domingo, 25 de outubro de 2026

Fim do ‘saco de bondades’, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

A realidade é dura e, se der Lula, seu problema será o Congresso, se der Flávio, serão as ruas

Se o presidente Lula vencer, seu grande problema será o Congresso. Se Flávio Bolsonaro for o vitorioso, o mais provável, seu maior desafio serão as ruas. Em qualquer caso, o futuro presidente terá pela frente as instituições em frangalhos, uma crise fiscal de bom tamanho e um País rachado ao meio.

Na hipótese de uma virada histórica, Lula terá mais uma vitória, mais um mandato para sua biografia e a chance de, finalmente, preparar um sucessor para uma esquerda sem rumo. Mas ele vai enfrentar um PL avassalador no Congresso e corre um grande risco: fechar a longa carreira com um governo mequetrefe, de forma melancólica. O terceiro mandato já não foi lá essas coisas.

Se confirmar o favoritismo nas pesquisas nas urnas, Flávio vai se livrar das investigações sobre amizades, sociedades e milhões de reais embolados tanto com Vorcaro como com a quadrilha do INSS. Mas, com a oposição a postos, vai ter de se blindar contra qualquer suspeita de corrupção no governo e os ímpetos obscurantistas da extrema direita. A esquerda está mobilizada e o exemplo Collor não está tão distante assim.

Perca ou ganhe, Lula tentará manter a mobilização do “Exército de Lula” e o sucesso de André Janones. Mas não vale subir a rampa pela quarta vez como em 2023, só com símbolos, mulheres, indígenas, pretos, pessoas com deficiência. É preciso rumo, marca e uma personalidade convincentes para o novo governo.

Se for Flávio, além de incorporar todas as propostas sociais de

Lula, como já fez no debate da Globo, deveria surpreender com o que mais falta na família Bolsonaro: moderação. Ele diz que vai tirar o pai da prisão antes da posse e bancar a redução da maioridade penal, mas não precisa partir para armas, munições, tesouraço... já no primeiro instante.

No debate, Lula teve seus melhores momentos com uma cobrança dura, ao ser chamado de “nove dedos” por Flávio, e ao perguntar sobre o não julgamento do policial que matou Ana Clara, de 5 anos, com um tiro. Também defendeu seu legado em infraestrutura, apoio ao Nordeste e inclusão social.

Flávio, que fora arrogante no debate Band/Estadão, insistiu em defender o policial assassino, mas acertou ao pedir desculpas por chamar Lula de “nove dedos” e por ter sido o único deputado do Rio a votar contra o aumento da licença maternidade.

Os dois candidatos tentam se equilibrar entre os sacos de bondade da campanha e a realidade de cortes, tesouras e escolhas de Sofia, com pressões de todo lado, no governo. Bem, a sorte está lançada e o resultado tende a ser apertado. Só nos resta torcer para que o futuro presidente tenha equilíbrio, equipe e, mais do que tudo, juízo. •

 

Um comentário:

Anônimo disse...

Eliane pode chorar que o choro é livre
Por mais maldição que cê joga no Bolsonaro você vai ter que engolir