Lula e Flávio prometem tudo, como se dinheiro brotasse do nada
Por O Globo
Ou vencedor fará o contrário do que prometeu,
ou criará uma armadilha fiscal para seu próprio governo
Na reta final da campanha, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL) ampliaram o anúncio de “bondades” para tentar conquistar os eleitores que podem fazer diferença para a vitória. De um lado e de outro, prometem tudo, a qualquer preço. Os postulantes ao mais alto cargo da República só não dizem como acomodarão a profusão de benesses a um Orçamento engessado, que mal dá para as demandas básicas. É como se o dinheiro para pagar brotasse do nada. Independentemente de quem vença no domingo, cumprir os compromissos assumidos agravará a situação fiscal já dramática.
Lula, que largou em desvantagem no primeiro
turno, tem enfileirado propostas populistas na tentativa de recuperar terreno.
Só nos últimos dias, lançou um programa de ajuda a microempreendedores
individuais (MEIs) e enviou ao Congresso uma Proposta de Emenda à Constituição
prevendo tarifa zero para ônibus aos fins de semana em todo o país. Sem falar
na antecipação do pagamento do valor reajustado em 15% do Bolsa Família —
decidido às pressas e anunciado em 17 de setembro —, para que os beneficiários
recebam o dinheiro antes do segundo turno. O programa para MEIs e o passe livre
no transporte se somam à lista de “bondades” anunciadas desde o início do ano,
na forma de benefícios ou alívio a dívidas, cujo custo para os cofres públicos
gira em torno de R$ 300 bilhões.
Flávio tem seguido a mesma cartilha. Numa de
suas últimas promessas, anunciou a retomada do Programa Emergencial do Setor de
Eventos (Perse), que sugou R$ 60 bilhões dos cofres públicos em quatro anos.
Quando foi criado, em plena pandemia, o objetivo era defensável: apoiar
empresas afetadas pelo isolamento social. Não faz sentido ressuscitá-lo quando
não há emergência sanitária. Embora também fale em ajuste fiscal de R$ 200
bilhões, Flávio tem dito que não pretende mexer nas regras de reajuste de
aposentadorias e salário mínimo acima da inflação. Qualquer ajuste fiscal sério
precisaria revê-las. Sua campanha ainda anunciou que ampliaria para dois anos a
permanência no Bolsa Família em caso de aumento de renda e acenou com novo
aumento. Some-se a isso a promessa do ViraPix, programa de recompensa aos
brasileiros no pagamento de boletos, prestações e taxas.
É consenso que as “bondades” em série anunciadas
pelos candidatos não cabem nas contas do governo. Infelizmente, a legislação
tem se revelado incapaz de coibir promessas inexequíveis e de conter a gastança
do governo no ano da eleição. A lei deveria proibir explicitamente reajustes de
benefícios, Medidas Provisórias ou outras iniciativas legislativas criando
benesses às vésperas do pleito, expedientes já usados por outros que tentaram
se reeleger, como Jair Bolsonaro ou Dilma Rousseff. Prometer sem poder cumprir
é péssimo; governos adotarem medidas concretas tem de ser ilegal.
Além do precedente nocivo para futuras
eleições, a profusão de promessas impunes cria uma situação insólita: mesmo
conscientes da deterioração das contas públicas, Lula e Flávio não param de
defender novos gastos que sufocarão ainda mais o Orçamento. Das duas uma: ou o
vencedor terá de fazer o contrário do que disse durante toda a campanha, ou
então fará exatamente o que foi dito, ampliando o rombo fiscal e criando uma
armadilha para si mesmo e para seu governo. Nenhuma das alternativas é
tranquilizadora.
Invasão da rede de câmeras de SP deve servir
de lição a todo o país
Por O Globo
Por 11 meses, Smart Sampa ficou exposta a
todos, inclusive a criminosos. Caso não pode se repetir
É extremamente preocupante o vazamento das
credenciais de acesso à rede de mais de 58 mil câmeras de monitoramento de ruas
e trânsito na cidade de São Paulo,
conhecida como Smart Sampa. Iniciativa da Prefeitura, ela funciona 24 horas por
dia para identificar, por reconhecimento facial, quem está em dívida com a
Justiça e foragidos das cadeias, além de veículos roubados com placas
adulteradas. A rede ficou sem proteção durante 11 meses, período durante o qual
era possível ver em tempo real as principais vias da cidade, postos de saúde,
unidades de pronto atendimento, creches e alas psiquiátricas de hospitais.
Criminosos que porventura tenham acessado o Smart Sampa nesse período puderam
acompanhar a movimentação do policiamento antes de praticar furtos ou assaltos.
Era possível também, com conhecimento técnico, monitorar qualquer um pelas ruas
da cidade.
O Smart Sampa reúne câmeras públicas e
privadas, justamente com o objetivo de facilitar o combate ao crime. É instrumento
de grande valia para garantir a segurança numa cidade do tamanho de São Paulo.
Desde o início da operação, em 2024, já identificou 3.628 foragidos da Justiça
e localizou 284 desaparecidos. No Rio, uma rede semelhante entrou em operação
na mesma época e, até agosto, já havia permitido a prisão de 300 acusados de
furto, roubo, assassinato, tráfico de drogas, estupro, violência
doméstica e até de não pagar pensão alimentícia.
Tais redes dependem, obviamente, de sistemas
robustos de segurança para evitar violação de privacidade ou uso por
criminosos. De acordo com as investigações, 181 logins e senhas do Smart Sampa
ficaram expostos na internet, além de dados de 6 mil agentes de segurança.
Também ficaram acessíveis instruções para reproduzir o sistema em telefone
celular ou computador. Um agente da Guarda Civil Metropolitana (GCM) foi
afastado, sob suspeita de ter aberto acesso não apenas a logins e senhas, mas
também ao código-fonte, valioso para alguém de fora da Prefeitura manipular a
rede.
“O episódio evidencia falhas na política de
segurança da informação e na proteção do acesso a milhares de câmeras”, diz
Jéferson Campos Nobre, do Instituto de Informática da Universidade Federal do
Rio Grande do Sul. Não basta instalar essas redes. É essencial monitorar o
acesso. O Smart Sampa nem sequer exigia autenticação em duas etapas, camada de
segurança adicional comum em sites de vendas, bancos ou serviços públicos.
A blindagem de tais sistemas contra invasões precisa ser inviolável. A criminalidade há tempos migra das ruas para o meio digital. Deixar abertas as portas de uma rede de 58 mil câmeras é conceder ao crime uma vantagem inaceitável. O Ministério Público de São Paulo precisa com urgência abrir inquérito para que se tenha uma visão detalhada do que aconteceu, de modo a ajustar protocolos e recursos de proteção do sistema. O resultado das investigações precisará ser compartilhado com outras cidades que usam redes similares. Caso de tal envergadura simplesmente não pode se repetir.
Flávio vai do populismo penal ao incentivo a
maus policiais
Por Folha de S. Paulo
Candidato do PL classifica como
'detalhezinho' texto que elimina a possibilidade de rastrear munições
Ideias como castração química de estupradores
e redução da maioridade penal falam à população cansada da violência, mas fazem
pouco para combatê-la
Vindo de um candidato ao Planalto que
pretende personificar a lei e a ordem, deveria causar espécie o apoio de Flávio
Bolsonaro (PL)
ao projeto que, entre outras providências, elimina
a rastreabilidade de munições vendidas no país.
Afinal, a gravação de códigos, nas embalagens
e nos próprios cartuchos, que permitem identificar os lotes de fabricação e sua
história de comercialização constitui um elemento importante do combate ao
crime.
Advogar pelo fim dessas informações seria
como pedir que celulares pré-pagos voltem a ser vendidos sem registrar o CPF de
quem os adquire ou dispensar a indústria automobilística de gravar o número de
identificação no chassi dos veículos —é proposta de quem quer incentivar o uso
ilícito, não combatê-lo.
Depois de ter sido cobrado acerca de seu
apoio a esse projeto, Flávio esquivou-se —como de costume— e classificou o tema
como um "detalhezinho". São justamente os detalhes, porém, que
determinam o desfecho de uma investigação. Depois, em debate, o candidato do PL
negou a defesa da medida, incluída em texto que apoiou como senador.
Os maiores beneficiários da eliminação da
traçabilidade seriam agentes de segurança corruptos que participam do desvio de
compras oficiais de munição para o crime
organizado. São eles que ficariam desimpedidos.
Essa não é a única ideia incongruente de
Flávio na segurança pública. Suas declarações contra as câmeras
acopladas aos uniformes de policiais seguem a mesma lógica de proteger os
maus agentes em detrimento dos bons.
Já há farta evidência empírica de que as
câmeras favorecem as boas práticas policiais, contribuindo até para reduzir as
mortes em serviço. É igualmente perceptível que elas são uma ameaça aos
profissionais que violam protocolos, abusam de sua autoridade e até extorquem
cidadãos.
O programa de governo bolsonarista para o
setor está repleto de propostas que transitam entre o nefasto e o inócuo. Lá
estão castração química de estupradores, redução da maioridade
penal para 16 anos (14 anos para crimes mais graves), fim das progressões
de regime e exigência de cumprimento integral das sentenças para condenados por
crimes hediondos.
São teses que têm pouco ou nenhum amparo na
literatura científica, porém falam diretamente aos sentimentos de uma população
cansada da violência. O populismo penal pode até satisfazer momentaneamente boa
parte dos eleitores, mas faz muito pouco para de fato reduzir os índices de
criminalidade.
Numa abordagem mais cínica, seria até
possível usar o populismo para ganhar tempo enquanto os efeitos de medidas
eficazes de segurança pública não se materializam. Lamentavelmente, o programa
de Flávio não dá maiores detalhes sobre medidas de integração tecnológica de
polícias e asfixia
financeira de ativos das facções do narcotráfico.
Produtividade é esquecida na campanha
Por Folha de S. Paulo
Indicador essencial para o desenvolvimento do
país está estagnado há décadas e ausente no debate eleitoral
Em 1954, nossa produtividade correspondia a
51% da americana e, em 2023, a 50%; a taxa da Coreia do Sul era de 25% em 1954
e, hoje, é de 66%
A política fiscal tem sido, corretamente, a
tônica da preocupação do mercado. Há um ajuste imediato a fazer e muitas
dúvidas sobre o que o candidato que vencer as eleições fará.
Mas outro grande desafio está em geral
ausente do debate eleitoral: a produtividade.
Tanto Flávio
Bolsonaro (PL)
quanto Luiz Inácio Lula
da Silva (PT)
pouco ou nada falaram sobre o tema —o senador, crítico da política econômica
petista, apresentou um plano de governo em que a palavra
"produtividade" quase não aparece.
Os dados desse indicador são tão expressivos
quanto os fiscais para evidenciar o atraso do país.
Segundo o Penn World Table 11.0, o Brasil
tinha 37% do PIB
per capita americano em 1980, em paridade de poder de compra, ante 25% em 2023,
o ano mais recente da série histórica.
A estagnação da produtividade é uma das
causas. Em 1954, a brasileira correspondia a 51% da americana e, em 2023, a
50%. Perdemos ainda mais em comparação com outros países. A taxa da Coreia do Sul
era de 25% ante os EUA em 1954 e, hoje, é de 66%.
A maioria dos países desenvolvidos e
especialmente dos emergentes avançou em produtividade, com poucos estagnados em
patamares tão baixos —o mais próximo disso são as Filipinas.
Nessa reta final de campanha, seria
importante conhecer as propostas dos presidenciáveis.
Num mundo climaticamente hostil, qual é a
abordagem para aumentar a produtividade? Como lidar com a inteligência
artificial num país com baixos
níveis educacionais? Como conter o impacto do envelhecimento populacional e
a diminuição do número de jovens, estrato essencial à atividade econômica?
Boa parte dos países da OCDE criou
agências de produtividade; adensar as vantagens comparativas no que, de fato,
somos capazes de avançar —como powershoring, minerais críticos, bioeconomia,
entre outros— é medida recomendada por pesquisadores da Fundação Dom Cabral,
uma das principais escolas de negócios da América Latina.
Outras ações incluem o avanço nos acordos
comerciais, que ampliam o acesso a insumos e bens de capital necessários para
alavancar a competitividade das exportações, e a preservação da reforma
tributária, evitando a sua descaracterização, como a campanha de Flávio às
vezes sinaliza. Por fim, fazer o básico: melhorar a educação e a
infraestrutura.
Como disse Paul Krugman, produtividade não é tudo, mas, no longo prazo, é quase tudo, e isso deveria ser o mote para qualquer um que assuma a Presidência.
A grande dívida da educação
Por O Estado de S. Paulo
O Brasil praticamente universalizou matrículas, mas não a aprendizagem. É preciso priorizar o ensino básico e as instituições profissionalizantes e acadêmicas capazes de cumprir suas missões
A ampliação do acesso ao ensino foi uma
conquista nacional, mas ela expôs o descompasso entre o tamanho do sistema e o
que suas instituições entregam. Muitas crianças passam anos na escola sem
aprender a interpretar um texto ou fazer contas elementares. Cerca de um em
cada três adultos brasileiros é analfabeto funcional. As lacunas na formação
básica se acumulam, restringem o acesso à universidade e aos melhores empregos
e limitam o exercício da cidadania. Poucas injustiças são mais destrutivas do
que essa oferta de oportunidades tão desigual. Corrigi-la exige rever
prioridades.
A primeira escolha é distributiva. A
aprendizagem fundamental deve receber precedência porque suas deficiências
estreitam irreversivelmente as oportunidades dos jovens. O País construiu uma
máquina de transferência de renda às avessas, criando boas universidades
públicas para as elites, enquanto relegava a esmagadora maioria de suas
crianças a péssimas escolas públicas. As cotas podem ter grande valor para seus
beneficiários, mas seu efeito sobre a mobilidade social é quase nulo, porque
servem apenas a uma fração dos alunos das escolas públicas; os demais são
condenados a ingressar no mercado de trabalho com conhecimentos precários ou a
bancar cursos superiores privados de qualidade duvidosa. Esse modelo regressivo
precisa ser revertido: o ensino básico deve ocupar o centro das decisões
orçamentárias e administrativas.
Essa prioridade exige capacidade de ensinar.
Um currículo exigente só faz diferença se a escola descobrir cedo quem ficou
para trás e agir para corrigir deficiências. É preciso formar melhor os
professores, valorizá-los e dar às escolas direção e apoio pedagógico
competentes. Redes do Ceará mostram o que a cooperação entre Estado e
municípios e o foco na alfabetização podem alcançar. O exemplo deveria
incomodar governantes que preferem inaugurar prédios: a aprendizagem depende
fundamentalmente do trabalho na sala de aula e do apoio persistente da rede.
Mesmo um ensino fundamental excelente não
eliminaria as deficiências posteriores. Os paradigmas brasileiros ainda são
bacharelescos e a formação profissional é negligenciada. O ensino médio precisa
combinar conhecimentos gerais exigentes com trajetórias diversificadas,
oferecendo educação técnica de qualidade com possibilidades de progressão
acadêmica. Encaminhar alunos pobres a uma via estreita de treinamento
reproduziria a desigualdade. A liberdade de escolha pressupõe opções que
mereçam ser escolhidas.
No ensino superior, a massificação criou
desafios próprios. A maioria dos universitários frequenta instituições privadas
onde o ensino a distância ganhou enorme espaço. Essas modalidades ampliaram
ofertas, mas a qualidade desigual dos cursos e as dificuldades de conclusão
exigem respostas. Cabe ao poder público fiscalizar cursos deficientes e cobrar
suas instituições. Multiplicar matrículas em cursos que pouco ensinam é uma
maneira dispendiosa de frustrar expectativas.
Universidades de pesquisa exigem reformas
próprias. A diversidade institucional do ensino superior pede formas distintas
de avaliação e financiamento. Nas instituições dedicadas à graduação, importa o
que os estudantes aprendem e conseguem concluir. A pesquisa de ponta requer
liberdade acadêmica e recursos de longo prazo. Para atrair talentos, produzir
conhecimento e diversificar receitas, as universidades precisam de abertura
internacional e parcerias com o setor privado, sem submeter a ciência ao
retorno comercial imediato. Autonomia é indispensável, mas deve proteger a
liberdade acadêmica, não privilégios corporativos.
O desafio dessa geração é complementar a
expansão do acesso com conquistas mais difíceis: assegurar os conhecimentos de
que todos precisam e formatar as instituições de níveis superiores para que
cumpram bem suas missões. Uma educação sólida ampliaria as oportunidades dos
jovens, lhes daria condições de exercer sua cidadania e permitiria às
instituições posteriores formar profissionais competentes e produzir ciência
com excelência. Contabilidade de matrículas pode melhorar a propaganda dos
governos, mas o destino dos alunos – e, com eles, o do País – depende do que de
fato aprenderem.
Trump joga o jogo de Putin e Xi
Por O Estado de S. Paulo
A aposta de Trump em grandes barganhas com
Putin e Xi pode produzir o oposto da grandeza que promete: uma ordem de esferas
de influência mais favorável aos rivais dos EUA
O presidente dos EUA, Donald Trump, tem
manifestado interesse na proposta do presidente da Rússia, Vladimir Putin, de
uma reunião deles com o líder chinês, Xi Jinping, para discutir a guerra da
Ucrânia. O atrativo é óbvio: três potências, uma mesa, a promessa de abreviar
uma guerra cruenta que se arrasta há anos. A conta viria depois. Kiev e os
europeus correriam o risco de assistir de fora enquanto outros discutem
território, garantias e o equilíbrio de poder no continente. Moscou conhece bem
essa ordem. Pequim também. Já Washington construiu sua força de outro modo.
Trump privilegia uma ideia de poder que se vê
imediatamente: ameaçar, retirar benefícios, impor custos, arrancar acordos.
Essa diplomacia pode produzir troféus rápidos, mas tende a degradar um
patrimônio menos vistoso. Desde o pós-guerra, os EUA multiplicaram sua força
porque dezenas de países aceitaram amarrar parte da própria segurança à
americana. Bases, inteligência e interoperabilidade vieram dessa escolha; o
ativo decisivo é a disposição de cooperar, em razão de valores em comum.
A Casa Branca dispõe de enorme poder sobre
Kiev justamente porque a Ucrânia confiou nos EUA. Inteligência e armamentos
americanos tornaram sua resistência mais eficaz – e deram a Washington
alavancas que Moscou não possui. Putin precisa ser persuadido a permanecer na mesa;
o aliado dependente pode ser apertado até chegar a ela. Enquanto Trump
flexibiliza parte da pressão sobre a Rússia, crescem as dúvidas sobre recursos
essenciais para os ucranianos. Demonstrar firmeza custa menos quando o alvo
depende de você. E essa integração rende aos EUA: uma Ucrânia capaz de conter
grande parte do poder militar russo produz segurança, informação sobre a guerra
moderna e inovação útil ao Ocidente. A contabilidade transacional de Trump
enxerga com facilidade o que Washington fornece, mas captura mal aquilo que
recebe.
Negociar com Putin será inevitável, e
qualquer acordo exigirá concessões. Se parceiros concluírem que inteligência,
comunicações ou garantias americanas podem virar instrumentos de coerção,
procurarão alternativas. Europeus investem em capacidades próprias e ensaiam
canais diplomáticos menos dependentes de Washington. Não que estejam
abandonando os EUA, mas se preparam para a possibilidade de serem abandonados.
Trump já ameaçou tarifas contra países
europeus para pressionar a Dinamarca, aliada da Otan, a ceder a Groenlândia.
Acabou recuando diante da resistência e dos custos. Mas ficou o aviso: a
centralidade americana pode ser usada contra os parceiros precisamente porque
eles estão mais expostos a Washington que seus adversários.
Trump teve razão ao exigir que os europeus
gastassem mais em defesa. Aliados mais capazes podem fortalecer a Otan e
aliviar os EUA. O cálculo se altera quando a autonomia nasce do receio de que o
garantidor transforme dependência em vulnerabilidade. Cada capacidade
alternativa compra alguma proteção contra Washington – e retira de Washington
parte da alavanca de amanhã.
Uma mesa Trump-Putin-Xi deveria inquietar
Washington antes de seduzi-lo. Uma ordem de esferas de influência dá às grandes
potências licença para condicionar as escolhas dos menores. Rússia e China
sentem-se à vontade nesse mundo porque dependem muito mais da coerção que da
adesão. A vantagem que os americanos construíram desde a 2.ª Guerra foi
persuadir outros países a colocar parte de seu poder dentro de uma ordem liderada
pelo seu país.
Pequim nem precisa receber uma concessão
formal para lucrar com a mudança. Basta que países habituados a depender de
Washington passem a comprar, financiar ou negociar em outros lugares porque
temem o preço político dessa dependência. Quanto mais Trump transforma a
confiança dos aliados em instrumento de pressão, mais racional se torna a busca
por saídas.
Seria uma ironia amarga se, em nome da grandeza americana, Trump ajudasse a construir um mundo em que os fortes ditam as regras aos menores – e descobrisse tarde demais que esse é justamente o mundo em que seus rivais sabem jogar melhor.
A conta não fecha
Por O Estado de S. Paulo
O próprio governo Lula admite que faltará
dinheiro para despesas discricionárias em 2028
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT)
vai terminar a campanha recusando-se a admitir que o País terá de fazer um
ajuste fiscal em 2027, mas sua própria equipe econômica já reconheceu essa
necessidade há quase dois meses. Pelas projeções que deram base ao Orçamento de
2027, enviado pelo governo ao Congresso no fim de agosto, faltarão ao menos R$
15,8 bilhões para bancar despesas discricionárias em 2028, R$ 14,9 bilhões em
2029 e R$ 23 bilhões em 2030.
O problema pode parecer menor do que ele
realmente é, mas é simplesmente impossível manter a máquina pública em
funcionamento sem gastos discricionários. Por trás dessa rubrica intrincada
estão desde faturas de energia, água e esgoto, contas de internet e serviços de
manutenção dos edifícios públicos até parte expressiva das malfadadas emendas
parlamentares, passando pela verba reservada para a emissão de passaportes e
pelos parcos investimentos em infraestrutura capitaneados pelo governo federal.
Não é a primeira vez que o governo reconhece
esse aperto. No final de 2025, eram as despesas discricionárias do Orçamento de
2027 que estavam sob ameaça. A alternativa, à época, foi mudar o tratamento
fiscal dos precatórios para manter os pagamentos em dia, mas retirá-los do
limite de despesas por meio de uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC).
Como se imaginava, a manobra jogou o problema
fiscal um pouco mais para frente – um ano, precisamente – e não foi suficiente
para reequilibrar o Orçamento. O fato é que o governo terá de rever ao menos R$
53,7 bilhões em despesas obrigatórias até 2030 se quiser manter inalterado o
nível de gastos discricionários.
Esse número, no entanto, tende a ficar ainda
maior. Em primeiro lugar, porque os parâmetros apresentados pelo governo para o
crescimento do Produto Interno Bruto (PIB), para a inflação medida pelo IPCA e
para a taxa Selic não batem com as estimativas do mercado financeiro, o que
significa que as receitas podem estar superestimadas, e as despesas,
subestimadas, segundo as consultorias de Orçamento da Câmara e do Senado.
E em segundo lugar, porque os cálculos
apresentados pelo governo são do fim de agosto, período em que Lula ainda não
havia se rendido completamente ao desespero eleitoral na tentativa de
conquistar alguns votos entre o primeiro e o segundo turnos da disputa. Até
então, ainda não haviam sido anunciadas medidas como o reajuste do Bolsa
Família, o Pix de R$ 5 mil para Microempreendedores Individuais (MEIs) e o
passe livre no transporte público aos fins de semana, que exigirão ao menos R$
39,8 bilhões somente em 2027.
Como essa conta vai fechar ainda é uma incógnita. Dito isso, qualquer promessa de campanha que não considere essa realidade, venha do presidente Lula, venha de seu adversário, Flávio Bolsonaro (PL), deveria ser considerada fumaça eleitoral. E se não há espaço no Orçamento para aumentar gastos, tampouco há condições para reduzir impostos, a não ser que a intenção seja gerar um desequilíbrio ainda maior das contas públicas e manter juros nas alturas pelos próximos anos.
Em vez de ajuste, candidatos prometem mais
gastos
Por Valor Econômico
Os candidatos deveriam dizer ao menos em linhas gerais como pretendem resolver o problema fiscal e se abster de fazerem promessas inviáveis
A simples observação dos discursos dos
candidatos à Presidência e de suas peças publicitárias sugere que o Brasil
dispõe de abundância de recursos públicos e nenhum problema fiscal. Para vencer
as eleições, de maneira irresponsável, tanto o presidente Luiz Inácio Lula da
Silva quanto o candidato do PL, senador Flávio Bolsonaro, fazem promessas que
podem piorar muito a situação já difícil das contas públicas. No caso do presidente,
ele já determinou medidas que terão um impacto de R$ 53,6 bilhões no orçamento
de 2027, já confeccionado com receitas superestimadas e despesas subestimadas.
Flávio Bolsonaro, ao menos em seu programa, quer cortar R$ 200 bilhões em
gastos, uma missão espinhosa, que se torna impossível pela lista de políticas
do atual governo que precisariam ser mudadas e que prometeu manter, além de
outras despesas que pretende criar.
O governo fez jogo eleitoreiro, ao anunciar
mais recursos para programas já existentes ou novos, muitos dos quais não
constavam do orçamento enviado ao Congresso. Após quatro anos sem correção, o
Bolsa Família recebeu reajuste de 15,04% a 15 dias do primeiro turno, com
antecipação do pagamento reajustado para 19 de outubro, uma semana antes do
segundo turno, a um custo de R$ 22,7 bilhões em 2027. Na última semana de
setembro, o governo que regulamentou as bets resolveu extingui-las.
Pouco mais de quatro meses separam o
Desenrola 2 do Desenrola 3, que modificou o esquema de refinanciamento de
dívidas. A União comprará as dívidas com mais de 4 anos de atraso com descontos
de 90% ou mais e as repassará aos devedores, que poderão parcelar os débitos
remanescentes. Não ficaram fora dos pacotes oportunistas benefícios aos
empreendedores, categoria que frequenta com força os discursos da oposição. O
Desenrola MEI foi lançado em seguida, no mesmos moldes, desta vez acompanhado
de ampliação dos limites de receitas para enquadramento no programa, de R$ 81
mil para R$ 110 mil em 2027 e R$ 140 mil em 2028.
Além de não consertar os desequilíbrios nos
repasses do Bolsa Família, que dão proporcionalmente mais benefícios às
famílias unipessoais em relação às com filhos, o Planalto desfocalizou o Pé de
Meia, criado para manter os alunos de baixa renda até o fim do ensino médio,
estendendo o benefício para todos os alunos da rede pública. Sem justificativa,
foi criado o Pé de Meia Universitário, com bolsa de R$ 700 por mês por dez
meses do ano e depósito de R$ 2.500 ao fim de cada ano concluído, para
estudantes de universidades públicas e beneficiários do Prouni. Ambos custarão
R$ 10,5 bilhões, mas o governo alocará R$ 4 bilhões no total em 2027.
O festival de atos eleitoreiros incluiu a
promessa de distribuir dinheiro de graça, R$ 5 mil, com o PixMei para
microempreendedores individuais, a fundo perdido, em um projeto que será
enviado em 2027, se Lula ganhar um quarto mandato. A mais recente promessa é
transporte público gratuito no fim de semana, com o uso de R$ 12 bilhões de
emendas parlamentares.
A criação de programas e destinação de
recursos pelo governo para ganhar votos sugere a urgência de uma lei que proíba
o uso desse poder em períodos eleitorais, com claro benefício ao incumbente.
Além de desequilibrar a disputa, os atos do governo fundamentaram uma campanha
política de medo e inverdades, em que programas que mal foram criados com fins
eleitoreiros se transformam em minutos em “direitos” dos cidadãos e já
ameaçados de extinção pelo candidato do PL.
Os economistas recomendam que para frear o
rápido avanço do endividamento, o salário mínimo não deveria ter aumento real,
só aumento pela inflação, assim como as despesas de saúde e educação, hoje
indexadas à evolução de receitas da União. Flávio Bolsonaro, porém, prometeu
que manterá tudo como está. Foi além e prometeu ressuscitar o Perse, criado na
pandemia para amparar o setor de turismo e espetáculos, a um pesado custo de R$
60 bilhões que beneficiou inclusive empresas gigantes não necessariamente dessa
área. Foi extinto em março de 2025, muito depois que os negócios já haviam se
normalizado nos setores contemplados.
Da mesma lavra surgiu a promessa do Vira Pix,
que devolveria parcela das contas de luz, taxas e outras despesas do
consumidor. Não há o menor detalhe de como e com que dinheiro isso seria feito.
Além disso, o candidato do PL aceita o Desenrola 3 e promete carência para o
pagamento dos débitos de 6 meses para pessoas físicas e de um ano para as
empresas.
“Estão cavando mais o buraco de onde teremos
que sair”, resume bem Fernando de Holanda Barbosa Filho, pesquisador do FGV
Ibre.
O próprio governo reconhece que faltará dinheiro para manter os programas existentes a partir de 2028. Os analistas privados preveem déficits nas contas públicas até o fim da década, mantido o atual regime fiscal. Os candidatos deveriam dizer ao menos em linhas gerais como pretendem resolver o problema fiscal e se abster de fazerem promessas inviáveis que elevarão o endividamento e impedirão a queda dos juros. A leviandade com que tratam os gastos públicos é um mau sinal para o futuro.
Sinal de alerta vem da Europa
Por Correio Braziliense
O desafio existencial deveria ser o centro da
discussão nacional no ciclo eleitoral que se encerra dentro de três dias
A onda contagiosa de protestos sociais que
varre a Europa traz elementos que o Brasil deveria observar com atenção. Tanto
mais na reta final para uma eleição presidencial que é não apenas a mais
disputada — e incerta — desde o fim do regime militar. Aqui, como nas
convulsões que abalam França, Itália, Espanha, Bélgica e outros países do Velho
Mundo, o que está em jogo são os termos daquilo que o filósofo iluminista
Jean-Jacques Rousseau definiu, no século 18, como o contrato social.
Não por acaso, é na França de Rousseau que a
tensão tange os limites da ruptura, colocando em questão a própria
sobrevivência da 5ª República. Ali, como nos vizinhos europeus, o que estremece
e dá sinais evidentes de fadiga é o estado de bem-estar social construído no
pós-Segunda Guerra Mundial. Em boa parte, naquela altura, o objetivo imediato
era contrapor uma oferta de prosperidade ao prestígio conquistado pela União
Soviética na vitória sobre a Alemanha nazista.
A oferta de um capitalismo com "vocação
humana" bastou por quatro décadas para conter a ascensão dos Partidos
Comunistas — em especial, na Itália e na França. A débâcle da URSS e do bloco
socialista europeu, no início dos anos 1990, deu lugar à desconstrução
paulatina da rede de proteção social erguida na Guerra Fria. Sob o lema da
"revolução conservadora", encabeçada por Ronald Reagan, nos Estados
Unidos, e Margaret Thatcher, no Reino Unido, a Europa Ocidental abraçou os
cânones da austeridade fiscal e passou à desmontagem do chamado "welfare
state".
A transição ao neoliberalismo, como não
poderia deixar de ser, se fez e se faz em meio a um caldeirão de tensões na
sociedade. Não por acaso, a recente onda de protestos na Europa descreve um
arco geracional. Nas ruas, a face predominante é a dos jovens, que amargam no presente
a degradação da educação pública e, como desdobramento, enxergam um futuro
desprovido dos direitos que os pais desfrutaram. Na retaguarda, porém, estão os
idosos, uma categoria etária que enfrenta os anos de "vacas magras"
quando mais carece da proteção social. É o drama ilustrado pela morte, na
Espanha, de uma idosa despejada por já não poder pagar o aluguel, estopim da
turbulência política que levou o país a eleições antecipadas.
O Brasil começa a confrontar um desafio
semelhante, com o crescimento da população idosa e o estreitamento do mercado
de trabalho para a juventude. Noves fora, uma porção cada vez menor da
população, engajada no mercado de trabalho formal, está chamada a sustentar a
massa de aposentados com expectativa de vida em alta e, ao mesmo tempo, a nova
geração que já não encontra espaço na economia formal.
O caldeirão sociopolítico da Europa deve ser
observado, do Brasil, como um sinal estridente de alerta. Por aqui, nem mesmo
as gerações que se encaminham à aposentadoria chegaram a desfrutar de um
bem-estar comparável ao oferecido aos idosos europeus. E têm pela frente um
futuro ainda mais sombrio, compartilhado em tons extremos por uma juventude que
assiste não apenas à degradação do ensino, mas contempla a precarização,
paulatina mas incessante, das relações de trabalho.
Equacionar esse desafio existencial deveria ser o centro da discussão nacional no ciclo eleitoral que se encerra dentro de três dias. Não foi, por razões que escapam ao alcance deste editorial. De objetivo, resta a constatação de que, por mais quatro anos, o país seguirá rodando em falso, como parafuso em rosca espanada, sem respostas a caminho para desafios que se amontoam e se agravam. As ruas da Europa em chamas sugerem o cenário que nos aguarda.
Seca avança e reforça alerta sobre clima
Por O Povo (CE)
Felizmente, os
períodos de seca não mais provocam consequências tão dramáticas como já ocorreu
no passado
Reportagem publicada na edição desta
quarta-feira mostra que a seca avança, atingindo 89% do território cearense. O
cálculo é do Monitor das Secas, coordenado pela Agência Nacional de Águas
(ANA), com a contribuição de instituições federais e estaduais, entre elas a
Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (Funceme). O índice
representa a área territorial classificada sob seca relativa — e não o número
de habitantes ou de municípios diretamente afetados.
No momento, a situação predominante é de seca
fraca, porém, a Funceme prevê a possibilidade de agravamento até dezembro, com
temperaturas elevadas e baixa ocorrência de chuvas. O percentual relativo à
área atingida foi registrado em setembro e representa alta em comparação com
agosto, quando foi verificado o alcance de 87,9% do território.
Para o diretor técnico da Funceme, Francisco
Vasconcelos Júnior, a tendência é de intensificação seca, impactando
negativamente a vegetação e os recursos hídricos. Técnicos também acompanham a
evolução do El Niño, que pode provocar temperaturas mais elevadas,
influenciando na distribuição das chuvas.
É de se destacar que, felizmente, os períodos
de seca não mais provocam consequências tão dramáticas como já ocorreu no
passado. Era comum o desespero provocar saques em cidades e migrações em massa
de populações que não tinham a quem apelar para ao menos suportar os efeitos
deletérios da seca.
A mudança de conceito de "combate à
seca" para a "convivência com a seca", pois o fenômeno
meteorológico é inevitável e previsível, levou à conclusão de que providências
estruturantes precisam ser construídas.
A partir de então, várias medidas, em
diferentes governos, foram tomadas para garantir a segurança hídrica para
atravessar períodos de falta ou de chuvas escassas, garantindo o acesso à água
aos moradores de regiões atingidas. Entre essas providências, a construção de
infraestrutura hídrica e interligação de bacias.
Além disso, o programa federal de cisternas
de placas garantiu o abastecimento de água potável para atravessar os períodos
de seca. Atualmente existem mais de um milhão de reservatórios instalados,
beneficiando cerca de cinco milhões de pessoas.
Mas agora também é preciso ficar atento ao
alerta de cientistas do clima quanto ao aquecimento global, que intensifica os
extremos climáticos. Portanto, podem alterar significativamente o regime de
chuvas no semiárido, provocando secas mais severas e prolongadas.
No entanto, se no caso da seca as medidas locais ajudaram a superar em parte o problema, reduzir o aquecimento global depende de uma concertação entre todos os países do mundo, o que parece cada vez mais difícil.

Nenhum comentário:
Postar um comentário