O Globo
A campanha da direita, deslumbrada com o
resultado do primeiro turno, deixou-se levar pela expectativa de poder, subiu
no salto alto e não foi às ruas
O marasmo da campanha presidencial do PT no
primeiro turno sofreu uma reviravolta revigorante provocada pelo susto da
derrota provável, não na cúpula da burocracia partidária, mas na base
estudantil que tomou a frente das ações sem rédeas oficiais. As manifestações
em diversas capitais, especialmente no Rio e em São Paulo, deram uma nova vida
à candidatura à reeleição do presidente Lula, rejuvenescendo-a. A ação digital
também melhorou. No entanto, esses avanços precisam ser mais bem avaliados para
que não saiam do controle.
O caso da deputado federal Ana Elisa, eleita aos 21 anos por Minas, é exemplar. Tirada de seu nicho eleitoral para comandar a digitalização da campanha, trouxe junto um passado de ativista radical que em nada ajuda a tentativa de Lula de buscar entre os independentes e os que não votaram no primeiro turno os votos de que necessita para virar a eleição. As passeatas, além de exibir a força da juventude a favor de um candidato octogenário —neutralizando um dos pontos fracos de Lula —, servem para extravasar radicalismos que em nada ajudam a campanha. Ela tem de buscar os votos que faltam no centro e na direita democráticos.
A campanha oposicionista dos Bolsonaros tem
aproveitado esses fatos para explorar mais uma vez os perigos que, segundo
eles, a permanência de Lula no poder poderia trazer ao país. O próprio Lula,
empolgado com a recepção de um desses comícios, exagera seu entusiasmo com a
retórica rancorosa que foi marca do PT em anos anteriores. Quem quer que o
eleitor mude de voto tem de respeitar sua escolha, entender por que ela
aconteceu e convencê-lo com fatos concretos, não com ameaças ou notícias
falsas.
A depredação de prédios públicos, como as
estações de metrô, e as pichações em nada ajudam a busca dos votos de centro.
As manifestações de rua, que faziam falta na vida política do país, de qualquer
maneira deram uma renovada de ânimo na militância petista e tornaram a campanha
presidencial mais competitiva. A direita, que tomara conta das ruas em diversas
oportunidades, começa a se movimentar ao ver que a esquerda acordou. As duas
campanhas, porém, sofreram da mesma doença, a arrogância.
A de Lula, que ele mesmo disse ter sido a
mais desorganizada de que já participou, menosprezou o adversário e assustou-se
com o resultado do primeiro turno. Só assim saiu do estupor, não por
reviravolta interna, mas pelo impulso autônomo dos estudantes em vários pontos
do país. A campanha da direita, deslumbrada com o resultado do primeiro turno,
deixou-se levar pela expectativa de poder, subiu no salto alto e não foi às
ruas. Fez acordos políticos de cúpula, conversou entre seus apoiadores, chamou
de volta o Centrão e deu-se por satisfeita. Já está até negociando lugares no
futuro ministério, nomes para o Supremo Tribunal Federal (STF) e conversando
com ministros do STF para um “acordão”.
A reação das ruas mostrou que o jogo só acaba
quando termina, e já é possível prever a organização de manifestações populares
da direita para se contrapor às já realizadas pela esquerda. Os bolsonaristas
passaram até a usar sua influência nos tribunais superiores para tentar impedir
a propaganda petista, vício de quem já se considera parte do sistema. A medida
tomada pelo presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Kassio Nunes
Marques, de tirar do ar um canal de propaganda do PT é mais uma demonstração de
que nossos tribunais superiores, principalmente STF e TSE, agem de maneira
menos jurídica e mais política.
Nunes Marques tomou uma decisão radical,
alegando que o canal espalhava notícias falsas. Recebeu, no entanto, um laudo
técnico afirmando que não foi constatada nenhuma notícia falsa no site do
“Exército de Lula”, e agora quer um acordo entre as campanhas para evitar
falsas informações. Teve uma atitude política, reflexo do ambiente de disputa
que tomou conta dos dois tribunais, e cada ministro vai tomando as decisões que
melhor servem ao seu lado.

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