segunda-feira, 19 de outubro de 2026

Opacidade das big techs no jogo eleitoral, por João Marcelo Sena - Ombudsman

O Povo (CE)

Da mesma forma que a imprensa cobra de agentes públicos uma postura livre de interesses pessoais, deveria ser mais crítica à falta de transparência nos algoritmos

É chover no molhado falar sobre como as redes sociais têm protagonismo como espaço de disputa política. A cada eleição, cresce a influência do ambiente digital naquilo que é pautado pelas campanhas nos principais temas em debate. A semana que começou com um vaivém de decisões do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sobre o canal de WhatsApp “Exército do Lula” terminou com suspeitas de interferência da Meta no pleito.

Em meio à sinuca de bico na qual o Poder Judiciário se colocou ao longo dos últimos meses, cada decisão passa a ser recebida com desconfiança já naturalizada. Diante desse clima de conflagração política nas cortes superiores, chega a ser uma boa surpresa o destaque à notícia de um parecer emitido pela área técnica do TSE. O relatório não apontou para desinformação disseminada no canal, mas fez alertas quanto ao uso de “linguagem polarizadora, que tende a estabelecer uma lógica de confronto” naquele ambiente.

Quanto ao potencial das big techs de causarem desequilíbrio eleitoral de acordo com os algoritmos é algo que os veículos de imprensa brasileiros demoraram alguns anos para dar o devido destaque. O assunto só ganhou mais força e visibilidade a menos de duas semanas do 2º turno, após a campanha de Lula (PT) fazer denúncias de interferência da Meta, que teria “escondido” e deixado de impulsionar no Instagram conteúdos favoráveis ao presidente.

A empresa negou interferência no pleito citando “incidentes técnicos” como explicação. Contudo, o portal “UOL” e a “Folha de S.Paulo” apontaram que a história não é bem assim. A Meta admitiu que sua ferramenta de IA restringiu impulsionamento e produção de conteúdos vinculados a contas de Lula nas redes, mas não fez o mesmo em relação a Flávio Bolsonaro (PL).

Da mesma forma que a imprensa acertadamente cobra do Judiciário uma atuação mais transparente e com postura livre de interesses pessoais políticos e econômicos, deveria dar uma atenção mais crítica e incisiva ao papel das big techs, que possuem um poder de influenciar decisões políticas difícil de mensurar. Sobretudo no que diz respeito à caixa-preta dos algoritmos, sob os quais há uma notadamente frágil regulamentação e nenhuma transparência.

É natural e esperado que seja colocada uma lupa sobre agentes públicos quando eles estão envolvidos em suspeitas de desvios de conduta e é justificável a cobrança para que prestem esclarecimentos à sociedade. Mas, se entes privados, como é o caso das big techs, se mostram com enorme poder para influenciar o processo decisório democrático, é dever da imprensa dar tratamento semelhante.

Duas abordagens para ações nas redes

Ainda no âmbito das redes sociais, aqui vão dois exemplos da última semana no Ceará de ações políticas voltadas para o ambiente digital e como a cobertura as abordou.

A suplente de deputada federal e deputada estadual eleita Mayra Pinheiro (PL) foi ao campus da Universidade Regional do Cariri (Urca) gravar vídeos com ofensas aos estudantes. Ao lado do ex-ministro da Saúde do governo Jair Bolsonaro (PL), Marcelo Queiroga, a futura parlamentar chamou os discentes de “vagabundos” e afirmou que eles estariam utilizando a estrutura universitária para “fazer militância política” em prol da candidatura de Lula.

O POVO noticiou o fato destacando no título as declarações de Mayra e o repúdio da vice-reitora Socorro Vieira. O conteúdo produzido e o tom adotado pela deputada eleita no vídeo tinham o intuito claro de gerar repercussão nas redes. Do ponto de vista jornalístico, é difícil ignorar o fato em si, mas a abordagem dada ao caso pode ampliar a visibilidade do ato cujo teor era ofensivo.

Por mais que se destaque a nota de repúdio, há um claro desequilíbrio no embate de discursos dada a posição da vice-reitora com limites institucionais que não permitem uma resposta em termos de alcance semelhante. Além disso, há uma prevalência do chamado “jornalismo declaratório”, algo que já recebeu críticas aqui neste espaço.

Posteriormente, uma nova matéria foi feita, destacando posicionamento da Reitoria afirmando que Mayra e Queiroga entraram na Urca sem autorização para gravar o conteúdo.

Na sexta-feira, 16, O POVO fez outra matéria com o título “Deputada do PL que chamou estudantes da Urca de ‘vagabundos’ faltou a quase 1/3 das reuniões da Comissão de Saúde na Câmara”. Ainda que a investigação sobre a assiduidade de Mayra como parlamentar seja pertinente, o título repete as ofensas feitas por ela aos alunos.

Noutro caso, também envolvendo um político da extrema direita cearense, repercutiu o ato de campanha promovido pelo deputado federal André Fernandes (PL) em Horizonte. Durante o evento intitulado “Bloco do 22”, manifestantes teriam proferido ofensas ao prefeito do município da Região Metropolitana de Fortaleza, Nezinho Farias (PSB), e lançado fogos de artifício nas proximidades da residência do gestor.

Diferentemente do episódio envolvendo Mayra Pinheiro, a matéria do O POVO sobre este caso priorizou no título a reação de parlamentares e não a atitude de teor ofensivo: “Deputados repudiam ato de André Fernandes com fogos perto da casa do prefeito de Horizonte”. O material destacou fala em tribuna da deputada Jô Farias (PT), esposa de Nezinho, que recebeu apoio de colegas parlamentares.

A matéria cita ainda uma publicação temporária de André nas redes sociais, com o deputado manipulando artefato pirotécnico sobre um veículo durante a carreata. Na legenda, ele escreveu “Sabem de quem é essa casa?”, acompanhado de um emoji de risada.

O deputado não respondeu quando procurado pelo O POVO para se manifestar sobre o caso. Ao “Diário do Nordeste”, Fernandes negou ter feito incitação à violência durante o evento.

A relação entre André Fernandes e Nezinho Farias não é de hoje. Em 2020, o então deputado estadual do PL teve o mandato suspenso por 30 dias na Alece após associar falsamente o hoje prefeito de Horizonte e então deputado estadual a facções criminosas. Um ponto que acabou passando batido na cobertura do caso.

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