quinta-feira, 22 de outubro de 2026

Maioria estreita dificultará pacificação, por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Quanto mais estreita a vitória no domingo, mais difícil será a pacificação do país

A democracia é celebrada como o regime em que os derrotados cedem não por que são convencidos da razão do outro, mas por serem minoria. Em quatro anos, foram poucos os lulistas e bolsonaristas que se deixaram convencer pelas razões adversárias. A resiliência da polarização é a prova disso. E o que o Brasil está para enfrentar neste domingo é a eleição mais desafiadora deste aval majoritário da democracia. São abundantes as evidências de que as urnas de domingo produzirão, em quaisquer hipóteses, o presidente eleito pela mais estreita maioria da história.

O 2º turno de 2022 produziu a margem mais reduzida até aqui. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva derrotou Jair Bolsonaro por 1,8 ponto percentual (2,1 milhões de votos). Foi também a única eleição em que o comparecimento, no 2º turno, superou aquele do primeiro. O comprovante de votação como prova de vida para o INSS não basta como explicação porque a regra já vigia antes do 1º turno. O que pode explicar, sem comprovação possível, é o bonde do susto. Tanto aquele levado pela campanha do PT, que esperava vencer no 1º turno daquela eleição, quanto o daqueles que se ausentaram acreditando que Lula não precisaria de seu voto para vencer. Aquele 2º turno mobilizou 570 mil eleitores a mais.

Os números da Quaest, divulgados nesta quarta, sugerem que esta hipótese está novamente na praça. Entre as razões para a vantagem do senador Flávio Bolsonaro ter se estreitado para apenas um ponto está a adesão maior a Lula daqueles que se abstiveram ou votaram em branco e nulo no 1º turno. Teve ainda a indecisão, que dobrou no voto espontâneo, entre mulheres e eleitores que se dizem independentes. E, finalmente, a pesquisa registrou o efeito do medo da volta dos Bolsonaro sobre eleitores que, prestes a concluir este ciclo, tenham parado para pensar.

Se o canal criado pelo deputado federal André Janones (Rede-MG) já vinha recebendo os créditos pela reação, a minuta que chegou a ser considerada pelos ministros do TSE, Nunes Marques e André Mendonça, de uma proposta que tirava do ar canais do gênero nas últimas 48h da campanha, passou o recibo.

O canal é conduzido por uma liderança nascida do mesmo movimento de caminhoneiros que impulsionou o bolsonarismo em 2018. Depois de dominar as sinapses, os algoritmos e até as rachadinhas em que o populismo de direita foi parido, migrou para o lulismo. Visto, inicialmente, como uma bolha de convertidos, o canal acabou servindo de incubadora de conteúdo de campanha para a reverberação de 7,5 milhões de lulistas.

Os trabalhadores do Vale do Jequitinhonha, que sempre migram nesta época do ano para a colheita de café no Sul de Minas, não têm como voltar a seus domicílios eleitorais para votar, nem tampouco estudantes de baixa renda do Sertão da Bahia que fazem universidade em Salvador ou empregadas domésticas de Belém com registro eleitor em Parauapebas. Mas a expectativa de que este 2º turno repita o de 2022 e registre uma abstenção menor do que os 21%, ou 33 milhões, pode funcionar para contingentes que não enfrentem barreiras estruturais mais expressivas.

A campanha bolsonarista não está imobilizada frente à ofensiva adversária. O canal concorrente àquele criado por Janones, o ‘Tropa do Flávio’, que tem 2 milhões de seguidores, veiculou, nesta quarta, um vídeo em que PMs conduziam três adolescentes em Piracicaba (SP), todos com camisetas idênticas e novinhas da campanha petista, com quem teriam sido encontrados 160 invólucros de cocaína, revólver e dinheiro. São fatos ou ecos de 1989?

No dia do 2º turno daquela eleição, policiais estouraram o cativeiro onde o empresário Abílio Diniz era mantido refém. Em depoimento à Justiça, os criminosos afirmaram ter sido torturados e obrigados a vestir camisetas do PT antes de serem apresentados à imprensa. Como o principal mentor dos canais digitais bolsonaristas desta campanha, Pablo Marçal, foi condenado pela justiça eleitoral por ter falsificado um atestado médico de surto psicótico por uso de cocaína do atual ministro da secretaria-geral da Presidência, Guilherme Boulos, esta é uma guerra sem fronteiras.

Esta quinta-feira será tomada pelo embate da quebra de sigilo bancário e pelos desdobramentos do inquérito no Supremo Tribunal Federal que investiga o advogado Willer Tomaz e Flávio Bolsonaro. As condições impostas pelo candidato do PL à abertura do seu sigilo, a extensão da medida ao ex-chefe de gabinete da Presidência, Marco Aurélio Ribeiro, foram aceitas por Lula. Como o caso, no TSE, é relatado pelo ministro André Mendonça, ainda não se sabe se o aceite bastará a que a proposta avance.

O eleitor chegará às urnas esgarçado no domingo. Se James Fitzjames Stephen, o inglês que, no século 19, cunhou a definição de democracia como o regime movido por aqueles que se aceitam como vencidos e não, convencidos, estiver certo, as campanhas serão mais bem sucedidas em tirar o eleitor de casa e mover indecisos do que em virar voto.

Oxalá saia das urnas um presidente capaz de apaziguar o confronto e evitar que os difíceis embates fiscais esperados para 2027, nas ruas e no Congresso, se deem nesta praça conflagrada pela campanha eleitoral. Caso contrário, o conflito por vir será capaz de provocar nostalgia da jornada exaustiva que se encerra neste domingo.

Nenhum comentário: