segunda-feira, 19 de outubro de 2026

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A França em chamas

Por Correio Braziliense

Uma França alinhada ao trumpismo, hostil ao multilateralismo e com simpatias declaradas por Putin seria uma ruptura sem precedente no projeto da União Europeia

Berço de uma revolução que redesenhou a história do Ocidente, a França está novamente às voltas com uma insurreição. A escalada da violência urbana e o isolamento do presidente Emmanuel Macron expõem o esgotamento do modelo tecnocrata e arrastam a Europa para uma perigosa incerteza geopolítica, que pode acabar mudando o mapa do poder mundial. 

O que começou em meados de setembro com estudantes do ensino médio bloqueando escolas na periferia de Paris se transformou, em cinco semanas, na maior mobilização de rua do país em anos. A alta dos combustíveis desde o início do conflito no Oriente Médio, o custo de vida fora do alcance de boa parte da população e anos de acúmulo de insatisfação convergiram num movimento que une ex-coletes amarelos, sindicalistas, ativistas climáticos e estudantes.

No sábado, cerca de 550 mil pessoas foram às ruas em todo o país, segundo o Ministério do Interior (os sindicatos falam em 800 mil). A prefeitura de Limoges, na região da Nova Aquitânia, inaugurada em 1883 e classificada como patrimônio histórico, foi invadida e incendiada. O campanário desabou durante a noite. Confrontos ocorreram em Paris, Marselha, Rouen, Nantes, Toulouse e dezenas de outras cidades. O balanço foi atualizado neste domingo: 1.800 detidos, mais de 500 policiais feridos, um manifestante morto em Paris após parada cardíaca. 

A resposta do governo foi de repressão e firmeza declarada. O primeiro-ministro Sébastien Lecornu prometeu punir os responsáveis pelos distúrbios e acusou a esquerda radical de Jean-Luc Mélenchon de estar por trás da violência. O estado de emergência foi descartado, mas o tom oficial é de controle.

Personagem central dessa crise, Macron caminha para um fim de mandato melancólico, faltando pouco mais de sete meses para sua saída do cargo. Já no quinto primeiro-ministro em menos de três anos, sem maioria parlamentar e com aprovação em queda, o fim da era Macron abre uma janela perigosa. A extrema-direita de Marine Le Pen e seu partido, o Rassemblement National, observam os distúrbios com atenção. Uma França exausta, raivosa e sem saída institucional clara é o terreno mais fértil para um movimento que promete ordem, fronteiras fechadas e nacionalismo exacerbado como resposta para a crise.

O problema de uma vitória que provoque uma ruptura drástica na política francesa vai muito além da própria França. Ao contrário do Reino Unido, que orbita Washington com consistência e hoje está à deriva fora da União Europeia, e da Alemanha, historicamente atrelada à cautela fiscal e à estrita dependência militar transatlântica, a França foi sempre um contraponto sério e seguro aos Estados Unidos no bloco ocidental na política externa, na cultura, e no modelo econômico. Uma França alinhada ao trumpismo, hostil ao multilateralismo e com simpatias declaradas por Putin seria uma ruptura sem precedente no projeto da União Europeia. O bloco perderia seu principal contrapeso interno. E o mundo ganharia mais uma variável de instabilidade num momento em que já tem variáveis demais.

A Revolução Francesa de 1789 começou nas ruas e terminou mudando o mundo. O que acontece hoje tem escala e natureza diferentes, mas a França sempre foi um país cujas crises internas produzem ecos globais. O mundo observa com apreensão os próximos passos do movimento francês, torcendo por um desfecho que traga alguma estabilidade num cenário internacional já suficientemente caótico e fraturado para suportar mais uma frente aberta.

Exploração de serviços pelo crime impõe ação nacional

Por O Globo

Energia desviada por ‘gatos’, venda ilegal de internet ou botijões são renda que sustenta grupos criminosos

MrrAs autoridades de segurança pública da União e dos estados estão atrasadas na criação de um programa amplo de combate à exploração de serviços essenciais pelo crime organizado. A energia desviada por “gatos”, a venda de sinais de TV e internet e de botijões de gás de cozinha se tornaram fonte essencial de faturamento de grupos armados, com receitas até superiores às do tráfico de drogas. Há exemplos de atuação conjunta de órgãos federais, como Anatel, e polícias estaduais contra os criminosos. Mas têm sido ações pontuais sem um plano organizado. É preciso um programa nacional consistente de combate a tais crimes.

O avanço da criminalidade sobre esses serviços tem ocorrido por todo o país. Em Fortaleza (CE), facções criminosas que controlavam o sinal de internet de 5% a 10% dos moradores passaram em apenas um mês a dominar quase 20% do mercado, fornecendo sinal a 500 mil pessoas numa população de 2,6 milhões, segundo depoimento de Luiz Henrique Barbosa da Silva, presidente da Associação Brasileira das Prestadoras de Serviços de Telecomunicações Competitivas (TelComp), em audiência pública na Câmara. As estimativas sugerem haver 4,7 milhões de conexões fixas de internet invisíveis, sem registro na Anatel, com faturamento anual estimado entre R$ 4,9 bilhões e R$ 5,3 bilhões.

No mercado de gás, proliferam pontos de venda não autorizados pela Agência Nacional do Petróleo (ANP) e revendedores em regiões controladas pelo crime organizado. O consumidor e a vizinhança correm risco, e o monopólio exercido pelas facções mediante ameaça e chantagem chega a triplicar os preços em relação ao mercado. Em Baturité, no interior do Ceará, quatro revendedoras de botijões encerraram atividades por incapacidade de resistir à pressão do Comando Vermelho. Num mercado legal estimado em R$ 43 bilhões por ano, que paga R$ 11 bilhões em impostos, o prejuízo para os cofres públicos com a venda ilegal pode chegar a R$ 800 milhões anuais.

No setor de energia, as perdas em 2025 atingiram o maior patamar nos últimos 15 anos: 45 terawatts-hora, ou 7,1% de toda a energia injetada no sistema ao longo do ano. Nem tudo é desviado por grupos criminosos, mas parcela significativa é. Dos 11,5 bilhões de perdas estimadas, R$ 7,9 bilhões são repassados ao consumidor, representando aumento médio de 3,1% nas contas de luz.

Têm sido frequentes as operações policiais para combater esses desvios. Em agosto passado, o Ministério Público e a Polícia Civil do Maranhão lançaram a Operação Hidra, com ações simultâneas no Rio de Janeiro, no Pará, no Mato Grosso e no próprio Maranhão. Na Bahia, a Polícia Civil lançou em julho a Operação Reconectando, na Região Metropolitana de Salvador e em Feira de Santana, com o objetivo de desmantelar um esquema de extorsão contra provedores de internet. Em São Paulo, Anatel e Polícia Civil desarticularam no ano passado uma rede ilegal de distribuição de sinal de TV e internet. Tais ações pontuais são louváveis, mas têm sido insuficientes. É preciso pôr em marcha um plano nacional coordenado, com ações efetivas e constantes de investigação e repressão contra a exploração de serviços públicos pelas organizações criminosas.

Inclusão exige que prefeituras façam o básico: cuidar das calçadas

Por O Globo

Deslocar-se pelas cidades brasileiras tornou-se corrida de obstáculos para idosos e para quem tem deficiência

Apesar de todo o discurso e de toda a propaganda em defesa da inclusão, as cidades brasileiras continuam a oferecer condições sofríveis de deslocamento a quem tem alguma deficiência física, auditiva, visual ou intelectual. Apenas 34,5% dos 14,4 milhões de brasileiros nessas condições vivem em municípios com as adaptações necessárias para que possam circular livremente, como constatou reportagem do GLOBO. Apenas uma minoria de 4,9 milhões, os habitantes dos 490 municípios brasileiros que puseram o discurso em prática, têm maior autonomia para ir aonde desejarem, segundo o IBGE.

A calçada foi deixada em segundo plano pelos gestores públicos diante da primazia dada ao automóvel ao longo de décadas. A omissão se torna ainda mais grave com o envelhecimento da população. Idosos muitas vezes se veem constrangidos a ficar dentro de casa para não correr riscos nas ruas. Os atendimentos àqueles que caíram em vias públicas dão uma ideia do tamanho do problema. No ano passado, houve em São Paulo 20.295 notificações de queda de idosos, 9.030 delas em “local ignorado”. Só em áreas planas houve 383 casos. Como a subnotificação de quedas é frequente, o total deve ser maior. No Rio, uma pesquisa de 2006 contou 132.440 idosos que haviam sofrido queda nos últimos 12 meses, 42% em vias públicas — pouco mais de 153 por dia. Difícil acreditar que a situação tenha melhorado de lá para cá.

Meio-fio elevado e falta de rampas criam uma corrida de obstáculos para idosos ou pessoas com deficiência nas ruas. Tornar os ambientes públicos acessíveis é uma espécie de marco zero de inclusão. “Por mais que haja política pública, obrigatoriedade nas escolas e instituições públicas, se não houver preocupação com a acessibilidade desde que o sujeito sai de casa, não adianta”, diz Everton Luís Pereira, coordenador do Observatório Deficiência da Universidade de Brasília. “O mais importante é transformar o espaço acessível para que uma pessoa com deficiência circule sozinha, com autonomia.”

O grande problema neste momento, segundo ele, não é produzir normas e leis, mas pôr as medidas em prática para garantir os direitos dessa população. Nem sequer as escolas, onde são frequentes as lições sobre inclusão, estão totalmente preparadas. Pelo Censo Escolar do ano passado, 78,5% tinham ao menos um recurso de acessibilidade, quando a meta deve ser 100%. E só 57% contavam com banheiro acessível. O mesmo princípio vale para empresas, ambientes de trabalho e novos edifícios. Ampliar a inclusão exige uma mudança de mentalidade coletiva que vem acontecendo lentamente. De nada adianta, porém, todos terem essa consciência se as prefeituras não começarem pelo básico: cuidar das calçadas e dos equipamentos urbanos para permitir a locomoção de quem enfrenta dificuldades.

Debate sobre segurança pública precisa sair do palanque

Por Folha de S. Paulo

Votação de PEC impulsiona na esquerda e na direita bandeiras como a redução da maioridade penal

Combate a facções demanda a participação de órgãos como a Receita e o Coaf para a investigação de dados fiscais e financeiros

A tentativa governista de votar a assim chamada PEC da Segurança Pública às vésperas do segundo turno da eleição presidencial leva o tema, inevitavelmente, aos palanques —o que em nada favorece a definição de políticas concretas.

A proposta de emenda constitucional foi concebida para posicionar a gestão de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em um debate dominado no país pela direita, cujo discurso em defesa do endurecimento da repressão ao crime tem apelo na opinião popular.

Com a PEC, busca-se inscrever na Constituição o Sistema Único de Segurança Pública (Susp), de modo a reorganizar as atribuições de União, estados e municípios no setor. O mecanismo já está previsto em lei desde 2018, sem ter gerado resultados concretos.

Fora do papel, é tarefa complexa promover a colaboração entre os entes federativos, sobretudo quando o Palácio do Planalto e a maior parte dos governos estaduais têm visões divergentes sobre o assunto. Em período eleitoral, bandeiras tomam o lugar de providências efetivas.

Noticia-se que Lula aguarda a aprovação da PEC para criar o Ministério da Segurança Pública —um desmembramento da atual pasta da Justiça e Segurança Pública já feito durante 2018.

Já o bloco de Flávio Bolsonaro (PL), em busca de tirar o protagonismo do governo, recorreu à velha proposta de redução da maioridade penal. Trata-se de medida que pouco tem a ver com os propósitos da PEC, mas é bem vista pelo eleitorado: segundo o Datafolha, 80% dos brasileiros apoiam a redução para 16 anos.

Na corrida de oportunismos, Lula achou por bem também declarar-se a favor da mudança em casos de crimes hediondos, na contramão de posições históricas de seu partido. O Planalto, no entanto, indica querer uma proposta de emenda constitucional à parte para a maioridade.

Fato é que, passada a eleição e qualquer que seja o vitorioso, restará o desafio de conter a alarmante expansão das facções do crime organizado no país, inclusive na política e na economia.

Para tanto, não bastará apenas o esforço conjunto das forças policiais federais e estaduais. Será necessário também estabelecer a participação de órgãos como a Receita Federal e o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), algo que tem passado ao largo da discussão da PEC.

A organização criminosa contemporânea não se sustenta no fuzil, mas no fluxo de dinheiro. Nas duas investigações de maior impacto dos últimos anos, Receita e Coaf foram determinantes. Na Operação Carbono Oculto, o cruzamento de dados fiscais e financeiros revelou como o PCC usava postos de combustíveis, fundos de investimento e fintechs para lavar recursos.

No caso do Banco Master, alvo da Operação Compliance Zero, a inteligência dimensionou as fraudes e mapeou transações que alcançaram autoridades com foro privilegiado. Tais exemplos mostram caminhos promissores.

Custeio das universidades exige reformas

Por Folha de S. Paulo

Incêndios na UFPE exemplificam necessidade de novo modelo de financiamento do ensino superior público

Sem parcerias, restrição da estabilidade dos servidores e contribuição dos alunos de maior renda, não há de onde vir dinheiro para infraestrutura

Em pouco mais de uma semana, três incêndios atingiram prédios da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Em um deles funcionavam laboratórios nas áreas de farmacologia, informática e genética, e o prejuízo estimado é de R$ 100 milhões.

Os episódios exemplificam a precarização da infraestrutura das universidades federais. Em 2025, os recursos destinados a obras, reformas e compra de equipamentos permanentes chegaram ao menor patamar em 18 anos —R$ 600 milhões, queda de 89% desde o pico de 2011.

Corrigidos pela inflação, os números estão num relatório do Sindicato Nacional dos Docentes, elaborado com dados do Sistema Integrado de Planejamento e Orçamento. O nível mais alto de 2011, segundo especialistas, incluiu recursos para construir novos prédios. O difícil é mantê-los, dadas as distorções na alocação das verbas do ensino superior.

De acordo com o Ministério da Educação, o montante de gastos discricionários —como manutenção, equipamentos, energia elétrica, água, limpeza e segurança— previsto para 2026 é de R$ 10,9 bilhões, quase o mesmo valor de 2025 (R$ 10,8 bilhões).

O total destinado às universidades supera R$ 70 bilhões por ano. O problema é que cerca de 85% desses recursos ficam engessados em despesas obrigatórias, sobretudo com servidores ativos e inativos. Não à toa, falta dinheiro para custeio e investimentos. Em junho, o MEC suspendeu a liberação de R$ 1,6 bilhão em gastos discricionários —foi o terceiro bloqueio do tipo desde 2024.

É imperativo rever o financiamento do ensino público superior. O tema, porém, enfrenta resistência histórica da comunidade acadêmica devido a pressões corporativistas e ideológicas.

Parcerias público-privadas que já se mostraram exitosas em saúde e infraestrutura, como no caso do saneamento básico, devem ser promovidas. E uma reforma do regime dos servidores que restrinja a estabilidade exacerbada que impulsiona gastos obrigatórios pode contribuir para maior racionalidade orçamentária.

Ademais, a gratuidade para alunos de maior renda priva as instituições de um importante volume de recursos, ainda mais num cenário fiscal crítico agravado pela política econômica perdulária da atual gestão petista.

Sem tais mudanças, não há de onde vir dinheiro suficiente para obras, reformas e manutenção capazes de conter a degradação física das universidades, que impacta a inovação, a produção de conhecimento e, no limite, o desenvolvimento do país.

O próximo passo da proteção social

Por O Estado de S. Paulo

O futuro governo deve preservar as políticas sociais que o Brasil consolidou, mas é preciso rever a distribuição, priorizando crianças e famílias mais pobres, com metas e avaliação

O Brasil tem condições de oferecer às suas crianças um começo de vida menos determinado pela pobreza da família em que nasceram. Essa deveria ser uma ambição elementar do próximo governo, seja qual for o eleito. Para realizá-la, será preciso preservar as políticas sociais que o País viu consolidar-se nas últimas décadas, mas rever a maneira como seus recursos são distribuídos. Defender essa revisão de rota é levar realmente a sério o propósito de combater a pobreza, uma histórica e renitente chaga nacional. Políticas públicas não podem ser julgadas pelo tamanho da despesa ou pela popularidade de quem as anuncia, mas pela capacidade de melhorar a vida de quem mais precisa.

Há resultados a preservar. Segundo o IBGE, sem os benefícios dos programas sociais, a extrema pobreza teria atingido 10% dos brasileiros em 2024, ante os 3,5% observados. Naquele ano, a pobreza alcançava 39,7% dos menores de 15 anos, contra 8,3% dos idosos. Tamanho contraste reafirma, a um só tempo, o êxito da proteção aos idosos e a insuficiente atenção à infância. Não se trata de desamparar uns para acudir outros, mas de reconhecer onde a vulnerabilidade é maior.

O redesenho deve começar pelas transferências de renda. Mesmo com os adicionais às crianças, o piso por família do Bolsa Família favorece proporcionalmente domicílios menores. Em 2024, o Tribunal de Contas da União (TCU) apontou que a regra prejudicava a equidade: seria possível obter o mesmo efeito sobre a pobreza com menos recursos. Cabe dar maior peso ao número de pessoas, às crianças e à intensidade da privação, com transição gradual. E mais: corrigir a distribuição pode ampliar o alcance social do dinheiro disponível.

Também é preciso organizar o que o Estado oferece. O mesmo TCU identificou sobreposições de programas federais, estaduais e municipais, enquanto famílias vulneráveis seguiam sem cobertura adequada. Integrar dados, compatibilizar benefícios e fortalecer o Cadastro Único são tão relevantes quanto novos auxílios. A fiscalização deve coibir pagamentos indevidos e localizar quem ficou de fora. A União deve ajudar os municípios a remover barreiras documentais, geográficas e digitais ao atendimento.

Priorizar a infância exige associar à renda creches de qualidade, saúde, alimentação e alfabetização, com responsabilidades definidas. Cobrar frequência escolar e acompanhamento médico pressupõe assegurar escola e atendimento. Creches e regras que evitem perda abrupta de renda no ingresso no emprego formal favorecem a autonomia das famílias. Parece óbvio, mas não custa sublinhar: conseguir um emprego formal deve aumentar a renda da família, não reduzi-la pela perda de benefícios.

Essa agenda requer escolhas orçamentárias, não a promessa de recursos inesgotáveis – como é praxe no fantasioso mundo dos gabinetes brasilienses. É preciso rever subsídios sem retorno social demonstrado, vantagens corporativas e privilégios previdenciários. A “lei da igualdade”, proposta neste jornal pelo colunista Pedro Fernando Nery, oferece um princípio útil: submeter grupos favorecidos às regras que valem para os demais. A resistência de quem perderá vantagens não pode pesar mais que as necessidades de quem depende do Estado. Responsabilidade fiscal e prioridade social podem – e devem – orientar o mesmo Orçamento.

A focalização das transferências de renda, impulsionada pelo pensamento liberal, foi incorporada, não sem resistências, pela esquerda social-democrata. A experiência brasileira mostrou ser possível complementar políticas universais. Dos programas de Fernando Henrique Cardoso ao Bolsa Família de Luiz Inácio Lula da Silva, consolidou-se essa convergência. Cabe aperfeiçoá-la diante do grave desequilíbrio fiscal que o próximo governo enfrentará. Afinal, defender as políticas sociais não pode significar conservar intacto tudo o que se gasta em seu nome.

O próximo presidente deveria assumir metas públicas de redução da pobreza infantil, com prazos e avaliação independente. Nos primeiros dois anos, será imprescindível rever benefícios, integrar cadastros e ampliar serviços com Estados e municípios nas áreas vulneráveis. O Brasil tem experiência e instituições para fazê-lo. Cabe ao próximo governo oferecer às crianças oportunidades que faltaram aos seus pais.

Trump sacrifica Ucrânia no altar das eleições

Por O Estado de S. Paulo

A pressa de Trump por diesel mais barato para ganhar votos o leva a sacrificar o poder de barganha de Washington, pressionando Kiev enquanto Moscou recebe alívio sem contrapartidas

Na guerra contra a Rússia, a Ucrânia levou anos para encontrar um modo de impor altos custos econômicos ao invasor sem depender inteiramente da disposição dos aliados. Seus drones passaram a atingir refinarias, terminais e outras peças da infraestrutura que abastece a guerra e sustenta exportações russas. A campanha começou a doer. É justamente por isso que Washington quer que pare.

Em tese, pode até haver razões legítimas para esse pedido. A guerra dos EUA contra o Irã agravou a escassez mundial de derivados de petróleo, e os ataques ucranianos às refinarias russas apertam ainda mais um mercado já sob estresse. O diesel caro pressiona a economia pelo transporte, pela agricultura e pelos preços ao consumidor. Os EUA não estão obrigados a ignorar esse custo. Mas a própria eficácia econômica dos ataques revela seu valor político. Se eles são importantes o bastante para mexer com preços e despertar a urgência da Casa Branca, também são importantes o bastante para valer alguma coisa numa negociação.

Só que, na prática, a condução do presidente Donald Trump se prova deletéria. Washington dispõe de meios poderosos para pressionar Kiev. A Ucrânia continua dependente de inteligência americana e de sistemas de defesa aérea que não consegue substituir rapidamente. O autocrata russo, Vladimir Putin, sofre com perdas militares e danos à economia de guerra, mas pode resistir por muito mais tempo sem pedir licença aos EUA. Trump escolheu agir primeiro sobre o lado em que seu poder produz resposta mais rápida.

A ordem das concessões importa. O Tesouro americano já abriu uma exceção para determinadas operações com diesel russo. Kiev vem sendo pressionada a suspender uma campanha que aumentou seus custos para Moscou. As contrapartidas russas, porém, ainda não estão na mesa. Não há compromisso público de peso equivalente que assegure uma trégua ampla, garantias efetivas à Ucrânia ou punições automáticas para uma violação futura.

Trump anunciou o chamado “cessar-fogo energético” antes de existir um acordo bilateral confirmado; a própria Casa Branca falava em uma proposta “potencial”. A versão inicialmente conhecida também tinha uma simetria enganosa. Proibir os dois lados de atacar refinarias protege uma extensa infraestrutura russa da Ucrânia. Kiev quase não possui alvo equivalente, pois sua vulnerabilidade energética crítica está nas usinas, redes, instalações de gás e sistemas de aquecimento que Moscou vem bombardeando. A “reciprocidade” cabe no comunicado, mas não no mapa dos alvos.

Relatos dos bastidores sugerem que haveria uma ambição diplomática maior. Ela incluiria a reconstrução da Ucrânia, garantias de segurança, estabilização territorial e incentivos econômicos à Rússia. Mesmo admitindo-se que seja verdade, isso só tornaria mais estúpido, não menos, começar gastando os instrumentos de pressão de que Washington ainda precisará. Depreciar antes a moeda de troca reduz o que ela poderá comprar depois.

A proximidade das eleições legislativas americanas explica a pressa e só torna essa tática mais temerária. O pleito pode não ter criado a política de Trump para Moscou, mas comprime seu calendário. Diesel caro exige alívio rápido; uma manchete de “paz” vale politicamente mais antes da urna que depois dela. Putin não trabalha com o mesmo relógio. Se perceber que sua resistência produz novas exceções às sanções e mais pressão americana sobre Kiev, terá motivos para esperar. Depois de pedir a outros países que pagassem o preço das sanções, Washington abre sua própria brecha assim que a conta chega ao eleitor americano.

Em tese, pode fazer sentido, do ponto de vista de um presidente americano, exigir concessões de Kiev e oferecer incentivos a Moscou. Mas cada concessão precisa comprar algo concreto do Kremlin. Produzir movimento em Kiev é fácil para Washington. O teste é produzir mudanças em Moscou. Se a resistência russa continuar rendendo mais pressão sobre o adversário e mais incentivos para si, Trump estará ensinando ao agressor exatamente a lição que deveria fazê-lo desaprender: esperar compensa.

A tara com o FGC

Por O Estado de S. Paulo

Propostas para tutelar o fundo, de caráter privado, não param de surgir no Congresso

A Câmara dos Deputados rejeitou o projeto substitutivo do deputado Marcelo Queiroz (PSDB-RJ) que alterava as regras de resolução bancária para obrigar o Fundo Garantidor de Créditos (FGC), uma entidade de caráter privado, a socorrer o Banco de Brasília (BRB) – instituição que agoniza em praça pública após optar por se associar ao Banco Master.

Apesar da rejeição, a sociedade precisa manter-se vigilante em relação às reiteradas tentativas de tutela do FGC, algo que não vem de hoje.

A proposta de Queiroz recebeu 252 votos a favor e 176 contra. Por se tratar de um projeto de lei complementar, a aprovação exigia maioria absoluta de 257 votos; ou seja, faltaram apenas cinco para que avançasse.

O placar favorável à proposta rejeitada e os múltiplos interessados em salvar o BRB – banco que não divulga resultados há mais de um ano e que já deveria, ao menos, estar sob intervenção do Banco Central – contribuem para que inserções de última hora ao projeto, como a de Queiroz, voltem à pauta.

Além da tentativa de forçar o FGC a socorrer instituições em dificuldade – como o BRB, o que seria feito por determinação do Banco Central (BC) –, o texto de Queiroz condicionava a responsabilização dos controladores de instituições sob intervenção do BC à comprovação de culpa ou dolo.

Criado em 1995, o FGC recebe contribuições mensais de bancos associados para proteger depositantes e investidores em situações de falência, intervenção ou liquidação. O fundo também pode, em caso de risco sistêmico, oferecer liquidez pontual a instituições parceiras em dificuldade. No entanto, o BRB é um caso escancarado de gestão fraudulenta, passando longe de representar risco sistêmico.

Ademais, forçar o FGC a emprestar recursos a um banco cujo rombo real permanece desconhecido seria uma nova usurpação do fundo. A primeira ocorreu quando o Banco Master inundou o mercado com Certificados de Depósito Bancários (CDBs) que ofereciam rendimentos acima da média, mas sem lastro real.

O banco de Daniel Vorcaro usou o FGC como chamariz para praticar essa obscenidade. Deu no que deu. Com a liquidação extrajudicial do Master, o fundo teve de desembolsar quase R$ 60 bilhões de seu caixa para ressarcir os investidores lesados.

Poderia ter sido muito pior se tivesse prosperado a indecorosa proposta do senador Ciro Nogueira (PP-PI) de elevar o limite de ressarcimento do FGC de R$ 250 mil para R$ 1 milhão. De acordo com investigações da Polícia Federal, Nogueira recebeu o texto da proposta diretamente de Vorcaro.

Fortalecer o sistema de resolução bancária é de interesse público, o que nada tem a ver com a verdadeira tara com o FGC demonstrada por parte do Congresso.

Por fim, a esta altura dos eventos, não há solução sem dor para o BRB. Quanto mais o tempo passa, mais os ativos ainda valiosos do banco do Distrito Federal perdem valor. O banco regional precisa divulgar o seu balanço o quanto antes e ser devidamente enquadrado pelo BC.

Custo da comida supera alta dos salários e deve subir mais

Por Valor Econômico

A alta dos preços dos alimentos superou em 9,5% a inflação entre abril de 2020 e julho de 2026

Os preços dos alimentos e dos serviços compõem uma dupla que empurrou a inflação brasileira para bem acima da meta nos últimos anos — e ela nunca mais voltou para perto dela. A deflação observada no IPCA em agosto (-0,32%) e a virtual estabilidade do índice em julho (0,07%) foram agradáveis surpresas passageiras. O IPCA acelerou em setembro (0,88%), compondo cenário negativo. A inflação voltou a ultrapassar o teto da meta, de 4,5%.

Um dos principais fatores de alta, depois do fim do bônus de Itaipu e dos preços dos transportes, empurrados pelos combustíveis, foi o fim do período de bom comportamento do custo da alimentação e bebidas. Ele subiu 0,83% em setembro, com impacto de 0,18 ponto na elevação do índice geral. Foi uma reviravolta após três meses consecutivos de queda, favorecida pelo aumento da oferta sazonal de produtos in natura. Em junho, os alimentos e bebidas ficaram 0,24% mais baratos, em julho, 0,67%, a maior queda em dois anos, e, em agosto, 0,34%.

Mas os produtos cujos preços caíram naqueles meses e aliviaram a conta de supermercado da população agora são vilões. Entre eles estão o tomate e a batata, que subiram 37% e 24%, respectivamente, em setembro, em consequência das chuvas acima da média no Sudeste, além da cebola, arroz e carnes — todos itens importantes na dieta diária da população. Algumas quedas amenizaram a alta, como é o caso do frango inteiro e em pedaços e de frutas sazonais.

Não deu para evitar que a alimentação fora de casa também ficasse mais cara, com aumento de 0,48% dos preços em setembro, ante 0,36% em agosto. O custo das refeições em restaurantes subiu 0,49%, ligeiramente acima da variação de 0,47% dos lanches.

Entre os componentes da inflação, o grupo de alimentos e bebidas é o que tem potencial de influenciar o humor da maior parcela do eleitorado. O encarecimento dos alimentos afeta diretamente a população e dissemina o sentimento de elevação do custo de vida. A compra de alimentos, segundo a Fundação Getulio Vargas (FGV), consome de 22% a 25% da renda dos mais pobres, e entre 18% e 20% das faixas mais elevadas.

Em outra forma de dimensionar o problema, sondagem do Mercado de Trabalho também feita pela FGV em agosto constatou que a compra de alimentos é a despesa com maior impacto no orçamento das famílias, mencionada por 81,9% dos entrevistados. Na faixa de renda de até dois salários-mínimos, o percentual sobe para 87% (Valor 6/10).

O número é expressivo. Entre os trabalhadores ocupados no Brasil, 32,2% recebem até um salário-mínimo por mês, de acordo com dados do IBGE do segundo trimestre deste ano. A parcela de quem ganha até dois salários-mínimos chega a quase 70% (69,1%). Isso significa que apenas 30,9% das pessoas ocupadas têm renda mensal acima de R$ 3.242 por mês.

A percepção da população em relação ao encarecimento do custo dos alimentos tem fundamento. Os preços da refeição em domicílio cresceram nada menos que 60,8% entre abril de 2020 e agosto de 2026, mesmo tendo caído nos três últimos meses desse período. Esse aumento superou a inflação em 12,7%, que foi de 42,7% medida pelo IPCA no mesmo espaço de tempo. Pior do que isso, os alimentos também subiram mais do que o rendimento médio dos trabalhadores, superando em 9,5% a inflação entre abril de 2020 e julho de 2026, o que significa que os salários, de fato, não acompanharam o aumento de custo da comida.

As perspectivas nessa área não são tão positivas, como se seria de supor após a Conab projetar uma safra recorde de grãos para 2026-27, de 367,1 milhões de toneladas, 1,4% acima do registrado no ano passado. Os riscos climáticos, potencializados por um El Niño muito intenso, pode prejudicar a produtividade, frustrar as estimativas iniciais e impactar o custo da alimentação. Isso já começou a ocorrer. O excesso de chuvas no Centro-Sul tem dificultado o plantio da soja no Rio Grande do Sul, pelo excesso de umidade, e afetado a colheita da safra de inverno e o início das ações para a safra de verão no Paraná (Valor, 16-10).

Como setembro já demonstrou, novas altas de preços são esperadas não só pelo efeito do El Niño, que começa a pesar mais nesse período do ano, mas também pelo prolongamento do conflito no Oriente Médio, que tem mantido as cotações do petróleo acima de US$ 100 o barril, e encarecendo insumo importante da agricultura durante o plantio e colheita, e também o transporte. O grande temor de escassez aguda de fertilizantes, dos quais o país importa 85% de suas necessidades, parece afastado, mas os agricultores estão desembolsando mais dinheiro para comprá-los este ano.

A previsão é que a variação dos preços dos alimentos e bebidas no IPCA feche o ano em 6,7%, acima dos 2,95% de 2025 e dos 5% estimados pelo boletim Focus. O peso de uma despesa tão relevante no orçamento das famílias como a alimentação é um dos fatores que explicam a insatisfação do brasileiro com a economia, com emprego e renda recordes.

Democracia não rima com violência

Por O Povo (CE)

A campanha eleitoral de 2026 pela presidência da República chega à sua reta final, infelizmente, marcada por alguns episódios de violência ocorridos nos últimos dias. Até tinha sido, até então, uma temporada sem registros preocupantes de confrontos entre militantes, a despeito do ambiente tenso e acirrado que permeia o período, desde quando as candidaturas foram oficializadas e autorizadas a ocupar as ruas em busca do apoio e da simpatia dos votantes.

Havia sido um primeiro turno marcadamente tranquilo, nesse sentido, observando-se até uma certa frieza das ruas em meio a um quadro polarizado, desde o início, entre duas forças políticas centrais

Eis que, nas últimas horas, passaram a circular nas redes sociais depoimentos e imagens indicando situações de confrontos ou da prática de violência com origem no fato de os envolvidos, ou envolvidas, terem posições políticas e eleitorais diferentes. Um contrassenso diante da constatação de que é na divergência combinada à tolerância, exatamente, que o processo democrático encontra sua maior virtude.

Por dever de justiça é preciso reconhecer que a maioria dos casos trazidos ao debate público apontam simpatizantes ou militantes identificados com a candidatura de Jair Bolsonaro (PL), embora isso não represente da parte dos que apoiam a reeleição do atual presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), uma garantia de aceitação passiva, em todos os casos, deles se depararem com quem pense diferente. Os próximos dias tendem a ser mais tensos, com o cenário de divisão quase meio a meio do eleitorado que as pesquisas apontam, o que aumenta a responsabilidade dos que podem, de um lado e de outro, influenciar nos comportamentos coletivos. Ou mesmo em algumas posturas individuais.

O peso dos exemplos vai ser fundamental para termos, até domingo, um ambiente sadio de disputa pelo voto dos brasileiros e das brasileiras. No qual prevaleçam os argumentos, as propostas ganhem a atenção necessária, olhemos mais para os compromissos que os candidatos assumem para o mandato que buscam entre 2027 e 2030 e a capacidade real que apresentam de cumpri-los, enfim, que não tenhamos gestos ou atitudes que façam o debate se desviar para o que não é de interesse objetivo da população.

Há uma responsabilidade das autoridades competentes, também, para garantir o respeito pleno à liberdade de manifestação, especialmente quando falamos do que acontece nos espaços públicos. Ninguém pode ser motivo de qualquer constrangimento pelo fato de indicar sua preferência eleitoral, desde que o faça respeitando o limite e o direito semelhante que é dado ao outro de indicar um caminho diferente. É a própria democracia, no seu conceito mais puro, que assim o determina. 

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