Valor Econômico
Aprovação da PEC 6x1 deixou Flávio Bolsonaro a reboque de Lula
Os mesmos dois pontos percentuais que separam
a vantagem do senador Flávio Bolsonaro (PL) do presidente Luiz Inácio Lula da
Silva (PT) no 1 turno da eleição presidencial se mantiveram na primeira
pesquisa Quaest deste segundo. O candidato do PL manteve sua vantagem graças à
captura do maior volume de votos da terceira via. O do PT foi capaz de avançar
na mesma proporção graças ao avanço mais substantivo, neste 2ºturno, entre
aqueles que, em 4 de outubro, se abstiveram ou votaram em branco e nulo.
A se fiar pela Quaest, os 9% que ainda podem mudar de voto serão capturados pelo candidato que se mostrar mais capaz de pautar os próximos dez dias da campanha. A votação, no Senado, na noite desta quarta, do fim da escala 6x1, demonstra que Lula tem mais vantagem neste quesito para reverter, a seu favor, o empate, na margem de erro exibida pela pesquisa.
Flávio Bolsonaro tem tanta ciência disso que,
na véspera, quando anunciou que mudaria de posição no tema, também disse, em
evento de associações comerciais, que a inspiração de El Salvador não será
suficiente para dar conta da política de segurança pública que pretende
implementar, se eleito.
Ao mencionar o regime de Nayib Bukele, que
recebeu chancela legislativa para suspender garantias constitucionais, como o
devido processo legal, para atingir a maior taxa de encarceramento do mundo,
não havia dúvida de que o senador pretendia provocar a reação da oposição e,
assim, voltar a pautar a campanha.
Não adiantou. O dia seguinte foi todo tomado
pela PEC da redução de jornada. Com a mudança de posição, Flávio Bolsonaro
tentou reduzir o prejuízo eleitoral, mas permaneceu a reboque da pauta do seu
adversário. Ao oportunismo do governo em abraçar a pauta em ano eleitoral,
sobreveio o oportunismo do candidato de oposição de mudar de posição na véspera
da votação.
O noticiário, propagado nas redes sociais,
reproduziu as sucessivas justificativas dadas pelo senador, ao longo de toda a
campanha, para se opor à pauta. Ao anunciar a mudança de posição no mesmo dia
em que foi a um encontro com associações comerciais, um dos setores mais
impactados pela medida, o candidato do PL também permitiu que as conversas de
bastidores do evento, quando foram discutidas medidas para mitigar a redução da
jornada em seu eventual governo, também proliferassem no noticiário - e nas
redes.
Flávio Bolsonaro foi, em grande parte,
vitimado pelo já-ganhou que contaminou sua campanha. Com a bancada acachapante
que elegeu no Senado, o PL deu por liquidadas as chances de o presidente do
Senado permanecer no cargo na próxima legislatura. Não havia razão, portanto,
para o senador Davi Alcolumbre (União-AP), não pautar o fim da jornada 6x1. Se,
com um presidente Luiz Inácio Lula da Silva reeleito, ainda tem uma fresta para
se viabilizar, avaliou que, com o candidato de oposição, as portas se fecham.
A Quaest foi às ruas nos dias em que o Brasil
esteve mobilizado pelas manifestações de rua pró-Lula. Capitaneadas, em grande
parte, pelos jovens, foram as maiores manifestações da esquerda em décadas e
não parecem estar dissociadas da percepção de medo do que pode vir a ser um
governo Flávio Bolsonaro. Foi entre os jovens que o medo mais cresceu, fora da
margem de erro (seis pontos percentuais). Medo de quê? Em grande parte, do que
pode vir a acontecer com a educação pública se o corte de R$ 200 bilhões no orçamento,
já prometidos pela campanha do PL, vier a ser cumprido.
A repercussão da imagem do técnico em RH
Israel Augusto, de 24 anos, no teto de um prédio na Avenida Paulista na
manifestação, com uma bandeira de Lula numa mão e a da Palestina, noutra, o dorso
nu e o rosto coberto por uma camiseta vermelha, também é decorrência da perda
do poder de pauta do bolsonarismo.
Desde a campanha eleitoral de 2022, Lula
peleja para divulgar sua boa forma física, mas foi o corpo malhado do
revolucionário petista que correu as redes sociais no mundo inteiro e aproximou
o PT da cultura do condicionamento físico - meritocrático, em grande parte,
porque lhe bastam três refeições, a mensalidade de R$ 50 em academia popular e
uma jornada de trabalho mais reduzida, como aquela aprovada nesta quarta.
Parece prosaico, mas não é. Seis anos atrás,
no seu primeiro Carnaval no cargo, o ex-presidente Jair Bolsonaro publicou em
suas redes a cena de um bloco em que dois homens dançavam em cima de um ponto
de táxi quando protagonizaram a simulação de um ato sexual com urina. “O que é
golden shower?”, perguntou Bolsonaro numa publicação no Twitter.
A imagem acabou excluída pelo próprio
presidente depois que a dupla protocolou mandado de segurança no STF, mas até
que isso acontecesse, a publicação correu as redes sociais em todo mundo e
vitaminou a associação que o bolsonarismo sempre fez do PT com a degradação dos
costumes que perdura, até hoje, no eleitorado evangélico.
Desta vez, o bolsonarismo até tentou um bis
associando a manifestação petista à depredação na Avenida Paulista, mas não
teve sucesso. O PL terá duas oportunidades para testar sua capacidade de pautar
esta reta final: na sua própria manifestação e no debate da Band, ambos no
domingo. É isso, em grande parte, que moverá o desempate do jogo.

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