quarta-feira, 1 de outubro de 2025

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Capitulação do Hamas é chave em plano de Trump

Por O Globo

Ainda que proposta seja realista dadas as circunstâncias, é incerto como reagirá o grupo terrorista

O plano de 20 pontos para acabar com a guerra em Gaza apresentado na Casa Branca pelo presidente americano, Donald Trump, ao lado do primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, representa um avanço inegável. É certo que, no detalhe, desperta dúvidas sobre viabilidade e implementação. Também é verdade que nenhum dos envolvidos no conflito sairá plenamente satisfeito com os termos. Mas trata-se de uma proposta realista dentro das circunstâncias, cujos maiores benefícios imediatos seriam a libertação dos reféns israelenses e o alívio para a população palestina. Inspirada em ideias do ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair, ela expõe as dificuldades que cercam a solução duradoura do conflito, mas ao mesmo tempo traz esperança.

Paz entre Poderes não é para já. Por Vera Magalhães

O Globo

STF esteve e continua sob insidioso e ininterrupto ataque, a partir até dos EUA, inflamado por um deputado

Luiz Edson Fachin não chegou a ser original ao centrar seu discurso de posse na presidência do Supremo Tribunal Federal (STF) pregando harmonia entre os Poderes e que o Judiciário, por assim dizer, adote uma postura de maior comedimento institucional. Além de não ser inédita, trata-se de uma plataforma praticamente impossível de cumprir e, no momento atual, questionável do ponto de vista da defesa da própria Corte.

Quem for ler a fala de Fachin à luz do que o STF fez nos últimos anos depreenderá de muitas das 19 páginas uma crítica, se não direta, ao menos parcial a decisões, tomadas de posição e iniciativas do colegiado e de colegas que o antecederam no comando do tribunal. Para não falar de atos do próprio agora presidente.

Foi Fachin quem relatou a ADPF 572, ajuizada pela Rede Sustentabilidade contra o inquérito das fake news, relatado por Alexandre de Moraes, uma das principais fontes das críticas que alegam usurpação de prerrogativas por parte do Supremo.

Ele fez um voto, que saiu vencedor, pela constitucionalidade do inquérito, determinando medidas para “sanear” alguns aspectos. Só que o inquérito já mudou de nome e objeto, mas segue aberto até hoje. Para ser coerente com sua fala em prol da volta aos fundamentos da atuação do STF, a discussão em torno do encerramento desse feito seria primordial.

Fachin mostrou a que veio. Por Elio Gaspari

O Globo

O ministro cortou a festa e condenou os espetáculos

O ministro Edson Fachin assumiu a presidência do Supremo Tribunal Federal ao seu estilo, com um discurso longo, tedioso e até descuidado. Misturou num mesmo parágrafo seu compromisso com a liberdade de imprensa e com o “bem-estar dos servidores”. Ainda assim, disse a que veio, com boas notícias. Por exemplo:

— A prestação jurisdicional não é espetáculo. Exige contenção.

Ou:

— Assumo aqui compromisso de uma gestão austera no uso dos recursos públicos pelo Judiciário. A diretriz será a austeridade.

Fora do mundo das palavras e promessas, Fachin resgatou a tradição de Rosa Weber e cancelou a pajelança com que lobistas festejam posses. Há registro de eventos com a presença de magistrados para provar uísques, na Europa, com patrocínio de um banco mambembe.

Suprema precarização. Por Bernardo Mello Franco

O Globo

Tribunal decidirá se motoristas e entregadores têm vínculo trabalhista com plataformas

Ao assumir a presidência do Supremo, o ministro Edson Fachin afirmou duas vezes que o Judiciário deve proteger o direito ao “trabalho decente”. Hoje o discurso será submetido ao primeiro teste prático.

Fachin escolheu iniciar sua gestão com o julgamento de recursos apresentados pelas empresas Uber e Rappi. As plataformas querem derrubar decisões da Justiça do Trabalho que reconheceram vínculo com motoristas e entregadores. Os casos terão repercussão geral — ou seja, a decisão do Supremo valerá para todos os processos que discutem a chamada uberização no país.

A visão de Fachin sobre o STF na crise política. Por Fernando Exman

Valor Econômico

Novo presidente do Supremo fez em seu discurso uma forte defesa da independência judicial

Considerando que o ceticismo é atitude fundamental para quem busca sobreviver no ambiente muitas vezes hostil de Brasília, com frequência é preciso evitar cair na tentação de classificar como “coincidência” qualquer sequência aleatória de fatos. No entanto, chamam atenção alguns movimentos que ocorreram antes, durante e depois da posse dos ministros Edson Fachin na presidência do Supremo Tribunal Federal (STF) e Alexandre de Moraes na vice.

Poucas horas antes da solenidade realizada na segunda-feira (29), o presidente do Congresso, senador Davi Alcolumbre (União-AP), pediu à Corte que o número das bancadas estaduais na Câmara não fosse alterado para as próximas eleições. A despeito da decisão da própria Corte para que a redistribuição das cadeiras fosse feita nesta semana de acordo com o censo, Alcolumbre defendeu que isso só ocorresse para o pleito de 2030. Uma tentativa de reduzir a insatisfação dos deputados, que pressionavam pela derrubada do veto ao projeto que aumentava o número de deputados e, assim, driblava a determinação do STF.

‘Big techs’ pedagiam tudo, diz Haddad. Por Lu Aiko Otta

Valor Econômico

Projeto de lei propõe que Cade seja o “xerife” da atuação das big techs no Brasil

“Estamos criando uma regulação para impedir práticas anticoncorrenciais, porque senão as big techs jantam todo mundo”, afirmou o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, em entrevista ao podcast Três Irmãos, na semana passada. “Elas [as big techs] pedagiam tudo. Quer usar esse dispositivo? Pedágio. Quer usar esse outro? Tem que fazer um contrato de exclusividade comigo. Aí, o empresário fala: ‘cara, todo meu lucro tá indo para esses serviços de informática’.”

Ele falava sobre o Projeto de Lei 4.675/2025, protocolado no último dia 18, que regula os aspectos econômicos da atuação das big techs. O texto é fruto de um trabalho desenvolvido por sua equipe durante dois anos e meio.

O PL propõe que o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), que regula a concorrência entre empresas no Brasil, seja o “xerife” da atuação das big techs. Será criada nele a Superintendência de Mercados Digitais, que vai monitorar de perto as plataformas que faturam mais do que R$ 5 bilhões por ano aqui ou R$ 50 bilhões globalmente. Além desse critério quantitativo, há um recorte qualitativo: o serviço precisa ter relevância sistêmica na economia.

Aumento de 390% no Fundo Eleitoral para 2026 é tapa na cara da sociedade. Por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Para blindar seus mandatos financeiramente, deputados e senadores da Comissão Mista de Orçamento aprovaram aumento de R$ 1 bilhão para R$ 4,9 bilhões para o Fundo Eleitoral

A proposta de quase quintuplicar o Fundo Eleitoral, aprovada pela Comissão de Orçamento da Câmara, avança em direção à consolidação de uma “partidocracia” nefasta ao país. A Comissão Mista de Orçamento do Congresso (CMO) aprovou ontem, de forma simbólica, um aumento de 390% (R$ 3,9 bilhões) da reserva prevista na peça orçamentária para o Fundo Especial de Financiamento de Campanha (FEFC) para 2026. O “Fundão” abastece campanhas eleitorais em todo o país com dinheiro público.

O princípio da “paridade de armas” na disputa eleitoral simplesmente não existe mais, não é respeitado. Afora o “Fundão” anabolizado, que em tese poderia ser distribuído democraticamente pelos partidos entre candidatos com mandato e sem mandato, existe também a montanha de dinheiro de emendas parlamentares, que chegam em média a R$ 50 milhões para cada parlamentar.

Um SNE Efetivo. Por Cristovam Buarque

Correio Braziliense

O SNE e o novo PNE apresentam boas intenções, prometem mais recursos, mas carecem de objetivos audaciosos e ações concretas que implantem a rede de escolas públicas para a educação de qualidade para todos

Ao longo dos últimos 70 anos, o Brasil adotou 22 programas voltados para a educação básica — da Merenda Escolar, em 1955, ao Pé-de-Meia, em 2025 — incluindo dois Planos Nacionais de Educação (PNEs), com vigência de 10 anos cada. Com esses programas, avançamos rumo à quase universalização das matrículas nas séries iniciais do ensino fundamental. No entanto, progredimos insuficientemente quanto ao número de alunos que concluem a educação básica com formação capaz de atender às exigências do mundo contemporâneo. Apesar dos avanços, nesse período três lacunas se ampliaram: entre ricos e pobres, entre a educação no Brasil e em outros países, e a desconexão entre o que ensinamos e o que precisa ser ensinado.

Paz de conveniência. Por Rodrigo Craveiro

Correio Braziliense

Estive no Oriente Médio por duas vezes. Em uma delas, em abril de 2023, depois de visitar a fronteira com a Faixa de Gaza e ver a cerca por onde o Hamas invadiu o sul de Israel em 7 de outubro do mesmo ano, conheci Ofir Libstein. O político israelense que administrava o Conselho Regional de Sha'ar HaNegev, região vizinha ao enclave palestino, era responsável por 9,3 mil moradores de 12 comunidades do "envelope". Vi em Libstein um visionário e um pacifista. Ele e colegas vislumbravam um futuro de coexistência pacífica entre judeus e palestinos.

A semente seria plantada nas crianças dos dois povos. Libstein ajudou a fundar o "Bridging", um programa que convidava 25 jovens de Gaza a passarem um dia no sul de Israel e aprofundarem o contato por meio de diálogos e experiências. Libstein foi morto por militantes do Hamas ao tentar defender o kibbutz onde morava e proteger os quatro filhos, abrigados em um quarto seguro.

O estilo Lula de ‘fritar’ ministros. Por Vera Rosa

O Estado de S. Paulo

O problema do presidente é a dificuldade para demitir, deixando o ‘fogo amigo’ se espalhar

A um ano das eleições de 2026, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva decidiu deixar o Centrão em banho-maria. Na prática, Lula aguarda a saída de ministros e integrantes desse grupo, após o ultimato dado pela cúpula do União Brasil e do PP, sem de fato acreditar que haverá grandes baixas na equipe.

O presidente sabe que não terá apoio integral do Centrão nem do MDB na campanha, mas espera conquistar pedaços desses partidos. O que ele não quer é um casamento de papel passado dos “aliados” de conveniência com o bolsonarismo. Pelos cálculos do Planalto, de 18 a 20 ministros devem sair no início de abril para concorrer às eleições. Diante dessa expectativa, o presidente fará agora apenas pequenas mudanças na equipe.

O enigma do PIB. Por Fábio Alves

O Estado de S. Paulo

Quem pode dizer com algum grau de certeza, hoje, se a maior economia do mundo está fraca ou forte?

Não são apenas os dirigentes dos principais bancos centrais do mundo que estão inseguros em determinar em que ponto está, de fato, o nível da atividade econômica em seus países – algo crucial para calibrar a política monetária. Analistas e investidores também parecem estar no escuro, uma vez que os dados ora apontam para resiliência inesperada no consumo e investimento, ora mostram perda de fôlego do mercado de trabalho.

Tome-se o exemplo dos Estados Unidos. Quem pode dizer com algum grau de certeza, na fotografia de hoje, se a maior economia do mundo está fraca ou forte, diante de números recentes de atividade aparentemente conflitantes?

O que Lula pode tirar de Trump neste mundo de império americano sem freio. Por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Um acordo bem-sucedido com os EUA aumentaria a confusão nas direitas extremas

Governo do Brasil vai negociar mais do que crise comercial e ataques políticos

Um encontro bem-sucedido entre Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump causaria novos embaraços para as direitas, pelo menos para a extrema direita e para bolsonaristas em geral.

Decerto as redes bolsonaristas parecem capazes de engolir quase qualquer ficção —Jair Bolsonaro lá aparece como defensor da vida e da família. Mas seria difícil elaborar o insucesso da vassalagem de Trump e do MAGA, a reviravolta em tese simpática a Lula e o fracasso da conspiração dos Bolsonaro e sua bandeira americana na avenida Paulista.

Trump inventa um plano para a paz em Gaza, e o mundo finge acreditar. Por Rui Tavares

Folha de S. Paulo

Entre ilusões coloniais e cálculos políticos, palestinos continuam à espera de que acordo possa desbloquear futuro

Conjunto de pontos tem lacunas em sua implementação e, em cada uma delas, uma hipótese de o fazer descarrilar

Por um lado, a situação em Gaza é tão desesperadora que dá vontade de acreditar em qualquer nesga de uma solução, por rebuscada que seja. Por outro lado, não deixa de espantar ver líderes mundiais, em particular aqui na Europa, fazer de conta que existe um plano de Donald Trump para Gaza minimamente credível.

"Sim, por favor, qualquer coisa que pare com a matança", diz o coração. A memória, desafortunadamente, tem obrigação de desconfiar.

Fachin semeia em solo infértil. Por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Novo presidente do Supremo proferiu palavras certas no momento necessário à contenção

Resta saber se nos três Poderes em disfunção haverá ouvidos dispostos a compreender a mensagem

Em matéria de carta de intenções, o discurso inaugural de Luiz Edson Fachin na presidência do Supremo Tribunal Federal incluiu as melhores. A estreia sem festejos excessivos, com prestígio ao coral da casa, fez jus ao apelo à contenção.

Palavras, gestos e recados certos no momento necessário. Primazia ao colegiado, atenção à segurança jurídica, senso de dever em detrimento da sensação de poder, reprovação a privilégios, resistência à tentação do espetáculo midiático, elogio à austeridade —estava tudo lá e mais a frase síntese: "Ao direito o que é do direito, à política o que é da política".

O país precisa de uma direita republicana. Por Wilson Gomes

Folha de S. Paulo

Há direita republicana com regras, freios e responsabilidade

Conservador pode escolher ordem com garantias, não exceção iliberal

Há duas forças interessadas em borrar a distinção entre direita republicana e extrema direita: a própria extrema direita e setores da esquerda radical. A primeira precisa convencer o eleitor de direita de que sua única alternativa política real é uma plataforma iliberal. A segunda prefere reduzir tudo à sua direita a um rótulo único —"fascismo"— porque isso simplifica o conflito, rende mobilização moral e dispensa distinguir adversários legítimos de inimigos da democracia.

Ao país, porém, essa diferença faz falta: sem direita republicana reconhecida, cresce o espaço para aventuras iliberais.

Trump dá uma dentro com plano para Gaza. Por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Proposta de paz do presidente americano tem problemas, mas é chance de parar carnificina

Se acordo avançar, haveria governo palestino formado por tecnocratas e sem participação do Hamas

Não costumo perder oportunidades de criticar Trump, então, hoje, para variar, vou elogiar seu plano de paz para o Oriente Médio. A proposta tem inúmeros problemas, mas oferece uma chance palpável de interromper a carnificina em Gaza. Não desperdiçá-la é um imperativo moral.

Poesia | Ser ou não ser, de William Shakespeare

Música | Paulinho da Viola - Foi um rio que passou em minha vida

 

terça-feira, 30 de setembro de 2025

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Fachin acerta ao pregar Supremo longe da política

Por O Globo

Novo presidente do STF faz bem em fugir dos holofotes, mas não poderá se esquivar de questões espinhosas

Na cerimônia de posse como novo presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), o ministro Edson Fachin deu o tom que pretende imprimir a sua gestão. “Assumo não um Poder, mas um dever: respeitar a Constituição e apreender limites. Buscaremos cultivar a virtude do discernimento”, afirmou. “Ao Direito, o que é do Direito. À política, o que é da política.” A tônica de seu discurso foi a institucionalidade e o chamado ao diálogo republicano entre os Poderes, sem que o Judiciário fique submetido a populismos. Sua discrição já ficara nítida quando ele recusou qualquer badalação e festa de celebração. É sem dúvida positivo que tente desviar do Supremo os holofotes que, nem sempre com razão, se voltam para a Corte e seus ministros. Mas será preciso agir com determinação quando necessário. O STF não pode se esquivar de enfrentar questões espinhosas que volta e meia acabam por desaguar lá.

A linguagem do dinheiro. Por Merval Pereira

O Globo

As negociações entre Brasil e Estados Unidos têm de deixar a política de lado e focar nas trocas comerciais

Como a política brasileira é muito fluida, essa afirmação é arriscada, os tempos recentes estão aí a nos mandar não ter pressa para afirmações definitivas. Se Lula cometer erros grosseiros, ou se a saúde não permitir, ele voltará a pôr em risco sua provável vitória. A pouco mais de um ano das eleições, sua proverbial sorte lhe deu uma saída magnífica com a desastrada ação de agentes de Bolsonaro em solo americano, desvelados como agentes antinacionais a serviço de Trump.

Se a aparente vitória de Lula nessa disputa permitir que ele aja como estadista, e não como reles politiqueiro, terá um caminho aplainado pela frente, pois a direita submissa ao ex-presidente erra dia sim, outro também. Caso contrário, a hubris, palavra grega que significa confiança desmesurada que leva alguém a superestimar suas capacidades, fará com que perca essa oportunidade rara que ganhou. Brincar dizendo que levará a primeira-dama, Janja, ao encontro com Trump pode sugerir esse estágio de soberba.

País precisa de um Congresso renovado. Por Fernando Gabeira

O Globo

Agora ficou mais evidente que Lula será reeleito, porque a oposição pisoteou algumas de suas próprias bandeiras

Semana passada, um hater me chamou de Matusalém. Só para contrariá-lo, farei algumas previsões sobre o futuro. Não um futuro distante, mas os poucos anos que me restam.

Minha filosofia é a do poema “Quando vier a primavera”, de Fernando Pessoa: Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem./Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele./Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.

Por enquanto, ainda há o que fazer. Vejo o Brasil numa encruzilhada e o mundo como um espaço absurdo, onde a mensagem do homem mais poderoso é sobre uma escada rolante emperrada, e algumas aberrações como o perigo das energias alternativas.

O mundo que as redes criaram. Por Pedro Doria

O Globo

Os grupos se fecharam no entorno da identidade comum e passaram a ver o resto da sociedade como rival

O período que se seguiu à morte do ativista de direita americano Charlie Kirk foi intenso. Muita gente foi demitida, muita gente foi cancelada, muita gente foi calada — e não só nos Estados Unidos, também aqui no Brasil. A maioria era, essencialmente, responsável pelo terrível crime de mau gosto. Dizer coisas fora do tom, desagradáveis, porque não gostavam de Kirk. Não faltou quem comparasse o comportamento das massas canceladoras da direita aos muitos canceladores de esquerda. Porque, afinal, o comportamento foi rigorosamente o mesmo.

Pois é, nos tempos da internet, uma das coisas que viraram tabu é comparar esquerda com direita. Afinal, a extrema direita no Brasil tentou um golpe de Estado, nos Estados Unidos promove o descrédito do sistema eleitoral, na Europa o partido alemão AfD quer vestir roupa nova no velho nazismo, e a xenofobia corre solta. Assim, para qualquer tentativa de fazer comparação, alguém tira da manga a carta da falsa equivalência. Isso não muda o fato à nossa frente. A direita trumpista se comportou igualzinho à esquerda woke. Tem explicação. Uma explicação que envolve redes sociais e ajuda a compreender a crise democrática.

Recados da posse de Fachin. Por Míriam Leitão

O Globo

Em sua posse no STF, Fachin deixou claro que defesa da democracia e dos direitos de grupos discriminados serão centrais em seu mandato

A posse do ministro Edson Fachin na presidência do Supremo Tribunal Federal foi um momento de forte defesa da democracia, e de tudo o que compõe um regime constitucional, a garantia dos direitos de populações discriminadas e vulneráveis. Não houve meias palavras. Elas foram ditas inteiras, em todos os discursos, principalmente no da ministra Cármen Lúcia, e no do juiz que, nos próximos dois anos, será o chefe do poder Judiciário brasileiro.

— Ao Direito o que é do Direito, à política o que é da política — disse Edson Fachin, demarcando o terreno que tem estado dominado pelo conflito e pela acusação recíproca de invasão de áreas de competência.

— A espacialidade da política é delimitada pela Constituição. A separação dos poderes não autoriza nenhum deles a atuar segundo objetivos que se distanciem do bem comum. O genuíno estado de direito conduz à democracia — completou Fachin.

Autocontenção de Fachin não resistiu à posse. Por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Se alguma contenção haverá, será nos modos e costumes da Corte e não nos propósitos ou no poder de agenda e pauta daquele que a conduzirá por dois anos

A promessa de autocontenção do novo presidente do Supremo Tribunal Federal se desmanchou na largada. Com 19 páginas, além de uma nominata dobrada, o discurso de posse do ministro Edson Fachin durou uma hora. E mostrou que se alguma contenção haverá, será nos modos e costumes da Corte e não nos propósitos ou no poder de agenda e pauta daquele que a conduzirá por dois anos.

No lugar de intérpretes da música popular brasileira cantando à capela no plenário, o hino nacional ficou por conta do “Supremo encanto”, o coral da Corte posicionado numa abertura lateral com todos os integrantes de meia-idade vestidos com uma longa bata azul. No lugar das festas de posse financiadas por associações de magistrados, entrou café e água. Mal deram conta do calor de um plenário superlotado mas suscitam algum alento à expectativa de que Fachin coloque o Conselho Nacional de Justiça (CNJ), que também presidirá, no combate à magistocracia (“Antes mesmo dos direitos, temos deveres a cumprir”) com a criação de um Observatório de Integridade e Transparência.

O ‘novo STF’ com Fachin. Por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Fachin: sem festas e política, com pragmatismo, diálogo e muita discrição

“Ao Direito o que é do Direito, à política o que é da política.” Com essa frase machadiana, o novo presidente do Supremo, Luiz Edson Fachin, disse a que veio e mandou um recado claro para Legislativo, Executivo e o próprio Judiciário, que vivem às turras e driblando a Constituição, que determina independência e convivência pacífica entre os Poderes e que todos juram respeitar.

Fachin nasceu em berço simples, veio da magistratura e traz o vício, ou melhor, a cultura da discrição e de falar “para dentro”, diferentemente de seu antecessor Luís Roberto Barroso, que tem origem na elite e vem da advocacia, pratica a eloquência e fala “para fora”. Um vive no mundo do Direito, o outro vive no mundo do Direito, da política, da sociedade.

Fachin não vai cantar. Por Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

O cronista tem baixíssima expectativa sobre a gestão de Luiz Edson Fachin à frente do Supremo e celebra somente a certeza, a única certeza, de que o novo presidente do tribunal não cantará. Fachin não vai cantar. Já é muito. Tampouco será visto saracoteando na Sapucaí. Sai o passista credenciado Luís Roberto Barroso. Entra um juiz. Juízes erram. Errado é um juiz que derrota algo – hoje o bolsonarismo, amanhã (de novo) o petismo.

Ninguém aguentava mais ser salvo por Barroso. Custa caro. Fachin se beneficia por contraste. Não que não tenha suas relações e preferências. Nós não as conhecemos. Não lhes somos expostos. Não sendo conhecidas, mais dificilmente se expandirão. Chamam isso de discrição – o mínimo que se espera de um magistrado. Não dará entrevistas, não terá atividades empresariais, não irá a festas bancadas pela corporação (para beija-mão de advogados), nem discursará sobre a nossa miséria e como nos protegeu de nós mesmos. Já é muito.

Fachin assume a Presidência do Supremo para encerrar um ciclo. Por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Discreto, firme e avesso a encontros sociais, muito frequentes em Brasília, o paraíso dos advogados, nem sempre o novo presidente do Supremo votou com a maioria dos colegas

A posse do ministro Edson Fachin na Presidência do Supremo Tribunal Federal (STF), nesta segunda-feira, representa uma mudança de estilo no comando da Corte, pois deve adotar uma postura mais discreta do que Luís Roberto Barroso, que enfrentou um dos momentos mais difíceis da história da instituição: o inédito julgamento de um ex-presidente de República e seus generais por tentativa de golpe de Estado. Fachin, porém, deve promover uma contenção da atuação do STF, que se aproxima da conclusão dos julgamentos dos acusados de tentativa de golpe de Estado de 8 de janeiro.

Fachin é esperança de autocontenção do Supremo. Por Joel Pinheiro da Fonseca

Folha de S. Paulo

O Supremo vem tomando um papel sempre maior na sociedade e não é de hoje

A base de todo poder e também dos limites ao poder vem do consentimento dos governados

O discurso de Fachin ao tomar posse como presidente do Supremo trouxe uma profunda verdade da filosofia política: "A fé antecede as instituições —e digo isso não necessariamente em sentido religioso, e sim na perspectiva da ciência política. A mensagem é simples: só há autoridade verdadeira quando há confiança coletiva no que é justo."

Com sua fala, o ministro se coloca na tradição filosófica de Etienne de la Boétie e David Hume, que colocou de forma sucinta: "É, portanto, apenas sobre a opinião que o governo se funda". Sejam reis e déspotas ou as modernas Constituições democráticas, cada um deles só tem o poder de moldar a sociedade e comandar obediência porque uma massa crítica da população aceita e acredita —ainda que passivamente— nesse poder.

Novo presidente do Supremo enxerga "exaustão constitucional". Por Ayle quintão

O novo presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Édson Fachin, empossado nessa segunda-feira (29),  deve passar a  frequentar  cada vez mais as missas em Brasília.   Devedor dos conselhos da mãe; quando jovem,  vendedor de laranjas nas ruas de Curitiba com o avô , conseguiu cursar e exercer a advocacia e chegar a Presidência  das mais alta Corte de Justiça  do Brasil,   nomeado  pela então presidente Dilma Roussef,  após a aposentadoria do ministro Joaquim Barbosa,  relator do Mensalão. A relatoria do escândalo  o alcançou também, depois da  emblemática morte do então relator, Teori Zavaski.  Nessa mesma condição foi ainda protagonista  no   tal "Joesleygate" -  delitos do governo Michel Temer  - e, ombreando-se com o ministro, Dias Tófoli , ajudou a  enterrar a  corrupção ativa e passiva da Lava Jato..., de intrigante memória. 

O lado bom da briga. Por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Atritos entre Câmara e Senado são produtivos quando impedem que acordos espúrios prosperem

Deputados que prometem retaliação a senadores não parecem satisfeitos com a traulitada levada nas ruas

No conflito de interesses entre a Câmara e o Senado, o melhor lado ainda é o da briga. Ao menos enquanto as divergências interditarem acordos espúrios e preservarem o mínimo de decência na condução dos trabalhos no Congresso.

Não é o que parecem pretender deputados que dizem estar preparados para retaliar os senadores por causa da derrubada da PEC da Blindagem e do freio imposto à anistia travestida de dosimetria.

E se Bolsonaro morrer na cadeia? Por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Na pandemia, ex-presidente não se sensibilizava com agravos sanitários e óbitos

STF precisa estar atento à saúde de custodiados, mas não pode violar igualdade republicana

A anistia ampla aos golpistas parece ser carta fora do baralho na agenda política nacional. Uma mudança legislativa que resulte em redução de pena ainda é viável, mas não evitaria que o ex-presidente começasse a cumprir sua sentença em regime fechado.

O caminho menos tortuoso para aliviar a situação do capitão reformado seria o benefício da prisão domiciliar, por causa dos problemas de saúde que ele desenvolveu após a facada que levou em 2018.

Concessão de espaços públicos à iniciativa privada domina o Rio. Por Alvaro Costa e Silva

Folha de S. Paulo

Estimadas em R$ 120 milhões, obras no Jardim de Alah dividem a população

Prefeitura construções no Passeio Público, mais antigo parque da América Latina

De olho no voto evangélico, a ponto de dizer que "mexeu com Malafaia, mexeu comigo", Eduardo Paes toca o projeto que vai substituir a Cidade das Crianças pela Terra Prometida. O visitante do parque, com 198 mil metros quadrados, em Santa Cruz, na zona oeste, poderá se perder na Torre de Babel e atravessar o Mar Vermelho.

O custo do milagre não foi divulgado. Mas terá o dedo da iniciativa privada, no modelo de concessão, com empresas explorando o espaço público. Foi assim no parque Monarco, em Madureira, e em outras praças da zona norte. Nada contra. A questão é estabelecer urgência, benefícios e limites do negócio.

Edson Fachin toma posse como presidente do STF

 

Fachin discursa como novo Presidente STF

 

Poesia | Quem sabe um dia, de Mário Quintana

 

Música | Beth Carvalho e Zeca Pagodinho - Camarão que dorme a onda leva / São José de Madureira / Dor de amor

 

segunda-feira, 29 de setembro de 2025

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Solução para os Correios é privatizar enquanto é tempo

Por O Globo

Modelo está pronto e ainda há interessados. Com acúmulo de prejuízos, em breve não haverá mais

Uma das primeiras medidas de Luiz Inácio Lula da Silva ao voltar ao Planalto foi retirar os Correios da lista de privatizações. A justificativa alegada foi a opção pelo saneamento da Empresa de Correios e Telégrafos (ECT), de modo que pudesse ser mantida como empresa pública para cumprir sua “função social”. Diante da previsível resistência corporativa numa estatal com 85 mil funcionários, profundamente deficitária, cujos cargos são loteados politicamente, nada foi feito. A atividade postal básica — entrega diária de correspondência em todo o território nacional — não é cumprida sequer em bairros de elite do Rio.

Na mesma toada: mais gastos, mais impostos. Por Carlos Alberto Sardenberg

O Globo

O governo ainda está precisando de truques para cumprir a meta de déficit zero neste ano

O noticiário tem sido dominado pela política. Faz sentido. Não é todo dia que um ex-presidente é condenado a 27 anos de prisão num julgamento televisionado ao vivo. Além disso, já está na pauta a eleição nacional de 2026, com os eventuais candidatos em plena campanha.

As questões econômicas tornam-se secundárias, e isso até ajuda o governo na busca por mais arrecadação. Mas basta olhar mais de perto, e lá está a equipe econômica naquela mesma toada: elevando os gastos e procurando impostos para fechar as contas, tanto as deste ano como as de 2026.

Temos alguns exemplos.

Dentro do bunker. Por Demétrio Magnoli

O Globo

Eleitorado democrata nos EUA praticamente circunscreve-se às elites detentoras de diploma de educação superior

‘A classe trabalhadora é um grupo racista, xenófobo, misógino, ultrarreligioso e ignorante. A esquerda só pode recapturá-lo incorporando seus pontos de vista e desistindo de seus próprios valores de tolerância, equidade e empatia. O fato de que isso é intragável é a razão por que a humanidade sempre regressa a seu estado mais vil, autoritário e patriarcal.’

Os diagnósticos acima não partem de algum conhecido pensador, mas de um leitor de esquerda, no espaço de comentários do New York Times, junto a uma coluna de opinião sobre a perda da classe trabalhadora pelo Partido Democrata. São relevantes precisamente porque o leitor afirma com clareza aquilo que quase nunca fica explícito nos textos coreografados de líderes ou ideólogos. O leitor delineia uma visão profundamente pessimista sobre o futuro e reconhece implicitamente que os valores da esquerda pós-moderna a inviabilizam eleitoralmente.

COP30, o clima e a favela. Por Preto Zezé

O Globo

Transição ecológica, para ser justa e efetiva, deve começar onde o Estado não chega, ou só chega com repressão e descaso

As mudanças climáticas são, antes de tudo, uma crise urbana. Nas cidades se concentram os efeitos mais visíveis e violentos da emergência climática: enchentes arrastam vidas e histórias, ondas de calor sufocam bairros sem verde, deslizamentos escancaram o abandono das favelas, e a precariedade do saneamento se transforma em vetor de doenças.

Se o impacto é urbano, a solução também precisa ser. O problema é que muitas cidades ainda tratam a pauta ambiental como distante, técnica, restrita a conferências e relatórios em inglês. Mas ela está no esgoto a céu aberto, na rua que alaga, na falta de sombra, no transporte precário, no lixo acumulado onde deveria haver praça, cuidado e vida.

A crise climática tem CEP. E esse CEP costuma ser de favela.