Folha de S. Paulo
Meus leitores bolsonaristas se queixam de que
não respeito a imparcialidade do bom jornalismo
Eles têm razão; em 60 anos de profissão,
nunca falei bem de nenhum presidente ou político
Meus fiéis leitores bolsonaristas, que me honram com sua atenção quatro vezes por semana, se queixam do que consideram minha parcialidade. Acham que eu devia poupar os Bolsonaros de críticas e falar também dos defeitos de seus adversários. Segundo esses leitores, é o que rezam as normas do bom jornalismo. Eu deveria saber —porque, em 2027, completarei 60 anos de jornalismo profissional.
Nesse longo período, fui contratado de quase
20 veículos de Rio e São Paulo, incluindo jornais, revistas, rádios, TVs e,
agora, sites. Outros para os quais produzi colaborações fixas devem chegar ao
dobro disso; os que me pediram colaborações avulsas, centenas. Como empregado,
foi um prazer trabalhar para a maioria; para três ou quatro, prazer nenhum, mas
bastava pegar o boné.
Em um veículo atrás do outro, fui foca,
repórter, repórter especial, redator, editor de caderno, chefe de Redação,
editor de revista, crítico, articulista, enviado especial, o que você imaginar.
Não me lembro de nenhum que fosse de esquerda —talvez o Pasquim,
e mesmo assim da esquerda festiva. De direita, sim, vários —um deles, Seleções
do Reader’s Digest, que dirigi em Lisboa nos anos 1970 e foi um custo recusar a
carreira que os patrões americanos planejavam para mim. Em 1988, passei a
trabalhar com livros, o que me distanciou das Redações. Mas nem por um dia
abandonei a imprensa.
Quando comecei, no heroico Correio da Manhã,
em 1967, o Brasil tinha como presidente, digo, ditador, o marechal Castelo
Branco. Desde então, foram 12 presidentes, sem contar as reeleições.
Se alguém se der ao trabalho de procurar em todos esses anos e publicações, não
achará uma única frase minha a favor de nenhum deles —ou de qualquer político.
A pesquisa pode começar pelos 19 anos em que ocupo esta coluna na Folha —20, em
fevereiro próximo.
É um espaço que me permite expressar minhas
opiniões. A Folha nunca me disse se concorda ou não com elas. Isso cabe,
naturalmente, aos leitores.

2 comentários:
Respeito o senhor. Já li vários dos seus ótimos livros, porém e furo ver gente de bem rasgar a própria consciência e sua história por um criminoso que foi condenado por 2 juízes diferentes, teve as penas ampliadas pelo TRF e confirmadas as condenações 2 vezes pelo sttj. Fez governos tão ruins e corruptos que até eleger o Bolsonaro ele conseguiu. Luiz Roberto
Mais uma interessante coluna! Sobre si próprio... No mínimo, diferente!
Postar um comentário