Presidente republicano enfrenta hoje teste das urnas em eleições legislativas disputadas. Última rodada de pesquisas sinaliza vantagem para oposição democrata, na Câmara e no Senado. Se derrotado, líder diz que se tornará o "Senhor Veto"
O Partido Democrata chega, hoje, às eleições
legislativas dos Estados Unidos com sinais promissores de vitória nas urnas,
mas também num ambiente de grande apreensão em relação à reação do presidente
Donald Trump diante de uma eventual derrota. As pesquisas divulgadas na reta
final da campanha, encerrada ontem, mostraram que os democratas têm altas
probabilidades de assumirem o controle da Câmara dos Representantes e, em menor
medida, do Senado.
Em meio à alta dos preços de alimentos,
gasolina e moradia, os norte-americanos mostram uma participação excepcional
nas eleições de meio de mandato. Mais de 53 milhões votaram antecipadamente, um
recorde absoluto.
Ao participar de um podcast do jornal New York Post, Trump sinalizou que não vai assimilar placidamente a perda do controle das Casas legislativas, ambas nas mãos dos republicanos. O presidente abriu a possibilidade de conceder indultos a aliados e deu a entender que vetará iniciativas potenciais do Congresso caso os democratas conquistem a maioria. "Vou me transformar no Senhor Veto", afirmou.
"Eles vão enviar propostas, você vai
vetá-las e, no fim, depois de um ou dois meses de vetos contínuos (...), virão
até você e chegarão a um acordo", disse Trump, que se refere aos
democratas como "pessoas que odeiam" os EUA. O Congresso pode
derrubar o veto presidencial com o apoio de dois terços em ambas as casas, uma
maioria qualificada que parece difícil de ser obtida pelos democratas.
Perguntado se indultaria "todos os que
trabalharam" para ele, o republicano, assegurou: "Nem sequer pensaria
duas vezes (...) Eu faria isso. Fiz isso com os do 6 de janeiro",
acrescentou, referindo-se aos cerca de 1.500 indultos concedidos no primeiro
dia de seu segundo mandato, em janeiro de 2025, a condenados ou acusados pela
invasão do Capitólio em 2021.
Espelho d'água
No início da tarde, ao encerrar a campanha,
Trump discursou diante do Memorial Lincoln, em Washington, que ele tentou
reformar e que se tornou um dos símbolos de seus compromissos de iniciar obras
para restaurar a capital norte-americana. Por 20 minutos, o magnata republicano
falou sobre o projeto de renovação do espelho d´água e de conquistas do
governo.
Em seguida, atacou candidatos democratas. Sem
apresentar provas, atribuiu aos adversários políticos vínculos com grupos
extremistas. "Esse é o último dia antes das eleições de meio de mandato,
as mais importantes, eu creio, de nossas vidas", classificou.
Nas eleições de hoje, os norte-americanos
estão convocados a renovar a totalidade da Câmara dos Representantes (435
cadeiras) e um terço (35 dos 100 assentos) do Senado. Além disso, vão escolher
36 governos estaduais.
Em sua última projeção antes da eleição, a
empresa de variação Decision Desk HQ estimou que o Senado passaria a uma
maioria de 52-48 a favor dos democratas, que obteriam ainda uma vantagem
confortável de 241-194 na Câmara dos Representantes.
A última rodada de pesquisas do jornal The
New York Times e da Universidade Siena também levou mensagens preocupantes aos
republicanos, com perda de apoio entre latinos e desvantagem eleitoral em cinco
estados considerados cruciais para a definição do controle do Senado.
As sondagens evidenciam que os democratas têm
a dianteira no Texas, que há 38 anos só elege republicanos. Os adversários de
Trump também estariam em vantagem no Kansas, que desde 1932 não elege um
democrata.
A oposição lidera ainda, de acordo com as
consultas, no Maine e em Ohio, com pequena vantagem no Alasca. Em Iowa, há
empate técnico. Segundos os cálculos, para retomar o controle do Senado, os
democratas precisam virar quatro cadeiras.
Investigações
A vitória democrata em ambas as Câmaras
significará um revés desastroso para Trump na reta final de seu segundo
mandato. A oposição pretende abrir diversas investigações contra o presidente,
seu governo e sua família, além de tentar bloquear suas nomeações, assim como o
financiamento da guerra no Irã.
A ala socialista dos democratas, que pode
emplacar um número recorde de representantes e senadores, quer inclusive abrir
um debate sobre o futuro da polícia migratória (ICE).
Sete em cada 10 americanos têm uma avaliação
ruim sobre Donald Trump, com críticas à capacidade de controlar a inflação e à
guerra que declarou ao Irã, no início do ano, e que se prolonga
inexoravelmente.
O magnata republicano conta com uma enorme
popularidade entre sua base, mas em um país polarizado como os Estados Unidos
são os deputados independentes que fazem a balança pendente para um lado ou
para o outro.
"Os democratas têm uma leve vantagem
sobre os republicanos em termos de filiação partidária entre os adultos dos
Estados Unidos: 47% se identificam com o Partido Democrata ou tendem a
apoiá-lo, e 43% se identificam com o Partido Republicano ou tendem a
apoiá-lo", afirmou o Pew Research Center.
Contudo, 10% do eleitorado não se
comprometeram com nenhum partido e não expressaram opinião, a maior proporção
de eleitores indecisos em quase uma década. Nesse cenário, democratas assumiram
uma postura de otimismo contido.
Gastos bilionários
As eleições de meio de mandato registraram
gastos de quase US$ 11 bilhões (quase R$ 60 bilhões) em publicidade, grande
parte proveniente de doadores individuais.
O bilionário Elon Musk, um grande aliado de
Trump que liderou o chamado Doge — departamento criado pelo presidente para
reduzir o tamanho do governo federal —, contribuiu com quase US$ 500 milhões em
campanhas de candidatos republicanos.
Do lado democrata, o grande doador nas sombras é o também bilionário George Soros, que não apoia apenas políticos, mas também candidatos de esquerda para os cargos de promotor, governador ou prefeito.
Recurso à Suprema Corte
No último dia de campanha, a Suprema Corte
dos Estados Unidos foi lançada no centro das eleições legislativas. O governo
de Donald Trump pediu que os magistrados obriguem as autoridades da Califórnia
a desconsiderarem mais de 20 mil cédulas de voto até a comprovação da
nacionalidade dos eleitores.
Na semana passada, um tribunal federal
rejeitou um pedido nesse sentido feito pelo Departamento de Justiça ao órgão
eleitoral da Califórnia, um estado tradicionalmente democrata no oeste do país.
O governo republicano pediu repetidamente ao estado que colaborasse para
verificar seu cadastro eleitoral.
"Nunca antes na história dos Estados
Unidos o governo federal, às vésperas de uma eleição, havia tentado obrigar
autoridades locais e de um estado a renunciarem a seus próprios procedimentos
eleitorais constitucionais para se submeterem à vontade do Poder
Executivo", denunciou o juiz David Carter em sua decisão.
"Os direitos constitucionais e nossa
democracia estão em jogo", concluiu, ressaltando que a metodologia do
governo para determinar o número potencial de estrangeiros inscritos por engano
nos cadastros eleitorais estava "marcada pela incerteza e pelos
erros".
O governo de Donald Trump anunciou que
recorreria imediatamente e pediu ao juiz que suspendesse sua decisão. No
recurso procurador-geral John Sauer, que representa o Executivo federal perante
a Suprema Corte, reiterou que no cadastro eleitoral da Califórnia se calcula
que há, no mínimo, 20 mil pessoas que "provavelmente não são cidadãos americanos".
Trump e o campo republicano agitam com
frequência o espectro de um voto maciço de estrangeiros nas eleições
americanas, algo, no entanto, extremamente baixo, segundo estimativas.
Surpresa indigesta
Democratas enfrentaram uma crise de última hora. A grande surpresa foi protagonizada pela democrata Haley Stevens, no Michigan. A 24 horas das eleições, ela apareceu ao lado do candidato republicano Mike Rogers, inicialmente em desvantagem, segundo as pesquisas. Haley Stevens perdeu as primárias do Partido Democrata para o candidato oficial, o progressista Abdul El Sayed, que se destacou por suas posições contra Israel.

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