Folha de S. Paulo
Segundo turno não põe dilema para democratas,
já que a clivagem é entre a garantia de direitos e o primado da força
O que pode significar reforma da Constituição para 'redemocratizá-la' no dicionário de um fã do torturador Ustra?
A festa da democracia virou balada da extrema
direita. O seu batalhão tomou a Câmara dos
Deputados, o Senado
e muitos governos estaduais. Faltam a Presidência e o sistema de Justiça.
Dominadas estas últimas trincheiras, veremos, como querem os bolsonaristas, um
arremedo do governo Donald Trump
no Brasil.
O segundo turno não põe dilema para
democratas, já que os candidatos diferem no fundamental: os meios democráticos
ou os violentos para dirigir o país.
A política nacional teve outros momentos de
decisões assim cruciais. Foi o caso dos dois 88.
Na batalha da escravidão, um lado lutou por direitos para indivíduos reduzidos a mercadorias e o outro, para manter a crueldade do escravismo e a compra e a venda de pessoas. Pulando um século, o embate opôs partidários de um Estado de exceção e de censura, governado por militares, e outro democrático, que garante o próprio direito de divergir.
Tanto a lei de abolição quanto a Constituição
de 1988 resultaram de longos e penosos embates, nos quais a parte civilizada da
sociedade afinal triunfou. Mas a civilização não brota do nada e, deixada à
própria sorte, fenece.
Avanços civilizacionais encontraram outro
momentum na sequência dos governos Fernando
Henrique Cardoso e Lula
1 e 2, que trabalharam na mesma direção, apesar das suas diferenças. O outro
campo nunca deu trégua. O movimento pelo "direito à autodefesa"
venceu o referendo do desarmamento em Lula 1. Um dos líderes da campanha por
uma sociedade armada era o deputado Jair
Bolsonaro.
A consolidação democrática lograda pelas
administrações de PSDB
e PT
foi posta à prova com o impeachment da única mulher presidente da República na
história nacional. Na votação, Bolsonaro defendeu o método, a tortura, e
celebrou um torturador, Brilhante Ustra. Um deputado federal, em pleno Congresso
Nacional, fez, assim, apologia do uso da violência na política e da
própria ditadura.
Não recebeu a mais leve advertência. Fala-se agora do fim da Nova República. Na
verdade, ela acabou naquele momento.
Aliás, Bolsonaro filho acaba de prometer uma
reforma da Constituição para "redemocratizá-la". O que pode
significar "redemocratização" no dicionário de um fã de Ustra?
Na história brasileira recente, os lados têm
trocado de líder e de vocabulário, mas a clivagem é a mesma: garantia de
direitos, de um lado, e primado da força, de outro. Essa é a escolha que a urna
apresenta.
Uma das candidaturas prima pelo império da
lei, visa aumentar as chances de bem-estar para todos por meio de políticas
públicas e reduzir os meios de violência, hoje disseminados na sociedade.
Sobretudo, está comprometida com a democracia e o Estado de Direito.
A outra candidatura fala em
"liberdades", mas deixou claro que vai atropelar instituições. Se há
uma linha distintiva do bolsonarismo, é esse fascínio pelo uso político da
força. No governo Bolsonaro, esteve no simbolismo (o gesto da arminha) e na
ausência de compaixão e assistência aos que morriam de falta de ar na pandemia
de Covid-19. O apelo direto à força apareceu contra o resultado das urnas no 8
de Janeiro, nada menos que uma tentativa de golpe de Estado.
Esta é a herança da qual se orgulha Bolsonaro
filho: o elogio da violência como meio de resolver conflitos. Em vez de
segurança pública, a sua linha de condução do país seguirá o exemplo paterno de
armar os cidadãos para a guerra de todos contra todos.
Estamos sobre os escombros do sonho
democrático da Nova República. O que sobrou dele será varrido do mapa se a
parte civilizada do país não engolir, como dizia Leonel Brizola, um bravo
defensor da democracia, o sapo barbudo.
As candidaturas indicam futuros claros e
opostos para o país: a civilização ou a barbárie. A escolha é simples.
*Professora titular do Departamento de Sociologia da USP e pesquisadora do Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento)

Um comentário:
Simplesmente ridícula
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