sexta-feira, 23 de outubro de 2026

‘Domingo será um bonito dia’ para nossa democracia, por Andrea Jubé

Valor Econômico

Obra de José Saramago dialoga com a realidade brasileira, num momento em que os brasileiros voltarão às urnas no domingo

“Domingo, queridos compatriotas, será um bonito dia”, saudou o primeiro-ministro, referindo-se à segunda rodada de votações. A nova consulta aos eleitores se impôs diante do resultado do escrutínio anterior, quando a soma dos votos válidos dos partidos da direita, do centro e da esquerda não alcançou 25%. Mais de 70% foram votos em branco.

No país imaginário criado por José Saramago em seu “Ensaio sobre a Lucidez” (2004), o placar inédito obrigou o retorno dos eleitores às urnas. Uma preocupação das autoridades era com a abstenção, em face da apatia do eleitorado. Mas se deu o contrário: o povo compareceu em massa para enviar um recado ainda mais estridente: 83% dos votos em branco.

Na reunião para avaliar o ocorrido, um ministro classificou a rebelião dos eleitores como uma manifestação de cegueira coletiva. Em contraponto, o ministro da Justiça afirmou se tratar, na verdade, de um surto de lucidez da população.

O vencedor do Prêmio Nobel parte de uma “pane cívica” para refletir sobre democracia, o poder do voto e questionar o modelo e o vigor das instituições. Com linguagem ácida e ceticismo, Saramago não propõe a substituição da democracia, mas questiona a eficácia do modelo de representação popular pelo voto. “É, ao mesmo tempo, uma fábula, uma sátira e uma tragédia”, disse o escritor. “Quis que a fábula fosse uma sátira, mas não pude evitar que fosse também uma tragédia. Como a vida”, lamentou.

A obra dialoga com a realidade brasileira, num momento em que os brasileiros voltarão às urnas no domingo (25) para escolher o próximo presidente da República. A eleição ocorre em meio a uma conjuntura de polarização cristalizada, em que o resultado sacramentará o destino de uma das forças que mobilizaram os eleitores nos últimos anos: o lulismo e o bolsonarismo.

Assim como no romance, apatia e insatisfação movem o eleitorado, diante de um sistema que veem corrompido, com as revelações em torno da fraude do Banco Master, e dos vínculos do ex-banqueiro Daniel Vorcaro com personalidades dos três Poderes. A situação de empate técnico entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o candidato do PL, Flávio Bolsonaro, evidencia o acirramento da polarização e sugere que não haverá calmaria depois da tempestade, seja qual deles vencer a disputa. A expectativa é de uma diferença no placar ainda menor do que a vantagem de Lula sobre Jair Bolsonaro (PL) em 2022, de apenas 1,8% dos votos válidos, ou 2,1 milhões de votos.

Primeiro de tudo, qualquer um dos vencedores herdará um país com as contas públicas comprometidas pela escalada da dívida, e sem que nenhum deles tenha se comprometido com o reequilíbrio fiscal.

Se a maioria dos eleitores conceder um quarto mandato para Lula, o petista terá de comandar um governo de transição para a retomada do debate político sem ódio e pautado em propostas, num cenário em que a direita tradicional, que no passado foi representada pelo PSDB de Fernando Henrique Cardoso, consiga se reposicionar.

Eventual consagração de Lula não significará a sobrevida do lulismo ou do petismo, mas, sim, a união de várias forças - esquerda, centro e direita tradicional - contra o bolsonarismo, identificado por uma parcela da sociedade como uma direita radicalizada. Sem o compromisso com uma frente ampla, que ficou em segundo plano no terceiro mandato, a governabilidade de Lula será impraticável, diante da hegemonia do PL no Congresso.

Na outra ponta, a vitória de Flávio Bolsonaro dará novo impulso ao bolsonarismo, confirmará a hegemonia da direita de viés mais radical, e encerrará o longevo ciclo do lulismo, cuja origem remonta ao final dos anos 1970. O senador do PL contará com ampla governabilidade no Congresso, num cenário em que terá sido eleito com apoio das forças do Centrão, que se uniram a ele no segundo turno.

Ao mesmo tempo, poderá formar maioria no Supremo Tribunal Federal (STF), em meio à expectativa de impeachment de ministros da Corte, a começar pelo algoz da família, Alexandre de Moraes.

Um desafio de Flávio será viabilizar a convivência de forças antagônicas que lhe darão sustentação política, como o Centrão e a bancada do PL. Outro problema será a rejeição de metade da população a algumas de suas bandeiras principais, a começar pela anistia ao seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, que cumpre pena pela tentativa de golpe de Estado em 2022. Pesquisa Quaest de 14 de outubro mostrou que 47% dos eleitores se dizem contrários à proposta. Em contraponto, Flávio tem aval expressivo da população para dois projetos caros ao bolsonarismo. O mesmo levantamento da Quaest mostrou que 63% dos eleitores aprovam o impeachment de ministros do STF, enquanto 80% são favoráveis à redução da maioridade penal. Foi em razão dessa maioria que Lula recuou de uma posição histórica para se declarar a favor da redução da maioridade nas hipóteses de crimes hediondos.

Na obra de Saramago, a fábula política termina em tragédia. Como nem sempre a ficção imita a realidade, a torcida é para que o desfecho desta disputa presidencial seja a favor da democracia e dos brasileiros.

2 comentários:

Anônimo disse...

Muito bom! Mas só um dos possíveis desfechos será a favor da Democracia brasileira! O desfecho alternativo certamente será contra nossa Democracia.

Anônimo disse...

Bolsonarismo não é Direita, é facção criminosa e antidemocrática!