair Bolsonaro é a capacidade de surpreender os adversários e até os aliados quando acuado, como estava desde a semana passada, em razão do agravamento da pandemia da covid-19 e das dificuldades de seu governo para conseguir as vacinas necessárias para imunizar a população. Depois de ser obrigado a substituir o ministro da Saúde, general Eduardo Pazuello, o presidente da República teve de entregar a cabeça do ministro de Relações Exteriores, Ernesto Araújo. Entretanto, o que era para ser apenas uma concessão aos líderes do Congresso — especialmente aos presidentes do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), e da Câmara, Arthur Lira (PP-AL) — e aos partidos do chamado Centrão, resultou numa reforma ministerial no âmbito do Palácio do Planalto, na qual Bolsonaro reforçou seu controle sobre as Forças Armadas, com o claro propósito de aumentar seu poder pessoal em relação aos demais Poderes, à oposição e à sociedade.

No jogo de xadrez, o gambito é uma manobra em que se oferece um peão para adquirir vantagem de posição, romper a posição central do adversário e/ou organizar um ataque mais rápido ou eficiente. Foi mais ou menos o que Bolsonaro fez na reforma ministerial, para se blindar institucionalmente contra os demais Poderes, temendo o próprio impeachment, o fantasma que assombra suas noites no Palácio da Alvorada. No caso das Forças Armadas, a substituição do ministro da Defesa, general Fernando Azevedo, pelo general Braga Neto, seu chefe da Casa Civil, provocou um striker no Alto Comando do Exército, da Marinha e da Aeronáutica, com a renúncia/demissão (há controvérsias) de seus comandantes, precipitando um processo de renovação de lideranças das três Forças sem precedentes.

Ricardo Noblat - O triste papel dos generais que se renderam ao ex-capitão

- Blog do Noblat / Veja

A História não os absolverá

Encantaram-se pelo quê os generais que servem ao presidente Jair Bolsonaro? O único que tem direito a responder que recebeu uma missão e que se sentiu obrigado a cumpri-la é Eduardo Pazuello, general da ativa, que trocou o quartel pelo Ministério da Saúde, e se deu mal. Os demais, da reserva, servem por decisão própria.

Não vale a desculpa de que aceitaram o convite porque assim prestam mais um serviço à pátria. Palavras vazias, frase feita, clichê ordinário. Uns servem porque eram amigos de Bolsonaro e se deixaram seduzir por ele. Outros, para ganhar mais dinheiro, status, apartamento de graça, despesas pagas e outras sinecuras.

Ah, a vaidade! Ah, o vil metal que compra tudo. A princípio, é do jogo. C’est la vie. O mal está na subserviência com que eles se comportam. De homens formados nas melhores academias das Forças Armadas, esperava-se que soubessem até que ponto ir, em respeito à farda e ao passado do qual se orgulham.

Normal, definitivamente não foi o presidente da República, em meio de mandato, promover uma reforma ministerial, essa, sim, algo normal, e aproveitar para demitir em conversa de 5 minutos o ministro da Defesa, e, no dia seguinte, mandar demitir sem explicação os comandantes do Exército, Marinha e Aeronáutica.

Raphael Di Cunto - Fim das coligações dá fôlego ao distritão

- Valor Econômico

Deputados querem mudar sistema, mas partidos resistem

A preocupação com a covid-19 e as reformas econômicas deve dar, em breve, lugar à discussão sobre o sistema eleitoral para 2022. O fim das coligações ameaça partidos menores e médios e já está pautada na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara dos Deputados a proposta de emenda constitucional (PEC) que abrirá as negociações sobre o fim do modelo proporcional e a adoção do voto majoritário para eleger deputados.

A seis meses do fim do prazo para alterar o sistema eleitoral, o debate no Congresso pouco envolverá estudos teóricos. Há uma quase unanimidade entre cientistas políticos de que o “distritão” é ruim. “Se a necessidade de uma reforma política surge do diagnóstico de que os partidos são frágeis, a adoção do distritão parece ter como objetivo fragilizá-los ainda mais”, diz a carta divulgada pela Associação Brasileira de Ciência Política (ABCP) há quatro anos.

Esse diagnóstico não mudou. O distritão, onde os mais votados são eleitos, prioriza o individualismo. Cada candidato depende apenas de si para ser eleito, tanto faz a sigla ou alinhamento partidário, o que favorece quem tem maior estrutura própria. O voto majoritário para deputado é o primeiro passo para a volta da infidelidade partidária - se eu não dependi dos votos do partido, por que perderei o mandato se mudar de sigla?

Cristiano Romero - Apelo militar é tiro pela culatra

- Valor Econômico

Militares não cederão a tentações golpistas

Capitão da reserva, Jair Messias Bolsonaro se cercou de militares em sua surpreendente ascensão ao poder. Nomeou generais para cargos-chave da administração, alimentando a ideia de que, além do poder conferido pelas urnas, ele teria o "poder das armas”. Este o protegeria de qualquer ousadia "golpista" contra seu mandato ou, no caso de a classe política, o Poder Judiciário e a sociedade civil o impedirem de o governar à sua maneira, asseguraria a sua permanência no cargo.

Bolsonaro mostra, desde o início de seu mandato, que é sensível não aos partidos ou políticos que o apoiam. Todo apoiador que esboçou criticá-lo ao longo da jornada foi imediatamente descartado _ Gustavo Bebiano, Joyce Hasselman, Major Olímpio etc. O presidente só dá satisfação ao universo que ele mesmo criou e do qual é refém: os bolsonaristas das redes sociais, os "bolsominions".

Bruno Boghossian – Uma milícia na pandemia

- Folha de S. Paulo

Presidente quer generais como milícia contra governadores que decretam lockdown

O único plano do governo Jair Bolsonaro parece ser a ampliação da tragédia da pandemia. O presidente trocou o comando das Forças Armadas porque quer que elas funcionem como uma milícia contra governadores que decretaram medidas para conter o vírus. para manter o morticínio desenfreado.Inventou uma crise com os militares

Bolsonaro meteu generais numa briga política que só interessa ao Planalto. No início de março, ele disse que "o meu Exército não vai para a rua para obrigar o povo a ficar em casa". Depois, declarou que seus apoiadores podem contar com as Forças Armadas contra governantes que ele chamou de "tiranetes ou tiranos". 

Tudo indica que o presidente gostaria de explorar a farda dos militares para demonstrar força nesse embate. Segundo aliados dos chefes demissionários das Forças Armadas, Bolsonaro cobrava deles manifestações públicas contra os autores de lockdowns e outras restrições.

Hélio Schwartsman - Risco de golpe

- Folha de S. Paulo

Seremos cobrados por não termos tentado tirar Bolsonaro do cargo

As coisas que não são um problema em geral nem entram em nosso radar. No Brasil, não nos preocupamos, por exemplo, com nevascas nem com terremotos —e ninguém precisa nos lembrar de que esses fenômenos não constituem ameaça.

"A contrario sensu", se comandantes militares e outras autoridades sentem necessidade de afirmar e reafirmar que não há risco de golpe, como acontece hoje, então devemos nos preocupar. Não significa, é claro, que tais eventos necessariamente ocorrerão, mas é um sinal claro de que a paisagem institucional se deteriorou. Quando não há mesmo risco de golpe, ninguém precisa nos dizer que não há risco de golpe.

Ruy Castro - 'O meu Exército', cuspiu Bolsonaro

- Folha de S. Paulo

Subjugar as Forças Armadas, sublevar a PM e armar a população --em 1964, isso era subversão

Em outubro último, o Brasil assistiu ao então general da Saúde, Eduardo Pazuello, dizer a frase "É simples assim. ". A seu lado, um salivante Jair Bolsonaro. Dias antes, Pazuello autorizara a compra de 46 milhões de doses da vacina chinesa Coronavac pelo Butantan. Mas Bolsonaro, por razões eleitorais, não queria saber da China nem do Butantan. "Já mandei cancelar", invectivou. "O presidente sou eu e não abro mão da minha autoridade". Se quisesse honrar as cuecas que vestia —estava internado com a Covid num hospital—, Pazuello teria se demitido assim que foi desautorizado. Mas preferiu abaixá-las para Bolsonaro. Um manda e o outro obedece

Ali se transpôs uma linha na hierarquia militar. Ao contrário dos quartéis, onde a obediência é essencial, a razão deve primar no mundo civil —principalmente quando há vidas em jogo. Naquele dia, 155 mil brasileiros já tinham morrido do vírus. Desde então, contando os que morreram por Bolsonaro ter cancelado aquelas vacinas, perdemos outros . Sendo Pazuello, co-autor dessa chacina, um general da ativa, deveria juntar uma medalha às tampinhas de Coca-Cola em sua farda.155 mil