sexta-feira, 16 de outubro de 2026

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Oportunismo de Flávio se une ao de Lula contra a 6x1

Por Folha de S. Paulo

PEC tem votação acachapante no Senado sem consenso político; pressa eleitoreira prejudicou debate

Não é segredo que o PL, que ampliou sua bancada no pleito deste ano, articula um projeto alternativo, que permitiria uma jornada flexível

A proposta de emenda constitucional que elimina a escala de trabalho 6x1 foi aprovada pelo Senado com votação acachapante de 75 votos favoráveis e apenas um contrário. O placar, no entanto, está longe de espelhar um consenso político em torno da medida.

O que sobrou no plenário foi oportunismo eleitoreiro —e ao do governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT), patrocinador da PEC no último ano do mandato presidencial, somou-se o da oposição temerosa de perder apoios, a começar por Flávio Bolsonaro (PL).

Até há pouco um crítico da proposta, o candidato ao Planalto e senador pelo Rio ajudou com seu voto pela internet a derrubar a escala de seis dias de trabalho e a jornada de 44 horas semanais.

Não é segredo que seu partido —que ampliou consideravelmente sua bancada no Congresso no pleito deste ano— articula um projeto alternativo, que permitiria uma jornada flexível baseada em horas trabalhadas.

A PEC aprovada sem dúvida tem apelo popular, e por boas razões. Segundo o Datafolha apurou em março, 71% dos brasileiros aptos a votar a apoiavam, ante 27% contrários. A aspiração por mais tempo livre e qualidade de vida é obviamente legítima, mas os parlamentares se eximiram da tarefa de examinar a fundo a viabilidade e os custos da medida.

Estudos indicam que os impactos podem ser absorvidos pela economia, mas ainda assim deve haver perdas para o crescimento e pressões sobre a inflação, além de riscos de informalidade. Alguns setores, incluindo comércio e construção civil, tendem a sofrer bem mais que outros.

A propaganda governista da proposta —que até então nunca fizera parte da agenda do PT— conseguiu acuar uma oposição de direita carente de conteúdo programático. Flávio Bolsonaro, que também já mudou de opinião sobre o Bolsa Família e o Farmácia Popular, chega à reta final da corrida presidencial sem quase nada revelar de seus planos e convicções sobre temas centrais.

Seus auxiliares econômicos acenam com um ajuste fiscal vigoroso, mas ele desautoriza ideias que afetem as grandes despesas, como benefícios sociais, saúde e educação, além de prometer a redução de impostos. As contas não fecham em nenhuma matemática conhecida.

Uma das funções de uma campanha eleitoral é estabelecer compromissos entre o candidato e os eleitores, de modo que a concessão do mandato não se torne uma aposta no escuro. Nesse quesito, a atual campanha foi bastante prejudicada pela combinação de polarização exacerbada, escândalo do Banco Master, crise no Supremo Tribunal Federal (STF), ausência de debates e medidas eleitoreiras em série.

Em qualquer desfecho da disputa, é incerto o futuro não apenas da jornada de trabalho como das demais benesses distribuídas nos últimos meses, semanas e dias. Além da incógnita política, haverá uma crise orçamentária agravada a enfrentar.

Leão 14 lida com a doença antes de consolidar seu papado

Por Folha de S. Paulo

Cirurgia e diagnóstico de câncer foram tratados com transparência pelo pontífice

Histórico de saúde sugere boa capacidade de recuperação; tratamento potencialmente debilitante coloca dúvida sobre o futuro imediato

Eleito papa em maio de 2025, Robert Prevost trouxe para a Santa Sé uma vitalidade inaudita entre pontífices desde que João Paulo 2º começou seu calvário público, nos anos 1990. Tanto Bento 16, que renunciou devido à idade, quanto Francisco exsudavam fragilidade.

Praticante de tênis, sem histórico de problemas sérios de saúde e com meros 69 anos ao assumir, o primeiro papa americano parecia iniciar uma caminhada longa para consolidar seu trabalho à frente do Vaticano.

A notícia de que precisaria remover um nódulo do pulmão e o subsequente diagnóstico de câncer, assim, causaram consternação entre o 1,4 bilhão de católicos e entre os que veem no agora papa Leão 14 uma força promissora na arena global.

Neste ano e meio, o papa assumiu uma voz firme contra o populismo que grassa em escala planetária e foi crítico das políticas do americano Donald Trump.

Rejeitou o tratamento desumano a imigrantes, a guerra no Irã, a expansão de gastos militares. De forma mais ampla, disse que conceitos da extrema direita são incompatíveis com o cristianismo.

Na doutrina, promove um ajuste no equilíbrio de forças internas na Igreja, evitando o progressismo desabrido do antecessor.

Se não comanda mais divisões, como ironizou Josef Stálin em 1935, Prevost conhece o poder da instituição que lidera, assim como testemunharam sucessores do ditador soviético ante o papel do polonês João Paulo 2º no desmantelamento do comunismo no Leste Europeu.

Para estruturar seu governo, o papa precisa de aliados. Ele ainda não teve a oportunidade de criar cardeais, esperando o número de integrantes do colegiado máximo da Igreja baixar do teto presumido de 120 eleitores com menos de 80 anos.

Cada pontífice busca um Colégio Cardinalício próximo de seu pensamento, e Leão 14 não começou seu desenho. Agora, a necessidade de dedicar-se a um tratamento de saúde potencialmente debilitante coloca uma interrogação sobre o futuro imediato.

Prevost tem 71 anos e é vigoroso. A depender da evolução de seu quadro, algo sujeito a inúmeras variáveis, tudo sugere que ele possa se recuperar plenamente —mas talvez não a ponto de realizar a viagem à América Latina prevista para novembro.

Por ora, o caso deixou uma notável marca: a transparência. Leão 14 divulgou a cirurgia em audiência pública e, logo após a intervenção na terça (13), o boletim do hospital já qualificava o tumor como adenocarcinoma pulmonar, sem eufemismos.

O triunfo do populismo

Por O Estado de S. Paulo

Por 75 votos a 1, Senado aprova o fim da escala de trabalho 6x1, dá uma bandeira eleitoral para Lula e expõe a pusilanimidade da oposição. O País pagará caro por isso

Como até as pedras sabiam, o Senado aprovou com imensa folga a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que acaba com a escala de trabalho 6x1 no País e que reduz a jornada de trabalho de 44 para 40 horas semanais. Estrategicamente pautada para impulsionar a popularidade do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) entre o primeiro e o segundo turno da eleição, a PEC contraria tudo aquilo de que o País precisa para crescer. Só impressionou mesmo a pusilanimidade da oposição, que embora contasse com uma bancada de cerca de 30 senadores, suficiente para dar um pouco de trabalho ao governo, abriu mão de fazer o mínimo que se esperava dela e defender o setor produtivo.

O momento para aprová-la não poderia ser pior. O desemprego caiu para 5,3% no trimestre encerrado em agosto, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o menor nível da série. O número de pessoas ocupadas subiu a 103,5 milhões, o maior da série histórica, enquanto o rendimento médio dos trabalhadores atingiu R$ 3.777, ligeiramente menor que o recorde de R$ 3.795 registrado no trimestre encerrado em março.

É o retrato de um mercado de trabalho excessivamente aquecido. Falta mão de obra para todo tipo de ocupação no País. Não é preciso circular muito pelas grandes cidades brasileiras para encontrar inúmeros anúncios de vagas abertas há meses em farmácias, supermercados, bares, restaurantes, construção civil, hospitais e hotéis. É óbvio que todos querem trabalhar menos e ganhar mais, mas é improvável que estejam dispostos a pagar mais caro pelos produtos e serviços que adquirem.

Se o cidadão comum não conseguiu fazer a relação entre uma coisa e outra, as empresas certamente já fizeram os cálculos do impacto do pagamento de horas extras e de novas contratações em seus resultados e já sabem quanto será preciso aumentar seus preços para não afetar os resultados. Uma oposição minimamente responsável teria ao menos tentado discutir essas contradições em plenário e se utilizado das inúmeras manobras que o Regimento do Senado permite para adiar a votação.

Mas o principal adversário de Lula na eleição, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), nem sequer estava fisicamente no plenário. Após passar os últimos meses manifestando seu repúdio à proposta, Flávio mudou de posição faltando horas para a votação e se limitou a registrar voto favorável a distância durante uma agenda de campanha qualquer em Porto Alegre, como se esse fosse um tema de menor relevância para a sociedade brasileira.

É cômodo culpar o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), por ter pautado a PEC e “encurralado” o senador em um momento crucial da disputa presidencial. Mas a aprovação de uma PEC não é algo simples. Entre todas as proposições legislativas, as PECs são as mais difíceis de serem aprovadas: requerem apoio equivalente a três quintos dos parlamentares, o que significa no mínimo 49 senadores em dois turnos de votação.

Sem o apoio de outros partidos, o PT jamais conseguiria acelerar o rito de tramitação e obter maioria qualificada para a PEC. Mas se o candidato da oposição não demonstrou disposição a assumir uma posição por receio de perder votos, não seriam os demais senadores que o fariam – sejam os que acabaram de ser reeleitos, sejam os que terão de deixar a Casa no ano que vem. Defender a aprovação da PEC que estabelece remuneração por hora trabalhada como alternativa depois que o texto já havia sido aprovado não reduz o desgaste com o setor produtivo e ainda sugere incoerência com o eleitor.

O País pagará um preço altíssimo por tamanho populismo coletivo. No curto prazo, o custo do trabalho vai aumentar, a competitividade de nossos produtos vai cair, a inflação vai subir e nossa pífia produtividade vai minguar, derrubando, consequentemente, o crescimento econômico. No médio e longo prazo, as empresas que puderem investirão em tecnologia e automação para substituir trabalhadores de baixa qualificação, ampliando a informalidade que já é bastante elevada. Caberá ao próximo presidente da República lidar com mais esse pepino.

É preciso fortalecer as agências reguladoras

Por O Estado de S. Paulo

Órgãos de controle já viveram tempos melhores. Retomar concursos e acabar com indicações políticas para cargos de direção é crucial para atrair investimentos e fazer o País crescer

As agências reguladoras passam por um longo ocaso, reflexo de problemas estruturais que se acumulam há anos. Começar a resolvê-los está nas mãos do próximo presidente da República, que assumirá o mandato com ao menos 12 cargos de direção abertos há meses em órgãos que regulam serviços de infraestrutura essenciais como energia, rodovias, ferrovias, portos e aeroportos.

A Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) está sem diretor-presidente desde janeiro. Dos cinco diretores da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), três são substitutos. Há diretorias desocupadas na Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq), Agência Nacional de Mineração (ANM) e Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT).

Órgãos que não são formalmente agências, mas atuam de maneira semelhante na regulação e fiscalização de setores econômicos, vivem situação parecida. No Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), três das sete cadeiras estão desocupadas, inclusive a de presidente. No Banco Central (BC), há duas vagas abertas nas diretorias de Política Econômica e de Organização do Sistema Financeiro desde a virada do ano, um tempo inédito de vacância na história da instituição.

Não faltam profissionais com experiência, preparo e formação aptos a assumir essas funções de imediato. O que falta é liderança do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a quem cabe fazer essas indicações, e apoio político para aprová-las no Senado. De um lado, os senadores cobram um preço cada vez mais alto para avalizar os nomes do governo; alguns chegam até mesmo à ousadia de sugerir candidatos para o Executivo “apadrinhar”. De outro, o Executivo ora reluta em aceitar os pedidos, ora cede desavergonhadamente.

O longo intervalo entre a publicação do nome de um indicado no Diário Oficial da União e o dia em que a sabatina é realizada no Senado escamoteia um período de articulações silenciosas, durante o qual Executivo e Senado negociam acordos e compromissos longe do escrutínio da sociedade. Isso transformou as sabatinas em mero teatro, na qual a aprovação ou a rejeição de nomes nada tem a ver com competência.

A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) é o melhor exemplo dessa dinâmica perniciosa. O “xerife” do mercado de capitais passou cinco meses com três das cinco cadeiras vagas e ocupadas por interinos. Quando finalmente Lula fez uma indicação para a presidência do órgão, optou por Otto Lobo, uma evidente escolha política.

O controverso histórico de Lobo como diretor na CVM não era segredo para ninguém. Mas seus posicionamentos questionáveis em casos ruidosos envolvendo os negócios do Banco Master e as multas impostas aos irmãos Batista não apenas não impuseram dificuldades à aprovação de seu nome pelo Senado, como parecem ter sido fundamentais para seu triunfo.

Encontrar bons nomes para a diretoria desses órgãos é a parte mais fácil de resolver. A Lei das Agências Reguladoras estabelece critérios claros a serem seguidos nas indicações e impõe restrições ainda mais cristalinas para evitar o conflito de interesses e impedir a captura política.

Bem mais complexos são os problemas financeiros, embora, ao menos em tese, eles possam ser solucionados sem malabarismo. A maioria desses órgãos conta com taxas que arrecadam mais do que o necessário para seu custeio. A penúria que vivenciam se deve ao Executivo, que os transformou em um dos alvos favoritos de bloqueios e contingenciamentos, uma medida que pode comprometer a regulação e as ações de fiscalização.

Com a modernização do Estado brasileiro e a privatização de empresas estatais, o número de empresas reguladas só aumentou nas últimas décadas. A maioria das agências e das autarquias, no entanto, passou cerca de 15 anos sem fazer concurso público para repor especialistas. É preciso retomá-los. Afinal, atrair o setor privado para investimentos requer que as agências reguladoras e as autarquias sejam capazes de cumprir a função que o Estado lhes reservou.

Obesidade infantil e mudança de hábitos

Por O Estado de S. Paulo

Ao desaconselhar canetas emagrecedoras e cirurgia para crianças, OMS estimula vida saudável

A Organização Mundial da Saúde (OMS) publicou recentemente as primeiras diretrizes globais para o enfrentamento da obesidade na infância e na adolescência. São dois guias com orientações a serem adotadas por autoridades de saúde dos países que integram a entidade, um voltado para crianças de até 9 anos de idade e outro para adolescentes que, segundo os parâmetros internacionais, têm de 10 a 19 anos. Para ambas as faixas etárias, há um consenso: o tratamento da doença deve sempre começar com mudanças no estilo de vida.

Ou seja, não existe solução mágica. Em tempos de promessa de perda de peso sem esforço, as diretrizes indicam prudência. De acordo com a OMS, não é recomendado o uso de canetas emagrecedoras por crianças com até 9 anos, pois faltam evidências sobre os benefícios ou possíveis efeitos adversos da medicação. Tampouco se deve recorrer a uma cirurgia bariátrica nessa faixa etária, haja vista que, nesse caso, sabe-se que pode haver prejuízos para o desenvolvimento.

Já para os adolescentes, a OMS diz que o uso das canetas pode ser recomendado quando há complicações associadas à obesidade, como o diabetes tipo 2. Nos casos de obesidade grave e após o fracasso de outros protocolos, a bariátrica nos adolescentes é uma opção. Mas tanto as canetas como a cirurgia devem ser adotadas sempre como último recurso.

Tamanho rigor evidencia que a ideia das autoridades sanitárias da OMS é preservar a saúde e a integridade das crianças e dos adolescentes. Afastando as medidas radicais e duvidosas, os especialistas optaram, acertadamente, por listar ações ao alcance das famílias, tais como a mudança de comportamentos, a reeducação alimentar e a prática de atividades físicas.

É claro que não é fácil perder peso, ainda mais quando se está doente. Por isso, o enfrentamento dessa enfermidade que acomete nada menos do que 170 milhões de crianças e adolescentes em todo o mundo, segundo a OMS, exige estratégias integradas, que demandarão o empenho das famílias e do poder público.

O Brasil tem muito trabalho pela frente: 6,6 milhões de crianças entre 5 e 9 anos e 9,9 milhões de adolescentes de 10 a 19 anos estão obesos ou com sobrepeso – ou seja, mais de um terço dessa população, segundo projeção com dados do IBGE. Não é exagero nenhum dizer que se trata de uma epidemia, o que indica que a cura não depende de esforço individual, mas de políticas públicas no âmbito da saúde coletiva. É dever dos pais, das escolas e dos governos municipais, estaduais e federal incentivar essa mudança de hábitos, com a troca do sedentarismo por uma vida mais ativa.

Cabe aos pais cuidar dos filhos em casa para que abandonem os alimentos açucarados, calóricos e de baixo valor nutritivo e comam comida de verdade. Já as escolas devem estimular a prática de atividades físicas com maior frequência e educar as crianças a respeito da alimentação. Os governos, por sua vez, devem implementar políticas públicas de prevenção, com a oferta de mais alimentos in natura na merenda e o cerco à publicidade de ultraprocessados, e devem facilitar o atendimento médico na rede pública a quem procura por ajuda.

Infiltração do crime na política requer ação diligente

Por O Globo

Prisão de deputado estadual eleito no Rio demonstra que existem instrumentos para preservar Estado

A prisão do deputado estadual eleito Márcio Canella (União-RJ) pela Polícia Federal (PF) reflete a maior atenção dos órgãos de segurança, do Ministério Público e do Judiciário para a infiltração crescente do crime organizado na política. Segundo mais votado para a Assembleia Legislativa do Rio (Alerj), Canella é acusado de ser “articulador de alto escalão” de uma organização criminosa ligada ao Comando Vermelho (CV). O crime organizado busca obter proteção política por meio da ocupação de postos no Judiciário, no Legislativo e na própria polícia. A ação diligente das autoridades é essencial para preservar a integridade do Estado.

Não é a primeira detenção de Canella, ex-prefeito de Belford Roxo, na Baixada Fluminense. Em julho, ele foi preso em flagrante pela PF por levar ilegalmente um fuzil no carro. Justificou-se dizendo que a arma era de um policial de sua escolta e depois foi solto. Desta vez, também foram presos com ele policiais, entre os quais o delegado Marcus Amim, ex-secretário da Polícia Civil e ex-presidente do Detran fluminense. Canella chegou a ser indicado a concorrer ao Senado por Flávio Bolsonaro, candidato do PL à Presidência, mas sua candidatura foi descartada.

A prisão de um candidato que recebeu 197 mil votos expõe a dificuldade de resguardar as instituições do crime. A filtragem de candidatos ganhou eficácia com a aprovação da Lei da Ficha Limpa em 2010. Ela passou a barrar o registro de condenados em segunda instância na Justiça ou em inquéritos administrativos. Mas a barreira nem sempre foi eficaz, como demonstraram a prisão do ex-deputado TH Joias (eleito pelo MDB) e do ex-presidente da Alerj Rodrigo Bacellar (União), ambos acusados de vínculos com o CV.

O risco crescente levou a Justiça Eleitoral a estabelecer em 2024 uma jurisprudência mais rígida, exigindo apenas “indícios robustos” de elos com o crime para vetar uma candidatura, e não mais condenação em segunda instância. A filtragem de nomes melhorou e por certo impediu muitos criminosos de tentar entrar na vida pública. Neste ano, 30 candidatos foram contestados pelo MP, e apenas um terço recebeu sinal verde para disputar as eleições, alguns ainda com recursos em andamento.

Três desses se elegeram. Um foi Canella. Outro foi Antonio Rueda (União-RJ), eleito deputado federal em dobradinha com Canella. Ambos escaparam da denúncia de terem se beneficiado de uma estrutura político-territorial criminosa com a participação de milícias na Baixada. O Tribunal Regional Eleitoral (TRE) do Rio não aceitou como provas postagens de suspeitos de vínculos com milícias em favor de Rueda e Canella. O terceiro foi Ney Santos, ex-prefeito de Embu das Artes, na Região Metropolitana de São Paulo, eleito deputado federal pelo Republicanos e investigado por suspeita de laços com o Primeiro Comando da Capital (PCC). Da carreira empresarial de Santos fazem parte uma rede de postos de abastecimento e uma transportadora, ambas em nome de “laranjas” do PCC, de acordo com investigações do MP. Seu mandato ainda depende de decisão do Tribunal Superior Eleitoral.

A prisão de Canella demonstra que as instituições dispõem de meios de evitar a contaminação pelo crime organizado. Os casos dos dois outros suspeitos devem ser tratados com prioridade. O voto popular não absolve ninguém dos crimes que tiver cometido.

Desajuste fiscal em países ricos cria risco crescente para economia global

Por O Globo

Previsão do FMI é que endividamento não pare de crescer até 2031, numa espiral de alta similar à brasileira

As agruras fiscais que alimentam a dívida pública não afligem só o Brasil. Pelas últimas projeções do Fundo Monetário Internacional (FMI), as economias avançadas registrarão neste ano um déficit nominal de 5,2% do Produto Interno Bruto (PIB) — ante 4,4% em 2025. Se confirmado esse resultado, será o pior desde a pandemia, quando o saldo negativo ficou em 7,3% do PIB.

O FMI prevê que as dívidas públicas não pararão de crescer. Nas economias avançadas, estima-se que alcançarão 108% do PIB neste ano (mesmo nível de 2025) e 115% em 2031. No agregado mundial, o endividamento está em 95% do PIB e crescerá para 101,5% em 2031 (no Brasil, está acima de 90% pelo critério do FMI). O desequilíbrio nas contas revela que o desajuste fiscal persiste mesmo anos depois da pandemia.

Não é por outro motivo que os títulos da dívida de países ricos têm batido recorde atrás de recorde — nas últimas semanas, os papéis do Tesouro americano têm pagado rendimentos não vistos desde o início do século. No Reino Unido, as incertezas sobre gastos e inflação elevaram os títulos de dívida ao maior nível desde 1998. Na França, a preocupação com os rumos políticos catapultaram os juros dos títulos do governo de dez e 30 anos ao maior patamar em quase 25 anos. Tendo de pagar juros mais altos para financiar um déficit que não para de crescer, os países ricos correm o risco de cair numa espiral de endividamento em nada diferente da brasileira.

Vários fatores têm alimentado o desajuste fiscal. Além de Estados inchados, a guerra sem perspectiva de fim no Oriente Médio elevou às alturas os preços dos combustíveis, exercendo pressão inflacionária. O barril de petróleo se mantém acima de US$ 100 e, embora o FMI acredite que o fluxo pelo Estreito de Ormuz pode se normalizar até outubro de 2027, nada garante. Na prática, tudo é tão imprevisível quanto os movimentos de Donald Trump e dos líderes iranianos. No pior cenário, o preço do petróleo ultrapassa US$ 130 o barril, agravando a crise.

Apesar disso, o FMI revisou de 3% para 3,1% a projeção para o avanço do PIB global neste ano (no Brasil, de 2,4% para 2,2%). Mas a situação é frágil. O fundo aponta três riscos ao crescimento: a reversão da expansão da inteligência artificial, com impacto nos mercados financeiros; alta da inflação e o desajuste fiscal, com alta nos títulos soberanos, provocando mais turbulências nos mercados.

Diante do cenário atual, as maiores economias do mundo precisarão, diz o FMI, ajustar suas contas públicas rapidamente. “Um foco renovado na reconstrução do espaço fiscal é urgente, diante da dívida elevada, dos custos de captação mais altos, das demandas que se multiplicam sobre os orçamentos públicos e da incerteza intensificada”, diz o fundo. “Quaisquer novos aumentos de gastos ou cortes de impostos devem ser devidamente financiados para assegurar as trajetórias necessárias de ajuste fiscal.” No Brasil, onde a dívida não para de subir, os dois candidatos que disputarão o segundo turno devem estar atentos ao alerta.

Investidores reavaliam os ativos das Big Techs

Valor Econômico

Tombos nas ações e vendas com deságios de bônus que bancam a construção de data centers indicam que o mercado pode estar diante de uma correção de rumos

Os investimentos das empresas de inteligência artificial (IA) atingem alturas fantásticas, só menores do que as promessas do que a tecnologia é capaz de realizar, mas a capacidade de sustentar financeiramente a corrida trilionária começou a mostrar perigosa fragilidade. Nos últimos dois dias, tombos nas ações das Big Techs, como Oracle, Meta e Nvidia, e vendas com deságios de bônus que bancam a construção de data centers indicam que o mercado pode estar diante de uma correção de rumos, que pode ou não ser turbulenta. Ontem, os investidores correram para os títulos do Tesouro americano em busca de proteção, diminuindo o movimento de alta de seus rendimentos, os maiores desde o início do século.

As chamadas “hyperscalers” — Alphabet, Meta, Amazon, Microsoft e Oracle — dobrarão este ano seus investimentos em relação aos de 2025, atingindo US$ 800 bilhões. Seu fluxo de caixa cobre US$ 700 bilhões, em um gap que tende a aumentar o risco dos investidores que estão financiando as apostas na nova tecnologia e a pesadíssima infraestrutura de data centers. As desconfianças sobre a capacidade dessa montanha de dinheiro produzir bons retornos, antes isoladas em alguns cantos do mercado, se generalizaram. Os números que as consultorias apresentam indicam que as contas não vão fechar.

“Muitos investidores não têm a menor noção sobre aquilo no que estão investindo”, disse Hock Tan, CEO da Broadcom, fabricante de chips americana, na segunda-feira. “Colocaram expectativas extremas só para descobrirem que é como se estivessem em um cassino.” A declaração antecedeu uma semana de baixa em ações dos fabricantes de semicondutores, computação em nuvem e construtores de data centers. As palavras de Tan foram seguidas pela derrocada de 11,1% das ações das coreanas SK Hynix e de 9,1% da Samsung Electronics nos pregões subsequentes. Mais do que a impressão que poderia parecer subjetiva de um participante da corrida da IA, um relatório da consultoria Gartner mostrou a realidade objetiva. Para cobrir os custos de capital e financiamentos previstos pelas empresas até 2032 e ainda obter um lucro robusto, o consumo desses serviços precisaria atingir 9% do PIB americano, cerca de US$ 8,5 trilhões. Mas a previsão de receitas das empresas é muito menor, de US$ 3,6 trilhões.

As Big Techs criaram veículos específicos para financiar todos os setores da infraestrutura de IA com emissões de bônus. O temor em relação à rentabilidade futura da tecnologia já atingiu esses papéis, que passaram a ser comercializados com deságios nos últimos dias.

Uma das principais atingidas foi a CoreWeaver, uma startup que vende espaços na nuvem e capacidade de computação para IA, cujos bonds recuaram a 75 centavos de dólar para cada dólar de valor de face. Os títulos da Blackstone para o Projeto Excalibur, alugado à Microsoft, caíram a 88 centavos, e os do projeto Hyperion, bancado pela Meta, a 92 centavos. O CDS da CoreWeaver (credit default swap, custo de cobrir eventual calote) subiu a 11 pontos percentuais, nada menos que dez vezes mais que o CDS de mesmo prazo dos títulos soberanos do Brasil. Só na semana passada, a Nvidia perdeu US$ 300 bilhões em valor de mercado.

Começou a temporada de divulgação de balanços trimestrais nos EUA e os investidores estarão atentos à relação resultados versus expectativas. A OpenAI, que adiou sua oferta inicial de ações para 2027, teve receitas anualizadas US$ 20 bilhões menores que as previstas, calculou o Financial Times. O realinhamento de mercado poderá ter sequência, forçando a uma revisão de planos das gigantes da IA e obrigando-as a uma perspectiva mais realista de gastos, ou então abandonando posições em massa, o que seria altamente destrutivo.

Em primeiro lugar, as ações das empresas de TI se valorizaram 68,9% na S&P 500 no ano até setembro, o que não seria um problema se não fossem apenas elas que estão sustentando a alta das bolsas. Sem elas, porém, o S&P caiu 7% desde agosto. No mês passado, três quartos das ações negociadas perderam valor. O efeito de uma reprecificação de ativos pode ser drástico e de ampla repercussão sobre o consumo, em parte estimulado pelo efeito riqueza propiciado pelos ganhos dos papéis das empresas do setor (FT, 1-10).

Depois, as empresas de IA compõem um cluster, emTombos nas ações e vendas com deságios de bônus que bancam a construção de data centers indicam que o mercado pode estar diante de uma correção de rumos que os investimentos são circulares. Por exemplo, a Amazon fornece chips à Anthropic, que propiciarão o desenvolvimento do Claude, que robustecerão a capacidade da Amazon. Um estudo do Banco de Compensações Internacionais (BIS) revelou que nada menos de metade dos investimentos das empresas de IA está indo para companhias de IA. Por fim, boa parte desses investimentos está em veículos especiais, fora dos balanços das Big Techs, nada menos de US$ 3,1 trilhões, segundo o Morgan Stanley (Edvaldo Santana, Valor, 13-10).

Um curto-circuito nesse centro financeiro da IA pode espalhar ondas de choque pelos mercados financeiros, enfraquecer o comércio e o crescimento globais. A bolha ponto.com terminou assim, mas mudanças de direção quando o setor caminha para um impasse são possíveis. Os investidores, ao que tudo indica, começaram a fazê-las.

Espetáculo da morte e o limite da barbárie

Por Correio Braziliense

Quando um Estado democrático começa a cogitar, mesmo que recue depois, transformar a morte de um condenado em evento midiático, algo se perde que vai além daquele caso específico

Há uma diferença entre executar um criminoso e exibi-lo sendo executado. A primeira é uma decisão do Estado sobre a vida de um condenado. É discutível e controversa, mas pertencente ao campo do direito penal. A segunda é um espetáculo. E espetáculos da morte têm um nome na história da humanidade, e esse nome não costuma aparecer em capítulos que nos orgulhamos.

O governo Trump anunciou, pelo secretário de Defesa Pete Hegseth, que a execução de Nidal Hasan — ex-psiquiatra do Exército americano condenado pelo assassinato de 13 militares numa base no Texas em 2009 — seria transmitida ao vivo. A ideia, claro, sofreu resistência de republicanos, democratas e líderes religiosos, e Trump anunciou nesta quinta-feira que a execução, mantida para 3 de dezembro por pelotão de fuzilamento, não será televisionada. A ressalva é necessária: o recuo não apaga o fato de que a proposta existiu, foi defendida por membros do governo e só foi abandonada diante de pressão política. 

Não se discute se Hasan merece a pena que recebeu. Esse debate tem os próprios termos, a própria complexidade moral e jurídica. O que está em questão aqui é outra coisa: a decisão de transformar a morte de um ser humano, por mais hediondo que seja o crime que cometeu, em conteúdo para consumo público. A transmissão ao vivo de uma execução não serve à Justiça. É entretenimento do pior tipo — o construído sobre a morte de alguém — e diz algo sobre quem o produz e sobre quem o assiste.

A Organização das Nações Unidas (ONU) classificou o plano original como "uma forma de tortura". A Anistia Internacional lembrou que execuções filmadas ou transmitidas ao público são associadas a regimes autoritários, ao Estado Islâmico e a ataques terroristas gravados pelos próprios autores. Os Estados Unidos, ao propor esse modelo, colocaram-se numa companhia que, presumivelmente, prefeririam evitar. O argumento da dissuasão, usado pelo próprio Donald Trump para justificar a ideia, não tem nenhum tipo de respaldo empírico: simplesmente não há evidência consistente de que execuções públicas reduzam a criminalidade. O que há é a satisfação de uma pulsão de morte e de um impulso punitivo apresentado como política de Estado.

Civilização não é ausência de punição. É a forma como punimos. Quando um Estado democrático começa a cogitar, mesmo que recue depois, transformar a morte de um condenado em evento midiático, algo se perde que vai além daquele caso específico. Perde-se um pouco da ideia de que a dignidade humana — inclusive a de quem cometeu crimes graves — tem um valor que o Estado não pode simplesmente leiloar para satisfazer o ânimo do momento. Quando a barbárie começa a ser discutida como opção, é a prova que a humanidade já perdeu o jogo.

Aprovadas redução de jornada e fim da escala 6x1

Por O Povo (CE)

Com votação em dois turnos, o Senado aprovou, nesta quarta-feira, a proposta de emenda constitucional (PEC) que determina o fim da escala de trabalho 6x1. A partir da vigência da lei, a jornada de trabalho será reduzida de 44h para 40h semanais, com descanso de dois dias a cada cinco dias trabalhados. As empresas terão 14 meses para se adaptarem ao novo modelo, com escala 5x2.

O interessante nessa história é que o movimento pelo fim da jornada 6x1 não partiu de uma iniciativa "de cima", proposta por algum parlamentar ou de reivindicação de entidades de classe. O assunto não era nem mesmo comentado no Congresso Nacional ou em sindicatos de trabalhadores.

Como é cada vez mais comum atualmente, o tema ganhou destaque depois que um balconista de farmácia do Rio de Janeiro, Rick Azevedo, fez um desabafo em uma rede social reclamando de sua excessiva jornada de trabalho. O vídeo "viralizou", recebendo manifestações de trabalhadores em situação semelhante.

Em 2023, Rick criou o movimento Vida Além do Trabalho (VAT), que reuniu mais de um milhão de assinaturas em uma petição pelo fim da jornada 6x1. Somente então, em 2024, a pauta chegou à Câmara dos Deputados, com um projeto da deputada federal Erika Hilton (Psol-SP), sendo abraçada pela situação e criticada pela oposição. Por sua vez, Rick foi eleito deputado federal pelo Rio de Janeiro neste ano.

É preciso reconhecer que a aprovação das PEC faz parte das medidas que o presidente Lula e seus aliados estão implementando em vista da disputa eleitoral. Porém, é inegável que o fim da jornada 6x1 é uma reivindicação bastante razoável. A folga de apenas um dia por semana impede que o trabalhador ou a trabalhadora recuperem as forças para retomar sua jornada — e menos ainda lhes dá condições de desfrutar de momentos de lazer ou mesmo ter convivência com os filhos.

Desde o princípio, entidades empresariais manifestaram-se contra a proposta, afirmando que haveria prejuízos irreparáveis para diversos setores da economia. Em linha com esse argumento, a oposição ao governo Lula, principalmente o PL, do senador Flávio Bolsonaro, candidato a presidente, defendiam o pagamento por hora trabalhada.

No entanto, às vésperas da votação no Senado, Flávio Bolsonaro, pressionado pela grande adesão à proposta, recuou de sua posição inicial e também votou pelo fim da escala 6x1. No entanto, deixou aberta a possibilidade de alterar o projeto, caso seja eleito presidente.

Assim, pelo que se observa, a jornada pelo fim da escala de trabalho 6x1 ainda pode ter continuidade. 

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