domingo, 11 de outubro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Flávio e Lula têm de cumprir promessa de ir aos debates

Por O Globo

Depois da ausência de confronto entre os dois no primeiro turno, ambos afirmaram que comparecerão

Depois da resistência injustificável no primeiro turno da eleição, é bem-vinda a disposição dos candidatos Flávio Bolsonaro (PL) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT) de participar de debates nesta segunda — e decisiva — etapa da disputa à Presidência. Numa eleição acirrada, em que Flávio chegou à frente do atual presidente por menos de 2 pontos percentuais, ou pouco mais de 2,2 milhões de votos, o confronto de ideias se torna fundamental para marcar diferenças e permitir ao eleitor fazer sua escolha de forma sensata e informada.

Candidatos e suas campanhas costumam fazer cálculos de perdas e ganhos eleitorais para decidir se participam de debates. Tem sido comum que líderes nas pesquisas se ausentem, por temer perder a dianteira ao se tornar alvos fáceis dos concorrentes. No primeiro turno não houve debates entre os dois líderes nas pesquisas.

Na última segunda-feira, porém, Lula afirmou que “agora sim” é importante participar. “É um contra um, é cada um poder explicar qual é o debate”, disse. Flávio também prometeu comparecer: “É o que eu sempre quis, quero comparar os programas de governo, quero comparar os governos do Lula com o nosso”. Há debates entre os dois agendados pela Band (dia 18) e pela TV Globo (dia 23, após o Jornal Nacional). Na Globo, ambos também deverão participar de entrevistas nos dias 15 (Lula) e 16 (Flávio).

Tem sido frequente que candidatos prefiram longas conversas com youtubers, podcasters ou influenciadores camaradas, que gerem “cortes” para as redes sociais. Também contam com o horário eleitoral para apresentar suas propostas. Mas tudo isso é propaganda política, não um debate de ideias conduzido segundo padrões jornalísticos e regras equilibradas. E a propaganda só trata dos temas que lhes interessam, passando ao largo das questões que interessam ao eleitor. Apenas o jornalismo profissional tem a competência e a independência necessárias para fazer os questionamentos incômodos. Postulantes são confrontados por jornalistas e adversários sobre temas concretos, abrindo espaço ao contraditório. É disso que o eleitor precisa para se informar. Faltar aos debates é, portanto, um desrespeito ao direito do eleitor à informação.

Na campanha do primeiro turno, Flávio e Lula erraram ao privar os brasileiros de assistir a um confronto de suas ideias. É importante que o eleitor conheça as diferenças entre os dois. Assuntos de interesse público nem sempre têm sido tratados de modo satisfatório pelas campanhas. É o caso da sufocante situação fiscal, da violência inflamada pelas facções criminosas, das filas do sistema de saúde ou da educação sofrível oferecida nas escolas públicas. Apenas debates conduzidos pelo jornalismo profissional de forma equilibrada, com regras claras, podem informar a sociedade de modo fidedigno e competente. Historicamente, eles têm funcionado como guia para o voto do cidadão. Flávio e Lula têm agora a oportunidade de corrigir o erro anterior. Espera-se que mantenham a palavra.

Eleição de mais mulheres para o Legislativo deve ser celebrada

Por O Globo

Participação na Câmara, no Senado e nas Assembleias ainda está aquém da ideal, mas progresso é consistente

É excelente notícia o aumento da presença feminina no Poder Legislativo. No último dia 4, foram eleitas 109 deputadas federais, 12 senadoras e 218 deputadas estaduais — um aumento expressivo em relação aos resultados de eleições anteriores. É verdade que a participação feminina nas Casas Legislativas ainda fica bem aquém da proporção delas na população (51,5%), mas o avanço tem ocorrido de forma consistente, revelando a eficácia da exigência de que os partidos reservem pelo menos 30% de suas candidaturas a mulheres.

Pela primeira vez, elas conquistaram mais de cem vagas e representarão 21% das 513 cadeiras da Câmara de Deputados (ante 45 em 2010, 51 em 2014, 77 em 2018 e 90 em 2022). No Senado, as 12 eleitas representam 22% das 54 vagas em disputa e, mais uma vez, houve crescimento (foram quatro em 1994, oito em 2003, sete em 2010 e em 2018, anos em que houve renovação de dois terços). Com os resultados, a bancada feminina na Casa passará de 15 para 18. Nas Assembleias estaduais, elas alcançaram 21% das 1.059 cadeiras em disputa, 27 a mais que em 2022.

É significativo também que mulheres tenham sido as candidatas mais votadas para a Câmara em sete das 27 unidades da Federação: Socorro Neri (PP-AC), Coronel Fernanda (PL-MT), Camila Jara (PT-MS), Natália Bonavides (PT-RN), Júlia Zanatta (PL-SC), Yandra Moura (União-SE) e Professora Janadi Valcari (Republicanos-TO). Os estados que mais elegeram deputadas federais foram São Paulo (15), Minas Gerais (11) e Rio de Janeiro (10), justamente os três maiores colégios eleitorais. De São Paulo veio a campeã de votos: Erika Hilton (PSOL), que recebeu 1,6 milhão para seu segundo mandato, terceira maior votação nacional nas candidaturas à Câmara. O Distrito Federal elegeu duas senadoras: Michelle Bolsonaro e Bia Kicis, ambas do PL.

É verdade que, nas Assembleias Legislativas, o avanço feminino ainda é desigual. Elas serão 30% no Ceará e em São Paulo, 29% no Rio Grande do Norte, mas apenas 8% em Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Amazonas. No Acre, nenhuma deputada estadual foi eleita. Mas isso quer dizer que é preciso avançar ainda mais.

O aumento das bancadas femininas se dá em todos os matizes do espectro partidário. As eleitas representam um amplo arco de partidos, da direita à esquerda. Nada mais saudável à democracia. Não importa que pautas defenderão. A política é grande o suficiente para abrigar todas as ideias. Independentemente de suas convicções políticas, religiosas ou de costumes, é certo que contribuirão para enriquecer o debate num país plural.

Não é razoável que as mulheres conquistem espaço no mercado de trabalho e em outras tantas áreas e ainda mantenham representatividade tão baixa no Legislativo. O ideal seria que sua presença espelhasse o conjunto da sociedade. De qualquer forma, é um alento que os partidos abram mais espaço à participação feminina — não só para cumprir a legislação — e que os eleitores estejam mais dispostos a votar nelas. O avanço precisa continuar.

Lula flerta com o fracasso porque nada aprendeu de 2022

Por Folha de S. Paulo

Presidente alienou forças de centro que o apoiaram no pleito passado e encastelou-se em ideias arcaicas

Lula ignorou a ascensão de uma classe que aspira a construir seu caminho para a prosperidade, valoriza a vida religiosa e deplora a insegurança

Na política, a capacidade de extrair lições das derrotas e também das vitórias distingue os bons competidores dos comuns. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nada aprendeu com o triunfo de 2022.

Se o mandato do petista eleito era exatamente igual, no papel, aos outros dois que conquistara no início do século, na realidade era muito diferente. Lula sobrepujou o incumbente, Jair Bolsonaro (PL), por um fiapo correspondente a 1,8% dos votos.

Sem o apoio de lideranças e eleitores de centro, que em outros pleitos e no primeiro turno de 2022 eram críticos ao PT, Lula não teria passado os últimos quatro anos no Palácio do Planalto.

A sociedade brasileira também estava modificada duas décadas depois da primeira posse do petista. Era patente a intolerância com as aventuras do intervencionismo estatal após a catástrofe recessiva perpetrada pela administração Dilma Rousseff (PT).

Ascendeu uma classe que aspira a construir o seu próprio caminho para a prosperidade, valoriza as relações familiares e a vida religiosa, deplora a insegurança pública e não se curva às tutelas das elites universitárias com suas batalhas vernaculares e culturais.

Mas Lula e o PT não atentaram aos alertas. Ainda na transição de governo, o presidente começou a atacar a autonomia do Banco Central, que depois o salvaria de uma crise inflacionária, mas ao preço elevado de uma escalada sem precedentes do juro real.

Antes mesmo de tomar posse, patrocinou uma emenda constitucional de R$ 170 bilhões na despesa federal. Alienou a boa vontade que angariou na eleição de alguns dos melhores e mais tarimbados economistas, que teriam composto a sua equipe de governo se fossem convidados.

O isolamento no reino das ideias ultrapassadas do petismo permeou outras áreas. A mentalidade sindicalista dos anos 1980 fracassou na tentativa de lidar com a realidade da economia dos aplicativos, e o dirigismo esquerdista soçobrou na missão de dialogar com o movimento evangélico.

A qualidade dos auxiliares com acesso ao presidente despencou. Rodeado de bajuladores incapazes de confrontar o chefe com os erros clamorosos de sua gestão, Lula encastelou-se na convicção de que tudo corria bem, e o eleitorado reconheceria por gravidade o seu mérito nas eleições.

As dificuldades que o candidato à recondução enfrentará no próximo dia 25 não são fruto episódico de algum equívoco de campanha ou da má comunicação. Decorrem do déficit de compreensão do terreno em que o terceiro mandato se desenvolveria.

Cobrará o seu preço a soberba do líder petista de julgar-se o senhor da razão, de isolar-se de segmentos que poderiam lhe render melhores políticas e mais votos, de negar-se a compartilhar poder e de trancar-se em ignorâncias.

Lula, provavelmente melhor do que o bolsonarismo apresentou até aqui em tudo o que não diz respeito à condução da economia, flerta agora com o fracasso.

Indústria estagnada

Por Folha de S. Paulo

Setor tem avanço de apenas 13,8% desde 2002, com meros 10% na transformação

Gargalos em infraestrutura e tendência protecionista ajudam a explicar maus resultados no país; apenas indústria extrativa mostra desempenho melhor

Se há um setor símbolo dos desajustes históricos da economia brasileira, esse certamente é o industrial. Não apenas seu desempenho tem sido fraco neste ano como a história recente da indústria nacional é de evidente estagnação.

Desde janeiro de 2002, a atividade como um todo cresceu apenas 13,8%. A extrativa teve resultado muito melhor, 55,7%, e a de transformação, meros 10%.

Com a divulgação pelo IBGE dos números de agosto da produção regional, observam-se ainda mais as disparidades do país. O vigor da indústria extrativa fez com que os estados com forte presença de commodities mostrassem as melhores taxas de expansão.

Pará e Goiás são exemplos disso. No primeiro, que se destaca em mineração, houve alta de 119,2% no período, e no segundo, com o hub industrial de Anápolis e vigor do agro, de 107%.

O contraste com os estados de pior desempenho é enorme. Ceará e Bahia, com indústrias mais tradicionais, registraram quedas de, respectivamente, 8,6% e 7,4%.

Mas a comparação com 2002 é enganosa, pois incorpora o forte ciclo econômico da primeira década do século. Quando comparamos com a média de 2011, o resultado piora. O recuo do setor nesse período é de 13,3%, e mesmo os estados mais prósperos, Pará e Goiás, apresentam números bem mais modestos (18,7% e 27%, respectivamente). As commodities, como se diz, podem muito, mas não podem tudo.

Analisando os dados da Organização para o Desenvolvimento Industrial da ONU, vemos que, de 2011 até julho deste ano, o Brasil teve queda de 14%, enquanto a mediana de 68 países apresentou alta de 27%. Os únicos setores em que conseguimos ir melhor do que o padrão mundial são papel e celulose, coque e refino de petróleo. Em alguns segmentos, a lacuna é estonteante.

A indústria de eletrônicos e computadores caiu 40% no Brasil, por exemplo, enquanto cresceu 51% na média mundial.

Gargalos históricos em infraestrutura e tendência protecionista ajudam a explicar parte importante da nossa industrialização. Richard Baldwin, do IMD Business School, tem sido um prolífico estudioso do assunto e mostrado como a aproximação de países mais pobres a países mais ricos ajuda a aumentar a participação da indústria nos primeiros.

Acordos comerciais, como o que finalizamos com a União Europeia, serão um caminho para aumentar a produtividade, assim como a reforma tributária, que tende a penalizar menos o setor. Por fim, o tão esperado ajuste fiscal ajudaria a reduzir os juros.

A potência ambiental que o Brasil pode ser

Por O Estado de S. Paulo

Preservar sem interditar o desenvolvimento é o desafio brasileiro: ciência, inovação e boas instituições devem reduzir conflitos e orientar as escolhas que continuarem inevitáveis

O Brasil deveria ambicionar uma política ambiental mais exigente e menos ritualista. A tecnologia pode reduzir conflitos entre crescimento econômico e preservação ambiental, mas alguns continuarão a exigir escolhas. A boa política começa onde termina a retórica: na escolha entre objetivos legítimos que competem por dinheiro, território, energia e tempo.

A primeira tensão é entre mitigar o aquecimento e proteger o País dos danos que já não poderão ser evitados. Cada real gasto para reduzir emissões concorre com drenagem ou infraestrutura resistente a secas e enchentes. A mitigação continua necessária, sobretudo porque o Brasil pode cortar emissões substanciais no uso da terra. Mas a adaptação deve ser prioritária. Seus benefícios são locais, frequentemente imediatos e mensuráveis em vidas e patrimônio preservados. Crescimento também ajuda: sociedades mais ricas constroem melhor e se recuperam mais rápido.

A produtividade da agricultura brasileira mostra como a ciência pode superar desafios ambientais: produzir mais por hectare permite alimentar mais gente ocupando menos terra. A mesma rentabilidade, contudo, pode tornar novas expansões atraentes. A tecnologia cria a possibilidade de poupar território, mas não garante que ele será poupado. Isso exige fiscalização e incentivos que tornem mais lucrativo intensificar do que avançar sobre vegetação nativa. Combater o desmatamento ilegal deve ser prioridade porque combina benefício ambiental com defesa do Estado de Direito.

A energia oferece outro dilema. Quase 90% da eletricidade brasileira já vem de fontes renováveis. Incorporar, por mero dogma, matrizes solares e eólicas sem rede, flexibilidade e capacidade firme pode elevar custos ou restringir geração. A transição precisa aproveitar vantagens brasileiras sem sacrificar confiabilidade e preço. Cada fonte deve ser julgada pelo que acrescenta ao sistema.

O mesmo pragmatismo vale para petróleo, mineração e outras riquezas naturais. O Brasil tem recursos de que o mundo precisa. Interditar seu aproveitamento por princípio sacrificaria renda, investimento, empregos e capacidade tecnológica; explorá-los sem disciplina consumiria patrimônio de grande valor ambiental e estratégico. Nenhum recurso deve ser intocável por princípio nem descartável por conveniência. Ciência, regulação e preços corretos devem reduzir danos e ampliar o valor obtido de sua exploração.

O Brasil também tem boas razões para financiar pesquisa em agricultura de baixo carbono, combustíveis sustentáveis, materiais industriais mais limpos e redes. O Estado pode assumir riscos quando há grande benefício coletivo e incerteza tecnológica. Mas “verde” é uma palavra poderosa – e porosa – demais nas mãos de governos inclinados a escolher “campeões nacionais” e troféus. Subsídios permanentes e proteção contra concorrência podem transformar política climática em velha política industrial com nova embalagem. Apoiar inovação faz sentido; eternizar rendas, não.

O dinheiro público é um só, e R$ 1 bilhão gasto numa política climática de baixo retorno deixa de financiar adaptação, saneamento, inovação ou uma intervenção ambiental mais eficaz. Isso obriga a comparar benefícios, custos e alternativas. A mesma disciplina vale para o desenvolvimento econômico: um projeto lucrativo pode impor danos ambientais superiores ao valor que cria. Direitos, legalidade e riscos ecológicos irreversíveis estabelecem limites, mas dentro deles custos de oportunidade continuam existindo.

Poucos países reúnem, em escala comparável, patrimônio natural, alimentos, energia, minerais e ciência tropical. Num mundo que precisa descarbonizar sem parar de crescer, essa combinação pode se transformar em influência. A liderança brasileira será construída se o País mostrar que consegue produzir e enriquecer sem destruir os ativos que sustentam seu futuro – e desenvolvendo soluções que outros países podem usar.

Uma política ambiental madura medirá quanto bem-estar, resiliência e natureza preservada consegue entregar com os recursos disponíveis, e quão rapidamente a inovação amplia as escolhas futuras. O Brasil tem condições de ser uma liderança ambiental global. Essa posição terá de ser conquistada não por boas intenções, mas por bom desempenho.

Uma desigualdade especialmente cruel

Por O Estado de S. Paulo

Um estudo do IBGE mostrou que a exclusão no Brasil pode ser ainda mais desumana com as pessoas com deficiência, deixando-as às margens da educação, do mercado de trabalho e da cidadania

Um estudo divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) às vésperas do Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência atestou como o Brasil, que já é muito desigual, pode ser ainda mais excludente com uma parcela significativa de sua população.

Ao compilar dados do Censo 2022 e de outras pesquisas, o informativo Pessoas com Deficiência e as Desigualdades Sociais no Brasil revelou algo perturbador: apesar do discurso oficial de inclusão social, o País está distante de promover a igualdade.

No Brasil, são 14,4 milhões de pessoas com deficiência física, visual, auditiva ou intelectual – ou seja, 7,3% da população. Nada menos do que 3,9 milhões desses brasileiros vivem com duas ou mais dessas condições concomitantemente. E, infelizmente, boa parte deles ainda é empurrada para as margens da sociedade.

Segundo o informativo do IBGE, essa exclusão começa bem cedo, e dentro de casa. Enquanto 21,5% dos brasileiros com 2 a 17 anos vivem numa residência somente com a mãe ou a madrasta, chega a 30,1% o porcentual de indivíduos com deficiência nas mesmas condições. Portanto, o estudo confirmou em números o que pode ser visto no dia a dia das famílias: o cuidado com os filhos pesa mais sobre as mulheres.

É por isso que é tão comum ver mães com filhos nos braços em filas Brasil afora em busca de tratamento e assistência. Para piorar, essas mães e seus filhos são vítimas de algo ainda mais cruel: o abandono de pais e padrastos, que, segundo o relatório do IBGE, deixam suas famílias por causa de “sentimentos de rejeição às pessoas com deficiência” – ou seja, o preconceito ou a incapacidade de lidar com a situação.

E, se falta suporte em casa, tampouco sobra na escola. Enquanto o analfabetismo entre brasileiros com idade entre 15 e 29 anos na população em geral é de 1%, a taxa sobe a 12,2% quando se trata de pessoas com deficiência na mesma faixa etária. Desigualdade semelhante se repete em todas as idades estudadas.

No Brasil, as desigualdades vão se arrastando e se aprofundando ao longo da vida. Prova disso é que o nível de ocupação das pessoas com deficiência é de 29%, ante uma taxa de 56% entre as pessoas sem deficiência. E sua renda mensal média é de R$ 2.053, o equivalente a 71% da renda da população em geral.

A exclusão, portanto, não parece ser excepcional. Sem acesso à educação em virtude da falta de acessibilidade nas escolas, do despreparo dos professores para acolher os alunos e da ausência de um projeto pedagógico efetivamente inclusivo, o círculo é vicioso: a formação precária afasta as pessoas com deficiência dos melhores postos de trabalho, sobrecarregando, na velhice, a Seguridade Social.

A taxa de pobreza das pessoas com deficiência e das pessoas sem deficiência é praticamente igual, girando em torno de um terço da população. Isso ocorre porque mais de 40% das pessoas com deficiência têm mais de 60 anos, e boa parte delas recebe parcelas previdenciárias ou assistenciais, sobretudo o Benefício de Prestação Continuada (BPC). Já na parcela mais jovem, o abismo se abre: 60,9% das crianças de 2 a 14 anos de idade com deficiência vivem na pobreza, contra 52,5% das crianças sem deficiência.

Em que pese o Estatuto da Pessoa com Deficiência estar em vigor há uma década, o Brasil, como mostrou o informativo do IBGE, tem fracassado com esses brasileiros em praticamente todas as dimensões de suas vidas, privando-os de educação de qualidade, do acesso ao mercado de trabalho, de bens de consumo e serviços, do acesso à internet e da participação política, entre tantos outros direitos.

Como se vê, são muitos os obstáculos ainda a serem superados para a conquista da cidadania plena. E não bastassem o preconceito e a discriminação, as pessoas com deficiência têm contra si um poderoso adversário: a má vontade do Estado brasileiro.

O trabalhador e o Bolsa Família

Por O Estado de S. Paulo

Estudo mostra que, ao contrário do preconceito, beneficiários do programa procuram emprego

Um estudo da Fundação Getulio Vargas (FGV) mostra que os beneficiários do Bolsa Família ocuparam nada menos que 85% dos postos de trabalho formal criados no Brasil entre janeiro de 2023 e julho deste ano. Isso significa que grande parte dos brasileiros que recebem Bolsa Família procura trabalho, provavelmente porque não quer ficar dependente do auxílio estatal.

O estudo, conduzido por Valdemar Pinho Neto e Luiz Gustavo Barbosa, do Centro de Estudos Empíricos em Economia, mostra que o pagamento do Bolsa Família ajuda a satisfazer parte das necessidades primárias dos mais pobres, abrindo uma margem para que haja tempo e disposição para procurar um emprego com carteira assinada. Presume-se que sem o Bolsa Família esses indivíduos não teriam condições de buscar uma oportunidade no mercado de trabalho formal.

O mercado de trabalho aquecido, por óbvio, ajuda a melhorar as estatísticas. O desemprego na casa dos 5,3%, o mais baixo que o IBGE já registrou na série histórica iniciada em 2012, indica que há oportunidades mesmo para candidatos com pouca qualificação. Ademais, como a economia brasileira avança em marcha lenta há décadas, sem as condições estruturais ideais para impulsionar um crescimento firme e sustentável, os empregos gerados, em sua maior parte, tendem a ser de baixa remuneração.

Ainda assim, é notável que beneficiários do Bolsa Família sejam maioria entre os que estão aproveitando essa bonança de vagas – sobretudo porque sobre eles recai o preconceito segundo o qual quem recebe Bolsa Família se acomoda e não quer trabalhar. Isso até pode ser verdade para aqueles que preferem viver do benefício a se submeter a trabalho insalubre e a jornadas exaustivas em troca de salários baixíssimos – o que, convenhamos, é perfeitamente racional. Mas, quando há oferta de emprego que não seja aviltante, a maioria opta pelo trabalho.

Nesse sentido, parece correto o redesenho do Bolsa Família, que passou a permitir que os beneficiários do programa, mesmo quando contratados com carteira assinada, sigam recebendo metade do benefício por um período de transição. O sistema resolve um antigo problema dos programas de transferência de renda: o medo que os beneficiários tinham de aceitar um emprego com carteira assinada e perder imediatamente o auxílio, ficando desprotegidos caso o emprego não durasse. Agora, quando um membro da família consegue um emprego formal e a renda da casa aumenta, o benefício não é cortado imediatamente. A família passa a receber 50% do valor do Bolsa Família ao qual tinha direito, por 18 meses. Ademais, caso o beneficiário seja demitido ou decida deixar o emprego formal dentro de um prazo de até 36 meses, a família tem o direito de voltar a receber o valor integral do Bolsa Família imediatamente. Isso evita que a pessoa precise passar novamente pela burocracia do programa.

Ainda há graves distorções a serem corrigidas no Bolsa Família, como a falta de focalização, que privilegia famílias unipessoais em detrimento de famílias com mais filhos. Isso é fruto do uso populista do programa, mas que não pode ser confundido com o programa em si, ainda necessário num país com imensas desigualdades como o Brasil.

Violência nas eleições precisa ser coibida

Por Correio Braziliense

A escalada ocorre justamente quando Lula e Flávio Bolsonaro iniciam o segundo turno, num ambiente de radicalização das disputas políticas, questionamentos às instituições e intensa mobilização nas redes sociais

Não bastassem a desinformação e a ausência de debates relevantes, a campanha eleitoral está sendo marcada pela violência. Segundo levantamento das organizações Terra de Direitos e Justiça Global, houve 134 casos de violência política durante os 50 dias de campanha até o primeiro turno — um caso a cada nove horas. O número supera os 121 episódios registrados no mesmo período de 2022. Foram dois assassinatos e 11 atentados, além de ameaças, ofensas e agressões físicas. A violência eleitoral foi cinco vezes mais do que no período anterior à campanha.

A escalada ocorre justamente quando Lula e Flávio Bolsonaro iniciam o segundo turno, num ambiente de radicalização das disputas políticas, questionamentos às instituições e intensa mobilização nas redes sociais. O risco é que a intimidação substitua o confronto de ideias. Os números são muito preocupantes: as mulheres foram vítimas em 70 dos 134 episódios, ou 52,2% do total. Entre os ataques dirigidos a candidatos, elas também constituíram a maioria das vítimas, embora representem aproximadamente um terço das candidaturas. São Paulo registrou 16 ocorrências, Rio Grande do Norte, 13, Minas Gerais, 12, e Rio Grande do Sul, dez. A violência não distingue grandes centros urbanos e pequenas cidades.

Três episódios ajudam a compreender a extensão do problema. Entre as autoridades, Flávio Dino revelou, na última sexta-feira, ter recebido relatório da segurança do STF com milhares de ameaças de assassinato e agressões. Advertiu que, se um magistrado passar a temer represálias pessoais por suas decisões, a própria independência do Judiciário estará comprometida. O Tribunal Superior Eleitoral acionou a Polícia Federal após identificar ataques digitais e exposição de dados de servidores, colocando funcionários e familiares sob proteção.

Entre os candidatos, o caso de Ana Elisa, de 21 anos, combina misoginia, racismo e extremismo político. Eleita deputada federal por Minas Gerais, denunciou ameaças de estupro e morte, inclusive mensagens atribuídas a um suposto integrante da organização supremacista Ku Klux Klan. Seus dados pessoais foram divulgados, e o partido contratou segurança armada. A violência procura intimidar não apenas a parlamentar, mas também mulheres negras que pretendem ocupar espaços de poder.

Entre os manifestantes, em Prata, no interior da Paraíba, simpatizantes de Lula denunciaram disparos efetuados por policiais durante uma manifestação em 12 de setembro. A Polícia Militar alega que houve resistência à abordagem e que um tiro de advertência foi necessário. A divergência exige apuração independente. O direito de manifestação deve coexistir com a atuação legal e proporcional das forças de segurança.

A radicalização nas redes sociais é alimentada pela desinformação e por discursos que deslegitimam adversários e instituições. Isso cria um ambiente favorável à intimidação. Entretanto, é indispensável distinguir crítica política legítima, mesmo contundente, de ameaças criminosas, perseguições e agressões. A liberdade de expressão não pode servir de pretexto para impedir o exercício dos direitos políticos.

O problema adquire outra dimensão no segundo turno presidencial. A mobilização de Lula e Flávio Bolsonaro nas ruas ocorrerá em meio a disputas sobre o futuro do Supremo, propostas de mudanças constitucionais e uma nova correlação de forças no Congresso. A responsabilidade das lideranças políticas aumenta na mesma proporção em que seus apoiadores se mobilizam.

A PF, os órgãos estaduais de segurança, o Ministério Público e a Justiça Eleitoral precisam atuar de maneira coordenada, com proteção às vítimas, investigação dos responsáveis e punição dos crimes comprovados

Nossa Senhora Aparecida: fé e tradição

Por O Povo (CE)

Essa segunda-feira, 12 de outubro, é tradicionalmente marcante para os brasileiros. Mais do que um feriado nacional, a data dedicada à Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil, representa um momento de renovação da fé para os fiéis católicos e é uma ocasião de reflexão para quem acredita em outras denominações, mas que respeita a religião. A celebração atravessa gerações e mantém viva uma devoção enraizada na história e na cultura brasileiras.

A imagem de Nossa Senhora Aparecida, encontrada nas águas do rio Paraíba do Sul, tornou-se um dos mais reconhecidos símbolos da religiosidade nacional, aproximando pessoas de diferentes regiões, histórias e realidades sociais.

Em todo o País, os festejos de Nossa Senhora Aparecida traduzem essa dimensão coletiva da fé. Novenas, missas, romarias, procissões e encontros comunitários fazem parte de uma tradição que movimenta cidades, fortalece vínculos e preserva manifestações culturais. A conhecida romaria rumo à cidade de Aparecida (SP) congrega milhares de devotos em todos os dias da novena e principalmente no dia 12.

No Ceará, essa devoção também se manifesta de maneira expressiva. Em Fortaleza, a programação em homenagem à padroeira do Brasil mobiliza fiéis que encontram nas celebrações uma oportunidade de agradecer a intercessão pelas graças alcançadas, renovar pedidos e compartilhar momentos de oração. Um dos pontos de destaque é o Santuário de Nossa Senhora Aparecida, no bairro Montese, que reúne muitos devotos durante os festejos. Neste ano, a programação do dia 12 prevê celebrações eucarísticas de dia e a procissão, com saída às 17h, percorrendo as ruas do entorno . Às 19h, haverá a missa de encerramento, presidida pelo arcebispo de Fortaleza, dom Gregório Paixão. A festa deste ano que tem como tema "Maria de Deus, Senhora da Paz".

Em um país marcado pela diversidade de crenças, a celebração de Nossa Senhora Aparecida pode ser uma oportunidade para exercitar o respeito. A devoção católica faz parte da identidade de milhões de brasileiros, mas a convivência democrática exige que todas as expressões religiosas e aqueles que não professam uma religião sejam tratados com dignidade.

A data coincide com o Dia das Crianças, o que amplia as possibilidades de reflexão. A proteção da infância, o direito à educação e o cuidado com as famílias são compromissos que devem mobilizar toda a sociedade.

Mais do que pedir bênçãos, o dia 12 de outubro nos convida a renovar compromissos: com a solidariedade, com a paz, com a proteção das crianças e com a construção de uma sociedade mais humana. Que a mensagem de esperança associada à padroeira do Brasil inspire gestos cotidianos de generosidade e respeito. E que a fé celebrada nas igrejas e nas ruas se traduza em atitudes capazes de aproximar as pessoas e tornar a vida em comunidade melhor para todos. 

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