Valor Econômico
Obra de José Saramago dialoga com a realidade brasileira, num momento em que os brasileiros voltarão às urnas no domingo
“Domingo, queridos compatriotas, será um
bonito dia”, saudou o primeiro-ministro, referindo-se à segunda rodada de
votações. A nova consulta aos eleitores se impôs diante do resultado do
escrutínio anterior, quando a soma dos votos válidos dos partidos da direita, do
centro e da esquerda não alcançou 25%. Mais de 70% foram votos em branco.
No país imaginário criado por José Saramago em seu “Ensaio sobre a Lucidez” (2004), o placar inédito obrigou o retorno dos eleitores às urnas. Uma preocupação das autoridades era com a abstenção, em face da apatia do eleitorado. Mas se deu o contrário: o povo compareceu em massa para enviar um recado ainda mais estridente: 83% dos votos em branco.
Na reunião para avaliar o ocorrido, um
ministro classificou a rebelião dos eleitores como uma manifestação de cegueira
coletiva. Em contraponto, o ministro da Justiça afirmou se tratar, na verdade,
de um surto de lucidez da população.
O vencedor do Prêmio Nobel parte de uma “pane
cívica” para refletir sobre democracia, o poder do voto e questionar o modelo e
o vigor das instituições. Com linguagem ácida e ceticismo, Saramago não propõe
a substituição da democracia, mas questiona a eficácia do modelo de
representação popular pelo voto. “É, ao mesmo tempo, uma fábula, uma sátira e
uma tragédia”, disse o escritor. “Quis que a fábula fosse uma sátira, mas não
pude evitar que fosse também uma tragédia. Como a vida”, lamentou.
A obra dialoga com a realidade brasileira,
num momento em que os brasileiros voltarão às urnas no domingo (25) para
escolher o próximo presidente da República. A eleição ocorre em meio a uma
conjuntura de polarização cristalizada, em que o resultado sacramentará o
destino de uma das forças que mobilizaram os eleitores nos últimos anos: o
lulismo e o bolsonarismo.
Assim como no romance, apatia e insatisfação
movem o eleitorado, diante de um sistema que veem corrompido, com as revelações
em torno da fraude do Banco Master, e dos vínculos do ex-banqueiro Daniel
Vorcaro com personalidades dos três Poderes. A situação de empate técnico entre
o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o candidato do PL, Flávio Bolsonaro,
evidencia o acirramento da polarização e sugere que não haverá calmaria depois
da tempestade, seja qual deles vencer a disputa. A expectativa é de uma
diferença no placar ainda menor do que a vantagem de Lula sobre Jair Bolsonaro
(PL) em 2022, de apenas 1,8% dos votos válidos, ou 2,1 milhões de votos.
Primeiro de tudo, qualquer um dos vencedores
herdará um país com as contas públicas comprometidas pela escalada da dívida, e
sem que nenhum deles tenha se comprometido com o reequilíbrio fiscal.
Se a maioria dos eleitores conceder um quarto
mandato para Lula, o petista terá de comandar um governo de transição para a
retomada do debate político sem ódio e pautado em propostas, num cenário em que
a direita tradicional, que no passado foi representada pelo PSDB de Fernando
Henrique Cardoso, consiga se reposicionar.
Eventual consagração de Lula não significará
a sobrevida do lulismo ou do petismo, mas, sim, a união de várias forças -
esquerda, centro e direita tradicional - contra o bolsonarismo, identificado
por uma parcela da sociedade como uma direita radicalizada. Sem o compromisso
com uma frente ampla, que ficou em segundo plano no terceiro mandato, a
governabilidade de Lula será impraticável, diante da hegemonia do PL no
Congresso.
Na outra ponta, a vitória de Flávio Bolsonaro
dará novo impulso ao bolsonarismo, confirmará a hegemonia da direita de viés
mais radical, e encerrará o longevo ciclo do lulismo, cuja origem remonta ao
final dos anos 1970. O senador do PL contará com ampla governabilidade no
Congresso, num cenário em que terá sido eleito com apoio das forças do Centrão,
que se uniram a ele no segundo turno.
Ao mesmo tempo, poderá formar maioria no
Supremo Tribunal Federal (STF), em meio à expectativa de impeachment de
ministros da Corte, a começar pelo algoz da família, Alexandre de Moraes.
Um desafio de Flávio será viabilizar a
convivência de forças antagônicas que lhe darão sustentação política, como o
Centrão e a bancada do PL. Outro problema será a rejeição de metade da
população a algumas de suas bandeiras principais, a começar pela anistia ao seu
pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, que cumpre pena pela tentativa de golpe de
Estado em 2022. Pesquisa Quaest de 14 de outubro mostrou que 47% dos eleitores
se dizem contrários à proposta. Em contraponto, Flávio tem aval expressivo da
população para dois projetos caros ao bolsonarismo. O mesmo levantamento da
Quaest mostrou que 63% dos eleitores aprovam o impeachment de ministros do STF,
enquanto 80% são favoráveis à redução da maioridade penal. Foi em razão dessa
maioria que Lula recuou de uma posição histórica para se declarar a favor da
redução da maioridade nas hipóteses de crimes hediondos.
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2 comentários:
Muito bom! Mas só um dos possíveis desfechos será a favor da Democracia brasileira! O desfecho alternativo certamente será contra nossa Democracia.
Bolsonarismo não é Direita, é facção criminosa e antidemocrática!
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