*Antonio Gramsci (1891-1937). Cadernos do
Cárcere, v.1. p. 263-4. Civilização Brasileira, 2006.
Política e cultura, segundo uma opção democrática, constitucionalista, reformista, plural.
terça-feira, 30 de maio de 2023
Opinião do dia – Antonio Gramsci* (Introdução ao estudo da filosofia)
Míriam Leitão - Erro da política, visão da ciência
O Globo
O senador Davi Alcolumbre foi misógino com
Marina e mostra como a coalizão antiambiental tem visão curta sobre o tema
A coalizão fóssil e antiambiental que se formou no Congresso para desfigurar o Ministério do Meio Ambiente comete vários erros. Primeiro, não percebe quem é Marina Silva. Ela comandou o mais importante e bem-sucedido programa ambiental do Brasil, que derrubou o desmatamento em mais de 80%. Segundo, mesmo se a licença do poço da Petrobras fosse dada hoje, e se for encontrado petróleo, a produção começaria em 2030, quando a era dos hidrocarbonetos provavelmente estará em declínio. Terceiro, e mais importante, esse movimento que começou na última quarta-feira tem o poder de destruir a reputação ambiental que o Brasil estava começando a reconstruir no governo Lula.
Merval Pereira - Revendo convicções
O Globo
Lula hoje diz que não quer saber de
escolhas identitárias, muito em voga no PT, mas de pessoas confiáveis, como seu
advogado particular Cristiano Zanin
Uma das qualidades até agora indiscutíveis
dos governos anteriores do presidente Lula foi o espírito republicano com que
encarou a escolha dos ministros que lhe coube nomear para o Supremo Tribunal
Federal (STF). Em seus dois governos, nomeou nada menos que oito, e a maioria
atuou com independência formidável, especialmente nos processos de corrupção
governamental que envolviam o mensalão, que teve Ayres Britto como presidente e
Joaquim Barbosa relator.
Com exceção de Ricardo Lewandowski, os demais tiveram posturas que contrariaram Lula em muitos casos: Eros Grau, Cármen Lúcia e Cezar Peluso. Até Dias Toffoli, indicado após ter sido advogado-geral da União, tomou decisões independentes em alguns momentos.
Carlos Andreazza - Mais Carros, Minha Vida
O Globo
Se a nova política industrial brasileira —
a neoindustrialização — for avançar nesta picada, melhor nem começar. Não se
aprende com a História. Subsídio à indústria automotiva? Já foi. Já houve.
Várias vezes. Não deu certo. Iniciativa fracassada, cuja volta só se explica
sob a forma de carinho a empresário não competitivo.
Justo será apor o “mais” à questão. Mais
subsídio à indústria automotiva? Em 2023? Sim. Neoindustrialização. Velhos
recursos pela nova industrialização. A equação não fecha. Novos recursos para
adiar a falência da indústria velha. Os termos adequados.
O governo acarinha; nós pagamos a conta — que ficará maior, acrescido o custo do improviso: programa ruim, de ineficiência comprovada e divulgado sem cálculos elementares; a Fazenda que rebole para que o esqueleto (o arcabouço) tenha caixa. Assim o presidente se engaja em campanha para minimizar prejuízo setorial.
Hélio Schwartsman - Consolidação autocrática
Folha de S. Paulo
Bolsonaro não teve a sorte de presidir o
país em tempos de vacas gordas
Recep
Tayyip Erdogan foi reeleito para mais um período de cinco anos à
frente do governo
turco. A diferença sobre o adversário foi de 4,2 pontos percentuais. O que
chama a atenção é que Erdogan venceu apesar de trazer em seu portfólio uma
hiperinflação —ela foi de 85% em 2022— e um desempenho considerado desastroso
no socorro às vítimas do terremoto que deixou mais de 50 mil mortos em
fevereiro.
Não é uma boa notícia para os turcos, já que a reeleição dá a Erdogan uma espécie de sinal verde para continuar e talvez até acelerar o processo de autocratização do país. Para os brasileiros, é uma notícia que deveria nos fazer respirar aliviados, já que por pouco escapamos a uma sina semelhante. Nosso candidato a autocrata, Jair Bolsonaro, perdeu o pleito por uma diferença de mero 1,8 ponto percentual.
Alvaro Costa e Silva - Os piadistas do 8 de Janeiro
Folha de S. Paulo
Colegiado da CPMI abriga incitadores do
golpe
Na semana passada os jornais deram, sem destaque, como coisa corriqueira: a notícia sobre o fim de uma investigação da Polícia Federal na qual se concluiu que o deputado federal André Fernandes incitou os atos antidemocráticos que resultaram na invasão e destruição das sedes dos Três Poderes no dia 8 de janeiro. Uma investigação, diga-se, trivial: bastou conferir as redes sociais do indigitado.
Havia, na continuação da notícia, uma espécie de contextualização, explicando que Fernandes é o autor do requerimento de criação da CPMI do 8/1, que está em funcionamento no Congresso. Donde o deputado só faltou implorar para ser investigado por seus pares. Tiro no pé? Não. Tática. De quem tem a certeza de que não será punido, apelando ao corporativismo e à vitimização.
Dora Kramer - Agendas em choque
Folha de S. Paulo
De ilusionismos eleitorais também padecem
as democracias
Há 20 anos, Luiz Inácio da Silva era
um personagem a quem quase tudo era permitido. Hoje, não mais. Sinal de que o
Lula eleito em 2022 estava com a cabeça em 2002 foi aquele voo
em jatinho de empresário amigo para participar da COP27, no Egito, ainda
durante a transição.
Pertence à mesma série de descompassos entre o pretendido e o resultado obtido o lugar dado a João Pedro Stedile na comitiva da viagem à China, em abril, enquanto o convidado anunciava ofensiva de invasões de terra pelo MST. Ambos os casos provocaram críticas e desconcerto.
Joel Pinheiro da Fonseca - Política não devia ser torcida
Folha de S. Paulo
Mudanças na dinâmica da informação afetam
instituições democráticas e tensionam sociedade
Não há nada mais raro hoje em dia do que um espírito independente. Para onde quer que olhemos, só se veem cheerleaders de político.
É uma saída mais fácil: buscar no grupo sua identidade, e defender seu time
contra o adversário —esteja ele certo ou errado. Ou melhor: mesmo quando ele
estiver errado, dar um jeito de torcer as
palavras para que ele pareça certo.
Esse é também o caminho do sucesso: quem é bom nesse jogo pode ter certeza de
encontrar audiência e aplausos de uma metade, e o ódio da outra, o que também é
uma forma de atenção e dá status.
O modelo mental intuitivo, que muita gente
tem a respeito do eleitor, imagina-o comparando os diversos candidatos,
buscando suas posições em diversos assuntos e selecionando aquele que mais se
aproxima de suas próprias crenças.
A realidade, contudo, é quase o oposto disso: o eleitor tem um político de quem ele gosta e muda suas próprias posições em diversas áreas para melhor se adequar ao que esse líder propõe. (A esse respeito, recomendo o livro "Democracy for Realists", de Christopher Achen e Larry Bartels, 408 págs., Princeton University Press).
Andrea Jubé - Churrasco indicou STF e Senado no radar de Lula
Valor Econômico
Um olhar atento e sensibilidade política
decifram a lista de convidados do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e da
primeira-dama Rosângela Silva, a Janja, para o churrasco promovido pelo casal
na noite de sexta-feira, bem como o momento político que viabilizou a
confraternização de alas do governo com ministros do Supremo Tribunal Federal
(STF).
A relação dos presentes sugere duas
preocupações no radar de Lula: a votação da nova regra fiscal das contas
públicas no Senado, e a provável indicação do advogado Cristiano Zanin para o
STF.
Lula não convidou todos os ministros, assegurou à coluna um influente integrante do primeiro escalão, um dos que degustaram a carne de cordeiro importada da fazenda do ministro da Agricultura, Carlos Fávaro (PSD). Foram chamados somente os ministros do círculo mais próximo, o que explica o grupo eclético que reuniu de Fávaro até a ministra da Cultura, Margareth Menezes.
Marli Olmos - Popular tumultua e esconde interesses
Valor Econômico
Cenário indica que mesmo que o programa do carro popular seja um
sucesso, o governo continuará recebendo visitas dos executivos desse setor por
um bom tempo
No início de 1993, Itamar Franco acabara de ser empossado
presidente da República, depois do impeachment de Fernando Collor de Mello.
Numa conversa com a direção da Volkswagen ele teve uma ideia: “Por que vocês
não voltam a fabricar o Fusca?”. Os executivos imediatamente concordaram com a
sugestão em troca, claro, de incentivos fiscais.
As outras montadoras bateram à porta da Presidência da República
para pedir a mesma vantagem. Mas não tinham um Fusca. A Fiat ofereceu seu Uno.
Ficou, então, acertado que, além do Fusca, o incentivo valeria para qualquer
carro com motor 1.0.
Mas e a Kombi? Não era também popular? Sim, mas não tinha motor 1.0. Fizeram, então, um arranjo que ganhou o apelido de “decreto Kombi” para acomodar esse veículo também.
Luiz Carlos Azedo - Lula dobrou a aposta diplomática ao receber Maduro
Correio Braziliense
Classificou seu encontro como um “momento
histórico”: é inconcebível não manter relações com um país vizinho, com o qual
tem uma fronteira de 2.220km e muitos interesses econômicos
Um pressuposto de políticas externas bem-sucedidas é o relativo consenso nacional em torno delas. O ex-presidente Jair Bolsonaro caiu num profundo isolamento internacional por causa do seu alinhamento com os líderes de extrema-direita na política mundial, sem que houvesse massa crítica nas elites brasileiras para esse posicionamento. Ainda que os interesses do agronegócio o obrigassem a um giro de reaproximação com a China, em guerra comercial com os Estados Unidos, o ponto de inflexão de sua política externa foi a eleição do presidente Joe Biden. Com a derrota de Donald Trump, Bolsonaro ficou sem seu principal aliado. O isolamento internacional foi uma das causas de sua derrota e da frustração de suas intenções golpistas.
Cristovam Buarque* - O grande impasse
Correio Braziliense
"A crise no governo envolvendo a
exploração de petróleo no litoral amazônico é a ponta de um iceberg: que tipo
de desenvolvimento desejamos?"
A análise dos cinco primeiros meses de
gestão federal mostram impasses políticos e administrativos de um governo sem
unidade e sem coalizão, com um parlamento mais preocupado com compromissos
paroquiais e eleitoreiros imediatos do que com interesses da República e do
povo no médio e longo prazo. A formulação e aprovação do arcabouço fiscal
parecem exceção, graças ao ministro Fernando Haddad em sua competência técnica
e habilidade política. Mas o grande impasse do governo é sinal de um tempo em
que o crescimento econômico no curto prazo não satisfaz e a vontade por um
desenvolvimento sustentável no longo prazo ainda não é suficiente para apoiar
sacrifícios no presente em nome do futuro distante promissor.
A crise no governo envolvendo a exploração de petróleo no litoral amazônico é a ponta de um iceberg: que tipo de desenvolvimento desejamos? Queremos aumentar o Produto Interno Bruto (PIB), com subsídios a carros chamados ironicamente de populares, ou melhorar a qualidade de vida, com transporte público decente? Queremos oferecer royalties, com destino incerto ou levar a Petrobras a investir em fontes alternativas de energia? Aumentar a renda nacional ou proteger povos primitivos e bens culturais? Obter resultados no presente ou construir um futuro sustentável?
Antonio Cláudio Mariz de Oliveira* - Brasil legal e Brasil real
O Estado de S. Paulo
Há uma incontestável verdade diante da dessintonia entre a Lei de Execução Penal e a realidade: a prisão se tornou um eficiente fator de aumento da criminalidade
Há um aspecto da vida nacional marcado pelo
retrocesso e que gera profundo desalento quanto ao futuro do País. Refiro-me às
condições de vida de milhões de brasileiros. Elas estão piorando a olhos
vistos. Novas expressões da miséria estão chegando às nossas portas. Como
exemplo, temos os moradores de rua e a chamada cracolândia.
Significativa parte da sociedade não se
comove e vem se acostumando a conviver com toda sorte de mazelas que deveriam
cobrir de vergonha especialmente os segmentos mais privilegiados.
Pode-se pensar que o ordenamento legislativo passou ao largo de todos esses problemas sociais e não editou normas a respeito das respectivas situações. Ao contrário, há leis – e boas leis. Basta citar duas: o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e a Lei de Execução Penal, que rege o sistema penitenciário.
J. B. Pontes* - A necessidade de organização da sociedade
Para que isso ocorra, há necessidade de se estimular e fomentar a
imprescindível organização da sociedade, única forma segura de evitar rupturas
no processo democrático.
O povo brasileiro sempre foi excluído, tanto pelos militares como
pelas oligarquias, das decisões que lhe dizem respeito. E, ao que tudo indica,
aceitou passivamente essa condição excludente. E, sabe-se, sem uma estrutura de
organização popular uma democracia não se mantém.
Somente em raras oportunidades registraram-se movimentos sociais temporários para impor a vontade popular, a exemplo do que ocorreu nos anos 80, exigindo a redemocratização do País e o fim da longa ditadura militar.
O que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões
Crescem os investimentos privados na infraestrutura
Valor Econômico
Políticas intervencionistas reforçam o
clima de instabilidade no ambiente regulatório e de negócios
Apesar das dúvidas com a trajetória dos
juros e os resultados do novo regime fiscal, especialistas projetam o aumento
dos investimentos em infraestrutura neste ano, vitais para reduzir o custo
Brasil e pavimentar o caminho do crescimento. Como vem acontecendo há quase
duas décadas, é o setor privado que vai liderar o movimento, com a 60% a 70% do
total investido, dadas as restrições fiscais do setor público.
Os números, no entanto, ainda ficam aquém
do necessário - na verdade, são a metade do desejável. Superar a defasagem
significa enfrentar importante fator de ônus para as empresas brasileiras.
Dispor de infraestrutura é nada menos do que o terceiro fator do custo Brasil,
medido por estudo do Movimento Brasil Competitivo (MBC) feito em parceria com o
Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) e Fundação
Getulio Vargas. A infraestrutura insatisfatória representa 15% do custo Brasil,
estimado em R$ 1,7 trilhão, ficando à frente do crédito e atrás apenas da
formação de capital humano e dos gastos com tributos.
O crescimento do investimento em infraestrutura esbarra, no entanto, em obstáculos como a posição do governo em questões como a capitalização da Eletrobras e o Marco do Saneamento Básico. A demora no desenho do programa que vai ser o sucessor do novo Plano de Aceleração do Crescimento (PAC) indica que o processo está atrasando não só porque o presidente Lula deseja que tenha um nome criativo.
segunda-feira, 29 de maio de 2023
Fernando Gabeira - Variações em torno do L
O Globo
São fortes as correntes que querem pura e
simplesmente aumentar o PIB, não importam as consequências
A Câmara mostrou no meio da semana o
insustentável peso do atraso no Brasil. Esvaziou os ministérios do Meio
Ambiente e dos Povos Indígenas, flexibilizou as leis que impedem a devastação
da Mata Atlântica — enfim, jogou o país de novo numa atmosfera dos anos 1950.
O primeiro problema a discutir é de
natureza democrática. Afinal, quem foi eleito presidente da República, Lula ou
Lira? Em quem pensava a maioria dos brasileiros quando derrotou Bolsonaro?
Diante de um governo que se instala
vitorioso, depois de apresentar um programa à sociedade, não tem sentido a
Câmara definir como ele deve se organizar para exercer suas tarefas. Pelo menos
teoricamente, ele sabe de que tipo de estrutura necessita para realizar o
trabalho.
As mudanças que a Câmara fez são absurdas. Como retirar a gestão das águas do Meio Ambiente, sem perceber que o tema envolve não apenas irrigação de lavoura, mas também proteção de nascentes, medidas estratégicas para garantir que gente e bicho não tenham sede? Como dissociar do Meio Ambiente a questão dos resíduos sólidos, que envolve todo um complexo que não se esgota na construção de aterros sanitários, mas passa pela educação ambiental, pelo estímulo à indústria da reciclagem e tantos outros procedimentos?
Demétrio Magnoli - Quando o inferno é a realidade
O Globo
Como governar sem uma base majoritária
estável?
‘O
inferno são os outros.’ Jean-Paul Sartre referia-se tanto aos alemães
invasores, denominados “os outros” pelos franceses na guerra mundial, como ao
julgamento dos demais, que constrange a liberdade de pensar. Menos
filosófico, Lula também
tem seus “outros”, que são a maioria do Congresso. Como governar sem uma base
majoritária estável? Eis a pergunta que o atormentou nos seus mandatos
pretéritos e volta a afligi-lo no presente.
Nos sistemas parlamentares, o governo nasce de um acordo programático que lhe confere maioria segura no Parlamento. FH só precisou distribuir cargos na máquina estatal para soldar uma maioria no Congresso. É que seu programa econômico — estabilização da moeda, equilíbrio fiscal, privatizações, agências reguladoras — tinha amplo apoio político no Congresso. O PT, porém, sempre governou com um Congresso ideologicamente hostil. Decorre daí que Lula foi obrigado a expandir os limites do “presidencialismo de coalizão” além das fronteiras da legalidade.
Edu Lyra - Lição da maior ONG do mundo
O Globo
Entidade conta com 50 mil funcionários,
desenvolvendo projetos em países como Bangladesh, onde nasceu
Será que uma ONG pode mudar um país?
Olhando para o trabalho da Brac em Bangladesh,
é inevitável concluir que sim.
A Brac é hoje a maior ONG do mundo. Seu
orçamento anual é de US$ 1,5 bilhão, e ela conta com 50 mil funcionários,
desenvolvendo projetos em países como Bangladesh, onde nasceu, mas também Afeganistão, Ruanda, Serra Leoa, Filipinas e
vários outros. Seu fundador, Fazle Hasan Abed, é provavelmente o maior
empreendedor social deste século.
Eu sonhava havia anos conhecer a Brac, para aprender com sua expertise. Recentemente o sonho se realizou. Passei uma semana em Bangladesh fazendo uma imersão na ONG e firmando parcerias que potencializarão o trabalho da Gerando Falcões aqui no Brasil.
Jeffrey Sachs* - As guerras dos EUA e a crise da dívida
Valor Econômico
Enfrentar o lobby militar-industrial é o
primeiro passo vital para colocar a casa fiscal em ordem
No ano 2000, a dívida governamental dos
Estados Unidos somava US$ 3,5 trilhões, equivalente a 35% do Produto Interno
Bruto (PIB). Em 2022, a dívida estava em US$ 24 trilhões, equivalente a 95% do
PIB. A dívida do país está decolando, daí a atual crise da dívida americana.
Ainda assim, tanto republicanos quanto democratas estão ignorando a solução:
interromper as chamadas “guerras de escolha” dos EUA e diminuir os gastos
militares.
Suponha que a dívida do governo tivesse
permanecido em modestos 35% do PIB, como em 2000. Hoje, seria de US$ 9
trilhões, em vez de US$ 24 trilhões. Por que o governo dos EUA contraiu esse
adicional de US$ 15 trilhões em dívidas?
A maior resposta é o vício do governo americano em guerra e gastos militares. De acordo com o Watson Institute, da Brown University, o custo das guerras americanas entre os anos fiscais de 2001 e de 2022 totalizou US$ 8 trilhões, mais da metade desses US$ 15 trilhões extras em dívidas. Os outros US$ 7 trilhões se referem ao déficit orçamentário decorrente da crise financeira mundial de 2008 e ao da pandemia da covid-19, em quantias mais ou menos iguais.
Sergio Lamucci - Agenda ampla para melhorar produtividade segue distante
Valor Econômico
Passados quase cinco meses do governo Lula,
a falta de uma agenda ampla para a melhora da produtividade chama a atenção.
Entre as prioridades, a reforma tributária é uma das únicas que, se for
adiante, aumentará a eficiência da economia. Outras iniciativas e intenções vão
na direção contrária, como a renúncia tributária para a indústria automotiva, a
disposição para aumentar com força o volume de crédito do BNDES, a mudança de
política de preços da Petrobras e
os decretos que mudam o marco do saneamento, autorizando estatais estaduais a
prestar serviços sem licitação, já derrubados pela Câmara e ainda a serem
apreciados pelo Senado.
“Com o fim do bônus demográfico, a única forma de aumentar a renda per capita e gerar crescimento sustentável no Brasil nas próximas décadas será por meio da elevação da produtividade do trabalho”, resumem os pesquisadores Fernando Veloso, Silvia Matos, Fernando de Holanda Barbosa Filho e Paulo Peruchetti no Boletim Macro do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre). Período em que a população em idade ativa cresce a um ritmo superior ao da população total, o bônus demográfico ficou para trás, indicando que terminou a fase mais favorável da estrutura etária para o crescimento.
Bruno Carazza* - Convite para refletir sobre nossos privilégios
Valor Econômico
Deduções de despesas da classe média na
declaração do Imposto de Renda tornam sistema tributário do país mais injusto
Duas semanas atrás, usei este espaço para
criticar os benefícios que a indústria automobilística sempre recebeu no
Brasil, fatura que acaba de crescer com o relançamento do novo “carro popular”
de Lula. Na segunda passada, chamei atenção para as elevadas remunerações da
elite do funcionalismo nos três Poderes da República, e de como essas carreiras
têm pressionado por maiores penduricalhos salariais.
O Estado brasileiro é pródigo em conceder benesses das mais variadas naturezas para empresas e indivíduos que se julgam merecedores de tratamento diferenciado, sob os mais diversos argumentos. São tantas as regalias que fica fácil apontar o dedo para os agraciados. Difícil é admitir nossos próprios privilégios.
Marcus André Melo* - Acabou o presidencialismo?
Folha de S. Paulo
Na intersecção dos planos externo e
doméstico, o meio ambiente é símbolo dos percalços do governo
Durante a campanha eleitoral, Lula
referiu-se a Bolsonaro como um "bobo da corte". "Acabou o
presidencialismo. Bolsonaro não manda nada, é refém do Congresso". Na
primeira reunião ministerial do governo reconheceu o risco de tornar-se um:
"nós não mandamos no Congresso, nós dependemos dele". Decorridos
cinco meses, já vemos os sinais que o risco está se materializando.
Era previsível: trata-se de um presidente hiperminoritário cujo partido detém 13% da Câmara e que conta com um apoio leal de meros 130 deputados (1/4 da câmara). Essa configuração já existiu no passado. Mas muita coisa mudou: a economia, estressada; o Legislativo, muito mais centralizado (legado da pandemia e Bolsonaro), muito menos fragmentado, e com muito mais recursos; o país virando à direita.
Camila Rocha* - São Paulo desafia extrema direita
Folha de S. Paulo
Periferia da capital foi responsável por
formar um cordão sanitário contra o bolsonarismo em 2022
Acompanhar as
tendências políticas da cidade de São Paulo é crucial para compreender os rumos
da política brasileira. Não apenas são parte de sua história
lançamentos de lideranças políticas, criação de partidos, sindicatos,
associações empresariais e movimentos sociais que alcançaram âmbito nacional, como
seu eleitorado eventualmente adianta tendências nacionais.
Marta
Suplicy, por exemplo, foi prefeita na cidade pouco antes
de Lula
conquistar a Presidência pela primeira vez. Já a vitória
de João Doria anunciou a ascensão de lideranças de direita mais
radicais e ideológicas.
A despeito de já ter abrigado candidaturas ideologicamente opostas na prefeitura, como Luiza Erundina e Paulo Maluf, é possível afirmar que existe certa estabilidade no eleitorado paulistano.
Ana Cristina Rosa - Mudar a pergunta é revolução
Folha de S. Paulo
Públicos ou não, casos de racismo são parte
do cotidiano de milhões de pessoas
O assassinato de Genivaldo de Jesus —o homem negro, com
esquizofrenia, asfixiado até a morte numa viatura transformada em câmara de gás
por policiais rodoviários federais— completou um ano na quinta-feira (25).
Apesar da fartura de imagens acerca do ocorrido às margens de uma rodovia no
Sergipe, passaram-se 12 meses até que a PRF dirigisse um pedido de desculpas à família, que
segue esperando por justiça e indenização.
Na quarta-feira, um jogo eletrônico estimulando a exploração sexual e a tortura de pessoas negras foi retirado da loja virtual da multinacional Google. Intitulado "Simulador de Escravidão", o dito "entretenimento" (contém tristeza e ironia) estava fazendo sucesso. Além de avaliações positivas, usuários pediam por mais opções de castigos físicos —pasmem os minimamente civilizados.
Lygia Maria - A Ceci alienada
Folha de S. Paulo
Há riqueza em atualizar obras de arte do
passado, o problema é subjugar a estética à política
A ópera "O Guarani", apresentada neste mês no
Theatro Municipal de São Paulo, gerou polêmica. Com concepção geral de Ailton Krenak,
escritor e líder indígena, a montagem adaptou a obra do maestro Carlos Gomes,
de 1870, para os tempos atuais.
Há enorme riqueza em fusões entre passado e
presente, erudito e popular, e a história da arte moderna comprova isso. O
problema é subjugar a estética à política.
Em uma das cenas de maior lirismo, quando a adolescente portuguesa Ceci canta sua paixão pelo indígena Peri, são exibidas imagens de indígenas acompanhadas de palavras de ordem contra a colonização e a exploração dos povos originários.
Carlos Pereira* - Salvando a própria pele?
O Estado de S. Paulo
Impeachment para ‘salvar a própria pele’ se baseia em premissas que não têm sustentação nos fatos
A narrativa de que o impeachment de Dilma
foi motivado para liquidar a Lava Jato parte da premissa de que teria sido mau
negócio para o MDB-PSDB, e que, por conta dele, foram dizimados das eleições em
2018.
Mas será mesmo que não existiriam ganhos de
curto prazo para tais partidos com o impeachment? Deveriam esperar até 2018 se
poderiam ter acesso ao poder já em 2016?
Foi a partir dos resultados do governo Itamar, pós-impeachment de Collor, que as portas se abriram para dois mandatos consecutivos do PSDB. Os partidos que romperam com Dilma, após anos de má gerência de coalizões do PT, se engajaram no impeachment com expectativa de ganhos similares.
O que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões
Planalto tenta reagir para reparar danos no Ambiente
Valor Econômico
Presidente Lula prometeu vetar os trechos
da lei que atentam contra a Mata Atlântica
O governo começou a reagir aos reveses
impostos pela bancada ruralista e legendas do Centrão na MP que reorganiza os
ministérios e que pode esvaziar os dois mais simbólicos: Meio Ambiente e o dos
Povos Indígenas. A luta contra o aquecimento global é uma cruzada mundial,
ocupa posição central na reorganização produtiva e no impulso a novas
tecnologias. A Amazônia tem papel central, não só por sua função na regulação
do clima do planeta e sua incrível biodiversidade, mas também porque ela abriga
os que nela vivem desde o princípio, os povos indígenas. A tragédia da
desnutrição dos yanomamis é resultado da mesma lógica da que comanda a
destruição impiedosa das florestas. As duas pastas sob risco de enfraquecimento
têm missões literalmente vitais.
A Comissão Mista do Congresso aprovou por
esmagadora maioria - com comemoração da bancada petista no Senado - uma
reorganização que retira atribuições fundamentais da pasta de Marina Silva,
como o Cadastro Ambiental Rural, entregue ao Ministério de Gestão e da Inovação
em Serviços Públicos, cujos objetivos nunca passaram remotamente perto da nova
tarefa que colocam em suas mãos. Além disso, saem de sua guarida a política de
recursos hídricos e resíduos sólidos.
O CAR é essencial para orientar o combate ao desmatamento, identificar agressões ao (e agressores do) ambiente e mapear as necessidades de recuperação de áreas degradadas, entre outras. A batalha da bancada ruralista contra o Cadastro é antiga e a adesão ao programa nele baseado, o Programa de Recuperação Ambiental, foi adiado mais um vez por iniciativa do governo Bolsonaro, que emitiu a MP 1150 para esse fim. A Câmara dos Deputados nela incluiu dispositivos que permitem a devastação ampla e absoluta do que resta da Mata Atlântica, o Senado os retirou, mas eles foram reintroduzidos pelos deputados em votação final.
domingo, 28 de maio de 2023
Paulo Fábio Dantas Neto* - Os acertos da área econômica e os dilemas de Lula e Marina
Esse trabalho articulado e unitário da área econômica neutralizou objeções domésticas - que sabidamente existem, em setores da esquerda e do próprio governo - e colheu, para o presidente Lula, vitória significativa, numa conjuntura adversa, repleta de percalços e revezes, parte deles derivada de voluntarismos e açodamentos a granel, complicadores do discurso e ação do presidente e seu governo. Vitória ainda mais significativa por ter ocorrido por larga margem, num ambiente legislativo que tem se tornado crescentemente refratário, às vezes mesmo hostil, a intenções e pontos da agenda do Executivo. Vitória que coloca à disposição de analistas da política a evidência cabal de que é possível, sim, haver cooperação entre atores cujos papeis podem colocá-los, mais adiante, em situação de competição. O fato de Haddad, Simone e Alckmin poderem vir a ser nomes postos no tabuleiro eleitoral de 2026 não impede que atuem juntos, assumindo, como objetivo comum, algo que, além de interessar ao futuro político de cada um deles, interessa ao país, o qual torna-se credor desse realismo bem compreendido.
Carlos Melo - Inércia e ''Lirismo'', a oligarquia de coalizão
Ipo News
O cientista político Carlos Melo, professor
Sênior Fellow do Insper, considera que o modelo do "Lirismo", numa
referência criada para o presidente da Câmara, deputado Arthur Lira, se resume
ao fisiologismo agregador: uma "Oligarquia de Coalizão" ou a oligarquia
das coalizões. Seu novo artigo foi publicado esta semana, no Headline Ideias:
Em inércia, o movimento tende ao infinito. Um corpo interrompe ou altera sua
rota somente se alguma força atuar sobre ele. Física básica. Em política, sem
obstáculos, forças ou aparas, o movimento de indivíduos e ou grupos se volta
aos próprios interesses. Se nada o detiver, seguirá retilíneo, uniforme e
indiferente ao interesse geral. Farinha pouca, sem pressão, não sobrará raspa
de pirão.
A política se traduz pela multiplicidade de atores e o conflito entre seus
reais interesses. A filosofia elaborou o "sistema de freios e
contrapesos", pensado para impedir transtornos de movimentos, mais que
autônomos, deletérios. "Como o gás, o poder tem a forma daquilo que o
contém". Sem limites, se espalha. Dependendo das condições atmosféricas,
se dissipará jamais.
Contestação e oposição impedem a tirania. Não há democracia sem elas. Tampouco
há democracia sem responsividade (Robert Dahl). A ausência de oposição é a mãe
das oligarquias.
Merval Pereira - Recato à brasileira
O Globo
Presença de ministros do STF no churrasco
de Lula mostra promiscuidade de Brasília
A notícia de que os ministros do Supremo
Tribunal Federal (STF), Gilmar Mendes e Alexandre de Moraes, além do ministro
aposentado recentemente Ricardo Lewandovsky, estiveram presentes no churrasco
que o presidente Lula organizou na sexta-feira no Palácio Alvorada, juntamente
com ministros do Governo e lideranças partidárias, não causou espanto pela
frequência com que ministros do Supremo se encontram em Brasília com políticos,
advogados e empresários em reuniões informais, mesmo quando esses respondem a
algum processo que está ou poderá estar em votação no STF.
O tema do churrasco, por exemplo, era como enfrentar a rebelião no Congresso que esvaziou a política ambiental do governo. O caso pode parar no Supremo, mas essa possibilidade não inibiu os ministros. O fato se repete, não apenas em governos petistas, mas também no de Bolsonaro, além de conversas reservadas com presidentes como Michael Temer. Considerado o mais influente ministro do Supremo, Gilmar Mendes encontrou um concorrente à altura em manobras de bastidores no ministro Alexandre de Moraes, assim como já tivera no ministro Luis Roberto Barroso um constitucionalista de saber tão reconhecido quanto o seu.
Dorrit Harazim - Espécie animal
O Globo
Toda sociedade alicerçada no racismo tem
medo de extirpá-lo, pois ele lhe aufere privilégio
A parte mais sensível do corpo de um urso é
seu focinho. A informação, inútil para a maioria da população global, nunca foi
mero fait divers para as seculares etnias de ciganos da Bulgária.
Naquele pedaço dos Bálcãs, o controle de ursos pelo focinho era essencial para
garantir a milenar forma de ganha-pão e entretenimento do povo roma: capturar,
domesticar e treinar esses mamíferos de grande porte até que se tornassem
servidores dóceis e atração ambulante. Com as narinas perfuradas por argolas de
metal, os animais se sujeitavam a toda sorte de comandos inglórios, como dançar
sobre patas traseiras ou ingerir bebidas alcoólicas.
Essa forma de entretenimento para humanos durou até o final do século XX. Foi somente com a implosão do bloco soviético, a que a Bulgária estava atrelada, que os ursos domesticados puderam empreender, também eles, a difícil transição do cativeiro para a liberdade. Não foi fácil. Quem melhor a descreveu foi o jornalista polonês Witold Szablowski, com “Dancing bears — True stories of people nostalgic for life under tyranny”, publicado cinco anos atrás, traduzido para uma dezena de línguas e já citado neste mesmo espaço. Retoma-se aqui o ângulo central da obra, mas para virá-la do avesso. O episódio de racismo escancarado contra o jogador brasileiro Vinícius Jr. , testemunhado pelo mundo na semana passada, serve de gancho para a releitura.
Luiz Carlos Azedo - A posição sobre a Ucrânia pôs o Brasil numa encruzilhada
Correio Braziliense
O nacional-desenvolvimentismo e a tradição
anti-imperialista da esquerda brasileira influenciam a política externa. Isso
provoca o realinhamento de forças que priorizam a questão democrática
Artigo de Lourdes Sola e Eduardo Viola,
professores do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo
(USP), publicado, ontem, no Estado de S. Paulo, sobre as mudanças na política
mundial e o posicionamento do governo Lula, merece profunda reflexão. Destaca
que houve uma mudança na geopolítica mundial que exige um reposicionamento
cuidadoso do Brasil. Isso parece não ter sido devidamente avaliado pelo presidente
Luiz Inácio Lula da Silva, cuja diplomacia é presidencial e comandada pelo
ex-chanceler Celso Amorim, embora o Itamaraty tenha massa crítica para fazê-lo
com mais competência.
“A invasão russa da Ucrânia consolidou um forte componente de guerra fria entre as democracias do ‘Ocidente coletivo’ (que inclui Japão, Coreia do Sul, Taiwan, Austrália e Nova Zelândia) e o bloco autocrático (com China, Rússia, Irã e Coreia do Norte). Esse confronto delineia-se desde 2015, mas o traço que define a guerra fria é mais recente: cada bloco vê o outro como ameaça existencial. Está em pleno curso o desacoplamento entre ambos no referente à alta tecnologia e, particularmente, à tecnologia de uso dual (civil e militar)”, avaliam Sola e Viola.

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