Folha de S. Paulo
Os candidatos deveriam se chamar de
'presidente Fulano' e 'senador Beltrano'
Mas um deles insiste em exercer sua nova
especialidade: ladrão, desta vez, de cenas
Nunca fui religioso, escapei raspando do serviço militar e usei uniforme escolar por pouquíssimos anos. Mas acredito que certas funções devam obedecer a uma certa liturgia para serem exercidas. Como se submeter a uma cirurgia se os membros da equipe médica estiverem fantasiados de mestre-sala e porta-bandeira? Ou confiar num chef de cozinha vestido de escafandrista? A simples liturgia não basta —às vezes, é necessário obedecer também à etiqueta.
A ideia de que a etiqueta
é uma pequena ética vem desde Aristóteles, mas sua formulação verbal só
aconteceu em 1922, pela socialite e escritora americana Emily Post: "A
etiqueta deve incluir não só boas maneiras, mas uma certa ética", ela
disse. Significa que um professor perderá o respeito se os alunos puderem
atirar-lhe giz —como acontece nas nossas escolas. E que autoridade terá o papa
se for permitido a um fiel levantar-lhe a batina na rua? Da mesma forma, a
maneira como as pessoas se tratam entre si em situações formais deveria
obedecer a ritos de respeito, para não descermos ao nível de uma discussão de
botequim.
No primeiro debate na TV entre os candidatos
à Presidência da República, o senador Flávio
Bolsonaro (PL)
dirigiu-se desde o começo ao presidente Lula (PT) como
"Lula", obrigando-o a rebaixar-se e chamá-lo de "Flávio". A
liturgia exigiria que se tratassem por "presidente" e
"senador", embora o título de senador não pareça adequado a alguém
que, em sete anos de Senado, só teve dois projetos aprovados e, entre os que
não emplacou, o que autorizava a venda de remédios sem receita em bancas de
jornais e camelôs.
O tratamento alternativo de "candidato
Fulano" e "candidato Beltrano" também não parece próprio ao que
tentou fazer do palco um picadeiro, colocando-se
atrás do outro e fazendo caras e trejeitos para a câmera.
Mas isso é fácil de resolver. Basta que o
candidato desrespeitado se conserve no púlpito, de costas para a parede. Seu
adversário terá de dançar na frente dele se quiser exercer sua nova
especialidade: ladrão, desta vez, de cenas.

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