Passou da hora de acabar com o inquérito das fake News
Por Folha de S. Paulo
Fachin repete intenção de arquivar
investigação anômala que deu plenos poderes a Alexandre de Moraes
Criou-se a situação em que a corte poderia
atuar como vítima, polícia e juiz; presidente do STF precisa percorrer caminho
entre palavras e atos
O presidente do Supremo Tribunal Federal, Edson Fachin,
indicou na semana passada que pretende "promover o arquivamento
definitivo" do interminável
inquérito das fake news. Louve-se a intenção, sem dúvida, mas com a
ressalva de que não se trata da primeira vez que o ministro a enuncia.
No começo de setembro, quando o escândalo do Banco Master envenenou a convivência entre ministros do STF, Fachin esgrimiu duas propostas contra a crise sem precedentes: o fim do famigerado inquérito e a aprovação de um código de ética para a corte.
Ainda que não sejam uma panaceia, ambas as
iniciativas fariam muito bem a um tribunal que, ao longo das últimas décadas,
acumulou doses generosas de poder, mas não viu crescerem na mesma medida os
necessários mecanismos de responsabilização.
O inquérito das fake news, em particular,
ilustra esse desequilíbrio institucional. Criado em 2019, tinha o propósito de
enfrentar a turbulência no tecido democrático provocada pelos impulsos
golpistas de Jair
Bolsonaro (PL),
secundado por seguidores fanáticos nos planos civil e militar.
Aos olhos do Supremo, a ameaça justificou
diversas heterodoxias. A instauração do inquérito, por exemplo, deu-se não por
demanda do Ministério
Público, mas pela interpretação questionável de mecanismo do
regimento interno que permite ao STF investigar infrações penais cometidas em
suas dependências.
Com base no mesmo dispositivo, Dias Toffoli,
então presidente da corte, deu de ombros para o princípio do juiz natural e
delegou ao ministro Alexandre de
Moraes a função de relator do caso.
Não satisfeitos com tais anomalias, os
magistrados concordaram com uma delimitação vaga da investigação, à qual
caberia apurar notícias fraudulentas, falsas comunicações de crime, denúncias
caluniosas, ameaças e demais infrações difamatórias ou injuriosas contra o STF
e seus ministros.
Ou seja, criou-se uma situação esdrúxula em
que a corte poderia figurar como vítima, polícia e juiz ao mesmo tempo —e, para
piorar, tudo relacionado a ofensas que, no fim das contas, a própria corte
poderia definir como tais.
Com tamanho poder nas mãos, Moraes conduziu o
inquérito com algumas decisões controversas e outras flagrantemente abusivas,
mas sempre sob o beneplácito da maioria de seus colegas.
Essa boa vontade desapareceu somente quando a
revelação de seu envolvimento com o Banco Master o tornou por demais tóxico
para o tribunal. Fachin, então, no dia 4 de setembro, cobrou o fim do inquérito
e, alguns dias depois, houve por bem substituir Moraes na relatoria do caso.
Passado um mês, Fachin
voltou ao tema, destacando a necessidade de fazer "o exame dos
procedimentos ainda pendentes" e cumprir "as etapas processuais
necessárias" antes de arquivar o inquérito das fake news. O presidente do
STF já enxergou o caminho correto; resta, agora, mostrar que é capaz de
percorrê-lo.
Benefícios buscados na Justiça
Por Folha de S. Paulo
Número de ações abertas contra o INSS cresce
mais de 80% em quatro anos, e estoque atinge 4,5 milhões
Mal aparelhado, órgão falha em análises de
processos, levando à judicialização; TCU identificou problemas em 13,2% dos
indeferimentos manuais
O aumento acelerado do número de ações
judiciais contra o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS)
é sintoma de falhas estruturais na administração do órgão.
No primeiro semestre de 2026, o Judiciário
registrou 2,24 milhões de novas demandas contra o instituto —alta de 21% em
relação ao mesmo período de 2025. O estoque de processos pendentes atingiu
cerca de 4,5 milhões, segundo dados do Conselho Nacional de Justiça
(CNJ).
A série histórica mostra expansão contínua:
de 2,2 milhões de novos casos em 2021 para quase 4 milhões em 2025, crescimento
de 80,5% em quatro anos.
Enquanto a fila foi reduzida para cerca de
1,2 milhão de requerimentos, a judicialização se amplia, um aparente paradoxo
que sugere
problemas de gestão.
Benefícios por incapacidade respondem pela
parcela majoritária dos processos. Em seguida aparecem o Benefício de Prestação
Continuada (BPC) e aposentadorias rurais por idade. A concentração em
incapacidade reflete tanto a complexidade da perícia médica quanto a
dificuldade de alinhar critérios técnicos aos precedentes judiciais.
A via administrativa é o caminho obrigatório
antes de qualquer ação judicial, salvo em hipóteses excepcionais. Na prática,
muitos pedidos são negados sem que os laudos do INSS apresentem fundamentação
clara, levando o cidadão a buscar a Justiça.
As taxas de indeferimento indevido expõem as
fragilidades. Auditoria do Tribunal de Contas da União identificou
desconformidades em 13,2% dos indeferimentos manuais analisados em
2023 e em 10,94% dos automáticos no primeiro semestre de 2024. Parte
significativa desses casos é posteriormente revertida por revisão administrativa,
novo pedido ou decisão judicial.
Segundo o TCU, o problema
pode decorrer de incentivos mal desenhados —a produtividade dos servidores é
medida pela quantidade de processos analisados, o que favorece a negativa
rápida em detrimento da análise cuidadosa de casos complexos.
O INSS não está sozinho. Órgãos essenciais da
proteção social e da administração pública enfrentam sucateamento, déficit de
pessoal qualificado e atraso tecnológico. Fortalecer o Estado não passa,
prioritariamente, por expansão de gastos correntes, mas por requalificação de
servidores, revisão de incentivos e investimento em sistemas e processos.
A lentidão da máquina estatal em incorporar essas mudanças explica por que a judicialização se consolidou como via ordinária de acesso a direitos sociais.
A orgia eleitoral de Lula
Por O Estado de S. Paulo
O perdão às dívidas de microempreendedores
individuais foi só a mais recente das medidas do petista para comprar votos e que
já somam espantosos R$ 354 bilhões. E não vai parar por aí
É impressionante a desfaçatez com que o
presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem usado a máquina pública para
impulsionar suas chances de reeleição. Faltando exatos 12 dias para a disputa
eleitoral, o petista anunciou que perdoará as dívidas tributárias dos
microempreendedores individuais (MEIs). É compra de votos descarada, como todas
as medidas populistas anunciadas por Lula na reta final da campanha.
E, certamente, não vai parar por aí. Até o
dia 25 de outubro, data do segundo turno, Lula decerto distribuirá mais
dinheiro para se manter competitivo, independentemente do custo e do mérito das
medidas.
O caso dos MEIs é particularmente
escandaloso. Trata-se de um regime simplificado de tributação extremamente
vantajoso para quem adere, mas um fracasso enquanto política pública. Sua
intenção inicial era formalizar pequenos negócios e trabalhadores de baixa
renda. Na prática, o MEI incentivou a migração de regime por empresas que já
existiam e a “pejotização” de profissionais qualificados que antes trabalhavam
como celetistas, tudo para pagar menos impostos.
Em vez de corrigir uma distorção documentada,
o governo apenas contribui para agravá-la. Evidentemente, não são todos que
podem escolher em que regime podem trabalhar, mas quem tem essa prerrogativa
não tem a menor dúvida.
As alíquotas de contribuição para o Instituto
Nacional do Seguro Social (INSS) são progressivas, mas começam em 7,5% do
salário, e para as empresas a contribuição corresponde a 20% da folha de
pagamento. Já no caso do MEI, a contribuição, que já foi de 11%, caiu para 5%
do salário mínimo, o equivalente a R$ 81,05, independentemente da renda
efetivamente auferida. É o que basta para estar quites com todos os impostos
estaduais e municipais e garantir benefícios como o salário-maternidade, auxílio-doença
e aposentadoria.
É uma contribuição meramente simbólica, de
custo baixíssimo para benefícios indiscutíveis. Ainda assim, estudos mostram
que dois em cada três MEIs não contribuem para o INSS, o que faz deles uma
verdadeira bomba-relógio para as contas públicas.
Não se trata de ignorância. Os MEIs, ao
contrário do que o governo acha, sabem fazer contas e avaliar riscos. Quem não
contribui sabe que não terá direito à aposentadoria. No entanto, também sabe
que poderá requerer o Benefício de Prestação Continuada (BPC) no momento em que
completar 65 anos de idade. Assim como o piso da Previdência Social, o BPC
corresponde a um salário mínimo. Embora sejam benefícios de naturezas
distintas, na prática não há muita diferença para quem os recebe.
O que o governo Lula fez nesta semana mostra
que os MEIs inadimplentes têm razão. Não há motivo algum para pagar os tributos
em dia. Basta esperar um momento de fragilidade política do incumbente para ser
contemplado com as benesses que sempre surgem às vésperas da eleição.
E que benesses. Além do perdão da dívida
tributária, o governo se ofereceu para comprar dívidas bancárias por meio do
Desenrola, anunciou a ampliação do teto de faturamento anual para enquadramento
no programa dos atuais R$ 81 mil para R$ 140 mil e, de quebra, informou que vai
dar R$ 5 mil a todos os MEIs, a fundo perdido, a título de ajuda para investir.
Tudo isso deve custar R$ 16,7 bilhões nos próximos quatro anos. Os MEIs,
ademais, não precisarão mais emitir notas fiscais, um incentivo adicional a
quem omite receitas e declara um faturamento inferior ao real.
Tudo isso se soma a outras iniciativas
anunciadas, como a criação de uma versão do programa Pé-de-Meia para pagar
bolsas a estudantes universitários, que deve custar R$ 4,6 bilhões anuais. Nas
últimas semanas, Lula também reajustou o piso do Bolsa Família em 15%, ampliou
a clientela e o universo de dívidas alcançadas pelas renegociações do
Desenrola, zerou os tributos sobre a gasolina e aumentou o subsídio do diesel.
Parte dessas medidas ainda terá de ser
aprovada pelo Congresso, mas é improvável que haja muita resistência a elas. O Gastômetro do Estadão estima que a
gastança eleitoral de Lula já chegou a R$ 354 bilhões. Para o petista, nada
disso importa – afinal, responsabilidade fiscal nunca foi seu forte. Com Lula
reeleito ou não, a sociedade que arque com esse custo.
A urgência do saneamento básico
Por O Estado de S. Paulo
O próximo governo federal precisa priorizar a
universalização do acesso a água potável e a esgoto tratado. É uma vergonha que
essa meta ainda não tenha sido atingida
Se há um tema profundamente negligenciado ao
longo da história das campanhas políticas no Brasil, é o do saneamento básico.
Logo, não é surpresa alguma que no atual ciclo eleitoral, caracterizado pela
falta de ideias e de debate produtivo, a questão, apesar de sua importância
crucial para o desenvolvimento econômico, social, ambiental e produtivo do
País, tenha sido mais uma vez amplamente ignorada.
Não é por outra razão que o Brasil ainda
esteja muito distante de cumprir as metas estabelecidas no Novo Marco Legal do
Saneamento Básico, sancionado em 2020, segundo o qual é preciso garantir que
99% da população brasileira tenha acesso à água potável e 90% à coleta e ao
tratamento de esgoto até o fim de 2033. O fato de que cerca de 16% da população
brasileira ainda viva sem acesso a água tratada e de que 43,3% ainda não conta
com coleta de esgoto, segundo dados do Instituto Trata Brasil, é uma das
maiores vergonhas do Brasil.
Em agenda com propostas enviada aos
presidenciáveis, a Confederação Nacional da Indústria (CNI) estimou que a
universalização do saneamento dentro do prazo estipulado em lei demanda
investimentos de R$ 420 bilhões.
A projeção da CNI é semelhante à do Instituto
Trata Brasil, segundo o qual são necessários R$ 431 bilhões (ou R$ 48 bilhões
por ano) até 2033 para que todos os brasileiros finalmente tenham acesso ao
que, como está no nome, é básico, e por isso mesmo já deveria ser realidade há
muito tempo. O próprio Trata Brasil já alertou que o País corre o risco de só
universalizar o saneamento no distante ano de 2070.
A máxima de que “cano enterrado não dá voto”
explica como o País avança pelo século 21 sem ter tirado boa parte de sua
população do esgoto que desumaniza, permite a proliferação de doenças
completamente evitáveis e impede crianças doentes de frequentarem a escola. Os
custos sociais, econômicos e ambientais se sobrepõem.
Mas, de modo geral, do ponto de vista
eleitoral, segue sendo mais rentável prometer hospitais do que esgoto. Os
centros médicos, obviamente, são necessários, mas uma das políticas públicas
mais efetivas para assegurar a saúde da população e evitar internações custosas
é justamente o saneamento básico.
De acordo com a Organização Mundial da Saúde
(OMS), a cada US$ 1 investido em saneamento, o retorno para a sociedade é de
US$ 5,50. Essa conta leva em consideração diversos efeitos positivos: redução
de doenças e de internações; aumento da produtividade do trabalhador, em razão
de menos faltas no trabalho; melhora da renda das famílias, pela queda dos
custos com remédios; aprimoramento do rendimento escolar das crianças, que
frequentam mais as aulas e têm melhor desenvolvimento cognitivo, o que impacta
o salário delas no futuro; e em ganhos ambientais, com ampliação do potencial
turístico e valorização imobiliária.
Por tudo isso, urge que o próximo presidente
da República transforme a universalização do saneamento básico em prioridade
nacional. Para tanto, basta cumprir o que está no Marco Legal do Saneamento –
arcabouço que, em seis anos de vigência, resultou em 70 leilões de concessões e
mais de R$ 200 bilhões em investimentos contratados.
Hoje, porém, o marco enfrenta impasses.
Leilões de concessões completamente esvaziados ou com pouquíssimos interessados
viraram lugar-comum em 2026. No final de setembro, por exemplo, um leilão de
concessão de R$ 8,47 bilhões para serviços de água e esgoto em 40 municípios de
Rondônia foi cancelado por falta de propostas.
O momento desafiador do setor de saneamento é
explicado por fatores como a teimosia política de quem é contra as concessões e
a elaboração de projetos ruins.
Para que a já atrasada universalização do
saneamento não tarde ainda mais, é preciso superar ranços contra o setor
privado, promover diálogo entre governos, participantes de mercado e órgãos
como o BNDES, de modo que leilões de concessão sejam atraentes, bem como dotar
a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) de orçamento e de pessoal
para que ela possa cumprir a contento seu importante papel. Quanto mais tempo o
Brasil demorar a priorizar o saneamento, mais cara ficará a conta da
universalização.
Amazônia em chamas outra vez
Por O Estado de S. Paulo
Dois anos depois de grandes incêndios, parece
que as autoridades não aprenderam nada
Apesar de todos os avisos, a Amazônia está
mais uma vez em chamas. Só no Estado do Amazonas, houve um aumento de 271% nos
focos de incêndio nos primeiros dez dias de outubro, segundo dados do Painel do
Fogo, plataforma do Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da
Amazônia (Censipam), ligado ao Ministério da Defesa. Foram 1.380 ocorrências,
ante 372 no mesmo período do ano passado. É impressionante que, apenas dois
anos depois dos incêndios recordes de 2024, que cobriram a floresta de fumaça,
as autoridades tenham deixado o bioma chegar novamente a uma situação tão
grave.
Há tempos, especialistas chamam a atenção
para os efeitos do El Niño e o risco de agravamento dos incêndios. Sabe-se
também que, depois de um período de menor incidência de fogo, o acúmulo de
vegetação seca pode favorecer a propagação das chamas. Nada disso, porém,
deveria surpreender as autoridades responsáveis pela proteção da Amazônia. O
Brasil tem conhecimento e instrumentos para agir antes que a situação saia do
controle.
Em setembro, o Amazonas registrou 3.726 focos
de calor, quase quatro vezes o número do mesmo mês de 2025. Atualmente, ao
menos 36 municípios estão em situação de emergência. Manaus tem amanhecido
encoberta pela fumaça, com prejuízos graves para seus moradores. Escolas e
universidades chegaram a suspender as aulas e moradores receberam orientação
para evitar a exposição ao ar contaminado.
Há, ainda, um jogo de empurra entre o governo
do Amazonas e a União sobre os pedidos de ajuda e a mobilização de equipes. O
Corpo de Bombeiros do Estado afirmou que um pedido de apoio federal havia sido
negado. O Ministério do Meio Ambiente contestou a versão e informou que chegou
a mobilizar brigadistas e uma aeronave, mas que o próprio governo estadual
dispensou o reforço de brigadistas depois de uma melhora temporária das
condições provocada pelas chuvas.
Agora, União e Estado mobilizam esforços para
conter os incêndios. Essa mesma disposição para reunir equipes, aeronaves e
recursos deveria existir também na prevenção. Brigadas precisam estar
preparadas antes da estiagem, e os protocolos de atuação conjunta e de
comunicação entre os governos não podem ser improvisados em meio à emergência.
A coordenação precisa funcionar antes do desastre.
O ministro do Meio Ambiente, João Paulo
Capobianco, também apontou indícios de ação criminosa para degradar áreas preservadas.
Ora, se há suspeitas de incêndios criminosos, a prevenção também exige
fiscalização permanente e punição dos responsáveis. Não basta combater o fogo
depois que o crime já foi cometido.
O poder público tem o dever de agir durante o ano inteiro para impedir que a Amazônia volte a ser consumida pelos incêndios, como o mundo já assistiu outras vezes. É preciso mobilizar todos os recursos necessários e reforçar a fiscalização das áreas de risco. Não é admissível que, a cada nova temporada, o País assista ao mesmo espetáculo de destruição, seguido das mesmas explicações. A floresta não pode esperar que o fogo comece para que as autoridades resolvam agir.
Surto eleitoreiro de Lula não parece ter fim
Por O Globo
Benesses a MEIs e estudantes criadas às
vésperas do 2º turno, se aprovadas, ampliarão conta para futuro governo
Tem sido inesgotável a sucessão de programas
demagógicos anunciados pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva desde o início
do ano eleitoral. Além do questionamento jurídico que eles suscitam — a lei
eleitoral proíbe “distribuição gratuita de bens, valores ou benefícios” no ano
da eleição —, Lula não se mostra nem um pouco preocupado com o efeito
pernicioso das benesses sobre a economia. Não existe “bondade” grátis. As
medidas terão impacto inexorável nas contas públicas, na forma de gasto ou de
empréstimos a taxas camaradas de retorno incerto. O próximo presidente, seja
quem for, terá de pagar uma fatura que não para de crescer.
A 12 dias do pleito, Lula desembrulhou outro
pacote de medidas, para beneficiar microempreendedores individuais (MEIs). O
projeto prevê perdão de dívidas tributárias e compra de outras dívidas, além da
transferência anual de R$ 5 mil com base em critérios desconhecidos. Trata-se
de populismo em estado puro, sem nenhum estudo ou amparo técnico. É verdade
que, ao contrário de outras medidas de efeito imediato, o projeto ainda precisa
passar pelo Congresso. Mas isso só significa que, se não prosperar, terá sido
apenas conversa para ganhar voto.
Não ficou nisso. Lula também anunciou uma
nova versão do programa Pé-de-Meia concedendo R$ 9,5 mil por ano a
universitários, ao custo estimado de R$ 4,6 bilhões. Diferentemente do atual
Pé-de-Meia, que visa a estancar a evasão no ensino médio, a única explicação
plausível é conquistar votos.
Tais anúncios — que podem não ser os últimos
— se unem a um amplo rol de programas eleitoreiros. Já estão em vigor a isenção
de IR para quem ganha até R$ 5 mil, subvenções a combustíveis, programas de
crédito agrícola e industrial, subsídios a luz e gás, ampliação do Minha Casa,
Minha Vida para a classe média, isenção na taxa das blusinhas, reajuste de 15%
do Bolsa Família, financiamento para renovar a frota de motoristas de
aplicativo, taxistas e entregadores e as múltiplas versões do Desenrola para
socorrer endividados.
Algumas medidas, como o fim da arrecadação
com bets ou os programas para MEIs e universitários, dependem de aval do
Congresso. Outras, como a distribuição de canetas emagrecedoras no SUS ou
programas de renegociação de dívidas, precisam de implementação. A lista
infindável já faz de Lula, porém, o presidente que mais criou benesses em ano
eleitoral.
Nem todas têm a mesma natureza, por isso não
é simples calcular seu custo. As despesas que já entram no Orçamento terão
impacto anual recorrente em torno de R$ 57 bilhões. Considerando as que
dependem de aprovação ou implementação, o custo subiria a R$ 85 bilhões, ou
0,6% do PIB. Há ainda medidas temporárias ou pontuais estimadas em R$ 51
bilhões. E há linhas de crédito de R$ 160 bilhões, além de renegociações de
dívidas de até R$ 300 bilhões. É bom lembrar: recursos emprestados a taxas
camaradas nem sempre voltam ao Tesouro, que financia seu rombo a juros de
mercado.
Lula não é o primeiro a abusar de iniciativas
demagógicas às vésperas do pleito — Jair Bolsonaro, Dilma Rousseff e outros já
fizeram isso. Mas seus programas eleitoreiros alcançaram patamar inédito. Não
há consenso entre juristas sobre se as medidas — ou quais — violam a lei
eleitoral. Mas deve ser consenso entre os brasileiros sensatos que as brechas
na legislação que permitem tais abusos precisam ser fechadas.
Queda na renovação da Câmara está associada a
emendas parlamentares
Por O Globo
Mecanismo perverso contribui para deputados
colherem mais votos em cidades para onde destinam recursos
Nas eleições de 2014, os deputados federais
eleitos pela primeira vez representaram 38,6% da Câmara. A proporção subiu para
47,4% no pleito seguinte, mas caiu a 39,4% em 2022 e, neste ano, voltou a
diminuir para 35,7%. A principal causa da baixa renovação é o mecanismo
perverso criado pelas emendas parlamentares. O deputado dispõe de um meio
extremamente poderoso para se reeleger: basta destinar dinheiro a municípios
onde tem chance de receber uma votação expressiva.
A eficácia desse mecanismo é corroborada por
levantamento do GLOBO. De cada R$ 10 em emendas aprovadas nos últimos três
anos, R$ 7 foram enviados aos municípios onde os deputados responsáveis pelo
envio obtiveram suas melhores votações. Em 90% das cidades onde um só deputado
respondeu por mais da metade das emendas, ele ficou entre os três primeiros
colocados — e em 72% ficou em primeiro.
Vários exemplos trazidos pela reportagem
ilustram a mecânica associada às emendas. Há quatro anos, o deputado Felipe
Carreras (PSB-PE) obteve 83 votos em Santa Cruz do Capibaribe, município de 98
mil habitantes no Agreste de Pernambuco. Eleito, despachou R$ 7,9 milhões em
emendas individuais para lá e desta vez recebeu 22,3 mil votos. “O federal
campeão em recurso é também o federal campeão de votos na cidade!”, publicou em
suas redes sociais. O presidente da Câmara, deputado Hugo Motta
(Republicanos-PB), recebeu em 2022 apoio de apenas 253 eleitores em Várzea,
cidade de 2,7 mil habitantes no Sertão da Paraíba. Enviou ao município R$ 1,73
milhão em emendas, ou 43% dos recursos recebidos pela Prefeitura, e neste ano
1.067 mil moradores votaram nele.
Motta alega que “são os parlamentares que
conhecem as necessidades de sua região”. Sem dúvida, mas a questão é outra. As
emendas criam um círculo vicioso: o deputado concentra recursos em sua base
eleitoral, ela retribui com votos para ele permanecer no Congresso e voltar a
despejar dinheiro na região. Dessa forma desaparece qualquer preocupação com a
boa alocação dos recursos. “Quanto mais eu destino emenda a determinado reduto,
mais tenho votos ali, mais trabalho pensando nesse reduto e não no bem-estar da
população brasileira como um todo”, diz o cientista político Leandro
Consentino, do Insper.
As emendas passam a ter caráter apenas paroquial, sem vínculo com políticas mais abrangentes. Sua concentração geográfica tende a converter o regime proporcional num arremedo de regime distrital, mas sem distritos definidos formalmente, portanto sem a necessária vigilância sobre os gastos. A relação entre parlamentar e eleitor vira um toma lá dá cá clientelista, que corrói a democracia, além de criar incentivos à corrupção. A questão vem sendo tema de ações no Supremo, mas também há projetos no próprio Congresso para aperfeiçoar a identificação e o rastreamento dos recursos das emendas. É essencial que a próxima legislatura se debruce sobre o tema sem corporativismo. O que está em questão é a eficácia e a lisura no gasto público.
Endividamento público traz risco ao
crescimento global
Por Valor Econômico
Documento do FMI que abre sua reunião anual de outubro alerta para a necessidade de uma urgente ação fiscal
A economia global resistiu a vários choques
nos últimos anos, mas a resistência tem limites e eles podem estar perto de ser
atingidos. A conclusão do “Perspectiva Econômica Mundial”, documento do Fundo
Monetário Internacional que abre sua reunião anual de outubro, traz uma
recomendação: é necessária uma urgente ação fiscal. Os juros estão subindo nas
principais economias avançadas, enquanto os governos não param de empilhar
dívidas, algo que era indolor quando o dinheiro era barato. Isso acabou.
Há vários fatores interagindo que podem
confluir em uma crise séria. Há o choque do petróleo, em que uma guerra sem fim
à vista no Oriente Médio jogou os preços dos combustíveis nas alturas. No
cenário base dos economistas do FMI, a interrupção do fluxo do óleo pelo
Estreito de Ormuz pode terminar em março de 2027, com as cotações convergindo
para os níveis pré-guerra a partir de outubro do ano que vem. É apenas uma
aposta. O petróleo se mantém acima de US$ 100 o barril do tipo Brent, o que
elevou o preço médio no ano para US$ 96 o barril, ao menos 20% acima do de
2025. Mais grave foi a disparada dos preços dos refinados, entre 70% e 95%,
puxada pelos bombardeios a refinarias no Oriente Médio e na Rússia e pela
redução das exportações por países produtores. Em um cenário mais adverso, os
preços médios, segundo o FMI, ultrapassarão US$ 130 o barril, com escaramuças e
bloqueio de Ormuz persistindo ao longo do próximo ano quase inteiro.
O salto dos preços da energia elevou os
custos de insumos e transportes, transmitindo-se por toda a economia. O índice
de preços ao consumidor dos EUA, por exemplo, subiu 0,6% em setembro e 3,7% em
12 meses. No período, a energia subiu 20,4%. O impulso à inflação ocorreu
quando ela já desafiava há tempos as metas de bancos centrais, em especial o
Federal Reserve americano, que não a cumpre há mais de cinco anos. O Fed voltou
a subir os juros em setembro, em um movimento antecipado pelo Banco Central
Europeu e que tem caráter geral. No segundo trimestre, 14 de 33 bancos centrais
fizeram o mesmo.
A reação monetária ao choque do petróleo
agrava outro problema mais sério, o aumento dos juros de longo prazo dos
títulos soberanos, evidenciado com mais clareza nos papéis do Tesouro americano
de 10 a 30 anos, que pagam agora rendimentos não vistos desde o início do
século. A maior fonte da pressão é o enorme e crescente endividamento dos
países, que continuou em expansão após a pandemia.
Há outras razões, como o boom ininterrupto de
investimentos na inteligência artificial (IA), bancado parcialmente com a
emissão de dívidas de longo prazo. Em um par de anos, os papéis de empresas
relacionadas a IA saíram de 1% para 10% do total da dívida com grau de
investimento. A IA puxa os investimentos globais, garante o crescimento do
comércio global e carrega a valorização das bolsas nos EUA. A interrupção
abrupta das promessas de retorno da tecnologia ou a reavaliação dos
investimentos pode por si só provocar uma crise nos mercados financeiros. Uma
forte correção nos mercados seria facilitada pela grande concentração nos
papéis das Big Techs e pela alta alavancagem de participantes do mercado, como
os fundos hedge, os mais especulativos. Os índices de ETFs alavancados, por
exemplo, perfazem 28% do volume de dinheiro aplicado nessa modalidade de
investimento. Já os fundos hedge têm disponíveis US$ 13 trilhões para investir
nesse e em outros mercados.
IA e inflação ampliam a conta de juros que só
cresce com os déficits públicos de muitos países avançados e emergentes. O
endividamento dos países ricos passará de 108% do PIB em 2025 para 115% em
2031. Nos países emergentes, crescerá de 74% no ano passado para 84% no início
da próxima década. Se a projeção estiver correta, os emergentes não chegarão
nem em seis anos aos mais de 90% do PIB da dívida bruta do Brasil, pelos
critérios do FMI, que nela inclui os títulos do Tesouro em poder do Banco
Central.
Com os elevados juros brasileiros,
decorrentes da rápida expansão do endividamento no governo Lula, a necessidade
de financiamento para fazer frentes a novas obrigações e rolar débitos que
vencem é muito alta. Pelos números do FMI, será de 8,12% do PIB em 2026 e de
7,67% do PIB no ano que vem, e sempre superior a 6% até 2031. São muitos os problemas
que decorrem das dívidas altas dos países de modo geral, segundo o Fundo. Um
deles: “O espaço fiscal e de política monetária para mitigar os efeitos de
instabilidades financeiras é hoje muito mais limitado do que nas duas últimas
décadas”. Daí a urgência para se recompor a capacidade fiscal dos governos.
O FMI aponta três riscos principais ao crescimento global. A reversão do boom da IA pode causar reprecificação turbulenta dos ativos. Alta da inflação e preocupações fiscais podem disparar os juros dos títulos soberanos e provocar instabilidades em mercados já alavancados. Ameaças à cibersegurança de serviços financeiros altamente conectados tornaram-se risco sistêmico. Possíveis coadjuvantes nesse cenário são o prolongamento da guerra no Oriente Médio, eventos climáticos extremos e novas tensões no comércio, que amplifiquem pressões inflacionárias.
Chance de convencer o eleitor não pode ser
desperdiçada
Por Correio Braziliense
Não faltam a Lula e a Flávio propostas a
apresentar, mas esta eleição é uma guerra de aniquilação. Prevalece o
"campeonato de cortes" para as redes sociais
Ao menos por enquanto, Luiz Inácio Lula da
Silva e Flávio Bolsonaro confirmam participar, no domingo, do primeiro debate
presidencial do segundo turno, na Band, às 20h. Será, finalmente, a
oportunidade que um terá para dizer por que merece ser reeleito, e o outro, o
motivo para que o escolham. Momento de apresentarem visões e propostas de
governos e explicarem as razões de serem tão distintas e conflitantes. Chance
de convencer o eleitor, principalmente o indeciso, de que são confiáveis.
Mas, nada disso deve acontecer. Ainda que as
regras do debate prevejam temas a comentar, os dois devem ignorá-los. Não
faltam a Lula e a Flávio propostas a apresentar, mas esta eleição é uma guerra
de aniquilação. Acabou-se a política em que se respeitavam divergências,
teorias opostas de gestão e percepções diferentes das necessidades da
população. Prevalece o "campeonato de cortes" para as redes sociais.
É a diminuição da vida pública. O nivelamento
por baixo impede o debate, como se viu nos que ocorreram no primeiro turno. As
redes promovem a incivilidade, e os algoritmos favorecem a violência, a
agressividade e a desqualificação. O engajamento pelo lado negativo fez da
política uma várzea.
Não se pode culpar a polarização por isso.
Tal divisão sempre existiu na política brasileira. Foi entre o PTB-PSD e a UDN,
nos tempos de Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek. Na ditadura, Arena e MDB
se digladiaram. Na redemocratização, o PT se opunha ao PFL e ao PDS — o PMDB
tinha um pé em cada canoa. Nos anos de 1990, foi a vez de PT e PSDB disputarem
o eleitorado. Isso seguiu até 2018, quando o bolsonarismo trouxe a ruptura. A
intransigência tornou-se regra. E as redes, com os cortes e manipulações, rebaixaram
tudo a um ponto que parece impossível de ser elevado novamente.
No primeiro turno, nem Lula nem Flávio foram
aos debates, cada um com justificativas que podem ter convencido o seu
eleitorado. Agora, há uma grande chance que não deveria ser desperdiçada.
O presidente tem muito a esclarecer.
Apresentar o que foi feito nesses últimos quatro anos é pouco para quem quer se
reeleger. O país muda na velocidade das redes sociais, essas mesmas que fizeram
da política uma disputa de cliques. O velho discurso do sindicalismo não
convence, tampouco rende votos relembrar as glórias do Brasil analógico. A
desigualdade e a carência não foram superadas, mas as pessoas querem hoje mais
do que programas sociais e benesses eleitoreiras.
Flávio é a representação do pai e dá a
entender que reeditará o governo dele. O senador tem muito a explicar sobre
negócios e relações pessoais, sobretudo com o notório Daniel Vorcaro. Deve
esclarecer, também, que papel o ex-presidente e o irmão que mora nos Estados
Unidos terão caso chegue ao Palácio do Planalto.
No domingo, Lula e Flávio estão obrigados a dizer a que vieram. Mas não devem fazê-lo. E isso é péssimo para quem vai às urnas dia 25.
A hora de concretizar propostas
Por O Povo (CE)
Nenhuma política tocada isoladamente dará
conta de promover o necessário combate às facções
Um dos temas mais abordados na campanha
eleitoral, que levou à reeleição do governador Elmano de Freitas (PT), foi a
segurança pública. Portanto, chegou a hora de Elmano começar a pôr em prática
as propostas que apresentou durante a disputa. Principalmente recuperar
territórios, na capital e no interior, dominados por facções, que impõem aos
moradores a lei do crime.
No período eleitoral, o crime organizado deu
mostras de sua força, cometendo assassinatos, ameaças e extorsões, além de
tentativas de interferir nas campanhas políticas, em desafio aberto às
autoridades.
Mesmo admitindo que, em seu primeiro mandato,
o governador tenha aumentado o efetivo policial e posto em prática algumas
medidas que levaram à redução de furtos e roubos (2023-2025), os homicídios não
cederam. Portanto, ainda há muito o que fazer para superar a sensação de
insegurança disseminada na sociedade.
O caso é que, para resolver um problema,
primeiro é reconhecer que ele existe. Mas o governador resiste a isso, como fez
em entrevista ao Uol. Ele afirmou não haver territórios dominados por facções
no Ceará. Para justificar sua assertiva, ele faz uma comparação com o Rio,
afirmando haver comunidades onde a polícia fluminense não entra. "Aqui (no
Ceará) a polícia controla o território".
Mas o fato é que a polícia não passa o dia
todo nas comunidades. Portanto, quem manda no dia a dia dos moradores são os
criminosos, determinando comportamentos, cobrando pedágios e extorquindo
dinheiro de comerciantes. Sem contar que, nos bairros periféricos, alguns
policiais costumam agir ao arrepio de qualquer protocolo, como se todo morador
fosse um potencial suspeito.
Nesta quarta-feira, duas irmãs de 16 e 17
anos foram assassinadas a tiros na cidade de Tauá. A polícia atribui os crimes
a uma facção criminosa. Segundo as informações disponíveis, elas haviam se
mudado para o interior para fugir de ameaças de morte contra as duas, por
suposto relacionamento amoroso de uma delas com integrante de uma facção
criminosa.
A aposta de Elmano para reduzir a influência
das facções nas comunidades é o "Quadrante Seguro", que o governador
comprometeu-se a iniciar nos primeiros 100 dias do novo mandato.
O propósito é escolher uma área sob ameaças
frequentes contra moradores para reforçar o policiamento, evitando a consecução
dos crimes. Se a experiência der resultados, o programa seria estendido para
outras áreas.
Mas o fato é que nenhuma política tocada isoladamente dará conta de promover o necessário combate às facções. O que permite alguma perspectiva é a aprovação da PEC da Segurança Pública, em tramitação no Senado. A proposta permitirá a atuação conjunta das forças de segurança, ampliando a coordenação do governo federal no combate ao crime organizado.

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