segunda-feira, 25 de agosto de 2025

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

STF deve proteger criminosos com doenças mentais

O Globo

Ao avaliar decisão que acabou com manicômios judiciários, Corte não pode deixar pacientes abandonados

É delicado, mas fundamental, o julgamento em curso no Supremo Tribunal Federal (STF) sobre o atendimento a criminosos acometidos por doenças mentais. Quatro ações, impetradas pela Associação Brasileira de Psiquiatria, pela Associação Nacional dos Membros do Ministério Público e pelos partidos Podemos e União Brasil, pedem a decretação da inconstitucionalidade de uma resolução do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) que determinou, em 2023, o fechamento dos manicômios judiciais e a transferência de todos os presos neles internados para a rede de saúde pública. O argumento das ações é similar: não há condição de atender todos esses pacientes em hospitais públicos, e eles não podem ficar na rua.

É sem dúvida meritório o movimento que, desde os anos 1960, combate os manicômios. Lançado pelo psiquiatra italiano Franco Basaglia, ele chegou ao Brasil nos anos 1970 e ganhou força na redemocratização. A fundamentação é tanto científica quanto humanitária. As vistorias do Conselho Federal de Psicologia (CFP) em unidades que recebem criminosos ou acusados acometidos por doenças mentais que serviram de base à resolução do CNJ revelaram um quadro estarrecedor.

Incentivos tributários precisam ser revistos, por Bruno Carazza

Valor Econômico

Debate no Congresso Nacional é necessário para se fazer uma completa reavaliação de benefícios fiscais sem governança e resultados limitados

O timing não é perfeito, porém começam a surgir no Congresso conversas importantes para buscar soluções para se evitar o iminente colapso fiscal já contratado para o início do próximo governo, antes que seja tarde demais.

A sabedoria política recomenda que grandes reformas, principalmente aquelas impopulares, sejam propostas e discutidas no primeiro ano de mandato. Com a popularidade em nível máximo e contando com a boa vontade dos partidos que querem desfrutar das delícias do poder, presidentes recém-eleitos conseguem avançar propostas que impõem perdas a grupos específicos, em prol do bem comum.

Trump usa dólar como arma contra o Brasil, por Alex Ribeiro

Valor Econômico

Retaliações americanas mostram como o nosso sistema financeiro está vulnerável à ordem monetária global centrada no dólar

A queda dos preços das ações dos bancos na semana passada, devido aos riscos de uma escalada das retaliações do presidente Trump ao Brasil, mostra como o nosso sistema financeiro está vulnerável à ordem monetária global centrada no dólar.

Não é só o Brasil - outros parceiros comerciais dos americanos no Ocidente, que dividem valores comuns como a democracia, estão preocupados com o excesso de dependência dos Estados Unidos. Isso inclui, por exemplo, a localização física das reservas internacionais em ouro, que se concentram em Nova York, e dos data centers, onde estão armazenadas e são processadas informações financeiras valiosas.

Na sexta-feira, o jornal “Financial Times” noticiou que as autoridades europeias querem acelerar a implantação da moeda digital do Banco Central Europeu (BCE). A preocupação: a lei aprovada em julho nos Estados Unidos que regulamenta as chamadas “stablecoins”, que são criptomoedas com valor fixo em relação ao dólar, deverá ampliar ainda mais a preponderância da moeda americana no sistema financeiro mundial.

Após Trump, política externa pauta debate presidencial

Por Joelmir Tavares / Valor Econômico

Para o professor de filosofia Marcos Nobre, papel global do Brasil e ameaça à democracia serão temas inevitáveis na corrida eleitoral

A ofensiva do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sobre o Brasil e o papel a ser assumido pelo país diante da tentativa de reconfiguração global tornarão inevitável que a política externa seja debatida na eleição presidencial de 2026, afirma Marcos Nobre, professor titular de filosofia política da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e diretor do Centro para Imaginação Crítica, sediado no Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap).

Nobre vê Jair Bolsonaro pressionado a capitular e ungir como sucessor o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), considerado pelo analista o nome mais competitivo contra Luiz Inácio Lula da Silva. Mas projeta um cenário em que a vaga de vice na chapa seja destinada a alguém da família Bolsonaro, como esforço para garantir um salvo-conduto para o ex-presidente, após o julgamento por tentativa de golpe.

Autor de livros como “Limites da Democracia” (2022), o professor diz que o Brasil sofre de uma permanente ameaça golpista e que nem a eventual prisão do ex-presidente e de outros militares encerraria a necessidade de alerta. “Achar que a democracia está estabelecida é o tipo de ilusão que não deveríamos ter”, afirma.

A seguir os principais pontos da entrevista ao Valor:

Uma sociedade desconfiada das instituições, por Laís de Figueirêdo Lopes

O Globo

A desconfiança compromete a legitimidade das decisões, dificulta a implementação de políticas públicas e fragiliza a coesão social

Poucos sinais são tão reveladores do status de uma democracia quanto o nível de confiança que une (ou separa) cidadãos e instituições. Quando esse elo se fragiliza, a vida pública se torna um terreno instável, onde o dissenso perde a mediação, e o conflito se instala como regra. A cooperação enfraquece, e o debate se empobrece, assim como a capacidade de resolução coletiva dos problemas.

Isso vem se aprofundando no Brasil. A sensação de distanciamento entre instituições e sociedade se consolidou como sentimento em diferentes grupos. Há algo mais estrutural em curso: a corrosão de um pacto coletivo baseado na legitimidade das instituições e no reconhecimento mútuo das competências dos três Poderes.

Sanção a Moraes é absurda, por Carlos Alberto Sardenberg

O Globo

A Lei Magnitsky foi o caminho encontrado pelo legislador dos Estados Unidos para perseguir a bandidagem internacional

O objetivo da Lei Magnitsky, aprovada no Congresso americano em 2012, é apanhar criminosos e ditadores. Sim, é o resumo de uma situação complexa, mas esse é o espírito da regra: bloquear a lavagem de dinheiro obtido de maneira ilegal por traficantes, corruptos, ditadores e seus associados, que enriquecem saqueando seus próprios países e cometendo graves violações de direitos humanos.

Promulgada pelo presidente Barack Obama, a lei fazia parte de um esforço para combater crimes internacionais pela maneira mais eficaz — o bloqueio do dinheiro sujo e das manobras para torná-lo limpo. O traficante de drogas em algum momento precisa colocar seus recursos no sistema financeiro legal. Considerando o grau de globalização das finanças, fica difícil para as autoridades “seguir o dinheiro” mundo afora. Assim, o dinheiro do traficante colombiano, obtido na venda de cocaína nos Estados Unidos, circulava por bancos de diversos países.

Eleição de 2026 será uma batalha, por Miguel de Almeida

O Globo

Parece ser consenso: nunca houve uma legislatura tão disforme e despreparada

Não deveria ser surpresa os aspones das redes sociais escreverem leis apresentadas por deputados bolsonaristas — como se denuncia. Tampouco a mesma bancada do capitão se colocar contra a punição de quem sexualiza crianças atrás de monetização — como acontece. O problema não se encontra num poder controlado por baixos instintos. Está em como o espaço vazio foi ocupado sem resistência.

Atire a primeira pedra quem se lembrar do nome do deputado em que votou em 2022.

Parece ser consenso: nunca houve uma legislatura tão disforme e despreparada, movida a vinténs e de costas para a solução dos problemas brasileiros. Cada novo projeto saído da lavra dos parlamentares revela a discordância entre o que se pensa como futuro coletivo e o interesse privado de seus autores. Basta o exemplo do aumento de número de deputados bancado pelo presidente da casa, Hugo Motta. Com a ajuda do PT velho de guerra.

Em Barretos, Tarcísio leva boneco de Bolsonaro e alega 'injustiça' contra aliado

Por Samuel Lima / O Globo

Governador de São Paulo participou da abertura do evento ao lado dos governadores de Goiás, Ronaldo Caiado (União Brasil), e Minas Gerais, Romeu Zema (Novo)

O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), participou da abertura da 70ª edição da Festa do Peão de Barretos na noite deste sábado, 24 de agosto. Diante de um público formado por produtores rurais e majoritariamente conservador, levou ao palco um boneco do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), que cumpre prisão domiciliar a mando do Supremo Tribunal Federal (STF), e alegou que o padrinho político estaria sofrendo uma "injustiça" no inquérito da trama golpista.

— Entrei aqui pela primeira vez com o presidente Bolsonaro — lembrou Tarcísio em seu discurso, antes de receber o objeto das mãos do deputado estadual Lucas Bove (PL). — Essa pessoa que fez tudo por mim, que me abriu portas e está passando por uma grande injustiça. Mas, se a humilhação traz tristeza, o tempo vai trazer justiça, e eu tenho certeza que a justiça chegará — completou ele.

Em outro momento, Tarcísio declarou que "não dá para aceitar e respeitar quem não gosta do agronegócio".

Dois circos, por Diogo Schelp

O Estado de S. Paulo

CPMI será usada contra governo Lula, enquanto no STF Bolsonaro estará no banco dos réus

O governo Lula e a oposição bolsonarista vão enfrentar provações cruciais e simultâneas a partir dos próximos dias. Na terça-feira, 26, o Congresso dará início aos trabalhos da CPMI para investigar a fraude no INSS. Os líderes governistas dormiram no ponto e deixaram que a presidência e a relatoria da comissão fossem conquistadas por opositores ferrenhos. Uma semana depois, no dia 2, o STF vai iniciar o julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado.

Dois circos estarão montados um ao lado do outro, disputando público. A oposição bolsonarista vai usar a CPMI para criar fatos, manchetes e vídeos virais negativos em série contra o governo — enquanto, no picadeiro ao lado, Jair Bolsonaro estará sentado no banco dos réus.

Cenário eleitoral, por Denis Lerrer Rosenfield

O Estado de S. Paulo

Não se sabe ao certo o que vai acontecer amanhã, o que dizer dentro de um ano

O cenário político ganha uma conotação eleitoral cada vez mais acentuada, como se qualquer medida governamental ou iniciativa partidária devesse ser vista predominantemente sob essa ótica. Com a geopolítica tomando uma forma interna, graças às ações conjuntas da dupla Trump/Bolsonaro e à esquerdização do governo Lula, não se sabe ao certo o que vai acontecer amanhã, o que dizer dentro de um ano. No entanto, o tempo da política segue o seu ritmo a despeito das intempéries e aproveitando-se delas. De um lado, estamos longe das eleições de outubro de 2026; de outro, não falta muito para o fim do ano, quando começará o embate propriamente eleitoral.

Tarcísio não consegue tirar o boné de Trump, por Cesar Camasão

Folha de S. Paulo

Ao defender que o Brasil entregue 'vitória' a presidente dos EUA, governador paulista reforça visão estreita sobre relações internacionais

Para um país que coleciona derrotas, algumas sob certa influência norte-americana, beira o nonsense a recente declaração do governador paulista, Tarcísio de Freitas (Republicanos), de que o Brasil deveria dar "alguma vitória" ao presidente Donald Trump.

"Ele está querendo colecionar vitórias. Então, por que não entregar alguma vitória para ele? Por que não fazer algum gesto?", sugeriu um conciliador Tarcísio para uma plateia da Faria Lima.

Juízes ambiciosos são maus juízes, por Marcus André Melo

Folha de S. Paulo

Há clamor por autocontenção, mas a estrutura de incentivos é o que importa

"No geral, juízes ambiciosos filosoficamente são maus juízes." A afirmação é de Joseph Raz, em "The Politics of the Rule of Law", clássico sobre a interseção entre a política e o império ou regra da lei. A questão adquire suma importância em um quadro em que a ausência de autocontenção dos juízes do STF passa a ser tema de discussões cotidianas.

O último exemplo vem do ministro Flávio Dino, que debochou —em uma conjuntura crítica— das repercussões de sua decisão no mercado financeiro. Dele também aprendemos, na semana anterior, como funcionaria o sistema político brasileiro: "Nenhuma força política constrói hegemonia. Com o sistema estruturado como está, nenhuma força política governa o país". No que se seguiu proposta de mudanças como se agente político fosse. Aqui a ambição não é apenas filosófica. Estende-se sobre outros domínios.

O que querem esconder no novo Código Eleitoral, por Lara Mesquita

Folha de S. Paulo

Compilação da legislação vem acompanhada de mudanças polêmicas

Peço desculpas ao leitor por me repetir e voltar ao novo Código Eleitoral (PLP 112/2021).

projeto, que tramita no Senado em regime de urgência, se propõe a unificar toda a legislação eleitoral em um único documento. Isso inclui a revogação das leis dos Partidos Políticos e das Eleições, e do antigo código eleitoral (de 1965) entre outras normas. Embora a iniciativa seja bem-vinda, o texto não apenas compila a legislação vigente: traz alterações significativas nas regras eleitorais, muitas das quais estão passando despercebidas.

O projeto versa sobre temas que vão do registro de partidos e eleitores ao teto de gastos em campanhas, sistema de prestação de contas, divulgação de pesquisas de intenção de voto e reserva de vagas para mulheres nas listas de candidatos e nas casas legislativas.

Morre, aos 93 anos, o cartunista Jaguar, um dos fundadores do Pasquim

Por Ruan de Souza Gabriel / O Globo

Autor de 'Átila, você é bárbaro' e criador de personagens como o ratinho Zig e Gastão, o Vomitador, carioca será velado nesta segunda-feira na Capela Celestial do Crematório Memorial do Carmo, no Rio

Morreu, neste domingo (24), o cartunista Sérgio de Magalhães Gomes Jaguaribe, o Jaguar, aos 93 anos. Segundo nota do Hospital Copa D’Or, ele estava “internado em razão de uma infecção respiratória, que evoluiu com complicações renais”. Nos últimos dias, Jaguar “estava sob cuidados paliativos”. O velório acontece nesta segunda-feira (25), das 12h às 15h, na Capela Celestial do Crematório Memorial do Carmo, no Rio.

Mês passado, durante as comemorações do centenário do GLOBO, Jaguar posou para um ensaio fotográfico da revista ELA dedicado a quase centenários. Na ocasião, deu sua última entrevista. “Tive uma vidinha boa. Não me aprofundava em meditações, ia vivendo o momento”, disse, acrescentando que ainda seguia a mesma filosofia. “Não planejo o futuro nem lamento nada do que fiz”, afirmou o autor de “Ipanema, se não me falha a memória”.

Carioca nascido em 29 de fevereiro de 1932, Jaguar começou a carreira desenhando para revista Manchete. em 1952. Adotou seu famoso pseudônimo por sugestão do cartunista Borjalo. À época, trabalhava no Banco Brasil, subordinado ao cronista Sérgio Porto, que o convenceu a não abandonar o emprego para se dedicar exclusivamente à carreira no humor. Só saiu do banco em 1974.

Poesia | Colhe o dia, porque és ele, de Fernando Pessoa

 

Música | Boca Livre - O Trenzinho do Caipira (Heitor Villa Lobos e poema de Ferreira Gullar

 

domingo, 24 de agosto de 2025

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Congresso deve priorizar reforma administrativa

O Globo

Disposição de Motta de investir em projeto do deputado Pedro Paulo pode enfim transformar serviço público

É alvissareira a disposição do presidente da Câmara, deputado Hugo Motta (Republicanos-PB), de investir na formulação e na aprovação de uma reforma administrativa. Já não era sem tempo. Ajustar e aperfeiçoar a máquina estatal é uma das mais urgentes prioridades nacionais. O Estado brasileiro é ineficiente, caro e repleto de privilégios inaceitáveis. Custos exorbitantes recaem sobre os contribuintes, e as consequências nefastas sobre os usuários de serviços públicos.

Já houve tentativas de mudanças para transformar essa realidade, mas as corporações do funcionalismo sempre fizeram pressão sobre o Congresso para garantir regalias em detrimento da maioria. O fato de Motta ter escolhido a reforma administrativa como legado de sua presidência aumenta a chance de que, desta vez, o tema enfim avance. É esperada uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC), seguida de detalhamentos em projetos de lei complementar e ordinária.

Sísifo entre nós, por Luiz Sérgio Henriques*

O Estado de S. Paulo

A ascensão chinesa – e da Ásia, mais generalizadamente – é um destes fenômenos que dão forma a toda uma época ‘histórico-universal’

Grande e terrível, e complicado, parecia o mundo aos olhos dos nossos avós há cem anos ou pouco mais. Era uma época de democracias liberais em retirada, de fascismos aparentemente irresistíveis e de um comunismo primitivo com características rigidamente estatistas. Apesar de tudo, os que mantiveram a lucidez em meio ao caos puderam achar gradualmente um fio condutor. Em última análise, e não sem conflitos ásperos, havia um fundo comum – iluminista – entre as democracias liberais e o comunismo soviético, com todas as suas falhas e mesmo os seus crimes fartamente conhecidos.

De fato, a destruição da razão, total e inapelável, era a marca dos fascismos: contra estes deveriam unir-se todos os demais para travar o que então se chamaria a mais justa das guerras. Os otimistas julgavam que se atravessava uma fase de “interregno”, passada a qual a razão iluminista acabaria por se impor, fosse qual fosse o futuro modelo de sociedade ou a forma de Estado. E, de fato, uma parte desse otimismo se materializaria no imediato pós-guerra, com a construção do sistema das Nações Unidas e a Declaração Universal dos Direitos Humanos, uma espécie de atestado, obtido em meio a sacrifícios gigantescos, de que o progresso moral é afinal coisa deste mundo.

O STF e a presidência, por Merval Pereira

O Globo

A atuação política de Flavio Dino quando ministro da Justiça era tamanha que muitos consideraram a sua escolha para o Supremo uma estratégia de Lula para tirá-lo da corrida presidencial

O Supremo Tribunal Federal (STF) teve sempre um papel político importante, embora hoje ele esteja mais explicitado do que nunca na definição do seu atual presidente, ministro Luis Roberto Barroso que, diversas vezes, definiu como o papel do Supremo “empurrar a história na direção certa”. Pedro Lessa foi um dos grandes defensores da supremacia da Constituição no início da República, em embates contra o governo de Floriano Peixoto. Victor Nunes Leal, autor de “Coronelismo, Enxada e Voto”, foi cassado pelo AI-5 em 1969, juntamente com os colegas Hermes Lima, ex-chanceler e Evandro Lins e Silva, grande jurista, defensor dos direitos humanos.

Nos tempos atuais, Joaquim Barbosa, o primeiro ministro negro do Supremo, relator do Mensalão (2005–2012), teve tanto destaque político que foi cogitado a candidato à presidência da República. Dos ministros do Supremo, dois chegaram à presidência da República: José Linhares assumiu interinamente em 1945, após a deposição de Getúlio Vargas, para garantir a transição democrática e convocar eleições. Epitácio Pessoa disputou a sucessão de Delfim Moreira, vice-presidente da República que assumira a presidência devido ao falecimento do presidente eleito Rodrigues Alves.

Desvios da direita e riscos de Lula, por Míriam Leitão

O Globo

Tempo ruim para o bolsonarismo que arquitetou ataque ao país. Do outro lado, governo terá que administrar a crise do tarifaço

Foi uma semana ruim para o bolsonarismo. A crise no círculo íntimo do ex-presidente e o desprezo pelos seguidores que estão presos ficaram expostos. As pesquisas da Genial/Quaest mostraram o efeito corrosivo do tarifaço para Jair e Eduardo Bolsonaro. O presidente Lula melhorou a avaliação do governo, e abriu vantagem em relação a todos os candidatos da direita, num eventual segundo turno no ano que vem. Pela primeira vez, as pesquisas mostram que Bolsonaro não é o candidato mais competitivo do seu campo político. Mas há problemas também para o atual mandatário.

O cientista político Felipe Nunes, que faz testes eleitorais há cinco rodadas, conta que é a primeira pesquisa mostrando Jair Bolsonaro com menos intenção de votos do que os governadores Tarcísio e Ratinho Jr. Apesar de ser o mais conhecido candidato da direita e tendo concorrido duas vezes à presidência — uma vez com sucesso — Jair Bolsonaro ficou 12 pontos atrás de Lula num segundo turno, se ele pudesse concorrer. Tarcísio tem oito pontos de diferença e registra o melhor desempenho da direita, enquanto Ratinho Jr. fica dez pontos atrás.

Imagina o quarto, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Na quinta-feira, Lula desembarcou em Sorocaba para entregar consultórios odontológicos sobre rodas. A solenidade tratava de investimentos na saúde bucal, mas o presidente aproveitou para soltar a língua em defesa da reeleição.

“Um mandato do Lula incomodou muita gente”, gracejou, falando de si na terceira pessoa. “Dois mandatos incomodaram muito mais. Três mandatos muito, muito mais. Imagina se tiver o quarto mandato”, concluiu, para delírio da claque que assistia à cerimônia.

O petista tem usado viagens e atos oficiais para promover sua pré-candidatura. Em julho, após vistoriar obras de uma ferrovia no Ceará, encerrou o discurso nos trilhos da campanha. “Podem ter certeza que eu serei candidato para ganhar as eleições, porque eu não vou entregar este país de volta para aquele bando de malucos”, prometeu.

A tensão de agosto virá em setembro, por Elio Gaspari

O Globo

Julgamento de Bolsonaro e de outros envolvidos na trama golpista reacenderá dilemas no caminho do governo Trump e de aliados do ex-presidente em solo brasileiro

Agosto começará em setembro, com o julgamento de Jair Bolsonaro e do estado-maior da trama golpista de 2022/23. Correndo por fora, poderá vir o início dos trabalhos da CPI da roubalheira dos aposentados.

A divulgação, pela Polícia Federal, de diálogos e documentos dos Bolsonaro apimentou o caso, trazendo para o debate a trama que influenciou o comportamento do governo de Donald Trump. No dia 9 de julho, ele exigiu que o processo contra o ex-presidente fosse extinto “IMEDIATAMENTE” (ênfase dele). Foram palavras ao vento, desmoralizadas pela revelação dos diálogos do deputado Eduardo Bolsonaro com seu pai.

A diplomacia destrambelhada de Trump e de Marco Rubio, seu secretário de Estado, entrou num beco com poucas saídas. A tese segundo a qual o Brasil desrespeita os direitos humanos de seus cidadãos, não fica em pé, mesmo para advogados americanos. O deputado Jim McGovern, autor da Lei Magnitsky, usada para sancionar o ministro Alexandre de Moraes, classificou o gesto de “vergonhoso”.

Trump e Bolsonaro, até quando? Por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Quem será o próximo a trocar o barco de Bolsonaro pelo de Tarcísio? Pelas apostas, Trump

De festa em festa, de discurso em discurso, de mais e mais partidos simpáticos, o governador Tarcísio Gomes de Freitas vai se afirmando como candidato da direita em 2026 e abre uma dúvida curiosa: até quando Jair Bolsonaro, inelegível, em prisão domiciliar, prestes a ser condenado pelo STF e isolando-se politicamente, vai ter apoio de Donald Trump?

Com visão imperialista e personalidade autocentrada, Trump ataca o governo Lula, o Supremo, as empresas e os empregos brasileiros em nome de Bolsonaro e do impraticável e fora de propósito fim do processo contra Bolsonaro. Mas é isso mesmo que está por trás de tanto ódio e ataque ao Brasil? Será que Trump está tão preocupado com um ex-presidente que foi péssimo militar, político inexpressivo, derrotado em 2022 e está diante das grades?

Momento com EUA requer prudência, por Lourival Sant’Anna

O Estado de S. Paulo

Donald Trump quer projetar poder militar com justificativa aceitável para os eleitores

O cancelamento de exercícios militares conjuntos entre Brasil e EUA e a mobilização de uma força de resposta rápida americana no Caribe introduzem uma nova dimensão na crise entre os dois países.

O Comando Militar do Sul desmarcou há um mês um exercício entre o Comando Espacial e a Força Aérea Brasileira. Na semana passada, o Ministério da Defesa cancelou a tradicional Operação Formosa, em Goiás, e deve fazer o mesmo com a Core, na caatinga.

A justificativa é a falta de verbas, mas o cálculo político foi retirar os convites antes de receber um “não” dos americanos. As relações entre os militares dos dois países continuam boas, mas o ambiente político aponta para um afastamento.

O deslocamento de três navios para perto da costa venezuelana, acompanhados de submarino de propulsão nuclear e aviões de patrulha marítima P8A Poseidon, tende a aprofundar o distanciamento na esfera militar.

Cinco mudanças no cenário global, por José Roberto Mendonça de Barros

O Estado de S. Paulo

Num quadro já complexo, irrompe o novo presidente dos EUA, com sua agenda equivocada

Tudo junto, misturado e ainda sem um rumo claro. Esta é a mais simplificada descrição que se pode fazer do cenário global nos dias de hoje.

Entendo que existam cinco tendências globais que vêm se fortalecendo há um certo tempo e que já apontavam para grandes mudanças no cenário, na direção de um sistema multipolar.

A primeira destas tendências é a mudança do papel da China no sistema econômico global, de complementar as economias maduras de mercado para um gigante que busca afirmar seu papel no mundo e ampliar sua influência. Isto ensejava uma resposta dos EUA já no governo Biden e este é o ponto mais importante no entendimento da situação atual.

A segunda tendência é a progressiva perda de efetividade dos organismos internacionais de governança criados após a 2ª Guerra Mundial: ONU/Conselho de Segurança, FMI, Banco Mundial e a OMC.

A terceira é a aceleração da transição demográfica com a drástica queda nas taxas de natalidade ao redor do mundo.

As fraudes nos débitos em conta, por Celso Ming

O Estado de S. Paulo

Nos últimos dias, a Federação Brasileira de Bancos (Febraban) encaminhou ofício ao Banco Central do Brasil em que solicita alterações nas normas que regulam o débito automático em conta. A providência ficou necessária após a disparada das queixas de clientes sobre débitos indevidos em suas contas.

Outra vez, os principais alvos dessas irregularidades são os pensionistas e aposentados do INSS. Em 2021, o Banco Central passou a permitir que cobranças automáticas de um cliente em um banco pudessem ser processadas por outra instituição financeira, desde que previamente autorizada. No entanto, a brecha deu margem a que milhares de beneficiários ficassem expostos a débitos automáticos injustificados, incluindo de empresas não reguladas pelo Banco Central, como clubes de benefícios e seguradoras.

Só com mais investimento saímos do atoleiro, por Rolf Kuntz

O Estado de S. Paulo

O ganho de produtividade também é uma questão política e seria bom se todo cidadão o entendesse dessa forma

Enfiado num atoleiro há pelo menos 12 anos, o Brasil só voltará a ser uma economia dinâmica se investir muito mais em capacidade produtiva, cuidar menos de fantasias diplomáticas, valorizar os interesses prosaicos e fizer do governo, mais uma vez, um instrumento de modernização do País. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva pode ter ambições mais amplas, mas fará um trabalho respeitável se concentrar seu empenho em tornar mais eficiente a economia brasileira. Depois de um avanço de 1,4% no primeiro trimestre, a produção perdeu impulso e pode ter aumentado apenas 0,3% no período de abril a junho, segundo o Índice de Atividade Econômica (IBC-Br), uma prévia do PIB elaborada pelo Banco Central.

A política à espera de um julgamento, por Juliana Diniz

O Povo (CE)

O julgamento do grupo político envolvido nos atos golpistas começará em poucos dias, em 2 de setembro. O processo transcorreu com celeridade e tudo indica que o país acompanhará com atenção, em tempo real, os atos derradeiros

O ano de 2025 ficará marcado na política brasileira deste século como uma fonte inesgotável de instabilidade. Seja por influência de eventos externos como as tarifas e sanções americanas, ou da crescente importância geopolítica dos Brics, seja pela dinâmica interna do grupo político de Jair Bolsonaro, 2025 produziu um resultado evidente: as eleições do ano que vem devem ser mais um exemplo de eleição lotérica, de resultado imprevisível.

O julgamento do grupo político envolvido nos atos golpistas começará em poucos dias, em 2 de setembro. O processo transcorreu com celeridade e tudo indica que o país acompanhará com atenção, em tempo real, os atos derradeiros, quando a corte se reunirá para julgar e, se for o caso, aplicar as penas a quem considerar culpado. Muito da dinâmica da conjuntura dependerá desse resultado: eu diria que o futuro político do Brasil dependerá de como o país reagirá a isso.

Bolsonarismo contra a economia, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Movimento acaba por atacar até elite econômica, negacionista ou cúmplice, como em ditaduras

O bolsonarismo faz qualquer negócio. Agora, começa a dar tiros na estabilidade de bancos. Elites políticas e econômicas continuam a colaborar no projeto da arquitetura da destruição, agora também econômica. É colaboracionismo.

A ideia de que a propaganda criminosa e os crimes dos Bolsonaro seriam farsa na prática insignificante sobreviveu mesmo depois de Jair Bolsonaro ter ocupado a cadeira de presidente. Ainda em 2022, os crimes que cometeu durante o mandato eram considerados ficção esquerdista pelos adeptos convictos e tolerados por aqueles que faziam o cálculo supostamente pragmático de que se tratava do preço para manter Luiz Inácio Lula da Silva longe do poder.

Para os "pragmáticos", o bolsonarismo continua farsesco e de inépcia idiota. Suas consequências, pois, seriam negligenciáveis, no que lhes interessa. Em última análise, seria controlável por acordão de elites políticas e econômicas, como aqueles que se faziam pelo menos desde 2016.

Dino, Trump e a Lei, por Celso Rocha de Barros

Folha de S. Paulo

Os Estados Unidos não fazem mais parte do Ocidente democrático tal como o entendíamos

Flávio Dino decidiu que a lei americana deve ser aplicada em território americano e a lei brasileira deve ser aplicada em território brasileiro. Donald Trump discorda das duas coisas.

Como notou Thiago Amparo nesta Folha, a lei americana não é automaticamente aplicável no Brasil pelo mesmo motivo que a lei chinesa não é. O Brasil é um país soberano.

O leitor pode responder: bom, mas Brasil e Estados Unidos fazem parte da mesma cultura política, são países ocidentais, adotam as normas da democracia liberal.

Esse argumento sempre foi frágil, mas deixou de fazer qualquer sentido no segundo mandato presidencial de Donald Trump. Pelo que se viu no primeiro semestre de 2025, e até segunda ordem, os Estados Unidos não fazem mais parte do Ocidente democrático tal como o entendíamos. Tomara que voltem logo, de preferência tendo aprendido alguma coisa.

Os dilemas de Tarcísio, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

O governador precisa decidir se a hora do Planalto é agora ou se é melhor deixar a onda Lula/Bolsonaro passar

Se tem uma coisa que o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) em tese não precisaria ter é pressa.

Acabou de completar 50 anos de idade, chegará em 2030 com 55, a tempo de disputar a Presidência da República relativamente jovem se comparado aos 85 e 75 que terão, respectivamente, Luiz Inácio da Silva (PT) e Jair Bolsonaro (PL).

O mais provável é que daqui a cinco anos Lula esteja a caminho da aposentadoria, senão política, ao menos eleitoral. Bolsonaro, se não estiver preso e ainda que livre dos enroscos judiciais, talvez se veja às voltas com os prejuízos causados pelos filhos, ora empenhados em dizimar a herança política do pai com batalhas perdidas tão inúteis quanto desmoralizantes.

A distopia realizada na América, por Muniz Sodré

 

Folha de S. Paulo

Nos EUA, seitas dão continuidade às utopias nostálgicas que radicalizam exigências morais de suposta proveniência bíblica

O medo comporta gradações, que variam do temor ao pânico. Devem oscilar entre um e outro os sentimentos de milhões com a notícia de que Pete Hegseth, secretário de Defesa dos EUA, compartilha em vídeo a opinião de pastores contrária ao direito feminino de voto. É a primeira vez em séculos que o poder americano desfaz publicamente um voto de modernidade democrática.

A esse barbarismo segue-se outro: figura central do grupo, o pastor nacionalista cristão Doug Wilson associa hierarquia patriarcal à racial, garantindo que havia afeição mútua entre escravistas e escravos. Infere-se que também mulheres estariam afeitas à escravidão patriarcal. Tudo isso faz parte da ofensiva antifeminina de Trump, que agora tenta demitir a primeira mulher negra a dirigir o Federal Reserve, o banco central americano. O autocrata é conhecido pelo comportamento repulsivo para com mulheres. A intimidade de 15 anos com o pedófilo Jeffrey Epstein sugere que parceira segura é um misto de escrava sexual e boneca inflável.

Obras sobre ditadores ganham destaque em momento de instabilidade na América Latina, por Sylvia Colombo

Folha de S. Paulo

Livros ensinam que autoritarismo na região é engrenagem cultural que se reinventa em diferentes épocas

Houve uma época em que se consolidou na América Latina uma tradição literária peculiar: a dos chamados "romances de ditador". Não foram poucos os escritores que se deixaram fascinar (e assombrar, às vezes, ao mesmo tempo) pelo vínculo cultural e político que se estabelecia entre povos inteiros e líderes carismáticos, temidos e venerados.

Entre as obras mais destacadas desse ciclo está "O Senhor Presidente" (1946, ed. Mundareu), do Nobel guatemalteco Miguel Ángel Asturias. Nela, a brutalidade de um regime repressivo é narrada a partir da história de uma pessoa em situação de rua que, sem querer, causa a morte de um coronel.

Educar para a arte do encontro

Por Marcio Junior é editor do Voto Positivo

Em situação atípica em muitos espaços de pesquisa e rincões acadêmicos no mundo, a Fundação Casa de Rui Barbosa, em Botafogo, se viu invadida por estudantes do Colégio Estadual Professora Jeannette de Souza Coelho Mannarino, de Campo Grande. Os adolescentes, moradores desta Zona Oeste profunda, foram participar no dia 18 de agosto do encontro conduzido pelo Prof. Vagner Gomes, professor do próprio colégio, doutorando pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro e colunista do Voto Positivo. O encontro foi promovido pelo pesquisador da Casa, Julio Aurélio Vianna Lopes.

No conteúdo, advindo de sua pesquisa de doutoramento em curso, Vagner apresentou Sueli Carneiro como liderança ativista cuja obra tensiona o lugar comum que reduz “política” à disputa de cargos e à representação formal. Nascida em 1950, formada em Filosofia (USP) e doutora no início dos anos 2000 (na Pedagogia), Sueli fundou em 1988 o Geledés – Instituto da Mulher Negra; o ano coincide com a Constituinte e ajuda a situar seu ativismo num momento de rearranjo institucional no país. Essa temporalidade não é mero detalhe, pois ela aponta uma gramática de ação capaz de pressionar por meio de ativismo social, por fora da mediação eleitoral.

Poesia | Traduzir-se, de Ferreira Gullar

 

Música | Joan Baez - Bachianas Brasileiras No 5 Aria (Hector Villa-Lobos

 

sábado, 23 de agosto de 2025

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

PEC da Blindagem não tem o menor cabimento

O Globo

É um erro acelerar proposta que foi exigência de quem fez motim na Câmara

Não é exatamente uma surpresa que haja deputados ávidos por se livrar de processos na Justiça. Mas é um erro o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), querer acelerar a tramitação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) das Prerrogativas, mais conhecida como PEC da Blindagem. O objetivo da medida é apenas tornar os parlamentares na prática imunes a decisões judiciais. Nos últimos dias, Motta entregou a relatoria da PEC ao deputado Lafayette de Andrada (Republicanos-MG) e deu sinais de que poderá pôr em votação a urgência da pauta na próxima semana.

Os cronistas fazem a História, por Eduardo Affonso

O Globo

A crônica é um respiro, um pouquinho de saúde em meio a conchavos, escândalos, balas perdidas (quem lê tanta notícia?)

O que é uma vida de cronista no mercado incomum da lida urbana? Sentar-se ao rés do chão, em mangas de camisa, um cão farejando o cotidiano para captar a alma — nem sempre encantadora — das ruas e fazer um pacto de vento com o leitor, parceiro dessa conversa fiada em mesa posta para dois. E que, impressa em papel de segunda, vai no dia seguinte embrulhar peixe na feira, absorver xixi de pet na área de serviço. Ou virar livro — que é mais ou menos como um ateu morrer e ir pro céu.