Valor Econômico
Se a subestimativa do voto de direita favorece Flávio Bolsonaro, a quebra de sigilo é a bala de prata de Lula
O debate da Band deu o tom da dramaticidade da última semana de campanha que se iniciou com a rodada da BTG/Nexus em que a diferença entre os finalistas se estreitou para 0,6 ponto. Equivaleria a uma vantagem inferior a um milhão de votos do senador Flávio Bolsonaro, não fosse a subestimativa histórica do voto da direita, em média, de 1,4 ponto. Caso se repita, o “voto envergonhado” do eleitor que se omite ou mente para ser melhor aceito no seu meio social, deixaria o presidente Luiz Inácio Lula da Silva numa desvantagem um pouco acima de 2 milhões, a mesma do 1º turno. Tudo isso se a eleição fosse hoje, mas, até domingo, cada dia vai ser um round. A bala de prata de Lula passou a ser a quebra do sigilo dos candidatos e suas famílias.
A tensão começou a subir na véspera do
debate, quando a CNN exibiu uma entrevista repleta de acusações da lobista
Roberta Luchsinger contra Lula. O presidente confirmou o ditado sobre o risco
de se chamar alguém de “pilantra”: se não for, é uma injustiça, se for, é um
perigo. A lobista foi a arma com a qual o senador do PL abriu o confronto.
Não bastasse o pugilato sem nocaute no
estúdio, a tensão invadiu a sede da emissora com o falso alarme de bomba. Os
cães do Gate, informou o comandante do grupo da PM de situações de alto risco,
farejaram substâncias químicas, mas não bomba, no carro do senador. O candidato
do PL não aguardou o fim da investigação e deixou a Band de carona com o
governador Tarcísio de Freitas.
A tensão prosseguiu madrugada adentro com a
internação, por arritmia cardíaca, do comandante da ofensiva digital de Lula, o
deputado federal André Janones (Rede-MG). A origem foi encontrada no início da
manhã desta segunda pelo relatório da ActivaWeb mostrando que o engajamento digital
do debate pendeu para Lula.
No monitoramento da Bites, que avançou até a
tarde de segunda, as buscas sobre Ana Clara, a criança morta por um PM
defendido pela advocacia de Flávio Bolsonaro, cresceram mais que qualquer outro
tema. O do Democracia em Xeque confirmou o dado e acrescentou outro. Lula
dominou as hashtags, termos antecedidos pelo símbolo do “jogo da velha” que
agrupam publicações semelhantes. Aquela sobre a abertura de sigilo de Flavio
Bolsonaro foi a que registrou mais visualizações por publicação no Instagram.
A quebra de sigilo bancário foi proposta por
Lula quando faltavam apenas 15 minutos para o fim do confronto. Até aquele
momento, o candidato à reeleição comeu todas as iscas largadas pelo adversário
para tirá-lo do debate propositivo e arrastá-lo para a rinha da troca de
acusações. Flávio Bolsonaro foi mais objetivo e falou diretamente ao
telespectador, mas o cerco sobre Lula passou arrogância a indecisos que
participaram de grupos de pesquisa qualitativa e também reprovaram o comportamento
fugidio de perguntas.
O ex-candidato do Missão à Presidência, Renan
Santos, ao analisar o debate, reprovou o comportamento “performático” do
senador. Do alto de sua experiência no tema, decretou: “Não funciona”. Já Lula,
no bate-boca que prestou um desserviço ao telespectador, só conseguiu
desautorizar qualquer previsão de que seria um bis do ex-presidente americano,
Joe Biden, cuja paralisia num confronto com Donald Trump levaria à sua troca
pela vice, Kamala Harris. Pecou por excesso, não pela falta de reação à
ofensiva de seu adversário.
Ambos colecionaram tropeços que buscarão
corrigir no último confronto, da sexta, na Rede Globo. Antes disso, porém, o
clima ameaça pesar com os desdobramentos do inquérito aberto no STF para apurar
suspeitas de lavagem de dinheiro envolvendo Willer Tomaz, suas empresas e
Flávio Bolsonaro. São amigos e fizeram, pelo menos, um voo juntos no avião de
Daniel Vorcaro, do Master.
O UOL revelou um relatório da Polícia Federal
em que o senador é citado como usuário de uma conta bancária do advogado. Como
o relator deste inquérito é o ministro Alexandre de Moraes, a expectativa em
torno da quebra de sigilo desta conta invadiu as apostas em Brasília nesta
segunda. É isso que dirá se, na fumaça vista por Lula, havia fogo.
A isso, some-se a tensão gerada pela pressão
sobre a Meta, cuja suspensão de perfis nas redes foi denunciada pela Coalizão
em Defesa do Jornalismo à Agência Nacional de Proteção de Dados por ferir a
liberdade de expressão e de imprensa. Em função desta petição, a ANPD dá cinco
dias de prazo para a empresa fornecer explicações sobre seus procedimentos. Ou
seja, vai ser uma briga para depois das eleições. Se o PL eleger seu candidato,
sua bancada digital pretende retirar poderes da agência e revogar o decreto que
regulamentou o Marco Civil da Internet. Ou seja, a Meta deixaria de ser
pressionada para estender, ao Brasil, a transparência já exigida em outros
países.
O PT vai avançar sobre a Meta até domingo mas
o mais provável é que, de imediato, a ofensiva sirva à façanha de perfilar um
presidente da República como candidato antissistema.
E a dúvida dos estrategistas eleitorais é se
toda essa tensão da reta final vai sair das bolhas dos candidatos para atingir
o eleitor indeciso e tirar de casa uma fatia daqueles que, por idosos, ou
jovens demais, não são obrigados a votar. São mais de 22 milhões de eleitores,
77% dos quais têm mais de 70 anos de idade. A única bolha a que pertencem é a
de sua aposentadoria, dos remédios da Farmácia Popular, e das perspectivas de filhos
e netos progredirem na vida. A ver se, no próximo debate, algum dos candidatos
o alcançará.

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