Flávio e Lula têm de cumprir promessa de ir aos debates
Por O Globo
Depois da ausência de confronto entre os dois
no primeiro turno, ambos afirmaram que comparecerão
Depois da resistência injustificável no
primeiro turno da eleição, é bem-vinda a disposição dos candidatos Flávio
Bolsonaro (PL) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT) de participar de debates nesta
segunda — e decisiva — etapa da disputa à Presidência. Numa eleição acirrada,
em que Flávio chegou à frente do atual presidente por menos de 2 pontos
percentuais, ou pouco mais de 2,2 milhões de votos, o confronto de ideias se
torna fundamental para marcar diferenças e permitir ao eleitor fazer sua
escolha de forma sensata e informada.
Candidatos e suas campanhas costumam fazer cálculos de perdas e ganhos eleitorais para decidir se participam de debates. Tem sido comum que líderes nas pesquisas se ausentem, por temer perder a dianteira ao se tornar alvos fáceis dos concorrentes. No primeiro turno não houve debates entre os dois líderes nas pesquisas.
Na última segunda-feira, porém, Lula afirmou
que “agora sim” é importante participar. “É um contra um, é cada um poder
explicar qual é o debate”, disse. Flávio também prometeu comparecer: “É o que
eu sempre quis, quero comparar os programas de governo, quero comparar os governos
do Lula com o nosso”. Há debates entre os dois agendados pela Band (dia 18) e
pela TV Globo (dia 23, após o Jornal Nacional). Na Globo, ambos também deverão
participar de entrevistas nos dias 15 (Lula) e 16 (Flávio).
Tem sido frequente que candidatos prefiram
longas conversas com youtubers, podcasters ou influenciadores camaradas, que
gerem “cortes” para as redes sociais. Também contam com o horário eleitoral
para apresentar suas propostas. Mas tudo isso é propaganda política, não um
debate de ideias conduzido segundo padrões jornalísticos e regras equilibradas.
E a propaganda só trata dos temas que lhes interessam, passando ao largo das
questões que interessam ao eleitor. Apenas o jornalismo profissional tem a
competência e a independência necessárias para fazer os questionamentos
incômodos. Postulantes são confrontados por jornalistas e adversários sobre temas
concretos, abrindo espaço ao contraditório. É disso que o eleitor precisa para
se informar. Faltar aos debates é, portanto, um desrespeito ao direito do
eleitor à informação.
Na campanha do primeiro turno, Flávio e Lula
erraram ao privar os brasileiros de assistir a um confronto de suas ideias. É
importante que o eleitor conheça as diferenças entre os dois. Assuntos de
interesse público nem sempre têm sido tratados de modo satisfatório pelas
campanhas. É o caso da sufocante situação fiscal, da violência inflamada pelas
facções criminosas, das filas do sistema de saúde ou da educação sofrível
oferecida nas escolas públicas. Apenas debates conduzidos pelo jornalismo
profissional de forma equilibrada, com regras claras, podem informar a
sociedade de modo fidedigno e competente. Historicamente, eles têm funcionado
como guia para o voto do cidadão. Flávio e Lula têm agora a oportunidade de
corrigir o erro anterior. Espera-se que mantenham a palavra.
Eleição de mais mulheres para o Legislativo
deve ser celebrada
Por O Globo
Participação na Câmara, no Senado e nas
Assembleias ainda está aquém da ideal, mas progresso é consistente
É excelente notícia o aumento da presença
feminina no Poder Legislativo. No último dia 4, foram eleitas 109 deputadas
federais, 12 senadoras e 218 deputadas estaduais — um aumento expressivo em
relação aos resultados de eleições anteriores. É verdade que a participação
feminina nas Casas Legislativas ainda fica bem aquém da proporção delas na
população (51,5%), mas o avanço tem ocorrido de forma consistente, revelando a
eficácia da exigência de que os partidos reservem pelo menos 30% de suas
candidaturas a mulheres.
Pela primeira vez, elas conquistaram mais de
cem vagas e representarão 21% das 513 cadeiras da Câmara de Deputados (ante 45
em 2010, 51 em 2014, 77 em 2018 e 90 em 2022). No Senado, as 12 eleitas
representam 22% das 54 vagas em disputa e, mais uma vez, houve crescimento
(foram quatro em 1994, oito em 2003, sete em 2010 e em 2018, anos em que houve
renovação de dois terços). Com os resultados, a bancada feminina na Casa
passará de 15 para 18. Nas Assembleias estaduais, elas alcançaram 21% das 1.059
cadeiras em disputa, 27 a mais que em 2022.
É significativo também que mulheres tenham
sido as candidatas mais votadas para a Câmara em sete das 27 unidades da
Federação: Socorro Neri (PP-AC), Coronel Fernanda (PL-MT), Camila Jara (PT-MS),
Natália Bonavides (PT-RN), Júlia Zanatta (PL-SC), Yandra Moura (União-SE) e
Professora Janadi Valcari (Republicanos-TO). Os estados que mais elegeram
deputadas federais foram São Paulo (15), Minas Gerais (11) e Rio de Janeiro
(10), justamente os três maiores colégios eleitorais. De São Paulo veio a
campeã de votos: Erika Hilton (PSOL), que recebeu 1,6 milhão para seu segundo
mandato, terceira maior votação nacional nas candidaturas à Câmara. O Distrito
Federal elegeu duas senadoras: Michelle Bolsonaro e Bia Kicis, ambas do PL.
É verdade que, nas Assembleias Legislativas,
o avanço feminino ainda é desigual. Elas serão 30% no Ceará e em São Paulo, 29%
no Rio Grande do Norte, mas apenas 8% em Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e
Amazonas. No Acre, nenhuma deputada estadual foi eleita. Mas isso quer dizer
que é preciso avançar ainda mais.
O aumento das bancadas femininas se dá em
todos os matizes do espectro partidário. As eleitas representam um amplo arco
de partidos, da direita à esquerda. Nada mais saudável à democracia. Não
importa que pautas defenderão. A política é grande o suficiente para abrigar
todas as ideias. Independentemente de suas convicções políticas, religiosas ou
de costumes, é certo que contribuirão para enriquecer o debate num país plural.
Não é razoável que as mulheres conquistem espaço no mercado de trabalho e em outras tantas áreas e ainda mantenham representatividade tão baixa no Legislativo. O ideal seria que sua presença espelhasse o conjunto da sociedade. De qualquer forma, é um alento que os partidos abram mais espaço à participação feminina — não só para cumprir a legislação — e que os eleitores estejam mais dispostos a votar nelas. O avanço precisa continuar.
Lula flerta com o fracasso porque nada
aprendeu de 2022
Por Folha de S. Paulo
Presidente alienou forças de centro que o
apoiaram no pleito passado e encastelou-se em ideias arcaicas
Lula ignorou a ascensão de uma classe que
aspira a construir seu caminho para a prosperidade, valoriza a vida religiosa e
deplora a insegurança
Na política, a capacidade de extrair lições
das derrotas e também das vitórias distingue os bons competidores dos comuns. O
presidente Luiz Inácio Lula
da Silva (PT)
nada aprendeu com o triunfo de 2022.
Se o mandato do petista eleito era exatamente
igual, no papel, aos outros dois que conquistara no início do século, na
realidade era muito diferente. Lula sobrepujou o incumbente, Jair
Bolsonaro (PL),
por um fiapo correspondente a 1,8% dos votos.
Sem o apoio de lideranças e eleitores de
centro, que em outros pleitos e no primeiro turno de 2022 eram críticos ao PT,
Lula não teria passado os últimos quatro anos no Palácio do Planalto.
A sociedade brasileira também estava
modificada duas décadas depois da primeira posse do petista. Era patente a
intolerância com as aventuras do intervencionismo estatal após a catástrofe recessiva
perpetrada pela administração Dilma
Rousseff (PT).
Ascendeu uma classe que aspira a construir o
seu próprio caminho para a prosperidade, valoriza as relações familiares e a vida
religiosa, deplora a insegurança pública e não se curva às tutelas das elites
universitárias com suas batalhas vernaculares e culturais.
Mas Lula e o PT não atentaram aos alertas.
Ainda na transição de governo, o presidente começou a atacar a
autonomia do Banco Central, que depois o salvaria de uma crise
inflacionária, mas ao preço elevado de uma escalada sem precedentes do juro
real.
Antes mesmo de tomar posse, patrocinou uma
emenda constitucional de R$ 170 bilhões na despesa federal. Alienou a boa
vontade que angariou na eleição de alguns dos melhores e mais tarimbados
economistas, que teriam composto a sua equipe de governo se fossem convidados.
O isolamento no reino das ideias
ultrapassadas do petismo permeou outras áreas. A mentalidade sindicalista dos
anos 1980 fracassou na tentativa de lidar com a
realidade da economia dos aplicativos, e o dirigismo esquerdista
soçobrou na missão de dialogar com o movimento evangélico.
A qualidade dos auxiliares com acesso ao
presidente despencou. Rodeado de bajuladores incapazes de confrontar o chefe
com os erros clamorosos de sua gestão, Lula encastelou-se na convicção de que
tudo corria bem, e o eleitorado reconheceria por gravidade o seu mérito nas eleições.
As dificuldades que o candidato à recondução
enfrentará no próximo dia 25 não são fruto episódico de algum equívoco de
campanha ou da má comunicação. Decorrem do déficit de compreensão do terreno em
que o terceiro mandato se desenvolveria.
Cobrará o seu preço a soberba do líder
petista de julgar-se o senhor da razão, de isolar-se de segmentos que poderiam
lhe render melhores políticas e mais votos, de negar-se a compartilhar poder e
de trancar-se em ignorâncias.
Lula, provavelmente melhor do que o
bolsonarismo apresentou até aqui em tudo o que não diz respeito à condução da
economia, flerta agora com o fracasso.
Indústria estagnada
Por Folha de S. Paulo
Setor tem avanço de apenas 13,8% desde 2002,
com meros 10% na transformação
Gargalos em infraestrutura e tendência
protecionista ajudam a explicar maus resultados no país; apenas indústria
extrativa mostra desempenho melhor
Se há um setor símbolo dos desajustes
históricos da economia
brasileira, esse certamente é o industrial. Não apenas seu desempenho tem sido
fraco neste ano como a história recente da indústria
nacional é de evidente estagnação.
Desde janeiro de 2002, a atividade como um
todo cresceu apenas 13,8%. A extrativa teve resultado muito melhor, 55,7%, e a
de transformação, meros 10%.
Com a divulgação pelo IBGE dos números de
agosto da produção regional, observam-se ainda mais as disparidades do país. O
vigor da indústria extrativa fez com que os estados com forte presença de
commodities mostrassem as melhores taxas de expansão.
Pará e Goiás são exemplos disso. No primeiro,
que se destaca em mineração, houve alta de 119,2% no período, e no segundo, com
o hub industrial de Anápolis e vigor do agro, de 107%.
O contraste com os estados de pior desempenho
é enorme. Ceará e Bahia, com indústrias mais tradicionais, registraram quedas
de, respectivamente, 8,6% e 7,4%.
Mas a comparação com 2002 é enganosa, pois
incorpora o forte ciclo econômico da primeira década do século. Quando
comparamos com a média de 2011, o resultado piora. O recuo do setor nesse
período é de 13,3%, e mesmo os estados mais prósperos, Pará e Goiás, apresentam
números bem mais modestos (18,7% e 27%, respectivamente). As commodities, como
se diz, podem muito, mas não podem tudo.
Analisando os dados da Organização para o
Desenvolvimento Industrial da ONU, vemos que, de 2011 até julho deste ano, o
Brasil teve queda de 14%, enquanto a mediana de 68 países apresentou alta de
27%. Os únicos setores em que conseguimos ir melhor do que o padrão mundial são
papel e celulose, coque e refino de petróleo. Em alguns segmentos, a lacuna é
estonteante.
A indústria de eletrônicos e computadores
caiu 40% no Brasil, por exemplo, enquanto cresceu 51% na média mundial.
Gargalos históricos em infraestrutura e tendência
protecionista ajudam a explicar parte importante da nossa
industrialização. Richard Baldwin, do IMD Business School, tem sido um
prolífico estudioso do assunto e mostrado como a aproximação de países mais
pobres a países mais ricos ajuda a aumentar a participação da indústria nos
primeiros.
Acordos comerciais, como o que finalizamos com a União Europeia, serão um caminho para aumentar a produtividade, assim como a reforma tributária, que tende a penalizar menos o setor. Por fim, o tão esperado ajuste fiscal ajudaria a reduzir os juros.
A potência ambiental que o Brasil pode ser
Por O Estado de S. Paulo
Preservar sem interditar o desenvolvimento é o desafio brasileiro: ciência, inovação e boas instituições devem reduzir conflitos e orientar as escolhas que continuarem inevitáveis
O Brasil deveria ambicionar uma política
ambiental mais exigente e menos ritualista. A tecnologia pode reduzir conflitos
entre crescimento econômico e preservação ambiental, mas alguns continuarão a
exigir escolhas. A boa política começa onde termina a retórica: na escolha
entre objetivos legítimos que competem por dinheiro, território, energia e
tempo.
A primeira tensão é entre mitigar o
aquecimento e proteger o País dos danos que já não poderão ser evitados. Cada
real gasto para reduzir emissões concorre com drenagem ou infraestrutura
resistente a secas e enchentes. A mitigação continua necessária, sobretudo
porque o Brasil pode cortar emissões substanciais no uso da terra. Mas a
adaptação deve ser prioritária. Seus benefícios são locais, frequentemente imediatos
e mensuráveis em vidas e patrimônio preservados. Crescimento também ajuda:
sociedades mais ricas constroem melhor e se recuperam mais rápido.
A produtividade da agricultura brasileira
mostra como a ciência pode superar desafios ambientais: produzir mais por
hectare permite alimentar mais gente ocupando menos terra. A mesma
rentabilidade, contudo, pode tornar novas expansões atraentes. A tecnologia
cria a possibilidade de poupar território, mas não garante que ele será
poupado. Isso exige fiscalização e incentivos que tornem mais lucrativo
intensificar do que avançar sobre vegetação nativa. Combater o desmatamento
ilegal deve ser prioridade porque combina benefício ambiental com defesa do
Estado de Direito.
A energia oferece outro dilema. Quase 90% da
eletricidade brasileira já vem de fontes renováveis. Incorporar, por mero
dogma, matrizes solares e eólicas sem rede, flexibilidade e capacidade firme
pode elevar custos ou restringir geração. A transição precisa aproveitar
vantagens brasileiras sem sacrificar confiabilidade e preço. Cada fonte deve
ser julgada pelo que acrescenta ao sistema.
O mesmo pragmatismo vale para petróleo,
mineração e outras riquezas naturais. O Brasil tem recursos de que o mundo
precisa. Interditar seu aproveitamento por princípio sacrificaria renda,
investimento, empregos e capacidade tecnológica; explorá-los sem disciplina
consumiria patrimônio de grande valor ambiental e estratégico. Nenhum recurso
deve ser intocável por princípio nem descartável por conveniência. Ciência, regulação
e preços corretos devem reduzir danos e ampliar o valor obtido de sua
exploração.
O Brasil também tem boas razões para
financiar pesquisa em agricultura de baixo carbono, combustíveis sustentáveis,
materiais industriais mais limpos e redes. O Estado pode assumir riscos quando
há grande benefício coletivo e incerteza tecnológica. Mas “verde” é uma palavra
poderosa – e porosa – demais nas mãos de governos inclinados a escolher
“campeões nacionais” e troféus. Subsídios permanentes e proteção contra concorrência
podem transformar política climática em velha política industrial com nova
embalagem. Apoiar inovação faz sentido; eternizar rendas, não.
O dinheiro público é um só, e R$ 1 bilhão
gasto numa política climática de baixo retorno deixa de financiar adaptação,
saneamento, inovação ou uma intervenção ambiental mais eficaz. Isso obriga a
comparar benefícios, custos e alternativas. A mesma disciplina vale para o
desenvolvimento econômico: um projeto lucrativo pode impor danos ambientais
superiores ao valor que cria. Direitos, legalidade e riscos ecológicos
irreversíveis estabelecem limites, mas dentro deles custos de oportunidade
continuam existindo.
Poucos países reúnem, em escala comparável,
patrimônio natural, alimentos, energia, minerais e ciência tropical. Num mundo
que precisa descarbonizar sem parar de crescer, essa combinação pode se
transformar em influência. A liderança brasileira será construída se o País
mostrar que consegue produzir e enriquecer sem destruir os ativos que sustentam
seu futuro – e desenvolvendo soluções que outros países podem usar.
Uma política ambiental madura medirá quanto
bem-estar, resiliência e natureza preservada consegue entregar com os recursos
disponíveis, e quão rapidamente a inovação amplia as escolhas futuras. O Brasil
tem condições de ser uma liderança ambiental global. Essa posição terá de ser
conquistada não por boas intenções, mas por bom desempenho.
Uma desigualdade especialmente cruel
Por O Estado de S. Paulo
Um estudo do IBGE mostrou que a exclusão no
Brasil pode ser ainda mais desumana com as pessoas com deficiência, deixando-as
às margens da educação, do mercado de trabalho e da cidadania
Um estudo divulgado pelo Instituto Brasileiro
de Geografia e Estatística (IBGE) às vésperas do Dia Nacional de Luta da Pessoa
com Deficiência atestou como o Brasil, que já é muito desigual, pode ser ainda
mais excludente com uma parcela significativa de sua população.
Ao compilar dados do Censo 2022 e de outras
pesquisas, o informativo Pessoas
com Deficiência e as Desigualdades Sociais no Brasil revelou algo
perturbador: apesar do discurso oficial de inclusão social, o País está
distante de promover a igualdade.
No Brasil, são 14,4 milhões de pessoas com
deficiência física, visual, auditiva ou intelectual – ou seja, 7,3% da
população. Nada menos do que 3,9 milhões desses brasileiros vivem com duas ou
mais dessas condições concomitantemente. E, infelizmente, boa parte deles ainda
é empurrada para as margens da sociedade.
Segundo o informativo do IBGE, essa exclusão
começa bem cedo, e dentro de casa. Enquanto 21,5% dos brasileiros com 2 a 17
anos vivem numa residência somente com a mãe ou a madrasta, chega a 30,1% o porcentual
de indivíduos com deficiência nas mesmas condições. Portanto, o estudo
confirmou em números o que pode ser visto no dia a dia das famílias: o cuidado
com os filhos pesa mais sobre as mulheres.
É por isso que é tão comum ver mães com
filhos nos braços em filas Brasil afora em busca de tratamento e assistência.
Para piorar, essas mães e seus filhos são vítimas de algo ainda mais cruel: o
abandono de pais e padrastos, que, segundo o relatório do IBGE, deixam suas
famílias por causa de “sentimentos de rejeição às pessoas com deficiência” – ou
seja, o preconceito ou a incapacidade de lidar com a situação.
E, se falta suporte em casa, tampouco sobra
na escola. Enquanto o analfabetismo entre brasileiros com idade entre 15 e 29
anos na população em geral é de 1%, a taxa sobe a 12,2% quando se trata de
pessoas com deficiência na mesma faixa etária. Desigualdade semelhante se
repete em todas as idades estudadas.
No Brasil, as desigualdades vão se arrastando
e se aprofundando ao longo da vida. Prova disso é que o nível de ocupação das
pessoas com deficiência é de 29%, ante uma taxa de 56% entre as pessoas sem
deficiência. E sua renda mensal média é de R$ 2.053, o equivalente a 71% da
renda da população em geral.
A exclusão, portanto, não parece ser
excepcional. Sem acesso à educação em virtude da falta de acessibilidade nas
escolas, do despreparo dos professores para acolher os alunos e da ausência de
um projeto pedagógico efetivamente inclusivo, o círculo é vicioso: a formação
precária afasta as pessoas com deficiência dos melhores postos de trabalho,
sobrecarregando, na velhice, a Seguridade Social.
A taxa de pobreza das pessoas com deficiência
e das pessoas sem deficiência é praticamente igual, girando em torno de um
terço da população. Isso ocorre porque mais de 40% das pessoas com deficiência
têm mais de 60 anos, e boa parte delas recebe parcelas previdenciárias ou
assistenciais, sobretudo o Benefício de Prestação Continuada (BPC). Já na
parcela mais jovem, o abismo se abre: 60,9% das crianças de 2 a 14 anos de
idade com deficiência vivem na pobreza, contra 52,5% das crianças sem
deficiência.
Em que pese o Estatuto da Pessoa com
Deficiência estar em vigor há uma década, o Brasil, como mostrou o informativo
do IBGE, tem fracassado com esses brasileiros em praticamente todas as
dimensões de suas vidas, privando-os de educação de qualidade, do acesso ao
mercado de trabalho, de bens de consumo e serviços, do acesso à internet e da
participação política, entre tantos outros direitos.
Como se vê, são muitos os obstáculos ainda a
serem superados para a conquista da cidadania plena. E não bastassem o
preconceito e a discriminação, as pessoas com deficiência têm contra si um
poderoso adversário: a má vontade do Estado brasileiro.
O trabalhador e o Bolsa Família
Por O Estado de S. Paulo
Estudo mostra que, ao contrário do
preconceito, beneficiários do programa procuram emprego
Um estudo da Fundação Getulio Vargas (FGV)
mostra que os beneficiários do Bolsa Família ocuparam nada menos que 85% dos
postos de trabalho formal criados no Brasil entre janeiro de 2023 e julho deste
ano. Isso significa que grande parte dos brasileiros que recebem Bolsa Família
procura trabalho, provavelmente porque não quer ficar dependente do auxílio
estatal.
O estudo, conduzido por Valdemar Pinho Neto e
Luiz Gustavo Barbosa, do Centro de Estudos Empíricos em Economia, mostra que o
pagamento do Bolsa Família ajuda a satisfazer parte das necessidades primárias
dos mais pobres, abrindo uma margem para que haja tempo e disposição para
procurar um emprego com carteira assinada. Presume-se que sem o Bolsa Família
esses indivíduos não teriam condições de buscar uma oportunidade no mercado de
trabalho formal.
O mercado de trabalho aquecido, por óbvio,
ajuda a melhorar as estatísticas. O desemprego na casa dos 5,3%, o mais baixo
que o IBGE já registrou na série histórica iniciada em 2012, indica que há
oportunidades mesmo para candidatos com pouca qualificação. Ademais, como a
economia brasileira avança em marcha lenta há décadas, sem as condições
estruturais ideais para impulsionar um crescimento firme e sustentável, os
empregos gerados, em sua maior parte, tendem a ser de baixa remuneração.
Ainda assim, é notável que beneficiários do
Bolsa Família sejam maioria entre os que estão aproveitando essa bonança de
vagas – sobretudo porque sobre eles recai o preconceito segundo o qual quem
recebe Bolsa Família se acomoda e não quer trabalhar. Isso até pode ser verdade
para aqueles que preferem viver do benefício a se submeter a trabalho insalubre
e a jornadas exaustivas em troca de salários baixíssimos – o que, convenhamos,
é perfeitamente racional. Mas, quando há oferta de emprego que não seja
aviltante, a maioria opta pelo trabalho.
Nesse sentido, parece correto o redesenho do
Bolsa Família, que passou a permitir que os beneficiários do programa, mesmo
quando contratados com carteira assinada, sigam recebendo metade do benefício
por um período de transição. O sistema resolve um antigo problema dos programas
de transferência de renda: o medo que os beneficiários tinham de aceitar um
emprego com carteira assinada e perder imediatamente o auxílio, ficando desprotegidos
caso o emprego não durasse. Agora, quando um membro da família consegue um
emprego formal e a renda da casa aumenta, o benefício não é cortado
imediatamente. A família passa a receber 50% do valor do Bolsa Família ao qual
tinha direito, por 18 meses. Ademais, caso o beneficiário seja demitido ou
decida deixar o emprego formal dentro de um prazo de até 36 meses, a família
tem o direito de voltar a receber o valor integral do Bolsa Família
imediatamente. Isso evita que a pessoa precise passar novamente pela burocracia
do programa.
Ainda há graves distorções a serem corrigidas no Bolsa Família, como a falta de focalização, que privilegia famílias unipessoais em detrimento de famílias com mais filhos. Isso é fruto do uso populista do programa, mas que não pode ser confundido com o programa em si, ainda necessário num país com imensas desigualdades como o Brasil.
Violência nas eleições precisa ser coibida
Por Correio Braziliense
A escalada ocorre justamente quando Lula e
Flávio Bolsonaro iniciam o segundo turno, num ambiente de radicalização das
disputas políticas, questionamentos às instituições e intensa mobilização nas
redes sociais
Não bastassem a desinformação e a ausência de
debates relevantes, a campanha eleitoral está sendo marcada pela violência.
Segundo levantamento das organizações Terra de Direitos e Justiça Global, houve
134 casos de violência política durante os 50 dias de campanha até o primeiro
turno — um caso a cada nove horas. O número supera os 121 episódios registrados
no mesmo período de 2022. Foram dois assassinatos e 11 atentados, além de
ameaças, ofensas e agressões físicas. A violência eleitoral foi cinco vezes
mais do que no período anterior à campanha.
A escalada ocorre justamente quando Lula e
Flávio Bolsonaro iniciam o segundo turno, num ambiente de radicalização das
disputas políticas, questionamentos às instituições e intensa mobilização nas
redes sociais. O risco é que a intimidação substitua o confronto de ideias. Os
números são muito preocupantes: as mulheres foram vítimas em 70 dos 134
episódios, ou 52,2% do total. Entre os ataques dirigidos a candidatos, elas
também constituíram a maioria das vítimas, embora representem aproximadamente
um terço das candidaturas. São Paulo registrou 16 ocorrências, Rio Grande do
Norte, 13, Minas Gerais, 12, e Rio Grande do Sul, dez. A violência não
distingue grandes centros urbanos e pequenas cidades.
Três episódios ajudam a compreender a
extensão do problema. Entre as autoridades, Flávio Dino revelou, na última
sexta-feira, ter recebido relatório da segurança do STF com milhares de ameaças
de assassinato e agressões. Advertiu que, se um magistrado passar a temer
represálias pessoais por suas decisões, a própria independência do Judiciário
estará comprometida. O Tribunal Superior Eleitoral acionou a Polícia Federal
após identificar ataques digitais e exposição de dados de servidores, colocando
funcionários e familiares sob proteção.
Entre os candidatos, o caso de Ana Elisa, de
21 anos, combina misoginia, racismo e extremismo político. Eleita deputada
federal por Minas Gerais, denunciou ameaças de estupro e morte, inclusive
mensagens atribuídas a um suposto integrante da organização supremacista Ku
Klux Klan. Seus dados pessoais foram divulgados, e o partido contratou
segurança armada. A violência procura intimidar não apenas a parlamentar, mas
também mulheres negras que pretendem ocupar espaços de poder.
Entre os manifestantes, em Prata, no interior
da Paraíba, simpatizantes de Lula denunciaram disparos efetuados por policiais
durante uma manifestação em 12 de setembro. A Polícia Militar alega que houve
resistência à abordagem e que um tiro de advertência foi necessário. A
divergência exige apuração independente. O direito de manifestação deve
coexistir com a atuação legal e proporcional das forças de segurança.
A radicalização nas redes sociais é
alimentada pela desinformação e por discursos que deslegitimam adversários e
instituições. Isso cria um ambiente favorável à intimidação. Entretanto, é
indispensável distinguir crítica política legítima, mesmo contundente, de
ameaças criminosas, perseguições e agressões. A liberdade de expressão não pode
servir de pretexto para impedir o exercício dos direitos políticos.
O problema adquire outra dimensão no segundo
turno presidencial. A mobilização de Lula e Flávio Bolsonaro nas ruas ocorrerá
em meio a disputas sobre o futuro do Supremo, propostas de mudanças constitucionais
e uma nova correlação de forças no Congresso. A responsabilidade das lideranças
políticas aumenta na mesma proporção em que seus apoiadores se mobilizam.
A PF, os órgãos estaduais de segurança, o Ministério Público e a Justiça Eleitoral precisam atuar de maneira coordenada, com proteção às vítimas, investigação dos responsáveis e punição dos crimes comprovados
Nossa Senhora Aparecida: fé e tradição
Por O Povo (CE)
Essa segunda-feira, 12 de outubro, é
tradicionalmente marcante para os brasileiros. Mais do que um feriado nacional,
a data dedicada à Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil, representa um
momento de renovação da fé para os fiéis católicos e é uma ocasião de reflexão
para quem acredita em outras denominações, mas que respeita a religião. A
celebração atravessa gerações e mantém viva uma devoção enraizada na história e
na cultura brasileiras.
A imagem de Nossa Senhora Aparecida,
encontrada nas águas do rio Paraíba do Sul, tornou-se um dos mais reconhecidos
símbolos da religiosidade nacional, aproximando pessoas de diferentes regiões,
histórias e realidades sociais.
Em todo o País, os festejos de Nossa Senhora
Aparecida traduzem essa dimensão coletiva da fé. Novenas, missas, romarias,
procissões e encontros comunitários fazem parte de uma tradição que movimenta
cidades, fortalece vínculos e preserva manifestações culturais. A conhecida
romaria rumo à cidade de Aparecida (SP) congrega milhares de devotos em todos
os dias da novena e principalmente no dia 12.
No Ceará, essa devoção também se manifesta de
maneira expressiva. Em Fortaleza, a programação em homenagem à padroeira do
Brasil mobiliza fiéis que encontram nas celebrações uma oportunidade de
agradecer a intercessão pelas graças alcançadas, renovar pedidos e compartilhar
momentos de oração. Um dos pontos de destaque é o Santuário de Nossa Senhora
Aparecida, no bairro Montese, que reúne muitos devotos durante os festejos.
Neste ano, a programação do dia 12 prevê celebrações eucarísticas de dia e a
procissão, com saída às 17h, percorrendo as ruas do entorno . Às 19h, haverá a
missa de encerramento, presidida pelo arcebispo de Fortaleza, dom Gregório
Paixão. A festa deste ano que tem como tema "Maria de Deus, Senhora da
Paz".
Em um país marcado pela diversidade de
crenças, a celebração de Nossa Senhora Aparecida pode ser uma oportunidade para
exercitar o respeito. A devoção católica faz parte da identidade de milhões de
brasileiros, mas a convivência democrática exige que todas as expressões
religiosas e aqueles que não professam uma religião sejam tratados com
dignidade.
A data coincide com o Dia das Crianças, o que
amplia as possibilidades de reflexão. A proteção da infância, o direito à
educação e o cuidado com as famílias são compromissos que devem mobilizar toda
a sociedade.
Mais do que pedir bênçãos, o dia 12 de outubro nos convida a renovar compromissos: com a solidariedade, com a paz, com a proteção das crianças e com a construção de uma sociedade mais humana. Que a mensagem de esperança associada à padroeira do Brasil inspire gestos cotidianos de generosidade e respeito. E que a fé celebrada nas igrejas e nas ruas se traduza em atitudes capazes de aproximar as pessoas e tornar a vida em comunidade melhor para todos.

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