sexta-feira, 16 de outubro de 2026

Coluna com opinião, por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

Meus leitores bolsonaristas se queixam de que não respeito a imparcialidade do bom jornalismo

Eles têm razão; em 60 anos de profissão, nunca falei bem de nenhum presidente ou político

Meus fiéis leitores bolsonaristas, que me honram com sua atenção quatro vezes por semana, se queixam do que consideram minha parcialidade. Acham que eu devia poupar os Bolsonaros de críticas e falar também dos defeitos de seus adversários. Segundo esses leitores, é o que rezam as normas do bom jornalismo. Eu deveria saber —porque, em 2027, completarei 60 anos de jornalismo profissional.

Nesse longo período, fui contratado de quase 20 veículos de Rio e São Paulo, incluindo jornais, revistas, rádios, TVs e, agora, sites. Outros para os quais produzi colaborações fixas devem chegar ao dobro disso; os que me pediram colaborações avulsas, centenas. Como empregado, foi um prazer trabalhar para a maioria; para três ou quatro, prazer nenhum, mas bastava pegar o boné.

Em um veículo atrás do outro, fui foca, repórter, repórter especial, redator, editor de caderno, chefe de Redação, editor de revista, crítico, articulista, enviado especial, o que você imaginar. Não me lembro de nenhum que fosse de esquerda —talvez o Pasquim, e mesmo assim da esquerda festiva. De direita, sim, vários —um deles, Seleções do Reader’s Digest, que dirigi em Lisboa nos anos 1970 e foi um custo recusar a carreira que os patrões americanos planejavam para mim. Em 1988, passei a trabalhar com livros, o que me distanciou das Redações. Mas nem por um dia abandonei a imprensa.

Quando comecei, no heroico Correio da Manhã, em 1967, o Brasil tinha como presidente, digo, ditador, o marechal Castelo Branco. Desde então, foram 12 presidentes, sem contar as reeleições. Se alguém se der ao trabalho de procurar em todos esses anos e publicações, não achará uma única frase minha a favor de nenhum deles —ou de qualquer político. A pesquisa pode começar pelos 19 anos em que ocupo esta coluna na Folha —20, em fevereiro próximo.

É um espaço que me permite expressar minhas opiniões. A Folha nunca me disse se concorda ou não com elas. Isso cabe, naturalmente, aos leitores.

 

2 comentários:

Anônimo disse...

Respeito o senhor. Já li vários dos seus ótimos livros, porém e furo ver gente de bem rasgar a própria consciência e sua história por um criminoso que foi condenado por 2 juízes diferentes, teve as penas ampliadas pelo TRF e confirmadas as condenações 2 vezes pelo sttj. Fez governos tão ruins e corruptos que até eleger o Bolsonaro ele conseguiu. Luiz Roberto

Anônimo disse...

Mais uma interessante coluna! Sobre si próprio... No mínimo, diferente!