terça-feira, 13 de outubro de 2026

Salto alto, por Merval Pereira

O Globo

A campanha da direita, deslumbrada com o resultado do primeiro turno, deixou-se levar pela expectativa de poder, subiu no salto alto e não foi às ruas

O marasmo da campanha presidencial do PT no primeiro turno sofreu uma reviravolta revigorante provocada pelo susto da derrota provável, não na cúpula da burocracia partidária, mas na base estudantil que tomou a frente das ações sem rédeas oficiais. As manifestações em diversas capitais, especialmente no Rio e em São Paulo, deram uma nova vida à candidatura à reeleição do presidente Lula, rejuvenescendo-a. A ação digital também melhorou. No entanto, esses avanços precisam ser mais bem avaliados para que não saiam do controle.

O caso da deputado federal Ana Elisa, eleita aos 21 anos por Minas, é exemplar. Tirada de seu nicho eleitoral para comandar a digitalização da campanha, trouxe junto um passado de ativista radical que em nada ajuda a tentativa de Lula de buscar entre os independentes e os que não votaram no primeiro turno os votos de que necessita para virar a eleição. As passeatas, além de exibir a força da juventude a favor de um candidato octogenário —neutralizando um dos pontos fracos de Lula —, servem para extravasar radicalismos que em nada ajudam a campanha. Ela tem de buscar os votos que faltam no centro e na direita democráticos.

A campanha oposicionista dos Bolsonaros tem aproveitado esses fatos para explorar mais uma vez os perigos que, segundo eles, a permanência de Lula no poder poderia trazer ao país. O próprio Lula, empolgado com a recepção de um desses comícios, exagera seu entusiasmo com a retórica rancorosa que foi marca do PT em anos anteriores. Quem quer que o eleitor mude de voto tem de respeitar sua escolha, entender por que ela aconteceu e convencê-lo com fatos concretos, não com ameaças ou notícias falsas.

A depredação de prédios públicos, como as estações de metrô, e as pichações em nada ajudam a busca dos votos de centro. As manifestações de rua, que faziam falta na vida política do país, de qualquer maneira deram uma renovada de ânimo na militância petista e tornaram a campanha presidencial mais competitiva. A direita, que tomara conta das ruas em diversas oportunidades, começa a se movimentar ao ver que a esquerda acordou. As duas campanhas, porém, sofreram da mesma doença, a arrogância.

A de Lula, que ele mesmo disse ter sido a mais desorganizada de que já participou, menosprezou o adversário e assustou-se com o resultado do primeiro turno. Só assim saiu do estupor, não por reviravolta interna, mas pelo impulso autônomo dos estudantes em vários pontos do país. A campanha da direita, deslumbrada com o resultado do primeiro turno, deixou-se levar pela expectativa de poder, subiu no salto alto e não foi às ruas. Fez acordos políticos de cúpula, conversou entre seus apoiadores, chamou de volta o Centrão e deu-se por satisfeita. Já está até negociando lugares no futuro ministério, nomes para o Supremo Tribunal Federal (STF) e conversando com ministros do STF para um “acordão”.

A reação das ruas mostrou que o jogo só acaba quando termina, e já é possível prever a organização de manifestações populares da direita para se contrapor às já realizadas pela esquerda. Os bolsonaristas passaram até a usar sua influência nos tribunais superiores para tentar impedir a propaganda petista, vício de quem já se considera parte do sistema. A medida tomada pelo presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Kassio Nunes Marques, de tirar do ar um canal de propaganda do PT é mais uma demonstração de que nossos tribunais superiores, principalmente STF e TSE, agem de maneira menos jurídica e mais política.

Nunes Marques tomou uma decisão radical, alegando que o canal espalhava notícias falsas. Recebeu, no entanto, um laudo técnico afirmando que não foi constatada nenhuma notícia falsa no site do “Exército de Lula”, e agora quer um acordo entre as campanhas para evitar falsas informações. Teve uma atitude política, reflexo do ambiente de disputa que tomou conta dos dois tribunais, e cada ministro vai tomando as decisões que melhor servem ao seu lado.

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