domingo, 25 de outubro de 2026

Muito mais do que nove dedos, por Míriam Leitão

O Globo

A perda da democracia rondou a campanha de 2026. Para não ver o perigo seria preciso esquecer a história recente do país

A frase de Flávio Bolsonaro parecia ter sido treinada na preparação do candidato e não um chiste que saiu no calor do debate. Era isso mesmo que ele queria dizer. Quando falou dos nove dedos do presidente Lula, a plateia que ele levou ao debate riu. O candidato queria humilhar Lula, mas, na verdade, revelou quem é e no que acredita. É a exaltação da cultura que machuca quem tem alguma limitação física, que exalta apenas os fortes, os definidos como “normais”. A cultura que exclui e espalha cicatrizes em crianças tratadas com desprezo nas escolas, por qualquer diferença que tenha em relação ao padrão dominante. A perversidade que fere milhões e que precisou de uma palavra em inglês para ser definida. É o “bullying”.

A faixa como escudo, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Imunidade do cargo blindaria candidato do PL de denúncias e processos por quatro anos

A informação surgiu em relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras, o Coaf. Flávio Bolsonaro realizou uma série de movimentações bancárias incompatíveis com a renda que declara à Receita. Numa das operações atípicas, o candidato do PL recebeu R$ 520 mil de um escritório de advocacia e quitou o financiamento da famosa mansão de 1.100m² em Brasília. Uma morada e tanto para quem sempre viveu do dinheiro público, desde o primeiro emprego como funcionário fantasma da Câmara.

É preciso votar, por Merval Pereira

O Globo

Se ganhar a eleição é o que importa, não como governar, estaremos sempre nas mãos dos populistas de ocasião, sejam de esquerda ou de direita

A campanha eleitoral que começou anódina leva hoje às urnas milhões de eleitores que definirão o próximo presidente da República a partir de propostas antagônicas na prática, e aproximadas pela retórica eleitoral. O conservadorismo, na sua expressão mais rasteira, está em disputa. Conservar Lula e o PT no governo representa uma homenagem à carreira brilhante de um nordestino de nove dedos que não se deixou abater pelos percalços de uma vida sofrida e entrou para a história brasileira pela porta da frente, embora possa terminar com uma derrota humilhante para um rapaz, como ele chama, que não tem história nem conteúdo, e chegou onde chegou pelo sobrenome Bolsonaro, como um avatar do próprio pai, que está preso por uma tentativa de golpe.

Só à noite vai se saber o nome, por Elio Gaspari

O Globo

Continua de pé a previsão do banqueiro André Esteves: 'A eleição será 51% a 49%, só não sabemos para quem'

Debate civilizado como o da TV Globo tem algo de monótono. Tanto é assim que o momento mais eletrizante foi o último bloco, quando eles passaram a se insultar. Isso não foi consequência de uma preferência pelo baixo nível, mas resultado de um segundo debate sem ideias novas.

Esse segundo debate pode definir votos de quem não ia votar ou virar votos em branco ou nulos, mas virar de Bolsonaro para Lula (ou vice-versa), a chance é mínima.

Uma eleição esquisita, parecida com o rei Luís XVII da França, cujo reinado não houve.

Fim do ‘saco de bondades’, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

A realidade é dura e, se der Lula, seu problema será o Congresso, se der Flávio, serão as ruas

Se o presidente Lula vencer, seu grande problema será o Congresso. Se Flávio Bolsonaro for o vitorioso, o mais provável, seu maior desafio serão as ruas. Em qualquer caso, o futuro presidente terá pela frente as instituições em frangalhos, uma crise fiscal de bom tamanho e um País rachado ao meio.

Na hipótese de uma virada histórica, Lula terá mais uma vitória, mais um mandato para sua biografia e a chance de, finalmente, preparar um sucessor para uma esquerda sem rumo. Mas ele vai enfrentar um PL avassalador no Congresso e corre um grande risco: fechar a longa carreira com um governo mequetrefe, de forma melancólica. O terceiro mandato já não foi lá essas coisas.

As regras do jogo, por Luiz Sérgio Henriques*

 

O Estado de S. Paulo

Não é possível escolher o terreno da luta, mas pode-se fixar o objetivo comum de restabelecer a integridade do espectro político

Não é nada incomum, na política e na vida, ter de agir sob a pressão inclemente da força das coisas. Num momento em que a recessão democrática se espalha em países-chave do Ocidente, é obrigatório valorizar os fundamentos mais elementares da nossa crença comum ou, para ser mais enfático, da nossa escolha de vida. Somos democratas – de esquerda, direita ou centro – e nos habituamos a considerar como intocável o compromisso com eleições justas e livres, embora os fins pelos quais lutamos possam divergir. Numa formulação um tanto mais teórica, por princípio interessa-nos menos o resultado do jogo do que as regras sob as quais ele é jogado.

Uma campanha miserável em grandes debates, por Rolf Kuntz

O Estado de S. Paulo

O Brasil vivido no dia a dia pouco se assemelha ao País mostrado, muito de longe, na maior parte do falatório eleitoral

Fundamental para todos e chata para muitos, a economia foi um tema pouco discutido nas semanas finais da eleição. Sem familiaridade com esse e com outros temas da administração, o candidato oposicionista, Flávio Bolsonaro, pouco se aventurou nessa área. Envolvido na discussão econômica desde sua fase sindical, o presidente Lula avançou com moderação nesse debate, embora pudesse beneficiar-se muito mais de sua experiência no setor público. Durante a maior parte da campanha, os dois deram atenção talvez excessiva à orientação de seus assessores, muito voltada para o comportamento nos palcos.

O que a mídia pensa | Editoriais \ Opiniões

Democracia e rigor fiscal para reduzir os juros e a pobreza

Por Folha de S. Paulo

A Folha reafirma o compromisso de não recomendar voto em partidos ou nomes; a opção pelo apartidarismo fortalece a posição de submeter ao crivo da crítica qualquer um que saia vencedor

Um eleitorado mais uma vez dividido ao meio decidirá neste domingo (25) quem governará o Brasil nos próximos quatro anos. O vitorioso terá o desafio de recolocar as contas públicas nos trilhos, condição indispensável para uma queda sustentável dos juros —sem novos surtos inflacionários — que permita ao país crescer e, assim, reduzir a pobreza. Respeitar o Estado democrático de Direito é mandatório.

Se vencer Flávio Bolsonaro (PL), o Brasil voltará a lidar com o grupo político cuja passagem pela Presidência da República deixou um legado nefasto para a institucionalidade. Durante sua administração, de 2019 a 2022, Jair Bolsonaro (PL) investiu reiteradamente contra a democracia.

O Brasil está pronto para mais, por Luiz Inácio Lula da Silva*

Folha de S. Paulo

Brasileiras e brasileiros verdadeiramente patriotas foram para as ruas defender nossas conquistas

A mudança já começou e seguirá no rumo certo; por cada Silva do nosso imenso país, nós iremos vencer

A cada eleição, o processo eleitoral brasileiro assiste à escalada das plataformas digitais. Aos poucos, as telas foram tomando o espaço que era das pessoas. Candidatos passaram a se eleger apertando o botão do celular, sem precisar apertar a mão do eleitor. Mas, em 2026, isso mudou, e o que vimos vai entrar para a história. O povo entendeu que esta eleição não é entre dois candidatos. Ele, o povo, é o próprio candidato.

Vivemos um raro momento de mobilização popular no Brasil. Milhares de movimentos de rua acontecem sem organização partidária, de maneira viva e espontânea. O povo se juntou e tomou para si a campanha.

De Silva em Silva, o Brasil se reencontrou na presença; no "tête-à-tête", amontoou-se e fez de muitas uma só voz.

Se 5% dos eleitores de Flávio forem sinceros sobre corrupção, Lula vence, por Celso Rocha de Barros

Folha de S. Paulo

Senador tem o direito de se defender de todas as acusações

Mas elas são tantas que é melhor que ele as explique antes de se tornar presidente

Se Flávio Bolsonaro for eleito, será o primeiro presidente que, quando chegar para negociar com o Congresso, encontrará gente mais honesta do que ele está acostumado.

No Rio de Janeiro, Flávio tem dois aliados presos por ligações com o Comando Vermelho, TH Jóias e Rodrigo Bacellar. Quanto às milícias, Flávio já as homenageou em discurso e garantiu emprego à mãe e à irmã do chefe do Escritório do Crime.

Levantamento do pesquisador Bruno Pantaleão , da Fundação Getúlio Vargas, mostrou que, em média, Flávio teve 5,6 pontos percentuais de votos no primeiro turno a mais nas áreas controladas por milícias do que no resto do estado.

O dia depois de amanhã: economia difícil e um presidente impopular, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Desde 2018, popularidade de governos é baixa; é improvável que seja diferente em 2027

Sem prestígio e força legislativa, presidentes são depostos ou ficam reféns do Congresso

Luiz Inácio Lula da Silva 3 e Jair Bolsonaro jamais obtiveram nota "ótimo ou bom" de mais do que 38% do eleitorado, pelos dados do Datafolha. A popularidade presidencial varia de modo amplo. Presidentes que atingiram aprovação maior do que Lula 3 e Bolsonaro passaram também por baixas de prestígio importantes.

Mas: 1) Chegaram a ter prestígio muito maior do que Lula 3 e Bolsonaro, ressalte-se; 2) Não contavam desde o início e por quase o mandato inteiro com a desaprovação de um terço do eleitorado ou muito mais (aquele que dá nota "ruim ou péssimo"). Foi o caso de FHC 1, Lula 1 e 2, Dilma 1.

Mulheres que amam seus carrascos, por Muniz Sodré

Folha de S. Paulo

Na vida cotidiana, as ilusões de superioridade masculina incrementam a fúria narcísica da violência

Relativizar o ordenamento patriarcal desestabiliza a consciência do sujeito

Se fosse possível retroagir no tempo legislativo, a Lei Maria da Penha não teria sido aprovada por parlamentares femininas da estirpe das estaduais e federais mais votadas nos estados de São Paulo e Santa Catarina. Se lessem, levariam à sola da letra uma reflexão dostoievskiana: "Não há homens maus, há homens infelizes" (em "Os Irmãos Karamazov"). Assim, para elas, o homem que assassina uma mulher não agiria por maldade, mas por infelicidade. Feminicídio não existe, é invenção feminista, diz uma. Outra parece seguir também à letra a anciã no "Zaratustra", de Nietzsche: "Vai encontrar-se com mulheres? Não te esqueças do chicote!" Para facilidade do carrasco, já desfila com chicote pronto.

Um voto intranquilo, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Gestão Lula não entusiasma brasileiros e deixa herança maldita na economia

Flávio Bolsonaro não tem currículo para ser presidente e ainda traz risco à democracia

É perfeitamente compreensível o desejo do eleitor de impor uma derrota a Luiz Inácio Lula da Silva, mas o preço dessa escolha é a vitória de Flávio Bolsonaro, um cenário que exige reflexão.

O terceiro mandato de Lula foi, numa avaliação generosa, medíocre. Não trouxe nada que entusiasmasse, e os indicadores sociais passáveis que produziu foram obtidos de forma insustentável, com base num aumento de gastos públicos que não pode ser esticado por mais tempo. Para que a inflação não explodisse, os juros foram à ionosfera e nela permanecem, asfixiando a economia e aumentando o endividamento de empresas e famílias.

Brasil vai às urnas mergulhado num mar de incertezas, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

O resultado nas urnas é tão duvidoso quanto o rumo que qualquer um dos eleitos dará ao futuro do país

Nenhum dos dois finalistas se comprometeu de modo convincente com o enfrentamento das urgências nacionais

O Brasil vai às urnas neste domingo (25) sob a égide da incerteza. Não apenas quanto ao resultado, mas principalmente porque não se sabe de verdade qual é a firmeza e a extensão do compromisso de Luiz Inácio da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) com as urgências do país.

Prometeram muito, mas não se comprometeram de maneira clara e consistente com a estabilidade econômica e a reorganização da institucionalidade.

Flávio com K, por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

Se Flávio Bolsonaro for grato a Kassio Nunes Marques, mudará a grafia de seu próprio nome

Kassio é hoje tão poderoso que, em breve, poderá até julgar ministros suspeitos de fazer surubas

No show "Opinião", de 1964, com Nara Leão, Zé Kéti e João do Vale, Zé Kéti tinha esta fala: "Quando eu era criança, minha mãe, que era empregada doméstica, me deixava com a vizinha. Quando ela voltava para casa, a vizinha dizia: ‘Dona Fulana, o Zé ficou quietinho’. Quietinho, quietinho, acabei Zé Quéti. Aí passei a escrever meu nome com K —porque K estava por cima, estava dando sorte! Kennedy... Krushev... Kubitschek... [Referia-se ao presidente americano John Kennedy, ao premiê soviético Nikita Kruschev e ao brasileiro Juscelino Kubitschek. Risos da plateia]. É, meu camaradinha. Parece que a sorte mixou..." (Quando o show estreou, Kennedy já fora assassinado; Krushev, deposto; e Kubitschek, cassado pela ditadura.)

Poesia | Profundamente, de Manuel Bandeira

 

Música | Vermelho - Grito de Emoção - Joelma