segunda-feira, 26 de maio de 2025

Opinião do dia – Keynes*

“Dei a minha teoria o nome de teoria geral. Com isso quero dizer que estou preocupado principalmente com o comportamento do sistema econômico como um todo - com a renda global, com o lucro global, com o volume global da produção, com o nível global de emprego, com o investimento global e com a poupança global, em vez de com a renda, o lucro, o volume da produção, o nível do emprego, o investimento e a poupança de ramos da indústria, firmas ou indivíduos em particular. E afirmo que foram cometidos erros importantes ao se estender para o sistema como um todo as conclusões a que se tinha chegado de forma correta com relação a uma parte desse sistema tomada isoladamente.

Acredito que economia em toda parte, até recentemente, tinha sido dominada, muito mais do que compreendida, pelas doutrinas associadas ao nome de J.B. Say. É verdade que a “lei dos mercados” dele já foi abandonada há tempo pela maioria dos economistas, mas eles não se livraram de seus postulados básicos, particularmente de sua ideia errônea de que a demanda é criada pela oferta. Say estava supondo implicitamente que o sistema econômico está sempre operando com sua capacidade máxima, de forma que uma atividade nova apareceria sempre em substituição e não em suplementação a alguma outra atividade. Quase toda a teoria econômica subsequente tem defendido, no sentido de que ela tem exigido, esse mesmo pressuposto. No entanto, uma teoria com essa base é claramente incompetente para enfrentar os problemas do desemprego e do ciclo econômico. Talvez eu possa exprimir melhor a meus leitores franceses o que apregoo sobre este livro dizendo que na teoria da produção ele é uma ruptura radical com as doutrinas de J. B. Say e que na teoria dos juros ele é um retorno às doutrinas de Montesquieu.”

*John Maynard Keynes (1883-1946). A Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda, - Prefácio à Edição Francesa, p. 10-1. Nova Cultura, S. Paulo, 1985.

 

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

É incoerente governo americano pressionar STF

O Globo

Trump persegue adversários e corteja ditadores. Não tem cabimento Rubio tentar dar lições de democracia

O secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, afirmou que “há grande possibilidade” de aplicação de sanções contra o ministro do Supremo Tribunal Federal (STFAlexandre de Moraes — há estudos para punir também outros ministros do Supremo. A iniciativa revela a incoerência flagrante da atual diplomacia americana.

Rubio deu a declaração em depoimento à Comissão de Relações Exteriores do Congresso, respondendo à pergunta de um deputado republicano sobre a posição da Casa Branca diante do que chamou de “perseguição política” no Brasil e da “prisão iminente” do ex-presidente Jair Bolsonaro. A justificativa para as sanções é a versão fantasiosa, disseminada entre os trumpistas, segundo a qual o Supremo brasileiro persegue e censura os bolsonaristas. Ora, não há perseguição política aqui. Bolsonaro e os demais denunciados por tentativa de golpe de Estado respondem a processo com todos os direitos constitucionais garantidos aos réus.

A democracia não é imortal – Fernando Gabeira

O Globo

É uma falsa suposição pensar que a política pode seguir sua carreira solo, ignorando os anseios da sociedade

A democracia no Brasil está morrendo há alguns anos. Às vezes penso nisso e me pergunto por que não conseguimos deter a decomposição. Não é um processo linear, houve vitórias no caminho. Mas cresce aos poucos a consciência de que ela não é imortal. Às vezes, vejo o Estado brasileiro como um barco solitário que navega no oceano dos interesses da alta burocracia, sem grandes contatos com a costa, onde vivem as esperanças e os sonhos cotidianos.

A imagem de um barco desgovernado é muito fortalecida pelo Congresso. Os deputados detêm parte do Orçamento e lutam, de inúmeras formas, para evitar a transparência dos gastos. Determinaram um aumento no número de parlamentares, de 513 para 531, o que significa novos gastos de, no mínimo, R$ 64 milhões anuais.

Terror de Estado em Gaza - Demétrio Magnoli

O Globo

Pela primeira vez, os aliados tradicionais de Israel ensaiam uma ruptura histórica

Na quarta-feira, Benjamin Netanyahu condicionou o encerramento da guerra em Gaza à implementação do plano de Trump de remoção da população palestina do território. No dia seguinte, Gideon Saar, seu ministro do Exterior, atribuiu o assassinato de dois jovens funcionários da embaixada israelense em Washington à “tóxica incitação antissemita” difundida também pelos líderes europeus que pressionam por um cessar-fogo. O governo de Israel faz do antissemitismo álibi para a limpeza étnica.

Bezalel Smotrich, principal arauto do supremacismo no governo Netanyahu, descreveu o objetivo da nova ofensiva em Gaza: “Destruir o que resta da Faixa simplesmente, porque tudo ali é uma grande cidade do terror”. A sentença cumpre a função criminosa de identificar ao Hamas o conjunto da população palestina.

Haddad diz que manutenção do arcabouço fiscal 'depende muito mais do Congresso'

Por Sérgio RoxoRenata AgostiniThaís BarcellosThiago Bronzatto / O Globo

Ministro da Fazenda vê mudança institucional do país e acredita que poder mudou de mãos

 Brasília - O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, disse, em entrevista ao GLOBO, que a manutenção do arcabouço fiscal — conjunto de regras sobre o equilíbrio das despesas e receitas do governo — depende hoje muito mais do Congresso em razão do poder acumulado pelo Legislativo nos últimos anos.

O titular da pasta diz não abrir mão de nada para melhorar o resultado das contas públicas, mas lembrou que o país tem déficit primário estrutural desde 2015, passando por governos de Dilma Rousseff (PT), Michel Temer (MDB), Jair Bolsonaro (hoje PL) e Lula (PT).

A tática do almoço grátis na busca pelo voto - Bruno Carazza

Valor Econômico

Petistas tomam a liderança na concepção de transferências, isenções e gratuidades para a maioria da população pobre

Uma consulta no plano de governo do então candidato Fernando Haddad em 2018 revela que uma das suas propostas era, se eleito presidente da República, realizar uma “reforma tributária para, entre outras medidas, isentar de imposto de renda quem ganha até cinco salários mínimos, cobrando mais dos super-ricos”.

Não deveria causar surpresa (tampouco uma disparada no dólar de R$ 5,80 para R$ 6,20) que, seis anos depois, agora na cadeira de ministro da Fazenda, Haddad apresentasse, em novembro de 2024, projeto de zerar a alíquota de IRPF para pessoas que recebem até R$ 5 mil. O interessante é que a ideia de não cobrar imposto de quem ganhava até cinco salários também foi encampada em 2018 por Jair Bolsonaro, após sugestão de Paulo Guedes, indicado na época da campanha para ser seu “posto Ipiranga” para assuntos econômicos.

Aumento do IOF evidencia sinais de exaustão da política fiscal - Sergio Lamucci

Valor Econômico

Episódio da alta do tributo escancara os riscos da falta de uma estratégia para enfrentar os problemas estruturais das contas públicas

A elevação do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF), anunciada na quinta-feira, foi marcada por confusões, levando o governo a recuar horas depois da taxação de aplicações de fundos brasileiros no exterior e no aumento do tributo nas remessas destinadas a investimentos. Com a avaliação de que poderiam ser um passo na direção do controle de capitais, as medidas provocaram uma reação negativa imediata do mercado. O episódio, porém, não mostra apenas o improviso na elaboração e divulgação de uma iniciativa voltada para o cumprimento das regras e das metas arcabouço fiscal. Ele evidencia também os riscos da falta de uma estratégia para enfrentar os problemas estruturais das contas públicas, o que faz o governo optar por uma série de medidas de curto prazo, como um aumento do IOF para elevar rapidamente a arrecadação.

Orçamento público e política econômica- Manoel Pires*

Valor Econômico

Uma reforma geral do orçamento parece inevitável e o federalismo fiscal está em plena transformação

O orçamento público é o principal instrumento de política econômica de um país. Nele, estabelecem-se incentivos para poupar, consumir, investir, trabalhar e produzir, influenciando diretamente a acumulação e a utilização dos fatores de produção. No processo orçamentário, em que a classe política discute as prioridades do país, estabelecem-se as bases institucionais que fortalecem a democracia e promovem o crescimento econômico.

Democracia americana à prova - Carlos Pereira

O Estado de S. Paulo

O mundo democrático foi mais uma vez surpreendido com a decisão de Trump de revogar a autorização da Universidade de Harvard para matricular estudantes estrangeiros. A medida foi uma retaliação à recusa da universidade em entregar documentos de seus alunos. Pouco depois, a Justiça federal americana bloqueou a decisão, mas a incerteza permanece.

Adam Przeworski, um dos maiores estudiosos da democracia, está pessimista. Para ele, “o governo Trump é um verdadeiro tsunami. Inunda tudo indiscriminadamente (...). Pensávamos que o colapso da democracia nos EUA era praticamente impossível, como evidências empíricas indicavam”.

Até que ponto a democracia americana está sob risco?

Como funciona o partido digital bolsonarista - Camila Rocha

Folha de S. Paulo

A forma de organização é uma inovação política alinhada ao espírito algorítmico de nossos tempos

O PL (Partido Liberal), legenda que abriga Jair Bolsonaro desde 2021, é apenas um hospedeiro institucional do bolsonarismo. Sua verdadeira organização política é uma máquina digital de poder descentralizada, com base digital e estratégias próprias, que opera à margem das regras formais da política.

Tal forma de organização é uma inovação política que nasceu alinhada ao novo espírito algorítmico de nossos tempos. Daí o nome: "partido digital".

É o que argumentam pesquisadores do Centro para Imaginação Crítica do Cebrap (CCI/Cebrap) que, em parceria com o Instituto Democracia em Xeque e o Projeto Brief, realizaram uma série de levantamentos de dados para demonstrar por que faz sentido falar em partidos digitais.

Cena do cotidiano - Ana Cristina Rosa

Folha de S. Paulo

O racismo à brasileira se perpetua porque foi naturalizado sob a maquiagem barata do 'mal-entendido' ou do 'ato não intencional'

Não há credencial, talento, fama, reconhecimento ou fortuna capazes de blindar uma pessoa negra contra o racismo e o preconceito étnico-racial no Brasil. Há alguns dias, a advogada baiana Vera Lúcia Santana Araújo, ministra substituta do Tribunal Superior Eleitoral, foi barrada ao tentar ingressar no prédio onde funciona a Advocacia-Geral da União para participar de um evento promovido pela AGU, onde seria palestrante.

O que aconteceu com ela ocorre todos os dias com milhões de pessoas pretas e pardas no Brasil e, em geral, "não dá nada" além da humilhação e da dor suportados por uma massa negra. A discriminação contra a ministra Vera Lúcia veio a público e passou a integrar o rol cada vez maior de escândalos de natureza étnico-racial porque ela é uma figura pública —ou seja, não se trata de uma "negra qualquer".

Quem controla as CPIs? - Marcus André Melo

Folha de S. Paulo

Sob os governos de Bolsonaro e Lula 3, o presidente perdeu as rédeas do Poder Executivo sobre as CPIs

Até 2014, as CPIs estiveram majoritariamente sob controle do Executivo. A formação de coalizões tem tido um duplo papel: garantir apoio parlamentar à agenda do governo e fornecer um escudo legislativo em relação à oposição, especialmente em relação ao impeachment e ações com potencial de gerar elevados custos políticos, como as CPIs. Nesse contexto, o Executivo atua para impedir sua instalação ou, não conseguindo, dificultar seu funcionamento efetivo.

Poesia | Poema enjoadinho - Vinicius de Moraes

p> 

Musica | Poder da Criação - Beth Carvalho (Sambabook João Nogueira)

 

domingo, 25 de maio de 2025

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Regras para praias devem respeitar o bom senso

O Globo

Elas são o espaço mais democrático do país — e, como toda democracia, precisam de normas para funcionar

Costuma-se dizer que as praias são o espaço mais democrático do país. E com razão. Qualquer um, independentemente de posição social ou aparência, pode chegar e ocupar seu lugar ao sol. Não tem de mostrar identidade, CPF ou carteira de vacinação. Tampouco pagar ingresso — é verdade que, dependendo do local, o banhista será compelido a alugar cadeira, guarda-sol e a consumir os produtos do ambulante “dono” do pedaço. Mas a areia é vasta. É justamente por ser o lugar de todos que regras mínimas de convivência se impõem. Ou o lazer se transforma em pandemônio.

A música a todo volume na caixa de som pode agradar ao dono do aparelho — mas desagrada a outros tantos, que preferem o barulho do mar à playlist de gosto incerto. O esporte à beira d’água é diversão para a confraria, mas incomoda quem não quer levar boladas. O churrasquinho do ambulante mata a fome, mas precisa ser fiscalizado para não causar danos à saúde. Em calçadões e ciclovias, o frenético vaivém de banhistas, corredores, skatistas, ciclistas, bicicletas elétricas e patinetes se traduz não apenas em desordem, mas também em risco de acidentes.

O Brasil no espelho do mundo - Luiz Sérgio Henriques*

O Estado de S. Paulo

O descompasso entre o mundo amplo da economia e o âmbito estritamente nacional da política terminou por produzir seus frutos daninhos na forma de uma imensa crise da globalização

Não importam muito nossa condição de Ocidente periférico, de “outro Ocidente” ou, ainda, a ideia mais forte de que metabolizamos, com expressividade, o barroco ibérico e terminamos por produzir, com ameríndios e negros, uma modernidade alternativa – o fato é que, seja como for, temos sido assediados por perguntas estrategicamente decisivas sobre a nova estrutura do mundo ainda em formação e, nela, a posição do Brasil.

O século 21, tudo indica, não será mais predominantemente norte-americano e menos ainda europeu. Com velocidade surpreendente, envelheceu a ideia de uma modernidade baseada na expansão contínua da mercantilização de todas as coisas e de todas as relações humanas. Já podemos dizer com certeza que a modernidade dita neoliberal, que se disseminou com o colapso do socialismo de Estado, pecou por déficit crescentemente intolerável de imaginação política. A interdependência entre os sistemas econômicos deu muitíssimos passos à frente, com a circulação instantânea do dinheiro, a mundialização das cadeias de valor, a mobilidade intensa de mercadorias e pessoas. E uma vasta classe média global, apesar das desigualdades, apareceu no cenário.

Haddad é refém da cultura petista do rechaço e da economia do afeto - Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

O ajuste é de R$ 52 bilhões, mesmo assim, o déficit das contas públicas deve chegar a R$ 76,6 bilhões ( 0,6% do PIB). O ministro da Fazenda apanha dos dois lado

No seu artigo publicado na Carta Capital n° 1363 (datada de 28 de maio de 2025), intitulado “Absurdos da 'ciência' econômica, o economista Luiz Gonzaga Belluzzo discorre sobre as limitações dos modelos macroeconômicos contemporâneos. Parte de uma definição de John Mayard Keynes – autor da Teoria geral do emprego, do juro e da moeda (Saraiva), de1836, sua obra prima – sobre o perfil ideal dos economistas.

Keynes virou do avesso a teoria clássica do emprego de “A riqueza das nações” (Nova Fronteira), de Adam Smith, obra publicada em 1776, ao analisar a Grande Depressão causada pelo crack da Bolsa de Nova York de 1929. O consenso da época era de que a economia chegaria espontaneamente e naturalmente ao equilíbrio. E quem quisesse trabalhar encontraria emprego, bastava aceitar salários mais baixos. Keynes inverteu esse modelo clássico de causa e efeito.

Para a teoria clássica, o desemprego era uma escolha causada pelo alcoolismo e/ou pelo jogo. Devido à prolongada recessão, Keynes concluiu que o desemprego era involuntário, porque a ausência de demanda aprisionava empresas e trabalhadores num círculo vicioso de subprodução e desemprego. A solução, segundo ele, era os governos gastarem mais, para investir na economia, de modo que a procura global dos produtos crescesse. Isso estimularia as empresas a admitirem mais trabalhadores.

Contradições - Merval Pereira

O Globo

O aumento do IOF afetará a classe média, que pretendia viajar para o exterior e terá seus custos aumentados. Uma classe que o governo petista precisa reconquistar para viabilizar sua reeleição

As contradições do governo Lula se acumulam à medida que os objetivos imediatos de recuperar a popularidade para garantir a reeleição se chocam com as promessas de campanha que não podem ser cumpridas sem criar obstáculos ao objetivo maior, que é manter o poder. Lula venceu a eleição de 2022 no pressuposto de que faria um governo de união nacional, reunindo em torno de si uma aliança suprapartidária. Na prática, temos o PT dominando as principais áreas do governo, e os representantes das demais forças políticas de centro-esquerda relegados a um segundo plano.

A barafunda criada pelo aumento do IOF é exemplar desse paradoxo. A necessidade de aumentar a arrecadação para tentar equilibrar as finanças nacionais, sem que os cortes necessários sejam feitos, faz com que o país contradiga sua intenção de entrar para a OCDE, a reunião dos países mais desenvolvidos do mundo. Ou revela que o governo Lula não tem como prioridade essa participação.

Direita avança com pauta conservadora em legislativos do país

Por Camila Turtelli e Dimitrius Dantas / O Globo

Direita fortalece pautas estratégicas do bolsonarismo em assembleias e câmaras municipais para vencer em 2026

Projetos de escolas cívico-militares, leitura da Bíblia em colégios, projeto anti-Oruam e homenagens a Bolsonaro ganham força no país

Fora do governo federal desde 2022, representantes da direita têm encontrado um novo campo de articulação política longe dos holofotes de Brasília. A estratégia envolve emplacar projetos e iniciativas que envolvem bandeiras ligadas ao bolsonarismo em câmaras municipais, assembleias legislativas e governos estaduais, para que sirvam de base para um movimento que visa a pavimentar o caminho para retomar o poder em 2026. Essas proposições são inspiradas no trinômio “Deus, pátria e família”, o que reforça o vínculo de integrantes da vertente política com grupos religiosos.

Um dos principais itens desse movimento de base é a expansão das escolas cívico-militares. Embora o programa federal lançado no governo de Jair Bolsonaro tenha sido encerrado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, houve uma ampliação do modelo pelo país. A iniciativa consiste na gestão compartilhada das instituições de ensino entre educadores e militares, categoria que forma uma das bases do bolsonarismo.

O fenômeno Tony Rueda - Bernardo Mello Franco

O Globo

Antonio Rueda é um fenômeno. Sem nunca ter disputado uma eleição, entrou para o clube das figuras mais poderosas da política nacional. O advogado pernambucano despontou como faz-tudo de Luciano Bivar. Após um rompimento que virou caso de polícia, tomou o lugar do chefe no comando do União Brasil.

Resultado da fusão dos antigos DEM e PSL, a legenda não tem ideias, só interesses. Ao mesmo tempo que controla três ministérios do governo Lula, flerta com o bolsonarismo e ensaia lançar um candidato de oposição em 2026.

Na quarta-feira, Rueda deu uma longa entrevista ao GLOBO. A conversa ajuda a entender a natureza de seu partido e a debilidade do que se convencionou chamar de base do governo.

Apesar dos cargos que controla na máquina federal, o mandachuva do União fez discurso de opositor. Disse que o governo “não consegue fazer entregas” e “se enfraquece dia a dia”. “Logo no começo do mandato, o governo surfou politicamente na onda do 8 de Janeiro. Hoje essa página é passado”, sentenciou.

Amazônia como última mensagem - Míriam Leitão

O Globo

O recado final de quem fez da Amazônia seu último projeto e que nos alertou para o privilégio de ter esta floresta

Sebastião Salgado permanecerá porque sua obra seguirá mostrando as dores agudas ou a exuberante beleza do planeta. Extremos de vida. Para ele, a vida era em preto e branco e nunca em meios-tons. Ficará de pé também o pedaço que replantou da outrora dominante Mata Atlântica, hoje recolhida a alguns recantos, como o que ele e Lélia construíram. Nesta semana, o contraste entre a mensagem que ele quis deixar e o que temos feito será mais gritante. A Câmara pretende votar em regime de urgência o PL da devastação nos próximos dias.

É truque dos apoiadores do projeto. Depois desta, virá a semana do Meio Ambiente. No dia 5 de junho, uma quinta-feira, será o Dia do Meio Ambiente. Os defensores do projeto acham que não cairá bem aprová-lo nessa data e, por isso, querem correr.

Os horrores impostos à população palestina- Dorrit Harazim

O Globo

De uma hora para outra, começou-se a denunciar o uso da fome como ferramenta de subjugação

Foi a contragosto que o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu anunciou, nesta semana, a decisão de entreabrir uma fresta nas inenarráveis condições impostas à Gaza hermeticamente bloqueada desde março. Era preciso estancar a incômoda “campanha global contra alegações de fome extrema no território e aliviar as pressões de nossos aliados na Europa e Estados Unidos”. Por uma questão de relações públicas, decidira que não lhe restava outra opção — as imagens de crianças famélicas em feroz disputa por um punhado de farinha exigiam correção de curso. Era preciso dar um respiro àquele chão ainda chamado de seu por 2,2 milhões de palestinos.

As tarefas que a realidade nos impõe - Claudio de Oliveira*

O que está posto? Penso que:
1) Ascensão da extrema-direita;
2) Reglobalização;
3) nova geopolítica;
4) Nova revolução tecnológica com a IA;
5) Crise do Clima.

Que fazer?
1) Frente ampla democrática nos planos nacional e internacional para isolar a extrema-direita;
2) Política externa não-alinhada e sem retórica anti-Ocidente;
3) Trabalhar contra uma nova Guerra Fria, pelo multilateralismo, pelo fortalecimento e criação de órgãos de governança global, pela negociação dos conflitos internacionais e pela cooperação econômica;
4) Incorporar o Brasil nos grande centros dinâmicos do capitalismo;
5) Modernizar o capitalismo brasileiro para abrir um novo ciclo de expansão de modo a criar riqueza e renda;
6) Diante do Estado deficitário, atrair investimentos privados nacionais e estrangeiros para um novo ciclo de desenvolvimento;
7) Investir pesadamente em pesquisa, ciência e tecnologia, buscando os diferenciais do Brasil principalmente na biotecnologia (não conseguiremos concorrer com a China na produção em larga escala de fogão e geladeira, mas poderemos concorrer com produção de vacinas, remédios, por exemplo), em tecnologias de fontes renováveis de energia, etc;
8-Reformar o Estado e a tributação para garantir o financiamento sustentável do Estado do Bem-Estar Social (a distribuição da riqueza não deve estar focada em transferência de rendas pelo Estado, por seus limites evidentes, mas no aumento da produtividade na economia privada e uma boa tributação).

O acerto de Netanyahu com a Justiça – Lourival Sant’Anna

O Estado de S. Paulo

Até Trump já desistiu da ideia de desterrar palestinos defendida agora por Netanyahu

O premiê Binyamin Netanyahu admitiu em público pela primeira vez que pretende “colocar em prática o plano do presidente Donald Trump”, referindo-se a expulsar os palestinos da Faixa de Gaza. O próprio Trump já abandonou a ideia, ao constatar que nenhum país árabe aceitaria o desterro dos palestinos.

Em reunião fechada do gabinete, Netanyahu admitiu que a destruição das casas dos palestinos de Gaza é proposital, para tornar inviável sua permanência, segundo o jornal The Times of Israel. O bloqueio da entrada de ajuda humanitária e os bombardeios são parte da mesma estratégia.

Os ministros das Finanças, da Segurança Nacional e das Relações Exteriores defendem a expulsão dos palestinos e a anexação da Cisjordânia e da Faixa de Gaza, onde vivem desde a expansão árabe do século 7.

Viver não é aprender? - Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Pix, INSS e IOF: governo tropeça em siglas, posts e versões, oposição faz a festa

Vivendo e aprendendo, mas o governo parece não aprender nunca. Depois da crise do Pix, tão recente, a do IOF também começa com ministros batendo cabeça, evolui com o desprezo aos setores atingidos, explode com um anúncio mal planejado e executado e acaba num recuo vexaminoso, com a oposição soltando fogos, rojões e disparos certeiros nas redes sociais. O Congresso, claro, entra na festa.

Sem planos, o gasto avança sem rumo - Rolf Kuntz

O Estado de S. Paulo

Para ampliar com segurança o investimento governamental, as autoridades precisam reordenar seus gastos e economizar no custeio

Faz tempo, muito tempo, havia no Brasil uma prática muito difundida, há quase um século, entre engenheiros, economistas e até em alguns meios políticos. Construído entre 1965 e 1978, o Complexo de Urubupungá, formado pelas hidrelétricas de Ilha Solteira, Jupiá e Três Irmãos, é um produto dessa prática. A produção de energia elétrica na Bacia do Rio Paraná era uma ideia bem definida mais de dez anos antes, na primeira metade dos anos 50, quando o engenheiro Lucas Nogueira Garcez governava o Estado de São Paulo. Essa história é um exemplo daquela prática, batizada como planejamento.

Outras derrapadas do governo Lula - Celso Ming

O Estado de S. Paulo

As lambanças do da equipe econômica na edição do pacote tributário destinado a reduzir o rombo fiscal não se limitaram à imposição do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) sobre investimentos em fundos no exterior, rapidamente revertida pela equipe econômica, tão logo percebeu que caracterizava controle do fluxo de capitais. Elas se estenderam para outras decisões que integraram o cardápio do dia.

É o caso da imposição de um IOF de 5% sobre aportes mensais acima de R$ 50 mil em planos de previdência privada denominados Vida Gerador de Beneficio Livre (VGBL). O governo não diz como se cobrará esse imposto se o aplicador fizer vários investimentos pouco abaixo de R$ 50 mil por mês em várias instituições financeiras, dado que uma desconhece o que acontece na outra. Vai que o sujeito aplica, no mesmo dia, R$ 49 mil no Bradesco, outros R$ 49 mil no Safra e outros R$ 49 mil no Icatu. Não há mecanismo que compartilhe informações instantâneas entre instituições. Se a decisão for montá-lo a partir de agora, então a medida provisória não pode entrar em vigor na data da publicação, como pretendido.

O IOF encrenca nossa vida - Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Bagunça e tretas escondem o fato de que o gasto cresceu e que IOF é droga ruim

A revisão bimestral das contas do governo foi uma bagunça. Fez a alegria de quem trata desse assunto chato e enrolado sem se ocupar de substância e efeitos econômicos, deitando e rolando na treta e na fofoca, em "bastidores".

Sim, quem não gosta de Fernando Haddad no governo —um monte de gente— aproveitou a ocasião para fritar ainda mais o ministro. Sim, política de corredor de palácio tem certa relevância, mas a maior parte é espuma e não depende de fofoca, mas de problemas reais. O problema de fundo é que Luiz Inácio Lula da Silva não comprou nem o plano moderado de Haddad de fazer funilaria e pintura nas contas do governo, que precisam de troca de motor e de freio.

Além da fofoca e da rendição no IOF sobre fundos que aplicam no exterior, quase se esqueceu do seguinte e essencial:

Centrão fecha cerco a Tarcísio - Catia Seabra

Folha de S. Paulo

No momento em que petistas e bolsonaristas lutam para sobreviver aos estilhaços do escândalo do INSS, Tarcísio é o preferido da vez

O governador Tarcísio de Freitas bem que tentou escapar de mais um palco montado pelo centrão para projeção de seu nome à Presidência da República.

No início de maio, ele alegou agenda cheia para justificar ausência na filiação do secretário da Segurança Pública de São PauloGuilherme Derrite, ao PP. Se a intenção era mesmo escapulir, como dizem seus aliados, não funcionou. Para garantir a presença de Tarcísio, o evento foi adiado por duas semanas.

Na festa desta quinta (22), enquanto índices de criminalidade batem recorde em São Paulo, o chefe da segurança pública foi aclamado como candidato ao Senado ou até herdeiro de Tarcísio.

Trump contra Harvard - Celso Rocha de Barros

Folha de S. Paulo

A guerra contra universidades é mais uma prova de que o americano pretende destruir a democracia

Na última semana, Trump proibiu a Universidade Harvard, a melhor do mundo, de receber estudantes estrangeiros. A decisão foi uma escalada dramática da guerra trumpista contra as universidades americanas, que já tinha atingido outras grandes escolas, como Columbia.

A decisão veio após Harvard se recusar a aceitar uma lista de demandas contida em uma carta do governo Trump de 11 de abril. Trata-se de um documento histórico importante para a análise do trumpismo.

Tempo paroxístico de monstros - Muniz Sodré

Folha de S. Paulo

Cabe remontar ao sentido da palavra ‘monstrum’ para ponderar as evidências de formas voltadas para a destruição

Num dos episódios da série distópica "Black Mirror", soldados são programados por um chip cerebral para alterar a apreensão da realidade: olhando para pessoas comuns, supostamente inimigas, enxergam monstros. Ou seja, seres anômalos, fora dos parâmetros normais. "Monstrum", na Antiguidade, era o sinal dado aos homens pelos deuses de que uma coisa terrível estava para acontecer.

A palavra latina tem a mesma origem de "mostrar", mas acabou desviando-se da ideia de tornar algo visível para designar disformidades reais ou imaginárias, como Drácula e Frankenstein. Em termos de comportamento, costuma-se atribuir monstruosidade a figuras como HitlerStalin, Pol Pot, Bokassa, Pinochet e uma esteira de bárbaros nessa linha.

Imortalidades - Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Novo livro de Eduardo Giannetti da Fonseca esmiúça as possibilidades seculares e religiosas de transcender a morte

"Imortalidades", o mais recente livro de Eduardo Giannetti da Fonseca, é muito bom. Trata do que possivelmente é o tema mais relevante que existe —a vida como a experimentamos é tudo o que há ou podemos transcendê-la?— e o faz com erudição, rigor e arte.

Antes de continuar, o alerta que costumo lançar quando o autor do livro que resenho é meu amigo. Sempre tento ser objetivo, mas a própria definição de amizade já embute uma boa dose de benevolência. Ciente disso, cabe ao leitor aplicar os descontos que julgar necessários.

"Imortalidades" consiste de 235 microensaios —forma a que Giannetti parece ter aderido definitivamente— que podem ser lidos de modo mais livre do que um texto corrido. Neles, o autor traça uma radiografia panorâmica das várias imortalidades que podemos conceber e as destrincha, recorrendo à ciência, à filosofia e à literatura.

Igualdade - Edilberto Pontes Lima:

O Povo (CE)

A desigualdade não é apenas uma estatística incômoda: é uma ameaça concreta à coesão social, à democracia e à esperança. Vivemos tempo em que poucos acumulam cifras incompreensíveis e muitos lutam por dignidade básica

Li recentemente o livro Igualdade, que é basicamente a reprodução de um instigante diálogo entre o economista francês Thomas Piketty e o filósofo americano Michael Sandel. O livro reconhece os avanços ao longo da história da humanidade, tanto na ampliação do acesso a bens e serviços, quanto nos direitos de participação política, mas aponta os imensos abismos ainda existentes. Ao longo da leitura, lembrei de uma reflexão cortante de Adam Smith, em A Riqueza das Nações: "Tudo só para nós e nada para outras pessoas parece ser, em qualquer época do mundo, a máxima vil dos que dominam a humanidade."

Não é uma frase de um panfleto revolucionário, mas de um pensador que fundou as bases do liberalismo econômico. E, no entanto, apesar dos progressos em várias áreas, a denúncia, como ressaltam Piketty e Sandel, ainda ecoa com força no mundo de hoje.

A nova elite política do estado do Rio de Janeiro: poder, território e disputa de hegemonia rumo a 2026 - Paulo Baía*

O Rio de Janeiro, esse território onde a beleza convive com a miséria, o esplendor urbano contrasta com a violência estrutural e a cultura vibrante se choca com os fantasmas do autoritarismo, segue sendo um dos principais laboratórios sociopolíticos do Brasil. Terra de contradições históricas, o estado fluminense abriga, em sua paisagem física e simbólica, a síntese das dinâmicas nacionais. E mais uma vez, às vésperas das eleições gerais de 2026, sua elite política se reorganiza, revelando os contornos de uma disputa que transcende partidos, ideologias e classes, assumindo contornos de luta civilizatória.

A elite política fluminense, como ensinam Wright Mills, Florestan Fernandes e Pierre Bourdieu, não se constrói apenas na esfera formal do jogo institucional. Ela é tecido vivo, bordado na intersecção de territórios, redes econômicas, grupos religiosos, oligarquias locais, movimentos sociais, estruturas empresariais, máquinas administrativas e, por vezes, zonas cinzentas onde o lícito e o ilícito se entrelaçam.

Poesia | CHICO ANYSIO diz poema de Ascenso Ferreira

 

Música | Folhas Secas - Luedji Luna (Sambabook Beth Carvalho)

 

sábado, 24 de maio de 2025

Opinião do dia – Paul Samuelson*

“De que uma economia é inservível se não opera no sentido de indicar os meios pelos quais, com recursos escassos, se possa promover o máximo de bem-estar possível para a maior parte da população."

*Paul Samuelson (1915-2009), economista norte-americano, amplamente reconhecido como um dos formuladores mais importantes das ciências econômicas modernas. Prêmio Nobel de Economia,1994.

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Ameaças de Rubio são agressão à nossa democracia

Correio Braziliense

A declaração de Rubio foi celebrada por aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro, incluindo seu filho Eduardo Bolsonaro, que tem buscado apoio nos EUA para pressionar o STF e defender seu pai, atualmente réu por tentativa de golpe de Estado

Não se trata de simpatia ou antipatia pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes. Isso não vem ao caso. A declaração do secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, sobre a possibilidade de sanções contra o ministro devido ao julgamento da tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023, feita durante audiência na Comissão de Relações Exteriores da Câmara dos Representantes dos EUA, no último dia 21, é uma agressão à soberania brasileira e um desrespeito ao nosso Estado Democrático de Direito.

Questionado pelo deputado republicano Cory Mills, Rubio afirmou que a aplicação de sanções está "sob análise neste momento" e que há "uma grande possibilidade de que isso aconteça". Essa declaração envolve alegações, sem fundamento legal, de que o Brasil estaria enfrentando um "alarmante declínio dos direitos humanos", incluindo suposta "censura generalizada" e "perseguição política contra a oposição", conforme mencionado por Mills.

Máquina de corrupção autônoma - Alvaro Costa e Silva

Folha de S. Paulo

Suspeito de abuso político e econômico, grupo do governador manobra para continuar mandando

Não há nada mais previsível que a política do Rio de Janeiro, baseada no populismo, no clientelismo e na máquina de corrupção que parece funcionar de modo autônomo. A prisão e o afastamento de seis governadores não pararam a engrenagem.

Cláudio Castro conseguiu a aprovação de Thiago Pamplona, o vice-governador, para um cargo técnico, o de conselheiro do Tribunal de Contas. A manobra vai permitir que o presidente da Assembleia Legislativa, Rodrigo Bacellar, assuma o Palácio Guanabara no ano que vem. Bacellar será candidato ao governo estadual e Castro, ao Senado.

Ossos do ofício - Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Eventual adoção de sanções dos EUA contra Alexandre de Moraes é criticável, mas não por violar soberania brasileira

Marco Rubio, o secretário de Estado dos EUA, afirmou que são grandes as chances de o seu país impor sanções ao ministro Alexandre de Moraes, do STF. Rapidamente, tanto o governo Lula quanto colegas de Moraes denunciaram a eventual punição ao magistrado como uma afronta à soberania brasileira.

Existem inúmeras boas razões para criticar a medida em estudo pelo governo Trump. A mais óbvia delas é que tudo não passa de um gesto político para dar algum alento a Jair Bolsonaro e à extrema direita brasileira, que enfrentam tempos adversos. Recorrer à soberania é provavelmente o único argumento que não funciona bem. Recapitulemos.