domingo, 25 de outubro de 2026

Hoje é dia de fazer história, por Dorrit Harazim

O Globo

E aqui estamos neste domingo eletrizante, que, a depender do resultado, poderá se converter num outro 25 de outubro histórico

É poder da poesia nos fazer voar na imaginação. E é dever do jornalismo manter os dois pés no chão. Quando e.e.cummings escreveu um poema/meditação sobre a morte, a memória e a persistência do amor diante do desaparecimento, o encerrou com um verso belíssimo: Uma pisada recente na areia do que foi. A coluna de hoje trata mais ou menos dos mesmos temas, apenas com pegada mais crua, ancorada em fatos.

Hoje, 25 de outubro, o Brasil vai às urnas decidir em segundo turno se quer ser governado por Luiz Inácio Lula da Silva ou Flávio Bolsonaro pelos próximos quatro anos. Num outro 25 de outubro, um sábado, 51 anos atrás, o jornalista Vladimir Herzog foi preso, torturado e assassinado por agentes da ditadura militar então instalada no país. Entre as duas datas, estão um vasto panorama da História do Brasil e uma pendência — pendência menor que muitas outras questões ainda em aberto na democracia reconquistada em 1985, mas ilustrativa para o dia de hoje.

Há quase duas décadas, o mundo inteiro comemora numa mesma data — 15 de setembro — o Dia Internacional da Democracia, proclamado por unanimidade pelos 191 países que compunham a ONU em 2007. Mas existe também um Projeto de Lei, já aprovado no Senado e encaminhado à Câmara, propondo a criação de uma data nacional brasileira de defesa da democracia: justamente o 25 de outubro, data do assassinato de Herzog, para reforçar a importância do Estado de Direito, das liberdades civis, do respeito aos direitos humanos, do combate à tortura e à perseguição política. De autoria da senadora maranhense Eliziane Gama (PT), ele está parado no Congresso há dois anos e meio.

E aqui estamos neste domingo eletrizante de 2026, que, a depender do resultado das urnas, poderá se converter num outro 25 de outubro histórico. Com os dois candidatos literalmente empatados nas pesquisas de opinião, qualquer previsão é perda de tempo. Mas é precisamente nessa incerteza que reside a diferença crucial entre democracias eleitorais e autocracias eleitorais. Lula, o candidato do PT com três mandatos presidenciais no currículo, soube governar um colosso como o Brasil dentro de normas republicanas. Demonstrou, ao longo de 12 anos no poder, ser garantidor de eleições para gerações futuras. Seu adversário Flávio Bolsonaro, senador pelo PL com ideário de extrema direita, herda assumidamente a propensão pela interrupção da normalidade democrática praticada pelo pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, no único mandato exercido. Uma vitória do filho de estatura política esquálida não permite garantir lisura e respeito a eleições futuras. Mais do que nunca, portanto, importa aproveitar o privilégio de ter o direito e o dever do voto.

Mundo afora, a noção de governo como bem público democratizante e instituição de responsabilidade social tem sido metodicamente atacada. Não apenas negligenciada, mas atacada, despojada e deixada apodrecer nas sombras da ganância e da brutalidade. Na próxima terça-feira, haverá eleições cruciais em Israel e, na semana seguinte, a votação de meio de mandato igualmente decisiva nos Estados Unidos. O mundo anda revolto com as instituições públicas esvaziadas, os tribunais sob cerco, os órgãos reguladores apadrinhados ideologicamente e os mecanismos de governança sequestrados para atender a demandas pessoais. É somente quando a cidadania se recusa a silenciar e fala com clareza contundente que os alicerces de regimes antidemocráticos começam a rachar.

O analista político Aaron David Miller, do Woodrow Wilson International Center for Scholars, de Washington, ocupado em estudar o cenário americano em vésperas de eleições, observa que presidentes de grandeza histórica costumam ter a favor deles circunstâncias singulares. Em artigo publicado no Los Angeles Times anos atrás, reduziu o raciocínio a sua forma mais sucinta:

— George Washington estava a postos quando a nação precisou ser fundada, Abraham Lincoln estava lá quando ela precisou ser salva, e Franklin Delano Roosevelt estava no comando para fazê-la atravessar a Depressão e a Segunda Guerra.

A partir da posse em 5 de janeiro de 2027, caberá ao vencedor da eleição de hoje saber o que fazer com o Brasil. A biologia deu aos dois candidatos um cérebro, mas é a vida que transforma o cérebro em mente. E a vida de Lula e Flávio, decididamente, aponta para visões distintas da humanidade.

 

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