O Globo
Os eleitores decididos dos dois candidatos
não se revoltam, não se preocupam com as ações ilegais ou antiéticas que ambos
praticam.
A pesquisa da Quaest divulgada ontem não captou nenhuma mudança na pequena diferença a favor de Flávio Bolsonaro. Quer dizer que o movimento lulista dos últimos dias não surtiu efeito positivo, a não ser alterações pontuais em estratos específicos, que não mudaram o resultado final. Essa diferença não permite, porém, que Flávio continue jogando parado, colhendo apoios burocráticos sem mobilizar o eleitorado, que continua congelado entre os dois candidatos. Nenhum deles conseguiu tirar votos suficientes do outro. A solidez das tendências está na casa dos 90%, sugerindo que os votos de que Lula precisa para vencer têm de ser buscados entre os que continuam ainda não totalmente decididos, como 8% dos eleitores de Flávio.
Semelhante proporção têm os eleitores de
Lula, por isso as campanhas têm sido mais agressivas nos ataques. A ideia é
desconstruir o adversário e aumentar a indecisão desses poucos eleitores. Lula
leva vantagem entre os que votaram em branco, anularam ou não compareceram no
primeiro turno. Desses, 43% manifestam intenção de votar no petista, e 38% no
candidato do PL. Isso se resolverem votar, fique claro. Lula conseguiu melhora na
aprovação do eleitorado feminino, que passou de 46% para 51%, enquanto a
desaprovação caiu de 45% para 41%. Entre os homens, a situação piorou para ele,
pois a aprovação caiu de 40% para 38%, e a desaprovação subiu de 55% para 56%.
Nas regiões, Lula teve melhora na aprovação
no Centro-Oeste/Norte, mas não saiu do saldo negativo: subiu de 35% para 43% a
aprovação e caiu de 60% para 49% a desaprovação. A sensação de que a campanha
dele à reeleição havia decolado não foi refletida na pesquisa Quaest. A não ser
que se infira que a vantagem de Flávio poderia ser maior caso o governo não
tivesse reagido em diversos campos. Sem dúvida, a mobilização popular tem sido
energizante diante da campanha completamente anódina no primeiro turno. Mas há
campo cada vez mais estreito para uma virada de mais de 2 milhões de votos.
O interessante é que a avalanche de acusações
de ambos os lados não tem influenciado o resultado final das escolhas, tal a
rigidez de posições do eleitorado, praticamente imutável desde o primeiro turno.
Os votos dos demais candidatos, que em sua maioria aderiram à candidatura de
Flávio, foram distribuídos de maneira a não influir decisivamente no resultado
final. Poderia-se pensar que Flávio abriria uma diferença maior com as adesões,
mas isso aconteceu em pequena escala, porque Lula recebeu mais votos do que era
de imaginar de eleitores de Augusto Cury e outros.
A sensação de que a campanha lulista tem
obtido resultados positivos, maior antes da divulgação da pesquisa Quaest,
parece que diminuirá agora, a ver a pesquisa do Datafolha hoje. A velocidade
necessária ao PT para mudar os votos não está correspondida nos resultados. A
aprovação do fim da escala 6x1 e o pagamento do aumento do Bolsa Família antes
do segundo turno podem ser decisivos, tanto para aumentar a adesão a Lula como,
pelo contrário, para explicitar um abuso de poder do incumbente que levaria ao
voto de repúdio do eleitor de centro-direita, que decidirá a eleição.
A esta altura da campanha, não há mais espaço
para meios-tons. Os eleitores decididos dos dois candidatos não se revoltam,
não se preocupam com as ações ilegais ou antiéticas que ambos praticam. Quem
ainda se indigna são os eleitores chamados de “independentes” pela Quaest, e
são poucos a esta altura da campanha. Os debates da Band e da Globo e as
entrevistas depois do Jornal Nacional hoje e amanhã com Renata Lo Prete serão
definidores do desempate.

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