domingo, 18 de outubro de 2026

Os debates decidirão a parada, por Elio Gaspari

O Globo

É a primeira vez que se chega a uma situação semelhante na disputa pela Presidência da República

Dois debates, o de hoje na Band e o do dia 23 na Globo, decidirão a disputa pela Presidência da República. É a primeira vez que se chega a uma situação semelhante. Lula, aprovado ou rejeitado, é conhecido. Flávio Bolsonaro é um sobrenome que carrega consigo o antipetismo. É uma divisão pobre e irredutível, basta dizer que está aí há 18 anos com a mesma agenda. Ao apagar das luzes do Lula 3.0, ele empunhou essa bandeira e o Congresso aprovou a escala de 5x2 para os trabalhadores.

Veio uma pandemia, morreram 700 mil pessoas e não apareceu uma só ideia nova na área da saúde. Quando aparece uma, é travada no escurinho de Brasília.

A luta contra o desmatamento, por Míriam Leitão

O Globo

O menor número de desmatamento foi possível após o governo Lula superar a terra arrasada que recebeu de Jair Bolsonaro na área ambiental

A queda do desmatamento na Amazônia ao menor número nos 38 anos em que o INPE faz o monitoramento é uma vitória cuja dimensão só se entende através de uma viagem no tempo. Não poderia ser colhida se não houvesse uma decisão do governo seguida zelosamente por todas as equipes dos órgãos públicos envolvidos na missão. O presidente Lula repete o feito dos primeiros dois mandatos em que também derrubou fortemente o desmatamento na Amazônia. Dessa vez, há outra boa notícia a comemorar. O Cerrado, o bioma que vem sendo mais atacado, também teve o seu melhor número.

Debandada, por Dorrit Harazim

O Globo

Integrantes da bolha Trump se mudaram para o Xanadu fortificado, onde se sentem em segurança por viverem intramuros

Há quem goste de qualificar Stephen Miller como a éminence grise de Donald Trump. O epíteto não lhe faz justiça. Seu poder é mais vasto do que o do frade de batina cinza Leclerc du Tremblay, braço direito de Richelieu nos tempos de Luís XIII. Miller é o homem que transforma em política pública os impulsos mais incivilizados de Trump. Imprime sua ideologia raivosa com métodos de inquisidor, não aceita desculpas nem abre espaço a dissenso. É temido não pela fisionomia que lembra Joseph Goebbels, ministro da Propaganda da Alemanha nazista, mas por deter um poder de ação e persuasão imenso na Casa Branca. Não por acaso, escolheu a dedo um cargo que não quer dizer nada (e, portanto, pode significar tudo) e não exige ser sabatinado pelo Senado: vice-chefe de Gabinete para Políticas Públicas. Opera melhor nas sombras do que à luz do dia, e poucos no universo Make America Great Again (Maga) se aventuram a contrariá-lo.

Diplomatas e militares que se cuidem! Por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Eduardo Bolsonaro pode ou não ser chanceler, mas vem aí ‘faxina’ no Itamaraty e nas Forças Armadas

O senador Flávio Bolsonaro descartou seu irmão Eduardo como chanceler no seu eventual governo, mas isso não é suficiente para acalmar os ânimos nas duas principais carreiras de Estado, diplomatas e militares, que temem a repetição no Brasil do que Donald Trump fez ao assumir pela segunda vez a presidência dos EUA: uma caça às bruxas.

Está praticamente descartada uma nova tentativa de golpe militar, como nos anos de Jair Bolsonaro, mas o sinal amarelo acendeu quando Eduardo Bolsonaro anunciou a caça às bruxas como “uma faxina” no Itamaraty, para varrer os diplomatas não alinhados com o governo do pai nem com a campanha do irmão. Mais um tiro no pé, ou melhor, na campanha de Flávio.

O perigo de se depender dos EUA, por Lourival Sant’Anna

O Estado de S. Paulo

O calvário vivido por Volodmir Zelenski em sua história com Donald Trump é completo para analisar como o presidente americano se comporta perante aliados e adversários.

O Brasil vive um contexto diferente da Ucrânia, mas no momento em que se prepara para entrar na órbita americana ou se manter sob a chinesa, a lição é clara: os riscos são severos em ambos os casos.

O amor de Trump pela Rússia e desprezo pela Europa datam de 1987, quando o empresário foi convidado a visitar a União Soviética depois de comprar centenas de televisores para um hotel que estava montando em Nova York em uma loja que era um aparelho da KGB. Ao voltar, Trump gastou US$ 94 mil em anúncios no Wall Street Journal , New York Times e Boston Globe defendendo o abandono dos aliados europeus, japoneses e sauditas.

Vida é poesia, por Ignácio de Loyola Brandão

O Estado de S. Paulo

Namorar era olhar, trocar sorrisos maliciosos. E, se desse, pegar na mão, escondido do irmão

Dois momentos me tocaram fundo na primeira semana de outubro, ambos ligados a esta vida que chegou aos 90. O que chamo de vida é a de todos nós, brasileiros. O primeiro momento, tenebroso, foi a frase de um candidato à presidência do Brasil. Ela me desestruturou. A que ponto de sordidez chega a ambição de poder? A repelente, repulsiva, horrenda referência à prostituição em um cargo atribuída a Simone Tebet me deixou irado, desesperado. É vulgar, de espantosa baixeza, cafajestice. Inadmissível. Em que país vivemos? Ou viveremos?

Entrevista | Marco Aurélio Nogueira: ‘Não dá para tudo ser resolvido no confronto entre lulismo e bolsonarismo’, diz cientista político

Por Vera Rosa \ O Estado de S. Paulo

Autor do livro ‘Como melhorar a vida que vivemos: pensar, agir, dialogar’, Marco Aurélio Nogueira vê a democracia no Brasil ameaçada e diz que qualquer candidato eleito para a Presidência, seja Lula ou Flávio, terá de ‘descascar um abacaxi’

BRASÍLIA – O cientista político Marco Aurélio Nogueira define o atual momento que vivemos como “uma encruzilhada política paralisante”. No seu diagnóstico, trata-se de uma época na qual a manipulação de algoritmos domina o mundo e ergue muros. Diante deste cenário, construir pontes ficou mais difícil.

“Não dá mais para tudo ser resolvido a partir de um confronto eterno entre o lulismo e o bolsonarismo”, diz Nogueira. Professor aposentado da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e articulista do Estadão, o cientista político observa que os democratas precisam reaprender a dialogar.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva errou, na sua avaliação, ao deixar de lado a frente ampla que ajudou a elegê-lo, em 2022. Na outra ponta, o discurso antissistema do senador Flávio Bolsonaro, candidato do PL, não reflete uma coesão social sustentável. A terceira via, por sua vez, não conseguiu sair do acostamento e “virou recheio de um sanduíche”.

Em seu mais novo livro, intitulado Como melhorar a vida que vivemos: pensar, agir, dialogar, Nogueira trata dos muros que nos dividem e observa que o cenário atual, com seu dinamismo frenético, acabou trazendo mal-estar.

Questionado se a democracia está sob ameaça, ele não titubeou e encaixou um “sempre” na resposta. “A democracia é aquela planta tenra, que precisa de adubação permanente”, afirmou o professor, citando frase do ex-governador da Bahia Otávio Mangabeira.

Querem mudar o jeito de escolher o presidente, deputados, STFs e levar bandidos ao poder, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Há projetos de mudar a forma de governar o país entre o fim de 2026 e o início de 2027

Tentativa ocorreria em ano de economia difícil e política que afunda no crime organizado

As turmas do poder político pretendem mudar formas e modos de governo entre o final deste ano e o começo do próximo. Flávio Bolsonaro (PL) e cia. têm plano nebuloso de "mudar a Constituição para redemocratizar o país". O centrão-direitão quer se defender do avanço da extrema direita e dos políticos digitais. Todos querem mexer no falido STF.

Tais mudanças serão discutidas em momento que pode ser de domínio da extrema direita no governo federal e de grande força no Congresso, com o que tal corrente pode vir a ser hegemônica no partidarizado STF. A extrema direita é composta também de grupos políticos associados ao crime organizado. De resto, a elite no poder foi comprada ou alugada pelo gângster e cafetão Daniel Vorcaro.

Flávio perde votos quando eleitor o imagina governando, por Celso Rocha de Barros

Folha de S. Paulo

Que candidato você prefere no comando em caso de nova pandemia?

Em retrospecto, a liderança no primeiro turno pode ter sido ruim para Flávio Bolsonaro

Para Flávio Bolsonaro vencer a eleição, precisa impedir que os brasileiros se lembrem de que, se votarem nele, ele será o presidente do Brasil pelos próximos quatro anos. Ou mais, dependendo do que ele e o pai fizerem com a Constituição que já disseram que esculhambarão.

Não houve campanha eleitoral no primeiro turno: houve noticiário sobre corrupção no STF. Leitores da coluna sabem que votar no PL para punir os corruptos do STF foi votar em 98% da quadrilha Master para usar os outros 2% como bodes expiatórios. Mas muita gente caiu no golpe, e Flávio terminou o primeiro turno na frente de Lula.

O apelo da dignidade, por Muniz Sodré

Folha de S. Paulo

Falha no primeiro turno não foi a falta de debates, mas a falta da vontade de debater

O rebaixamento nas redes sociais parece prioritário no pleito político; parlamentares da caixa de gargalhadas, com milhões de votos, são epifenômenos dessa aberração

Na fatigante expectativa do segundo turno, especialistas insistem em que problemas nacionais sejam postos em debate entre os dois candidatos e não se confundam campanhas com exposições biográficas. Todo mundo está cansado de saber que Lula, autodeclarado mais sindicalista que de esquerda, representa estabilidade democrática, ideias de povo próspero e soberano. Por vias populistas, sempre "entregou" benefícios sociais.

Mas até os mal-informados também estão cansados de saber que Flávio Bolsonaro tem mais folha corrida do que biografia publicável em 23 anos de vida parlamentar. Supunha-se que um político da ultradireita em ascensão tivesse algo de pertinente a dizer sobre ajuste fiscal ou sobre um benefício qualquer a "entregar", como senha de trânsito no mercado eleitoral. O que ele diz numa hora, desdiz na outra. É um "flatus" ambulante. De concreto, o projeto de tirar o pai da cadeia. Embora possa facilmente entregar o país.

A maldição do vencedor, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Livro clássico de economia comportamental ganha atualização

Autores mostram como as pesquisas evoluíram nos últimos 30 anos

Especialmente em momentos de polarização afetiva, esperamos o pior de nossos semelhantes. Tentando ver o lado menos lúgubre das coisas, acho que dá para afirmar que humanos não somos tão maus quanto hoje pode parecer. Como espécie, somos cooperativos. Nosso impulso inicial é o de colaborar com o próximo, mas também não somos trouxas. Deixamos de cooperar a partir do instante que o próximo dá sinais de que não é um parceiro confiável. Faz sentido que seja assim. Se fôssemos seres totalmente egoístas e perfeitamente racionais, sempre empenhados em maximizar ganhos, não teríamos ido muito além do Pleistoceno.

Lula e Flávio vão em desespero rumo ao desempate, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Na reta final da corrida ao Planalto os erros de cada um serão mais determinantes que os acertos

À falta de projetos, o país se prende à expectativa do que vai vencer: a onda da direita ou a força da caneta

A terceira semana de campanha do segundo turno vai começar com as pesquisas paradas no empate entre os dois finalistas, em cenário que não deixa de ser desafiante para o perdedor, mas é preocupante para o vencedor da etapa inicial.

No histórico desse tipo de embate o segundo colocado estaria praticamente fadado à derrota. A escrita permeou as análises do placar de 4 de outubro, segundo as quais nunca houve uma virada. Ocorre que tampouco havia registro de diferença tão pequena.

Paulinho e Verinha em perigo, por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

O jabuti Jonathan, 194 anos, ser mais idoso do mundo, está preocupado com a situação

Se vier o pior, um casal de jovens jabutis brasileiros poderá esperar pela salvação; nós, não

Fui apresentado outro dia a um casal de jabutis. Chamam-se Paulinho e Verinha. Não entendi como seus tutores sabem quem é quem —jabutis são tímidos, não gostam de botar nem a cabeça para fora, quanto mais as partes. Só sei que têm menos de um ano e, pelo amor com que são tratados, uma bela vida pela frente. Ao observá-los, concluí que não fazem nada sem pensar —não importa onde sejam colocados, permanecem estáticos, avaliando a situação. Pode acontecer de só se decidirem muito depois de você, temendo morrer de velhice, ter desistido de esperar para ver.

A democracia e suas vicissitudes, por João Rego*

Revista Será?

 – Uma mensagem aos democratas indecisos

Já falei sobre o que a democracia moderna representa para a humanidade. É a expressão civilizatória suprema que o ser humano, em meio aos seus conflitos, conseguiu alcançar ao longo de milênios de história, marcados por guerras, chacinas e genocídios.

A partir do século XVIII, com os pensadores do Iluminismo, o pensamento político-filosófico construiu o veio principal por onde as nações, com suas diversas formas de governo, começaram a caminhar em direção aos modelos modernos de sociedade democrática.

Embora, no século XX, ainda tenhamos experimentado duas terríveis guerras mundiais, que deixaram um rastro de dezenas de milhões de mortos, entre eles os milhões de vítimas do Holocausto planejado e executado pelo nazismo, também testemunhamos os crimes do stalinismo — duas das principais expressões do totalitarismo que deixou profundas cicatrizes no século passado.

As eleições vistas de outro ângulo, por Elimar Nascimento*

Revista Será?

O historiador, cientista político e escritor português João Pereira Coutinho publicou pela editora Três Estrelas um livro fortemente interessante. Intrigante, na verdade, e desde o título: As ideias conservadoras explicadas a reacionários e revolucionários (2014).

Bem resumidamente, Coutinho defende que o mundo moderno, nascido da Revolução Francesa, pariu três grandes ideologias: a conservadora, a reacionária e a revolucionária. O que as distingue? O conservadorismo, em essência, afirma que o mundo está em movimento, que a mudança é a forma de existir da modernidade; porém, considera que estas mudanças devem se fazer de forma lenta. A ideologia reacionária, ao contrário, se opõe à mudança e prega o retorno ao passado idealizado. No outro extremo, surgem as ideias revolucionárias, que querem “fazer do passado uma tábua rasa”.

Sobre o conceito de previsão ou perspectiva, por Antonio Gramsci*

É certo que prever significa apenas ver bem o presente e o passado como movimento: ver bem, isto é, identificar com exatidão os elementos fundamentais e permanentes do processo. Mas é absurdo pensar numa previsão puramente "objetiva". Quem prevê, na realidade, tem um "programa" que quer ver triunfar, e a previsão é exatamente um elemento de tal triunfo. Isto não significa que a previsão deva ser sempre arbitrária e gratuita ou puramente tendenciosa. Ao contrário, pode-se dizer que só na medida em que o aspecto objetivo da previsão está ligado a um programa é que esse aspecto adquire objetividade: 1) porque só a paixão aguça o intelecto e colabora para tornar mais clara a intuição; 2) porque, sendo a realidade o resultado de uma aplicação da vontade humana à sociedade das coisas (do maquinista à máquina), prescindir de todo elemento voluntário ou calcular apenas a intervenção das vontades dos outros como elemento objetivo do jogo geral mutila a própria realidade. Só quem quer fortemente identifica os elementos necessários à realização de sua vontade. Por isso, é um erro grosseiro de presunção e superficialidade considerar que uma determinada concepção do mundo e da vida tenha em si mesma uma superioridade em termos de capacidade de previsão. É claro que uma concepção do mundo está implícita em toda previsão; portanto, o fato de que ela seja um amontoado de atos arbitrários do pensamento ou uma visão rigorosa e coerente não é destituído de importância, mas ela só adquire essa importância no cérebro vivo de quem faz a previsão e a vivifica com sua vontade forte. Isto pode ser percebido através das previsões feitas pelos chamados "desapaixonados": elas estão plenas de inutilidades, de minúcias sutis, de elegâncias conjeturais. Só a existência, em quem "prevê", de um programa a realizar faz com que ele se atenha ao essencial, aos elementos que, sendo "organizáveis", suscetíveis de ser dirigidos ou desviados, são na realidade os únicos previsíveis. Isto vai contra o modo comum de considerar a questão. Geralmente se acredita que todo ato de previsão pressupõe a determinação de leis de regularidade como as leis das ciências naturais. Mas, como estas leis não existem no sentido absoluto ou mecânico que se supõe, não se levam em conta as vontades dos outros e não se "prevê" sua aplicação. Logo, constrói-se com base numa hipótese arbitrária, e não na realidade.

*Antonio Gramsci (1891-1937) Caderno 15 (1933). Cadernos do Cárcere, v. 3 p.342. 3ª Edição, 2007. Editora Civilização Brasileira.

Poesia | A Implosão da Mentira, de Affonso Romano Sant'anna, por André Morais

 

Música | Congênito com Lenine e João Cavalcanti