Correio Braziliense
Tudo indica que o cenário de
imprevisibilidade na corrida pelo Palácio do Planalto continuará até o fim.
Será uma apuração tensa, sem ser possível cravar antecipadamente quem sairá
vitorioso. A campanha de 2026 se aproxima do fim, mas deixa três lições
Vamos às urnas daqui a dois dias para definir o próximo presidente da República e os seis governadores que faltam. Tudo indica que o cenário de imprevisibilidade na corrida pelo Palácio do Planalto continuará até o fim. Será uma apuração tensa, sem ser possível cravar antecipadamente quem sairá vitorioso. A campanha de 2026 se aproxima do fim, mas deixa três certezas.
A primeira é o peso das redes sociais. Nas
últimas 48 horas de campanha, o eleitor será exposto a uma enxurrada de vídeos,
mensagens e recortes, sobretudo do debate de hoje à noite na Globo. As
plataformas digitais ganharam muito dinheiro com a disputa eleitoral.
Prestações de contas parciais mostram que a Meta, dona do Facebook, Instagram e
WhatsApp, recebeu mais de R$ 304 milhões com verificação de contas, anúncios e
impulsionamento de publicações.
A corrida pela atenção do eleitor também produziu
estratégias bem diferentes no segundo turno. Campeão de votos, o deputado
federal Nikolas Ferreira (PL) concentrou esforços no Instagram, com a
publicação frequente de reels. André Janones (Rede) fez do WhatsApp a principal
ferramenta, com reflexos até nas buscas do Google. À frente do canal Exército
de Lula, que reúne mais de 8 milhões de participantes, Janones apostou na
gamificação: transformou o engajamento político em uma competição entre
apoiadores.
A segunda está no peso do voto decidido
de última hora. Pesquisa Meio/Ideia divulgada na quarta-feira aponta que quase
20% dos entrevistados escolheram o candidato nas 48 horas finais do primeiro
turno. Entre eles, 9,3% só decidiram diante da urna. Em uma eleição disputada
voto a voto, é um contingente que faz diferença. É nessa reta final que a
campanha digital tenta alcançar quem ainda hesita. Vídeos, mensagens e disparos
em massa servem para convencer indecisos, mas também contribui para consolidar
escolhas recém-formadas. Se esse eleitorado se distribuir de maneira desigual
entre os candidatos, ajudar a explicar por que o resultado das urnas não
coincide exatamente com o retrato das pesquisas.
A terceira certeza vai se concretizar no
domingo à noite: o vencedor terá pela frente um país dividido. Esta é a
terceira eleição presidencial consecutiva em que o antagonismo entre lulismo e
bolsonarismo ocupa o centro da disputa. A polarização está consolidada, ao
tempo que os partidos de centro perderam espaço e não conseguiram apresentar
uma alternativa capaz de mobilizar apoio popular suficiente para romper a
lógica dos dois campos.
O Brasil conhece outros extremos políticos
profundos. Getulistas e antigetulistas marcaram boa parte da história política
nacional. Durante o regime militar, ser oposição podia custar a liberdade e até
a vida. Com a redemocratização, PT e PSDB passaram a disputar o Planalto em
embates duros, com acusações e divergências ideológicas. Hoje, aquela
polarização parece menos intensa diante da hostilidade que marca a relação
entre lulistas e bolsonaristas.
Só que há uma diferença importante entre
disputar o poder e tratar o adversário como inimigo. A democracia pressupõe que
os dois lados reconheçam a legitimidade um do outro, inclusive quando o
resultado desagrada. O presidente eleito terá de lidar com esse quadro.
Governar exige negociar, ouvir e tomar decisões que afetam também quem votou no
concorrente. A apuração acaba no domingo, mas a divisão que esta eleição expôs
continuará na segunda-feira. Reduzi-la será um dos maiores desafios do próximo
governo.

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