domingo, 14 de dezembro de 2014

Elio Gaspari - A chantagem da petrorroubalheira

Folha de S. Paulo / O Globo

Outro dia, a doutora Dilma recebeu dirigentes sindicais preocupados com milhares de trabalhadores de empreiteiras que correm o risco de perder seus empregos se obras da Petrobras forem paralisadas. No fim dessa linha está uma chantagem das grandes empresas: se a limpeza avançar, cria o risco de se "parar o país". Já há milhares de demissões e greves em estaleiros na Bahia e no Rio.

A doutora está jogando na defesa com as petrorroubalheiras. Falta- lhe iniciativa, mesmo que seja para reconhecer o que se fez de errado, para evitar que se faça pior. Está na fila das encrencas o caso da contratação de navios-sondas para perfurações.
Depois da descoberta das reserva do PréSal, a Petrobras precisava contratar naviossonda de perfuração. Podia ir ao mercado, mas os comissários, com Pedro Barusco no lance (US$ 100 milhões na Suíça), tiveram a ideia de formar uma empresa brasileira e em 2011 criaram a Sete Brasil, na qual a Petrobras tinha 10% e punha seu selo. Entre 2014 e 2018, a Sete Brasil forneceria 28 plataformas. Coisa de US$ 30 bilhões.

Um projeto desse tamanho poderia atrair investidores de todo o mundo. Entraram três bancos (BTG, Bradesco e Santander) e mais os suspeitos de sempre: os fundos Petros, Previ Funcef, Valia e FGTS. A Viúva ficou com cerca de 45% do negócio. Passou o tempo, entregaram um casco e cinco estão atrasados. A Sete já desembolsou US$ 8,9 bilhões, com uma parte em adiantamentos. Num caso, com um desembolso de US$ 2 bilhões, não há metade disso em obras. Só há uma sonda dentro do cronograma. No mercado surgiu a figura do "estaleiro Powerpoint".

Se tudo desse certo cada sonda sairia por algo em torno de US$ 1 bilhão. No mercado internacional, custavam US$ 750 milhões. Depois, seriam alugadas para operadoras, pagando-se US$ 600 mil por dia. Lá fora, esse serviço valia no máximo US$ 500 mil. Os prazos foram para o espaço, e hoje pode-se torcer para que as sondas fiquem prontas entre 2016 e 2022, se ficarem.

Quando faltou caixa, só o BTG aumentou sua participação, mas a Sete Brasil disse que ia buscar dinheiro no mundo. Piada. No início deste ano, acharam US$ 10 bilhões no Fundo de Marinha Mercante. O Banco do Brasil não topou repassar os recursos, e a tarefa foi para o espeto do BNDES. Esse financiamento tornou-se o maior projeto do banco, com uma exposição superior à que ele assumiu com Eike Batista.

A senhora pode dizer que isso são vicissitudes do mercado. Mas veja que a Sete Brasil contratou obras com seis estaleiros. Três ( Jurong, Keppel e EAS) estão de pé. A OSX do Eike virou pó. As outras duas, EEP e Rio Grande, estão com gente dormindo em colchonetes da Polícia Federal. (Na EEP há duas greves de trabalhadores.) O doutor Barusco, que defendeu a criação da Sete Brasil e foi seu diretor de operações, está preso, colaborando com a Viúva.

Na última reunião do conselho da Sete Brasil, duas operadoras de sondas resolveram cair fora. Não querem migrar das páginas de economia para o noticiário policial.
O argumento segundo o qual a investigação das petrorroubalheiras pode parar obras, gerando desemprego, é chantagem. Em alguns casos, as empresas já estavam quebradas; em outros, não haverá jeito. Botar dinheiro nelas é remunerar o ilícito. Se as doutoras Dilma e Graça Foster começarem a trabalhar hoje, esse mal pode ser remediado.

Basta mostrar que a Viúva poderá avançar no patrimônio das empresas e dos seus doutores. O Brasil não é a China, mas o companheiro Xi Jinping está fazendo exatamente isso. Primeiro ele limpa o ladrão, depois manda-o para a cadeia. Um dos empreiteiros já está vendendo os cavalos do seu haras. Em vez de tirar dinheiro do Fundo de Marinha Mercante para financiar estaleiros virtuais, depenem-se os ladrões (pessoas físicas e jurídicas) para evitar que eles depenem os trabalhadores.

A urgência de Lula - O Estado de S. Paulo / Editorial


A presidente Dilma Rousseff nem começou seu segundo mandato e seu padrinho, Luiz Inácio Lula da Silva, já está em plena campanha para a eleição de 2018. A bem da verdade, Lula nunca desceu do palanque - desde 2003, os governos lulopetistas se notabilizaram por administrar o País pensando somente na eleição seguinte, transformando o Estado em máquina partidária. Agora, no entanto, parece haver um sentido de urgência na atitude do ex-presidente, porque a oposição se fortaleceu pelo bom desempenho na última disputa presidencial e, também, porque o descalabro econômico e o maior escândalo de corrupção da história brasileira tornaram-se ameaças sérias a seu projeto de poder.

A principal estratégia de Lula e de seus seguidores tem sido atribuir cinicamente à oposição o mau comportamento republicano que hoje caracteriza o PT. "Eles acham que a campanha não acabou", afirmou o ex-presidente, em discurso na abertura do 5.º Congresso do PT, em Brasília.

Com isso, Lula busca tirar a legitimidade das críticas da oposição, transformando-as em mera artimanha das "elites" para dar um "golpe" em Dilma e em seu partido - quando na verdade é Lula quem desmoraliza a democracia ao sistematicamente desrespeitar os que não votam nos petistas nem aceitam o assalto ao Estado. Para esse fim, vale tudo: no mesmo pronunciamento, Lula defendeu os envolvidos no escândalo da Petrobrás, dizendo que eles já foram condenados pela imprensa antes mesmo da análise do caso pelo Supremo Tribunal Federal (STF) - uma maneira nada sutil de dizer que, se o STF acatar as denúncias, só o fará por pressão dos jornais.

Na construção desse discurso contra a oposição, Lula especializou-se em ofender a inteligência alheia, apostando numa espécie de amnésia coletiva. "Eu perdi em 89, e todo mundo sabe como perdi, entretanto não fiquei na rua protestando, fui me preparar para a outra", afirmou Lula, referindo-se à eleição presidencial de 1989, quando foi derrotado por Fernando Collor. Insinuando que a eleição de Collor não foi legítima ("todo mundo sabe como perdi"), Lula quis dizer que, apesar disso, não fez protestos como os que a oposição hoje faz. E foi adiante: "Quando a gente perdia, a gente acatava o resultado".

Não é preciso fazer um grande esforço para lembrar que o PT sempre fez oposição sem trégua - votou contra o Plano Real e contra a Lei de Responsabilidade Fiscal, para ficar em apenas dois exemplos da inconsequência do partido - e promoveu uma campanha sistemática para minar o governo de Fernando Henrique Cardoso, especialmente no segundo mandato. Líderes do partido, que hoje dizem "acatar o resultado" das eleições e se queixam das manifestações contra Dilma em razão do escândalo da Petrobrás, chegaram a defender o impeachment de FHC diante das suspeitas de irregularidades nas privatizações. Era o "Fora FHC!". Hoje, porém, Lula não se constrange em pedir que cessem os protestos contra Dilma porque ela "precisa governar": "Deixem a mulher trabalhar, gente! Ela ganhou as eleições".

Empenhado em ditar os rumos do segundo mandato, para fortalecer sua eventual candidatura em 2018, o ex-presidente, sempre que pode, cita as próximas eleições. "Eles (a oposição) começam a ficar apavorados com a perspectiva do quinto mandato", discursou Lula, dando a senha para que os correligionários o ovacionassem. Em seguida, bem ao seu estilo, disse que "ninguém tem de pensar em 2018", mas deixou clara a pressão sobre Dilma, ao dizer que espera dela o "sinal que ela vai dar do ponto de vista econômico, das políticas sociais, de desenvolvimento".

Lula parece saber que é do desempenho de Dilma que depende sua força e a de seu partido para enfrentar a tempestade do escândalo de corrupção e sobreviver no poder em 2018. Essa é sua grande aflição e a razão pela qual imputa tudo o que se diz sobre o escândalo na Petrobrás a uma campanha para "destruir" o PT.

Política para o petróleo terá de ser revista – O Globo / Editorial

• Com ações e títulos desvalorizados, a Petrobras não conseguirá captar recursos facilmente nos mercados a fim de cumprir compromissos impostos pelo governo

O Plano de Negócios da Petrobras até 2018 prevê investimentos anuais da ordem de US$ 44 bilhões. Em situação normal de temperatura e pressão, empresas desse porte concretizam seus investimentos com uma combinação de recursos próprios (gerados pelas próprias atividades) e de terceiros. Assim, multiplicam a capacidade de investir e de obter lucros futuros.

Além de ter sido obrigada pelo governo a assumir compromissos que excediam o seu fôlego financeiro, a Petrobras teve sérios problemas de gestão, agravados por golpes criminosos, agora revelados pela Operação Lava-Jato. Esse desgaste de imagem, que se evidencia pela queda vertiginosa dos preços de suas ações e desvalorização dos bônus emitidos, certamente complica a equação financeira que havia sido formulada para execução dos investimentos previstos no Plano de |Negócios. Para 2015, por exemplo, estava previsto que fosse captar o correspondente a US$ 12 bilhões no mercado internacional.

A Petrobras já se desfez de alguns ativos, como ocorreu recentemente no Peru, conseguindo obter cerca de U$ 2,6 bilhões. Possivelmente terá que se desmobilizar ainda mais para se livrar de dívidas onerosas e se concentrar nos investimentos que identifique como prioritários.

Mesmo assim, não é uma situação que se resolva rapidamente. A política brasileira para o petróleo, extremamente concentrada na Petrobras, terá de passar por uma revisão. Há sinais que isso começará a ocorrer em 2015. A Agência Nacional do Petróleo (ANP) vai propor ao Conselho Nacional de Política Energética uma rodada de licitações no ano que vem com uma oferta que englobe de 200 a 300 novas áreas destinadas à exploração. Após tantos anos sem rodadas ou com ofertas minguadas a potenciais investidores, 2015 pode marcar uma reviravolta na política do petróleo.

O próprio pré-sal também precisa de uma revisão nas regras de exploração de futuros blocos. O governo Lula instituiu o modelo de partilha de produção no pré-sal, tornando a Petrobras operadora única desses blocos, e com uma participação de no mínimo 30% no consórcio investidor. Na prática, ressuscitou o monopólio para essas áreas. Ambas as condições são inexequíveis para a realidade financeira e gerencial da Petrobras.

Em face das suas restrições de capital, a estatal não poderá assumir compromissos tão expressivos, o que poderia até levar o governo a não promover licitações no pré-sal, desperdiçando oportunidades para atrair investidores e reforçar o caixa do Tesouro. Ainda que mantenha o modelo de partilha para o pré-sal, o governo terá então de rever a obrigação de a Petrobras ser a operadora única dos futuros blocos e ter um limite mínimo de participação nos consórcios. E some-se a tudo isso a queda do preço do petróleo no mundo, um desestímulo a investimentos na exploração.

A conjuntura potencializa o estrago em curso provocado pelo esquema de corrupção montado pelo lulopetismo na estatal.

Pedro S. Malan - Quadriênios, velhos e novos

- O Estado de S. Paulo

Em discurso para a militância, na presença de Dilma Rousseff, durante a campanha eleitoral deste ano, Lula disse que já se via com ela em 2022, nas comemorações de nossos 200 anos de Independência, defendendo tudo o que haviam conseguido conquistar "nos últimos 20 anos". É perfeitamente legítimo a qualquer pessoa expressar de público suas "memórias do futuro", para usar a bela expressão de Borges para caracterizar desejos, expectativas, sonhos e planos, quer se realizem ou não.

Mas antes de chegar às eleições de 2022 há que passar por 2018. E não será fácil de explicar então as conquistas dos "últimos 16 anos" como se fossem um coerente e singular período passível de ser entendido como um todo, como a marquetagem política tentou na eleição recente, com o discurso dos "últimos 12 anos". Porque Lula 1 foi diferente de Lula 2, Dilma 1 foi diferente de Lula 2 e Dilma 2 será diferente de Dilma 1 - e o mais difícil dos quatro quadriênios. Quem viver verá. Ou já está vendo.

Este artigo procura olhar à frente. Afinal, é nisto que os brasileiros estão interessados: no que esperar para 2015 e adiante, no quadriênio. A escolha pela presidente Dilma de Joaquim Levy para ministro da Fazenda (excelente escolha, diga-se de passagem), a confirmação de Alexandre Tombini no Banco Central e a indicação de Nelson Barbosa para o Planejamento (que havia deixado o cargo de vice-ministro da Fazenda, dizem, por discordar do excesso de manipulações contábeis nas contas fiscais do governo) sugerem que estavam certos os que insistiam, há muito tempo, que a perda da credibilidade da política governamental nessa área - para não falar de outras - era de tal ordem que o discurso do "mais do mesmo", no qual o atual governo insistiu até 26 de outubro, negando-se a reconhecer seus cada vez mais graves problemas (condição sine qua non para resolvê-los) estava com seu prazo de validade estampado no rótulo - qualquer que fosse o resultado das urnas.

Agora, olhando o difícil começo de Dilma 2, vale um rápido lembrar de traços essenciais dos começos de Lula 1, Lula 2 e Dilma 1, não por gosto pelo passado ou por um enganoso "recordar é viver", mas porque há nessa perspectiva, a meu ver, algo relevante para avaliar os desafios do próximo quadriênio. Muitos dos protagonistas são os mesmos, o que talvez desperte algum interesse neste "exercício de memória", que deve sempre ser feito - e por qualquer um - lembrando trecho da Oração dos Velhos: "Senhor, não me atrevo a reclamar uma memória melhor, dê-me porém uma crescente humildade e menos suscetibilidade quando a minha memória esbarrar nas dos outros".

Lula 1 beneficiou-se, e muito, como é ou deveria ser sabido, de uma combinação positiva de três ordens de fatores: uma situação internacional extraordinariamente favorável, uma política macroeconômica não petista seguida por Antônio Palocci (ministro da Fazenda) e Henrique Meirelles (presidente do Banco Central) e uma herança não maldita de mudanças estruturais e avanços institucionais alcançados na vigência de administrações anteriores - inclusive programas na área social que foram mantidos, reagrupados e ampliados. Lula 1 começou a terminar quando saíram do governo simultaneamente, além do ministro Palocci, o vice-ministro Murilo Portugal, seu secretário do Tesouro, Joaquim Levy, e seu secretário de Política Econômica, Marcos Lisboa, entre outros, em março de 2006.

Lula 2 assumiu com nova equipe e nova concepção sobre o crucial papel do Estado e de suas empresas no desenvolvimento do País. O PAC e suas sucessivas e cada vez mais ambiciosas versões foram, em parte, a expressão dessa nova postura. A crise internacional, agravada após setembro de 2008, forneceu um grande álibi para a ampliação da política dita "keynesiana" que vinha sendo praticada desde 2007. O que levou aos insustentáveis 7,5% de crescimento em 2010. Só possível porque tivemos (efeito China) outro extraordinário surto de melhora nos termos de troca.
Dilma 1 começou 2011 tendo de lidar com consequências do superaquecimento da economia de fins de 2009 a 2010. Ao longo de parte de 2011 foi feito um esforço de conter o expansionismo excessivo (algo que, até hoje, muito do fogo amigo dos seus considera um equívoco). A "nova matriz da política macroeconômica", as indefinições e idas e vindas da política de concessões ao setor privado em infraestrutura, os quase cinco anos perdidos pela ausência de licitações para exploração do petróleo, os vários tipos de ônus impostos à Petrobrás e a desastrada mudança no setor de energia elétrica ao final de 2012 e suas consequências impuseram pesada herança que Dilma 1 deixa para Dilma 2.

Mas situações difíceis não significam inexistência de opções. Há necessidade de sinalizações sobre elas - e para os próximos quatro anos. Não se trata apenas, como já disseram lideranças do governo, de um temporário esforço para "acalmar mercados" e agências de rating até que voltem a soar os atabaques das próximas eleições, muito antes de 2018. Há que sinalizar os próximos quatro anos. Nesse sentido, serão importantes os termos do discurso de posse, bem como a escolha de presidentes de empresas estatais e, particularmente, das equipes de ministérios-chave, como Minas e Energia, Educação, Trabalho, Relações Exteriores, e de outros dentre os mais de 30 ainda por definir.

Lula, reeleito em outubro de 2006, só completou a formação de seu Ministério, se me lembro bem, em março de 2007. Dilma, reeleita, terá muito mais dificuldade e menos tempo para formar um Ministério à altura do momento, e que possa chamar de seu. Num contexto que, por motivos cada vez mais visíveis, será muito provavelmente o mais difícil quadriênio dos efetivamente decorridos "últimos 20 anos".

Bom Natal a todos!

Pedro S. Malan, economista, foi Ministro da Fazenda no governo Fernando Henrique Cardoso.

Rolf Kuntz - Um balanço de fiascos, de devastação e de lorotas

- O Estado de S. Paulo

Saqueada, humilhada, processada no exterior sob acusação de mentir aos investidores, desvalorizada nas bolsas e com problemas para anunciar um balanço sem o aval de uma auditoria, a maior empresa brasileira, a Petrobrás, é hoje o símbolo mais expressivo de uma economia devastada por uma combinação de incompetência, ilimitada fome de poder e desprezo pelas metas e normas prosaicas da administração pública. Os danos podem variar de um para outro setor, mas a devastação foi um processo único, determinado por um mesmo estilo de política.

Nas últimas semanas, enquanto avançavam as investigações da Operação Lava Jato, o governo tentava mudar a Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) para se livrar da obrigação de apresentar o resultado fiscal prometido para 2014. Incapaz de cumprir a lei, tratou de alterá-la, para acomodar os efeitos da gastança, dos benefícios tributários mal planejados e da estagnação econômica produzida pelos seus erros.

Os danos impostos ao País vão muito além dos bilhões pilhados da Petrobrás. Depois de quatro anos no atoleiro, com crescimento médio anual inferior a 2%, a economia brasileira vai mal na geração de empregos, na produção industrial, no investimento, nos preços, no comércio externo e nas contas públicas. A presidente Dilma Rousseff e seu ministro da Fazenda, Guido Mantega, costumam alardear a criação de postos de trabalho. O emprego no Brasil, segundo dizem, foi preservado por políticas anticíclicas e a desocupação é muito menor que nas economias avançadas. Deve haver quem acredite, mas essa é mais uma história muito mal contada.

O desemprego é maior no Brasil do que em muitos países mais afetados pela crise global. Os desocupados em todo o País eram 6,8% da força de trabalho, no terceiro trimestre, segundo levantamento mais amplo, a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad), realizada em cerca de 3.500 municípios. Os números mais citados pelo governo, bem mais baixos, são pesquisados só nas seis maiores áreas metropolitanas.

Pelo número da Pnad, o desemprego no Brasil, no terceiro trimestre, foi maior que em 16 dos 34 países-membros da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) - mas essa comparação só vale se ficar limitada àqueles com dados disponíveis para o período. No caso de quatro associados só havia, até a publicação da tabela, informações até o segundo trimestre. Dois desses países tinham taxas de desemprego bem menores que a do Brasil - Suíça, 4,4%, e Reino Unido, 6,3%. A situação dificilmente deve ter mudado de forma significativa nos meses seguintes. Se isso for levado em conta, a lista cresce para 18.

Tinham desemprego menor que o do Brasil, no trimestre passado, cinco das maiores potências integrantes da OCDE - Estados Unidos (6,1%), Japão (3,6%), Alemanha (5%), Coreia do Sul (3,5%) e México (5%). O Reino Unido provavelmente poderia entrar na relação. Além disso, a média das taxas das sete maiores economias capitalistas era 6,4%. Todos esses países têm inflação mais baixa que a brasileira e quase todos devem fechar o ano com crescimento econômico maior que o do Brasil.

A história do desemprego baixo é, portanto, apenas mais uma lorota de um governo pouco habituado a reconhecer os fatos - pelo menos publicamente. Mas a história fica pior quando se leva em conta a qualidade dos postos de trabalho. A maior parte dos bons empregos é gerada pela indústria, mas o setor tem demitido.

De janeiro a outubro o número de ocupados foi 3% menor que o do mesmo período de 2013. Em 12 meses diminuiu 2,8%. Em 2011, primeiro ano do atual governo, o pessoal assalariado na indústria aumentou 1%, mas diminuiu 1,4% em 2012 e 1,1% em 2013 e continuou encolhendo neste ano. A maior parte dos novos postos de trabalho tem sido aberta em serviços, quase sempre em segmentos de baixa produtividade. Isso combina com o fraco desempenho da economia e, de modo especial, com o enfraquecimento da indústria, especialmente de transformação.

De janeiro a outubro deste ano a produção industrial foi 3% menor que nos meses correspondentes de 2013. A da indústria de máquinas e equipamentos, 8,8% inferior à de um ano antes. Também isso se encaixa no quadro de estagnação econômica, mas o dado, nesse caso, é particularmente agourento. Com baixo dispêndio em bens de capital, a economia tem escasso potencial de expansão nos anos seguintes.

A insistência na conversa a respeito de política anticíclica mostra apenas um erro de diagnóstico. Certos estímulos podem ter sido necessários entre o final de 2008 e a maior parte de 2009, mas, passada a recessão, seria preciso cuidar das bases para a expansão de longo prazo. Não houve nada parecido com isso. O Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) foi até agora principalmente um plano imobiliário. Segundo o último balanço, as ações do PAC-2 concluídas até dezembro deverão corresponder a dispêndios de R$ 796,4 bilhões. Financiamentos e obras habitacionais deverão somar R$ 449,7 bilhões, 56,46% do total. O setor de transportes, com apenas R$ 66,9 bilhões, corresponderá a 8,4% do valor das ações terminadas.

Enquanto o governo insiste em vender fantasias ao público, a equipe escalada para assumir a política econômica a partir de janeiro procura meios de arranjar as contas públicas. Haverá cortes de gastos e aumento de tributos e já se especula sobre um ajuste na faixa de R$ 90 bilhões a R$ 100 bilhões. A arrumação terá de ser muito dura, até porque o rombo fiscal é um dos maiores do mundo. Nos 12 meses até outubro, o déficit nominal de todos os níveis de governo chegou a 5,01% do PIB e ficou bem acima da média estimada neste ano para a OCDE (3,9%) e para a maior parte dos seus associados. Passados quatro anos, a presidente só tem para dividir com seu pessoal um saco de fiascos, estragos e lorotas.

Rolf Kuntz é jornalista

Ferreira Gullar - Não quero ter razão

• Não por acaso as bienais de arte estão morrendo, como a de São Paulo, cuja visitação é melancólica perda de tempo

- Folha de S. Paulo / Ilustrada

Não resta dúvida de que tenho muitos defeitos, mas se há uma coisa que não sou é ressentido. Aliás, não só não sou como acho bobagem ser, porque o ressentido fica sofrendo, com raiva do outro que já nem pensa nele. Ou seja, o ressentido é, no fundo, um masoquista, sofre porque gosta de sofrer.

Mas é claro que não é só por pensar desse modo que não me deixo levar pelos ressentimentos; é meu jeito apenas, não tenho vocação para ficar remoendo mágoas.

Não obstante, de vez em quando, alguém me entrevista, entende mal o que digo, passa ao leitor a ideia de que odeio artistas contemporâneos e que não esqueço a discordância com o grupo concretista de São Paulo, ocorrida há mais de 50 anos, e por aí vai. E, veja bem, esse desentendimento ocorreu há mais de 50 anos, em torno de questões de que ninguém mais se lembra.

Pois bem, é o cara que, no curso da entrevista, puxa esse assunto porque deseja pôr um pouco de pimenta na conversa. Respondo a suas perguntas e ele, quando escreve o que eu disse, imprime a minhas palavras um tom exacerbado que foi ele que inventou.

Se eu não me ressinto da ofensa que alguém me tenha feito há uma semana, vou estar furioso com um fato ocorrido há meio século? Só se eu fosse doente mental.

Mas a vida é assim mesmo, tem de tudo. Confesso que até já me habituei a esse tipo de desconsideração e, se agora a isso me refiro, é porque uma amiga me telefonou irritada com a tal entrevista e surpresa com o tom das frases a mim atribuídas. Tratei de tranquilizá-la, dizendo-lhe que continuo o mesmo cara bem-humorado que não se enfurece à toa, muito menos com esse tipo de assunto.

Sucede, porém, que o tal entrevistador não se limitou à ruptura com os concretistas, não; procurou retratar-me como um inimigo dos artistas contemporâneos, alterando o que costumo afirmar.

Enfim, para quem não me conhece, a imagem que fica é a de um velho ultrapassado, contra tudo o que é novo. Ainda mais agora, quando acabo de entrar para a Academia Brasileira de Letras.

Com isso, claro, deixo um flanco aberto. Mas pouco me importa o que pensam pessoas sem isenção. Nunca pretendi ser uma unanimidade nem me considero acima de qualquer crítica. Errar, errei muito; a diferença talvez esteja no fato de que costumo reconhecer meu erro, quando é o caso, e trato de buscar o caminho certo. E posso errar de novo, claro. Mas o que fazer? Por isso, afirmei certa vez: não quero ter razão, quero ser feliz.

No entanto, embora não pretenda ter sempre razão, não abdico do direito de opinar. Por exemplo, acho que o que se chama hoje de arte contemporânea nem sempre pode ser considerado arte. Certamente, todo mundo tem o direito de fazer o que deseja fazer, só que não sou obrigado a gostar do que fazem.

Por exemplo (como citou o tal repórter), enviar urubus numa gaiola para a Bienal, como se fosse obra de arte, pode ser, no máximo, uma piada. Não obstante, acho que o cara tem o direito de fazê-lo e eu, o direito de achar que não é arte.

Mas não o faço zangado, embora me diga respeito, já que dediquei grande parte de meu tempo a ler e a refletir sobre arte.

Admito, mesmo que às vezes o faça de gozação, tal o disparate que tais coisas implicam. Acrescente-se que o surrealismo e o dadaísmo fazem parte de minha formação, e Breton e seus companheiros me ensinaram que o humor e a irreverência são parte da criação artística.

Se quer saber o que penso de tais manifestações, lhe digo: o cara está dizendo que a arte acabou, que tanto faz pintar um quadro como mandar urubus para uma exposição. Só que esse tipo de atitude antiarte é coisa velha, uma vez que o tal urinol de Marcel Duchamp, que foi a primeira manifestação desse tipo, completará um século daqui a três anos.

Não é por acaso que as bienais estão morrendo, como a atual Bienal de São Paulo, cuja visitação é uma melancólica perda de tempo.

Enquanto isso, os artistas de verdade continuam criando obras de arte, obras que não têm que ser obrigatoriamente pintura, escultura ou gravura. Pode ser, por exemplo, uma instalação, mas deve mostrar criatividade e comover as pessoas.

Stepan Nercessian emociona o público ao interpretar Chacrinha no palco

• Musical em cartaz no Teatro João Caetano já é um dos sucessos da temporada

Debora Ghivelder – O Globo

RIO — O ritual se repete a cada espetáculo. Antes de entrar em cena para viver Abelardo Barbosa em “Chacrinha, o musical”, Stepan Nercessian diz que conversa com o apresentador, morto em 1988, de câncer, aos 70 anos. No camarim, o ator enfia a cartola de Velho Guerreiro na cabeça, os óculos de armação grossa, olha-se no espelho e sussurra algo como: “Chacrinha, peço sua permissão para mais uma vez interpretar você”. Depois, substitui a cartola pelo chapéu do palhaço — personagem meio onírico, fruto da imaginação do jovem Abelardo, vivido por Leo Bahia. Stepan é o palhaço durante quase todo o primeiro ato, que lembra a trajetória do comunicador do Nordeste ao Rio e o início de seu sucesso. É só na última cena dessa primeira parte que ator e cartola se reencontram. E Stepan vira Chacrinha. Por um breve instante.

A semelhança surpreende o público.

— É uma reação diferente de tudo o que senti até hoje de uma plateia. Primeiro, é o espanto. Depois, os aplausos. Daí, a cortina fecha e você ouve um burburinho danado, é arrepiante — conta ele, 61 anos de idade e 46 de profissão.

No mês passado, o crítico de teatro do GLOBO, Macksen Luiz, sentenciou: “Stepan Nercessian, em atuação mimética, revive na voz e no gestual o magnetismo do Chacrinha”. Dias antes, apos assistir ao espetáculo, o colunista Arnaldo Bloch escreveu: “Em um musical de altos e baixos, irregular e algo confuso (...), o fenômeno, mesmo, para valer, é a ressurreição de Chacrinha no corpo de Stepan Nercessian”.

Para quem acredita, o Velho Guerreiro deve ter ouvido o apelo que o ator faz no camarim. Desde que estreou, em 14 de novembro, o musical escrito por Pedro Bial e Rodrigo Nogueira e dirigido por Andrucha Waddington vem se firmando como um dos maiores sucessos do verão que se anuncia. O Teatro João Caetano está ocupado em praticamente todos os seus 1. 143 lugares a cada récita (de quinta a domingo, com duas sessões aos sábados), por uma gente ávida para ver o apresentador balançando a pança e dando as ordens no terreiro, com cantores, calouros, jurados, chacretes, buzinadas e bacalhau (cenográfico, naturalmente). E é o que se vê ao longo de todo o segundo ato.

“marxista, kardecista e cristão”
No final, o público cerca o ator. Há quem afirme que ele incorporou o espírito do Velho Guerreiro ou que o apresentador está também presente no palco. Stepan, que se define como “marxista, kardecista, cristão”, lembra que há uma força muito grande em torno do personagem.

— Existem milhões de imagens, registros da voz, que andaram pelo ar e ficaram na memória afetiva das pessoas. Isso está grudado dentro delas de uma maneira tão viva que quando se materializa no palco tem esse impacto — diz.

Ao mesmo tempo, o ator não nega uma ou outra coincidência estranha. Afirma que compôs o personagem sem estudar o apresentador. Não queria correr o risco de imitar Chacrinha. Só reviu gravações antigas faltando uma semana para a estreia.

— Foi então que eu percebi que muitos gestos que achei que estava criando, improvisando, ele fazia mesmo. Vai ver estava no meu inconsciente, né? — diz Stepan. — O Leleco (Barbosa, filho do apresentador) disse que cada vez que vai me ver eu estou mais parecido com o pai dele. E que faço certos gestos que o Chacrinha só fazia em casa.

É claro que nem tudo foi improviso. O jeito de andar, por exemplo, surgiu da observação dos vídeos. Já para a semelhança na voz, o ator dá outra explicação:

— Eu tenho a minha estragada pelo cigarro. E o Chacrinha também fumou — diz o ator, que chegou a pensar em largar o vício para aguentar o tranco das duas horas de espetáculo, plano que não foi adiante. — O pessoal já sabe. Quando digo que vou fazer aquecimento vocal, é porque vou fumar.

“Estou fazendo Hamlet”
Stepan sabe que acertou ao aceitar o convite de Andrucha Waddington para encarnar o Velho Guerreiro. Quebrou um jejum autoimposto de mais de dez anos distante dos palcos. Depois de fazer com Maria Zilda “Segundas intenções”, decidiu que só atuaria no teatro em um caso especial.

— Não tem ator que não queira um grande personagem. Por isso todo mundo monta “Hamlet”. Estou fazendo Hamlet. Ser ou não ser. A dúvida tá lá. Ser o Chacrinha ou ser Abelardo.

Prestes a deixar de vez Brasília, já que seu mandato de deputado federal (PPS) termina em janeiro e ele não foi reeleito, Stepan está com o vento a favor na carreira artística. Gravou, em 2014, o seriado “Magnífica 70” para a HBO, com direção de Cláudio Torres, que vai ao ar em meados de 2015, e segue com “Chacrinha” no Rio até março. Depois vai para a temporada em São Paulo e começa a rodar, em abril, “Os Penetras 2”, com o mesmo Andrucha que dirige o musical. Da política, promete, vai dar um tempo:

— Minha natureza não permite abdicar de mim para exercer alguma coisa. O Brasil vive um momento plebiscitário. Desapareceram os 50 tons de cinza. Agora ou você é homofóbico ou você é gay. Ou é isso, ou é aquilo — afirma Stepan, que aponta a irreverência autêntica de Chacrinha, e seu universo politicamente incorreto, como trunfos na conquista do público. — Acho que fica todo mundo aliviado de ouvir “Maria Sapatão” e “Cabeleira do Zezé”, numa boa.

Outro acerto, acredita, é conseguir transformar a plateia do teatro em um público de auditório. O espectador vibra mesmo com o clima de programa que conta com calouros muitas vezes ilustres: atrizes como Maria Clara Gueiros e Soraya Ravenle já subiram ao palco para cantar, por exemplo. Xuxa e Byafra fizeram participações como eles próprios.

— No segundo ato não faço teatro. Faço televisão — brinca Stepan.

Falando em televisão, ele roda e avisa:

— Neste domingo vamos levar a peça ao Faustão. O Chacrinha vai estar de novo na TV.

Marisa Monte - Verdade, uma Ilusão

Fernando Pessoa - Tenho tanto sentimento

Tenho tanto sentimento
Que é freqüente persuadir-me
De que sou sentimental,
Mas reconheço, ao medir-me,
Que tudo isso é pensamento,
Que não senti afinal.
Temos, todos que vivemos,
Uma vida que é vivida
E outra vida que é pensada,
E a única vida que temos
É essa que é dividida
Entre a verdadeira e a errada.
Qual porém é a verdadeira
E qual errada, ninguém
Nos saberá explicar;
E vivemos de maneira
Que a vida que a gente tem
É a que tem que pensar.

sábado, 13 de dezembro de 2014

Opinião do dia – Rubens Bueno

“Estamos falando de uma quadrilha que não tem limites. O fato de Graça Foster já saber das denúncias não nos surpreende. Isso já havia ficado claro nos depoimentos de Paulo Roberto Costa. No entanto, o depoimento de Venina pode agregar novos detalhes aos processos que já estão em andamento na Justiça, fortalecendo as provas contra agentes públicos e políticos que sequestraram a Petrobras.”

Rubens Bueno, deputado federal (PR) e líder da bancada do PPS na Câmara, O Globo, 13 de dezembro de 2014.

Ex-gerente da Petrobras diz que avisou Graça sobre desvio

Denúncia de ex-gerente fragiliza comando da estatal

• Segundo "Valor", funcionária alertou atual diretoria com e-mails sobre desvios

• Auxiliares de Dilma defendem renúncia coletiva na empresa, mas presidente ainda resiste a aceitar a idéia

Leonardo Souza, Natuza Nery e Valdo Cruz – Folha de S. Paulo

RIO, BRASÍLIA - E-mails enviados por uma ex-gerente da Petrobras e revelados pelo jornal "Valor Econômico" indicam que a atual diretoria da estatal foi alertada sobre irregularidades em contratos da empresa muito antes do início da Operação Lava Jato, que revelou esquema de fraudes na companhia.

A revelação reforçou o coro de auxiliares presidenciais que já há algumas semanas defendem uma renúncia coletiva na estatal. Para estes, a saída da presidente Graça Foster é uma questão de tempo. Mas a presidente Dilma Rousseff ainda resistia à ideia nesta sexta-feira (12).

Para Dilma, explicam auxiliares, a queda de Graça reforçaria uma ideia errada de que a chefe da estatal está implicada no escândalo, além de deixar a própria presidente vulnerável. Graça e Dilma são muito amigas.

A presidente e os demais integrantes da atual diretoria da Petrobras vinham sendo blindados pelo Planalto sob o argumento de que não tiveram participação nos desvios de recursos e que desconheciam a ação do grupo do qual fazia parte Paulo Roberto Costa, ex-diretor de Abastecimento e principal delator do esquema de fraudes na estatal.

Mas segundo o "Valor", foram enviadas para Graça mensagens eletrônicas e documentos comunicando irregularidades ocorridas tanto antes de ela assumir a presidência, em 2012, quanto depois. O mesmo ocorreu com o atual diretor de Abastecimento, José Carlos Cosenza.

De acordo com o jornal, Graça foi informada sobre contratações irregulares na área de Abastecimento durante a gestão de Paulo Roberto Costa e de aditivos nas obras da refinaria Abreu e Lima, envolvendo o cartel de empreiteiras investigadas na Lava Jato.

As denúncias foram feitas por Venina Velosa da Fonseca, ex-gerente-executiva da área de Abastecimento, que foi subordinada de Costa.

Uma das mensagens para Graça foi enviada por Venina no dia 7 de outubro de 2011. Venina diz não ver mais alternativas para mudar a situação dos desvios na empresa e sugere apresentar a documentação que possui a Graça, então diretora de Gás e Energia.

Os desvios a que Venina se referiam foram revelados pela Folha em 2009.

Ela denunciou naquele ano que o então gerente de Comunicação da área de Abastecimento, Geovane de Morais, havia autorizado o pagamento de R$ 4 milhões, sem licitação, a duas produtoras de vídeo que trabalharam nas campanhas do governador da Bahia, Jaques Wagner (PT).

Irregularidades
Uma auditoria interna realizada pela Petrobras concluiu que foram pagos R$ 58 milhões em contratos autorizados por Morais mas cujos serviços não foram prestados. O governador disse que refuta veementemente qualquer suposta ligação dele ao caso.

As constatações de problemas comunicadas pela ex-gerente incluíram ainda contratações atuais de fornecedores de óleo combustível da Petrobras no exterior que subiram em até 15% os custos, de acordo com o "Valor".

Pressões sobre Graça Foster aumentam após divulgação de alertas de ex-gerente

Ricardo Della Coletta e Daiene Cardoso – O Estado de S. Paulo

A pressão pela troca da atual direção da Petrobrás aumentou ontem, após a revelação de que a presidente da estatal, Graça Foster, foi informada sobre irregularidades antes de virem à tona as investigações da Operação Lava Jato, da Polícia Federal. Além de não terem sido tomadas providências em parte das denúncias da geóloga Venina Velosa da Fonseca, ex-gerente executiva da Diretoria de Abastecimento, a funcionária relatou ter sofrido represálias da antiga e da atual direção. Ela deve prestar depoimento ao Ministério Público Federal na próxima semana.

Ontem, após a divulgação desses fatos pelo jornal Valor Econômico, a oposição voltou a cobrar a saída de Graça e vai pedir o indiciamento dela no relatório paralelo da CPI mista da Petrobrás. "Ela vai se transformando numa presidente fraca, que não tomou medidas para conter os desmandos na Petrobrás", disse o líder do PSDB na Câmara, Antonio Imbassahy (BA). Na terça-feira, o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, já havia se posicionado pela troca de comando na estatal.

Dentro do próprio PT, apesar de declarações públicas de apoio a Graça, cresce o movimento pela troca do comando da estatal, principalmente entre os integrantes do partido ligados ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Para esta ala dos petistas, a crise em torno da empresa exige a nomeação de alguém do mercado para a presidência da estatal, de fora dos quadros da Petrobrás, e que tenha autonomia para cortar investimentos e rever o planejamento da petroleira.

Acusações. Venina atuava na Diretoria de Abastecimento - subordinada a Paulo Roberto Costa, delator do esquema de desvios na estatal - quando fez a primeira denúncia sobre despesas irregulares, em 2008. Nos anos seguintes, ela apontaria elevação de custos da refinaria de Abreu e Lima, um dos focos da Lava Jato, e na comercialização de óleo combustível no exterior. Nesse último caso, já sob a gestão de Graça e com José Carlos Cosenza no lugar de Costa, não foram tomadas providências a respeito, segundo a reportagem.

Na primeira denúncia, a ex-gerente verificou que contratos de pequenos serviços na comunicação da Diretoria de Abastecimento, cujo orçamento para o ano de 2008 era de R$ 39 milhões, somavam R$ 133 milhões de janeiro a meados de novembro. Ao procurar Costa, o então diretor apontou o dedo para um retrato do então presidente Luiz Inácio Lula da Silva e perguntou se ela queria "derrubar todo mundo".

Costa também afirmou que a responsabilidade sobre os gastos era de outro gerente, Geovanne de Morais. Venina levou o caso ao presidente da Petrobrás na época, José Sergio Gabrielli. Uma comissão interna detectou R$ 58 milhões pagos por serviços não realizados e determinou a demissão de Morais.

Abreu e Lima. No ano seguinte, em abril, Venina enviou e-mail para Graça, na época diretora de Gás e Energia, pedindo ajuda para escrever sobre os problemas na estatal. Ela verificou elevação de gastos em Abreu e Lima de US$ 4 bilhões para US$ 18 bilhões, em contratos firmados com empreiteiras hoje investigadas pela Lava Jato.

Em ofício de 4 de maio de 2009, Venina criticou a forma de contratação sem licitação em pelo menos quatro ocasiões. Para ela, o "início das licitações em Abreu e Lima" seriam as "medidas corretas" a serem adotadas. Desde 1998, decreto do então presidente Fernando Henrique Cardoso libera a Petrobrás de seguir a Lei de Licitações.

Segundo documento de 2009 da estatal, a ex-gerente fez 107 Solicitações de Modificação de Projetos, com economia estimada de R$ 948 milhões. Nenhuma foi aceita. Parte das sugestões era direcionada à Diretoria de Serviços, comandada na época por Renato Duque - investigado e preso pela Lava Jato, ele foi solto por liminar do ministro do Supremo Tribunal Federal Teori Zavascki.

Em outubro de 2009, Venina deixou o cargo subordinado a Costa. Em fevereiro de 2010, foi enviada para uma unidade da Petrobrás em Cingapura - no mês passado, a ex-gerente diria a Graça que, ao ser expatriada, "o diretor, hoje preso, levantou um brinde, apesar de dizer ser pena não poder me exilar por toda a vida".

A Petrobrás abriu em 2011 investigação interna sobre Abreu e Lima, mas não se sabe se foi a partir da denúncia da geóloga.

'Vergonha'. No fim de 2011, Venina disse a Graça, por e-mail, que "o imenso orgulho que tinha pela empresa" deu lugar à "vergonha". A geóloga sugeriu apresentar a documentação à então diretora de Gás e Energia. "Parte dela eu sei que você já conhece. Gostaria de te ouvir antes de dar o próximo passo." A reportagem não diz se Graça respondeu à geóloga.

Venina voltou ao Brasil em 2012 por cinco meses, antes de retornar a Cingapura como chefe do escritório. Em março e abril de 2014, já com Graça na presidência da Petrobrás e Cosenza no lugar de Costa, a geóloga enviou e-mails ao diretor sobre perdas de até 15% na comercialização de combustível para navios.

Sem resposta do diretor, em maio Venina veio ao Brasil e fez uma apresentação na sede da estatal sobre o caso e, no mês seguinte, propôs a criação de uma área de controle de perdas nos escritórios fora do Brasil. Novamente ficou sem resposta.

A última mensagem de Venina foi enviada em 17 de novembro, dois dias antes de ser afastada da chefia de Cingapura. No dia 20, ela disse a Graça: "Fui ameaçada e assediada. Até arma na minha cabeça e ameaça às minhas filhas eu tive."

Nova testemunha envolve atual direção da Petrobras

Nova denúncia joga Graça no centro da crise

• Graça Foster sabia das irregularidades na Petrobras antes da Operação Lava-Jato, diz jornal

• Alerta foi feito pela ex-funcionária da empresa Venina Velosa da Fonseca, que enviou e-mails à atual presidente da estatal

- O Globo

RIO - Documentos obtidos pelo jornal “Valor Econômico” e publicados nesta sexta-feira comprovam que a atual diretoria da Petrobras sabia das irregularidades em contratos da estatal muito antes da Operação Lava-Jato, desencadeada pela Polícia Federal em 17 de março deste ano. O alerta foi feito pela gerente afastada da empresa, Venina Velosa da Fonseca, que enviou e-mails à atual presidente Graça Foster e a outros superiores, incluindo o ex-diretor de Abastecimento Paulo Roberto Costa. Para Graça, Venina comunicou até as ameaças que sofrera após apresentar as denúncias.

De acordo com a reportagem, os desvios envolvem o pagamento de R$ 58 milhões para serviços que não foram realizados na área de comunicação, em 2008; superfaturamento de US$ 4 bilhões para mais de US$ 18 bilhões nos custos da Refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco; e contratações atuais de fornecedores de óleo combustível das unidades da Petrobras no exterior que subiram em até 15% os custos.

Além de Graça Foster, os desvios de dinheiro detectados pela ex-gerente foram comunidados a José Carlos Cosenza, substituto do delator Paulo Roberto Costa na Diretoria de Abastecimento. Cosenza é atualmente o responsável pela Comissão Interna de Apuração de desvios na estatal. Para Graça foram enviados e-mails e documentos informando as irregularidades ocorridas tanto antes de ela assumir a presidência, em 2012, quanto depois. Em 2014, afirma o jornal, foram remetidas a Graça denúncias envolvendo os escritórios da estatal no exterior. Nenhuma providência foi tomada com relação a esse último caso, ocorrido sob a sua presidência.

Em depoimento à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) mista da Petrobras, em 29 de outubro, Cosenza afirmou nunca ter ouvido falar em desvios de recursos na estatal desde quando começou a trabalhar na Petrobras há 34 anos. No entanto, ele recebeu de Venina, nos últimos cinco anos, diversos e-mails e documentos com alertas a respeito dos mesmos problemas.

Venina Velosa da Fonseca estava na estatal desde 1990, onde ocupou diversos cargos. Ela começou a apresentar denúncias quando ainda era subordinada a Paulo Roberto como gerente executiva da Diretoria de Abastecimento, entre novembro de 2005 e outubro de 2009. À época, Venina foi transferida para o escritório da Petrobras em Cingapura, na Ásia. Ela foi afastada em 19 de novembro e vai depor ao Ministério Público, em Curitiba, onde tramita o processo da Operação Lava-Jato.

Segundo o "Valor Econômico", as suspeitas de Venina começaram em 2008, quando ela verificou que os contratos de pequenos serviços atingiram R$ 133 milhões entre janeiro e 17 de novembro daquele ano. O valor ultrapassou os R$ 39 milhões previstos para 2008. A ex-gerente procurou Paulo Roberto Costa. Segundo ela, o então diretor de Abastecimento apontou o dedo para o retrato do presidente Lula e perguntou se ela queria "derrubar todo mundo". Costa disse também que Venina deveria procurar o diretor de comunicação, Geovanne de Morais, que cuidava desses contratos.

Venina também encaminhou a denúncia ao então presidente da estatal, José Sérgio Gabrielli. Ele instalou comissão sob a presidência de Rosemberg Pinto para apurar o caso. Assim como Geovanne, Gabrielli e Rosemberg são do PT da Bahia. Esse último foi eleito deputado estadual pelo partido. O relatório da comissão apurou que foram pagos R$ 58 milhões em contratos de comunicação para serviços não realizados. Além disso, foram identificadas notas fiscais com o mesmo número para diversos serviços, totalizando R$ 44 milhões.

Irregularidades também em Cingapura
O caso, afirma o "Valor Econômico", foi remetido para a auditoria interna. Geovanne foi demitido, mas entrou em licença médica, o que evitou que fosse desligado imediatamente da Petrobras, onde permaneceu por mais cinco anos.

Em 3 de abril de 2009, Venina enviou um e-mail para Graça Foster pedindo ajuda para concluir um texto sobre problemas identificados na estatal. Na época, Graça era Diretora de Gás e Energia. Em 7 de outubro de 2011, Venina escreveu novamente para Graça Foster:

"Do imenso orgulho que eu tinha pela minha empresa passei a sentir vergonha". "Diretores passam a se intitular e a agir como deuses e a tratar pessoas como animais. O que aconteceu dentro da Abast (Diretoria de Abastecimento) na área de comunicação e obras foi um verdadeiro absurdo. Técnicos brigavam por formas novas de contratação, processos novos de monitoramento das obras, melhorias nos contratos e o que acontecia era o esquartejamento do projeto e licitações sem aparente eficiência".

Na mensagem, Venina diz que, após não ver mais alternativas para mudar a situação, iria buscar outros meios e sugere apresentar a documentação que possui a Graça.

"Parte dela eu sei que você já conhece. Gostaria de te ouvir antes de dar o próximo passo", completa, dirigindo-se à então diretora de Energia e Gás.

De acordo com o "Valor Econômico", em 2012, a gerente afastada voltou ao Rio, onde ficou por cinco meses sem nenhuma atribuição. A alternativa foi retornar a Cingapura, como chefe do escritório. Em 25 de março de 2014, Venina encaminhou um e-mail a Cosenza sobre perdas financeiras em operações internacionais da estatal que ela identificou a partir do trabalho em Cingapura. A Petrobras comercializa combustível para navios, denominados bunkers.

Em nota divulgada nesta sexta-feira, a Petrobras afirmou que realizou instaurou comissões internas em 2008 e 2009 para investigar "indícios de irregularidades" em contratos da área de comunicação do abastecimento. Segundo a petroleira, o processo resultou na demissão do ex-gerente da área, que acabou não sendo efetivado por causa de uma lincença médica.

Oposição pede afastamento de Graça Foster da Petrobrás

• Após reportagem afirmar que a direção da estatal foi informada sobre desvios antes da Lava Jato, lideranças defendem que presidente da petroleira não tem condições de seguir no cargo

Ricardo Della Coletta e Daiene Cardoso – O Estado de S. Paulo

BRASÍLIA - A revelação de que uma ex-gerente executiva da Diretoria de Abastecimento da Petrobrás alertou a presidente da estatal, Maria das Graças Foster, sobre irregularidades na estatal fez com que líderes da oposição pedissem a substituição imediata do comando da empresa.

Para o senador Álvaro Dias (PSDB-PR), "é inadmissível que não se promova uma mudança radical na Petrobrás". "Se não há participação direta (no esquema), há o crime de omissão, de conivência e de cumplicidade", afirmou nesta sexta-feira, 12. "Não há como tolerar essa passividade do governo com relação aos gestores da Petrobrás."

Reportagem do jornal Valor Econômico publicada nesta sexta afirma que a atual diretoria da Petrobrás foi informada de irregularidades em contratos da petroleira antes do início da Operação Lava Jato, que apura um esquema de desvio de recursos envolvendo contratos da estatal. Segundo a publicação, a geóloga Venina Velosa da Fonseca, que entre 2005 e 2009 foi subordinada ao ex-diretor Paulo Roberto Costa, preso pela Polícia Federal e em acordo de delação premiada com a Justiça, apresentou denúncias de malfeitos à diretoria da petroleira, inclusive com e-mails encaminhados a Graça Foster. Em nota, a estatal afirmou ter apurado as informações fornecidas pela funcionária e encaminhado o resultado das investigações internas aos órgãos de controle.

Para o líder do PSDB na Câmara, Antonio Imbassahy (BA), Graça perdeu as condições de permanecer no posto. "Ela vai se transformando numa presidente fraca, que não tomou medidas para conter os desmandos na Petrobrás", disse.

Nesta semana, o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, afirmou que não há indícios contra a atual direção da estatal e saiu em defesa de Graça Foster. A manifestação foi uma resposta a declarações do procurador-geral da República, Rodrigo Janot, que, ao falar sobre as denúncias de corrupção na petroleira, sugeriu substituições na direção.

O líder do DEM na Câmara, Mendonça Filho (PE) voltou a defender a renovação da diretoria. "A oposição tem insistido que a presidente da República renove a diretoria da Petrobrás, para que a empresa possa ter um comando sem histórico de relação com as denúncias", concluiu.

Para o líder do PPS na Câmara, Rubens Bueno (PR), não há mais "desculpa" para a presidente Dilma Rousseff manter sua "protegida" na Petrobrás. "É um enredo estarrecedor. Não há mais qualquer desculpa para a permanência de Graça Foster na Presidência da Petrobrás. Se tiver o mínimo de juízo, a presidente Dilma tem a obrigação de demitir sua protegida e toda a diretoria da empresa. Se não o fizer, vai sinalizar que também faz parte da quadrilha que saqueou a Petrobrás", afirmou Bueno em nota.

O líder sugeriu que Venina Velosa da Fonseca, seja ouvida no inquérito da Operação Lava Jato e passe a ter proteção policial.

Presidente do PT defende Graça Foster

Rui Falcão defende Graça Foster e diz que é “pouco crível” que ela soubesse de irregularidades

• Presidente do partido rebateu acusação de gerente da Petrobras, que afirmou ter avisado Graça sobre problemas na estatal

Julianna Granjeia – O Globo

SÃO PAULO - O presidente nacional do PT, Rui Falcão, saiu em defesa da presidente da Petrobras, Graça Foster, nesta sexta-feira e disse que é “pouco crível” que ela tenha sido alertada sobre irregularidades cometidas na estatal e não tenha tomado nenhuma providência. Reportagem publicada pelo jornal “Valor Econômico” afirma que uma gerente da empresa havia alertado Graça por email sobre problemas encontrados em contratos, como pagamento de serviços não realizados.

— Eu não vi esse comunicado que foi feito a ela. O que eu posso dizer é que ela (Graça Foster) e a direção da Petrobras têm tomado todas as medidas pra investigar o que ocorreu lá e as denúncias que apareceram, inclusive estão com duas auditorias externas investigando. Então, é pouco crível que, ela sendo alertada, não tenha tomado providências — disse Falcão, durante encontro de petistas em São Paulo.

Rui Falcão também ressaltou que não há nenhuma acusação envolvendo a presidente da Petrobras e que ela trocou parte da diretoria quando assumiu:

— É importante também a gente notar que toda essa ação de investigações da Petrobras não deve ser interrompida. A Petrobras hoje vive dificuldades como patrimônio brasileiro que a gente precisa entender.

O presidente do PT defendeu que, caso seja comprovadas as denúncias de corrupção e cartel na Petrobras, deve haver “reposição do dinheiro público e punição dos envolvidos”. Rui lembrou que as investigações do cartel do Metrô de São Paulo deve seguir o mesmo rigor.

— Todas as empresas acusadas de corrupção são grandes realizadoras de obras, são fornecedoras da Petrobras. É preciso que se encontre uma solução que não implique perdão nem impunidade, mas que o país nem a Petrobras parem, para que não haja desemprego.

Ministérios de Dilma
Rui Falcão é o interlocutor entre o PT e a presidente Dilma Rousseff para a composição do ministério. Ele afirmou que a presidente deve anunciar todos os anos até antes do Natal.

— Tem postos que o PT pode reivindicar, que pode estar em conflito com interesses de outros partidos. A presidente e os seus ministros vão ter que mediar isso. Vamos apresentar pleitos, conteúdos e nomes. Estamos pedindo para manter Berzoini, Mercadante e outros ministros.

Rui afirmou que já ouviu "forças políticas" e aguarda o chamado de Dilma para apresentar os nomes. Depois de formado o ministério, o PT vai negociar cargos federais nos estados.

Dilma mantém disposição de não mexer na diretoria

Tânia Monteiro - O Estado de S. Paulo

A presidente Dilma Rousseff não mostra disposição de mudar a atual diretoria da Petrobrás, segundo auxiliares próximos. Dilma, que passou o dia de ontem no Rio, incumbiu o seu braço direito, ministro-chefe da Casa Civil, Aloizio Mercadante, para cuidar pessoalmente do acirramento da crise após as declarações da ex-gerente Venina Velosa da Fonseca. Ao final do dia, quando embarcou para Porto Alegre, onde passará o fim de semana, a presidente estava, segundo assessores, propensa a não alterar o comando da Petrobrás.

Toda a estratégia de comunicação sobre o caso Venina está concentrada na mão da própria presidente da Petrobrás, Graça Foster. Segundo informações que circulavam ontem no Palácio do Planalto, a cautela em dar uma resposta às denúncias se deve a especulações do mercado de que a ex-gerente executiva da Diretoria de Refino e Abastecimento da Petrobrás tem mais munição para disparar a qualquer momento.

No Planalto, há dois tipos de avaliação. A primeira vê as declarações de Venina como uma forma de atingir Dilma, que é amiga de Graça. A segunda dá conta de que o cerco contra a atual presidente da Petrobrás se fecha a cada dia e sua permanência no comando deixa a estatal fragilizada. Esse entendimento é compartilhado por setores do PT, que também consideram que é a hora de realizar uma mudança na diretoria da empresa.

Apesar dessa avaliação, a decisão de Dilma, por enquanto, é manter tudo como está. Um dos auxiliares da presidente disse que Venina já foi braço direito do ex-diretor da estatal Paulo Roberto Costa, preso na Operação Lava Jato. Dentro deste raciocínio, as suas acusações, na verdade, seriam um "mecanismo de defesa", já que, eventualmente, as investigações poderiam vir a se aproximar de sua atuação na estatal.

Outra preocupação atual do Planalto é com as declarações recentes do procurador-geral da República, Rodrigo Janot, que comprou a briga contra a atual direção da Petrobrás ao pedir a troca de comando na empresa, na terça-feira. O governo está entendendo que se trata de uma tentativa de Janot de "salvar a sua pele" e evitar ficar marcado como quem contemporizou em relação aos problemas da estatal.

Justiça aceita denúncia e mantém empreiteiros presos

• Costa, Youssef e diretores da Engevix já são réus em processo; STF nega habeas corpus para lobista e dez executivos

Cleide Carvalho / Renato Onofre – O Globo

CURITIBA e BRASÍLIA- A Justiça Federal aceitou ontem a denúncia e transformou em réus nove acusados de envolvimento no escândalo de corrupção na Petrobras. Passaram a réus no processo três executivos da construtora Engevix — Gerson de Mello Almada, vice-presidente, e os diretores Carlos Eduardo Strauch Albero e Newton Prado Júnior —, o exdiretor da Engevix Luiz Roberto Pereira, além do ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa, do doleiro Alberto Youssef e de três pessoas do núcleo de Youssef no esquema: Waldomiro de Oliveira, Carlos Alberto Pereira da Costa e Enivaldo Quadrado.

Todos são acusados pelo MP por 33 atos de corrupção e 31 de lavagem de dinheiro em obras da Refinaria Gabriel Passos (Regap), em Minas Gerais.

Em Brasília, o ministro Teori Zavascki, do Supremo Tribunal Federal (STF), negou ontem habeas corpus para dez executivos de empreiteiras acusados de participar do escândalo. Também permanecerá atrás das grades o lobista Fernando Soares, o Fernando Baiano, operador do esquema para o PMDB.

A decisão de Zavascki mantém presos José Aldemário Pinheiro Filho, presidente da OAS; José Ricardo Nogueira Breghirolli, funcionário da OAS; Agenor Franklin Magalhães Medeiros, diretor-presidente da Área Internacional da OAS; Mateus Coutinho de Sá Oliveira, funcionário da OAS; Dalton dos Santos Avancini, presidente da Camargo Corrêa; Eduardo Hermelino Leite, vice-presidente da Camargo Corrêa; João Ricardo Auler, presidente do Conselho de Administração da Camargo Corrêa; Erton Medeiros Fonseca, diretor da Galvão Engenharia; Ricardo Ribeiro Pessoa, presidente da UTC Engenharia; e Gerson de Mello Almada, vicepresidente da Engevix.

Em seu despacho, o juiz Sérgio Moro, da 13ª Vara Federal do Paraná, manteve a prisão de Gerson Almada, que cumpre prisão preventiva na carceragem da PF em Curitiba e já teve R$ 22,615 milhões bloqueados. Moro disse que a prisão cautelar do executivo é necessária para "prevenir a continuidade do ciclo delituoso" e alerta não só ao executivo, mas também à empresa, das consequências da prática de crimes relacionados a negócios com a administração pública.

"Não fosse a ação rigorosa, mas necessária da Justiça, é provável que a corrupção e lavagem estivessem perdurando até o presente", diz o juiz, em seu despacho.

O esquema de corrupção que será julgado na ação aberta ontem por Moro teria desviado R$ 158,9 milhões em obras na estatal. Desses, R$ 52,9 milhões só de investimentos ligados a Diretoria de Abastecimento, comandada por Costa. Segundo a denúncia, Almada ainda teria emitido documentos falsos para justificar o pagamento de R$ 13,4 milhões a empresas de fechadas comandadas pelo doleiro Youssef.

Operação Lava Jato complica situação financeira do PT

• Com torneira de doações fechadas após prisão de empreiteiros, dirigentes do partido estudam forma de pagar dívida de campanha

Ricardo Galhardo e José Roberto Castro - O Estado de S. Paulo

SÃO PAULO - O PT está sofrendo o impacto financeiro decorrente da Operação Lava Jato. Com a torneira das doações fechada desde a prisão de altos executivos de empreiteiras que financiavam o partido, dirigentes estaduais e nacionais fazem um jogo de empurra em relação à dívida de mais de R$ 25 milhões da campanha de Alexandre Padilha ao governo de São Paulo.

O presidente estadual do PT de São Paulo, Emidio Souza, admitiu nesta sexta-feira, 11, que as investigações movidas pela Polícia Federal e Ministério Público federal atrapalham o encaminhamento de uma solução para o pagamento da dívida.

"Na solução da dívida acredito que (atrapalha) sim", disse o dirigente na manhã desta sexta-feira, 11, durante reunião da chapa majoritária do partido, Partido que Muda o Brasil (PMB).

Emidio tenta dividir com a direção nacional do PT a dívida alegando que o esforço da campanha em São Paulo também tinha como objetivo alavancar o desempenho da presidente Dilma Rousseff no maior colégio eleitoral do Brasil. "A dívida de São Paulo nunca se pagou sozinha. Somos um partido só. Aqui também foi feito um esforço nacional", disse ele.

O pedido, no entanto, esbarra no tesoureiro nacional do partido, João Vaccari Neto, responsável pela arrecadação do PT, que é alvo das investigações da Lava Jato e alega não ter responsabilidade sobre a dívida. Segundo Vaccari, a direção estadual do PT de São Paulo foi avisada ainda no primeiro semestre que a situação financeira do partido era difícil.

Ele tem dito que se houver algum socorro nacional ao PT-SP ele virá do comitê financeiro da campanha de Dilma à reeleição, comandado por Edinho Silva.

Emidio discorda da argumentação de Vaccari e insiste no pedido de ajuda à direção nacional. "Quem trata oficialmente (da dívida) é o tesoureiro do partido. O Edinho cuidou da campanha da Dilma", disse Emidio que admitiu ser grande a chance de o prazo para pagamento das despesas se alongar. "Este é um aspecto que nos preocupa mas a solução não virá em um curto espaço de tempo", completou.

Vaccari diz que escândalo atrapalha posse de Dilma

• Tesoureiro do PT afirmou que crise política prejudica arrecadação para a cerimônia

Catia Seabra – Folha de S. Paulo

SÃO PAULO - O tesoureiro do PT, João Vaccari Neto, recomendou nesta sexta-feira (12) "criatividade" ao partido para bancar a festa de posse da presidente Dilma Rousseff.

Reunido com petistas, ele admitiu que a explosão da Operação Lava Jato, aliada à crise internacional, afugenta potenciais colaboradores.

E, queixando-se da falta de recursos, sugeriu que os diretórios municipais do PT se cotizem para garantir público na festa de posse da presidente, no dia 1º de janeiro.

"Os doadores estão com medo", disse Francisco Rocha, o "Rochinha".

De acordo com participantes, Vaccari fez questão de frisar que seu nome não está entre os denunciados pelo Ministério Público Federal por participação no esquema na Petrobras. Mais uma vez, negou irregularidades.

Ele reconheceu, porém, impacto na arrecadação do partido. Informou que a redução, em cerca de 20%, provocará significativa perda de receita no ano que vem.

A crise provocada pelo escândalo na Petrobras foi o tema principal do encontro, que reuniu as correntes que compõem a chapa que controla o partido.

Na reunião, Vaccari defendeu o financiamento público de campanha eleitoral como forma de combate à corrupção. Para ele, o partido arrecadaria mais caso fosse aprovada uma fórmula que mescla financiamento público e teto de contribuição de pessoa física (em R$ 100 mil).

"O problema é que todos os doadores estão presos. E não é só [problema] do PT", lamentou um dirigente petista. O anúncio de vacas magras ocorre num momento em que coordenadores das campanhas estaduais pedem socorro ao comando nacional.

O coordenador do comitê de Alexandre Padilha, derrotado na disputa ao governo de São Paulo, Emídio Souza, calcula em R$ 30 milhões a dívida da campanha. Segundo ele, o prejuízo é do partido. Vaccari discorda.

Ao deixar a discussão, o presidente do PT, Rui Falcão, brincou ao comentar sua pauta. Numa menção a termos como "revitalização", afirmou: "Nunca falei tanto ré"".

Petrobrás diz em nota que funcionária teve oportunidade de revelar fatos antes e não o fez

• A geóloga Venina Veloso revelou a jornal que avisou em 2009 à presidente da estatal, Graça Fostar, sobre irregularidades

Fernanda Nunes – O Estado de S. Paulo

A Petrobrás divulgou comunicado oficial na noite desta sexta-feira, 12, no qual informa que a funcionária Venina Velosa da Fonseca "teve a oportunidade, mas não revelou os fatos que está trazendo agora ao conhecimento da imprensa". A nota responde à denúncia divulgada nesta sexta pelo jornal Valor Econômico de que Venina teria avisado a presidente da estatal, Graça Foster, de irregularidades na diretoria de Abastecimento da empresa, na época comandada por Paulo Roberto Costa, delator na Operação Lava Jato, da Polícia Federal.

Segundo a estatal, Venina chegou a ser ouvida por comissão interna que apurou possíveis casos de corrupção nas obras para a construção da Refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco. "A empregada guardou estranhamente por cerca de cinco anos o material e hoje possivelmente o traz a público pelo fato de ter sido responsabilizada pela comissão", afirmou.

Venina foi afastada do cargo de presidente do escritório da Petrobras em Cingapura após comissão interna da Petrobras ter concluído que ela, entre outros empregados, não cumpriram os procedimentos corretos de contratações.

Confira a íntegra do texto:
"Com referência às matérias publicadas na imprensa a respeito de denúncias feitas pela empregada Venina Velosa, a Petrobras reitera que tomou todas as providências para elucidar os fatos citados nas reportagens. Não procede a afirmação de que não houve apuração por parte da Companhia em nenhum dos três casos citados por ela: RNEST, Compra e Venda de BUNKER e Irregularidades da Gerência de Comunicação do Abastecimento.

A Petrobras instaurou comissões internas de apuração, entre as quais uma referente aos procedimentos de contratação nas obras da RNEST, em 2014. A empregada foi ouvida nesta comissão, momento em que teve a oportunidade mas não revelou os fatos que está trazendo agora ao conhecimento da imprensa. A empregada guardou estranhamente por cerca de 5 anos o material e hoje possivelmente o traz a público pelo fato de ter sido responsabilizada pela comissão.

A empregada foi citada no relatório desta Comissão com referência a responsabilidades por não conformidades consideradas relevantes. O resultado foi enviado às Autoridades Competentes (MPF, PF, CVM, CGU e CPMI) para as medidas pertinentes. A empregada foi destituída da função de diretora presidente da empresa Petrobras Singapore Private Limited em 19/11/2014, após o que ameaçou seus superiores de divulgar supostas irregularidades caso não fosse mantida na função gerencial.

A Petrobras instaurou comissões internas em 2008 e 2009 para averiguar indícios de irregularidades em contratos e pagamentos efetuados pela gerência de Comunicação do Abastecimento. O ex-gerente da área foi demitido por justa causa em 3 de abril de 2009, por desrespeito aos procedimentos de contratação da Companhia. A demissão não foi efetivada naquela ocasião porque seu contrato de trabalho estava suspenso, em virtude de afastamento por licença médica. A demissão foi efetivada em 2013. O resultado das análises foi encaminhado para a CGU e MP/RJ e há uma ação judicial em andamento visando ao ressarcimento dos prejuízos causados à companhia pelo ex-empregado.

Após resultado do Grupo de Trabalho constituído em 2012, a Petrobras aprimorou os procedimentos de compra e venda de bunker, com a implementação de controles e registros adicionais. Com base no relatório final, a Companhia adotou as providências administrativas e negociais cabíveis. A Petrobras possui uma área corporativa responsável pelo controle de movimentações e auditoria de perdas de óleo combustível, que não constatou nenhuma não conformidade no período de 2012 a 2014".

Para Marina, governar sem programa é dissimulação

• Ex-senadora criticou Dilma indiretamente

Marina Dias – Folha de S. Paulo

SÃO PAULO - Em seu primeiro discurso público após o resultado das eleições, Marina Silva (PSB) fez nesta sexta-feira (12) uma fala bastante enigmática em que chamou o processo eleitoral de "doloroso" e "avassalador" e disse que um governo sem programa está suscetível a "dissimulações".

Segundo a ex-senadora, "colocar as coisas no papel" possibilita que se "pague o preço das posições tomadas".

"É muito triste ver os documentos que são feitos irem sempre para as prateleiras", afirmou a pessebista no lançamento da "Plataforma Brasil democrático e sustentável", em São Paulo. "É bom ver que muitas das coisas também estiveram em um programa de governo."

Durante a campanha, a terceira colocada na disputa pelo Palácio do Planalto fez críticas constantes a seus adversários, a presidente Dilma Rousseff (PT) e o senador Aécio Neves (PSDB), por não apresentarem um programa de governo. O texto de sua candidatura, porém, foi muito contestado por recuos como a retirada de trechos que defendiam a ampliação de direitos da comunidade gay.

Marina não deixou de justificar indiretamente seu apoio a Aécio no segundo turno e declarou que é preciso "arriscar" e "continuar assumindo posição". Aproveitando-se de seu vocabulário metafórico, disse que "quando você está apegado e gosta muito da forma de si, é porque você já se transformou em conservador".






Demissões podem custar R$ 600 mi

• Acordo da Petrobrás com centrais, patrocinado pelo governo, poderia fazer a estatal assumir o custo trabalhista de fornecedores

João Villaverde e Lu Aiko Otta - O Estado de S. Paulo

BRASÍLIA - A Petrobrás pode ser forçada a pagar uma despesa nova de quase R$ 600 milhões à Justiça do Trabalho se o acordo entre o governo Dilma Rousseff, as centrais sindicais e o Ministério Público Federal sair do papel. Reunião decisiva sobre o assunto será realizada pelo ministro-chefe da Casa Civil, Aloizio Mercadante, na segunda-feira no Palácio do Planalto.

Como antecipou o Estado, o governo costura uma operação que faria a Petrobrás arcar com os custos trabalhistas de suas fornecedoras, que têm demitido funcionários em refinarias e estaleiros em obras de construção para a estatal.

As fornecedoras têm alegado aos sindicatos e ao governo que estão sem receber repasses contratuais da Petrobrás e, por isso, não têm feito os pagamentos aos demitidos.

A proposta em estudo é que a Petrobrás pague os direitos trabalhistas devidos pelas empresas fornecedoras aos trabalhadores como uma espécie de adiantamento e depois os desconte dos valores que tenha a pagar às empresas.

Ganho de imagem. Em dificuldades financeiras, por causa do preço da gasolina represado há três anos, e políticas, devido aos desdobramentos da operação Lava Jato, a Petrobrás poderia ter um "ganho de imagem" com essa engenharia financeira em estudo no Palácio do Planalto, avaliam fontes do governo.

As centrais sindicais começaram a estimar quantos trabalhadores estão na condição de demitidos sem receber nenhum dinheiro das empresas.

No caso dos 5 mil desligados pelas construtoras nas obras da Refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco, a Força Sindical estima que os gastos serão de R$ 140 milhões.

Com as demissões em diversas regiões, como o Estaleiro Maragogipe (BA), o Comperj (RJ), estaleiros no Rio Grande do Sul, além de Abreu e Lima, o total de desligados por fornecedoras sem qualquer pagamento pode superar 25 mil trabalhadores.

Numa conta simples, o valor total pode chegar a quase R$ 600 milhões. "Tem fornecedora da Petrobrás que está há quase um ano sem receber e agora começou a demitir", afirmou Miguel Torres, presidente da Força Sindical.

Meio milhão. Ao todo, as centrais sindicais avaliam que o universo de trabalhadores contratados indiretamente pela Petrobrás varia de 480 mil a 510 mil pessoas.

O governo Dilma, no entanto, não quer tomar essa decisão sozinho. Da reunião convocada por Mercadante participarão também o advogado-geral da União (AGU), Luis Inácio Adams, técnicos do Ministério da Justiça, do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) e da Controladoria-Geral da União (CGU), além de representantes do Ministério Público Federal (MPF) e das seis maiores centrais sindicais do País.

O grupo pode aumentar: os sindicalistas sugeriram incluir no encontro o presidente do Tribunal Superior do Trabalho (TST), ministro Antonio Barros Levenhagen.