segunda-feira, 19 de outubro de 2026

O voto, esse traidor, por Miguel de Almeida

O Globo

A identidade não determina a ideologia. Parece óbvio, menos para parte da esquerda, para quem a frase soa como alta heresia. Repetiu-se por anos, sem direito a réplica, que a defesa de minorias e desvalidos equivalia a falar por eles. Negava-se, assim, o fato de que entre mulheres, negros e pobres havia conservadores. As urnas dizem que eles existem e votam, fazendo-se ouvir. O primeiro turno acendeu o farol.

Não se pode confundir posição social com consciência política. São coisas distintas, embora o identitarismo mais pedestre tenha sempre misturado os conceitos. O resultado das eleições para o Congresso mostra que a esquerda pode ter confundido a defesa de grupos minoritários ou perseguidos com o alinhamento automático a sua visão de mundo. Não é bem por aí; sem catequese, por favor. No quesito, a História traz exemplos melhores.

A primeira deputada federal do país, eleita em 1933, a médica paulista Carlota Pereira de Queirós, era conservadora, anti-Vargas e nunca se disse feminista. Em 13 de março de 1934, única mulher entre os 253 parlamentares, tornou-se a primeira a ocupar a tribuna. Bateu de frente com a feminista Bertha Lutz, uma protolacradora, para quem Carlota falava por São Paulo e não pelas mulheres. Opôs-se à criação do Departamento Nacional da Mulher.

Hoje, Carol de Toni, eleita senadora pelo PL de Santa Catarina, parece herdeira da plataforma de Carlota. Como deputada, propôs extinguir a cota de 30% de candidaturas femininas. Justamente a cota que ajudou a colocar na disputa suas colegas de partido na Câmara.

Das 44 deputadas eleitas pela direita e pela extrema direita, 34 são brancas, nove pardas e uma única preta, a Professora Janad Valcari (PP-TO). Os homens negros recuaram de 108 para 101, segundo levantamento da Alma Preta.

A Frente Negra Brasileira, criada em 1931, defendia que o negro deixasse de ser apenas cabo eleitoral e buscasse ter representação parlamentar. Logo conseguiu um tento, em 1932: derrubou o veto ao ingresso de pretos na Guarda Civil paulista. Em 1936, tornou-se o primeiro partido negro do país, uma agremiação de direita. Seu líder, o poeta Arlindo Veiga dos Santos, flertava com o integralismo de Plínio Salgado. O órgão partidário, “A voz da raça”, estampava no cabeçalho: “Deus, Pátria, Raça e Família”. A ditadura estado-novista de Getúlio Vargas, em 1937, fechou o partido.

A palavra de ordem da Frente segue atual. Segundo o Boletim Lua Nova, do Cedec, os partidos de direita concentram metade das candidaturas negras do país. Elegeram uma única deputada preta. A direita também tem sua vitrine identitária, mas ela não chega ao plenário. O negro conservador existe e pede voto, ainda no papel de cabo eleitoral.

Tratada como o maior fenômeno identitário da eleição, Erika Hilton conquistou 1.596.472 votos, mais de seis vezes sua votação em 2022. O recorde feminino pertencia a Joice Hasselmann, com pouco mais de 1 milhão. A vitória de Hilton não se deve à questão de gênero, tampouco a seus constantes embates com os conservadores. Sua atuação, como escrevi aqui há quase dois anos, deixava de lado a questão da identidade e caminhava para o universal. A ela se deve a bandeira de eliminação da escala 6x1. Sua relevância, certamente com reflexos na votação alcançada, ocorre por legislar para todos, e não apenas para um grupo. A identidade sozinha não explica tudo. A política pautou. É uma mulher negra e trans — e isso faz parte da “marca”.

Drummond escreveu em “Resíduo”:

— De tudo ficou um pouco.

Das eleições também ficam resíduos; contradições que o discurso político não elimina. Mulheres não são necessariamente feministas; negros não são necessariamente de esquerda. As urnas desmentem a crença de que raça e gênero definem voto; crença que ainda inspira parte do discurso identitário da esquerda e da política cultural do governo petista. Qualquer que seja o vencedor em 25 de outubro, a mensagem está aí. Será ouvida? Como escreveu o poeta:

— Fica sempre um pouco de tudo. Às vezes um botão. Às vezes um rato.

 

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