quinta-feira, 24 de outubro de 2024

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Projeção para dívida exige controle de gastos

O Globo

Estimativas mostram que Lula não pode titubear ao apoiar programa de Haddad e Tebet

São preocupantes as projeções para a dívida pública do último relatório de acompanhamento fiscal da Instituição Fiscal Independente (IFI), vinculada ao Senado. Os técnicos da IFI avaliam que, apesar de a agência Moody’s ter elevado recentemente a nota do Brasil, as “incertezas fiscais dificultam a obtenção do grau de investimento”. “O nível de endividamento brasileiro está na média dos países da Zona do Euro, inferior aos países desenvolvidos do G7, mas bem acima dos países emergentes e da América Latina e Caribe”, afirma o documento.

Pelos cálculos da IFI, a dívida bruta do governo alcançou o patamar de 78,5% do PIB até agosto, mas deverá fechar este ano em 80%. A tendência é a alta prosseguir ao longo do mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, atingindo 82,2% em 2025 e 84,1% em 2026. Ao todo, o endividamento público terá crescido 12,4 pontos percentuais do PIB nos quatro anos do mandato de Lula, de acordo com as projeções (em dezembro de 2022, antes da posse, a dívida estava em 71,7% do PIB).

Merval Pereira - Voto facultativo se impõe

O Globo

Na prática, as eleições brasileiras estão se transformando em não obrigatórias, diante da ausência de uma sanção significativa contra a abstenção

A abstenção ganhou dimensão nova nas eleições municipais deste ano, especialmente no segundo turno, quando a possibilidade, ainda que remota, de que ela seja responsável por uma reviravolta na eleição paulistana passou a fazer parte da estratégia final dos competidores. O prefeito Ricardo Nunes, à frente nas pesquisas desde o início, demonstrou na última semana preocupação evidente com a possibilidade de que os eleitores do coach Pablo Marçal não se disponham a ir votar nele domingo, abrindo brecha à redução de seu favoritismo. Noutros municípios, como Porto Alegre, a abstenção também tem sido alta.

Guilherme Boulos, do PSOL, descrente pela tentativa frustrada de atrair votos dos marçalistas, começou a jogar a favor da abstenção, afirmando que eleitores de Marçal não votarão em Nunes, a despeito do que mostram as pesquisas.

Na prática, as eleições brasileiras estão se transformando em não obrigatórias, diante da ausência de uma sanção significativa contra a abstenção. O voto torna-se facultativo na medida em que a justificativa para a ausência nas urnas é absolutamente aberta, na avaliação do constitucionalista Gustavo Binenbojm, e a eventual falta se resolve com facilidade.

Míriam Leitão - Duas realidades da economia

O Globo

As previsões pessimistas criadas por conta de um cenário com nuvens fiscais podem esconder os bons resultados que o país teve neste ano

O Brasil foi o país que teve o maior aumento da previsão de crescimento do FMI. Num grupo de 17 países, apenas cinco tiveram revisão positiva da projeção, mas o número do Brasil subiu mais: 0,9 ponto percentual, passando de 2,1% para 3%. Ontem, o Fundo alertou para o aumento do endividamento e dos riscos fiscais. O Brasil vive entre essas duas realidades. Sim, o país está encerrando o segundo ano de crescimento em torno de 3%, quando as projeções iniciais eram bem menores, surpreendendo positivamente. E, sim, existem problemas fiscais rondando, ainda que sejam um despropósito as análises feitas por alguns economistas que dizem haver risco de a atual gestão fiscal repetir o que houve no período Guido Mantega.

Há uma série de boas notícias na economia e esta semana saiu mais uma: um crescimento forte da arrecadação em setembro. Comparado ao mesmo mês do ano passado o aumento real foi de 11,61%, o acumulado em nove meses aponta uma alta de 9,68% e os dois são recordes. A lista das boas notícias na economia é longa. O desemprego caiu, a renda subiu, a inflação está dentro do espaço de flutuação da meta, ainda que esteja se distanciando dos 3%. A Moody’s, como se sabe, elevou a nota do Brasil.

Malu Gaspar – A cartada de Boulos

O Globo

Comendo poeira atrás de Ricardo Nunes (MDB) nas pesquisas para a Prefeitura de São Paulo, Guilherme Boulos (PSOL) partiu para o tudo ou nada. Saiu de mochilão para dormir nas casas dos eleitores da periferia, divulgou denúncias contra o prefeito no caso da máfia das creches e até aceitou participar de uma sabatina com Pablo Marçal (PRTB). Mas a iniciativa mais simbólica do candidato do PSOL foi a “Carta de São Paulo”, versão atualizada da Carta aos Brasileiros de Lula de 2002, com o mesmo objetivo de tentar reduzir sua rejeição.

Na carta, além de repisar o que já disse muitas vezes sobre ser um político do diálogo e não um radical invasor de propriedades, Boulos deu um passo adiante, reconhecendo a dificuldade da esquerda de se conectar com um eleitorado decisivo.

Bruno Boghossian - A esquerda tem agora dois problemas sobre a mesa

Folha de S. Paulo

Antes de solucionar dilema da agenda identitária, grupo vê remédios econômicos com menos eficácia

Depois da onda da direita de 2018, líderes da esquerda puseram sobre a mesa um problema e uma solução. Para políticos veteranos, parte do desgaste daquele ciclo era reflexo da adesão em massa a valores conservadores e da consequente rejeição ao PT e outros partidos. Uma das propostas para sair do enrosco envolvia a redução do peso da pauta de costumes e a reconquista do eleitor pelo discurso econômico.

Os anos se passaram, e a esquerda ancorou sua volta ao poder no personagem que simbolizava uma plataforma de transferência de renda e redução de desigualdades. Ele trazia no bolso uma carta aos evangélicos para suavizar desconfianças, além de se escorar no pilar laico da preservação da democracia.

Ruy Castro - Sai o crime organizado, entra o legalizado

Folha de S. Paulo

Quantos vereadores ligados às facções criminosas não têm sido eleitos no país?

Cidades brasileiras com até 15 mil habitantes elegem nove vereadores. As que têm cerca de um milhão elegem 33. São Paulo, com seus mais de 11 milhões, elege 55. Tire a média e multiplique pelos, segundo o IBGE, 5.570 municípios do Brasil. A pergunta é: quantos dos quase 200 mil vereadores em exercício no país não fazem parte de alguma forma do crime organizado ou foram cooptados por ele?

Maria Hermínia Tavares - Desafios ao Brasil na direção dos BRICS+

Folha de S. Paulo

Impossível não reconhecer que o BRICS+ possa ser outra coisa além de instrumento da ascensão da China

A reunião do BRICS+ em Kazan, na Rússia, significa coisas diferentes para cada um dos participantes. É o primeiro encontro para o Egito, Etiópia, Irã, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos, cuja inclusão explica o acréscimo do símbolo + ao acrônimo do grupo original. Para o autocrata Putin é ocasião de mostrar que não está politicamente só, embora não possa por os pés nos países, como o Brasil, que reconhecem a jurisdição do Tribunal Penal Internacional (TPI), o qual o condenou por crimes contra a humanidade perpetrados na Ucrânia. Já para a China trata-se de mais um tijolo na construção de um amplo suporte para sua liderança internacional em confronto com o Ocidente democrático.

Para o Brasil, que assume a presidência do bloco por um ano, trata-se de mostrar com clareza sua posição em face das mudanças da ordem política mundial – um desafio e tanto.

Vinicius Torres Freire - Trump 'fascista' e um acordão das elites americanas

Folha de S. Paulo

Risco de desastre com vitória republicana vai incentivar negociação ou conflito mais agudo?

Faz tempo que "fascista" se tornou um insulto corriqueiro, comum em discussões do bar do Twitter ou similares. Dizer que Donald Trump é fascista pode ser imprecisão analítica com consequências práticas, também por ser um anacronismo sociológico ou político, um empecilho ao pensamento da apavorante da nova degradação política mundial. No entanto, o tipo veste bem a metáfora.

Mais interessante, de imediato, é quando um general de quatro estrelas, fuzileiro naval, conservador e ex-conselheiro de grande empresa da finança americana diz que Trump é fascista. Como se sabe, foi o que fez em público o general aposentado John Kelly, que foi secretário (ministro) de Segurança Interna e chefe de gabinete de Trump.

Maria Cristina Fernandes - Em rota de confronto com a agenda Trump

Valor Econômico

Concomitância dos encontros do FMI, Banco Mundial, G20 e Brics evidencia os conflitos com um eventual governo republicano

A concomitância das reuniões anuais do Brics, do FMI/Banco Mundial e dos ministros das finanças do G20, a dez dias das eleições americanas, evidenciou os impactos inevitáveis para todos esses fóruns se o vento soprar a favor de Donald Trump. Como presidente do G20 e, em breve, do Brics, é claro que também vai sobrar para o Brasil.

O rascunho acordado entre os ministros do G20, por exemplo, manteve o compromisso com a taxação dos super-ricos proposta por Fernando Haddad. Joe Biden já chegou a propor taxação de grande fortunas nos EUA que nunca foi adiante. Ele ainda será o presidente quando o encontro acontecer, a partir de 18 de novembro, no Rio, mas uma eventual vitória de Trump, cujo governo reduziu os impostos dos mais ricos, pode reforçar a resistência de integrantes do bloco hostis à proposta, como Javier Milei, da Argentina.

Roberto Luis Troster - Por que não incluir metas de spread bancário no debate?

Valor Econômico

O setor financeiro poderia ser um importante propulsor do bem-estar do país, mas por uma concepção equivocada de seu papel, pratica a autofagia

O spread bancário, ou simplesmente spread, é a diferença entre a taxa de captação e a taxa de juros do tomador final de crédito. Um spread baixo reflete a capacidade dos bancos de intermediar recursos a um custo baixo para a sociedade, de forma a remunerar bem poupadores e oferecer crédito a taxas razoáveis para tomadores. É viável apenas com condições legais, institucionais, macroeconômicas, bancárias e tributárias adequadas.

A evidência empírica mostra que, quanto menores os spreads, maior será a relação crédito/PIB do país, maior sua renda per capita e mais acelerado será seu crescimento. As nações mais ricas têm spreads menores, mais crédito e crescem mais rapidamente. A eficiência bancária é uma condição sem a qual não se pode crescer. Não há sequer um contraexemplo de algum país de renda alta que não tenha spreads baixos.

No Brasil, interessa aos bancos exercer sua vocação e financiar um novo ciclo de crescimento, ao invés de administrar crises. Objetivam um sistema bancário com volume maior de operações e menos inadimplência, operando em prazos mais longos e com menos volatilidade. O Banco Central também tem trabalhado nessa direção, pois baixar spreads interessa aos bancos e à nação.

Assis Moreira - Amazônia Legal e o alto risco na lei antidesmate

Valor Econômico

Não está descartado que a UE venha inicialmente a colocar o Brasil com risco normal de desmatamento para conversar depois sobre medidas a adotar

O Parlamento Europeu deverá votar em sua sessão de 13-14 de novembro o adiamento por um ano da aplicação da polêmica lei antidesmatamento, que atingiria 30% das exportações brasileiras para o mercado europeu.

A lei visa a proibir o acesso ao mercado comunitário de seis commodities - carne bovina, soja, café, óleo de palma, madeira e cacau, além de seus derivados - produzidas em zonas desmatadas após o fim de 2020.

Se a proposta da Comissão Europeia for aprovada, como é a expectativa generalizada, a lei será aplicável em 30 de dezembro de 2025 para as grandes empresas e em 30 de junho de 2026 para as micro e pequenas empresas.

William Waack - Os dilemas de Lula e Bolsonaro

O Estado de S. Paulo

Para presidente e ex-presidente a paisagem política está mudando com rapidez

Mais cedo do que se supunha Lula e Bolsonaro ficaram obrigados a pensar em herdeiros para seus votos. O desgaste dos dois nomes se tornou visível nas eleições municipais. E para ambos é ainda mais complicado o caminho até 2026.

No caso de Lula, o tempo pesa de dupla maneira. Aos 78 de idade, Lula não esconde seu cansaço. Aos 45 de existência, o PT não esconde que perdeu eleitorado e, principalmente, ideias. O partido que se julgava “intérprete” das camadas desfavorecidas desaprendeu a falar para os pobres.

Em 2010 Lula transferiu facilmente seu potencial de votos para Dilma, a figura que ele escolheu. Desta vez, não só está em aberto quem ele indicaria caso não se candidate (o que também está em aberto), mas, também, o tamanho do “legado” eleitoral que teria a transferir.

José Serra - As ferrovias precisam do orçamento público

O Estado de S. Paulo

País precisa trazer os recursos das repactuações para o Orçamento federal, para que o poder público tenha liberdade de alocar as verbas considerando o interesse público

A matriz de transporte no Brasil, por ser centrada no modal rodoviário, enfrenta limitações logísticas e custos elevados que impactam negativamente a produtividade da economia brasileira, a segurança das pessoas e a qualidade do meio ambiente. Sabe-se que o modal ferroviário, atualmente subutilizado no País, oferece uma alternativa mais eficiente e sustentável para o transporte de cargas e pessoas, especialmente em longas distâncias. Entretanto, a expansão das estradas de ferro no Brasil só ocorrerá de forma sustentável se houver previsibilidade orçamentária para viabilizar aporte de recursos públicos em parcerias com o setor privado.

Celso Ming - Corte de gastos, agora prioridade

O Estado de S. Paulo

Eis que de repente o governo Lula começou a correr atrás do grau de investimento, selo de qualidade dos títulos públicos, que antes não considerava mais do que desimportante “objetivo dos banqueiros da Faria Lima e dos rentistas do Brasil”.

Em 23 de setembro, Lula enfrentou olho no olho os dirigentes das três mais importantes agências de rating (avaliação de risco), a Moody’s, a Fitch e a S&P, de modo a pressioná-los a reconhecer o Brasil como país que honra seus compromissos de dívida e que conduz suas contas com qualidade.

Luiz Carlos Azedo - Nunes mantém liderança, Boulos avança entre mulheres

Correio Braziliense

O que mais preocupa os estrategistas do prefeito é o desempenho do candidato de esquerda entre as mulheres: a diferença caiu de 12 para cinco pontos

O prefeito Ricardo Nunes (MDB), candidato à reeleição, segundo Pesquisa Quaest divulgada nesta quarta-feira, mantém a vantagem de nove pontos percentuais em relação a Guilherme Boulos (PSol) na disputa pela Prefeitura de São Paulo. Entretanto, o levantamento mostrou ligeira inflexão de 45% com 44% das intenções de voto de Nunes, enquanto Boulos subiu de 33% para 35%.

A diferença ainda é confortável para Nunes, porém, a quatro dias das eleições, esse terreno perdido gera tensão na campanha do prefeito e anima o seu opositor. A volatilidade eleitoral nesta reta final costuma ser significativa em São Paulo. Boulos cresceu entre os eleitores que votaram em Tabata Amaral (PSB), de 54% para 62%, enquanto Nunes também avançou entre os eleitores de Pablo Marçal (PRTB), de 74% para 79%.

Cida Barbosa - Persistente violação de direitos

Correio Braziliense

O trabalho infantil rouba a infância e a dignidade, perpetua o ciclo de pobreza. É uma lástima para nosso país estar ainda tão longe de erradicar esse mal

 Um dos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Organização das Nações Unidas (ONU), o de número 8, versa sobre "Trabalho decente e crescimento econômico". A meta, assumida pelos 193 países-membros da entidade, é "promover o crescimento econômico inclusivo e sustentável, o emprego pleno e produtivo e o trabalho digno para todos". O tópico 8.7 desse ODS destaca o compromisso de acabar com o trabalho infantil em todas as suas formas até 2025.

O Brasil é um dos signatários do documento, mas, com 2025 às portas, estamos longe de cumprir o pacto. Verdade que, no ano passado, o país reduziu em 4,2% o número de crianças e adolescentes no trabalho infantil, como mostrou pesquisa divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). É o menor patamar desde 2016, quando teve início a coleta de dados a respeito do tema. Mesmo assim, ainda há cerca de 1,6 milhão de meninas e meninos, de 5 a 17 anos, que enfrentam uma labuta diária.

Rubens Otoni - Os 36 anos da Constituição Federal e a mobilidade urbana

Correio Braziliense

Para grande parte da população, o acesso ao trabalho, à educação, à saúde e ao lazer depende diretamente da qualidade e da oferta do transporte público

Em 5 de outubro de 1988, o Brasil deu um passo definitivo rumo à consolidação da democracia com a promulgação da atual Constituição Federal, também conhecida como Constituição Cidadã, pois em suas páginas estão inscritos os direitos civis, políticos, sociais e econômicos que garantem uma convivência democrática e igualitária.

Completado 36 anos, esse documento histórico vem evoluindo e se firmando como um marco na garantia dos direitos fundamentais e na preservação das liberdades individuais. Exemplo disso foi a inclusão do transporte no rol dos direitos sociais previstos no seu artigo 6º, em 2015, por meio da Emenda Constitucional nº 90, reafirmando o papel do Estado em prol de uma vida digna a todos. Sua importância é inegável, servindo de base para a construção de diferentes ações públicas, como a Política Nacional de Mobilidade Urbana, que prevê a participação da sociedade civil no planejamento municipal.

Poesia | As mãos de meu pai, de Mário Quintana

 

Música | Milton Nascimento - Coração de Estudante

 

quarta-feira, 23 de outubro de 2024

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Senadores precisam tirar exceções do PL dos Supersalários

O Globo

Texto que voltou da Câmara mantém privilégios que permitem à elite do funcionalismo ganhar acima do teto

Os supersalários do setor público sempre aparecem como alvo quando há necessidade de conter despesas do governo. Voltaram à tona agora que os ministérios da Fazenda e do Planejamento preparam um programa de controle de gastos públicos. Pela estimativa do governo, a aprovação do Projeto de Lei dos Supersalários traria economia anual de até R$ 5 bilhões, contribuindo para o cumprimento da meta fiscal. A dificuldade, como costuma acontecer, está nos detalhes. Se aprovado pelo Senado na forma atual, o PL corre o risco de agravar o problema que se propõe a resolver.

Vera Magalhães – Olha só quem veio almoçar

O Globo

Ex-presidente quer usar vitória até de candidatos a quem não ajudou para pressionar por anistia para si e para seus aliados

A ascensão da direita nas eleições municipais deu fôlego a uma estratégia que Jair Bolsonaro já vinha colocando em marcha: segurar ao máximo a disputa por seu próprio lugar na sucessão presidencial de 2026. Bolsonaro pretende propagandear a vitória de seus candidatos para pressionar o Congresso pela aprovação de diferentes projetos confrontando o Supremo Tribunal Federal, com ênfase naqueles que propõem algum tipo de anistia a condenados pelo 8 de Janeiro e, se possível, a sua própria inelegibilidade.

Não é tão simples assim. Depois de um período de exílio doméstico para costurar as campanhas às prefeituras de Alagoas, Arthur Lira começa a voltar a Brasília para deflagrar a campanha por sua própria cadeira de presidente da Câmara. Diante do temor de aliados de que a tropa bolsonarista volte com a faca no dente para transformar a agenda pessoal do capitão reformado em exigência para apoiar o nome indicado por ele, o líder do Republicanos, Hugo Motta (PB), Lira tem dito que resolverá isso e evitará que anistia e projetos afins sejam transformados no cerne da discussão pelo controle da Casa.

Luiz Carlos Azedo - Bolsonaro disputa segundo turno contra aliados

Correio Braziliense

O ex-presidente quer remover eventuais candidaturas competitivas de aliados em 2026, no espaço vazio criado pela sua inelegibilidade

A disputa política mais importante para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva continua sendo a de São Paulo, na qual mantém a liderança o prefeito Ricardo Nunes (MDB), que, nesta terça-feira, almoçou com o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos). O ex-presidente Michel Temer (MDB) também estava no evento. A rigor, a disputa de Lula em São Paulo é mais com Tarcísio do que com Bolsonaro.

Candidato à reeleição, Nunes (MDB) teria 51,7% das intenções de voto no segundo turno. Já Guilherme Boulos (PSol), 39,6%, segundo levantamento do instituto Paraná Pesquisas divulgado nesta terça-feira. Votos em branco, nulo e nenhum somam 5,3%. Outros 3,4% não souberam ou não responderam à pesquisa. Foram ouvidos 1.500 eleitores entre 18 e 21 de outubro. Nesta quarta-feira, deve ser divulgada uma nova pesquisa da Quaest; Nesta quinta-feira, será a vez do DataFolha.

Bernardo Mello Franco – O Show do Milhão de Musk

O Globo

O homem mais rico do mundo quer comprar a Casa Branca. Elon Musk pôs sua fortuna a serviço de Donald Trump. Para ajudar o republicano a voltar ao poder, seduz eleitores com cheques de US$ 1 milhão.

O bilionário já havia roubado a cena ao dançar no alto do palanque do ex-presidente na Pensilvânia. Agora oferece dinheiro a quem assinar uma carta em defesa de suas bandeiras, como o direito a andar armado.

Os sorteios diários são dirigidos a eleitores de estados-chave que vão decidir o duelo entre Trump e Kamala Harris. Numa disputa tão acirrada, a promessa de enriquecimento instantâneo pode fazer a diferença.

Roberto DaMatta - O governo da lei e o poder dos costumes

O Globo

Um Brasil republicano e universalista está em luta contra um resistente Brasil familista, populista e particularista

Um período eleitoral repleto de agressões que põem em risco nossas hierarquias exprime a questão que ronda nosso espaço político: o conflito da lei com candidatos a um costumeiro mandonismo.

— O Estado Democrático de Direito é aquele em que o poder do Estado é limitado pelos direitos dos cidadãos. Sua finalidade é coibir abusos do aparato estatal para com os indivíduos.

Essa conceituação, roubada da internet, esquece o problema: os abusos político-jurídicos dos mandões-salvadores contra o Estado Democrático de Direito. Abusos abonados por tradicional esperteza (“agora é nossa vez!”) e por costumes consagrados no preceito:

— Aos amigos tudo; aos inimigos, a lei.

E no teorema de Oliveira Viana:

— Tenho coragem pra tudo, menos a coragem de negar o pedido de um amigo!

Elio Gaspari - Uma tunga para os desempregados

O Globo

Os çábios acharam um nicho para arrecadar

O escurinho de Brasília produz ideias malucas para arrecadar, condição necessária para gastar mais. Primeiro, soltaram a jogatina eletrônica, para que as empresas avaliassem o potencial do mercado. Esperavam arrecadar R$ 3,4 bilhões vendendo outorgas. Deu no que deu. Agora, a novidade é um projeto de tunga no seguro-desemprego.

A ideia é ardilosa. Trata-se de pagar menos a pessoas demitidas sem justa causa que, por isso, recebem do empregador um adicional de 40% sobre o valor do Fundo de Garantia.

Em tese, pegaria só trabalhadores que ganhavam mais de quatro salários mínimos (R$ 5.648). Num exemplo hipotético, esse bilionário, demitido sem justa causa, receberia R$ 6.900 em razão da multa sobre seu FGTS e teria direito a cinco parcelas de R$ 2.300 de seguro-desemprego. Com a mudança, ficaria só com duas parcelas do seguro-desemprego. Tomaria uma tunga equivalente à multa, que saiu do bolso do empregador. Com a mágica, o governo economizaria R$ 5,6 bilhões.

Avançar no dinheiro dos desempregados é uma covardia social. Misturar FGTS e multa — um pecúlio do trabalhador — com o seguro-desemprego — uma política social — beira a noção de confisco.

Zeina Latif - Melhor apagar logo o incêndio

O Globo

Haveria má vontade da Faria Lima com o governo Lula?

O dólar está novamente na casa de R$ 5,70 e os juros de mercado estão acima de 12,5% aa, mesmo nos vencimentos de longo prazo. Ambos os movimentos têm sido mais intensos no Brasil do que em países emergentes parecidos, e na contramão da elevação da nota de crédito do país pela Moody´s. Diferentemente da agência de classificação de risco, a percepção dos agentes ou players de mercado é de aumento do risco fiscal.

Será essa deterioração dos preços de ativos excessiva? Haveria má vontade da Faria Lima com o governo Lula?

A melhora da nota de crédito está, em grande medida, associada aos bons números da economia, sendo o comportamento do PIB uma variável-chave para a avaliação de risco fiscal. Isso porque países mais prósperos têm maior capacidade de honrar seus compromissos com credores.

Fernando Exman - O futuro das agências reguladoras em discussão

Valor Econômico

Debate não deve ser feito de forma açodada nem no calor de uma disputa política

O ex-presidente Jair Bolsonaro irritou-se com a pergunta do repórter sobre a situação da articulação política, no que deveria ser um plantão tranquilo em um sábado aleatório de junho de 2019. Primeiro, disse que para falar abertamente sobre o tema seria melhor que ninguém estivesse filmando a conversa. E depois esbravejou: “Querem me deixar como rainha da Inglaterra?” Para preocupação da área econômica, o motivo da reclamação era o projeto de atualização do marco das agências reguladoras.

O país ainda tentava se acostumar à rotina do novo mandatário, que nos fins de semana deixava o Palácio da Alvorada com destino desconhecido e disposto a falar sobre qualquer assunto com qualquer pessoa. Começava a era do “cercadinho”, ponto em frente à guarita da residência oficial da Presidência onde Bolsonaro conversava com apoiadores, e que logo se tornou um local hostil à imprensa profissional.

Martin Wolf - Resistência da economia global surpreende

Valor Econômico

Um fato notável é que o aumento da inflação, em grande medida inesperado, dissipou-se a um custo baixo em termos de produção e de emprego

“Uma pandemia única em um século, a eclosão de conflitos geopolíticos e eventos climáticos extremos desestabilizaram as cadeias produtivas, provocaram crises alimentares e energéticas e levaram os governos a tomar ações inéditas para proteger as vidas e os meios de subsistência”. É assim que o mais novo Panorama Econômico Mundial (WEO) do Fundo Monetário Internacional (FMI) descreve os eventos econômicos ocorridos desde o início de 2020.

Ainda assim, vista como um todo, a economia mundial tem mostrado resiliência. Infelizmente, os países em desenvolvimento têm mostrado menos do que os países de alta renda - beneficiados por uma maior margem de manobra em suas políticas públicas. Em suma, enquanto os de alta renda “voltaram aos níveis de atividade e de inflação que se projetavam antes da pandemia”, os países em desenvolvimento “estão mostrando cicatrizes mais permanentes”.

Carlos Pereira - Voto de pobre na direita não é fruto de alienação

O Estado de S. Paulo

Há uma espécie de esgotamento da saída social-democrata oferecida pela esquerda

Tem sido propagada uma interpretação de que o voto de eleitores pobres em candidatos e partidos de direita seria decorrência de um problema informacional. O sociólogo Jessé Souza, por exemplo, argumenta que a esquerda perdeu as eleições municipais porque o eleitor “pobre e branco do Sul e do Sudeste do Brasil” e “negro evangélico” é desinformado e alienado.

Para Jessé, esses eleitores não saberiam os “reais motivos” de sua pobreza. Ninguém jamais teria explicado para eles por que se tornaram pobres e por que teriam menos oportunidades. A pobreza e as injustiças sociais adviriam, para essa interpretação, de problemas estruturais... de um longo processo de exploração e de dominação de uma elite econômica e política egoísta e predatória e que agora estaria querendo manipulá-los. A conclusão que se tira dessa linha de argumentação é a de que, uma vez informados dos seus “reais inimigos” e dos “verdadeiros motivos” que os teriam levado e mantido na pobreza, esses eleitores necessariamente votariam em candidatos de esquerda.

Marcelo Godoy - Robespierre e a prisão de Bolsonaro

O Estado de S. Paulo

Lula passou 580 dias preso e não fugiu; em breve o STF vai dizer qual será o destino de outro ex-presidente

Era 1792. A Convenção examinava se Luís XVI devia ser julgado, quando Maximilien Robespierre disse: “Os povos não julgam como as cortes judiciais; não proferem sentenças, eles lançam o raio; não condenam os reis, eles os mergulham de volta no nada.” O jacobino defendia a execução do rei sem julgamento, pois um tribunal poderia condená-lo ou absolvê-lo e, se Luís fosse absolvido, a revolução estaria condenada. A morte era uma questão de segurança pública. A assembleia rejeitou os apelos, e Luís XVI acabou na guilhotina.

Passado o segundo turno das eleições, o STF estará diante do desafio de mostrar ao País que uma eventual condenação de Jair Bolsonaro não se fará por uma medida de segurança, sob o argumento de que se pretende defender a democracia.

Bruno Boghossian - Bolsonaro e a direita em 2026

Folha de S. Paulo

Contestação interna força ex-presidente a rever cálculos sobre a própria sucessão

O desejo de liberar Jair Bolsonaro para disputar a eleição de 2026 começou a ser soprado por aliados assim que o TSE condenou o ex-presidente. O assunto aparecia como uma questão de fé. O objetivo era evitar que sua influência despencasse e permitir que ele mantivesse o controle da própria sucessão.

Os choques internos na direita durante as eleições municipais deste ano fizeram com que a campanha ganhasse ares de ação orquestrada. Com a contestação à liderança do ex-presidente em seu campo político, a defesa da reversão da inelegibilidade passou a ser encarada como uma questão de sobrevivência.

Wilson Gomes – Militando com o escândalo

Folha de S. Paulo

Na construção retórica da vanguarda moral, até progressistas e moderados são conservadores

Não vou cair na provocação de tratar a "pedagogia do cu", essa palestra-performance de que todos estão falando, como um ultraje moral. Fazer isso seria entregar o que desejam tanto os vanguardistas identitários quanto os obscurantistas, que arregalam os olhos enquanto esfregam as mãos com o que consideram mais uma evidência de que a universidade pública é um desperdício de dinheiro e respeito.

Vou levá-la a sério e tentar entender as justificativas racionais por trás da ideia. Afinal, além dos posts e vídeos nas redes sociais, existem artigos em periódicos científicos e grupos de pesquisa registrados no diretório do CNPq.

Mariliz Pereira Jorge - A esquerda terá de rebolar

Folha de S. Paulo

Enquanto isso, a direita deita, rola, agradece e ganha eleições

Houve alguma reação de pessoas de esquerda, revoltadas com a performance da mestranda Tertuliana Lustosa, durante sua participação num seminário da Universidade Federal do Maranhão (UFMA). Mas o barulho foi muito maior por causa de uma série de anúncios da marca Heinz, veiculados no metrô de Londres. Sim, a gritaria chegou até aqui.

Enquanto Tertuliana rebolava as nádegas com a calcinha aparente dentro de uma universidade, a pauta mais debatida nas bolhas de esquerda era o "racismo" presente na campanha de Halloween, com referência ao personagem Coringa. Num dos anúncios, um homem negro com a boca lambuzada de ketchup provocou debate sobre "blackface".

Vinicius Torres Freire - Crentes e descrentes na economia

Folha de S. Paulo

Firmas captam dinheiro, investimento produtivo parece reviver, mas juros são de calamidade

Por um lado, a conversa na praça do mercado é de "crise de confiança" em Luiz Inácio Lula da Silva –como o governo vai lidar com a dívida que cresce sem parar. O problema nem precisaria de nome. Basta olhar as taxas de juros no atacadão do mercado de dinheiro, que definem o custo de financiamento da dívida do governo e, pois, na prática, o piso geral das taxas. Não param de subir, a caminho do monte da calamidade. A taxa real de um ano passa de 8%; a Selic pode ir a 13,5%, a julgar pelos preços da praça.

Por outro lado, não necessariamente de modo contraditório, parece haver sinais de alguma confiança na economia, em sentido ligeiramente diferente da expressão.

Hélio Schwartsman - E se Trump vencer a eleição?

Folha de S. Paulo

Curva de aprendizado e carta branca da Suprema Corte tornariam segundo mandato mais ameaçador do que o primeiro

Pelos agregados de pesquisas, há mais ou menos 50% de chance de que Donald Trump triunfe no pleito do próximo dia 5 de novembro.

No século 19, Thomas Carlyle desenvolveu a teoria do grande homem, segundo a qual a história universal não seria muito mais do que a somatória das qualidades inatas de líderes excepcionais. Essa nunca foi uma boa teoria, mas também não dá para cair no extremo oposto e reduzir a zero o peso das características individuais de dirigentes, como às vezes parecem fazer escolas historiográficas concorrentes.

O interessante na tese de Carlyle é que podemos em princípio invertê-la e sustentar que os defeitos de líderes também têm impacto significativo sobre os acontecimentos. Para cada gênio como Alexandre, César e Napoleão existiria um Calígula, um Nero e um Hitler. É, se quisermos, a teoria do pequeno homem.

Poesia | O Relógio, de João Cabral de Melo Neto

 

Música | Beth Carvalho - Pedaço de Ilusão (Jorge Aragão, Sombrinha e Jotabê)

 

terça-feira, 22 de outubro de 2024

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Agenda da China não deve ditar o rumo do Brics

O Globo

Na presidência do bloco, Brasil precisa evitar que seja transformado numa coalizão antiocidental

A agenda oficial da reunião do Brics — bloco formado por dez países a partir da aliança original entre Brasil, Rússia, Índia e China — nesta semana em Kazan, na Rússia, envolve temas caros à diplomacia brasileira: reforma da governança global, multilateralismo, combate à fome e à desigualdade, desenvolvimento sustentável. Nos bastidores, porém, é nítida a tentativa de consolidar o Brics como veículo para aglutinar um polo antagônico ao Ocidente, sob liderança da China, com apoio da Rússia. O Brasil, que ocupará a presidência do bloco em 2025, faria bem em tentar bloquear o avanço dessa agenda extraoficial.

Merval Pereira - Lula e o PT

O Globo

Se for candidato à reeleição em 2026, será quase na base do sacrifício, porque não terá idade para enfrentar uma campanha eleitoral disputada. Mas ele é a única chance de a esquerda ser competitiva

Enquanto os médicos, e o próprio presidente, não se esquivam de avaliar como “grave” o acidente doméstico no banheiro que ocasionou um sangramento na cabeça de Lula, muitos petistas tentam tapar o sol com a peneira, garantindo que tudo está bem. Se dependesse desses, Lula teria viajado para a reunião na Rússia, o que seria uma extravagância perigosa.

Já houve época em que políticos não gostavam de revelar as doenças, com medo de prejudicar suas carreiras. O exemplo mais notável historicamente foi o então ministro da Justiça, Petrônio Portella, no governo Figueiredo. Grande articulador, fundamental na negociação para a abertura e a anistia aos presos políticos na ditadura, Portella poderia ter sido a saída civil da ditadura militar na abertura do regime, mas se recusou a ir para o hospital quando teve um infarto e morreu em casa.

Míriam Leitão - Muito além da eleição municipal

O Globo

Quando aumenta a força política do crime na Amazônia, ou candidatos exibem falas contra mulheres quem está perdendo é o país

Nestas eleições municipais, o que está sendo definido como “a derrota do PT” é muito mais grave do que a sorte de um partido ou de uma tendência política. Na Amazônia, houve o crescimento forte de grupos criminosos na política, com a aliança entre o crime ambiental e as facções do Sudeste que migraram para lá. Quando o candidato do PL em Fortaleza, André Fernandes, fala um “dane-se” para o aumento do feminicídio, ou diz com orgulho não ter tomado vacina, o risco é que, em uma grande capital do Nordeste, o país retroceda em duas agendas fundamentais: a luta contra o feminicídio e em favor da cobertura vacinal.