terça-feira, 23 de novembro de 2021

Merval Pereira - Refém do Congresso

O Globo

O presidente Bolsonaro chegou a uma encruzilhada na sua relação com a base parlamentar, em especial com os partidos do Centrão, mas também com o PSD de Gilberto Kassab, que trabalha para montar um partido tão forte que seja impossível ignorá-lo na composição de um futuro governo, que, ele garante, não será de Bolsonaro.

Um exemplo recente do desentendimento com o presidente da Câmara, deputado Arthur Lira, ainda está na retórica, mas pode ser pólvora no relacionamento. Lira foi a um seminário em Lisboa organizado pelo Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa (IDP), idealizado pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Gilmar Mendes, e aderiu à tese do semipresidencialismo, que Gilmar defende há muito tempo.

Nesse tipo de governo, o presidente da República, eleito pelo voto direto, compartilha o governo com o primeiro-ministro, eleito pelo Congresso. Disse Lira numa palestra: “A previsão de uma dupla responsabilidade do governo, ou de uma responsabilidade compartilhada do governo, que responderia tanto ao presidente da República quanto ao Parlamento, pode ser a engrenagem institucional que tanto nos faz falta nos momentos de crises políticas mais agudas”.

Na primeira afirmativa, não houve a definição de um marco temporal para a eventual adoção do novo sistema de governo, e Bolsonaro sentiu cheiro de queimado. Lira, mais adiante, contemporizou, explicando que, se aprovado, o semipresidencialismo só poderia entrar em vigor na eleição presidencial de 2026. Nem precisava, pois já passou o prazo de um ano antes da eleição para mudar regras eleitorais.

Carlos Andreazza - Rei morto, rei posto

O Globo

Você leu a excelente reportagem de Natália Portinari neste GLOBO, no último domingo? Tinha por chamada, na capa: “Alcolumbre fez do Amapá líder de verbas do orçamento secreto”; com o que se evoca o trabalho referencial de outro grande repórter, Breno Pires, do Estadão, aquele cuja investigação puxou o fio do controle — discricionário e oculto — de bilhões do Orçamento da União por e para poucos parlamentares. (Aliás: por onde andará o senador Marcio Bittar, relator-geral do Orçamento de 2021?)

Destaque-se o tempo verbal aplicado ao “fazer” na manchete: fez. Alcolumbre, então presidente do Senado, fez de seu estado, em 2020, a unidade da Federação com maior repasse proporcional de verbas oriundas das emendas do relator. Só que aquele ano acabaria e, com ele, o biênio do jovem coronel na presidência do Congresso.

Rei morto, rei posto.

Mas o rei morto é valente. Não se entrega. E usa prerrogativa do Senado — manipula a concertação que dá equilíbrio aos Poderes — para ir à forra. Quem paga a conta do bezerro desmamado, ableitado porém brioso, de súbito sem a derrama do orçamento secreto, ofendido para além da morte, rei morto e ainda — a desonra maior — deserdado? André Mendonça, cuja cadeira no Supremo depende de aval do Senado.

Eis o título da matéria de Portinari, à página 4: “Orçamento secreto é pano de fundo para trava de Alcolumbre à sabatina de Mendonça ao STF”.

Mendonça paga. E nada de arguição na Comissão de Constituição e Justiça. Coroné Alcolumbre não quer. Plantou até que seria ato de resistência, em defesa da democracia, contra o golpismo de Bolsonaro. Um esculacho. Não deixa, contudo, de reagir a um golpe. Levou rasteira dos antigos sócios. Tiraram-lhe a propriedade sobre destinos de dinheiros públicos.

Rei morto, rei posto.

Mas o rei morto é intrépido e cedo aprendeu a explorar a privatização sem limites das prerrogativas de senador. É o presidente da CCJ. Mexeram com o patrimonialista errado. Paga Mendonça. Pagaria qualquer um, até um que estivesse à altura de guardar a Constituição.

Eliane Cantanhêde - Crescimento baixo, inflação alta

O Estado de S. Paulo

A sucessão presidencial de 2022 começou, com Lula na frente, Bolsonaro ainda sem partido, Ciro vacilando, Sérgio Moro surpreendendo e os tucanos passando vexame. Mas as grande questão nacional, a crise econômica e social, ainda não entrou na pauta.

Assim como o presidente Jair Bolsonaro diz ao mundo que a Amazônia “é uma floresta úmida que não pega fogo”, seu Posto Ipiranga falido, Paulo Guedes, diz que a economia brasileira está crescendo “acima da média mundial”. Uma competição de inverdades.

Na realidade – e o governo já sabia disso antes da COP 26 –, as queimadas na Amazônia batem recorde em cima de recorde e o Brasil está a caminho de ser o lanterninha do crescimento econômico entre os países emergentes. É candidato a destruidor-mor do ambiente e da economia.

O mundo inteiro sofreu com a pandemia, mas no Brasil há outros fatores, como a disparada dos juros e as incertezas fiscais com o estouro do teto de gastos. As estimativas das agências variam de 0,8% a 1,9% e a do FMI fica no meio do caminho, em 1,5%.

Luiz Carlos Azedo - É bom ficar de olho nas eleições chilenas

Correio Braziliense

O presidente Piñera e ex-presidentes Lagos, Frei e Bachelet foram derrotados. O Chile oscila entre um governo parecido com o de Allende ou saudosista de Pinochet

Os paradigmas da esquerda latino-americana são a Comuna de Paris (1871), a Revolução Russa (1917), a Revolução Chinesa (1949), a Revolução Cubana (1959) e a Guerra do Vietnã (1955 a 1975). A Revolução Inglesa (1640-1688), a Independência dos Estados Unidos (1776) e a Revolução Francesa (1779-1789), revoluções burguesas que deram origem à democracia representativa, não são referências para seus objetivos. A esquerda também não estuda os contragolpes que puseram um ponto final nas revoluções. Isso exigira um mergulho nos próprios erros. É mais fácil denunciar os golpistas, com a narrativa do tipo “não existe derrota quando se vai à luta”.

Na América do Sul, no cenário de guerra fria, o golpe militar que destituiu o presidente João Goulart, em 1964, foi o ponto de viragem da geopolítica continental. Entretanto, o caso mais paradigmático foi o brutal golpe no Chile, do general Augusto Pinochet, em 1973, no qual o presidente socialista Salvador Allende se matou, em meio ao bombardeio do Palácio La Moneda pelos militares golpistas. No rumo de um inédito “socialismo democrático”, Allende atraia as atenções mundiais.

O golpe no Chile levou o líder comunista italiano Enrico Berlinguer a rever toda a estratégia do Partido Comunista Italiano, propondo um “compromisso histórico” com a democracia-cristã, tendo a “democracia como valor universal”. Em 1978, um acordo negociado por Berlinguer com o ex-primeiro-ministro e presidente da Democracia Cristã, Aldo Moro, poria fim à grave crise governamental. Entretanto, enfrentava oposição do Vaticano, da Máfia, dos Estados Unidos, da OTAN, da União Soviética e dos extremistas de direita e de esquerda.

Míriam Leitão - Avenida do 5G e os investimentos

O Globo

O investimento para implantar o 5G não deve aumentar muito as inversões do setor de telecom, mas em compensação estarão abertas as possibilidades para os investimentos dos setores em geral. A manufatura 4.0, a telemedicina, a agricultura conectada, as cidades inteligentes, as construções inteligentes. Muitos projetos passam a ser possíveis. Antes, contudo, há um pedregoso caminho para as operadoras.

Marcos Ferrari, presidente-executivo da Conexis, entidade que reúne as empresas de telecom, diz que será instalada a estrada, mas tudo dependerá da forma como ela será usada:

Felipe Salto* - Os custos da confusão fiscal

O Estado de S. Paulo

O esforço de zerar o déficit e produzir um superávit necessário para que a dívida estacionasse seria de R$ 450 bilhões

A PEC dos Precatórios foi aprovada pela Câmara dos Deputados e tramita no Senado. A mudança no cálculo do teto de gastos e o calote nos precatórios levariam à perda de credibilidade, à insegurança jurídica e, como um tiro pela culatra, ao aumento do endividamento público. Parte da fatura já está sendo paga.

Os juros previstos para os próximos dez anos a partir de 2022, tomando-se a curva a termo (que indica as taxas exigidas pelo mercado em diferentes prazos), estão em 12% ao ano. Isto é, o custo para o Tesouro Nacional tomar emprestado do mercado (quando emite títulos) para financiar suas despesas poderá ser muito alto por um bom tempo.

Para ter claro, há cinco meses, esse custo era precificado em torno de 7% (prazo de um ano), em pouco mais de 8% (cinco anos) e em 9% (dez anos). O aumento das taxas para 12% reflete a subida do prêmio exigido pelo risco. Diante de incertezas crescentes, quem tem poupança (o mercado) exige maior remuneração (juros) para comprar títulos públicos.

Joel Pinheiro da Fonseca – Ditadura? Só se for de esquerda

Folha de S. Paulo

Partido é contra ditaduras; desde que sejam de direita

Enquanto Lula era recebido com honras pelos líderes das principais democracias europeias, Bolsonaro fazia um tour por ditaduras árabes. O contraste traz saudades da projeção internacional que já tivemos e que perdemos com o desastre bolsonarista.

Mas ele não nos deve cegar para o outro lado, menos vistoso, da política internacional de Lula e do PT: o apoio reiterado a ditaduras de esquerda, bem como a governos populistas que empurram seus países nessa direção.

Há duas semanas tivemos a nota de celebração à vitória de Daniel Ortega na Nicarágua em eleições fraudulentas. Para o PT, tratou-se de "uma grande manifestação popular e democrática", ecoando, aliás, o apoio às eleições de fachada na Venezuela em 2020. A nota foi deletada posteriormente, mas nenhuma mudança de postura veio.

Cristina Serra - Máquina de moer gente

Folha de S. Paulo

A mudança do Código de Mineração se soma a outros projetos pró-mineradoras

Está em processo de incubação na Câmara dos Deputados, num grupo de trabalho criado por Arthur Lira, o projeto de alteração no Código de Mineração. O relatório da deputada Greyce Elias (Avante-MG), que está para ser votado, propõe que a mineração seja considerada atividade de "utilidade pública", de "interesse social" e "essencial à vida humana".

Sim, você leu direito. No país em que quase 300 pessoas morreram em dois recentes desastres no setor, a mineração passaria a ser considerada "essencial à vida humana". A essência do relatório é reduzir o papel regulador e fiscalizador do Estado, transformando-o em um mero bedel dos interesses das companhias mineradoras.

Alvaro Costa e Silva - Gritos de Carnaval (a favor e contra)

Folha de S. Paulo

Pressionado a impedir a festa, Bolsonaro até agora não anunciou restrições

O café Gaúcho ferve. Numa das esquinas mais movimentadas do Centro do Rio —entre as ruas São José e Rodrigo Silva, palco de protestos e manifestações políticas, em frente à nova sede da Assembleia Legislativa—, o botequim resistiu ao extermínio que a pandemia impôs ao comércio da região e já trabalha no ritmo de antes: o chope e o cafezinho não param de sair, assim como o bolinho de carne e o cachorro-quente de linguiça.

Com os cotovelos encostados no balcão, o trabalhador informal tem um único assunto, fora a expectativa de receber a grana do auxílio governamental: "Vai ter Carnaval em fevereiro? O Bolsonaro vai deixar?".

Se depender só de Eduardo Paes, o prefeito-folião, o Rio terá o maior Carnaval de todos os tempos, capaz de superar a farra de 1920, que marcou o fim da gripe espanhola, estendendo-se do Réveillon até os idos de março. Não imagino como será feita a fiscalização na hora de exigir o passaporte da vacina para pular na pipoca do cordão da Bola Preta, com mais de um milhão de pessoas nas ruas. Paes não abre mão de faturar e, de lambuja, tirar um sarro de Marcelo Crivella, o prefeito-pastor, que via em cada carioca um Zé Pelintra e fez de tudo para boicotar a festa.

Fabio Graner - A queda de braço sobre o PIB de 2022

Valor Econômico

Juro maior restringe investimento, diz Rafaela Vitória

O Ministério da Economia está em uma verdadeira batalha de expectativas com o mercado em torno do cenário para o Produto Interno Bruto (PIB) para o ano que vem. Enquanto o time do ministro Paulo Guedes fez uma tímida revisão em sua previsão de crescimento, de 2,5% para 2,1% em 2022, a mediana coletada no Focus já caiu para 0,7% e muitos enxergam risco de recessão no ano eleitoral.

O momento lembra o que ocorreu em meados do ano passado, quando o boletim Focus migrou para projeções de quedas maiores que 6%, enquanto o bloco P da Esplanada dos Ministérios sustentava que a queda seria de 4,7%. A área econômica levou a melhor e o PIB fechou 2020 com recuo de 4,1%.

É notório que o nível de atividade está perdendo ritmo. Assim, a questão é o tamanho da desaceleração daqui para frente e se haverá recessão. A resposta certa vale muito, mas ninguém sabe com certeza o que vem adiante.

No Ministério da Economia, o cenário positivo é baseado em três fatores. O principal deles é a expectativa de que, como a pandemia está ficando para trás no Brasil, há tendência de retomada da economia informal, sobretudo no setor de serviços, que representa 63% do PIB.

Andrea Jubé - Os tucanos no divã

Valor Econômico

Moro vai bem nos 100 metros, mas completa a maratona?

Depois que esgotarem as reuniões sobre tecnologia e por que falhou o aplicativo de votação pelo celular, os caciques do PSDB deveriam se revezar no divã para analisar por que insistem na autossabotagem, um dos obstáculos para a almejada volta ao poder.

Seria hora de ouvir Sigmund Freud (1856-1939), que se dedicou ao tema em ensaio de 1916, com o sugestivo título “Os que fracassam no triunfo”. Numa síntese breve e imperfeita, o pai da Psicanálise analisa neste texto exemplos de personagens que sentem alívio se o objeto de desejo não é alcançado. Porque se atingissem o sucesso, não saberiam o que fazer com aquilo.

O partido que controlou a inflação e estabilizou a moeda com o Plano Real, e governou o país por oito anos, está se embrenhando cada vez mais num labirinto de problemas.

Aylê-Salassié F. Quintão* - Com ou sem Ministério do Trabalho, é tudo muito explosivo

Parece mentira. Passo com frequência   à frente do Ministério do Trabalho. A última vez que entrei lá foi no governo Médici (anos 70). O ministro era o amazonense Júlio Barata. Ele me prendeu numa conversa durante cerca de quatro horas. Foi nos servido uns dez cafezinhos.  Saí sem uma linha de notícia. Perdi a tarde toda.  Ele queria conversar sobre meus estudos na universidade, sobre a imprensa, sobre aventuras de viagem pelo exterior. Contava-me longas histórias. Aparentemente, ele não tinha nada para fazer, nem o que dizer. Era o plantonista.

Fiquei pensando, mas este não pode ser o mesmo ministério do Trabalho que amparou as obstinadas lutas políticas nos tempos de   Getúlio Vargas e de João Goulart. Por ali passaram figuras   expressivas como Lindolfo Collor, José Segadas Viana, Agamenon Magalhães, João Goulart, Franco Montoro, Almino Afonso, Jarbas Passarinho, Paulo de Tarso. Eram quase "imexíveis", no dizer de outro ministro do Trabalho, saído do sindicalismo, Antonio Magri, a primeira experiência de se entregar do Ministério aos sindicalistas: um fracasso. Depois foram feitas outras tentativas.

Todos políticos, todos enfrentaram   desafios no interior do Estado e nas ruas as grandes mobilizações sindicais, que colocavam os governantes   na contramão da História do Brasil. Lindolfo Color foi o criador do ministério, em 1930, e o fez, com sucesso, inspirado no modelo de controle corporativo fascista do italiano Mussolini, confrontando-se com o comunismo (1922) que se expandia no Brasil em moldes mais modestos, sob forte repressão.

Acobertada por um cenário autoritário e nacionalista, a ideologia corporativista disseminou-se rápido. Sobrevive...  A sociedade deveria se organizar através de grupos corporativos, cada qual fundado com base em interesses comuns: trabalhadores, empresários, militares, agricultores, etc. Segundo essa ideologia, caberia ao Estado mediar os conflitos entre as corporações.

O que a mídia pensa - Editoriais /Opiniões

EDITORIAIS

Fracasso das prévias do PSDB é trágico para a democracia

O Globo

É difícil encontrar palavras publicáveis para descrever o que ocorreu neste domingo nas prévias do PSDB. Papelão, vergonha ou incompetência são termos fracos, dados a relevância da iniciativa para a democracia brasileira e o papel de protagonista que o PSDB já teve na história recente. O fracasso traduz de modo trágico uma das maiores mazelas do Brasil: a distância entre as exigências de um mundo e de uma economia a cada dia mais dependentes de conhecimento técnico e a ignorância dos líderes que tomam decisões sobre temas essenciais para o êxito de suas empreitadas.

Um partido que fala em políticas públicas baseadas em evidências, que tenta fugir a rótulos ideológicos defendendo o diálogo, que quer ser a via do meio entre os extremos, que tem vínculos históricos com o meio intelectual e acadêmico e que deveria, por isso, estar na vanguarda, esse mesmo partido se revela incapaz de cumprir o item mais básico da atividade partidária: uma votação para resolver sem sobressalto a disputa interna. Que moral resta agora para reclamar de alquimias econômicas do PT ou do desprezo pela ciência e pelo conhecimento no governo Bolsonaro?

É preciso entender que não existe dificuldade técnica nenhuma em desenvolver um sistema de apuração de votos confiável, robusto e auditável. Uma eleição em que algo como 45 mil votantes têm de escolher entre três alternativas é, do ponto de vista computacional, um problema trivial, tamanha a capacidade de processamento e transmissão de dados disponível hoje.

Poesia | Manuel Bandeira - Pneumotórax

Febre, hemoptise, dispneia e suores noturnos.
A vida inteira que podia ter sido e que não foi.
Tosse, tosse, tosse.

Mandou chamar o médico:
— Diga trinta e três.
— Trinta e três… trinta e três… trinta e três…
— Respire.

— O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o pulmão direito infiltrado.
— Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?
— Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.

Música | Alceu Valença - Madeira do Rosarinho (Capiba)

 

segunda-feira, 22 de novembro de 2021

Fernando Gabeira - Bolsonaro e a extinção da espécie humana

O Globo

Bolsonaro disse no Oriente Médio que a Amazônia não pega fogo porque é uma floresta úmida. E disse tranquilamente, apesar de tantas evidências colhidas por satélites e depoimentos visuais.

Em vez de repetir que Bolsonaro é cínico e mentiroso, continuo tentando entender como essas barbaridades acontecem.

Quando li “Guerra pela eternidade”, de Benjamin R. Teitelbaum, pensei em articular um roteiro de estudo que pudesse explicar para mim fenômenos como a vitória de Trump e Bolsonaro, para mencionar apenas dois nomes.

A impressão que tenho é que a extrema direita, apesar de ter apenas um milionésimo da capacidade de formulação da esquerda, compartilha com ela, ao que me parece, duas ilusões essenciais: que a História tem um sentido e que há atores predestinados a realizá-la. O sentido e os atores não coincidem, uma vez que uma se dedica a impulsionar o rumo da História; outra, a neutralizar sua trajetória materialista.

Steve Bannon manifestou sua simpatia pelos americanos do interior, como se houvesse nas suas convicções e modo de vida grandes qualidades a valorizar; Olavo de Carvalho, por sua vez, admiração por fervorosos grupos religiosos.

O ex-chanceler Ernesto Araújo defendia abertamente uma espécie de recomeço universal em que os valores espirituais prevalecessem e via em Trump a encarnação do herói que conduziria essa batalha.

A pane foi do próprio PSDB

Gustavo Schmitt / O Globo

Falha na ferramenta de votação das prévias presidenciais beneficia Moro, que amplia espaço no campo da terceira via

SÃO PAULO — Em meio ao vexame com o aplicativo de votação das prévias tucanas, não há dúvidas de quem foi o maior perdedor: o próprio PSDB. A sigla, que quer protagonizar a construção da terceira via, para além da polarização entre Bolsonaro e Lula, fragilizou mais sua imagem.

O partido, que chegou duas vezes à presidência da República, terminou o domingo incapaz de organizar suas próprias prévias. Nos últimos anos, contrariou suas bandeiras históricas e a orientação de seu presidente, se alinhando repetidamente ao bolsonarismo e ao Centrão.

E, enquanto o PSDB se esfacela e seus candidatos patinam nas pesquisas, o ex-juiz Sergio Moro é quem ganha pontos, ampliando espaço na centro-direita para sua eventual candidatura.

Depois de tanta confusão ontem e de tucanos da velha guarda ficarem ruborizados com o que viam, fazer previsões sobre como terminarão estas prévias tucanas requer uma bola de cristal. Certo é que se ampliou ainda mais o fosso entre as candidaturas dos governadores João Doria e Eduardo Leite, cujos grupos se digladiam nos bastidores e se distanciam cada vez mais de qualquer perspectiva futura de unidade partidária.

Elio Gaspari - Propaganda transforma Planalto em casa da sogra

O Globo, 21.11.2021

O capitão mandou pendurar um painel de 10 metros por 2,5 no saguão do Palácio do Planalto. Chama-se “Brasil acima de tudo” e faz seu gosto. Bolsonaro também quer privatizar a Petrobras. É seu direito defender a ideia, tomando as providências que a lei determina. Não é seu direito, contudo, tratar o prédio onde trabalha como propriedade privada. Se o Instituto do Patrimônio Histórico não serve para proteger a arte do palácio presidencial, seria melhor fechá-lo.

Os palácios brasileiros passaram a ser tratados como propriedade privada há pouco tempo. Getulio Vargas pouco mexeu no Catete ou no Laranjeiras. No Alvorada de JK, a sala de jantar era iluminada por lâmpadas fluorescentes que arruinavam a maquiagem das senhoras. No governo de FHC, colocou-se uma grande escultura de madeira no jardim do Alvorada. Com a chegada de Lula, a peça foi retirada e acabou num galpão. No lugar, entrou um canteiro de flores vermelhas com a forma da estrela do PT. No Planalto, Nosso Guia instalou um pequeno museu com peças de sua vida. Lula se foi, e com ele a estrela de flores e o museu.

O presidente americano Ronald Regan comparou o palácio da “Alvarado” ao QG de uma companhia de seguros. Bolsonaro já havia exposto no saguão do Planalto, onde pôs o painel, as roupas que ele e sua mulher Michelle usaram no dia da posse. Elas continuam lá, afastadas.

Essas manifestações de falso gosto histórico ou artístico são bregas e constrangedoras. Os museus brasileiros conservam peças que poderiam ser emprestadas ao Planalto. Aquelas paredes não são molduras de painéis de propaganda política.

Rafael Cortez* - Resultado é secundário em legenda desunida

O Estado de S. Paulo

Indefinição

Não por acaso, a eventual não candidatura a presidente segue como opção para os tucanos

As prévias tucanas definem não apenas o possível candidato do partido em 2022, mas o nome que pode liderar a legenda em um dos momentos mais cruciais de sua história, em busca do protagonismo que perdeu em 2018, com a vitória do presidente Jair Bolsonaro.

Aquele pleito deslocou o PSDB da organização da competição política no Brasil, colocando um desafio para o partido no próximo ano; retomar o papel de legenda com capacidade de formular e executar um projeto de Nação ou permanecer como sigla satélite no interior da constelação partidária, orientando sua sobrevivência à política local.

Esse delicado momento do PSDB, paradoxalmente, ocorreu justamente quando o PT, seu maior adversário, passou por crises profundas com o mensalão e, depois, a Lava Jato. Se seu maior adversário passa por um processo de impeachment, e seu maior rival não ganha votos, é sinal de risco de sobrevivência organizacional.

Denis Lerrer Rosenfield* - O tour de Lula

O Estado de S. Paulo

Ex-presidente insiste em que se dirige aos progressistas. O que isso significa? Apoio aos ditadores, aos que destroem a democracia, aos liberticidas?

O ex-presidente Lula é o mais bem situado candidato a presidente da República, segundo vários institutos de pesquisa. Logo, cabe explorar com mais vagar o que pensa caso volte a exercer a função de mandatário máximo de nosso país. Considerando que tem jogado parado, evitando dar declarações ou assumir compromissos, aproveitando-se dos erros de seu principal adversário, cabe verificar o que fez e disse em seu tour europeu. Temos, aqui, um bom itinerário de suas ideias.

Em seu discurso, repetidas vezes reitera que pretende “recuperar” ou “devolver” a democracia a nosso país. Uma pessoa, por pouco curiosa que seja, poderia se perguntar o que pretende dizer com isso. O candidato e o seu partido têm demonstrado um compromisso inarredável com as ditaduras cubana e nicaraguense, para não falar da Venezuela. Eleições fraudadas, assassinatos e prisões de opositores, cárceres em condições insalubres, inclusive com tortura, e assim por diante. Povos famintos, sem remédios e vacinas adequadas e sem nenhum direito de manifestação. Eis a democracia que Lula pretende instalar no País, neste seu esforço incansável de “recuperação” e “desenvolvimento” democráticos?

Celso Rocha de Barros - Lula no palco, Bolsonaro em fuga

Folha de S. Paulo

Em viagens ao exterior, ambos pareciam tentar voltar às origens

Em sua viagem pela Europa, Lula parecia preparar sua volta em grande estilo ao cenário internacional. Em sua viagem a Dubai, Bolsonaro parecia preparar sua saída. Ambos pareciam tentar voltar às origens.

Em texto da semana passada na Folha, Mathias Alencastro mostrou o tamanho do triunfo diplomático de Lula na Europa. A imprensa europeia recebeu Lula com uma mistura de simpatia e surpresa pelo Brasil ainda não ter acabado.

Na Europa, Lula reforçou vínculos históricos do PT e da CUT com a esquerda democrática europeia. Segundo a coluna de Alencastro, sua viagem foi paga pela Fundação Friedrich Erbert, ligada ao Partido Social-Democrata alemão. O PT sempre teve dificuldade de se assumir como partido trabalhista ou social-democrata, mas a centro-esquerda do velho mundo reconheceu a semelhança de família já no berço.

Marcus André Melo* - Chile despedaçado

Folha de S. Paulo

Alienação eleitoral e reforma institucional minaram a estabilidade de um sistema dinástico

Há grande perplexidade sobre a turbulência no Chile, o país mais bem-sucedido economicamente da região e que exibia maior estabilidade. O cenário é desolador. O padrão de competição política vertebrado por duas coalizões de centro-direita e centro-esquerda, deu lugar a um confronto entre outsiders extremistas. Boric, líder estudantil sem experiência que surgiu como candidato independente, lidera coligação com o partido comunista e movimentos. Kast foi candidato independente; agora é líder de partido de perfil pinochetista.

Ruy Castro - Blearghh! em uníssono

Folha de S. Paulo

Nenhuma interjeição, como esta criada por Jaguar nos anos 70, parece tão perfeita para o Brasil de hoje

Leitores escreveram apoiando uma onomatopeia que usei outro dia (29/10) ao descrever a sensação de asco diante de alguma nova agressão de Jair Bolsonaro ao Brasil. A onomatopeia era "Blearghh!", criada por Jaguar no Pasquim dos anos 70 para identificar o som de um vômito. Jaguar, o maior cartunista brasileiro de todos os tempos e a quem devemos uma edição abrangente de sua obra, fez dela a trilha sonora de seu personagem Gastão, o Vomitador, que assim expressava sua reação ao que acontecia no Brasil da ditadura. O Brasil de Bolsonaro obrigaria Gastão a vomitar de hora em hora.

Catarina Rochamonte* - Inep, Enem e doutrinação reversa

Folha de S. Paulo

A tentativa de doutrinação é um problema inerente ao modelo educacional

O que inspira as ações do presidente Jair Bolsonaro na educação, além de ignorância e obscurantismo, é uma espécie de ideologia reativa. Visto que a militância ideológica de esquerda vigente nos governos petistas corrompeu muita coisa no Brasil, inclusive a educação, a direita bolsonarista no poder tem pretendido corrigir tais rumos com doses cavalares de doutrinação reversa e estatismo.

Ao afirmar que as questões do Enem "começam agora a ter a cara do governo", Bolsonaro abriu o jogo intervencionista que deflagrou a crise no Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais). Acusando a "fragilidade técnica e administrativa da atual gestão máxima" do órgão, 37 servidores pediram exoneração de suas funções denunciando assédio moral, ideológico e tentativa de interferência indevida no processo de elaboração do exame.

Está clara a tentativa de manipulação ideológica no Enem por parte do governo federal. Mas causa estranheza o horror da comunidade política e acadêmica em relação ao caso, tendo em vista o grau de enviesamento ideológico que já havia na educação; só que para o lado oposto. Tal viés está explícito na BNCC, nos acervos das bibliotecas das universidades, nos currículos de formação docente e mesmo em questões passadas do Enem. Nada disso chocava os indignados de agora.

Mirtes Cordeiro* - A Educação, mesmo cambaleante, ainda é a esperança

Atravessamos um tempo em que assistimos sistematicamente ao desmonte das políticas públicas. Sem que se coloque nada no lugar.

Gostaria de começar este texto falando de todas as formas de empenho adotadas para a retomada dos processos educacionais em salas de aula por esse país afora.

Era o que esperávamos, mas não é o que está acontecendo.

Numa sociedade midiática como a nossa, podemos acompanhar ao vivo as situações mais variadas sobre o que vem ocorrendo em todo o país com o anunciado retorno às aulas, que foram paralisadas no seu formato presencial em março de 2020.

Escolas públicas, sobretudo as municipais, não têm as condições básicas exigidas pelos protocolos de saúde para a retomada das aulas presenciais. Muitos alunos não voltaram para as salas de aula e é preciso mobilizar esforços para que as famílias enviem novamente os seus filhos para as escolas.

A pandemia do novo coronavírus foi capaz de interromper de forma drástica o rumo da nossa educação já cambaleante, situação essa expressada durante alguns anos seguidos através dos sistemas de avaliação da aprendizagem, sobretudo o IDEB, sob responsabilidade do INEP, o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira, o mesmo responsável pela realização do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) que habilita os alunos para o ingresso nas universidades públicas no país.

Antônio Gois - A cara do governo

O Globo

Em situações normais, o noticiário dos últimos dias em relação ao Enem teria tratado exclusivamente da preparação dos estudantes para a prova. Mas não há nada de normal quando um presidente afirma que o principal exame público de acesso ao ensino superior teria “a cara do governo”. Até o momento, porém, o efeito mais visível da interferência indevida não estava nas questões que apareceram na prova de ontem.

Além do zelo dos servidores do Inep, uma das características que ameniza interferências drásticas e de curto prazo no exame é o fato de ele ser elaborado num processo extremamente profissional. Para que uma questão seja incluída no exame, primeiro é feito um edital de contratação de professores para escreverem perguntas. Uma vez que elas são selecionadas, é preciso ainda fazer um pré-teste com uma amostra de estudantes, para saber qual seu nível de dificuldade e sua capacidade de avaliar o conhecimento do candidato. Após essas etapas, a questão passa a compor o chamado banco de itens. Quanto mais amplo for esse banco, mais segura será a prova, pois o risco de vazamento diminui bastante.

O governo Bolsonaro não teve tempo ainda de moldar as questões que fazem parte deste banco de itens à sua imagem e semelhança. Mas já conseguiu ao menos promover a censura de algumas questões, como revelaram várias reportagens publicadas na semana passada.

Bruno Carazza* - De Marina para Moro

Valor Econômico

Lições de 2014 para uma terceira via em 2022

A única vez em que se vislumbrou a possibilidade real de uma “terceira via” chegar ao segundo turno aconteceu em 2014. Faltando um mês para os brasileiros irem às urnas naquele ano, o Datafolha indicava Dilma Rousseff e Marina Silva tecnicamente empatadas, com 35% a 34% das intenções de voto. O tucano Aécio Neves vinha bem atrás, com apenas 14%.

As eleições de 2014 foram as mais surpreendentes e disputadas de nossa história recente. Marina Silva teve o registro do seu partido - a Rede Sustentabilidade - negado em 2013 e por isso decidiu se aliar a Eduardo Campos (PSB), assumindo o posto de vice. Em 13 de agosto, porém, um trágico acidente aéreo tirou a vida do ex-governador pernambucano. Marina foi então alçada à cabeça de chapa a uma semana do início oficial da campanha.

Marina Silva tinha recall: em 2010, havia impressionado ao terminar em terceiro lugar com quase 20 milhões de votos (19,3% do total) concorrendo ao Palácio do Planalto pelo minúsculo PV. Além disso, com uma longa trajetória ligada a pautas sociais - havia sido vereadora, deputada estadual e senadora pelo PT e ministra do Meio Ambiente de Lula - e tendo na retaguarda André Lara Resende e Eduardo Giannetti pregando responsabilidade fiscal e reformas econômicas, Marina tinha tudo para furar a polarização histórica entre PT e PSDB.

Luiz Carlos Mendonça de Barros* - O debate fiscal revisitado

Valor Econômico

Presidencialismo de coalizão cria demanda quase autônoma de gasto público como moeda de troca de apoio

Vivemos hoje no Brasil uma verdadeira histeria conservadora no debate sobre o estado de nossas contas fiscais. As instituições internacionais que tradicionalmente funcionaram como auditores externos de nossa situação fiscal - agências de risco como S&P, FMI e IIF - foram atropeladas pelos chamados economistas de mercado na sua avaliação de uma situação à beira do caos.

A preocupação com a sustentabilidade das contas públicas faz parte do debate econômico no Brasil principalmente depois que a Constituição de 1998 estabeleceu uma série de novos programas sociais, inclusive na fixação de regras trabalhistas e previdenciárias. A demora pelo Congresso Nacional em aprovar as leis que os regulamentaram fez com que o período de ajuste nos orçamentos públicos se estendesse por mais de duas décadas e, somente a partir de 2016, chegamos a uma certa estabilidade sistêmica.

O que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões

EDITORIAIS

Recuo democrático reflete o avanço da extrema direita

O Globo

Desde 2015, apenas a Polônia registrou retrocesso democrático maior que o Brasil, segundo índice de democracia liberal

O cientista político Larry Diamond cunhou em 2015 a expressão “recessão democrática” para descrever o recuo da democracia liberal no planeta. De lá para cá, é notável como a tendência se acentuou. O movimento tem características peculiares, não acontece em todo lugar, nem na mesma proporção. Já está claro, contudo, que o declínio recente está intrinsecamente vinculado ao populismo nacionalista representado lá fora por nomes como Donald Trump ou Viktor Orbán e, no Brasil, por Jair Bolsonaro.

Desde 2015, apenas a Polônia registrou retrocesso democrático maior que o Brasil, entre os 178 países acompanhados pelo projeto V-Dem, coalizão de cientistas políticos americanos e europeus com sede na Universidade de Gotemburgo, na Suécia. O V-Dem combina a avaliação do ambiente institucional, liberdades civis e de expressão, sistema partidário, participação em eleições e diversos outros elementos numa série de indicadores comparáveis. Um dos principais mede o nível de democracia liberal em cada país por meio de um número entre zero e um.

Com exceção de ditaduras africanas e da Bolívia — onde a esquerda voltou ao poder num cenário conturbado —, a lista dos 15 países que mais recuaram no índice de democracia liberal a partir de 2015 é uma sucessão de exemplos canônicos do avanço da extrema direita populista: Polônia, Brasil, Eslovênia, Filipinas, Turquia, Hungria, Estados Unidos e Índia. Na média dos países da Europa Ocidental e da América do Norte, que concentram o eixo histórico da democracia no planeta, o índice caiu de 0,83 para 0,77 no período.

Depois de décadas em que o principal responsável pelo encolhimento da democracia no mundo era o comunismo e depois dos anos de avanço democrático pós-queda do Muro de Berlim, a ameaça hoje vem da extrema direita. É verdade que, na América Latina, também houve retrocesso em ditaduras de esquerda, como Venezuela e Nicarágua. Mas, embora esses países sejam menos democráticos, eles já eram assim. Não houve recuo comparável ao ocorrido no Brasil, onde o índice de democracia liberal do V-Dem caiu de 0,79 para 0,51 em cinco anos — período que abrange o impeachment de Dilma Rousseff e a eleição de Bolsonaro.

Poesia | Joaquim Cardozo - Alucinação em branco

Nessas barracas em branco
Quem misteriosamente teria se escondido?
São barracas de campanha,
ou de passar todo o verão no campo.

Lembram também cordas de mastros
Dos quais as velas se ausentaram.
Pois as velas voaram enfunadas e suspensas
No ar, que é – sonho das asas –
Todo o branco do contorno,
Navegam em limpas atmosferas.

São panos estendidos ao sol
Para secar, no quintal de alguma casa;
Grandes lençóis ondulantes
Ao vento que vem e vai,
Ao vento que não pára de agitá-los.

Há um jogo de pontas nesses mastros,
Pontas dirigidas em todos os sentidos.
E as linhas e as sobre-linhas,
Se orientam como se fosse possível
Substituir definitivamente,
Todo o branco do papel.

Música | Chico César e Geraldo Azevedo - Dia branco (VioliVoz em Recife PE 2021)

 

domingo, 21 de novembro de 2021

Paulo Fábio Dantas Neto* - Quatro ou cinco estrelas no céu da política: a realidade chã bate à porta

Tudo se move, nesse novembro ainda distante das eleições de 2022, na direção de que vire água uma ideia que, desde 2020, anima o desenho, ou espectro, da chamada terceira via. Refiro-me não à possibilidade, que considero cada vez mais real, de que uma candidatura se apresente como alternativa à de Bolsonaro em condições de enfrentar, competitivamente, a de Lula, num eventual segundo turno. Tão certo é esse perigo para o PT (atenção, digo que certo é o perigo, não o êxito dessa provável candidatura antipetista) que os movimentos do ex-presidente, internamente e no plano internacional, dirigem-se, paulatinamente, mas cada mais resolutamente, a uma articulação ao centro que descortina o óbvio objetivo de liquidar a fatura no primeiro turno. Se há chances, não é o tema aqui.

A ideia gasosa a que me refiro, que parece se desmanchar antes de atingir o estado sólido, é a de uma terceira via constituída sob o signo de uma agregação política para a pacificação racional do país. Aqui outro aviso: não quero com isso insinuar que seria de algum modo possível uma conciliação com a situação a que chegou, desde 2019, o Poder Executivo, como consequência do aventureirismo que prevaleceu nas urnas em 2018. A alusão é à hipótese, de todos os modos desejável, de uma convergência eleitoral dos democratas brasileiros, ao menos no segundo turno das eleições. O que vemos é que a convergência comprovada que há em defesa da democracia e das eleições, não está se traduzindo em convergência, programática ou mesmo pragmática, entre pré-candidaturas.

Luiz Sérgio Henriques* - O ‘desvio bolchevique’ da extrema direita

O Estado de S. Paulo

Os socialistas de hoje, particularmente no Brasil, deveriam rever as relações com o extraordinariamente complexo mundo do liberalismo político

Não é bem o caso de nos sentirmos irremediavelmente condenados ou nos imaginarmos como em território ocupado, vivendo passivamente o programa de destruição nada criativa que nos foi imposto a partir das últimas eleições presidenciais. Sabemos, desde a “resistível ascensão” de Donald Trump em 2016, que nenhuma democracia moderna, nem mesmo a mais antiga delas, está a salvo da investida de demagogos que pareceriam inverossímeis há apenas uma geração ou até menos.

Não se trata de autocomplacência, mas sim da percepção de estar em meio a um fenômeno que nos ultrapassa. Párias, certamente, mas entre pares, bastando mencionar o nutrido grupo de autoritários que, um pouco por toda parte, venceram eleições e, a seguir, passaram a minar instituições do Estado e a simplificar em proveito próprio a riqueza e a pluralidade da sociedade civil.

Sem querer desviar minimamente o foco do drama principal, é preciso lembrar ações e consignas que balizaram há pouco mais de duas décadas o chamado “socialismo do século 21”. Lideranças populares ou militares de patentes intermediárias lançaram-se à política em diferentes contextos nacionais, marcados, todos eles, por um liberalismo restrito ou oligárquico. A promessa era a de varrer “tudo o que está aí” e inaugurar o imaginado poder popular direto.

De fato, num país após o outro, em sequência inquietante, à primeira vitória presidencial seguiram-se assembleias constituintes que consagraram tanto o novo capo providencial quanto seu partido, o qual, se não era único, passaria a controlar paulatinamente as alavancas de comando político e econômico. Por certo, uma contrafação do espírito bolchevique original supostamente aggiornato para o novo século.

Entrevista | Alberto Aggio: 'Apoio a ditaduras revela esquerda anacrônica', afirma historiador

Alberto Aggio diz que Lula tem papel ambíguo entre a ideia da revolução e a social-democracia

Marcelo Godoy, O Estado de S. Paulo

O historiador Alberto Aggio acredita que parte do PT mantém a defesa da ideia da revolução em vez de se comprometer com a democracia como um valor universal. É essa opção, que se opõe à modernidade e não reconhece a necessidade das instituições do liberalismo político, que explica por que setores do partido apoiam ditaduras como a de Daniel Ortega, na Nicarágua, ou de Nicolás Maduro, na Venezuela. Ele aponta ainda o papel ambíguo desempenhado por Luiz Inácio Lula da Silva e diz que as eleições no Chile devem servir de alerta ao Brasil. Professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp), Aggio é especialista na história política da América Latina e autor de Um Lugar no Mundo: Estudos de História Política Latino-Americana. 

Leia, a seguir, sua entrevista.

Em que medida o modelo cubano de revolução ainda influencia setores da esquerda brasileira?

Se formos pensar nas forças principais da esquerda brasileira, o modelo cubano se espraia por diversos partidos e correntes e as mais expressivas delas são as correntes dentro do PT, embora o PT não seja inteiramente cubano. Há muita simpatia a esse nacionalismo também no PDT e no PSB. Eles guardam um certo espírito pré-1964. Aí o modelo cubano deita raízes e não desaparece porque a ênfase forte dessas correntes não é o tema político da democracia e das instituições, mas é o tema econômico, do desenvolvimento nacional. Ainda estão naquela chave de leitura das situações de dependência da América Latina e que só se pode sair disso confrontando o imperialismo. De certa forma, esse repertório dificulta alianças políticas. E quando elas ocorrem não são programáticas, mas superficiais.

Como a esquerda deveria se posicionar diante das manifestações que ocorrem em Cuba?

Se é verdade que a esquerda que apoia Cuba acredita na soberania dos cubanos sobre o território e o Estado, fica evidente que o comando do Estado cubano faz com que o próprio povo não tenha liberdade e soberania sobre esse Estado. A repressão que se estabelece permanentemente em Cuba é um atestado de que na Ilha os cubanos não têm soberania. Se é verdade que Batista usurpou a soberania popular, em Cuba há uma permanente usurpação dessa soberania. Cuba não tem representação democrática, a sociedade não se representa democraticamente no Estado.