O Globo
É a primeira vez que se chega a uma situação
semelhante na disputa pela Presidência da República
Dois debates, o de hoje na Band e o do dia 23
na Globo, decidirão a disputa pela Presidência da República. É a primeira vez
que se chega a uma situação semelhante. Lula, aprovado ou rejeitado, é
conhecido. Flávio Bolsonaro é um sobrenome que carrega consigo o antipetismo. É
uma divisão pobre e irredutível, basta dizer que está aí há 18 anos com a mesma
agenda. Ao apagar das luzes do Lula 3.0, ele empunhou essa bandeira e o
Congresso aprovou a escala de 5x2 para os trabalhadores.
Veio uma pandemia, morreram 700 mil pessoas e não apareceu uma só ideia nova na área da saúde. Quando aparece uma, é travada no escurinho de Brasília.
Fernando Henrique trouxe o Real e devolveu
aos brasileiros o valor da moeda, Lula 1 trouxe o Bolsa Família e o Prouni,
tirou o país do mapa da fome e levou estudantes humildes à universidade.
Daí em diante, o Brasil viveu um ciclo de
horrores: orçamento secreto, emendas Pix, trama golpista. Para espanto geral,
derreteu-se a reputação de alguns ministros do Supremo Tribunal, arrastando
consigo a respeitabilidade da Corte. O Brasil tornou-se um exportador de
alimentos e petróleo, mas, apesar do berço esplêndido, o gigante parece deitado
numa cama de pregos.
O agronegócio, que dá musculatura e orgulho
ao interior dos Estados Unidos, empurra a economia nacional, ainda é visto por
uma parte do Brasil bem pensante como um persistente Jeca Tatu.
(Enquanto há gente que sonha transformar
bairros de Pindorama em pequenas Miami, é lá que a turma do agro investe em
imóveis. O filho de um ex-presidente vive — foragido — nos Estados Unidos;
outro, na Espanha.)
A eleição deste ano seria uma boa
oportunidade para se vislumbrar um futuro, mas até agora isso não aconteceu.
Resta torcer pela qualidade dos dois debates.
A escala 5x2 é eleitoreira
Muita gente, inclusive Flávio Bolsonaro,
classificou a escala 5x2 de “eleitoreira”. Eles têm razão. Se a emancipação de
Abraham Lincoln (1863), sendo eleitoreira, fosse do desagrado dos cidadãos
brancos, ele não teria sido reeleito em 1864.
Na campanha de seu adversário, o banqueiro
August Belmont, agente dos Rothschilds nos Estados Unidos, chamou a emancipação
de “uma política fatal de confisco e emancipação forçada”.
Lincoln prevaleceu no voto e pelas armas.
No Brasil, 30 anos depois, os abolicionistas
eram chamados de filantropos, os escravizados abandonavam as fazendas. A
história da abolição é contada com foco nos vitoriosos, mas para ilustrar
conquistas sociais vindouras, convém ouvir os argumentos e as queixas dos
ultrapassados.
Fala o Barão de Cotegipe:
“Para que lei de abolição? De fato está feita
— e revolucionariamente. Os proprietários aterrados procuram conter o êxodo —
dando liberdade imediata aos seus escravos. Eis o segredo de tantas
libertações.
O que resultará desta balbúrdia?
A crise será medonha, e a Monarquia perde
terreno, porque a classe conservadora desaparece.”
(8 de abril de 1888)
“A verdade é que há de haver uma perturbação
enorme no país durante muitos anos, o que não verei, talvez, mas aqueles a quem
Deus conceder mais vida, ou que forem mais moços presenciarão.
Se me engano, lavrem, lavrem na minha
sepultura este epitáfio: ‘O chamado no século Barão de Cotegipe, João Maurício
Wanderley, era um visionário!’”
(12 de maio de 1888, véspera da abolição.)
O Barão morreu em 1889 e seu túmulo está no
Cemitério São João Batista, no Rio, sem esse qualificativo, até porque a crise
“medonha” não veio e o conservadorismo nacional está aí até hoje, chamando de
“eleitoreiro” a jornada de oito horas, as restrições ao trabalho infantil e o
13º salário.
Escrita antiga
Lula disse na sua entrevista à jornalista
Renata Lo Prete que reajustou o valor do Bolsa Família de R$ 675 para cerca de
R$ 777 em cima da eleição, ao saber que ele estava congelado há 42 meses.
Conta outra doutor.
Lula não sabia. Fernando Haddad não soube e o
ministro do Combate à Fome não se fez ouvir.
O bordel de Vorcaro
A Polícia Federal abriu em maio um inquérito
para investigar as traficâncias sociais de Daniel Vorcaro. A sublegenda sexual
dessa teia expôs, aos poucos, o maior bordel internacional já visto em
Pindorama.
São conhecidas as identidades de cafetões,
cafetinas e alguns valores (R$ 10 mil por sessão). Seria bom para os costumes
nacionais se fossem divulgados os nomes dos personagens do andar de cima que
entraram na rede.
Por enquanto, já se pescaram umas 20
excelências.
Como Vorcaro disse à sua namorada, “esse é o
meu business.” Ele não era um cafetão, era um banqueiro que atraía clientes que
se encantavam com cafetões.
Tarifa zero
Há mais de um ano, o dono de dezenas de
companhias de ônibus de uma grande capital defendia a instituição da tarifa
zero no transporte público.
Na outra ponta da conversa estava o tamanho
do subsídio, livre de uma rigorosa auditoria do poder municipal, estadual ou
federal. Essa não prosperava.
Conselho Federal de Medicina
O CFM conseguiu diluir mais uma iniciativa
que daria musculatura a um sistema de avaliação de desempenho para os médicos
diplomados e as faculdades de Medicina. Haverá um exame. Mas não na jurisdição
do MEC e sim na do Conselho.
Em paralelo, guildas médicas defendem a
proliferação de faculdades privadas e reclamam quando avaliações federais
expõem suas deficiências. A MP pedia duas avaliações anuais das faculdades. A
versão final cortou uma. Na primeira avaliação desse mercado, 99 faculdades
(1/3) não conseguiram nota satisfatória.
Do outro lado do balcão, dificultam o acesso
ao mercado brasileiro de profissionais formados no exterior.
Houve um tempo em que a reserva de mercado
produziu a seguinte gracinha:
O profissional só podia exercer sua atividade
se tivesse registro no Brasil e só podia requerer o registro se tivesse
domicílio em Pindorama. Até aí tudo bem. Quanto tempo levaria para obter o
registro? Anos. Até lá, o profissional viveria de quê?
Um hierarca do Ministério da Educação tentou
descobrir de onde saiu essa maluquice. Ralou e não conseguiu.
Tabaco e o Papado
O Papa Leão XIV, de 71 anos, não é fumante e
está com câncer no pulmão. Leão XIII, viciado em rapé, morreu em 1903, aos 93
anos.
Fumante mesmo (um maço por dia), foi o cardeal Angelo Roncalli. Parou em 1958, ao se tornar Papa João XXIII, e morreu em 1963, aos 81 anos, de câncer de estômago.

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