O Brasil registrou 40.775 mortes violentas
intencionais em 2025, mais de 110 por dia. A queda em relação ao ano anterior é
relevante, mas não elimina a gravidade desse cenário
Desde a Constituinte de 1988, o Brasil tem dificuldade para resolver uma
equação central da segurança pública: como assegurar a coordenação nacional do
combate ao crime sem atropelar a autonomia dos estados, responsáveis pelo
policiamento cotidiano. Devido ao trauma do regime militar, a Constituição
consagrou direitos e garantias, mas preservou uma estrutura policial
fragmentada. A democratização avançou mais na definição dos limites do poder do
que na construção de uma capacidade integrada de enfrentar a criminalidade.
Não foi a à toa que o presidente do Senado,
Davi Alcolumbre (União-AP), anunciou que pretendia votar a PEC ontem e voltou
atrás, diante da centralidade que a redução da maioridade penal alcançou, a
ponto de dividir a bancada governista. A questão de fundo é sociológica: o
crime é um fato social normal, nenhuma sociedade conhecida eliminou as
transgressões, e a reação à criminalidade serve para reafirmar normas
coletivas. A patologia aparece quando a criminalidade sai do controle e
compromete o funcionamento da sociedade. No Brasil atual, o crime organizado
desafia a lei e impõe suas próprias regras.
Divisor de águas
O Primeiro Comando da Capital e o Comando Vermelho já não podem ser
compreendidos apenas como quadrilhas dedicadas ao tráfico. Têm redes de
distribuição, lavam dinheiro, controlam territórios e estão infiltrados em
atividades econômicas. Onde uma facção decide quem pode circular, trabalhar ou
abrir um comércio, a autoridade pública foi praticamente substituída. E a
expansão desse poder maligno é também um preocupação econômica, porque
compromete a concorrência, encarece negócios e submete trabalhadores e
empresários à coerção.
Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o país registrou 40.775 mortes
violentas intencionais em 2025, mais de 110 por dia. A queda em relação ao ano
anterior é relevante, mas não elimina a gravidade do quadro. Tampouco a redução
dos homicídios, isoladamente, informa quanto território, influência econômica
ou capacidade de corromper agentes públicos as organizações criminosas
perderam.
O Sistema Único de Segurança Pública foi instituído por lei em 2018. O que Lula
pretende desde quando assumiu a Presidência é conferir maior força constitucional
e efetividade à integração, mas ainda enfrenta forte resistência dos
governadores de oposição. Compartilhar informações, coordenar operações e
seguir o dinheiro exige continuidade administrativa, recursos e
responsabilidades definidas. Criar um ministério pode dar prioridade política
ao tema, mas sua eficácia dependerá dessa engrenagem funcionar.
No processo eleitoral, a disputa sobre a maioridade penal mostra como essa
agenda pode ser deslocada. O senador Rogério Marinho (PL-RN) apresentou uma
emenda para reduzir a responsabilização penal a 16 anos, chegando a 14 em
determinados crimes. Camilo Santana articulou uma alternativa restrita aos
crimes hediondos, a partir dos 16, e abriu uma divergência no PT. Lula havia
orientado a votação da PEC sem emendas para acelerar sua tramitação.
Diante do impasse, Alcolumbre tirou a PEC da Segurança Pública de pauta. O episódio expôs a dificuldade de Lula neutralizar Flávio na questão da segurança pública. Na prática, está sendo obrigado a discutir a questão nos termos escolhidos pela oposição. O fato é que o eleitor quer sair de casa, trabalhar e voltar em segurança. Esse é o busílis. Com a fragmentação administrativa, mesmo com o que já houve de endurecimento penal, o crime ampliou seu poder. A patologia brasileira está na perda de autoridade e na dificuldade de reconstruí-la nos marcos da democracia.

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