O Globo
A identidade não determina a ideologia.
Parece óbvio, menos para parte da esquerda, para quem a frase soa como alta
heresia. Repetiu-se por anos, sem direito a réplica, que a defesa de minorias e
desvalidos equivalia a falar por eles. Negava-se, assim, o fato de que entre
mulheres, negros e pobres havia conservadores. As urnas dizem que eles existem
e votam, fazendo-se ouvir. O primeiro turno acendeu o farol.
Não se pode confundir posição social com consciência política. São coisas distintas, embora o identitarismo mais pedestre tenha sempre misturado os conceitos. O resultado das eleições para o Congresso mostra que a esquerda pode ter confundido a defesa de grupos minoritários ou perseguidos com o alinhamento automático a sua visão de mundo. Não é bem por aí; sem catequese, por favor. No quesito, a História traz exemplos melhores.
A primeira deputada federal do país, eleita
em 1933, a médica paulista Carlota Pereira de Queirós, era conservadora,
anti-Vargas e nunca se disse feminista. Em 13 de março de 1934, única mulher
entre os 253 parlamentares, tornou-se a primeira a ocupar a tribuna. Bateu de
frente com a feminista Bertha Lutz, uma protolacradora, para quem Carlota
falava por São Paulo e não pelas mulheres. Opôs-se à criação do Departamento
Nacional da Mulher.
Hoje, Carol de Toni, eleita senadora pelo PL
de Santa Catarina, parece herdeira da plataforma de Carlota. Como deputada,
propôs extinguir a cota de 30% de candidaturas femininas. Justamente a cota que
ajudou a colocar na disputa suas colegas de partido na Câmara.
Das 44 deputadas eleitas pela direita e pela
extrema direita, 34 são brancas, nove pardas e uma única preta, a Professora
Janad Valcari (PP-TO). Os homens negros recuaram de 108 para 101, segundo
levantamento da Alma Preta.
A Frente Negra Brasileira, criada em 1931,
defendia que o negro deixasse de ser apenas cabo eleitoral e buscasse ter
representação parlamentar. Logo conseguiu um tento, em 1932: derrubou o veto ao
ingresso de pretos na Guarda Civil paulista. Em 1936, tornou-se o primeiro
partido negro do país, uma agremiação de direita. Seu líder, o poeta Arlindo
Veiga dos Santos, flertava com o integralismo de Plínio Salgado. O órgão
partidário, “A voz da raça”, estampava no cabeçalho: “Deus, Pátria, Raça e
Família”. A ditadura estado-novista de Getúlio Vargas, em 1937, fechou o
partido.
A palavra de ordem da Frente segue atual.
Segundo o Boletim Lua Nova, do Cedec, os partidos de direita concentram metade
das candidaturas negras do país. Elegeram uma única deputada preta. A direita
também tem sua vitrine identitária, mas ela não chega ao plenário. O negro
conservador existe e pede voto, ainda no papel de cabo eleitoral.
Tratada como o maior fenômeno identitário da
eleição, Erika
Hilton conquistou 1.596.472 votos, mais de seis vezes sua votação em 2022.
O recorde feminino pertencia a Joice
Hasselmann, com pouco mais de 1 milhão. A vitória de Hilton não se deve à
questão de gênero, tampouco a seus constantes embates com os conservadores. Sua
atuação, como escrevi aqui há quase dois anos, deixava de lado a questão da
identidade e caminhava para o universal. A ela se deve a bandeira de eliminação
da escala 6x1. Sua relevância, certamente com reflexos na votação alcançada,
ocorre por legislar para todos, e não apenas para um grupo. A identidade
sozinha não explica tudo. A política pautou. É uma mulher negra e trans — e
isso faz parte da “marca”.
Drummond escreveu em “Resíduo”:
— De tudo ficou um pouco.
Das eleições também ficam resíduos;
contradições que o discurso político não elimina. Mulheres não são
necessariamente feministas; negros não são necessariamente de esquerda. As
urnas desmentem a crença de que raça e gênero definem voto; crença que ainda
inspira parte do discurso identitário da esquerda e da política cultural do
governo petista. Qualquer que seja o vencedor em 25 de outubro, a mensagem está
aí. Será ouvida? Como escreveu o poeta:
— Fica sempre um pouco de tudo. Às vezes um
botão. Às vezes um rato.

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