domingo, 18 de outubro de 2026

Os debates decidirão a parada, por Elio Gaspari

O Globo

É a primeira vez que se chega a uma situação semelhante na disputa pela Presidência da República

Dois debates, o de hoje na Band e o do dia 23 na Globo, decidirão a disputa pela Presidência da República. É a primeira vez que se chega a uma situação semelhante. Lula, aprovado ou rejeitado, é conhecido. Flávio Bolsonaro é um sobrenome que carrega consigo o antipetismo. É uma divisão pobre e irredutível, basta dizer que está aí há 18 anos com a mesma agenda. Ao apagar das luzes do Lula 3.0, ele empunhou essa bandeira e o Congresso aprovou a escala de 5x2 para os trabalhadores.

Veio uma pandemia, morreram 700 mil pessoas e não apareceu uma só ideia nova na área da saúde. Quando aparece uma, é travada no escurinho de Brasília.

Fernando Henrique trouxe o Real e devolveu aos brasileiros o valor da moeda, Lula 1 trouxe o Bolsa Família e o Prouni, tirou o país do mapa da fome e levou estudantes humildes à universidade.

Daí em diante, o Brasil viveu um ciclo de horrores: orçamento secreto, emendas Pix, trama golpista. Para espanto geral, derreteu-se a reputação de alguns ministros do Supremo Tribunal, arrastando consigo a respeitabilidade da Corte. O Brasil tornou-se um exportador de alimentos e petróleo, mas, apesar do berço esplêndido, o gigante parece deitado numa cama de pregos.

O agronegócio, que dá musculatura e orgulho ao interior dos Estados Unidos, empurra a economia nacional, ainda é visto por uma parte do Brasil bem pensante como um persistente Jeca Tatu.

(Enquanto há gente que sonha transformar bairros de Pindorama em pequenas Miami, é lá que a turma do agro investe em imóveis. O filho de um ex-presidente vive — foragido — nos Estados Unidos; outro, na Espanha.)

A eleição deste ano seria uma boa oportunidade para se vislumbrar um futuro, mas até agora isso não aconteceu. Resta torcer pela qualidade dos dois debates.

A escala 5x2 é eleitoreira

Muita gente, inclusive Flávio Bolsonaro, classificou a escala 5x2 de “eleitoreira”. Eles têm razão. Se a emancipação de Abraham Lincoln (1863), sendo eleitoreira, fosse do desagrado dos cidadãos brancos, ele não teria sido reeleito em 1864.

Na campanha de seu adversário, o banqueiro August Belmont, agente dos Rothschilds nos Estados Unidos, chamou a emancipação de “uma política fatal de confisco e emancipação forçada”.

Lincoln prevaleceu no voto e pelas armas.

No Brasil, 30 anos depois, os abolicionistas eram chamados de filantropos, os escravizados abandonavam as fazendas. A história da abolição é contada com foco nos vitoriosos, mas para ilustrar conquistas sociais vindouras, convém ouvir os argumentos e as queixas dos ultrapassados.

Fala o Barão de Cotegipe:

“Para que lei de abolição? De fato está feita — e revolucionariamente. Os proprietários aterrados procuram conter o êxodo — dando liberdade imediata aos seus escravos. Eis o segredo de tantas libertações.

O que resultará desta balbúrdia?

A crise será medonha, e a Monarquia perde terreno, porque a classe conservadora desaparece.”

(8 de abril de 1888)

“A verdade é que há de haver uma perturbação enorme no país durante muitos anos, o que não verei, talvez, mas aqueles a quem Deus conceder mais vida, ou que forem mais moços presenciarão.

Se me engano, lavrem, lavrem na minha sepultura este epitáfio: ‘O chamado no século Barão de Cotegipe, João Maurício Wanderley, era um visionário!’”

(12 de maio de 1888, véspera da abolição.)

O Barão morreu em 1889 e seu túmulo está no Cemitério São João Batista, no Rio, sem esse qualificativo, até porque a crise “medonha” não veio e o conservadorismo nacional está aí até hoje, chamando de “eleitoreiro” a jornada de oito horas, as restrições ao trabalho infantil e o 13º salário.

Escrita antiga

Lula disse na sua entrevista à jornalista Renata Lo Prete que reajustou o valor do Bolsa Família de R$ 675 para cerca de R$ 777 em cima da eleição, ao saber que ele estava congelado há 42 meses.

Conta outra doutor.

Lula não sabia. Fernando Haddad não soube e o ministro do Combate à Fome não se fez ouvir.

O bordel de Vorcaro

A Polícia Federal abriu em maio um inquérito para investigar as traficâncias sociais de Daniel Vorcaro. A sublegenda sexual dessa teia expôs, aos poucos, o maior bordel internacional já visto em Pindorama.

São conhecidas as identidades de cafetões, cafetinas e alguns valores (R$ 10 mil por sessão). Seria bom para os costumes nacionais se fossem divulgados os nomes dos personagens do andar de cima que entraram na rede.

Por enquanto, já se pescaram umas 20 excelências.

Como Vorcaro disse à sua namorada, “esse é o meu business.” Ele não era um cafetão, era um banqueiro que atraía clientes que se encantavam com cafetões.

Tarifa zero

Há mais de um ano, o dono de dezenas de companhias de ônibus de uma grande capital defendia a instituição da tarifa zero no transporte público.

Na outra ponta da conversa estava o tamanho do subsídio, livre de uma rigorosa auditoria do poder municipal, estadual ou federal. Essa não prosperava.

Conselho Federal de Medicina

O CFM conseguiu diluir mais uma iniciativa que daria musculatura a um sistema de avaliação de desempenho para os médicos diplomados e as faculdades de Medicina. Haverá um exame. Mas não na jurisdição do MEC e sim na do Conselho.

Em paralelo, guildas médicas defendem a proliferação de faculdades privadas e reclamam quando avaliações federais expõem suas deficiências. A MP pedia duas avaliações anuais das faculdades. A versão final cortou uma. Na primeira avaliação desse mercado, 99 faculdades (1/3) não conseguiram nota satisfatória.

Do outro lado do balcão, dificultam o acesso ao mercado brasileiro de profissionais formados no exterior.

Houve um tempo em que a reserva de mercado produziu a seguinte gracinha:

O profissional só podia exercer sua atividade se tivesse registro no Brasil e só podia requerer o registro se tivesse domicílio em Pindorama. Até aí tudo bem. Quanto tempo levaria para obter o registro? Anos. Até lá, o profissional viveria de quê?

Um hierarca do Ministério da Educação tentou descobrir de onde saiu essa maluquice. Ralou e não conseguiu.

Tabaco e o Papado

O Papa Leão XIV, de 71 anos, não é fumante e está com câncer no pulmão. Leão XIII, viciado em rapé, morreu em 1903, aos 93 anos.

Fumante mesmo (um maço por dia), foi o cardeal Angelo Roncalli. Parou em 1958, ao se tornar Papa João XXIII, e morreu em 1963, aos 81 anos, de câncer de estômago.

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