O Globo
Mentir faz parte, mas candidato exagerou
Flávio Bolsonaro anunciou no debate da Band
que no seu governo “o SUS vai ser padrão Einstein”. Nunca na história das
campanhas eleitorais um candidato prometeu semelhante maluquice. Mentira
deliberada, desrespeitosa para quem a ouviu, produto da ignorância de quem não
sabe o que são o Sistema Único de Saúde e o padrão do Hospital Israelita Albert
Einstein, em São Paulo. Ou sabe, o que é pior.
Bolsonaro associa sua patranha ao fato de ter anunciado que o médico Claudio Lottenberg, ex-presidente do Einstein, será seu ministro da Saúde. Uma coisa é uma coisa, e outra coisa é outra coisa. Esse tipo de associação equivale a prometer prosperidade “padrão BTG” para todos os brasileiros porque o banqueiro André Esteves, cujo patrimônio é estimado em R$ 66 bilhões, será o ministro da Fazenda.
A comunidade judaica de São Paulo investiu
bilhões no Einstein, e seu padrão só é acessível aos planos de saúde mais
caros. Imaginar que esse padrão possa ser replicado no SUS é algo próximo de
prometer o elixir da longa vida ou a pomada da juventude.
Para compensar os incentivos fiscais
concedidos a entidades filantrópicas, o Einstein presta alguns serviços
assistenciais de alta qualidade, nada a ver com a generalização para toda a
população.
Semelhante promessa desclassifica a opinião
que o candidato tem do discernimento do eleitorado. Quem acredita num SUS com
padrão Einstein precisa ser um idiota. Se Flávio quer pescar nessas águas,
superestima a capacidade dos brasileiros de ser enganados. Seu pai, por
ignorante na matéria, acreditou por muito tempo no milagre da cloroquina.
Flávio não acredita num SUS/Einstein. Mente, confiando na tolerância dos
eleitores. Com décadas de atividade profissional, o doutor Lottenberg se vê
convidado ao Ministério
da Saúde numa plataforma de propaganda enganosa. Mau começo.
A menos que alguém esteja pensando em
transferir à rede privada alguns procedimentos de alta complexidade (e
remuneração), sucateando o que fica abaixo.
O que o SUS precisa é de financiamento, para
que um presidente possa se orgulhar de seu próprio padrão, que é melhor do que
supõe a sabedoria convencional. Durante a pandemia da Covid-19, quando os
planos privados tentaram não cobrir os custos de testes e de vacinas, o SUS
imunizou, de graça, dezenas de milhões de pessoas.
O debate da Band teve poucos bons momentos.
Os piores foram os lances de Flávio macaqueando a grosseria de Donald Trump
no segundo debate de 2016, colocando-se atrás de Hillary Clinton, balançando o
corpo e fazendo umas poucas caretas. Flávio abusou dessa coreografia, roubando
a cena enquanto Lula falava.
O truque funcionou, mas, como ensinava
Tancredo Neves, esperteza, quando é muita, come o dono. A astúcia gerou um
atrito da equipe de Lula com os organizadores do debate, mas o estrago já
estava feito.
Tudo indica que no debate da Globo, na
sexta-feira, essa malandragem não será permitida. Infelizmente, nenhuma
emissora do mundo pode impedir um candidato de mentir.

Um comentário:
Muito bom! Por isto muitos acham que Elio é o melhor colunista deste país... Às vezes eles estão certos!
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