terça-feira, 24 de setembro de 2019

Eliane Cantanhêde - Barbárie

- O Estado de S.Paulo

Quem mata uma menina pode matar as testemunhas e impor a versão de 'legítima defesa'

Há dor, indignação e desespero com a morte da pequena Ágatha, mas não se pode dizer que haja surpresa. Não só a insegurança do Rio de Janeiro continua desesperadora como há uma onda estimulada pelo discurso do presidente da República e do governador do Estado, no sentido de que tem de endurecer, custe o que custar. Mesmo que custe vidas de inocentes, inclusive de crianças (desde que pobres e negras, bem entendido). Para Wilson Witzel, “é apontar na cabecinha e pou”. Visava a bandidos, mas o diminutivo acaba sendo macabro.

Assassinada com um tiro pelas costas, Ágatha é a quinta criança morta neste ano no Rio em circunstâncias envolvendo policiais. Morre a criança, liquida-se a família, acaba-se de vez com o amor-próprio de uma comunidade inteira e multiplica-se a indignação no País todo e para além das fronteiras, mas... nenhum desses crimes foi de fato investigado, ninguém foi punido.

É nessa realidade que o Brasil quer aprovar o “excludente de ilicitude”, apelidado de “licença para matar”, porque livra a cara de policiais que saiam matando os outros? O ministro Sérgio Moro diz que, pelo projeto que enviou ao Congresso, isso só vale para “legítima defesa”, e em serviço, e não tem nada a ver com o caso de Ágatha. Mas os limites são tênues...

Radicalmente contra a medida, Nelson Jobim, o ex-presidente do Supremo e ex-ministro da Justiça e da Defesa, diz que só a discussão, em si, já “estimula a polícia a fazer, mais e mais abertamente, o que já faz”. Ele explica que seria “legitimar a agressão por parte do poder público e sem o controle da operação, que seria do próprio policial”. Ou seja, corresponderia a outorgar ao policial “um poder discricionário”, porque é ele quem controla a operação, a versão e o desfecho.

Outro ex-ministro do Supremo vai além: se o policial sabe que não corre risco, que ficará impune e acaba atirando sem pensar até em crianças na escola, brincando e passeando com pais e avós, esse policial pode pisar ainda mais fundo nesse acelerador macabro. Se mata tão facilmente uma menina com um tiro nas costas, que dificuldade teria para matar também as testemunhas? Basta alegar que elas o ameaçavam e foi tudo em legítima defesa. Sem testemunhas, qualquer história ganha asas. Ainda mais se o poder público autoriza, permite, até estimula. Barbárie.

Bernardo Mello Franco - O caixão como palanque

- O Globo

O governador do Rio disse lamentar a morte de Ágatha, mas não chegou nem perto de uma autocrítica. Ao contrário: culpou os usuários de drogas e fez propaganda da própria gestão

Wilson Witzel adora um microfone, mas levou três dias para comentar a última tragédia do Rio. Na sexta-feira, uma menina de 8 anos foi morta com um tiro nas costas. Ontem o governador reclamou dos protestos edis seque“é indecente usar um caixão como palanque ”.

O ex-juiz entende do assunto. Há um ano, ele estava no ato em que dois deputados do PSL quebraram uma placa com o nome de Marielle Franco. Witzel não se incomodou coma celebração da morte da vereadora. Aproveitou a euforia da plateia para pedir votos.

No mês passado, o governador repetiu a dose. Depois de uma ação que libertou reféns na Ponte Rio-Niterói, ele saltou do helicóptero aos pulos, como se comemorasse um gol. Festejava o tiro que matou o sequestrador, um ajudante de padeiro que tinha transtornos mentais.

Ontem Witzel disse lamentar a morte de Ágatha Félix, mas não chegou nem perto de uma autocrítica. Ao contrário: culpou os usuários de drogas e fez propaganda do próprio governo. Ao que tudo indica, o ex-juiz já absolveu os PMs suspeitos de atirar na menina. “A polícia age sempre na legítima defesa da sociedade”, declarou.

Míriam Leitão – Bolsonaro e Witzel erram na segurança

- O Globo

Sinal da arma com os dedos e “mirar na cabecinha” não são política de segurança, são apologia da violência feita por autoridades

Há quem diga que o presidente Jair Bolsonaro e o governador Wilson Witzel foram eleitos com uma agenda forte em segurança. Não é verdade. Bolsonaro faz apenas a apologia das armas. Isso não é um programa de segurança. Witzel disse que seus policiais iriam “mirar na cabecinha” e “abater criminosos”. Isso é defesa de assassinatos. Ele foi juiz um dia, deve ter lido que no Brasil não tem pena de morte. O que ele faz é executar a pena capital de forma sumária, sem julgamento. Como era previsível, as vítimas inocentes aumentam.

A morte de Ágatha Felix, 8 anos, é uma tragédia tão imensa e fica maior diante do fato de que outras crianças morreram este ano. E a prática continua sendo de atirar para averiguações. Segundo relato dos moradores, um policial da “polícia pacificadora” viu uma moto suspeita e atirou. Acertou a menina em uma van.

Segundo a versão da Polícia houve um tiroteio e não se sabe de onde partiu o tiro que encontrou a menina linda, inteligente, cheia de planos e que estava à caminho de Agatha’s House, como desenhou em sua aula de inglês. É inevitável pensar no futuro da menina. O futuro morto da menina.

A tragédia do Rio é que a última vez em que houve o esboço de política de segurança o governador era corrupto. A corrupção matou o sonho de uma polícia de nome Pacificadora. A ideia era ter jovens policiais recrutados e treinados numa nova mentalidade, para ver no morador um aliado e não um inimigo, para ouvir a comunidade e trabalhar pela paz. Ao mesmo tempo, o Estado prometia estar presente em cada parte da cidade e não aceitar a anomalia da possessão de facções criminosas sobre parte do território. Houve um florescer de negócios nas comunidades, os moradores da cidade adquiriram o direito de ir e vir, entidades especializadas avaliaram os avanços, obras realizaram antigos projetos de urbanização.

José Casado - O isolamento de Bolsonaro

- O Globo

Qual é o plano de Jair Bolsonaro para a Amazônia ou o meio ambiente? Se existe, ninguém sabe, ninguém viu nessas 37 semanas de governo. Até agora, se limitou ao vitimismo, muito conveniente a quem atola mas não quer se responsabilizar pela própria inépcia.

Hoje, na ONU, ele vai constatar a dimensão do seu isolamento, inédito para um chefe de Estado brasileiro. Pode tentar revertê-lo, mas isso, exige competência — mercadoria rarefeita na atmosfera do Palácio do Planalto, onde só florescem intrigas, perfídias e anacronismo.

O presidente começa a descobrir o custo da opção pelo papel de vilão ambiental. Foi Bolsonaro quem se apresentou como alvo no centro de uma renovada forma de ação política global, o ativismo climático.

A obsessão com uma conspiração internacional contra a soberania brasileira na Amazônia diz mais sobre o deserto de ideias do governo do que a respeito dos objetivos de países, ONGs e empresas na região.

Carlos Andreazza - Bolsonarismo versus lavajatismo

- O Globo

Quem precisa mais de quem? Moro de Bolsonaro? Ou Bolsonaro de Moro?

Não serei eu a duvidar daquilo por que é investigado o senador Fernando Bezerra Coelho. Nenhuma probabilidade de crime, porém, tornará menos grave o conjunto de barbaridades jurídicas — obra chancelada por Luís Roberto Barroso — em que consistiu a excursão policial a endereços relativos ao líder do governo no Senado; inclusive, e não à toa, dentro do Parlamento.

O que dizer de um ato de busca e apreensão que pretenda coletar, em 2019, documentos relativos a suposto recebimento de propina ocorrido no período entre 2012 e 2014? O que, qual mísero papel, se poderia querer encontrar, para robustecer provas, tantos anos depois? Qual seria o objetivo dessa excursão que não mais um arreganho na cruzada autocrática que mina a institucionalidade do país? Qual, senão jogar para a galera em mais um espetáculo de criminalização artificial da atividade política?

O que houve — qual o fato novo — que possa sustentar, fora do terreno das intenções políticas, essas medidas cautelares? Como justificar esses mandados, sem ver os dentes de uma Polícia Federal que se quer com leis próprias, se os fatos investigados são antigos, já amplamente conhecidos, e se a Procuradoria-Geral da República havia se manifestado contrariamente ao pleito da PF? A PGR foi explícita a respeito: a expedição teria “pouca utilidade prática”.

Ocorre que desde há muito — desde que o lavajatismo se espalhou como um poder dominador de extensos setores de órgãos estatais —, a utilidade prática deixou de ser critério decisivo para operações policiais. O bolsonarismo se beneficiou imensamente dessa onda. Com Bolsonaro eleito, pensou que poderia transformá-la em marola e enquadrá-la na própria piscina. Agora, com a piscina cheia de ratos, experimenta o caixote.

Merval Pereira - Os meandros da Justiça

- O Globo

Se o entendimento da maioria acompanhar o da Segunda Turma, julgamentos de Lula podem ser anulados

É costumeiro dizer que o tempo jurídico é diferente do da política. Desta vez, eles estão se aproximando. O ex-presidente Lula, pela conta mais conservadora, cumpriu ontem um sexto de sua pena de 8 anos, 10 meses e 20 dias definida pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ) no caso do tríplex do Guarujá. Poderia ir para o regime semiaberto.

Ao mesmo tempo, o Supremo Tribunal Federal (STF) marcou para amanhã o julgamento de um caso semelhante ao do ex-presidente do Banco do Brasil e da Petrobras, Aldemir Bendine, que teve a condenação anulada devido ao entendimento da Segunda Turma de que réus delatores devem falar antes dos demais réus, pois seriam auxiliares da acusação. E a defesa deve falar sempre por último.

Se o entendimento da maioria acompanhar o da Segunda Turma, não apenas os julgamentos de Lula, mas de vários outros condenados, podem ser anulados, recomeçando do zero.

Em outro processo contra Lula, o do Sítio de Atibaia, está tudo pronto para o julgamento do recurso da defesa no Tribunal Regional Federal-4 (TRF-4). O ex-presidente foi condenado em primeira instância a 12 anos e 11 meses de prisão pela juíza Gabriela Hardt, que substituiu interinamente Sergio Moro quando este deixou a magistratura para tornar-se ministro da Justiça.

O desembargador João Pedro Gebran Neto entregou seu voto no dia 11, depois de 90 dias de análise, e o revisor Leandro Paulsen também já terminou seu trabalho, restando agora o presidente do TRF-4, Victor Luiz dos Santos Laus marcar a data do julgamento. Isso quer dizer que Lula pode ser condenado novamente antes mesmo que os trâmites burocráticos para a progressão da pena sejam cumpridos. Ou que fique pouco tempo no regime semiaberto, tendo que voltar para a prisão fechada.

Luiz Carlos Azedo - Dois Brasis na ONU

- Nas entrelinhas | Correio Braziliense

“O discurso do presidente Jair Bolsonaro na ONU será uma espécie de Rubicão. A partir de seu posicionamento, o lugar do Brasil entre as nações será redefinido”

A ausência de representação oficial do Brasil na Cúpula do Clima, às vésperas da Assembleia-Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), quando todos os países sofrem as consequências das mudanças climáticas provocadas pelo aquecimento global, seria uma coisa inimaginável se não estivéssemos vivendo um momento surreal na política externa brasileira, principalmente no quesito sustentabilidade. Mas aconteceu, por decisão do presidente Jair Bolsonaro, na contramão do que pensam os cientistas e a maioria dos chefes de Estado dos países com que nos relacionamos. Até Donald Trump, que lidera a reação antiambientalista no mundo, foi de surpresa à cúpula para ouvir a primeira-ministra alemã Angela Merkel.

Enquanto o secretário-geral da ONU, António Guterres, aposta numa atitude positiva em relação aos problemas climáticos (“Estamos perdendo a corrida da emergência climática, mas ainda podemos vencê-la”), o governo brasileiro se refugia numa posição supostamente patriótica. Não leva em conta o futuro para as novas gerações, indiferente a atitudes que pautam a opinião pública mundial, como a da jovem ativista sueca Greta Thunberg, para quem seus sonhos e infância foram roubados com “palavras vazias”. Jovens do mundo inteiro hoje veem o Brasil como um grande vilão da questão ambiental.

Entretanto, as vozes de outra face do Brasil ecoam na Cúpula do Clima. Além dos chamados “povos da floresta”, com o cacique Raoni à frente, nossos cientistas também pedem socorro ao mundo. Segundo Carlos Nobre, um dos especialistas em florestas mais respeitados do mundo, não combater o desmatamento será um suicídio coletivo. Para o cientista, pesquisador do Instituto de Estudos Avançados da Universidade Federal de São Paulo, já há indícios de que o processo de savanização começou em mais da metade da Amazônia brasileira.

Na Cúpula do Clima, o presidente da França, Emmanuel Macron, citou o Brasil como um risco e lamentou a ausência de representantes brasileiros no encontro. Anunciou a liberação de cerca de US$ 500 milhões em ajuda financeira para proteção de florestas tropicais, inclusive a Amazônia. Há, na região, nove países, que cooperam e concorrem entre si, e buscam esses recursos; o Brasil, que seria o desaguadouro natural de parte considerável desse aporte financeiro, foi para o fim da fila. O discurso do presidente Jair Bolsonaro na ONU, nesse contexto, será uma espécie de Rubicão. A partir de seu posicionamento, o lugar do Brasil no concerto das nações será redefinido.

Bolsonaro já sabe que está numa faixa de risco, sua defesa da soberania nacional, velha retórica dos militares em relação à Amazônia brasileira, é uma narrativa que serve ao público interno, mas não é levada a sério pelos parceiros internacionais. Mais de 230 fundos de investimento cobram medidas do governo em defesa da Amazônia, contra o desmatamento e as queimadas. Esses fundos administram mais de R$ 65 trilhões. Os indicadores da economia já apontam uma queda brutal nos investimentos, em parte por causa das nossas incertezas políticas e do posicionamento do governo em relação à questão ambiental. Confirmam-se as advertências de que os erros de conceito na questão ambiental têm consequências danosas dramáticas.

Pablo Ortellado* - Bolivarianismo de direita

- Folha de S. Paulo

Antagonismo não deveria nos impedir de ver as semelhanças entre regime de Maduro e bolsonarismo radical

Em seu pronunciamento à Assembleia-Geral da ONU, Bolsonaro deve criticar duramente o regime de Nicolás Maduro. O antagonismo, porém, não deveria nos impedir de ver que o plano dos bolsonaristas mais radicais, sob influência de Olavo de Carvalho, é uma espécie de bolivarianismo de direita.

Olavo tem grande ascendência sobre a família Bolsonaro, sobretudo sobre os filhos do presidente, e influi no planejamento do Planalto por meio de Filipe Martins, assessor da Presidência e discípulo dileto do Rasputin de Campinas.

O diagnóstico dos olavistas no governo é que ocupar a Presidência da República não confere poder suficiente para efetivar as mudanças necessárias, dada a carregada inércia de instituições como o Parlamento e o Judiciário e dado o fato de que instituições formadoras de valores, como universidades, museus e a imprensa, estão atravessadas por ideologia esquerdista.

Hélio Schwartsman - 'Primum non nocere'

- Folha de S. Paulo

O primeiro dever do bom policial é não pôr a comunidade em risco

No ano passado, a polícia da Finlândia disparou seis tiros --cinco deles de advertência. E a polícia finlandesa, que, neste século, matou sete pessoas, é "assassina" perto da islandesa, que, desde que foi criada em sua formatação republicana, em 1944, matou um único indivíduo, num tiroteio.

No Brasil, não nos damos ao trabalho de contar as balas. Os cadáveres de pessoas mortas pela polícia, porém, chegaram a 6.160 no ano passado. Quanto aos tiroteios, não há base nacional a contabilizá-los, mas a plataforma Fogo Cruzado, que computa as ocorrências na região metropolitana do Rio, registrou, entre a segunda e a sexta-feira passadas, 82 situações de troca de tiros, com 43 baleados e 29 mortes.

É obviamente uma covardia comparar os índices de criminalidade do Brasil com os de países nórdicos, mas, mesmo considerando que os contextos e o tamanho das populações são muito diferentes, os números deixam claro que nossas forças policiais, ao contrário das escandinavas, não hesitam antes de disparar, com consequências tão previsíveis quanto trágicas, como foi o caso da menina Ágatha Félix.

Ranier Bragon - Kombi dos insensatos

- Folha de S. Paulo

É indecente usar caixão como palanque, diz governador dos soquinhos no ar e do tiro na cabecinha

A menina negra cujo sorriso agora é famoso nacional e internacionalmente estava com a mãe no banco de trás da kombi que a levaria para casa, na noite de sexta (20). Na última parada antes da sua, uma bala a atingiu pelas costas e encerrou seus oito anos de vida. Como última lembrança, deixou na kombi o saco de batatinhas fritas do McDonald's.

Enlouquecida e desgovernada, trilha as ruas do país outra kombi macabra, a dos insensatos. À morte de Ágatha Vitória Sales Félix, seus condutores e tripulantes responderam com covardia, omissão, hipocrisia.

Na direção está o primeiro mandatário. Aquele que defende uma primária e absurda política de bangue-bangue no combate à criminalidade e que aparenta ter, como única resposta às prováveis consequências nefastas de seu discurso e ação, o habitual sorriso idiotizado acompanhado da arminha com as mãos.

O que Jair Bolsonaro (PSL) ou sua tagarela família têm a dizer sobre Ágatha? Poucas horas depois do enterro da menina, um dos zero-qualquer-coisa, Eduardo, postou agradáveis impressões sobre o novo Rambo. "Quem não curte pode ver Teletubbies, que é menos agressivo."

Assis Moreira - Bordunas e Bolsonaro

- Valor Econômico

Mesmo que presidente brasileiro recue e prometa proteger a Amazônia, caminho será longo para começar a recuperar a credibilidade

Ao discursar nesta terça-feira na Assembleia Geral das Nações Unidas, o presidente Jair Bolsonaro pode até fazer promessas sobre proteção da Amazônia. Mas, mesmo se isso ocorrer, o caminho será longo para começar a recuperar a credibilidade. A forte percepção internacional sobre ele é de ser um dos chefes de Estado mais perigosos do planeta na área ambiental.

Além disso, o governo Bolsonaro corre o risco de novas reações globais e de colisão com compromissos assumidos na cena internacional, agora envolvendo direitos dos povos indígenas.

O governo anunciou que pretende concluir até o fim do mês uma proposta para regulamentar a exploração mineral em terras indígenas. Quer estabelecer meios de consultas dos povos indígenas e compensação pelo uso das terras. Só que, como adverte um importante observador na Europa, pode ser politicamente mais sensível na cena internacional mexer com grupos indígenas do que a queima de florestas.

Um representante de Brasília reconhece que consultas sobre exploração econômica de terras indígenas não é simples num país com mais de 600 áreas, 300 povos e 247 línguas indígenas. Há diferentes entendimentos, com forte potencial de conflito, do que se deve consultar, quando, se é só uma vez e do que deve resultar esse exercício.

Andrea Jubé - O camisa 10 de Bolsonaro no Senado

- Valor Econômico

Novo secretário da Receita é da cota de Alcolumbre

Após o chute na canela que levou da Polícia Federal, o líder Fernando Bezerra Coelho, ponta-de-lança do governo no Senado, continuará em campo, mas com rendimento comprometido. O governo tem três chutes a gol e a bola não pode bater na trave: a reforma da Previdência, as aprovações de Augusto Aras para a Procuradoria-Geral da República e de Eduardo Bolsonaro para a Embaixada do Brasil em Washington.

É nesse minuto do jogo que o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, que já estava em campo, veste a camisa 10 do time Bolsonaro e tem o passe valorizado. Depois de acalmar os senadores mediando junto ao Planalto as substituições das indicações dos conselheiros do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) - nomes que a Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) endossará hoje - Alcolumbre emplacou na semana passada, em sua cota pessoal, o novo secretário da Receita Federal, José Barroso Tostes Neto.

Foi um gol de placa, de artilheiro, para quem se recorda, com nostalgia, dos bucólicos tempos em que jogava como zagueiro do Matapi, um time de peladeiros de Macapá.

Na quinta-feira, a Polícia Federal cumpriu mandados de busca e apreensão no gabinete de Fernando Bezerra no Senado, e no gabinete de seu filho, o deputado federal Fernando Coelho Filho, na Câmara, e também na casa deles.

Ambos são acusados de receberem milhões de reais em propina supostamente desviada das obras de transposição das águas do Rio São Francisco. O presidente Jair Bolsonaro ficou contrariado, mas decidiu não mandar o atacante para o chuveiro.

Ricardo Noblat - Resposta a Bolsonaro e a Moro

- Blog do Noblat | Veja

Em questão, o abuso de autoridade
Convocado às pressas no fim de semana, o Congresso se reunirá, hoje, para votar pela última vez o projeto de lei sobre Abuso de Autoridade. A sessão será longa.

De um total de 118 dispositivos do projeto, o presidente Jair Bolsonaro, orientado pelo ministro Sérgio Moro, vetou 36. O Congresso pretende derrubar parte dos vetos.

O momento é propício. Bolsonaro está fora do país. E o Congresso furioso com a operação da Polícia Federal que na semana passada atingiu Fernando Bezerra Coelho, líder do governo no Senado.

Acusado de ter embolsado R$ 5,5 milhões da Odebrecht quando foi ministro de Dilma, Bezerra Coelho teve seu gabinete invadido por policiais que apreenderam documentos e computadores.

A derrubada de vetos não incomodará Bolsonaro. Ele vem se afastando do combate à corrupção desde que seu filho Flávio passou à condição de investigado por desvio de dinheiro público.

Quem sentirá o golpe será Moro, que foi contra o projeto na forma como ele foi aprovado pelo Congresso, e também procuradores da República e juízes em geral.

Lula, com um pé fora da cadeia

Tudo pronto para condená-lo outra vez
O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva completou, ontem, um sexto de sua pena de 8 anos, 10 meses e 20 dias de cadeia por crime de corrupção e de lavagem de dinheiro no caso do tríplex do Guarujá. Já pode ir para o regime semiaberto de prisão, trabalhando durante o dia e voltando para dormir na cadeia.

O que a mídia pensa – Editoriais

- Leia os editorias de hoje dos principais jornais brasileiros:

O clima como questão política – Editorial | O Estado de S. Paulo

Milhões de jovens saíram às ruas em 130 países, na semana passada, para exigir que os governos adotem medidas para mitigar os efeitos das mudanças climáticas e enfrentar as causas onde isso ainda for possível. Essa manifestação global mostrou que a questão climática é uma das poucas capazes de mobilizar hoje uma juventude crescentemente alheia à política e fechada em suas redes sociais. Assim, a nenhum governante é permitido ignorar esse fenômeno, que consolida o tema ambiental como o principal tópico político no planeta.

As mudanças climáticas afetam todos os quadrantes da vida em sociedade, e por isso devem ser encaradas como um problema de todos, e não somente deste ou daquele país. Preservando-se a soberania de cada nação, é preciso enfatizar que a devastação de florestas em um país certamente traz consequências para outros. Do mesmo modo, um governo pode ordenar a redução de emissão de gases, mas os resultados serão inócuos se essa iniciativa não for seguida por outros países. Ou seja, o enfrentamento das mudanças climáticas só terá bons resultados se o esforço for coletivo.

Isso significa aceitar como inevitável a negociação política em organismos internacionais, fóruns adequados para que se alcance consenso mínimo acerca dos problemas de caráter global, como é o caso das mudanças climáticas. É um evidente retrocesso quando um país como o Brasil, que sempre foi protagonista nas discussões sobre meio ambiente, esteja ausente de uma cúpula das Nações Unidas sobre o clima porque seu governo não demonstrou interesse, segundo informou o secretário-geral da ONU, António Guterres.

É perfeitamente possível negociar acordos para a adoção de medidas contra as mudanças climáticas sem colocar em risco a soberania nacional. O que não é mais possível é negar-se a enfrentar a realidade, refugiando-se em um discurso que, a título de defender a pátria, menospreza a ciência e as evidências. É somente por meio do debate adulto nos fóruns internacionais que o Brasil será capaz de expor suas demandas, ao mesmo tempo que poderá questionar que interesses estão por trás das pressões que os europeus têm feito em relação à Amazônia – e todos sabem que os agricultores da Europa ficariam satisfeitos se seus competidores brasileiros fossem confundidos com desmatadores e sofressem as consequências disso no comércio internacional.

Poesia | Vinicius de Moraes -Soneto de contrição

Eu te amo, Maria, eu te amo tanto
Que o meu peito me dói como em doença
E quanto mais me seja a dor intensa
Mais cresce na minha alma teu encanto.

Como a criança que vagueia o canto
Ante o mistério da amplidão suspensa
Meu coração é um vago de acalanto
Berçando versos de saudade imensa.

Não é maior o coração que a alma
Nem melhor a presença que a saudade
Só te amar é divino, e sentir calma…

E é uma calma tão feita de humildade
Que tão mais te soubesse pertencida
Menos seria eterno em tua vida.

Música | Toninho Horta - Aquelas coisas todas

segunda-feira, 23 de setembro de 2019

Marcus André Melo* - Bolsonaro e a ameaça da pequena corrupção

- Folha de S. Paulo

Exposição da grande corrupção favoreceu Bolsonaro; a da pequena poderá fraturar sua base

Se a exposição da grande corrupção levou Bolsonaro à Presidência, rachadinhas e delitos conhecidos na literatura como "petty corruption" tem produzido fissuras não triviais na coalizão que lhe deu sustentação.

O Brasil apresenta perfil singular no que se refere à corrupção: inexiste correlação entre a chamada pequena (petty) e a grande (grand) corrupção. Enquanto a primeira é baixa, a segunda é espantosa. Há evidências de baixa exposição à corrupção na interação dos cidadãos com agentes público: é a menor da América Latina, e a percentagem de brasileiros que sofreu tentativas de extorsão de propina aproxima-se da média da OCDE. É verdade que devemos tomar essa conclusão com um grão de sal, porque os indicadores são indiretos e imprecisos.

Celso Rocha de Barros* - O cheque do Queiroz

- Folha de Paulo

Todos os 'adultos no recinto' fracassaram na tentativa de moderar Bolsonaro

Desde o começo do governo Bolsonaro, tivemos vários candidatos a “adultos no recinto”, a voz de moderação que deveria, em tese, moderar Bolsonaro e impedi-lo de embarcar em aventuras autoritárias. Todos, sem exceção, fracassaram abjetamente.

Eu mesmo acreditei que Sergio Moro seria capaz de ser o adulto no recinto. Até agora, não há sinal disso. Moro vem se calando sistematicamente diante dos abusos do presidente da República.

E não só diante dos abusos contra a democracia e a liberdade de imprensa, a mesma imprensa sem quem Moro não seria ninguém: Moro também não veio a público se pronunciar contra o desmantelamento das instituições de combate à corrupção iniciado por Bolsonaro.

Apesar de todo o apoio da imprensa à Lava Jato, Moro foi cúmplice do bolsonarismo na guerra contra a revista Época, um passo importante na marcha autoritária em curso.

Diante dos resultados até agora, não faria diferença se o ministro da Justiça fosse o Onyx ao invés do Moro.

Vinicius Mota – A cova e as urnas

- Folha de S. Paulo

Programa de pesquisas acha conexões entre temor da morte e radicalização

O medo de morrer tem profunda implicação no modo como nos comportamos. A ideia parece banal, mas inspira ramo interessante da pesquisa em psicologia, que deu segmento experimental a cogitações do antropólogo cultural americano Ernest Becker (1924-1974).

Juízes do Arizona foram lembrados por entrevistadores de que iriam cedo ou tarde para a cova e depois foram questionados sobre qual seria a fiança que fixariam para um caso comum de prostituição. A quantia estipulada foi nove vezes a arbitrada pelo grupo de magistrados que não fora estimulado sobre mortalidade.

Segundo a teoria, chamada de “gerenciamento do terror”, sempre que somos lembrados da finitude, reagimos reforçando os liames com as crenças da comunidade. Os artefatos culturais desenvolvidos pelos grupos humanos seriam, assim, respostas ao medo do indivíduo de acabar.

Um eficiente resumo desse debate, em inglês, está disponível num episódio do ótimo podcast Hidden Brain, da rede pública de rádio dos EUA.

Leandro Colon – Reação ao caso Ágatha

- Folha de S. Paulo

Deputados deveriam homenagear menina morta e jogar fora ideia sobre excludente de ilicitude

O presidente Jair Bolsonaro se calou, e o ministro Sergio Moro (Justiça) divulgou uma nota protocolar sobre o trágico assassinato da menina Ágatha Félix, de 8 anos, no Complexo do Alemão, no Rio.

Moro lamentou a morte e disse confiar que “os fatos serão completamente esclarecidos pelas autoridades”. “O governo federal tem trabalhado duro para reduzir a violência e as mortes no país, e para que fatos dessa espécie não se repitam”.

É de Moro a ideia em discussão na Câmara do excludente de ilicitude, uma espécie de imunidade para policiais e militares que matarem pessoas em serviço. Um “livre para matar”.

A proposta do ministro prevê que o juiz poderá reduzir pela metade ou deixar de aplicar a pena por morte cometida em legítima defesa se o “excesso decorrer de escusável medo, surpresa ou violenta emoção”.

Ruy Castro* - Maneiras de morrer

- Folha de S. Paulo

Em vez de agir para que se morra menos, nossos governantes propõem matar mais

Uma recente pesquisa internacional classificou o Brasil em 64º lugar, num universo de 67 países, quanto ao grau de adequação para um estrangeiro viver. Mais um pouco e nem estaríamos entre os países considerados. A enquete se refere a 2018 e foi feita com 14.272 expatriados de 174 nacionalidades, a maioria funcionários de multinacionais e seus familiares. O Brasil recebeu notas vergonhosas em saúde, educação, transportes, segurança pública, estabilidade política e criminalidade.

Uma pesquisa idêntica, apenas entre brasileiros residentes no país, não resultaria muito diferente. No fator criminalidade, por exemplo, os números podem dizer que, entre homicídios dolosos, latrocínios e lesões corporais fatais, o número de mortes violentas intencionais caiu de 64.021 em 2017 para 57.431 em 2018 --mas que país se orgulharia desses números? E as provocadas por intervenção policial subiram de 5,1 mil para 6,1 mil. Você dirá que, não sendo nem policial, nem bandido, essa estatística não o afeta. Só se esquece de que, pela frequência com que os confrontos ocorrem, há sempre a possibilidade de se estar no meio deles.

Fernando Gabeira - Bolsonaro em Nova York

- O Globo

O presidente ignora o ímpeto das forças que despertou com sua política amazônica. Ninguém o avisou

Bolsonaro deve falar amanhã em Nova York. É o acontecimento da semana, embora as semanas no Brasil surpreendam com frequência.

Escrevi um artigo tentando elaborar sobre o contexto que espera Bolsonaro. No passado não era assim. Os presidentes brasileiros inauguravam a sessão da ONU com discurso protocolar e bocejos na plateia.

Sarney foi criticado por citar um obscuro poeta maranhense em seu discurso. Se o problema agora fosse esse, nem valeria escrever sobre o tema.

Bolsonaro ignora o ímpeto das forças que despertou com sua política amazônica. Ninguém o avisou. Seu chanceler acha que a Nasa não distingue fogueira de queimada. Internamente, estimulou os predadores. Era evidente que o enfraquecimento da fiscalização, a promessa de trazer mineradoras americanas para atuar na Amazônia, tudo isso contribuiu para a frase que estava no ar: da próxima vez o fogo.

Nos Estados Unidos houve quem afirmasse que as queimadas na Amazônia são uma grande ameaça à segurança nacional e devem ser tratadas como armas de destruição massivas.

Macron recuperou, timidamente, o discurso de Mitterrand sobre soberania limitada. Mitterrand a mencionou em dois casos: destruição ambiental e grandes violações dos direitos humanos.

Demétrio Magnoli - Faroeste caboclo

- O Globo

O ‘capitalismo’ de Salles opera em terreno semeado pelo fracasso das políticas amazônicas

Ricardo Salles, ministro do Desmatamento, disse que a preservação da Amazônia exige “soluções capitalistas”, para dinamizar a economia regional e gerar renda para seus 20 milhões de habitantes. A declaração inscreve-se na moldura de suas críticas à amplitude das unidades de conservação e terras indígenas. O “capitalismo” de Salles é um faroeste caboclo movido a bala, grilagem, motosserra, mineração e garimpo. Mas ele opera em terreno semeado pelo fracasso das políticas amazônicas conduzidas nas últimas décadas.

“Chega de lendas. Vamos faturar!”, exclamava uma peça publicitária da Sudam, divulgada em 1970, na qual o mapa da Amazônia Legal aparecia coberto por figuras de complexos industriais, explorações agropecuárias e implantações energéticas.

A ditadura militar definia a Amazônia como fronteira estratégica a ser conquistada e fronteira de recursos a ser dilapidada. A reação do Brasil democrático à barbárie da geopolítica militar foi redefinir a Amazônia nos termos de uma lenda: a coleção de árvores e “povos da floresta” que deveriam ser protegidos por uma aliança entre o Estado, as ONGs e a Igreja Católica.

Cacá Diegues - A alma do país

- O Globo

Fernanda Montenegro é um exemplo superior de intelectual brasileira, pensando sobre o que nós somos

‘Foram anos duros, mas foram os melhores anos de nossas vidas”. Essa citação de Bertolt Brecht está em “Prólogo, ato, epílogo”, editado pela Companhia das Letras, livro de memórias de Arlette Pinheiro, a atriz que melhor conhecemos pelo pseudônimo que adotou como profissional e que assina a obra, Fernanda Montenegro. A melhor atriz brasileira de todos os tempos, síntese de uma cultura nacional que se exprime por uma dramaturgia específica que só nós sabemos e podemos expressar.

Os “melhores anos de nossas vidas”, a que Fernanda se refere citando Brecht, são exatamente seus anos tão criativos, expostos ao desinteresse ou à ignorância repressora do Estado. Os anos em que aprendemos a admirá-la e segui-la, não apenas como a grande estrela que ela sempre foi, desde o iniciozinho de sua carreira ao microfone da Rádio MEC, mas também como uma estrela-guia de nossos passos em relação ao futuro do Brasil.

Fernanda Montenegro não é apenas a excepcional atriz de rádio, teatro, cinema e televisão, hoje reconhecida em todo o mundo. Ela é também um exemplo superior de intelectual brasileira, pensando sobre o que nós somos. Tudo o que ela faz ou diz, provavelmente tudo o que ela pensa, está sempre dedicado a reconhecer de onde viemos como nação e para onde devemos ir. Mas não como uma opção aleatória, uma alternativa sem discussão, a gosto do freguês. Ao contrário, como nossos grandes pensadores do século XX, os inventores do Brasil moderno, Fernanda quer descobrir o que somos e o que poderíamos ser, para poder nos reinventar.

Carlos Pereira - Por que tamanho desconforto?

- O Estado de S.Paulo

O mal-estar decorre da polarização de preferências e não do desenho institucional

Em visita recente à Inglaterra tive a oportunidade de interagir com vários cientistas políticos e economistas britânicos. Chamou a atenção o mal-estar generalizado proporcionado pela grande incerteza sobre os rumos que o Reino Unido poderá tomar em relação a União Europeia. Tanto os favoráveis como os contrários ao Brexit não conseguem sequer saber se o Brexit vai de fato ser implementado; se com ou sem acordos comercial, aduaneiro e fronteiriço; quais os termos desses acordos; e quais as consequências econômicas e políticas desta decisão.

O grau de incerteza é tamanho que alguns têm argumentado que a democracia britânica estaria ameaçada, especialmente após a decisão do primeiro-ministro, Boris Johnson, de suspender as atividades do Parlamento até meados de outubro, próximo da data limite (31/10) da decisão sobre o Brexit.

Este cenário é surpreendente porque o sistema político britânico, conhecido como Westminster, foi historicamente desenvolvido para ser gerador de estabilidade, previsibilidade e governabilidade. Esse sistema unificado de poderes é considerado “majoritário puro” por possuir um número muito reduzido de vetos institucionais e partidários. Além disso, o Reino Unido não tem uma constituição escrita, é um país unitário, é de facto unicameral e todo o poder deriva do Parlamento. Uma vez que uma maioria seja forjada, o governo teria amplas condições de governar de forma decisiva e diligente.

Cida Damasco - Fora do compasso

- O Estado de S.Paulo

Brasil tenta romper estagnação da economia enquanto mundo reduz o ritmo

Tudo que se dizia, até pouco tempo atrás, era que as razões da estagnação da economia brasileira estavam integralmente dentro de casa. Portanto, romper esse processo e pôr a economia para andar dependia exclusivamente da correção dos desajustes internos, a começar dos desequilíbrios das contas públicas. A economia internacional vinha funcionando para atenuar ou contrabalançar as dificuldades domésticas. Pois bem, a maré virou. Não que os obstáculos internos tenham sido derrubados. Mas, para complicar, eles se associam agora aos riscos de piora do quadro externo.

As projeções para o desempenho da economia mundial jogam para baixo tanto o crescimento de 2019 como o de 2020. Segundo a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), a expansão neste ano ficará em 2,9% e, no ano que vem, em 3%, em confronto com 3,2% e 3,4% das estimativas anteriores. Abaixo das taxas registradas desde a crise do subprime de 2008. Para o Brasil, os números esperados são ainda mais modestos, respectivamente 0,8% e 1,7% – a taxa para o ano que vem é inferior inclusive à esperada tanto pelos mercados como pelo governo, de 2%.

A guerra comercial entre Estados Unidos e China, com batalhas e tréguas seguidas, a interminável disputa do Brexit e os altos níveis de endividamento do setor privado estão na raiz dessa paradeira geral. Não há reação sequer à política monetária de “juros no chão” dos grandes bancos centrais e à política fiscal expansionista adotada por alguns países.

Bruno Carazza* - Veta, presidente!

- Valor Econômico

Projeto patrocinado por Rodrigo Maia enfraquece democracia

Com a exceção de Jair Bolsonaro, nenhum político brasileiro se beneficiou tanto da avalanche antissistema gerada pela combinação explosiva entre a Operação Lava-Jato, o impeachment de Dilma e a severa crise econômica quanto Rodrigo Maia. Eleito presidente da Câmara em 14/7/2016 após a queda de Eduardo Cunha, desde então o deputado do Rio tem mostrado habilidade para se perpetuar no comando da agenda legislativa e cair nas graças do mercado.

Rodrigo Maia consolidou-se como figura central no tabuleiro político brasileiro ao ocupar dois vácuos de poder. Sobrevivente em uma eleição que ceifou os mandatos de dezenas de figurões da política tradicional, Maia é um dos parlamentares mais experientes na atual legislatura. Em seu 6º mandato federal consecutivo e diante de parlamentares novatos ou de baixo clero, vale o ditado de que “em terra de cego, quem tem um olho é rei”.

Maia também tem ampliado sua estatura política aproveitando-se do novo estilo de governar de Bolsonaro. Ao contrário dos presidentes anteriores, o atual ocupante do Palácio do Planalto abre mão do controle da agenda legislativa no Congresso, e assim Rodrigo Maia tem assumido o protagonismo na condução dos trabalhos, colhendo os louros da aprovação de medidas como a reforma da Previdência.

Tratado como “primeiro-ministro”, queridinho do mercado e cortejado para ocupar chapas presidenciais em 2022, Rodrigo Maia tem posado de estadista ao fazer frente aos arroubos autoritários de Bolsonaro, defender o equilíbrio fiscal e levar adiante propostas legislativas liberalizantes. Nas últimas semanas, porém, o presidente da Câmara revelou a sua face mais retrógrada ao liderar a aprovação do pacote de medidas que fragilizam o controle e a transparência nas eleições.

Alex Ribeiro - Economia global deve justificar juro menor

- Valor Econômico

Tudo indica que o cenário internacional pesou no diagnóstico do Banco Central

A decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central de ir mais fundo no ciclo de corte de juros foi, no geral, bem recebida pelos mercados, mas houve alguns questionamentos de especialistas. Tudo indica que a economia global pesou no diagnóstico do Banco Central. Há certa incompreensão, porém, sobre como esse fator afeta o cenário inflacionário e, sobretudo, o balanço de riscos.

No dia seguinte à decisão, os juros negociados em mercado recuaram, o que significa uma dose adicional de estímulo monetário na economia. Os swaps de 360 dias, que têm uma correlação mais forte com a atividade, caíram de 5,1% ao ano para 4,92% ao ano. Os operadores veem como sustentáveis os juros menores, tanto que derrubaram as taxas futuras em prazos mais longos, como 2023 e 2025.

Alguns analistas econômicos, entretanto, têm manifestado estranhamento com a queda súbita e pronunciada das projeções de inflação do Copom, principal sinalizador das decisões futuras de política monetária. Outros alertam que o balanço de riscos desaconselha movimentos mais ousados nos juros, já que cenário global tornou-se mais incerto ultimamente devido à guerra comercial e a eventos geopolíticos, como o ataque às refinarias na Arábia Saudita.

Ricardo Noblat - Uma coisa é o que Bolsonaro pensa. Outra, o que dirá na ONU

- Blog do Noblat | Veja

Se dissesse o que pensa seria um escândalo
Pouco importa o que o presidente Jair Bolsonaro disser no discurso de abertura, amanhã, de mais uma Assembleia Geral da ONU, em Nova Iorque. O que ele pensa de fato a respeito da questão ambiental já disse por aqui muitas vezes. Se repetisse por lá, escandalizaria o mundo. Caso calibre as palavras para dizer o contrário do que pensa, ninguém acreditará.

Na última quinta-feira, em mais uma de suas exibições semanais no Facebook onde fala o que quer a salvo de perguntas embaraçosas de repórteres e sente-se acolhido por ministros e assessores que escala para rirem e apoiarem tudo o que ele propor, Bolsonaro foi mais Bolsonaro ao antecipar o que gostaria de dizer na ONU, mas que não terá tamanha coragem para tal.

Admitiu de saída:

“Tá na cara que eu vou ser cobrado, porque alguns países me atacam de uma maneira virulenta, dizem que eu sou o responsável pelas queimadas. Nós sabemos, pelos dados oficiais, que queimada tem todo o ano. Quer que faça o quê? Tem”.

Em seguida, como de costume, jogou a culpa nos outros:

“Não só o caboclo toca fogo no roçado para plantar uma coisa no tocante à sobrevivência. O índio faz a mesma coisa. Mas tem aqueles que fazem de forma criminosa. Agora, como combater tudo isso sem meios na região Amazônica? (…) É complicado”.

Pode ser complicado. Mas o que Bolsonaro esconde é que seu governo não tem qualquer apreço pela preservação do meio ambiente. Como Trump, ele sequer reconhece que o planeta está mais quente. Bolsonaro aprendeu nas escolas militares que a Amazônia é um depósito de riquezas extraordinárias – e é. E que os demais países querem ocupá-la ou tomá-la do Brasil. Falso!

No passado, alguns chefes de Estado podem até ter pensado assim, hoje não. A Amazônia é do Brasil e de mais oito países por onde ela se estende – inclusive a Guina francesa. À falta de uma guerra há mais de 130 anos, o Exército alimenta o sonho de enfrentar uma em defesa da Amazônia. Ficará só no sonho. Mas ele ocupa a cabeça dos generais, dos seus auxiliares e a do ex-capitão, é claro.

Houve um momento, na curta palinha de Bolsonaro no Facebook, que ele deixou de lado o ensaio que fazia para mostrar-se mais moderado em Nova Iorque e cedeu lugar ao governante tosco que foi até agora e que não pretende deixar de ser por impossível. Então ele afirmou:

“Por que alguns países da Europa batem na gente duramente? O que eles queriam é que eu demarcasse mais duas dúzias de reservas indígenas, mais 30 ou 40 de quilombolas e ampliasse parques ambientais. O incêndio então acabaria imediatamente”.

Bolsonaro pensa ou quer que pensemos que o fogo que destrói a Amazônia, e também parte do Centro-Oeste, foi ateado por gente interessada na demarcação de reservas indígenas, de áreas para quilombolas e na ampliação de parques ambientais. Faz pouco tempo que ele culpou as ONGs nacionais e estrangeiras pelas queimadas e incêndios. Renovou a acusação, portanto.

Não terá peito para repeti-la na ONU. O provável é que se apresente ali como um radical tolerante, embora isso seja uma contradição em termos. O medo de vir a ser apontado mais tarde como o presidente que provocou um boicote internacional aos produtos brasileiros deverá pôr freios à sua retórica incendiária. Seria cobrado pelos que o elegeram. O dinheiro regulará sua fala.

O rolo que espera a volta do capitão

Promessa a perigo
O que fazer com Fernando Bezerra Coelho (PMDB-PE), líder do governo no Senado, alvo, na semana passada, de uma operação da Polícia Federal por ser suspeito de ter embolsado R$ 5,5 milhões da Odebrecht quando foi ministro da presidente Dilma Rousseff?

Luciano de Freitas Pinho */ Antônio Sérgio Martins Catatau * - O desaguadouro Luciano Huck

O bolsonarismo é a expressão tupiniquim de um fenômeno mundial.

A globalização, a era da informação, o relativo esgotamento do estado de bem-estar social tal como concebido no século passado, a democracia representativa perpassada pelas redes sociais, a crise dos setores da economia que não se integraram às cadeias mundiais e os fluxos migratórios desencadearam reações regressistas vocalizadas pela extrema-direita mundial.

Somam-se, no Brasil, o conflito entre a herança da economia fechada em si mesma e à necessária integração ao mundo, a crise do modelo de representação política exposta pela Lava Jato, a ascensão de amplas camadas da população ao mercado de consumo e a posterior recessão prolongada, o ingresso massivo no sistema educacional em dissintonia com a modernidade e a necessária qualificação, a não extensão dos direitos econômicos e sociais à grande maioria dos brasileiros, e mesmo o avanço das reivindicações identitárias. Tudo isso, em conjunto, e a fraca ou a não resposta dos setores do centro democrático e progressista, abriram espaço para a extrema-direita, que se expressou, por peculiaridades históricas, na candidatura e vitória de um simplório, retrógrado, ultradireitista e até então pouco articulado e inexpressivo deputado federal, capitão do Exército na reserva, nas eleições de 2018.

Vive-se agora uma quadra em que estão sob ameaças as conquistas decorrentes da Constituinte de 1988 e dos trinta e cinco anos ininterruptos de democracia.

No território econômico, nem sequer a tímida retomada do crescimento do governo de transição de Temer está assegurada.

A esquerda, hegemonizada pelo lulopetismo, que governou o país por três mandatos e meio, insiste em continuar presa à cela de Curitiba, sem reconhecer e enfrentar a autocrítica dos seus erros.

O conjunto das forças democráticas ainda vive a dispersão provocada pela polarização no processo eleitoral passado, continuado pelo presidente eleito e seu núcleo duro ajudados objetivamente pelas forças passadistas com sinal contrário.

Partidos derrotados em 2018 miram o centro e tentam se reposicionar para 2022

Políticos acreditam no esgotamento da polarização e na aposta do eleitor em nome de centro

Daniel Carvalho | Folha de S. Paulo

BRASÍLIA - Recuperando-se da ressaca prolongada causada pela eleição presidencial de 2018, partidos derrotados miram o centro do espectro político para se reposicionarem até a disputa de 2022. Já o presidente Jair Bolsonaro (PSL) tem procurado manter a polarização esquerda-direita que o levou ao Planalto.

Dirigentes de outros partidos, no entanto, apostam no desgaste desta tensão e na fadiga do governo por causa de tropeços administrativos e de uma recuperação econômica aquém das expectativas —bancos e consultorias têm revisado suas projeções de crescimento para níveis inferiores a 2% em 2020.

Para estes políticos, se o governo não der certo, a decepção da população pode trazer o eleitor para o centro em busca não de uma outra ideologia, mas de um novo nome. Apesar de estarmos a três anos das eleições, análises sobre possíveis candidatos de centro já irrompem em rodas de conversa.

Um dos mais fortes é o do apresentador e empresário Luciano Huck, que, por ora, mantém o discurso oficial de que é apenas um cidadão interessado em ajudar o Brasil, mas, como a Folha mostrou, tem intensificado sua movimentação política nos últimos meses, em sinal de que a candidatura é uma vontade mais viva do que nunca.

Polarização levará à consolidação de terceira via

Alcolumbre avalia que as eleições municipais do ano que vem servirão como uma prévia para a disputa presidencial

Por Daniel Gullino e Marco Grillo | Valor Econômico

BRASÍLIA - Em meio à polarização política, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP), aposta na possibilidade da consolidação de uma terceira via, de centro, para as eleições de 2022.

Alcolumbre avalia que as eleições municipais do ano que vem servirão como uma prévia para a disputa presidencial, já que o fim das coligações proporcionais deve levar a uma redução no número de partidos, que, por sua vez, influenciará as alianças nos pleitos seguintes.

A esquerda vai ter 25% dos votos, a extrema-direita, 25%, e partidos de centro, centro- direita, os outros 50%”
“A gente vai ter a fotografia, na eleição municipal, do que vai ser a eleição nacional”, afirma o presidente do Senado. “Porém, do meu ponto de vista, a esquerda vai ter 25% dos votos, a extrema-direita, liderada pelo PSL, talvez tenha também 25% dos votos, e vai acabar (com) esses partidos de centro, centro-direita, ficando com esses 50%. Então acho que isso vai se refletir também na eleição geral de 2022”, diz o congressista.

Divisão da centro-esquerda aprofunda-se

Lideranças reconhecem falhas na oposição a Bolsonaro e não veem possibilidade de união em 2022

Por Cristiane Agostine | Valor Econômico

SÃO PAULO - Às vésperas de completar um ano da eleição do presidente Jair Bolsonaro, a divisão na centro-esquerda aprofundou-se e não há perspectiva de união. A oposição a Bolsonaro comportou-se como “barata tonta”, ficou na defensiva e presa a disputas partidárias, segundo lideranças desse campo político. O descontentamento de dirigentes de legendas como PSB, PDT e PCdoB com o PT aumentou, e no lugar da construção de uma frente ampla, com uma possível candidatura única à Presidência em 2022, os partidos defendem pré-candidatos próprios. Há pelo menos seis nomes sendo articulados.

Lideranças de partidos de centro-esquerda reconhecem as falhas na oposição ao governo e reclamam da prioridade dada pelo PT à bandeira do “Lula Livre”. Para dirigentes, é um erro ter como foco a liberdade do ex-presidente, e não a discussão de uma agenda de desenvolvimento econômico e social. Em meio a brigas, a oposição já debate como potenciais candidatos presidenciais o ex-governador Ciro Gomes (PDT); o governador do Maranhão, Flávio Dino (PCdoB); o coordenador da frente de esquerda Povo Sem Medo e do MTST Guilherme Boulos (Psol); o ex-ministro do Supremo Tribunal Federal Joaquim Barbosa (PSB); o ex-candidato presidencial do PT Fernando Haddad (PT) e o governador da Bahia, Rui Costa (PT).

Candidato do Psol à Presidência em 2018, Guilherme Boulos disse que nos primeiros meses do governo a esquerda perdeu a capacidade de reação e ficou perplexa. “A oposição ficou como ‘barata tonta’ no primeiro semestre”, afirmou Boulos. “A esquerda precisa se reconectar com sua base social e ter mais protagonismo. Não pode ficar presa a firulas, a brigas de cúpulas partidárias”, disse. “Precisamos ter uma agenda de enfrentamento, que não fique na defensiva. Não se pode ter uma oposição dócil e bem comportada. Ou que fique só na internet e fazendo bravatas.”

Entre março e maio, Boulos percorreu 15 Estados e neste mês visitará outros oito, mas desconversou sobre a pré-candidatura. “O cenário para 2022 está muito aberto e é preciso fazer o enfrentamento a Bolsonaro agora. Corremos riscos. Pode ser que não sobre muita coisa com todo o retrocesso desse governo.”

Moro sai na frente de Bolsonaro e começa a construir base no Congresso

‘Bancada’ do ministro reúne deputados e senadores de vários partidos, até os de esquerda

Por Andrea Jubé | Valor Econômico

BRASÍLIA - Alvo de fritura do presidente Jair Bolsonaro, o ministro da Justiça, Sergio Moro, deu a volta no chefe do Executivo e saiu na frente na construção de uma base própria no Congresso, enquanto o governo continua sem sustentação parlamentar sólida para impulsionar as demais reformas.

A “bancada de Moro” cresce e se delineia numa conjuntura cada vez mais clara de dissociação entre lavajatistas e bolsonaristas. Esse time reúne deputados e senadores de vários matizes: PSL, Podemos, do centro, como DEM, PRB, PSD e MDB, e até mesmo da esquerda, como PSB e PDT, todos orbitando em torno de uma agenda comum de combate à corrupção, defesa da Lava-Jato e redução da violência.

Esse bloco de apoiadores quer vincular a imagem à do ministro mais popular do governo, mirando os dividendos políticos, sobretudo a um ano das eleições. Segundo o Datafolha divulgado no começo do mês, Moro tem aprovação de 54% da população, índice 25 pontos acima da nota atribuída a Bolsonaro.

A pesquisa atestou que Moro saiu preservado da crise do vazamento dos diálogos com procuradores da força-tarefa que eclodiu em junho. Até agora, nesse quesito, a derrota foi técnica, com a anulação pelo Supremo Tribunal Federal da sentença em que ele condenou o ex-presidente da Petrobras Aldemir Bendine. A decisão abriu precedente para eventual anulação da condenação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

O embrião dessa base remonta à votação da reforma administrativa em maio, quando o ministro articulou pessoalmente para manter o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) com a pasta da Justiça. Por apenas 18 votos, o órgão foi remanejado para o Ministério da Economia. Mas foi uma derrota com cara de vitória porque 210 deputados - quase a metade da Casa - votaram com Moro. O PSD do ex-ministro Gilberto Kassab, por exemplo, votou em peso com o ministro.

O time de Moro é difuso na Câmara, com pelo menos cem deputados. Número insuficiente, todavia, para barrar a criação da comissão parlamentar de inquérito (CPI) que pretende investigar seus atos na Lava-Jato, endossada por 175 deputados. É no Senado que o desenho da bancada pró-Moro fica mais nítido devido à recomposição de forças na Casa.

A força política de Moro entre os senadores evidencia-se na expansão do Podemos e também do grupo “Muda, Senado”. O bloco suprapartidário dos senadores Alessandro Vieira (Cidadania-SE) e Lasier Martins (Podemos-RS) começou com 15 e hoje soma 21 titulares.

Memória | Revista Presença, marco da reorganização democrática do país

Revista PRESENÇA, Nº 1 – NOVEMBRO DE 1983

Veja abaixo os órgãos e os nomes responsáveis pela publicação 

APRESENTAÇÃO
Armênio Guedes

Presença é iniciativa de pessoas interessadas em pensar e discutir as questões que ocupam hoje o centro de nossa vida social, política e cultural. Nossa intenção e ponto de partida para abordar tais questões têm como referencial a necessidade de impedir a reprodução do autoritarismo e de trabalhar pela reorganização democrática da sociedade brasileira. E, em intima relação com isso, mas num plano histórico necessariamente mais amplo, a reflexão indispensável e atual para continuar definindo aquilo que costumamos chamar de nosso caminho para o socialismo. São essas as linhas que demarcam o espaço em que queremos nos movimentar.

Presença não pretende outra originalidade – é o que pensam e aspiram seus organizadores – a não ser a da tolerância e generosidade democráticas, qualidades quase sempre ausentes, em nosso país, nas publicações patrocinadas por organizações, movimentos ou grupos socialistas. Invertendo uma prática ortodoxa, desejamos e precisamos de tolerância, sem que isto signifique perda de identidade ideológica ou filosófica. Identidade de resto necessária, se acreditamos nas virtudes do pluralismo e da diversidade que geram a polêmica e ajudam a inventar e descobrir as soluções originais exigidas pelas peculiaridades de nossa realidade econômica, social, política e cultural.

A criação desta revista não é, portanto, casual: ela surge para responder a uma demanda concreta que reponta, insistentemente, seja no mundo do trabalho, seja no mundo da cultura. Não pretendemos – e julgamos nocivo – qualquer tipo de monopólio nesse campo de produção de idéias. Desejamos é estar presentes entre os que pensam nossa realidade e buscam soluções para suas questões de hoje e de amanhã.

Presença, apesar do seu espírito renovador, quer dar continuidade à tradição de outras publicações brasileiras que, no passado, mantiveram laços estreitos e foram porta-vozes do movimento operário e revolucionário, tais como Movimento Comunista, Literatura, Diretrizes, Fundamentos, Estudos Sociais, Revista Brasiliense, etc.

Presença não se vincula organicamente a qualquer partido ou formação política, ainda que,, num plano mais elevado, deseje firmemente engajar-se no amplo e criativo universo constituído por pessoas, organizações e movimentos que aspiram um futuro democrático e socialista para o nosso povo. Infere-se daí que o seu objetivo não é apenas, e nem principalmente, o de divulgar, propagar ou enriquecer idéias, orientações e teses já aprovadas por grupos, movimentos ou partidos. Isso não significa porém que a posição crítica da revista seja negativista. Desejamos ardentemente que as idéias e sugestões que enriquecem e alargam os horizontes dos partidários da democracia e do socialismo sejam aqui devidamente acolhidas e valorizadas, independentemente de seus autores ou origem. Nossas páginas estarão abertas a analisar e debater todas as questões relacionadas com as preocupações aqui mencionadas. Queremos ajudar a organizar, mas não faz parte do nosso projeto sermos, nós mesmos, um instrumento direto de organização, com as obrigações e disciplina que isso implica. Nossa conduta será assim traçada única e exclusivamente pelos órgãos responsáveis pela publicação da revista, cujos nomes aparecem em nosso expediente.

O que a mídia pensa – Editoriais

- Olhe os editoriais de hoje:

A importância do senso comum – Editorial | O Estado de S. Paulo

O Brasil não chegará a bom lugar sem um entendimento mínimo sobre uma agenda comum. Nos anos 80, essa coesão foi fundamental para conduzir o País da ditadura para a democracia. Na década seguinte, os brasileiros deixaram suas diferenças de lado para construir um amplo concerto com vista a estabilizar a economia, por meio do Plano Real. Esses edifícios coletivos – o respeito à democracia e a valorização dos fundamentos econômicos – permanecem razoavelmente sólidos desde então exatamente porque não foram fruto do voluntarismo de um líder messiânico ou da visão exclusiva deste ou daquele partido político. Resultam, ao contrário, de um amplo processo de negociação e diálogo, do qual só não participaram os extremistas, à esquerda e à direita, inconformados com a marcha dos acontecimentos e desde sempre incapazes de aceitar a realidade.

Em todos esses momentos, houve dirigentes políticos capazes de mobilizar apoio popular e das elites a essas causas comuns, demonstrando notável capacidade de articulação entre diferentes pontos de vista para fazer o País avançar.