sexta-feira, 11 de novembro de 2022

Fernando Gabeira - Transição de onde para onde?

O Estado de S. Paulo

Discute-se como se gastará mais dinheiro necessário para pagar promessas, mas não há a mínima inquietação ainda sobre a origem desses recursos.

Apesar da resistência de alguns grupos bolsonaristas que bloquearam estradas, choraram com a prisão de Alexandre de Moraes, aclamaram a intervenção de Lady Gaga no Tribunal de Haia e acreditaram que a cantor Agnetha Faltskog, do Abba, era uma juíza sueca, apesar de tudo isso, estamos em transição. Embora saibamos que é uma transição do velho para o novo governo, não podemos afirmar precisamente de onde para onde é essa transição.

Para saber de onde, é preciso conhecer todos os dados que ainda estão sendo transferidos. Eles nos mostram o estado geral do País, depois de quatro anos de governo Bolsonaro.

Depois desse movimento, saberemos, então, para onde vamos. O novo governo não apresentou um programa. Os argumentos para isso se baseiam na própria ignorância sobre o estado real do País. De posse dessa informação, é possível que conheçamos, então, as principais políticas públicas que vão conduzir o País.

Já sabemos, por exemplo, que há uma ruptura na política ambiental destrutiva de Bolsonaro. A viagem de Lula ao Egito é uma clara indicação ao mundo de que o Brasil pretende proteger a Amazônia e voltar ao protagonismo internacional na luta contra o aquecimento global.

Essa é uma importante novidade, porque não se limita à política ambiental. Tem repercussões na economia, de um lado atraindo investimentos para projetos sustentáveis, de outro liberando investimentos em infraestrutura inibidos pela visão suicida de Bolsonaro no trato com o meio ambiente.

Luiz Carlos Azedo - Transição não será um passeio pelo Eixo Monumental

Correio Braziliense

O risco que Lula corre é o novo ministério ficar com cara de governo velho, no qual antigos caciques políticos e a cúpula petista pontificariam, sem sinalizar uma forte renovação

Engana-se quem pensa que este período de transição para o novo governo será fácil para o presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva. No plano político, a sinalização está sendo boa: Lula estabeleceu as relações cordiais com os demais Poderes e opera a montagem de um governo de ampla coalizão democrática. Também mostrou que não pretende deixar no sereno os eleitores de mais baixa renda que o elegeram, ao anunciar que os recursos do Bolsa Família vão extrapolar o teto de gastos.

Entretanto, o dólar disparou depois da divulgação da inflação no Brasil e nos Estados Unidos. Ontem, o câmbio já passou dos R$ 5,30. O preço do fechamento do dia foi de R$ 5,396, alta de 4,14% no dia. Por volta das 15h30, o dólar estava a R$ 5,341, alta de 3,09%. Logo na abertura do mercado, a moeda americana chegou a subir quase 3%. Na quarta-feira, o dólar já havia fechado o dia em alta, de 0,74%, fechando a R$ 5,18. Desde o início do mês, a alta é de 2,96%. É óbvio que existe muita especulação no mercado, com divulgação de fake news que mexem com a Bovespa, em razão da insegurança dos investidores.

Lula já disse que não tem pressa para indicar o novo ministro da Fazenda, mas é aí que está o xis da questão no mercado financeiro. A rigor, ninguém sabe quais serão as medidas de impacto dos 100 primeiros dias de governo, exceto aquelas que estão sendo negociadas no Congresso, que sinalizam uma certa continuidade da farra fiscal que marcou a gestão do ministro Paulo Guedes durante a campanha eleitoral. Esse problema somente se resolverá quando for anunciado o nome do novo ministro da Economia ou da Fazenda, se houver desmembramento.

Maria Cristina Fernandes - O futuro da direita sem a carona bolsonarista

Eu & Fim de Semana / Valor Econômico

Coube a Lula o feito de afastar a sombra da extrema direita sobre o país. A tarefa de mantê-la longe não é apenas de seu governo

O presidente da Câmara, Arthur Lira, foi o primeiro do campo governista a reconhecer o resultado eleitoral em telefonema ao presidente eleito, Luiz Inácio Lula da Silva. Seu correligionário, o ministro da Casa Civil, Ciro Nogueira, disse não se opor se for o desejo de seu partido se aliar a Lula. O presidente do União Brasil, Luciano Bivar, que quatro anos atrás abrigou Jair Bolsonaro em seu finado PSL, diz que seu partido tem “uma dívida com a esquerda”. O Republicanos busca tanto uma brecha que o presidente eleito recebeu até “perdão” do pastor honorário da agremiação, Edir Macedo. Restou o PL, que lançou Bolsonaro à Presidência em 2026 e anunciou-se na oposição sem reconhecer o resultado das urnas. Ainda está por se confirmar se permanecerá com este discur

Nada disso surpreende. A novidade é que esta virada de casaca se dê na eleição em que a direita se mostrou em sua melhor forma no Congresso, desde a redemocratização. Apesar do governismo atávico, também surpreende que, em tão pouco tempo, após uma eleição presidencial com uma direita tão competitiva, suas lideranças abandonem a carona de um projeto exitoso de conquista de votos. A exceção anunciada pelo presidente do PL, Valdemar Costa Neto, ainda está por mostrar sua viabilidade.

José de Souza Martins* - O perigo da multidão irracional

Eu & Fim de Semana / Valor Econômico

O Brasil oculto da balbúrdia tem feito demonstrações agressivas, indicativas de um período de inconformismo intolerante que pode comprometer a democracia

As semanas que antecederam o primeiro e o segundo turno das eleições de outubro de 2022 acrescentaram revelações sobre o estado de anomia em que se encontra a sociedade brasileira. Indicaram qual é de fato o legado politicamente enfermo do presidente que em dois meses deixará o poder, porque em confronto com a Constituição e a democracia.

Ainda uma semana depois do reconhecimento do resultado da votação, definido o nome do eleito, ajuntamentos estão ocorrendo em praças e portas de quartéis, os agitadores pedindo ditadura militar. Estranhamente, os comandantes militares, cujos quartéis são assediados, estão calados.

São decorrências da política de desmonte do Estado, das instituições e da própria sociedade pelo regime de 1º de janeiro de 2019, nas ameaças subversivas à ordem política.

Estamos em face de ameaças a uma inevitável e decisiva mudança social e política, cujos fatores vinham sendo gestados e acumulados desde o golpe de 1964. Bolsonaro, tenha ou não consciência disso, personifica o momento final de decadência do tenentismo.

César Felício - A ligação entre as eleições de EUA e Brasil

Valor Econômico

Lula se voltou para o centro, o que não significa rigor fiscal

Tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos se subestimou o poder dos eleitores moderados para definir um resultado eleitoral. Há um paralelismo entre o que se desenha como desfecho para as eleições americanas desta semana e a do Brasil no mês passado, na visão do professor de Ciência Política da Universidade de Minnesotta, o americano David Samuels, um brasilianista que tem no estudo do PT e do presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva uma de suas especialidades.

Foram duas eleições que, a seu ver, mostraram que para a maioria do eleitorado o extremismo cansou. No Brasil houve um raro caso, em termos mundiais, de derrota de um governante que tenta se reeleger. Nos Estados Unidos um governante impopular perdeu muito menos terreno do que se imaginava nas eleições de meio de mandato.

Em suma, Bolsonaro deixou de ganhar uma reeleição no Brasil, o que seria o natural, e os republicanos, sobretudo os ligados ao ex-presidente Donald Trump, decepcionaram nos Estados Unidos, ao contrário do que seria o esperado diante do apático governo Biden. Em comum, bolsonarismo e trumpismo são agrupamentos políticos relativamente sectários.

Claudia Safatle - Ideias de Lara Resende são música para governo Lula

Valor Econômico

Risco é esse ideário produzir uma corrida bancária e hiperinflação

Desde o último fim de semana que agentes do mercado se dedicam a discutir o texto intitulado “Diretrizes de Políticas Públicas para 2023 - Elementos para uma Estratégia de Retomada do Crescimento Sustentável e Inclusão Social”. Elaborado por vários economistas do Cebri (Centro Brasileiro de Relações Internacionais) sob a coordenação de André Lara Resende, o texto, somado à notícia de que Fernando Haddad, ex-prefeito de São Paulo, poderia vir a ser o ministro da Fazenda no governo de Lula, teria pautado uma piora do mercado na segunda feira.

Não se trata de um texto novo, mas houve uma corrida em busca de entendimento do que nele se propõe, e é oportuno dar uma revisitada no seu conteúdo macroeconômico, defendido por Lara Resende, que faz parte do comitê de transição de governo, na área econômica.

Ele sugere que as políticas monetária e fiscal sejam conduzidas, de forma coordenada, por um comitê composto por diretores do Banco Central e do BNDES, à semelhança do atual Copom. Esse comitê de políticas macroeconômicas seria o responsável pela trajetória da taxa básica de juros (Selic) e pela implementação de um plano plurianual de investimentos públicos que seriam decididos e anunciados por esse novo Copom.

Bernardo Mello Franco – Meia volta, volver

O Globo

Factoide de auditoria nas urnas expôs Forças Armadas a novo vexame

A quarta-feira foi amarga para os patriotas que se aboletaram diante dos quartéis à espera de um novo golpe militar. Depois de meses de suspense, o Ministério da Defesa divulgou seu aguardado relatório sobre a urna eletrônica. O documento dizia o óbvio: as máquinas funcionam e não há qualquer indício de fraude na contagem dos votos.

“Tomamos chuva à toa?”, questionou um bolsonarista desiludido no Twitter. As redes do ministério foram bombardeadas com outras mensagens de desgosto. O empresário que se pendurou no para-brisa de um caminhão, inconformado com a vitória de Lula, ainda não foi localizado para opinar.

O factoide da inspeção nas urnas expôs as Forças Armadas a mais um vexame. Para atender os interesses de Jair Bolsonaro, elas gastaram tempo e dinheiro público numa auditoria inútil. Agora são cobradas por saudosistas da ditadura que sonham com uma quartelada em pleno século XXI.

Reinaldo Azevedo - Analistas têm de fazer prova do Enem

Folha de S. Paulo

Se a PEC da transição não serve, é preciso dizer o que serve

Governar o Brasil é difícil, como sabe Jair Bolsonaro, o que ajuda a explicar por que ele nunca se dispôs a fazê-lo. Passou o mandato a pregar golpe de Estado na esperança de que uma camarilha militar administrasse o país em seu lugar, candidato de sempre a "Cavalão" de parada de uma ditadura.

Em dois dos quatro anos, convidou os brasileiros a dançar com a morte, mesmo sem sepultura. Por que obteve quase metade dos votos válidos? Perguntem àqueles que flertaram com ataques cotidianos às instituições desde 2013, especialmente a partir de 2014, na vigência da Lava Jato, e às ilegalidades na boca da urna.

Lula constata de novo que tal ofício está longe de ser sopa no mel. Conquistar o recorde de quase 61 milhões de votos chega a ser mais fácil do que obrigar críticos isentos —é claro!— a cumprir ao menos as exigências que se fazem a estudantes do Enem na prova de redação. São obrigados a apresentar uma solução ou proposta de intervenção para o problema apresentado. E estas devem respeitar os direitos humanos.

Bruno Boghossian - Lula risca uma linha na economia

Folha de S. Paulo

Cinco aliados dão explicações convergentes para declarações do petista e reação de investidores

"Colocar pobre na universidade não é gasto, é investimento", disse Lula. "A quem interessa o teto de gastos? Aos banqueiros?", questionou. "Vamos gastar o que for preciso", declarou o ex-presidente. "Nós precisamos pagar primeiro a dívida que temos com o povo pobre", afirmou.

Lula disse essas frases em setembro de 2019, junho de 2021, março de 2022 e abril de 2022. Nas últimas 48 horas, declarações muito parecidas causaram forte turbulência no mercado financeiro, como se o candidato e o presidente eleito fossem personagens diferentes.

Cinco pessoas do entorno do petista dão explicações convergentes para a ação de Lula e a reação dos investidores. Elas ajudam a desenhar o que tende a ser uma gestão política da área econômica.

Vinicius torres Freire - Lula pode consertar o estrago

Folha de S. Paulo

Comando lulista briga com a realidade financeira degradada e também com aliados recentes

Geraldo Alckmin tentou baixar a fervura desta quinta-feira (10) desgraçada para as finanças do país, o vulgo "mercado nervoso". Outros do governo de transição e Luiz Inácio Lula da Silva decidiram espalhar mais brasa.

Decidiram brigar com a realidade, com os fatos da vida financeira e com aliados recentes da frentinha ampla, o que pode ter implicação até para a formação de coalizão no Congresso e na sociedade. Há meios e tempo para consertar o estrago. Pode ficar apenas uma cicatriz. Ou pode ser um começo de gangrena.

O que é "brigar com a realidade"? Esses desabamentos nos mercados financeiros significam que os donos do dinheiro passam a cobrar mais caro para manter seus recursos em reais, em títulos da dívida pública (empréstimos para o governo) e, por tabela, em ações de empresas e outros ativos domésticos. Cobram mais caro por causa do aumento do risco de inflação, desordem financeira geral e crescimento baixo, para resumir.

Vera Magalhães - Hora de descer do palanque

O Globo

Lula tem a missão de pacificar um país que continua a ser inflamado pelo bolsonarismo.

É preciso descer do palanque. Luiz Inácio Lula da Silva precisa se despir do figurino de candidato que envergou ao longo de sucessivas eleições e se assenhorar do aparato de presidente que envergou por oito anos, mas ciente de que encarará uma realidade completamente distinta.

E Jair Bolsonaro precisa entender que perdeu as eleições de forma limpa, e o que lhe resta é governar por esses pouco menos de dois meses de mandato — algo a que vem se furtando nos últimos meses, notadamente desde o segundo turno.

O discurso de Lula nesta quinta-feira foi desastroso em mais de um aspecto. É preocupante que alguém tão experiente, diante de um país cindido ao meio, com um caos institucional instigado pessoalmente pelo atual ocupante do Palácio do Planalto e a par da delicada situação fiscal que herdará, se ponha a falar com a falta de compromisso de quem está em cima de um caminhão de som.

Eliane Cantanhêde – ‘A tal da estabilidade fiscal’

O Estado de S. Paulo

Lula ia bem, mas derrapou ao repetir Bolsonaro e atacar a responsabilidade com o dinheiro público

O presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva ia muito bem, na articulação de apoios e nas manifestações, mas começou a tropeçar nas palavras. E começou cedo, numa área muito delicada: a economia. Chorar ao falar da fome é digno de Lula, de sua biografia e de seus compromissos de campanha, mas atacar “a tal estabilidade fiscal”? Como assim?

É coisa para um Jair Bolsonaro em guerra com o submisso Paulo Guedes, não para um Lula em incessante busca de apoios. A reação foi rápida: o mercado se alvoroçou, o dólar disparou para R$ 5,39, a Bolsa caiu. Desnecessariamente.

Rogério F. Werneck - Sem plano, Lula improvisa

O Globo

Expandir gastos e só depois, quem sabe, anunciar como as contas públicas serão mantidas sob controle

Lula bem sabia que, sem ampliar em grande medida sua base de apoio no Congresso, lhe seria difícil governar. A grande questão é de que forma tal ampliação de base seria assegurada.

Terminada a eleição, ainda havia um fio de esperança de que, afinal, Lula se moveria inequivocamente para o centro, no eixo que de fato importa, que é o da condução da política econômica. E de que sua busca de apoio mais amplo no Congresso seria norteada pela necessidade de garantir respaldo a tal movimento.

“Fazer a coisa certa” desde o início, de forma a assegurar um bom desempenho da economia, daria ao governo Lula mais resiliência para novo embate com o bolsonarismo em 2026.

Mas estariam Lula e o PT preparados para abandonar seu velho ideário e adotar para valer um programa econômico de centro? Ou, aferrados a esse ideário, estariam propensos a tentar negociar “em outros termos” a ampliação do apoio ao governo no Congresso?

Entrevista | Monica de Bolle: ‘É ideológico, o mercado não fez quase nada com orçamento secreto’

Para economista, queda da Bolsa e alta do dólar não quer dizer nada, o que importa é a discussão macroeconômica que está por vir

Por Vitor da Costa / O Globo

A economista e professora da Universidade Johns Hopkins, Monica de Bolle, criticou a reação do mercado às declarações do presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva, afirmando que o sobe-e-desce do dólar e da Bolsa não quer dizer nada. Em uma rede social, ela disse esperar que ele não atrapalhe a transição.

Como vê as declarações do mercado em relação às falas do presidente eleito?

O mercado está sempre com posições compradas e faz esses movimentos de Bolsa e dólar para ganhar dinheiro. Esses movimentos não querem dizer nada. O que realmente importa é a discussão macroeconômica por vir. Os economistas do mercado têm uma visão míope e estão com ela há muito tempo. O pessoal está olhando o Brasil há bastante tempo com certa condescendência.

Se ele tivesse alguma racionalidade, teria tido uma reação muito forte a todas as oscilações feitas no atual governo no teto de gastos. Quando teve a PEC Kamikaze, que foi a coisa mais populista e gastadora, a maior licença para gastar, o mercado nem se mexeu. Foi uma cosquinha. Com o orçamento secreto, não fez quase nada.

O teto de gastos já não existe há bastante tempo, basicamente desde que foi criado. Foi modificado em praticamente todos os anos do governo Bolsonaro. Quando você pega o conjunto de mudanças ocorridas, foi uma regra fiscal para jogar no lixo. A reação do mercado é ideológica.

Nelson Motta - Gal Costa, música e lágrimas

O Globo

Cantora usou seus dons divinos — voz e musicalidade — para dedicar a vida a construir uma obra monumental

 “Minha cantora”, era como eu atendia aquela voz maravilhosa no telefone ou quando a encontrava, e isso diz quase tudo sobre nós. Que privilégio ouvir sua voz e ser seu amigo desde que ela chegou ao Rio, com 20 anos, como a baianinha “João Gilberto de saias”, e acompanhar sua trajetória gloriosa, seus momentos de sex-symbol rebelde em 1968, mixando bossa nova e Carmen Miranda com Hendrix e Joplin, “Fa-tal” com as pernas morenas entreabertas, “Índia” com os seios de fora, ela era ousada e doce, até gritando era melodiosa, com sua voz de veludo, cristal e labaredas que saía daquela bocona vermelha.

Gal usou seus dons divinos — sua voz e sua musicalidade — para dedicar a vida a construir uma obra monumental, coautoral, com um repertório rigoroso e diversificado, sempre de qualidade à altura da intérprete. Gal não só escolhia com bom gosto e ousadia entre novas versões de clássicos e novidades de alto nível, como o repertório vinha até ela. Que compositor brasileiro não adoraria ser gravado por Gal Costa? E foram muitos que, apaixonados pela voz daquela mulher, lhe dedicaram músicas, como Roberto e Erasmo explícitos com “Meu nome é Gal”, Jorge Benjor com “Que pena”, Tom Jobim, Chico Buarque, Gilberto Gil e muitos outros fãs, mas ninguém fez mais que Caetano para sua voz, sua vida, seus segredos e suas revelações: foi o grande intérprete dos desejos da intérprete.

Ruth de Aquino - A escolha de ser livre como Gal Costa

O Globo

A última ousadia da musa baiana foi viver sua liberdade entre quatro paredes e não ceder às redes sociais

Minha primeira reportagem na vida, em 1974, foi o fim do Píer de Ipanema. As dunas do barato já eram apelidadas de “dunas da Gal”. Eu tinha saído da casa de meus pais, em Copacabana, para morar com meu primeiro amor, em Ipanema. Não casei, nem no civil. Achava as cerimônias religiosas de casamento – em que o pai entrega a noiva, de branco virginal, para o noivo no altar – o ritual simbólico do machismo. Não podia nem me imaginar nessa situação. Amigos me alertavam: com sua maneira de ser e pensar, vai ficar sozinha, homens terão medo de você e de sua liberdade. O vaticínio não se concretizou.

Nunca usei aliança nem troquei de sobrenome. Tive dois filhos, de dois homens, professores universitários. Não me depilava em parte alguma do corpo. Achava bonito e libertário. Fazia topless e nudismo nas praias europeias, porque no Rio era impossível, e olha que tentei. Quanta hipocrisia sexual numa cidade em que os biquínis mostram o mais recôndito do ser. E mais não conto, porque a vida da colunista não deve interessar a vocês. Talvez chocasse leitores – e leitoras. O Brasil, quem diria, encaretou em meio século.

O que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões

É um erro excluir Bolsa Família do teto de gastos

O Globo

Proposta de separar ‘investimentos sociais’ das despesas não resolve o principal: de onde virá o dinheiro

O presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva parece ter começado a errar antes mesmo de assumir. Ganhou força a ideia de retirar definitivamente a nova versão do Bolsa Família do teto de gastos. Não haveria mais apenas um waiver, a licença para gastar mais excepcionalmente em 2023, mas a criação de outro gasto permanente sem receita correspondente. Seria um absurdo adotar tal medida de forma atabalhoada, sem antes ter uma ampla discussão a respeito de como o novo governo pretende administrar a dívida pública.

Desde o início da campanha, Lula fala em “dívida histórica” com os vulneráveis. Voltou a repetir ontem que investimento em programas sociais não é gasto. Marotamente, apresenta a questão como um embate entre os que querem mais atenção aos pobres e os que têm outras prioridades. Trata-se de uma falácia. O combate à pobreza e à desigualdade deve ser, indiscutivelmente, prioridade. A verdadeira discussão é outra. A adoção consistente ao longo do tempo de um programa de transferência de renda, seja lá o nome que tenha, e de melhorias nas áreas de educação e saúde depende de o governo dispor de recursos em caixa. Mas, quanto mais o Estado gasta para financiar sua dívida, menos recursos sobram. É justamente por isso que se enfatiza a necessidade de o governo ter responsabilidade fiscal. Sem uma âncora para o gasto, o governo paga mais caro para tomar dinheiro emprestado no mercado. Isso aumenta o custo do endividamento público e deixa menos dinheiro nos cofres para o governo, como quer Lula, “investir no social”.

Poesia | Fernando Pessoa - Assim sou, fútil e sensível (Narração de Mundo dos Poemas)

 

Música | Gal Costa - Força Estranha

 

quinta-feira, 10 de novembro de 2022

Merval Pereira - Segue o jogo

O Globo

Ministro Alexandre de Moraes citou em seu relatório que a conclusão do Ministério da Defesa é a mesma a que chegaram diversas instituições fiscalizadoras: não houve fraude no processo eleitoral

O mistério, com objetivos políticos, sobre o relatório de técnicos do Ministério da Defesa a respeito das urnas eletrônicas apenas explicita o retrocesso democrático que vivemos nestes últimos quatro anos, que precisa ser estancado. Em tempos normais, os militares não teriam sido chamados para auditá-las, tarefa que sempre foi delegada a universidades e institutos tecnológicos, além de aos próprios partidos políticos, que usavam seus especialistas para atestar a higidez do sistema.

Depois de mais de 25 anos de uso, nunca houve comprovação de fraude no sistema, invejado por vários países que, como os Estados Unidos, ainda usam o voto impresso em muitos estados. No Brasil, temos exemplos das trapaças mais diversas no tempo do voto impresso, que ficou caracterizado como um sistema falho e suscetível a fraudes, sucessor do “voto a bico de pena” da República Velha.

O (ainda) presidente Jair Bolsonaro levou quase dois dias para falar sobre o resultado da eleição, tendo admitido a derrota apenas implicitamente, após agradecer os mais de 58 milhões de votos que obteve. Enquanto isso, empresários ligados a esquemas golpistas interrompiam as estradas do país, numa evidente tentativa de tumultuar. Como não deu certo, e o bloqueio das estradas prejudicou a população, o presidente Bolsonaro teve de pedir que seus apoiadores desobstruíssem as rodovias e voltou à mudez à espera do tal relatório, que saiu ontem.

Míriam Leitão – Sentimentos misturados

O Globo

Em Brasília, Lula dá demonstrações de volta à normalidade, no mesmo dia em que o país perde Gal Costa, e Defesa divulga seu relatório malicioso sobre as urnas

O presidente eleito Lula foi a Brasília e ocupou todos os espaços políticos visíveis. Falou de volta à normalidade e em diálogo com as instituições. Depois de quatro anos de conflitos, ameaças e agressões verbais do presidente Bolsonaro contra as instituições, principalmente o Judiciário, a palavra “normalidade” soou muito bem. Lula encontrou os presidentes da Câmara e do Senado, foi ao STF, ao TSE e falou aos jornalistas. Tudo conforme o esperado de um presidente eleito, mas parecia novidade. Foi dia de brilho na política, de dor, na cultura, de fiasco dos generais.

Tente esquecer em que ano estamos. É 2022 quase no fim, mas por um momento parecia meio século atrás. Ainda há rumores nos quartéis como se fosse admissível que tenhamos que passar por isso a essa altura. Com a morte da Gal, a imensidão da perda, a voz cristalina de afinação perfeita, pareceu ainda mais inaceitável o ponto desafinado do dia: a espera do relatório da Defesa sobre as urnas. Gal, no tempo em que os militares nos impunham o terror, era luz e encantamento, era conforto e desforra.

Malu Gaspar – As escolhas de Lula

O Globo

Bolsonarismo e extrema direita continuarão à espreita, mas maior risco para o presidente eleito pode vir de suas próprias deliberações

A transição de Jair Bolsonaro para Luiz Inácio Lula da Silva tem produzido cenas de espantosa e bem-vinda normalidade, mas também uma série de dúvidas sobre os rumos do novo governo. Não porque, ao mesmo tempo que Lula visitava os chefes da Câmara, do Senado e do STF, em Brasília, uma enorme fila de caminhões e manifestantes pedindo a anulação das eleições e intervenção federal se formava a dez quilômetros de distância.

Afinal, apesar de todo o esforço de Bolsonaro, os militares reconheceram que não houve “nenhum indício de manipulação dos resultados que possa configurar fraude do pleito de 2022”.

Isso não significa que o bolsonarismo e a extrema direita devam desaparecer do cenário político, muito pelo contrário. À medida que a transição avança, porém, vai ficando mais evidente que, embora o golpismo continue à espreita, o maior risco para o governo Lula pode vir de suas próprias escolhas.

Luiz Carlos Azedo - Lula distensiona relação entre Poderes

Correio Braziliense

O presidente eleito disse que não pretende interferir nas eleições do Congresso, em fevereiro, quando Lira, aliado de Bolsonaro, e Pacheco disputarão a reeleição, na Câmara e no Senado, respectivamente 

Antes mesmo de tomar posse, o presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva (PT), ao restabelecer o diálogo político como método para resolução de conflitos, numa maratona de reuniões, ontem, distensionou as relações entre os Poderes da República. Ele se reuniu com os presidentes da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), e do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), com a presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministra Rosa Weber, e com o presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Alexandre de Moraes. Depois, deu entrevista à imprensa sem incidentes. Pôs um ponto final no choque entre os Poderes, principalmente entre o Executivo e o Supremo, ao defender a harmonia entre eles. O vice-presidente Geraldo Alckmin também participou dos encontros.

O caminho crítico era principalmente a relação com Lira, em razão de duas agendas: a PEC da Transição, que envolve a questão do orçamento secreto, e a eleição para o comando da Casa. Ficou acertado que a emenda constitucional será apresentada até 15 de novembro, com objetivo de permitir que os recursos do Bolsa Família, incluindo os R$ 150 a mais para cada filho, extrapolem o teto de gastos. Essa autorização servirá para destinar recursos aos programas da Educação e da Saúde.

Maria Hermínia Tavares* - O recado dos democratas

Folha de S. Paulo

Chapa Lula-Alckmin abriu as portas para uma aliança muito além da esquerda

O convite ao ex-governador Geraldo Alckmin para ser vice de Lula foi uma estratégia eleitoral bem-sucedida. Abriu as portas para uma aliança muito além da esquerda. Se não se pode medi-la em ganho de votos, tampouco se pode subestimar a importância de ter o petista trazido para seu lado antigos e recentes adversários, como Fernando Henrique e Simone Tebet; críticos das políticas econômicas de Dilma Rousseff, como os criadores do Plano Real; sem falar da ex-ministra Marina Silva, que saiu do PT por divergir da política ambiental e foi massacrada pela propaganda do partido na campanha de 2014.

A aproximação entre o petista e o antigo tucano-raiz não visou apenas convencer eleitores recalcitrantes. Conta mais o seu valor simbólico. Diante de um candidato à reeleição que apostou no extremismo, fomentando o descrédito nas instituições democráticas, o consórcio Lula-Alckmin provou que democratas com ideias para lá de distintas sobre políticas de governo — e que, já se agrediram reciprocamente — podem passar por cima de diferenças e ressentimentos idos para defender a ordem constitucional ameaçada.

Vinicius Torres Freire - Lula em Brasília à esquerda

Folha de S. Paulo

Exaltado, presidente eleito contra-ataca as pressões de quem quer conter gasto público

Luiz Inácio Lula da Silva voltou a Brasília como presidente, nesta quarta-feira. Ainda que presidente eleito, começa a governar, não apenas por palavras, mas por atos, como na negociação do Orçamento de 2023, por exemplo.

De volta a Brasília, seu primeiro discurso foi de esquerda, digamos assim, para simplificar. Não foi nada muito diferente do que Lula disse em tantas campanhas. Mas não foi assim parecido com o que fez em seus governos (2003-2010).

Lula parecia exaltado, como se farto de ouvir que não pode gastar. No discurso, na verdade, entrevista, disse que muito gasto na verdade é investimento, que é preciso pagar a dívida social de 500 anos e que não faz sentido "guardar" para "pagar juros aos banqueiros". A transcrição do que disse segue mais abaixo.

Bruno Boghossian - 'Nos livre do comunismo'

Folha de S. Paulo

No fim da conversa com vice eleito, presidente mostrou que continua assombrado por falsas ameaças

No fim da breve conversa que teve com Geraldo Alckmin (PSB), na semana passada, Jair Bolsonaro (PL) mostrou que continua assombrado por falsas ameaças.

Alckmin contou a aliados que, já na porta do gabinete presidencial, Bolsonaro agarrou seu braço e disse: "Por favor, nos livre do comunismo".

O vice-presidente eleito fez o relato a pelo menos três pessoas que estiveram com ele nos últimos dias. A frase de Bolsonaro variou em cada reprodução, mas todas as versões passavam pela suposta necessidade de proteger o país de um fantasma que não está no horizonte.

Ruy Castro - O ódio começa em casa

Folha de S. Paulo

Quantos pais e mães, hoje no Brasil, não estarão inoculando o nazismo em seus filhos?

Há pouco, jovens enrolados em bandeiras do Brasil em São Miguel do Oeste (SC) puseram-se em formação e fizeram a saudação nazista. Há uma célula nazista na cidade, que produz panfletos e bandeiras com a suástica. Dias depois, alunos de uma unidade da UFSC picharam suásticas e frases contra judeus nos banheiros. E meninos de um colégio em Valinhos (SP) postaram mensagens em louvor a Adolf Hitler, propondo que se fizesse com os petistas "o que Hitler fez com os judeus."

Igor Gielow – Lula evita choque com militares ao desarmar golpismo

Folha de S. Paulo

Relatório da Defesa paga pedágio a Bolsonaro e encerra de forma melancólica relação tumultuada

Em sua primeira incursão a Brasília após ser eleito presidente pela terceira vez, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi cirúrgico. Prometeu normalidade institucional, abriu portas ao centrão e buscou desarmar o discurso golpista que subsiste em estradas e na frente de quartéis Brasil afora.

O temor do mundo político residia no uso que o bolsonarismo quer fazer do relatório do Ministério da Defesa acerca das urnas eletrônicas, que cumpriu o papel de deixar suspeitas no ar apesar de atestar que não houve fraude no pleito —um fim melancólico para a tumultuada reinserção dos militares na política sob Jair Bolsonaro (PL).

Não por acaso, o texto só foi divulgado depois que Lula concedeu sua entrevista coletiva, após reunião com o destinatário do papelório, o presidente do Tribunal Superior Eleitoral, Alexandre de Moraes.

Maria Cristina Fernandes - Lula samba no golpismo

Valor Econômico

Sintonia do governo eleito com Poderes abafa relatório

Dois fatos definem a passagem do presidente eleito por Brasília. O anúncio de que a tramitação da PEC da Transição se iniciará pelo Senado e o convite para que o Supremo Tribunal Federal participe da discussão da questão ambiental e do status da posse e do porte de armas.

O anúncio revela que, por mais amistoso que tenha sido o encontro entre Luiz Inácio Lula da Silva e o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), o governo eleito confia mais no senador Rodrigo Pacheco (PSD-MG), presidente da Casa que, por iniciar a PEC, terá a última palavra.

O convite ao Supremo revela a expectativa de Lula de que a Corte equilibre o perfil marcadamente bolsonarista do Congresso para a reversão de marcos legais que tanto fizeram avançar o desmatamento quanto o armamento civil.

Ao se encontrar com os presidentes dos Poderes, Lula ainda evidenciou os termos da parceria estabelecida com seu vice. Enquanto Lula se movimenta como chefe de Estado, Geraldo Alckmin comanda o governo eleito.

Por trás do sorriso permanente, do ritual da nominata nas reuniões mais cotidianas e da disposição de falar tudo sem dizer nada, o vice eleito vai aparando arestas, compondo divergências e buscando soluções para conflitos infindáveis. Testa possibilidades e mata no peito as frustrações. Até Bolsonaro encontrou.

Cristiano Romero - COP27: a reestreia de Luiz Inácio Lula da Silva

Valor Econômico

Meio ambiente será tema tão ou mais importante na agenda do país nos próximos anos

Não há tema mais oportuno e adequado para o retorno de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ao centro do poder do que o meio ambiente. Este é o assunto mais relevante da agenda internacional agora e, muito provavelmente, no futuro previsível. É, também, a maior “herança maldita” do atual governo, dada não só a escalada do desmatamento, mas também o desmonte de instituições públicas dedicadas a essa área e a consequente perda de reputação do país no mundo.

O Brasil perdeu o protagonismo conquistado na área ambiental durante mandatos sucessivos de presidentes que deram a devida prioridade ao tema. O presidente Jair Bolsonaro não participou nem da 25ª Conferência do clima da Organização das Nações Unidas (COP25), realizada na Espanha em 2019, nem da COP26, que se deu em Glasgow, no ano passado.

Jan-Werner Mueller* - Como se faz um fascista

Valor Econômico

Muitas vezes o fascismo não usou a violência para alcançar seu objetivo

Quase exatamente um século após a Marcha sobre Roma do líder fascista Benito Mussolini e de sua ascensão ao cargo de premiê italiano, Giorgia Meloni, uma figura política cujo partido descende dos fascistas originais, foi nomeada premiê da Itália. Estaríamos testemunhando a volta do fascismo com inicial minúscula - um fenômeno político que se propagou para muito além da Itália desde 1922?

Embora não haja nada de mau em fazer tal pergunta, espalhar com excessiva liberalidade esse palavrão começado com “f” poderia facilitar para os líderes de extrema direita a tarefa de afirmar que, já que seus críticos sempre exageram, eles também devem estar inflando a ameaça representada à democracia. Como era de ser esperar, Meloni se esforçou ao máximo para se distanciar do fascismo em seu discurso de estreia ao Parlamento.

Mas, ao examinar a questão do fascismo hoje, é preciso se lembrar que ele passou por fases diferentes. Embora não haja regimes fascistas na Europa ou nas Américas hoje, há certamente alguns partidos - inclusive governistas - que poderão migrar gradualmente para uma direção mais fascista.

William Waack - Lula e as paredes

O Estado de S. Paulo

As margens de manobra são estreitas e difíceis de serem superadas

Lula ainda não assumiu, mas já é possível constatar o quanto está emparedado. O êxito ou o fracasso de seu governo dependerá em boa medida da capacidade de superar essas barreiras.

O vai e vem em torno da fórmula para financiar o Bolsa Família pagando R$ 600 por mês demonstrou como é estreita a margem de ação legal, embora exista uma quase unanimidade política pela manutenção do benefício social nessas dimensões. Demonstrou também como é estreita a margem de atuação fiscal.

Esse é um problema gritantemente óbvio e uma das principais heranças não só de Bolsonaro. Até aqui Lula vem tentando escapar dessa parede – a necessidade de uma âncora fiscal, ou seja, de um limitador de gastos –, criando uma falsa dicotomia entre “responsabilidade fiscal” e “responsabilidade social”, quando são a mesma coisa.

José Serra* - Uma âncora fiscal em terra firme

O Estado de S. Paulo

O Poder Executivo precisa recuperar seu protagonismo na gestão do Orçamento e deixar de ser encurralado.

O novo presidente da República continuará refém de mudanças constitucionais caso queira reforçar o orçamento federal para implementar as políticas públicas que considera prioritárias para seu governo. Para evitá-las, seu primeiro passo deveria ser a reformulação das regras fiscais em vigor no País. A reconstrução do arcabouço fiscal permitiria resgatar o importante papel do Poder Executivo na gestão do Orçamento. Não será fácil, mas é necessário.

Para melhor entender o que está em jogo, vale apresentar alguns dados da proposta orçamentária que tramita no Congresso Nacional. Relatórios oficiais indicam que os recursos previstos para 2023 na área da Saúde estão no patamar mais baixo da última década, descontada a inflação. Em relação ao presente ano, a redução de gastos é de aproximadamente R$ 16 bilhões. Na Educação, com exceção da complementação do Fundeb, todas as áreas apresentam forte retração de verbas, em comparação com os últimos anos. Os investimentos públicos se encontram no menor valor da série histórica!

O que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões

Lula tem de indicar logo seu ministro da Fazenda

O Globo

Em vez de reduzir incerteza, nomes reunidos na equipe de transição despertam ainda mais dúvidas

A campanha eleitoral foi marcada pela ambivalência do presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva em relação ao tema mais crítico para seu governo: a política econômica. Nesta semana, em vez de nomear ministros para a área — como se espera há meses —, Lula procurou lidar com o suspense por meio da indicação de quatro representantes para a equipe de transição, liderada pelo vice-presidente eleito Geraldo Alckmin. Foi uma resposta tíbia. Por dois motivos. Primeiro, os nomes indicados têm visões diferentes, até antagônicas, aumentando, em vez de diminuir, a incerteza sobre o programa econômico. Segundo, não se sabe qual deles — se algum — permanecerá no novo governo.

Em vez de suscitar especulações, Lula deveria ter indicado logo seu ministro da Economia ou da Fazenda, como ele mesmo fez quando vitorioso em 2002, ao deixar a cargo do então coordenador de campanha Antonio Palocci a montagem da equipe econômica. Sabia-se que Palocci seria ministro da Fazenda, a partir daí montou-se um time qualificado, responsável pelo êxito de primeiros anos de governo. Atitude responsável também teve o presidente Jair Bolsonaro na transição do governo Michel Temer. Já na campanha de 2018, ele deixou claro que seu czar econômico seria o ministro Paulo Guedes. Neste ano, Lula semeou dúvidas.